domingo, 8 de agosto de 2010

O helicóptero alvejado entre Lucala e Salazar...

O itinerário da coluna militar que saiu de Carmona para Luanda, assinalado a vermelho. O percurso mais curto, a verde, estava «impedido» no Caxito e Cacuaco (clicar na imagem, para a ampliar)



Samba Cajú ficou para trás às 6,30 horas de 5 de Agosto mas logo depois, no controlo à saída da vila, na estrada para o  Luanda, «surgiram novas dificuldades, novamente torneadas», mas que levaram a um atraso de mais de duas horas.
A marcha foi retomada às 8,30 e chegou-se a Vila Flor às 11 da manhã, debaixo de um calor tórrido e a mesma ansiedade e nervosismo. O que vai acontecer?! As dificuldades logísticas aumentavam e cada quilómetro galgado na estrada era sempre um tempo expectável para qualquer escaramuça. Essencialmente porque as forças locais que se cruzavam com a coluna não queriam deixar passar os civis. E apareciam gente de todo o tipo, adultos e adolescentes, armados e ameaçadores.
Mais viaturas de civis se juntaram em Vila Flor, casando as suas esperanças de «fuga» na protecção militar. Entrou-se, logo depois, em «terra de ninguém», nem da FNLA, nem do MPLA, e ordenou-se uma paragem, para reagrupamento das largas centenas de viaturas - numa coluna que, em alguns momentos, terá atingido os 20 quilómetros, entre a frente e a rectaguarda.
Os helicópteros estacionados em Salazar (actual Dalatando) continuavam às ordens da coluna e foram «requisitados», para reconhecimento do itinerário. Um deles foi alvejado. Confirmava-se a pior suspeita: o MPLA estava disposto a tudo, para evitar a passagem da coluna. Mais negociações. Recordo-me de o comandante Almeida e Brito me contar, em Coimbra (nos anos 80, era ele 2º. comandante da Região Militar Centro) que o segundo dia foi decisivo e dramático. A designação «terra de ninguém», na prática,  significava que tudo podia acontecer. E o ataque ao helicóptero foi um mau sintoma. Valeu a acção negocial terrestre, num contacto directo com o MPLA, por volta das 13,30 horas.
Há distância de 35 anos, feitos há três dias, podem imaginar-se os constrangimentos, os medos, as dores que se sentiram na dramática coluna de 700 para 800 viaturas que ia de Carmona para Luanda, depois do ataque a um meio aéreo.
Em Lucala, por volta das 14 horas, abandonou-se outra viatura e seguiu-se Salazar. A cidade demorou quatro horas a atravessar, entre as 16 e as 20, «dado terem de se resolver inúmeras avarias». Abandonou-se mais uma viatura e a coluna retomou a marcha, «incorporando na testa uma companhia de pára-quedistas que se encontrava de reserva», no Comando Territorial de Salazar.
Chegou-se ao Dondo às 23 horas, com nova interrupção de marcha e descanso.

sábado, 7 de agosto de 2010

A chegada da coluna a Samba Cajú

Samba Cajú, em 2006, foto de Jorge Cruz. Por aqui passou e estacionou
a coluna militar do BCAV. 8423, de 4 para 5 de Agosto de 1975

As dificuldades vividas no Negage «esgotaram os nervos» da coluna saída de Carmona para Luanda. Mas, cito o Livro da Unidade, «estavam vencidas das primeiras dificuldades».
A coluna, já reorganizada e agora com cerca de 700 viaturas -  entre militares e civis!... - arrancou da cidade às 18 horas de 4 de Agosto de 1975 e, uma hora depois,«sem problemas», passou o controlo de Camabatela - onde «recebeu» mais dezenas, talvez centenas de civis.
«Foi o renascer da esperança para essa gente, foi o acreditar na missão das NT», lê-se no Livro da Unidade, em referência aos civis «colados» à coluna militar.
Tiros, ameaças, deflagrar de bombas, mais perto ou mais distantemente da coluna militar, foi «hábito» de ouvir que rapidamente se criou, entre todos - militares e civis. Às 20,30 horas desse mesmo dia 4 de Agosto de 1975, estacionaram em Samba Cajú, para pernoitar, refazer estratégias, reparar viaturas, comer e descansar - sempre de vigilância atenta, pois não era bem-vinda a sua passagem, quer pela FNLA quer pelo MPLA.
O pelotão-auto da CCS, que na sua quase totalidade integrou a coluna, tinha a responsabilidade quanto aos combustíveis e operacionalidade das viaturas e aqui se apostou e ganhou na competência do alferes Cruz e dos seus homens.
«Era decisivo que não faltassem combustíveis e lubrificantes às viaturas militares mas havia também que socorrer as viaturas civis fretadas pelas nossas tropas e todas aquelas civis ligeiras e pesadas que nos acompanhavam», recordou, agora, o então alferes Cruz, que pouco descansou nesses dois dias e meio de viagem e debaixo do Land Rover que lhe serviu de transporte.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

As dificuldades na saída de civis em Negage

A cidade do Negage, por onde passou e teve problemas a coluna militar do BCAV.
8423, a 4 de Agosto de 1975. Mas os civis não foram abandonados

