segunda-feira, 5 de abril de 2010

Os rádio-montadores da CCS do Quitexe em pose de domingo....

A equipa de rádio-montadores da CCS do BCAV. 8423. O furriel Cruz (em baixo),
os 1ºs. cabos Tomás e Pais e o soldado Silva (em cima)


A vida do BCAV. 8423, no Quitexe, «andou» para além da CCS - que de lá saiu a 2 de Março de 1975. Ficou a 3ª. Companhia, que fizera comissão por Santa Isabel.
O Tomás, em correio para o blogue, veio «matar recordações» da equipa de rádio-montadores - que ele próprio integrava.
«Não podíamos deixar o Quitexe sem percorrer os lugares mais marcantes para todos os Cavaleiros do Norte...», reportou ele na nota enviada e, como exemplo, citando o jardim (que ficava mesmo de frente à administração da vila).
A foto que aqui se vê (e ele mandou) é de um domingo, precisamente no jardim do Quitexe, e, recorda o Tomás, «enquanto uns assistiam à missa, outros estavam de serviço ou a faxinar». O trio foi deixar-se fotografar.
O domingo, para muitos, era o dia ideal para fazer pequenas coisas, como por exemplo escrever para a família e amigos, ou ainda tratar das roupas. «Eu tambem não escapei a isso...», lembra o Tomás. Ver AQUI.
Era assim os dias do Quitexe! Dias que pariam a saudade que todos hoje temos da terra angolana e este bloge aqui vai recontando o melhor que pode e sabe, com os registos e a memória que fazem a história viva da nossa passagem por lá.
- CRUZ. António José Dias Cruz, furriel miliciano rádio-montador, natural de Cardigos (Mação), é quadro da Câmara Municipal de Lisboa.
- SILVA. António Jesus Pereira da Silva, soldado-rádio montador, de Vila Nova de Gaia.
- PAIS: António Correia Lourenço Pais, 1º. cabo rádio-montador, natural e residente em Viseu.
- TOMÁS. Rodolfo Hernâni Tavares Tomás, 1º. cabo rádio-montador, natural e residente em Lousada.

domingo, 4 de abril de 2010

Vice-ministro da Comunicação Social visitou Uige, a antiga Carmona

Mapa da Província do Uíge. Quitexe é agora denominado Dange

O vice-ministro de Comunicação Social, Manuel Miguel de Carvalho "Wadijimbi", iniciou ontem uma visita de trabalho de dois dias, à província do Uíge, no quadro do programa de verificação do funcionamento do sector.
O programa da visita incluiu a realização de um encontro de cortesia com o governador da província e reuniões com os membros das direcções dos órgãos públicos da Comunicação Social - RNA, TPA, Edições Novembro e Angop - e com os correspondentes da imprensa privada. No último dia da visita, o vice-ministro tem um encontro com a Direcção Provincial da Comunicação
Social.
in Jornal de Angola, 27 de Março de 2010

A 2ª. feira de Páscoa de 1975...

A cidade de Luanda, a noite e vista da fortaleza (foto de Henrique Oliveira, em 1974)


Hoje, que é dia de Páscoa de 2010, olhava eu ali o adro da igreja quando me lembrei da 2ª. feira de Páscoa de 1975. Estava eu em Luanda, no bem-bom que a cidade proporcionava, quando, próximo do almoço e ao passar pela estação dos Correios, não resisti à tentação de telefonar para Portugal. Para minha mãe.
Seria uma surpresa mas não se julgue que era coisa fácil, como hoje - que, com um telemóvel na mão, se fala com o fim do mundo no mesmo momento. Não era, era até um atrevimento. Mas correu mal. Supus eu que ligando para a vizinha Celeste - naquele tempo havia cinco telefones na minha aldeia!!!, vejam lá... - ela a chamaria. Só que, a vizinha mo disse, minha mãe tinha saído para beijar o Senhor em casa de familiares. Lá se foi o gosto!
O dia foi quente e almoçámos na ilha, onde nos levou o conterrâneo Albano Resende - que por aqueles dias fez de nosso taxista. À tarde, fui de missão ao cemitério de Catete e, reencontrado com o Alberto Ferreira, conheci o agora advogado Nuno Neves, de Fermentelos. Ao tempo, era furriel de Comandos e tinha sido atingio a tiro no braço esquerdo, numa escaramuça da cidade - na zona de Vila Alice. Passei na avenida D. João II, onde estava a delegação das Ferragens Reunidas de Águeda (FRAL), com recado do Neto. A FRAL era do pai e instalava uma fábrica na Zona Industrial de Viana.
A cidade de Luanda era um desafio, cheia de atracções e segura. Ninguém diria que Angola vivia uma guerra, desde 1961. A noite ia satisfazer os nossos desejos e aventuras!

