segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Os dias de véspera de regressar a Portugal...

Gabela, centro da cidade, com a igreja em primeiro pleno. Mário Neves morava ali ao lado esquerdo

 
A 1 de Setembro de 1975 escrevia eu, em carta a minha mãe: «Isto, por aqui, não anda nada bom. Em Luanda, ou mais propriamente no Caxito, tem havido guerra da forte, entre MPLA e FNLA. Para o sul, então, em sido do piorio». Para o sul, na cidade de Gagela, estava parte da nossa família: o Mário Neves e o Clemente Pinheiro, com as respectivas famílias. E por lá estava, também, outra família conterrânea, a de Anaceto Melo. E de lá tinha saído, já, a de Rafael Polido e Cecíla, para Nova Lisboa.
Eu tinha estado na Gabela em Setembro de 1974 e Abril de 1975, recebido como príncipe, pelos meus familiares. E a preocupação, por eles, crescia todos os dias. Medrava, medrava, medrava!!!... - sem por eles nada poder fazer. Os contactos telefónicos eram dificílimos, se não impossíveis. Nunca consegui, de resto, chegar à fala com eles, nem mesmo depois dos apelos lançados na Emissora Oficial de Angola.
A epístola a minha mãe dava-lhe, porém, conta que eu, por Luanda, já nem ia ao quartel desde 6ª.-feira (28 de Agosto). «Isto quer dizer - explicava-lhe eu - que a guerra não tem sido connosco», referindo-me ao meu batalhão e, claro, a mim próprio. Assim procurava eu descansar-lhe as preocupações de mãe. Mãe recentemente viúva e com um filho na guerra. 
Não lhe furtando verdades, informava-a, porém, que «houve macas fortes na Gabela» - a cidade dos nossos familiares - e dava-lhe conta de que «assim que souber» lhe diria quando voltava. Eu j sabia, é verdade, mas queria chegar de surpresa. Para mão lhe alimentar ansiedades. Ou alimentar expectativas. E de surpresa lhe cheguei, às primeiras horas de 9 de Setembro de 1975.

domingo, 4 de setembro de 2011

Tempo de sofrer e de morrer, em Angola...

Bichas para a compra de bilhetes da TAP (em cima) e entrada do Campo Militar do Grafanil, em 1975 (foto de Jorge Oliveira) 

Ainda em (finais de) Agosto de 1975, já em tempo de corte dos dias do calendário para o nosso regresso, recebi  jornal de Águeda - onde me surpreendi a ler declarações do general Silva Cardoso, alto-comissário de Angola até dias antes, em Lisboa: «Porque já não acredito nos homens, principalmente nos políticos, aqui vim. Estou cansado da mentira, das falsas promessas, das atitudes de fachada. Venho cansado da miséria, de ver miséria, de ver ódio, de ver desespero. Venho cansado do egoísmo, da crueldade e da ambição desmedida». Assim mesmo, sem tirar nem pôr. Cruamente.
Não fugia à verdade, o general. Era isso mesmo que nós víamos por Luanda. Com outros olhos, quiçá menos responsáveis. Talvez menos sensíveis. Mas que viam o povo anónimo a sofrer e a morrer.
A amargura do genral Silva Cardoso foi mais longe, dirigindo-se aos «milhares e milhares de portugueses europeus brancos, escorraçados daquela terra, terra que já consideravam como sua Pátria». Portugueses que, frisava o general (ex-alto comissário), «perdendo tudo, deixando tudo, tiveram de se refugiar em Portugal».
Por estes dias e até Novembro de 1975, decorria já a ponte aérea que de Angola trouxe centenas de milhares de pessoas. E o que faziam os  Cavaleiros do Norte? Cumpriam as tarefas da guarnição, no Campo Militar do Grafanil e «laureavam o queijo pela cidade», a contar os dias. Com os medos e as precauções de ordem. Até 8 de Setembro e com um e outros incidentes pelo meio. 

sábado, 3 de setembro de 2011

O Garcia e o PELREC à procura dos Martins de Carrazeda

Viegas, Marcos, Pinto, Caixarias e Garcia (em cima), Leal, Moreira (TRMs?), Hipólito, Aurélio (Barbeiro), Madaleno e Neto, membros do PELREC