A 4 de Agosto, dia primeiro de saída da épica coluna militar de Carmona para Luanda, duas viaturas foram abandonadas ainda antes de chegar a Negage. Uma outra, pesada, foi rebocada até à cidade e aqui mudada a carga e abandonada a viatura, já inoperacional. A ordem era avançar, todas ficariam para trás. Destruídas.
Negage estava «pejada de viaturas», que a FNLA proíbia sair. «A FNLA, em peso, proíbe a saída, à excepção das viaturas privadas da coluna militar», lê-se no Livro da Unidade. As conversações com a FNLA «foram improfíquas». E, por outro lado, «tentadas plataformas várias, bateu-se sempre em falso».
Os civis que seguiam «colados» à coluna militar e os que se juntaram no Negage, «sentiram-se abandonados e entregues à sorte do querer da FNLA», convencidos que as Forças Armadas Portuguesas os abandonariam. Assim não aconteceu e os Cavaleiros do Norte, comandados no terreno pelo tenente coronel Almeida e Brito, mantiveram a sua postura de defesa integral dos interesses civis. Custasse o que custasse.
Procurou-se uma outra solução para a sua saída e, efectivamente, às 16 horas de 4 de Agosto de 1975, reuniu-se Almeida e Brito com Daniel Chipenda e obteve-se  permissão para o trânsito da quase totalidade dos civis. Só uma pequena parte de camionistas «não conseguiu resolver o seu problema». Escapa-nos a razão para a não partida destes camionistas.
A CCS, então já com a 1ª. CCAV., preparava as instalações do Batalhão de Intendência do Campo Militar do Grafanil e arcava, em Luanda e sem reacções extemporâneas, a hostilidade cada vez mais evidente da maioria dos militares portugueses relativamente aos Cavaleiros do Norte.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A saída, o controlo da FNLA e os Fiat´s da Força Aérea



Os incidentes provocados pela FNLA, com os civis fugidos para o Negage, levou a um atraso de 8 horas na marcha da coluna - que passou no controlo da FNLA do Candombe com 210 viaturas e em cerca de meia hora de escoamento.
O problema era fácil de entender: opunha-se a FNLA à passagem da coluna, poque ia para uma área do MPLA; não queria deixar o MPLA, porque a tropa vinha de uma área da FNLA. «Houve que preparar o movimento com os cuidados que tal requeria, dado saber-se a oposição que a FNLA dizia ir fazer e dado saber-se também ir atravessar-se uma zona de conflito armado entre MPLA e FNLA, para depois prosseguir numa área de interesse do MPLA, dominado por este e pelo seu poder popular», refere o Livro da Unidade. 
Entrou na lenda desta movimentação o histórico «impedimento» provocado pela FNLA - entre Carmona e Negage, a 4 de Julho de 1975. Já farto da impertinência dos «fnla´s», o comandante Almeida e Brito terá ponderado o uso da força. E terão sido dadas instruções preparatórias nesse sentido, imediatamente antes de mais uma "ronda negocial". Imagine-se o constrangimento destes momentos, a dor que varre a alma dos que se vêem, de um momento para o outro, na iminência de um combate quase corpo a corpo. E que consequências teria!!!...
A situação foi resolvida com uma daquelas milagrosas sortes, que parecem anedota: pegou o alferes Garcia num AVP-1 (rádio conhecido por banana), de capacidade de comunicação terra/terra, nunca terra/ar, nunca com aviões e muito menos com os Fiat´s. Pois o alferes Garcia simulou um contactou com os pilotos dos aviões de caça, e soltou a ameaça imediata: «Ou param com isto, ou são esmagados pelos Fiat´s!!!...». Acreditaram os «fnla´s» e prosseguiu a coluna. Assim se poupando sabe-se lá quantas vidas.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

O êxodo de Carmona para Luanda. Saída da capital do Uíge!

Entrada/saída de Carmona para o Negage.Por aqui passou a coluna militar para Luanda, a 4 de Agosto de 1975, para uma viagem de de dois dias e meio e duas noites e que chegou a ter 700 viaturas

Amanheceu Carmona, a 4 de Agosto de 1975, com a última alvorada da guarnição do BCAV. 8423, para a épica coluna militar para Luanda. Nada e ninguém impediria o seu avanço - fortemente apoiada pela Companhia de Comandos, a que se juntou a de Páraquedistas, com a guarnição do Negage. E os helicanhões que a sobrevoavam. E os Fiat´s da Força Aérea, chamados de «já passou» pelos naturais.
A população civil, e cito o Livro da Unidade, «conhecedora do movimento das NT, insegura no seu dia a dia, descrente do seu futuro e receosa de quaisquer represálias, resolveu-se pelo êxodo e começou a sentir-se que iriam a companhar a nossa coluna centenas de viaturas, com o o consequente elevado número de pessoas».
Tal, não era propriamente uma novidade: as últimas semanas tinham sido, da parte da comunidade civil - e nem só a branca e europeia... - de permanente «namoro» à tropa, para tentarem salvar os seus bens e vidas.
A partida estava marcada para as 5 horas da madrugada, mas às duas já toda a máquina militar estava em movimento, pronta a arrancar no horário previsto. E assim foi.Toda ela se moveu, sob comando directo do Tenente Coronel Almeida e Brito, o comandante do BCAV.8423 - que não era homem de virar a cara à luta e ali estava, de peito aberto, para o que desse e viesse.
E vieram logo os primeiros problemas, com um alargado grupo de civis que se queria juntar à coluna e de tal era impedido pela FNLA. Sabe-se lá porquê e para quê? Foram bloqueados na cidade e impedidos de se juntar à coluna militar - valendo a intervenção das NT. «Às 5,15 horas, resolveu-se o primeiro incidente», anota o Livro da Unidade. Que antecedeu um segundo, já mais grave, no Negage, para onde muitos civis acabaram por fugir.
De Carmona, na ruas e das janelas das casas, via-se muita gente, num adeus carregado de dúvidas. Muita gente ficou e um deles foi o padre Albino Capela - que «fugira» da Paróquia do Quitexe, quando por lá as coisas se precipitaram, e, em Carmona, não quis integrar a coluna militar. «Tenho de ficar com a minha gente...», disse ele ao comandante Almeida e Brito, que insistia no seu (dele) abandono da cidade, integrando-se na coluna militar para Luanda.
«Vi-vos partir!! Fui ver-vos partir...», contou Albino capela, no encontro de Águeda, em Setembro de 2009. Contou e emocionou-se, interrompendo a narrativa como que para ganhar fôlego e apanhar as palavras que lhe faziam um nó na garganta.
Uma semana depois, em Agosto de 1975, teve de fugir para Luanda, na boleia num avião, para sair do inferno em que se trasformara Carmona.
A coluna avançou para o Negage!