sábado, 3 de abril de 2010

Os primeiros dias de Abril de 1975, em Carmona, Vista Alegre e Quitexe

Quartel do BC12, visto da estrada que vai de Carmona. O pavilhão à sua direita, foi dormitório dos furriéis nos últimos dias do Uíge, em Agosto de 1975 - clicar, para ampliar. Comandante Almeida e Brito (em baixo)


A vida da guarnição de Carmona continuou por Abril de 1975, mas com a remodelação do dispositivo militar suspensa, logo no início do mês - quando se planeava a desactivação de Vista Alegre e Ponte do Dange, onde continuaram grupos de combate da 3ª. Companhia.
Socorro-me do Livro da Unidade, para lembrar que «as indicações dadas pelos movimentos emancipalistas, resultantes do abandono de determinadas instalações militares, levou-nos a ter que aguardar que se resolvessem a alto nível as questões pendentes e inerentes a esse abandono». Não são precisas tais indicações, mas a memória leva-nos às dificuldades de relacionamento entre os militares dos três movimentos, principalmente resultantes do seu (deles) desejo de se apoderarem das instalações militares, em detrimento das forças «rivais» e para melhor controlo da zona.
O tenente-coronel Almeida e Brito (foto de 1997) regressou do seu interinato na ZMN e reassumiu o comando do BCAV. 8423, a 4 de Abril. A 6, visitou 1ª. Companhia - instalada em Vista Alegre e Ponte do Dange -, acompanhado do 2º. Comandante (capitão Silva Themudo) e do oficial adjunto (capitão José Paulo Falcão). Lá voltaria a 18 de Abril, neste caso parando no Quitexe, por onde necessariamente fazia trânsito e onde estava estacionada a 3ª. Companhia.
Luanda, para nós e nestes primeiros dias de férias, era terra de promissões e desejos levados a factos. Gozava-se a vida, fartamente. Como só se vive quando se tem 22 para 23 anos!




sexta-feira, 2 de abril de 2010

Um dia de Páscoa em Luanda...


Hotel Katekero, no Largo Sepa Pinto (foto Os Nossos Kimbos)

Dia de Páscoa de 1975 foi a 30 de Março, já eu e o Cruz acordámos em Luanda, na altura de um 7º./8º. andar do Katekero, à Serpa Pinto - em pouso de onde, mesmo apeados, nos púnhamos num instante a buliçar na noite ou no dia do coração da cidade.
Por lá nos banhámos, depois de noite bem dormida e antes do mata-bicho que fomos tomar nos gigantescos balcões da Paris Versailles: pregos no pão e uma garrafa de vinho verde. Uma delícia! Por lá combinara eu encontrar-me com Rebelo Carvalheira, do jornal A Província de Angola (mesmo ao lado) e que habitualmente por lá ia ao mesmo mata-bico, depois dos fechos do jornal.
Lá também tive a informação de que o Alberto Ferreira não viria. O recado, deixado a um empregado conhecido (Oliveira?), dava conta de um almoço de páscoa, em casa da prima. Por ali andámos, depois e na baixa, a espreitar a baía e o mar, olhando as montras e catrapiscando os olhos a quem a malícia nos fazia medrar desejos, enquando se fechava a manhã para irmos - eu e o Cruz...- almoçar ao Baleizão: o trivial bife com ovo a cavalo e umas quantas bazucas, depois de entrarmos a camarão. Mordomias de furriéis em férias.

A tarde foi para visitas aos Resendes (ao tempo, a morar perto da praça de touros) e a Benedita e Mário (no bairro da Cuca), com brevíssima passagem pela casa de Cândida - que já se fazia tarde para a hora de estar com o conterrâneo Custódio, na Portugália. Dali fomos à PSP, muito pertinho - onde reencontrei o graduado José Martinho, casado com Maria Emília, outra conterrânea ribeirense (agora, aqui vizinhos).
A noite, depois da janta - que foi de frango de churrasco, à fartazana e no restaurante onde trabalhava Neca Taipeiro (outro conterrâneo) - estendeu-se adentro dela, com «stops» ao Diamante Negro e no Scorpius. Tiveram o Custódio e o Ferreira (entretanto chegado para a frangalhada...) de voltar às suas «bases» militares e continuámos nós a «espreitar» pelos neons que suscitavam apetites e prazeres - até quando quisemos e até voltarmos ao Katekero.
Foi assim o dia de Páscoa de 1975!
- BAZUCAS. Canecas de cerveja.
- CUSTÓDIO. Custódio Alves Ferreira, soldado de engenharia, meu conterrâneo. Reside nos Estados Unidos.
- ALBERTO. Alberto Fernando Dias Ferreira, 1º. cabo especialista da Força Aérea, de Fermentelos (Águeda), já falecido.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Férias de Angola...