Trago aqui hoje uma parte do PELREC, em foto, para ilustrar uma história destes dias de Setembro de 1975, os nossos últimos de Luanda e de Angola.Um momento que tem a ver com o nosso saudoso (alferes) Garcia.
Já abundantemente por aqui foi falado sobre os dramas pessoais e familiares da população civil, inquieta e insegura com a situação que lhe pereclitava a vida, ante os permanentes conflitos que por lá se viviam e, nalguns casos, se sentiam em carne viva. E de eu mesmo, o mais que pude e soube, por Luanda ter procurado familiares, amigos e conterrâneos de quem se tinha perdido o rasto e temia pela vida. Não fui só eu a ter esse tipo de problemas e preocupações. Foi muita gente.
No Grafanil, alguém nos deu nota (a mim e ao Neto) da urgência do (alferes) Garcia em falar connosco. Falámos. O problema estava em ir localizar uns conterrâneos dele, de Carrazeda de Ansiães, que moravam na Vila Alice, bairro chic de Luanda, e onde tinham acontecido graves conflitos em finais de Julho.
Então, um jeep das Forças Armadas, com um sargento e condutor, foi interceptado e mandado parar por uma patrulha do MPLA. Identificados e autorizados a prosseguir, o sargento foi alvejado pelas costas logo que a viatura se pôs em marcha, tendo ficado gravemente ferido. O que motivou enérgica reacção do então alto-comissário, general Silva Cardoso. Viria a demitir-se.
Poupando a narrativa, o objectivo do (alferes) Garcia era ir descobrir a família Martins, que por lá morava e onde tinha lojas de moda (se me lembro bem). Conterrâneos dele, eram, não sei se parentes. Estão mortos, estão vivos, como é que estão?  Bem se pode imaginar a angústia da dúvida sobre o destino de amigos.
Queria saber deles, com a mesma dor de alma e nó na garganta de muitos de nós, pelas mesmas razões! Juntaram-se uns quantos «pelrec´s» e lá fomos, fortemente armados e em viatura militar, de olhos bem abertos, com todas as mobilidades e seguranças de quem sabe que está em ambiente de hostilidade e de guerra.
Achámos os Martins, para felicidade do Garcia! Que se ria rasgadamente, de alegria e de olhos molhados de felicidade. 
Mal sabia eu (só soube muito mais tarde e em Portugal) é que um deles era casado com uma aguedense e em Águeda se viria a fixar, depois da descolonização. É o Martins da Xitaca!
- PELREC. Pelotão de Reconhecimento, Serviço e Informação, atiradores. Era comandado pelo alferes Garcia.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Cartas de filho para mãe, a falar de amigos...

Estação dos CTT de Viana (2005), Rafael, Cecília e Viegas (a 14 de Abril de 1975), na Barragem do Quando, no Huambo

Acabo de reler uma carta minha, de 28 de Agosto de 1975, dando notícias de Luanda para minha mãe, longe ela de saber que a sua cria mais nova (eu mesmo) estava a dias de lhe chegar casa, ido da guerra.
Dava-lhe conta das minhas buscas, em Luanda, de conterrâneos nossos: a Cecília e o Rafael (em Nova Lisboa), o Mário e a Benedita, o Clemente e a mulher - estes em Luanda. Gente por quem ela e perguntara, em correio do dia 21.
Tenho esquecido este casal - o Clemente e mulher -  que me recebeu principescamente na Gabela, em Setembro de 1974, quando por lá viandei em férias. Pelos finais de Agosto de 1975, procurava eu um cunhado dele (irmão da mulher), de Viana do Castelo - que eu sabia viver perto do Benfica de Luanda, justamente para saber do seu paradeiro.
«Sei mais ou menos onde é e vou lá, a ver se me consigo recordar da casa. Depois digo alguma coisa», reportava eu, a minha mãe.
E dava-lhe notícias: a Fátima do Zé Bernardino já foi para Lisboa, a Benedita vai de avião no dia 30 e o Mário fica cá. De Rafael e Cecília, dava-lhe conta que não os conseguia localizar e que os procurava num programa da Emissora Oficial de Angola.
«Ainda ontem ouvi eu próprio esses apelos, duas vezes, uma às duas da tarde e outra às nove da noite», epistolava eu, na carta para a minha mãe. 
A Emissora Oficial de Angola, ao tempo, tinha um programa especialmente feito para lançar apelos, pedindo às pessoas para se localizarem. «É mais ou menos a dizer que preocupado com a falta de notícias deles, que agradeço que entrem em contaco comigo, pelo telefone 210 de Viana, ou então pela Emissora Oficial», expliquei na epístola enviada à autora dos meus dias.
O 210 era o telefone da Estação dos CTT de Viana, onde pessoa amiga se disponilizou para servir de eventual intermediária. Infelizmente, nunca fui contactado. Cheguei à minha aldeia a 9 de Setembro e eles tinham chegado uns dias antes, via Gabão - fugidos de Nova Lisboa por via aérea.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Dias de despedidas e de mesas sem pão...

O Pólo Norte, onde muito se comeu e algumas vezes se ficou sem... comer!

Furriéis Monteiro (à esquerda) e Viegas (á direita), rodeando os aguedenses Carlos Sucena e Gilberto Marques, na casa da Viana


Os últimos dias de Angola, com as precauções a que nos obrigavam os repetidos incidentes luandinos, foram, alguns deles, passados em momentos de despedida dos conterrâneos e amigos que pela capital faziam pela vida.
Os maus momentos da nossa jornada africana cada vez mais eram passado e se, por Luanda, nos preveníamos de armas (camufladas) para o que desse e viesse - e muita coisa se dava!!! - não é menos verdade que não me escapou um amigo com quem não tivesse um momento (por mais curto que fosse), ou uma refeição de despedida. Há 36 anos, neste dia 1 de Setembro, estávamos a uma semana de voar para Lisboa e apertava-se o tempo para esse adeus.
Amigos, dos bons!!!, eram o Carlos Sucena e o Gilberto Marques - que esta foto, tirada pelo Neto, mostra em confraternização de marisco e cerveja, na casa de Viana. Não exactamente do nosso último encontro, mas como mostra de como, por terras de Angola em guerra fraticida, os companheiros se davam de mãos e amizade.
Este dia, uma 3ª.-feira, foi de nova busca de gente conhecida no aeroporto de Luanda e, sem ninguém encontrar, de ida para a baixa - onde eu, o Neto, o Pires (de Bragança), o Cruz e o Rocha tentámos almoçar. Sem conseguir. Uns dias antes, acontecera o mesmo: depois da largo tempo em bicha, o Pires e o Rocha ficaram sem comida. Luanda estava sem abastecimentos e a população crescia. Era gente a mais para o pão que (não) chegava.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O Documento dos Nove assinado em Luanda