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O primeiro dia de Luanda!...

Aeroporto de Carmona. Aqui embarcámos a 3 de Agosto de 1975. Para Luanda.

O primeiro domingo de Agosto, em 1975, foi domingo e o de partida da CCS do BCAV. 8423 para Luanda. Em duas levas, de um DC6 e de dois Noratlas.
Chegou a haver algum receio de uma qualquer acção da FNLA, mas nada se passou e o aeroporto estava, digamos, blindado. Uma hora depois, estávamos na base aérea de Luanda e, desta, galgámos a estrada de Catete, rumo ao Campo Militar do Grafanil - onde nos fomos instalar no aquartelamento do Batalhão de Intendência - já desactivado e em muito más condições. Pelo caminho e «ao vivo», vimos o chamado «poder popular»: grupos de crianças e pré-adolescentes armados com Kalashinikov´s.
Surpresa, surpresa foi a forma desconfiada, até hostil, com que fomos olhados por parte da guarnição militar do Grafanil. «Fascistas, colonialistas, tropa imperialista...», foram alguns dos mimos com que nos receberam. E que não entendíamos. Pior ainda quando na gigantesca messe de sargentos, na Avenida dos Combatentes, nos olharam com desconfiança e desprezo. «Ai são vocês o batalhão do Cavaleiro Branco?!!!...», escarnecia parte dos comensais da messe, em ar de gozo e mal-dizer. Demorámos a perceber tamanha hostilidade: éramos o último batalhão que, em Angola, tinha formação militar pré-25 de Abril. Logo, éramos fascistas! E contra-revolucionários!!! Pior: tínhamos, sem, saber, cometido a «proeza» de impedir represálias e ajustes de contas que se faziam sobre a comunidade civil europeia - os colonos!!! Um grupo convidou-nos a aderirmos aos SUV - organização que desconhecíamos. Não ligámos e ainda hoje acho que fizemos bem. Almoçámos já bem tarde e fomos à nossa vida! Em Carmona, ultimava-se a saída da coluna militar terrestre para Luanda.
- CAVALEIRO BRANCO. Como era conhecido o comandante Almeida e Brito. A expressão era usada como escárnio e desrespeito.
- SUV. Sigla de Soldados Unidos Vencerão, organização constituída em Agosto de 1975 pelo Partido Revolucionário do Proletariado (PRP). Os SUV foram grupos de militares que actuavam no interior dos quartéis com vista a promover a auto-organização política dos militares. Ver AQUI.



segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A véspera da saída de Carmona...


O BC12, onde se aquartelou o BCAV. 8423, de Março a Agosto de 1975

Sábado, 2 de Agosto de 1975. É véspera da saída da CCS, de Carmona para Luanda. E já se sabe que a partida de Luanda para Lisboa seria em Setembro. Há alívios e ansiedades na alma dos Cavaleiros do Norte.
O ambiente na guarnição está calmo. Faço a minha mala e dou conta que não tenho espaço para o correio. O meu estimado correio, cheio de aerogramas e cartas que, um a um, uma a uma, fui numerando e guardando na pequena mala preta que levara com artigos pessoais e livros. Um, dois, três,100 e mas aerogramas e cartas, deste e daquele, numeradas até ao infinito.
Neste dia, recebo correio do Alberto, que agora reli - dando «novas» das «velhas» escaramuças de Luanda. «Isto está fogo, não sei onde isto irá parar...», dizia-me ele. De Portugal, as perguntas eram as mesmas de sempre: «Quando vens, quando chegas?».
Resolvo o transporte do meu correio com uma velha mala cedida pelo Pires, o de Bragança! Enchia-a, tal como a tenho ali no sotão - a cheirar a pó e a saudades. Acamo os molhos de aerogramas e cartas e dou uma volta, nostálgica, pelo álbum de fotografias. A cada uma, associo um, dois, três... momentos. Sinto a dor funda de sofrimentos que passaram e revejo-os, ressinto-os, imaginando os peitos e corações que não rebentaram sob o fogo da metralha, nas picadas e trilhos que ficavam para trás. Dou-me por feliz!!!
Sentado na cama do bloco residencial ao lado do BC12, desfio memórias das mães negras que levavam crianças penduradas nas costas e pilavam a fuba de colheitas magras que lhes matavam a fome! Lembro a velha, de peitos caídos, a cachimbar na porta da palhota da aldeia do Talambanza e fazia fumaças, em núvens leves e rotinadas, esperando a noite de mais um dos seus dias! Recordo os meninos negros, sujos de ranho e de terra, de olhos grandes e a pedir-nos a lata da ração de combate que tantas vezes lhes matava a fome. «Vejo» as mulheres de peitos negros e firmes, que dançavam em corropio, ao som de batuques e mais batuques, enchendo as noites de luar e de cios que nos aguçavam apetites. Faço memória das noites de Angola, noites sensuais e ardentes!..., que nos engravidavam a alma de sonhos!  Revejo momentos de evolução operacional, que nos gretavam os pés no calor das botas e faziam os olhos cair-se em lágrimas furtivas e de muitos medos. Sem felizmente nos pôr lutos!
Desfio a memória visual de todos os soldados do PELREC, e todos os outros que foram a minha família de Angola, irmãos meus, meus primos, meus amigos, meus companheiros de todos os dias,  homens que carregaram mochilas e armas pela selva adentro, estremecendo - como eu!... - a cada barulho, a cada dor, a cada suspiro, a cada charco de lama feito com o nosso suor, a cada armadilha que se descobriu e não matou!, a cada incidente que nos encheu de medos e perigou os duros e dramáticos dias de Carmona. Homens iguais a mim, meus irmãos, com famílias, amigos, pais, namoradas, mulheres e filhos a rezarem por nós, pelo nosso regresso! Lembro-me das dores físicas, e das mentais!!!, que se cicatrizaram na alma nos 15 meses que se faziam da nossa comissão!
Eu e o Neto voltámos a cidade, com outros amigos, todos trajando a alma civil que se fardava numa comissão que nos honrava! A partida era amanhã, do aeroporto de Carmona. Às 10 horas. Viajámos pela cidade num adeus que se mantém até hoje. Regado de saudades!

domingo, 1 de agosto de 2010

O poder popular...