A baía de Luanda (em cima) e os furriéis Cruz e Viegas, no Quitexe

Há 35 anos, dia 1 de Abril e das mentiras, não era inverdade e eu já entrara de férias. Amarrei de serviço toda a noite de 28 para 29 de Março, lá fiz a entrega na formatura das 8 horas, mata-bichei (assim se dizia por lá o tomar o pequeno almoço; ou almoçar, se fosse na minha terra...), atirei-me para debaixo de um banho de chuveiro fresco para limpar pó e suores e aí fiquei eu civilzinho desempoeirado, prontinho a sair para Carmona e, daí, para Luanda! Assim foi em sábado da aleluia de 1975!
O Cruz ia ser (foi) o companheiro de férias e iríamos «estagiar» na capital, para espreitar e sentir o lúdico mais vivo da noite e saborear a companhia da amigos que por lá faziam pela vida: os Resendes, o Custódio, a Cândida, a Benedita e o Mário, a Fernanda, o Neca, o Alberto... E o que e quem por lá nos servia de pastos aos sonhos e aos desejos.
Estava tudo combinadinho: os dias de Luanda, os de Nova Lisboa (onde iria fazer surpresa à Cecília e ao Rafael, ao tempo por lá donos do Hotel Bimbe, e partilhar-me com Isolina, a senhora viúva de meu padrinho Arménio...). Depois, a gosto do Cruz, viajaríamos para Lobito e Benguela, por caminho de ferro, onde iríamos bater à porta de familiares dele e, se me lembro bem, de uma namorada dele, de outros tempos!
E lá fomos nós, faz amanhã um ano, na GMC do SPM, em boleia matinal para o aeroporto de Carmona - de onde voámos para Luanda.
Angola estava a nossos pés e ia matar os nossos desejos de lhe olhar o ventre de paisagens esmagadoras, a cultura dos seus povos mais a sul - e que eu já tinha espreitado por Setembro de 1974. Na altura, saltei-me para Gabela e de lá para Nova Lisboa, indo aos prazeres do marisco do mar do Lobito com o Orlando Rino, conterrâneo que comerciava no Bairro de Santo António (de Huambo) e agora é riograndino no imenso Brasil, na ponta que, lá para baixo do mapa, faz fronteira com a Argentina.
Eram as segundas férias de Angola que iam começar!
Ver crónica AQUI.
- CRUZ. António José Dias Cruz, furriel miliciano mecánio rádio-montador. Natural de Cardigos e residente em Lisoba, onde é funcionário camarário.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Montanha Pinto foi presidente da Câmara Municipal de Carmona

A 23 de Março, falei aqui da minha pessoal (há 35 anos) sobre Montanha Pinto - figura pública de Carmona, que deu o nome ao bairro onde se situava uma antiga messe de oficiais, mas que, entre Março e finais de Julho de 1975, foi «casa do repouso doas guerreiros-sargentos» do BCAV. 8423.
Recordei-me que Montanha Pinto ainda era vivo ao tempo, que fôra presidente da Câmara Municipal de Carmona e fizera notável obra de qualificação urbanística da cidade. E que, além de deputado na Assembleia Nacional, da Ala Liberal, fôra funcionário público e empresário agrícola e tinha mais uma mão-cheia de dados curriculares que na altura me espantaram e agora não recordo.
Agora, o António Casal - que tirocinou transmissões pelo Quitexe antes dos Cavaleiros do Norte, fez-me chegar recortes do jornal O Século - edição de 22 de Junho de 1954. Há quase 56 anos!!
Título da 1ª. página: «Portugal Ultramarino - Angola. Número especial dedicado à província de Angola, aquando da visita do Presidente Craveiro Lopes».
A reportagem, bem recheada de fotos, abrange toda a ex-colónia e fala, até, da construção do novo Clube Recreativo do Uíje, da construção do Grande Hotel do Uíje (com fotos) e outras curiosidades. E, principalmente, de toda a economia, riqueza e o visível progresso da província que nós viríamos a conhecer 19 anos depois.
Obrigado, ó Casal!
Se clicarem na imagem, ela aumenta
e podem ler o que está escrito.

Chuvas deixaram 2 511 pessoas do Uíge sem abrigo

16/02/2010: As chuvas deixaram 2511 pessoas ficaram sem abrigo e destruíram 624 residências de Janeiro a 15 de Fevereiro, na província do Uíge, informou o oficial da Protecção Civil, Eduardo André Pereira.
Os municípios do Uíge, Songo, Púri, Negage e Quitexe foram os mais afectados. Também foram danificadas 13 escolas, nove igrejas e a ponte do rio Zadi, entre a capital da província e Ambuíla.

Notícia da TPA, AQUI.

terça-feira, 30 de março de 2010

Uíge precisa de ampliar serviços penitenciários

Os serviços penitenciários na província do Uíge pretendem a sua ampliação, tendo em conta o elevado número de reclusos que alberga. A preocupação foi manifestada ao governador provincial, Paulo Pombolo (na foto), no final de uma visita de trabalho.
Os responsáveis do Ministério do Interior referiram também a necessidade de um centro de acolhimento de estrangeiros que entram e permanecem ilegalmente na província (através do posto fronteiriço) e preocupações com a rede de marcação, equipamento e meios técnicos operativos de apoio e socorrismo. E a necessidade de uma escola do 1º. e 2º. ciclo do ensino secundário, para facilitar a formação académica dos polícias e dos seus familiares.