Os SUV em conferência de imprensa, a 6 de Outubro de 1975

O Documento dos Nove foi publicado no Jornal Novo a 7 de Agosto de 1975 e chegou-me às mãos duas semanas depois, enviado pelo Alberto Ferreira - já regressado a Portugal. Era, no fundo, um  manifesto de um grupo de militares (nove, daí o nome) contra a  corrente política que, ao tempo, levedava em Porugal e da qual nós, lá por Angola, muito pouco sabíamos.
O autor foi principalmente Melo Antunes mas também foi assinado por Vasco Lourenço, Sousa e Castro, Vítor Alves, Pezarat Correia, Franco Charais, Canto e Castro, Costa Neves e Vítor Crespo. Os nomes poucos nos diziam, à excepção do do próprio Melo Antunes, que, jornadeávamos nós por Carmona (Uíge), se deslocara a Luanda (ido de Lisboa) e proferira afirmações que fragilizaram (e bastante) a posição militar dos Cavaleiros do Norte.
Afirmações que desagradaram aos responsáveis da FNLA, que eram a força maioritária da província do Uíge. E que sustos apanhámos nós, por isso. E que ameaças tivemos, os Cavaleiros do Norte.
Tinha passado os olhos pelo manifesto publicado no Jornal Novo, em Lisboa, quando o recebi (enviado pelo Ferreira) mas desistira da leitura - por, pela minha medida daquele tempo, ser muito extenso e pesado. Mas fui lê-lo, quando se soube que, na Unidade, circulava um abaixo-assinado, justamento do Documento dos Nove. Associei a leitura às informações do Ferreira: expectro de guerra civil em Portugal, manifesfações atrás de manifestações, anarquia, forças armadas divididas e incapazes de manter a ordem pública, a criação dos SUV (uma organização de classe no interior das FA) e boatos atrás de boatos sobre golpes e contra-golpes. «Isto está insuportável, nõa se sabe o que vai acontecer...», dizia-me o (ex-cabo especialista da Força Aérea), em carta de 16 de Agosto de 1975, que acabei de reler.
O clima de insegurança desestabilizava toda a sociedade civil e os militares, divididos e quiça excessivamenet politizados,  manifestavam-se incapazes de assimilar as contradições de um pais que se fazia de novo.

O Documento dos Nove rejeitava «o modelo de sociedade socialista tipo europeu-oriental" e também a sociedade social-democrata, de alguns países da Europa Ocidental. Propunha, antes, um modelo socialista estreitamente ligado à democracia política. Linguagem que, na verdade, era excessivamente densa e impercebível ao nosso conhecimento. Estou em crer que toda a guarnição o assinou.
O Documento dos Nove pode ser relido AQUI.
- SUV. Soldados Unidos Vencerão, organização de classe, dentro das Forças Armadas, em 1975. Apresentaram-se encapuzados, em conferência de imprensa (foto). Ver AQUI
- FERREIRA. Alberto Fernando Dias Ferreira, cabo especialista da Força Aérea, em Luanda. Na altura, já na disponibilidade. Natural de Fermentelos (Águeda), já falecido,

terça-feira, 30 de agosto de 2011

O último comissário português de Angola



O almirante Leonel Cardoso no discurso da Independência de Angola


O almirante Leonel Cardoso foi nomeado líder da Junta Militar que assegurou a governação de Angola, a 25 de Agosto de 1975, em substituição do general Silva Cardoso. Chegou a Angola a 30 - faz hoje 36 anos. Assumiu o cargo de Alto Comissário, neste dia e viria a ser ele a fazer o discurso da independência, da parte portuguesa (foto).
Scorro-me do Centro de Documentação 25 de Abril, para lembrar que, por esse tempo de Agosto, «recrudescia a guerra civil em Angola» e que «a FNLA e a UNITA se uniram em diversas zonas do território». Por outro lado, «intensificou-se o retorno de nacionais vindos de Angola» - o dos portugueses que voltava à Europa. Há quem diga que foram 500 000 e, ainda segundo o CD25A, eram «cerca de 700 os retornados» que chegavam diariamente a Portugal, «através da ponte aérea estabelecida com Nova Lisboa». Vários países europeus e os EUA auxiliaram Portugal na organização desta ponte aérea e eu mesmo pude testemunhar, no aeroporto de Luanda, a situação dramática de milhares de populares que por lá faziam espera de «boleia» para Lisboa. Por lá andei, de resto e por mais de uma vez, a procurar familiares e conterrâneos de quem se ignorava o paradeiro.
A guarnição dos Cavaleiros do Norte riscava dias no calendário do regresso.Já decidido que a CCS viajaria a 8 de Setembro, voaram os companheiros de Zalala, Aldeia Viçosa e Santa Isabel nos dias seguintes. E todos nós tínhamos a noção do dever cumprido. Isto muito embora, como se lê no Livro da Unidade,tal objectivo nem sempre tenha sido «fácil de cumprir».

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O navio «Niassa« e o jeep do Machado...