Quartel do BC12, em Carmona (Uíge). A cidade, ficava na estrada para a
direita. Para a esquerda, o Songo. os dois pavilhões do meio, eram a cozinha (esquerda) e o refeitório. Atrás, ao fundo da imagem, eram as oficinas. O edifício do comando era o da frente (o do telhado mais avermelhado). os pavilhões laterais eram os das casernas e dos serviços


Os últimos dias de Carmona foram vividos com ansiedade: nunca mais chegava o da partida para Luanda. A Companhia de Comandos instalou-se no BC12 e tive a boa surpresa de nela reencontrar o agora alferes miliciano Infante, furriel no meu tempo de Operações Especiais - os Ranger´s - em Penude, Lamego.Os camiões que iriam na coluna para Luanda já se enchiam de caixotes e malas, ocupando uma boa parte da parada. Mas se se suporia que havia relaixamento nas posições de segurança, nem pensar! Mantinham-se todos os procedimentos.
A azáfama do fecho de malas e caixotes acelerava-se e era o 1º. cabo carpinteiro Marques quem mais lidava com tábuas, prumos e pregos. Destes dias, guardo a quase anedótica memória de uma urna que se encaixotou, cheia de sacos de arroz e açúcar, bebidas, máquinas, artigos de escritório, moto-serras, uma pequena mota Honda, um barco pneumático, eu sei lá já que coisas mais. Sei de quem era, sei! Reservo o nome, por já não pertencer a este lado do mundo.
Não indo o alferes Garcia connosco, no avião para Luanda - ia na coluna militar terrestre... - fomos eu e o Neto chamados ao Gabinete de Operações, para receber instruções sobre as tarefas do PELREC em Luanda, até que se recompusesse o Batalhão. «Cuidado nas ruas, com so putos do poder popular...», fomos avisados.
A 1 de Agosto de 1975, dia de anos da minha irmã Ana Maria, tive uma gentileza comn o Neto e fomos jantar ao Escape - restaurante da cidade, onde encontrámos o alferes Infante, que nos narrou algumas das violências que se praticavam em Luanda.
«E o tal poder popular, pá!? O que é isso?!...».
O alferes Infante, que por ser corajoso tinha galgado patentes militares e agora era oficial, avisou-nos. «Sssssããããõooo uuuuuunnns pu-pu-pu-pu-pu-puuuuu-tos, pá, aaaaaandam armados e maaaaaaa-tam, pá!....». Infante, que julgo ter chegado a coronel, era gago e pensámos nós que brincava connsco. Mas, não! Como viríamos a confirmar em Luanda.

sábado, 31 de julho de 2010

O mercado negro de escudos

O mercado negro cambial floresceu nos últimos meses de Portugal em Angola. Mil escudos do Banco de Portugal poderiam «valer» 1500, 2000, 3000 escudos de Angola - os angolares


A 31 de Julho e 1 de Agosto de 1975 chegou a Carmona uma Companhia de Comandos. Outra, mas de Pára-quedistas, ficou na Base Aérea do Negage. O objectivo era escoltar a 2ª. e a 3ª. CCAV´s do BCAV. 8423 e todos os seus equipamentos. Para o efeito, chegou também uma frota de viaturas militares. Aproximava-se a nossa saída para Luanda e já se sabia que a CCS e a 1ª. CCAV. viajariam de avião.
O cada vez mais iminente êxodo da comunidade civil europeia tormou-se mais evidente por estes dias: à romaria dos caixotes, seguiu-se outra: a da compra de escudos de Lisboa, do «puto». A razão era fácil de ver: os escudos angolanos (os angolares, na foto) não tinham cotação e cambiavam-se a elavadas percentagens cambiais, em mercados «negros» - com lucros para os vendedores. Mil escudos do Banco de Portugal poderiam «valer» 1500, 2000, 3000 angolares, muito fácilmente. Ganhava quem tinha dinheiro de Lisboa. Ganhava quem, no dito mercado negro, o comprava - pelo troco dos angolares, que nada valeriam na Europa. Como se veio a confirmar. Por mim, como já aqui disse, nunca fiz «negócio» desse.
A nível militar, reinava confiança. O reforço que chegava e as regras impostas pelo Comando na reunião de 30 de Julho, com o Estado Maior do Comando Unificado, digamos que puseram os combatentes/militares da FNLA em sentido. Nada impediria a saída da coluna militar. A tiro que tivesse de ser. 

sexta-feira, 30 de julho de 2010

A operação de retirada para Luanda...