Notícia de 18 de Março, DAQUI.

Os patrulhamentos mistos em Carmona e as guarnições da ZMN

Miltares do PELREC, alguns dos que integraram os patrulhamentos mistos. Em cima, Messejana, Dionísio, Soares (1º. cabo), António (?) e Florêncio. Em baixo, Vicente (1º. cabo), Viegas (furriel), Francisco e Leal. Vicente e Leal já faleceram.


A 28 de Março de 1975, a guarnição do BCAV. 8423 foi reforçada com um Grupo de Combate da 3ª. CCAV., que continuava no Quitexe. A extinção da ZMN e a consequente saída dos quadros que asseguravam os seus serviços, obrigou a reenquadramentos - numa altura em que, para além dos Cavaleiros do Norte, apenas havia tropa em Sanza Pombo (a 1ª. Companhia do BCAÇ. 4911) e no Negage (a CCAÇ. 4741). Aqui, para além da base aérea.
A experiência que por então vivíamos nos patrulhamentos mistos à cidade e pontos-chave, decorria sem problemas de maior - graças, principalmente, à receptividade dos militantes dos três movimentos e à postura dos militares portugueses. Que, nas ruas de Carmona, resistiam à tentação de ceder na resposta aos insultos gratuitos de alguns cidadãos.
Ocorre-me uma cena, na Rua do Comércio, por volta da meia-noite de um desses patrulhamentos, quando duas senhoras «vomitaram» impropérios contra a tropa portuguesa.
«Traidores, bandidos, canalhas...», foram alguns do epítetos que tivemos de ouvir. Sem reagir! Castrando a emoção! Menos o Marcos, que saltou do Unimog, num momento reactivo que só foi dominado pela agilidade com que foi agarrado. Em frente das senhoras, que batiam com as costas nas palmas das mãos, gritando e protestando injúrias. Um dia aqui contarei o que, no mesmo local, aconteceu com uma delas, filhos e sobrinhos - nos dramáticos primeiros dias de Junho de 1975. Todos socorridos no BC12.

- ZMN. Zona Militar Norte.

-Vicente. Jorge Luís Domingues Vicente, 1º. cabo atirador de cavalaria. Natural de Vila Moreira. Faleceu em meados dos anos 90.

- LEAL. Manuel Leal da Silva, soldado atirador de cavalaria, de Caxarias (Pombal). Faleceu subitamente, a 18 de Junho de 2007.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Os dias de Santa Margarida a «fazer» os Cavaleiros do Norte

O PELREC, no Quitexe, em 1974. O alferes Garcia é o primeiro da direita, em pé. O furriel Neto, o
primeiro da direita (na frente dele). O furriel Viegas é o sexto, da esquerda para a direita, de pé.
Clicar na imagem, para a ampliar


Hoje, se fosse no ano de 1974, estaríamos de regresso ao Destacamento do Regimento de Cavalaria 4, em Santa Margarida - com a Licença de Normas já gozada. Era sexta-feira e ficámos a saber que a viagem para Angola tinha datas de embarque marcadas para fins de Maio e princípios de Junho, em sucessivos voos para Luanda, companhia a companhia.
Fomos jantar a Abrantes!
Esse fim de semana passei-o em Santa Margarida - nomeado numa escala que achei irracional mas que tive de aceitar. Acabei por fazer um serviço do Neto - que aproveitou a «boleia» para voltar a Águeda, para os braços da Ni e o conforto da família e dos amigos.
Foi um fim de semana algo atípico e também de conhecimento mais íntimo dos oficiais milicianos, qu´iam ser nossos irmãos de destino: o Ribeiro, sapador; o Sampaio, da 1ª. Companhia; o Pedrosa, da 3ª; o Periquito, da 2ª., todos atiradores de cavalaria.
A 31 de Março, era domingo, assisti à missa na capela do Campo Militar e dei aos pés uns bons pares de quilómetros, até à beira de Malpique. À noite, fui ao cinema - onde à saída reencontrei um antigo companheiro de Penude, do Centro de Instrução de Operações Especiais, o CIOE (Ranger´s) - o aspirante a oficial miliciano Augusto Rodrigues. Em pé de cerveja, à beira do balcão, vim a saber dos outros AOM do BCAV. 8423: o Mário Jorge Sousa (1ª. CCAV), o Machado (da 2ª.). E o Garcia, com quem eu tirocinava como 1º. cabo miliciano.
Outros 1ºs. cabos milicianos já eu conhecia: o Letras, o Pinto, o Reina. E o Neto e o Monteiro, da CCS como eu. Todos instruendos do CSM de Lamego. A família dos Cavaleiros do Norte construía-se assim, como estes pequenos e crescentes afectos.