Porto de Luanda e o navio «Niassa»

O capitão Oliveira tinha aquela «graça» de «simpatizar» comigo e com o Neto e destacou-nos para, com outros (o 1º. sargento Luzia foi quem nos foi «abrir» a porta ) irmos ao navio «Niassa» (foto), que estava estacionado no porto de Luanda, fazer a distribuição do pessoal que, do BCAV. 8423, partiria de Luanda para Lisboa, a 8 de Setembro de 1975.
E lá fomos! Foi nos últimos dias de Agostoe não gostámos muito do barco! Mas tinha de ser e, com alguém do «Niassa» (não me lembro bem como), ainda por lá andámos as ver porões e camaratas, cheios de papéis e de nomes na mão, para desarriscar do rol. Felizmente, a coisa deu para virmos de avião e, quando o soubemos, só não pusemos foguetes por não os termos. Entre 8/9 horas de avião e 9/10 dias de barco, não era preciso vir o diabo escolher.
Quem por nós decidira, decidira muito bem!
O Machado (que ontem fez 59 aninhos, festejados na sua casa do Gerez) também por lá esteve connosco numa das idas e, nessa, guiava um jeep militar. Decidimos ir almoçar para a Mutamba e metemos-nos ao trânsito da cidade. Que não era tão fluído assim e nos «enrascou». Melhor dizendo, «enrascou» o Machado - que se viu em palpos de aranha para fazer uma manobra, por falta de «bracagem» da viatura. Íamos fardados e fomos brindados com uma monumental assobiadela e um rol de nomes bem pouco simpáticos. A comunidade civil andava revoltada com a tropa portuguesa, não poupava quem visse de farda e insultava. Foram assim muitos dos nossos últimos dias de Angola, em Agosto e até 8 de Setembro de 1975.

domingo, 28 de agosto de 2011

Meses de Agosto(s) e os seus gostos...


Centro de Saúde (hospital) do Quitexe, em 2011 (em cima) e picada para Zalala (anos 70)
As semanas de Agosto de 1974, há 37 anos, foram de requalificação da rede estradal da zona de acção do BCAV. 8423. Já aqui falámos da itinerário de Zalala, mas no dia 26 começaram os trabalhos do acesso para a Fazenda do Liberato (na foto, de José Patriarca) e continuaram as da chamada estrada do café, em asfalto, entre Vista Alegre e Ponte do Dange. 
Ao Liberato, foi o comandante Almeida e Brito, em visita de trabalho à CCAÇ. 209, a 22 de Agosto. No mesmo dia, o mesmo fez à 2ª. CCAV. 8423, a de Aldeia Viçosa - comandada pelo capitão miliciano José Manuel Cruz. A 8, estivera em Zalala, na 1ª. CCAV. 8423, liderada pelo capitão miliciano Davide Castro Dias.
Por mim, estava en vésperas de férias - que me iriam levar em passeio por boa parte do território angolano - de Carmona a Luanda, Gabela, Nova Lisboa, Alto Hama,.Caala (Roberto Wiliams), Lobito, Benguela, Silva Porto, Moçâmedes e Sá da Bandeira, Novo Redondo e de novo Luanda. 
Um ano depois, já com muitas incidências passadas, fazíamos espera para o regresso a Lisboa, instalados no Campo Militar do Grafanil. E eu por lá cirandei (em Luanda), como todos os Cavaleiros do Norte, melhor conhecendo a cidade, da alta à baixa, à beleza da baía e da ilha, pela restinga; ou ao Mussúlo, aos bares da noite. Era o tempo de aventuras, esventrando-lhe os ninhos de festa e de prazer - já que éramos jovens de 22 para 23 anos, todos ávidos de vida e de alguma luxúria. Porque não dizê-lo?!

sábado, 27 de agosto de 2011

Os medos do Verão de 1975 em Luanda

Entrada do Campo Militar do Grafanil (foto de Jorge Oliveira)


Os últimos dias do Grafanil, campo militar nos arredores de Luanda, foram tudo menos normais. A guarnição dos Cavaleiros do Norte, a dias da data do regresso a Lisboa, fazia pela vida, sem actividade operacional mas todos os dias dando de cara com incidentes que iam roubando a tranquilidade de quem, indo no 15º. mês de comissão, o mais que queria era que chegasse o dia 8 de Setembro.
As comissões tinha sido reduzidas para este tempo, tendo em conta «as necessidades de responder aos compromissos tomados com os movimentos de libertação, no referente aos efectivos militares a estacionar em Angola», como se lê no Livro da Unidade. Por mim, fora dos compromissos que tinha de concretizar no BCAV. 8423, nas instalações do então já deslocado Batalhão de Intendência de Angola, no Grafanil, cirandava pela cidade de Luanda, essencialmente visitando conterrâneos que por ali se interrogavam quanto ao futuro próximo, entre a dúvida de ficar ou voltar para o «puto». 
O pequeno Daihatsu da FRAL (do Neto) era o transporte privilegiado e desses dias recordo uma azelhice automobilística minha, quando, ao volante do «mini», me aventurei na baixa da cidade e entrei em sentido proibido na rua da Portugália. Imaginem o «susto» do jovem furriel, encartado fazia poucos meses (de Carmona), quando se viu com todos os carros a «andarem ao contrário» e com o sinaleiro a apitar, a apitar... Que vergonha! E que medo!!! 
Ou, bem mais dramático, quando, no bairro de S. Paulo, fui interpelado por uma patrulha de independentistas, armados até aos dentes e que teimosamente não me queriam deixar passar, em pleno dia. Não foi fácil! Foi problemático. Tive medo!!!!
Notícias de Lisboa, via rádio, davam conta das labaredas revolucionárias que atropelavam a então chamada metrópole.
A 27 de Agosto (hoje se completam 36 anos), a Frente de Unidade Revolucionária (FUR), um dos muitos movimentos/partidos nascidos da revolução, promoveu, junto ao Palácio de Belém, uma grande manifestação de apoio a Vasco Gonçalves e a Costa Gomes. Ambos receberam os manifestantes com discursos mais uma vez com notórias diferenças de tom e de conteúdo. O Alberto Ferreira, cabo especialista da Força Aérea, já regressado a Águeda, dava-me conta do clima de pré-guerra civil que se vivia em Portugal. Era o verão Quente de 1975!




sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O Quitexe de hoje e a Luanda de 1975


Administração Civil do Quitexe e o antigo restaurante Pacheco (em baixo), o Quitexe de Agosto de 2011



O Quitexe de hoje não será muito diferente do do nosso tempo. Mantém-se a maioria dos edifícios que por lá conhecemos, em estados de conservação diferentes. 
A foto de baixo mostra-nos o que nos parece ser o antigo restaurante Pacheco (onde tantas vezes saboreámos boa cerveja, fresquinha e com pires de camarões a acompanhar). Ficava mesmo em frente à secrearia da CCS. A de cima, é o edifício da administração civil (assim se chamava no nosso tempo), no jardim público.
Agosto de 1975, por estes dias, já eram de preparação do adeus a Luanda e a Angola, preparando-se a viagem no «Niassa». Acabaríamos por viajar de avião, mas ainda chegámos a ver e visitar o navio no porto de Luanda - onde o capitão Oliveira nos mandou para marcarmos a acomodação dos praças. A 25, foi criada uma Junta Militar para assegurar a governação em Angola. A 30, o almirante Leonel Cardoso tomou posse do cargo de alto-comissário de Angola.
Por estes dias de 1975, no Grafanil, recebi correio de Portugal de minha mãe, pedindo notícias de um casal conterrâneo. Ver AQUI. Assim corriam os nossos dias da capital, fazendo tempo para o regresso, por entre incidentes que enxameavam a cidade e o futuro país. 

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O furriel Cruz já tem 60 anos!!! Sexagenário, pá!!!

Viegas e Cruz, de 1974 (em baixo) até 2011 (em cima)

O Cruz era o furriel mais velho da CCS, rádio-montador, e chegou a 2º. sargento miliciano. Foi meu companheiro de férias pelo chão angolano e, bebida a água do Bengo, ficámos amigos para a vida.  Por Lisboa, pelo Algarve e por Águeda nos temos encontrado muitos anos nesta vida que nos trouxe até hoje. As famílias ficaram amigas. São amigas. É daquelas amizades que se fazem na tropa e ficam para a eternidade.
A minha última ida à capital do antigo império «levou-me», inevitavelmente, ao contacto com o Cruz, com a grata coincidência de tal acontecer pelo dia dos seus (dele) 60 anos de vida! Eh pá, 60 anos!!!! Sexagenário!!!! Ou sexIgenário (com i...), para caricaturar este novo estádio de uma vida, que o (nos) levou à tal jornada africana que nos fez irmãos.
As horas foram curtas para tanta memória de Angola, deixando as nossas caras-metades perdidas para trás nas ruas da capital, da Portugália das Docas ou da Expo 98, o agora Parque das Nações.
Os 37 anos que separam as duas fotos mostram, também, o que mudou e não mudou nos dois então jovens furriéis: ambos mais fortes e pesados!! E mais velhos!!!! O bigodaço do Cruz mantém-se mas mais farto e abrancalhado. Como o cabelo. Eu, já de lábio superior desnudado - que só por aquele tempo «usei» tal aumentativo capilar. Mas de iguais gargalhada, à piada mais singular ou à memória mais remota de alguma historieca das nossas vidas militares de 1974 e 1975.
Ó Cruz, estamos velhos, pá!!!! Nenhum de nós se lembraria, há 37 anos, que nos encontraríamos no jantar dos teus 60!!! Vê lá tu como é a ida!!! E como foi bom termos sido Cavaleiros do Norte!
Ver AQUI

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O Quitexe nos dias de hoje...

Igreja (em cima) e Casa da Polícia do Quitexe (em baixo).
Fotos de Agosto de 2011, de Cecília Miguel. Clicar nas imagens, para as ampliar