Parada do BC12, em Carmona (anos 70 do século XX)

A 30 de Julho de 1975 começou, na prática, toda a movimentação de meios que iriam dar corpo à grande operação de retirada do BCAV. 8423, de Carmona para Luanda. Poupando pormenores, sempre diremos que o entusiasmo e a animação dos  militares eram grandes, preparavam-se malas e afinavam-se missões.
A comunidade europeia, ao tempo já definitivamente convencida do que seria o futuro imediato, aproximava-se cada vez mais da tropa, procurando apoio e protecção. Que não era negada, mas que tinha implicações operacionais delicadas. E, valha a verdade, havia alguns constrangimentos a ultrapassar. Não era de modo barato que nós, nós todos!!!, que tantas vezes tínhamos sido ofendidos - quase humilhados!!!... - pela generalidade da comunidade europeia, nos víamos agora no continuado dever de apoiar.
Era esse, de resto, o desígnio assumido pelos Cavaleiros do Norte, sob o comando firme e competente do (então) tenente-coronel Almeida e Brito. Dissesse-se o que se dissesse, sentíssemos o que sentíssemos, a verdade é que tínhamos confiança ilimitada no comandante e nunca regatearíamos uma ordem dele.
Um comerciante da Rua do Comércio, meu conmhecido das minhas passagens pela loja, achou-se de coragem para me perguntar se íamos abandonar os civis. Era um dos que cuspia à passagem dos militares. Não me lembro do que respondi, mas não deve ter sido coisa boa.
Mas era conhecido o movimento de civis, junto dos comandos militares, para que pudessem integrar a coluna. A FNLA, senhora da guerra do Uíge, continuava a fazer das suas e a cidade engordava, com refugiados das fazendas de café da província.
A tropa vivia os seus dias mais calmos do mês de Julho de 1975. Que chegava ao fim!

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Um «diferendo» com o alferes Garcia


O PELREC. Almeida, Albino, Messejana, Florêncio, António, Viegas, Francisco, Dionísio, Caixarias e Garcia (em cima), Vicente, Soares, Marcos, Leal, Moreira (?, transmissões), Hipólito, Cordeiro e Neto

A euforia da próxima viagem para Luanda, mesmo sabendo-se que por lá os cheiros eram mais de pólvora que dos habituais aromas africanos, foi quebrada por uma informação do alferes Garcia: o PELREC também iria na coluna terrestre. E não era para ir, destinado que estava a seguir com a CCS para Luanda, de avião. Tal qual a 1ª. Companhia!
Gerou-se farta e grossa discussão com ele, empertigado o Neto e bem irado eu! Não entendíamos como queria o alferes Garcia sacrificar o PELREC, sabendo-se, como já se sabia, que a coluna teria farto e diversificado apoio - de uma Companhia de Comandos e outra de Pára-quedistas. E da Força Aérea! E nós iríamos de avião.
A generosidade de Garcia, porém, não tinha limites - queria que o pelotão fosse na coluna. Mas sujeitar homens com 14 meses de sujeições e privações a mais esse sacrifício - que não era nevessário... - isso passava todas as nossas fronteiras do compreensão.
Marcámos passo, os três, com vigor e alguma raiva na voz e na alma, entre a parada e o refeitório, procurando esconder a nossa exaltação da curiosidade dos companheiros que por ali passavam o seu dia. «O pelotão deve ir!!!...», insistia o Garcia. Mas porquê a para quê?!
O Garcia não era homem de muitas palavras e às vezes não as escolhia muito. Falou-nos dos valores militares, da honra e da camaradagem, provocando-nos e procurando impor-nos a sua autoridade. Não a regateámos, é verdade, mas discutimos a opção que nos sugeria.
«Deveis ir...», disse-nos, já impaciente. E foi assertivo. Virou as costas mas não nos convenceu. «Olha lá, pá... isso é uma ordem, ou és tu que queres que a gente vá?!...», perguntou-lhe o Neto.
Era, afinal, Garcia que gostava que o PELREC fosse, mas vingou a ordem de operação: o PELREC foi de avião. Garcia, porém, ficou na história da coluna militar para Luanda - pondo-se como oficial às ordens do Comandante Almeida e Brito. E por lá fez história!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Os últimos dias de Carmona...

O BC12, visto do lado de Carmona. À direita, vê-se o bloco residencial militar
que foi nossa «casa» nos últimos dias da capital do Uíge

A 28 e 29 de Julho de 1975 continuaram, em Carmona, as reuniões de trabalho entre os comandos do BCAV. 8423 e a delegação do QG/RMA, para preparar a rotação do batalhão para Luanda. E já se sabia o dia de saída da CCS, de avião: 3 de Agosto, um domingo.
O regresso tranquilo, a 26, da coluna que no dia 25 partira para Salazar - aqui se juntando ao grupo que vinha de Luanda  - inspirou grande confiança nas hostes. O trânsito não tivera impedimentos - ora da FNLA, ora do MPLA - e parecia seguro que a grande coluna de rotação para a capital não iria ter problemas de maior. E, a aparecerem, a tropa responderia «à letra». O COPLAD, com ou sem vontade de tal aceitar, já não punha «impedimentos» regulamentares ao BCAV. 8423 e a guarnição multiplicou a sua confiança no comando de Almeida e Brito (1º.) e José Diogo Themudo (2º.).
«O que parece isto?!...», perguntei várias vezes ao Neto e ao Garcia. «Vai haver porrada!...?».
Escusado será dizer que, um e outro, não tinham dúvidas sobre o êxito da operação. «Eles nem se atrevem!!!...», exultava o Neto. «Está a ser preparada uma grande operação...», garantia o Garcia - que, no dia a dia, contactava directamente com os oficiais e, no Gabinete de Operações, com o capitão Falcão. Por isso, sempre bem informado.
Semelhante confiança era, naturalmente, passada para os praças. E era o nosso PELREC o que mais emotivamente vivia estes dias. Dias de muitas ansiedades! Tinha sido (era!!!), sem dúvidas, o pelotão mais sacrificado da CCS e a alvorada da saída entusiasmava-os intensamente.
«Eh furriel, nunca mais conheço a minha menina!!!...», comentou-me uma vez, o saudoso Leal - que foi dos mais bravos do PELREC e já era pai pela segunda vez. Sorri-lhe e, em ar de brincadeira, perguntei-lhe se o pai da criança não seria o padre.
Por esta altura, já estávamos no bloco residencial ao lado do BC12 e, nessa noite, eu e o Neto fomos chamados ao quartel, por um ordenança da casa da guarda.
«Já há m...», disse para o Neto. Afinal, eram os «pelrec´s» que tinham panqueca preparada, com a conivência da cozinha e da padaria. Tivemos de arranjar um garrafão de vinho. Tinto do Cartaxo!!

terça-feira, 27 de julho de 2010

A segurança que se vivia e sentia no Quitexe...