domingo, 28 de março de 2010

A chegada do capitão Silva Themudo, 2º. comandante do BCAV. 8423

O capitão de cavalaria José Diogo Themudo assumiu as funções de 2º. Comandante do BCAV. 8423 em Março de 1975. Seguramente antes de 24, dia em que passou a comandar interinamente a Unidade - passando o tenente-coronel Almeida e Brito para o comando (também interino) da Zona Militar Norte (ZMN).
O BCAV. 8423 estava sem 2º. comandante desde a chegada a Angola, pelo facto de o major da cavalaria José Luís J. Ornelas Monteiro, nomeado para o cargo, ter sido «desviado» para o CCFAG.
Silva Themudo não demorou tempo a conhecer a sua área de comando e, a 27 de Março, foi ao Quitexe - onde estava ainda estava a 3ª. Companhia, comandada pelo capitão miliciano Fernandes. No dia seguinte, foi a Vista Alegre e Ponte do Dange, onde a 1ª. CCAV. estava em missão, sob o comando do capitão Castro Dias.
Sucediam-se pelos últimos dias de Março, as reuniões com os dirigentes dos três movimentos emancipalistas, confirmadas nos encontros dos Estados Maiores, às 4ªs.-feiras. As novas que nos chegavam, davam conta da boa aceitação das medidas militares tomadas e que, cito do Livro da Unidade, constituíam «um exemplo para terceiros». As reuniões passaram mesmo a ser itinerantes e, dentro desse contexto, houve contactos a vários níveis, com os movimentos das áreas de Salazar, Quibaxe e Úcua - este último com patrulhamento conjunto do ECAV 401 e da 2ª. CCAV. do 8423, no dia 31 de Março.

sábado, 27 de março de 2010

O soldado que levou cassete com a gravação do jantar de despedida da família

Jardim principal da vila do Quitexe, frente à administração civil

ANTÓNIO CASAL
Texto
Estávamos em Julho de 1972, já com três meses de comissão, e sentia-se que estavam debelados os primeiros sintomas da saudade. Ou parecia, porque todos gostávamos de nos conotar com a velha frase “dos fracos não reza a história!”.
E ainda bem! Ajudados pelo entusiasmo na “descoberta” do nosso novo espaço e debruçados na responsabilidade que no dia a dia nos era incutida, tudo parecia entrar na normalidade. Mas não era bem assim! No nosso seio, havia um companheiro que de dia para dia emagrecia a olhos vistos e a quem algumas vezes perguntei se se alimentava convenientemente!
Aquilo já não era magreza, mas definhamento, o que me parecia, e era, mais grave! A resposta era sempre evasiva, o que me deixava intrigado e até preocupado. Mas não tardaria muito a descobrir a causa, o que aconteceu por mero acaso! A culpa era duma cassete! É verdade!... Uma cassete que eu ouvi (mas imperceptível) no interior do seu quarto! E muitos soluços, alguns quase abafados, daqueles que nos bloqueiam o peito e provocam dor!
A coisa parecia ser grave e meti mãos à obra logo que ele entrou de serviço. Pelo menos, uma pista já eu tinha, à partida! Não pensei duas vezes: ”Assaltei-lhe” o quarto, “violei-lhe” a mala e “roubei-lhe” a cassete! Receoso que ele voltasse por uma qualquer razão, corri e contei ao rádio-montador o que se estava a passar. Pedi-lhe para a ouvir comigo, já que este tinha um bom gravador, o que fizemos bem junto à janela, afim de controlarmos qualquer movimento.
Afinal, ainda não o conhecíamos muito bem e a sua reacção podia não ser das melhores! Ouvimos todo o conteúdo da cassete e no fim olhámos um para o outro, meio aparvalhados, deixando escapar quase em uníssono um f…..e! «Então este gajo gravou o jantar com a família e anda a ouvir os pais há três meses?!...», dizia o meu “cúmplice”, tão perplexo quanto eu!
«Eu bem achava o gajo esquisito, mas pensei que era feitio p…..a! Mas isto?! Espera que a gente resolve já esta m…a!», atirou com ar decidido!
Anulou a gravação, de seguida avariou-lhe o gravador e tudo voltou à mala sem qualquer vestígio. No dia seguinte, logo na abertura da oficina, lá estava ele quase a suplicar para que lhe arranjassem o aparelho!
«Não percebo, ainda ontem trabalhava!...», queixava-se, com um ar que metia pena! O autor da avaria logo se disponibilizou para o “ajudar” e foi uma questão de minutos! Mas não havia gravador que lhe valesse, porque aquela cassete nunca mais iria lembrar o jantar de despedida, tão carregado de emoções! Que ele nos perdoe o gesto, e principalmente a partilha do conteúdo –, que não tínhamos o direito de ouvir e que muito nos custou fazê-lo!Mas será que valeu a pena?! Valeu, pois! Andou uma semana a falar sozinho, mas passado este período difícil até já ia ao Topete beber umas nocais e ouvir as histórias do D. Juan do Cais do Sodré…e do Quitexe!! E até engordou, o que atendendo ao seu estado de magreza, nem foi difícil! E ainda hoje, 37 anos depois, deve estar intrigado com o “apagão” da fita e a “avaria” do gravador! Pois que esteja, e pelo sim, pelo não… é melhor que continue assim!!!