Há notícia frescas do Quitexe, em forma de imagem. A gentileza é de Cecília Miguel, quadro da Mota-Engil, a trabalhar em Angola. Em cima, vê-se a Igreja do Quitexe, onde, no nosso tempo (1974/75) sacerdotou o padre Albino Capela. Em baixo a rua da enfermaria (que era casa azul, do lado esquerdo, encostada á casa de Alfredo Rei) e, em frente, também de azul, a actual Casa da Polícia Nacional de Angola. No nosso tempo de Cavaleiros do Norte, era a residência do comandante Almeida e Brito.
Identificando melhor o local, recordamos que para a direita (agora com uma placa de sentido obrigatório) começava a avenida, de duas pistas, com um separador ajardinado. A seguir e para  lado esquerdo da agora Casa da Polícia Nacional (direito, na foto), ficava a messe de sargentos e a  padaria, a messe de oficiais (com o bar dos soldados em frente, do outro lado da avenida), a casa dos furriéis, a secretaria e comando da CCS e, mais à frente, depois da rua para a capela, o edifício do comando do BCVAV. 8423, a parada, as oficinas, as casernas... Isto, portanto, do lado direito da foto de cima - a da capela.
Quantas vezes, nos dias e nas noites de luar de Angola, por ali passeámos saudades, conversámos futuros e discutimos a actualidade de então, somando dias ao calendário que nos separava do regresso a Portugal. Hoje, deixamos aqui esta amostra do Quitexe de hoje. Com saudosismo e paixão.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

A troca de escudos angolanos...

Nota de 1000$00 de Angola (1000 angolares). Nota-se a imagem do Almirante Américo Tomaz, Presidente da República a 25 de Abril de 1974

Os últimos meses da Angola de administração portuguesa foram de florescente crescimento do mercado negro cambial. Os escudos angolanos (os angolares) não tinham cotação em Lisboa e quem tinha deste dinheiro (os residentes angolanos) procurava trocá-lo na baixa de Luanda, normalmente com militares: uns em câmbio directo; outros, dando angolares em Luanda, para receberem escudos em Portugal.
As transacções chegavam a atingir números verdaeoraete astronómicos: um angolar podia «valer» três, quatro, cinco, dez, cem vezes mais. Era câmbio directo.
Arranjar escudos de Portugal era, na realidade, absolutamente, vital para muita gente. E quem os tinham eram os militares. E eram os civis a quererem «comprar» o dinheiro, não se importando de dar o que lhes fosse pedido. Ou importanto, mas sem isso lhes valer alguma coisa. Na verdade, mais valia ter um conto de reis (mil escudos) em moeda do Banco de Portugal que um milhão em notas do Banco de Angola - os tais angolares.
Algumas vezes resisti à tentação de «negociar» esse dinheiro e, pelo menos por uma, tive sério inconveniente com um civil - que, perto da Portugália, a todo custo queria trocar dinheiro. Chegou a esboçar uma agressão, à mistura com o chamamento de nomes que não honrariam minha mãe e mulher (se a tivesse). Compreende-se: era o desespero de quem se sentiam abandonado e procurava trazer no bolso alguma da riqueza que por lá teria feito. As notas do Banco de Portugal eram a sua melhor bagagem.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A indústria dos caixotes dos retornados...

Bichas para compra de bilhetes de avião e...

...caixotes com bens dos (chamados) retornados

Os últimos dias de Agosto de 1975, em Luanda, à mistura com os permanentes incidentes da cidade, foram convividos com uma florececente indústria: a de construção de caixotes. Os caixotes em que a comunidade europeia foi arrecadando tanto quanto podia, para mandar para a (chamada) metrópole.
Qualquer canto e qualquer esquina serviam para, o melhor que podiam, os cidadãos fabricarem os ditos caixotes e neles colocarem bens não perecíveis: mobílias, roupas, máquinas, eu sei lá..., tanta coisa. Até motorizadas, moto-serras e sei mesmo de um caso, meio caricato, do envio de uma...urna. Exactamente, um caixão funerário.
O êxodo das populações civis, nomeadamente as europeias, assumiu pelo mês de Agosto de 1975 adentro, dimensões enormes e o aeroporto de Luanda era «acampamento» permanente de milhares de pessoas à espera de uma «boleia» para Lisboa. Carregavam malas, caixas, caixotes e embrulhos de toda a forma, o mais que podiam. Eram principalmente mulheres e crianças. Os homens, julgo saber, não abandonavam seus bens imóveis e procuravam mandar a família para a Europa. Em segurança. Ou para o Brasil, soube depois. Na cidade, faziam-se bichas intermináveis, nas agências de viagens, para se tentar comprar o bilhete para Lisboa.
Eram vulgares os assaltos a casas e de rua. Escasseava a alimentação. Luanda era pólvora permanente e nós, os Cavaleiros do Norte, com data de regresso a Lisboa marcado para 8 de Setembro, no navio «Niassa». Afinal, víríamos de avião.

domingo, 21 de agosto de 2011

O «sô» António Cabrita, do Quitexe a Cascais...


Cabrita e Viegas, em 1974 (Quitexe, em baixo) e Agosto de 2011 (baía de Cascais)