O Posto 5, ponto de sentinela da vila do Quitexe, na estrada para Luanda.
Viegas e Miguel, em Cima), António Casal (em baixo)

ANTÓNIO CASAL
Texto

A pacatez e segurança vividas na vila do Quitexe eram uma realidade - como por aqui já várias vezes foi referido.
Circulava-se tranquilamente e os próprios civis bem sabiam que nada tinham a temer. A segurança era plena, como muitas vezes eles próprios diziam.
Mas ela não existia por mero acaso! Existia graças às acções militares e até muito agressivas, mas que não deixavam o IN pôr o pé em ramo verde! Durante o período em que estive no Quitexe, muitas foram as operações realizadas e que obrigavam os operacionais a um esforço alguma vezes questionado pelos comandantes de grupo!
«Assim, os homens não aguentam!»..., disse algumas vezes o alferes Freitasm ao então major de operações! Este "aperto" de operações durou cerca de três meses, findos os quais o comando considerou estar limpo o perímetro de segurança. Perímetro que não se limitava ao Quitexe mas também às fazendas da área.
Claro que o perímetro nunca esteve devidamente limpo! Era impossível! E afirmar o contrário seria, no mínimo, fantasiar! Aliás, o IN assistia a sessões de cinema no Quitexe e a prova, além de outras, consistia no facto de, quando capturados, estarem ainda em posse dos bilhetes! Não era por acaso que, embora esporadicamente, eram feitas rusgas com o apoio do GE´s. Em quem nunca confiámos, diga-se!!!
Ainda sobre as operações de grande envergadura na zona do Quitexe, recordo o mês de Novembro de 1972, talvez um dos meses mais "quentes" que vivemos. A última acção desenvolvida naquele mês, esteve a cargo de uma Companhia de Pára-Quedistas mas as coisas não decorreram da melhor forma, sofrendo uma baixa logo no 1º dia - um 1º. sargento.
Tudo isto a propósito da segurança que se vivia na vila, mas que não era obra do acaso mas, sim, fruto de muito trabalho e disciplina.
Mas sair sem escolta era um grande risco, que apenas um fazendeiro, que eu me recorde, assumia - o Bastos, cuja casa viria a ser residência do Comandante dos Cavaleiros. E que caro lhe ia ficando!!
O Posto 5 ainda chegou a ser atacado, de noite, estávamos há apenas dois meses na vila. Talvez para nos testar, pensámos nós. Ou preferimos pensar!...
ANTÓNIO CASAL
Batalhão de Caçadores 3879,
no Quitexe em 1972/73

segunda-feira, 26 de julho de 2010

A saída para Salazar e as escaramuças de Carmona

Bar do Eugénio, em Carmona (foto de 2004), perto do «nocturno» Diamante Negro

A 25 de Julho de 1975,a coluna militar do BCAV. 8423 saiu de Carmona e chegou a Salazar - o objectivo traçado para esta terceira tentativa. Dois dias antes, sem que eu possa aqui contar o que passou (por não saber os pormenores) , o comandante Almeida e Brito e outros oficiais reuniram com a FNLA e impuseram argumentos e força.
Quem lê esta narrativa, pode ajuizar do estado de espírito da guarnição, em face das duas anteriores tentativas de saída: «Ou vamos para avançar, nem que seja a tiro, ou não saímos de Carmona...».  Outra saída, seria uma desonra. E era também o descrédito junto da população europeia - que finalmente tinha ganho a noção de uma realidade dramática que se adivinhava para os seus dias seguintes e se tornava mais próxima da tropa. 
Os patrulhamentos continuavam na cidade, a Polícia Militar via o seu trabalho avolumar-se - para acudir a pequenos conflitos, principalmente gerados de provocações e ofensas de alguns civis, aos tropas. «Cobardes||...», era substantivo com que vulgarmente se adjectivavam os militares. E traidores, filhos desta e daquela, de cabras e do que lhes vinha à cabeça. Numa das vezes, perto do Bar do Eugénio, soltou-se grossa escaramuça entre um grupo de jovens civis e militares, que obrigou à intervenção do piquete de serviço. Vinha uns do bar Diamante Negro, ali por perto, e vadiavam outras pela noite adentro. De cuspidelas a insultos, caminhou-se num instante. E, como a espuma, a pancadaria fez espilrar sangue de alguns.
«Cobardes!!! Traidores!...», gritavam os jovens. Como se os militares do BCAV. 8423 tivessem culpa das contas que alguns nativos queriam ajustar com quem supostamente os teria explorado! Não foram fáceis os últimos dias de Carmona!

domingo, 25 de julho de 2010

O Quitexe a ferro e fogo... (2 - fim)

1ºs. cabos Novo e Deus, ambos da 3ª. CCAV. 8423, junto da avioneta
que evacuou os feridos do Quitexe



MANUEL DEUS
Texto

O facto mais marcante do período quente do Quitexe - de que ontem aqui se falou - foi o «frente-a-frente» de um combatente do FNLA e outro do MPLA,  na delegação.
O homem do MPLA foi levado para o nosso aquartelamento, pelas nossas tropas, e tinha o tórax perfurado (um buraquinho no peito e um buracão nas costas). Vomitava sangue.
O homem da FNLA apareceu por entre o capim, em frente à nossa porta de armas, rastejando e com as pernas completamente desfeitas.
Ao verem-se, olhos nos olhos, o ódio era tanto, que o homem do MPLA (que ainda estava «quente» e por isso se mantinha em pé, amparado pela nossa tropa), quis avançar para o outro, que estava no chão, a uns 3 metros de distância, recebendo assistência da nossa equipa de enfermagem.
Por ironia do destino, foram ambos evacuados para Luanda na mesma avioneta (foto), onde não sei se algum deles terá chegado com vida.
Manuel Deus

sábado, 24 de julho de 2010

O Quitexe a ferro e fogo... (1)