sexta-feira, 26 de março de 2010

O primeiro patrulhamento misto da cidade de Carmona


Estátua e rotunda Ricardo Matos Gaspar, fundador de RIMAGA, importante empresa
de Carmona, um dos sítios por onde passou o patrulhamento misto de faz hoje 35 anos.
Forças mistas no BC12, em cima, fazendo ordem unida


O dia 26 de Março de 1975 foi de rotina civil, até às 17/18 horas - correndo a cidade num jipe militar, para lhe conhecer alguns recantos. Não por acaso. Às 20, tínhamos de estar no BC12 para iniciar os chamados patrulhamentos mistos - com as forças do MPLA (FAPLA´s), UNITA (ELNA) e FNLA (FALA). Os primeiros! Havia alguma ansiedade da nossa parte, muito respeito e nervosismo - até alguns temores. Há dias que alguns angolanos (foto) estavam instalados no BC12, numa das casernas, e eram olhados com alguma desconfiança. Eram, afinal, os nossos «inimigos» de ontem! Ir fazer patrulhamentos conjuntos, que Deus nos acompanhasse!
Verdade que já a 15 de Março tínhamos feito um primeiro "ensaio" e nem correra mal. Bem pelo contrário. Fôra num comício comemorativo do aniversário da FNLA, num serviço episódico e em formação parada. Mas havia a consciência da sua (deles) desabituação da disciplina e atavio militares, alguns medos quanto à aceitação que tivessem (ou não) do comando das forças - sempre entregue a um graduado do exército português. E, mais delicado, como se «entenderiam» eles, militantes dos três movimentos integrados numa mesma força conjunta, sabendo-se, como sabíamos, das diferenças que se discutiam a tiro, granadas e morteiros em outras regiões de Angola, já «abundantemente» regadas de sangue de irmãos contra irmãos.
A noite de patrulhas urbanas, porém, correu muito bem - embora fossemos assobiados e vaiados quando passávamos em algumas ruas da cidade, com vozes e provocações que feriram o nosso brio, o garbo e as honras militares. Da parte de civis europeus.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Os dias de Carmona...

Lazer nas traseiras da messe de sargentos em Carmona. O furriel Viegas (em cima)
a desarrelvar o jardim. Em baixo, com o furriel Monteiro e a mini-mota de «serviço»
Carmona deu-nos o sabor das coisas urbanas e o gosto de nos sentirmos (mais) civis. A cidade, relativamente ao Quitexe, tinha uma incomparável maior oferta de serviços, diversões e entretenimentos. De toda a espécie! Tirando os constrangimentos provocados pela hostilidade de uma parte da sociedade civil, Carmona era um paraíso para a guarnição que ficou na história como a última a lá hastear e arrear a bandeira de Portugal.
Atrás, no tempo, ficaram meses do já então saudoso Quitexe - meses de operações, patrulhas e escoltas que não nos deram lutos de alma - felizmente!... - mas nos levaram muitas vezes a lonjuras semeadas de perigos, através de matas e trilhos marcados pelo peso das botas de soldados carregados de equipamentos e armas, alongando-se em colunas que se afadigavam a cumprir as suas missões. Sem uma queixa!
A cidade deu-nos cosmopolitismo que engravidou muitos entusiasmos e devaneios. Foi pasto para os nossos gostos e gozos, até delírios! Carmona era uma malha urbana de vistas largas, rasgada em espaços amplos, de muitos verdes, atraente e quase volupiosa, por onde se andava e por todo o lado se achava resposta ao que precisávamos e queríamos.
As esplanadas de restauração enchiam-se de bulício pelas noites quentes fora, noites de sensualidade intensa, que quase se apalpava e nos fazia mergulhar em sonhos e desejos! Era boa a cidade de Carmona!
O dia 25 de Março - que anos depois seria o do meu baptismo como pai... - foi em 1975 véspera do BCAV. 8423 se «estrear» em patrulhamentos mistos, com forças do ELNA, das FAPLA e das FALA. O que seria e não seria, como fazer e reagir, tudo nos foi explicadinho (ao PELREC) pelo sempre bravo e garboso alferes Garcia.
A situação política decorrente da entrada dos movimentos na vida pública deteriorava-se um pouco por toda a Angola e já havia chegado a Luanda e Salazar - ali ao lado! Todos os momentos seriam, para os Cavaleiros do Norte, vésperas de «macas». «Teremos resposta adequada, andámos a preparar-nos para isto...», sempre nos incentivava o sempre confiante alferes Garcia.
- ELNA. Exército de Libertação Nacional de Angola (braço armado da UNITA).
- FAPLA. Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (MPLA).
- FALA. Forças Armadas de Libertação de Angola (FNLA).
- PELREC. Pelotão de Reconhecimento, Serviço e Informação, grupo de combate formado por soldados e 1º.s cabos atiradores de cavalaria e alferes e furriéis milicianos de Operações Especiais, os Ranger´s.