Há dias, reencontrei-me com o «sô» Cabrita. Estava eu ali a dois passos do habitual pouso dele, na baía de Cascais, passava pela hora do almoço e nada melhor que telefonar-lhe. Reconheceu-me logo, minutos depois já estávamos juntos e tagarelámos sobre o Quitexe e a tropa. Conversa fatal como o destino...
O «sô» Cabrita era, seguramente, o militar mais genuíno da guarnição dos Cavaleiros do Norte, no Quitexe. Sem especialidade, sem entrar nas escalas de serviço, sem se incomodar com cousa alguma, passeava-se pelo aquartelamento e pousava muitas vezes na casa dos furriéis, de quem era  uma espécie de impedido. Digo eu!!! Mas um «impedido» sempre desimpedido, sempre disponível para tudo.
A vida do Quitexe levou-me a ser o «escrevinhador» oficial do namoro que então fez com a (ainda hoje) mulher dele, em confidências que me tornavam escravo da minha palavra com ele. Eu tinha de ouvi-lo, desenhar no papel as letras da paixão que me descrevia e ser-lhe fiel e confessor. Depois, 20 anos depois, quis conhecer-me a mulher de Cabrita, como (AQUI) já descrevi. E tempo houve em que o «sô» Cabrita me procurou, através de um programa da SIC.
Agora, neste verão que corre de 2011, falámos e passeámos pela baixa de Cascais, narrando intimidades familiares e evocando os tempos saudosos de 1974 e 1975, quando jornadeámos, jovens e ambiciosos, por terras do Uíge angolano.
Esta bem de vida, o «sô» Cabrita, fazendo vésperas para a reforma e continuando pescador no mar de Cascais.
«Doem -me as pernas, já não me seguro bem no barco.., ando nisto há 40 anos anos, sô Viegas...», disse-me ele, explicando-me o desejo de antecipação da reforma.
Isto, é a pesca!!! Ser dono de uma barco, era, em 1974, a sua maior ambição. Dono e arrais. Para isso, precisava do exame da 4ª. classe. Por isso, andou nas aulas regimentais e lá o fez.
Aquilo é que eram tempos, «sô» Cabrita. E lembra-se das semanas de Luanda?. O «sô» Cabrita lembrava-se muito bem.
«Aquilo foi bravo!..., mas voltámos todos...», disse-ele, com o imperdível sotaque algarvio a cantarolar-lhe as palavras, rasgando o sorriso, quase de orelha a orelha, feliz, feliz, feliz..., mas sempre tímido e confiante. Era assim o «sô» Cabrita. É assim!
Ver AQUI.

sábado, 20 de agosto de 2011

Encontro dos Cavaleiros de Aldeia Viçosa

Soldado condutor José Nunes, organizador do Encontro 2011

A 2ª. Companhia de Cavalaria do BCAV. 8423 vai reunir a 24 de Setembro, em Leiria. Não vai falta entusiasmo e memória, para se continuar a fazer a história do grupo que, formado em Santa Margarida, foi a Angola, em 1974/85, participar num momemto histórico da nova pátria, por terras do Uíge.
O organizador é José Nunes (foto), que por lá foi condutor, e a concentração será pelas 10 horas, na fábrica de cimento SECIL, na Maceira (mesmo ao lado da cidade). O programa continuará e culminará com o almoço no restaurante O Casarão.
A 2ª. CCAV. era comandada pelo capitão miliciano José Manuel Romeira Pinto da Cruz. A guarnição incluía os alferes milicianos Machado, Periquito, Carvalho e Capela, o 1º. sargento Norte e os furriéis Cruz, Ferreira, Martins, Mourato, Matos e Brejo, Melo, Letras, Ramalho, Costa, Gomes, Guedes, Rebelo e Chitas. O grupo de praças era formado por cerca de uma centena (93) 1º.s cabos e soldados.
Os «cavaleiros» interessados em participar, poderã contactar o Nunes - através dos telefones 244 771 597 e 96 512 0114, ou ainda pelo email davidvitorino@live.com.pt.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Um boato e ameaças de processo judicial...

Viegas e Pires (de Bragança) nas escadas das traseiras da messe de Carmona 


Há dias, em Bragança, estive com o Pires - que goza a sua reforma e se privilegia com os ares transmontanos. Eu e ele (de barbas), somos os dois jovenzinhos da foto, que tem já mais de 36 anos e foi tirada nas escadas da messe de sargentos, em Carmona, no Bairro Montanha Pinto.
A tropa, inevitavelmente, foi o tema de dois dias de conversa - recordando-se situações e nomes da nossa jornada angolana, que passou pelo Quitexe, por Carmona e por Luanda.
A «histórica» saída à aldeia do Dambi Angola veio à baila (ver AQUI), assim como a conversa de pé de orelha (e bem pouco simpática) que eu tive com o comandante Almeida e Brito, que me pedia contas por, alegadamente, dele eu ter dito que seria preso quando a Lisboa viesse de férias. Por ele ser um oficial fascista.
Chamado por ele, ao seu gabinete do Quitexe, senti-me acossado e recorda-me o Pires que reagi com pouca simpatia para com Almeida e Brito: «Processo judicialmente seja contra quem for que me acuse de tal...», disse-lhe eu. Meio violento, determinado. imperativo, sem medo.
À distância de quase 37 anos (isto aconteceu nas vésperas do Natal de 1974), recordar uma singular situação como esta não deixa de nos fazer sorrir. Era a juventude e a irreverência a darem pé ao meu protesto, a uma injustiça que se fazia contra mim, pela mão de alguém que me seria pouco grato e me acusava de uma inverdade. Um boato!
Anos mais tarde, em Coimbra, onde foi 2º. Comandante da Região Militar Centro, falei ao então brigadeiro Almeida e Brito sobre a origem desta história. Mas ele sorriu-se, desviou a conversa para os lendários e dramáticos últimos dias de Carmona e... e vou morrer sem saber quem criou o boato. Mas lá que desconfio, desconfio!!! Ainda hoje.
Ver AQUI.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O furriel Teixeira das transmissões

Casal e furriel Teixeira, no Quitexe (1973)

ANTÓNO CASAL FONSECA
Texto

Andava aqui às voltas com as fotos do Quitexe e retive uma, por alguns minutos. Caramba, o “meu” furriel de transmissões a posar a meu lado?!