O Quitexe teve momentos de «ferro e fogo», no tempo da 3ª. CCAV. 8423. Em
cima, o 1º. cabo Deus na frente da Delegação da FNLA/UNITA, onde se vêem estragos de um ataque do MPLA



MANUEL DEUS
Texto

Quitexe foi uma pacata e tranquila vila, no período que antecedeu os confrontos entre os movimentos de libertação - MPLA a FNLA e a UNITA.
Efectivamente, nos primeiros meses de 1975, os confrontos que tiveram início em Luanda rapidamente alastraram a todo o território angolano e, obviamente, o Quitexe não foi excepção.
Então, começaram as desconfianças entre os três  movimentos e, rapidamente começaram a medir forças. O facto da FNLA ser considerado o movimento mais forte localmente, não evitou que temporariamente fosse obrigado a deixar o Quitexe, dando-se início a uma fase de «agora mandas tu, agora mando eu».
Apesar de terem passado muitos anos, recordo que,  durante algumas semanas, a 3ª. CCAV. passou por momentos muito difíceis, tentando manter a ordem de forma pacífica e neutral.
O nosso comandante, capitão Fernandes, fazendo valer as suas características diplomáticas, todos os dias chamava ao comando os vários comissários políticos, conseguindo que todos prometessem acabar com os conflitos armados, nesse mesmo instante. Apesar disso, todos os dias e ao romper da aurora, as «kalache» eram o nosso despertador.
Recordo uma noite, em que todos fomos atiradores. Independentemente da especialidade de cada um, fomos distribuídos em todo o perímetro do aquartelamento, não faltando as cafeteiras de café toda a noite, para espantar o sono. A noite estava escura, o que permitia ver melhor as balas tracejantes que sobrevoavam as nossas cabeças. Todavia, a ordem era para não actuar. Só se fossemos atacados directamente.
Durante o tempo que estive em Angola, só por duas ocasiões peguei numa G3. Foi neste período escaldante do Quitexe e na retirada de Carmona para Luanda, por sinal também muito explosiva.
MANUEL DEUS
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sexta-feira, 23 de julho de 2010

Reunião preparatória da saída para Luanda

Furriel Viegas nos últimos dias da messe de sargentos do Bairro Montanha Pinto (em cima). Em baixo: furriéis Mosteias, Viegas, Bento, Cruz e Pires na varanda do bloco ao lado do BC12 (Julho de 1975) nas vésperas da partida para Luanda

A 23 de Julho de 1975 reuniram os comandos do BCAV. 8423 com elementos do Quartel General da Região Militar de Angola (QG/RMA), para preparar a saída de Carmona para Luanda. Não sei, obviamente, o que se falou, mas os obstáculos criados nas duas anteriores tentativas de saída seguramente estiveram na mesa.
O clima de crispação com a FNLA fragilizava qualquer clima de confiança. E a Companhia de Forças Integradas, entretanto instalada no aquartelamento da DGS, também pouco ou nada colaborava no sentido de as coisas evoluírem mas civilizada e pacificamente. Assumia, aliás, posições pouco amistosas - até provocadoras!!!... - relativamente às Forças Armadas Portuguesas.
Tínhamos contra nós a inamizade das forças que seriam a nova autoridade militar local e o desdém da população europeia. Esta, cada vez mais fragilizada, por consequência das ostensivas provocações e ameaças dos futuros novos senhores. Dramas que, 35 anos depois, se recordam sem entrar em pormenores! Para não fazer juízos de valor. Para não recordar sofrimentos alheios - que nós vivemos de forma diferente.
«Vamos embora a 3 de Agosto», contou-nos o alferes Garcia. «Vamos ficar no Grafanil para aí um mês e logo a seguir para Portugal».
Por esta altura, em data que não consigo recordar, abandonámos a messe do bairro Montanha Pinto e fomos para um bloco residencial militar, a uns 100 metros - entre o quartel e a cidade. Foi um passo para a desejada viagem para Luanda!

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Galões e divisas para os graduados das Forças Integradas


Viegas, Mosteias e Neto, na messe de sargentos de Carmona.
Mandei esta foto para minha mãe, faz hoje 35 anos


Acabei de reler um aerograma de minha mãe, recebido por volta do 22 de Julho de 1975, tem data de 19: «Dizem por aqui que vocês se vem embora, quando é que tu vens?». Recordo-me bem de o ter lido, no bar de sargentos do BC12, enquanto o Machado fazia o negócio da compra da aparelhagem de som. A minha mãe por cá, cheia de fé e a rezar pelos meus dias, e eu por lá, sem saber do que seria ao menos o dia seguinte.
Respondi-lhe logo, que o SPM estava para sair no avião das 5 horas da tarde: «Não sabemos, mas fique tranquila que por aqui está tudo bem. A pancada que ouve dizer que há em Luanda, não é connosco, nós estamos a 300 e tal quilómetros». Mas não a iludi, como ela mesmo depois me contou. Agora, ao reler o que citei, senti uma enorme nostalgia. Nesse dia, mandei-lhe a foto de se vê nesta postagem, com uma legenda: Como vê,  sue filho está todo nove horas. O da direita, de pêra, é o Francisco Neto, o de Águeda"
A vida por Carmona continuava, entretanto, com todas as escaramuças que por lá se viviam, muitas delas agora já esquecidas. A 17 de Julho, tinha decorrido a cerimónia de entrega de galões e divisas aos graduados da Companhia de Forças Integradas - exortados a assumirem «os seus deveres militares e as responsabilidades de chefia». Um deles, cujo nome naturalmente não recordo, veio mostrar a divisa de furriel, a brilhar - como lhe brilhavam os olhos de alegria. A guerra, porém, com todos os seus constrangimentos, lavrava por Angola fora e eles não iriam ter tarefa fácil. Como não tiveram.
«Quer beber uma cerveja?...», perguntei-lhe eu? Que sim. E fomos ao bar dos sargentos do BC12. Era um bar simples, de salão enorme e muitas mesas, de balcão grande e corrido - onde o Lages servia com a sua habitual lentidão. E lá foi uma, lá foram duas, três cervejas..., cada um.
«Eu não bebes mais!...», disse o novo furriel, no sotaque africano que pluraliza as vogais e dá graça ao seu falar. 
Bebe, pois!!!! «Ao futuro d´Angola!!!...», disse-lhe eu, já com o Lages a abrir duas cucas, bem geladinhas. Ele bebeu.
Na parada, cochichou-me ao ouvido, com a palma da mão espalmada: «Eu não sabes, esfurrié... mas vais haver muitos maca!!!...».
Infelizmente, a profecia saiu certa.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Segunda saída fracassada da coluna militar para Luanda