quarta-feira, 24 de março de 2010

A operação miliar ao Vale da Sanda no ano de 1965

Mapa do Norte de Angola, zona do Quitexe e Zalala (Operação ao Vale do Sanda)

OCTÁVIO BOTELHO*

O "post" do dr. Pestana Bastos - ver AQUI... - desencadeou em mim um vendaval de saudade. O facto é que tomei parte na Operação ao Vale da Sanda, descrita pelo dr. Pestana Bastos, no já distante ano de 1965 do século findo. Era eu furriel de Artilharia (QP), a fazer a primeira comissão das três que fiz em Angola. Fazia parte do 3º.GC da CART. 785, do BART. 786, do RAP2.
Senti saudades não da situação então vivida por todos nós, uma situação de guerra dura, num clima nada agradável e num isolamento de tal ordem!...
Senti saudades da época em que era mais jovem, tinha saúde para dar e vender e, apesar das dificuldades vividas, mesmo assim tinha também bastante alegria de viver. Saudades também do ambiente de solidariedade e camaradagem que tal situação nos impunha e apesar de tudo era tão benéfica e necessária para se ultrapassarem as dificuldades surgidas. Sim!...Lembro-me também de que o dr. Bastos, pela sua aparência de "mais velho", agravada pela presença do seu "farfalhudo" bigode, foi tomado como alvo a abater pelos atiradores da emboscada que nos foi feita, supondo eles que se deveria tratar do "Maior" da operação!...Enfim!...
Decorridos que são 45 anos sobre a ocorrência, ela se mantém presente como se tivesse decorrido há dois ou três. Não quero alongar-me mais e neste momento quero dar os parabéns ao administrador deste blogue pelo trabalho efectuado e que possibilita o reviver destes acontecimentos marcantes na vida dos ex-combatentes da Guerra Colonial.
As mais cordiais saudações aos colaboradores e vistantes deste blogue e também ao dr. Pestana Bastos, médico que pertenceu à minha Companhia e muitas vezes nos acompanhou nas andanças da guerra.
Para todos um abraço do Camarada,
OCTÁVIO BOTELHO *
Sargento Ajudante de Artilharia
Aposentado

terça-feira, 23 de março de 2010

O Bairro Montanha Pinto, casa dos furriéis e sítio de sangue e morte

Capela católica do bairro da messe de sargentos, em Carmona, e Montanha Pinto


Há coisas que faço sempre, quando vou a qualquer localidade, pela primeira vez. Uma delas é visitar as igrejas. Não, exactamente, por uma qualquer profissão de fé mais ortodoxa, mas mais porque identifico as pessoas da comunidade, pelo tipo de cuidados que têm com os seus templos.
Inevitavelmente, em Carmona, visitei a igreja bispal e, ali mesmo à mão da messe de sargentos, a capela do Bairro Montanha Pinto. E por lá me senti em paz, com a solidão dos que crêm e a fazer-me sentir mais adulto, mais solidário e mais partilhante.
E, estando num bairro com este nome, quem teria sido Montanha Pinto? Certamente alguém de peso histórico na vida pública da cidade ou da região. Os grandes homens e mulheres são guardados na história em placas de ruas, avenidas e praças, pontes, viadutos e... bairros. Pela vizinhança perguntei, sem sorte. Intriguei-me e acicatei a curiosidade. Quem teria sido Montanha Pinto? Vim, a saber e com uma surpresa: ainda era vivo o homenageado com o nome em placa de bairro. Fôra presidente da Câmara Municipal de Carmona e fizera notável obra de qualificação urbanística da cidade. Deputado na Assembleia Nacional, da Ala Liberal. Que fôra funcionário público e empresário agrícola e tinha mais uma mão-cheia de dados curriculares que na altura me espantaram e agora não recordo. Por alguma razão, as forças vivas da cidade deram o seu nome ao bairro onde os furriéis da CCS do BCAV. 8423 faziam o seu ninho de todos os dias.
Ali, junto bem perto capela, assisti a uma das mais disparatadas situações da guerra urbana que foi pasto para muitas mortes nos primeiros dias de Junho de 1975: um grupo de combatentes da FNLA disparava obuses supostamente contra as forças do MPLA. Mas, mal regulados, caíam-lhe em cima. Alguns morreram, dilacerados pelas suas próprias armas; outros, levámo-los nós para o hospital da cidade. Um deles, parece que o estou a ver, com as vísceras soltas e a pendurarem-se na maca da ambulância militar.
Foram dias de sangue, esses dias de Carmona, carregados de mortes e com muita gente a fugir a sangrar e de olhos gretados de lágrimas e medos. No Bairro Montanha Pinto, em 1975.
- MONTANHA PINTO. Manuel Joaquim Montanha Pinto, regente agrícola, natural de Bragança (17.12.1918). Funcionario público, empresário agrícola e gestor da Hidroeléctrica do Uíge. Presidente da Câmara Municipal de Carmona de 1951 a 1957 e 1964 a 1974. Deputado da Assembleia Nacional (Ala Liberal) na 10ª. Legislatura (1969 a 1973) e Procurador à Câmara Corporativa. Dados e fotos da net.