Além de ser, para mim, uma pessoa com características muito especiais, principalmente pelas razões que em tempos aqui descrevi, foi também a pessoa que um dia me surpreendeu ao dizer-me: «Sei que és meu amigo, portanto ouve-me se tiveres um bocadinho»! E eu ali fiquei, com todo o tempo do mundo, no papel de confessor, meio atrapalhado, assim… sem mais nem menos! E chorou! Chorou convulsivamente! A razão, não a posso nem devo aqui revelar, mas se me ler, e eu espero que sim, ele saberá bem do que falo. E bem melhor que eu!
Como ele sempre fez questão de frisar, sem a ninguém guardar segredo, era de uma família muito humilde, e por ela deixou o Seminário. Dizia-me que o que mais o amargurava era não poder estar junto dos irmãos, não tanto pela saudade mas pelas necessidades que lhes adivinhava. Sempre entendeu ser uma injustiça a sua mobilização, quando tinha tanta gente para cuidar. Pois tinha, «como tantos outros, milhares...», - fazia-lhe eu ver para lhe atenuar o desassossego!
As férias, pelas quais tanto ansiava, foram passadas no Quitexe, da maneira mais simples que se possa imaginar.
«Gostava de ir ao puto como alguns vão, mas não há taco!...”, disse-me mais uma vez com a voz embargada e os lábios a tremerem-lhe!
Pois…, ele bem queria, e até sei que precisava, mas não podia mesmo! As férias não passariam do Quitexe, tirando duas ou três deslocações a Carmona, mas sem se estender nos gastos. E era a retenção de gastos, uma das razões porque raramente tinha a companhia dos colegas furriéis, segundo me dizia com ar algo desgostoso! Muito desgostoso mesmo, mas camuflado (mal) pelo seu sorriso franco que o tornava, penso, mais vulnerável.
E era verdade, não precisava de mo dizer! Infelizmente!
A muito custo lá me pediu a máquina para tirar meia dúzia de fotos nas férias, mas fez questão de tirar esta comigo.
“É para um dia, quando eu morrer, te lembrares do teu furriel!...”, disse-me, com um sorriso amarelo e com ar de quem tinha dito a maior piada do dia! Mas não morreu, felizmente, e, tanto quanto sei, continua bem vivo e de boa saúde na casa que o viu nascer, em terras transmontanas!
Munido de máquina fotográfica, lá foi com um companheiro até Carmona, disposto a “arrasar”. «Vais ver pá!!!...». Mas começou mal!..., da pior forma possível! Com tantas mulheres jovens e bonitas na cidade, logo havia de deitar o olho a um borracho…casado!
«Tive azar pá…como é que eu sabia que era casada?..., não podia adivinhar…são todas iguais»!, desabafava ele, já no Quitexe, e inteiro de corpo porque fora salvo pelo Palma “candongueiro”, o guarda-costas do comandante!
«Qualquer manguelas, a milhas de distância, vê a pinta da fêmea…tá lá tudo escrito…ali!...», opinava de cigarro no canto da boca retorcida de tiques, o Martins do Cais do Sodré! Com esta do “tudo escrito” é que o furriel se baralhou! ~
«Se quiser umas explicações sobre mulheres venha ter comigo…mas paga bem…», insistia ele no seu discurso de presunçoso “matador”!
Não perdeu tempo, o furriel, a tentar decifrar o discurso demasiado gasto e, também por via disso mesmo, já despido de toda a graça!
Serenamente e num jeito educado que sempre lhe foi peculiar, lá foi cumprindo a sua obrigação, sem grandes alardes nem conquistas amorosas mas, ao contrário do Martins do Cais do Sodré, não viu posto em causa o seu regresso à então Metrópole! Pois é, um verdadeiro (g)aranhão não se deixa envolver na teia que tece!...
Agora, que tenho saudades do meu furriel Teixeira…lá isso tenho! É verdade!..., o que é que eu hei-de fazer?!
ANTÓNIO C. FONSECA







quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O 1º. sargento Fernando Norte, de Aldeia Viçosa


O 1º. sargento Norte secretariou a 2ª. CCAV., a de Aldeia Viçosa, «inteiramente dedicado ao seu serviço (...), de irrepreensível aprumo, disciplinado e sabendo exigir, sem que isso constituísse entrava a sempre estar pronto a compreender os seus subordinados», como de lê no louvor publicado na ordem de serviço 174.
Achou-me por Águeda, no anos 80, quando passou pela Escola Central de Sargentos (ou talvez já o Instituto Superior Militar), onde frequentou o curso de acesso a oficial.
Em 1994, esteve no 1º. Encontro do Batalhão (foto), em Águeda.
A sua última jornada angolana, como «precioso auxiliar do seu comandnate de companhia», justificou um louvor, que destaca uma dedicação que «não olhou a esforços», nela colocando «elevado sentido de responsabilidade», facto que «rapidamente o creditou como sério e leal colaborador».
O louvor do Comando Territorial de Carmona, por proposta do comandante Almeida e Brito, sublinha ainda «a firmeza e interesse pela função militar, educação, correcção e prontidão» para «cumprir qualquer missão que lhe fosse exigida».