A coluna militar sairia de Carmona, por Camabatela e Salazar, pelo Dondo e até Luanda. Tenente-coronel Almeida e Brito (em baixo)


A 21 de Julho de 1975, a segunda tentativa de saída da coluna militar de Carmona para Luanda, via Negage e Salazar, voltou a fracassar - «impedida» não sei já se pela FNLA (porque saía de uma zona que alegadamente controlaria), se do MPLA (porque ia de uma zona da FNLA para as áreas que controlava).
O fiasco - assim lhe chamo eu, agora... - gerou fartíssima desilusão entre a guarnição, que se sentiu desautorizada e envergonhada. Afinal, o que era isto?? Não podíamos avançar, não podíamos disparar, ia a coluna e tinha de, cobardemente, voltar para trás? As virtudes militares - as da honra, da coragem, da nobreza, do servir... - estavam a ser fragilizadas na praça pública. «Comer-nos-iam»  os movimentos e nós ficávamos assim, acobardados e vencidos?! 
Não sei o que pensaram os nossos companheiros oficiais milicianos - acho que nunca falámos sobre isto... - e muito menos os do quadro. Mas, reunidos no bar de sargentos do BC12, um grupo de furriéis avançou para uma conversa com o comandante Almeida e Brito. Exigindo explicações! 
Não estou muito autorizado a falar sobre o que aconteceu nas duas colunas recambiadas - por delas não ter feito parte... -, mas a desilusão era solidariamente assumida. Isto não podia ser!!! E foi o que, respeitosa mas reivindicadamente, dissemos ao comandante Almeida e Brito, que nos recebeu no bar de oficiais. Falou o Machado, lavrando ideias sobre uma situação delicada e que envergonhava a tropa. Interveio o Neto, não se apoucando muito nas palavras, querendo explicações e decisões. Disse eu da minha justiça, reclamando a autoridade que a tropa estava a perder. Manifestou-se o Mosteias, impiedoso no julgamento sobre a  inépcia dos militares, que eram barrados na estrada por homens armados e desorganizados. Resumindo, a voltar a sair, só com ordem para avançar a todo o custo. A tiro fosse!!! À porrada, à deflagração de pólvora, ao sangue que se derramasse!
Considerou Almeida e Brito o que melhor entendeu, falando de reuniões com o Comando Unificado de Carmona e o Quartel General, em Luanda. Era grande psicólogo, Almeida e Brito!!! Reinspirou-nos confiança. Anos mais tarde, no quartel-general da Região Militar Centro, em Coimbra, falou-me da decisão que na altura tinha interiorizado mas não contou: se não chegasse a acordo com o QG da Região Militar de Angola, para a evacuação, o BCAV. 8423 arrancaria de Carmona desse por onde desse.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Vamos embora a 3 de Agosto...


Há grande azáfama no BC12, aos idos dias de 20 de Julho de 1975 - faz hoje 35 anos. É domingo e a guarnição - mais folgada com a instalação, na cidade, de todo o BCAV. 8423 - tranquiliza-se das emoções, temores e agitação dos dias anteriores. Fecham-se os caixotes e carregam-se as Berliets que hão-de rumar a Luanda, pelo Negage, Camabatela, Salazar e Dondo - pois está não «passável» a estrada do café, que levaria mais rapidamente a Luanda, pelas nossas antigas bandas do Quitexe, Aldeia Viçosa, Vista Alegre e Ponte do Dange, mais adiante pelo Quibaxe, Úcua, Caxito e Cacuaco, por onde se conflituavam MPLA e FNLA, em luta fraticida e a trocar metralha que muito sangue por lá fez. Não nos íamos meter na guerra.
Já é certa a data de saída da CCS: 3 de Agosto, um domingo -  dia de festa na pateira da minha Ois da Ribeira. Ele há coincidências!!... Já os incidentes de 1 de Junho tinham coincidido com a festa de Nossa Senhora de Fátima. A jantar no restaurante Escape, com o Neto, refiro-lhe estas coincidências - que ele dá ao desbarato. Mais lhe interessa o «irmos embora..., fartos disto!».
O Neto - cujo apelido (igual ao de Agostinho, líder do MPLA) alguns constrangimentos lhe criou, supondo-o os «fnla´s» como um inimigo - tinha interesses em Angola, na cidade de Viana, mas o desejo maior é voltar a Águeda, ao colo da família e aos braços da sua Ni!
«Mas olha lá, o que é que achas que vai ser disto?...», perguntei-lhe eu.
Não havia resposta. «Será o que for...», disse o Neto.
Conhecia-se a movimentação dos cidadãos brancos, nomeadamente em Luanda, no sentido de criar um partido político, mas entre avanços e recuos, confrontações, acusações, ameaças, dedos apontados e retaliações pouco cristãs, o mais que se poderia esperar era que a esperança de paz não morresse. Mas faleceu, como hoje se sabe.