segunda-feira, 22 de março de 2010

A popular Casa Transmontana de Carmona...

A popular Casa Transmontana da cidade de Carmona (anos 70)

Fala-se muito na popular Casa Transmontana, na Carmona de há 35 e mais anos, vá lá saber-se porquê. Cada um terá as suas razões, mas dizia-se que era uma espécie de estação de serviço, com exclusivo de «mudança de óleos». O que não explica nada à minha curiosidade. Ou pouco.
Lembro-me, todavia, de, uma vez ou outra, nos sentarmos na esplanada que ali se vê, para saborear alguma nocal frequinha com ginguba..., e vermos entrar e sair gente - sempre com passo apressado e sorrisos de boca larga. E de uma noite, por ali perto - que era perto da PSP, se me lembro bem... - ter havido zaragata da grossa, na rua e metendo gente de várias cores; e nomes que se chamavam em vozearia alta e que eu não entendia.
De ver uma mulher cor de ébano e a abanar a anca, sacudindo as missangas e a falar como se fosse para a lua, aos berros de uma euforia estranha, percebendo-se bem que era para uma madame branca, de cabelos alourados de água oxigenada. De esta chamar nomes feios ao que, suponho eu, seria o seu senhor marido. E que ela, a mulher cor de ébano, zaragateando para a oxigenada e sempre a abanar a anca, saracoteando-se, se fez de gazela a correr rua abaixo, fazendo batuque no peito e a gritar como se fugisse de trovoada.
Que nós, por ali aperaltados de manga curta e civil, nos fartámos de rir. E mudámos de «estação de serviço», para não apanharmos alguma gripalhada nos motores. E ficámos a saber o mesmo.

domingo, 21 de março de 2010

Porque hoje é domingo!... Um domingo quitexano!!

Rádio-montador Tomás, no Quitexe, em operação de lavagem de roupa

Antes de irmos para Carmona, era preciso mais aprumo e asseio militar. Afinal, íamos para a cidade. Ora uma "faxina" à roupa não ficava nada mal. E qual era o melhor dia? Claro, o domingo.
As traseiras do quarto dos rádio-montadores, no Quitexe, tinham, como se pode ver, uma torneira com água. A casa de banho ficava à direita. Estávamos muito bem acompanhados pelos furriéis Pires e Mosteias, ambos sapadores e da CCS, cujo quarto ficava mesmo por cima da minha cabeça.
Quantas conversas entre sapadores e rádio-montadores por aqui se tiveram! Quantos segredos até hoje e de então ficaram guardados!!! Quantos momentos de grande companheirismo e amizade, que só na tropa se conseguem viver!!!
Por tudo isso, todos nós estamos a aguardar pelo próximo convívio - que será lá para o fim do mês de Maio. A 29 - o dia em que partimos para Angola.
Todos gostam de pôr as memórias em dia.
RODOLFO TOMÁS

sábado, 20 de março de 2010

As danças étnicas que puseram os Cavaleiros do Norte em sentido

Bairro Montanha Pinto, visto do lado da estrada para o Quitexe (foto de Quitexe)


A foto faz-me recordar uma noite de sustos na messe de oficiais (que foi a dos sargentos da CCS do BCAV. 8423) do Bairro Montanha Pinto. O plantão nocturno começou a ouvir barulhos e gritos estranhos do lado de uma pequena sanzala, do mesmo de onde foi tirada esta foto. O da estrada que ia para o Quitexe e de um campo de futebol. Já a noite ia alta e bem alta.
Eu e o Neto éramos, digamos, os únicos operacionais por lá «estacionados» na messe, mas eu não estava. Foi ele de imediato chamado, pois sabia-se lá o que seria aquilo?! Poderia ser um qualquer ritual étnico, ou porventura um «ensaio» de ataque à tropa - já havia muitos antigos combatentes na cidade... - e havia avisos sobre a nossa maior atenção para tudo o que fosse anormal.
Aumentavam os barulhos, a batucada galgava o bréu da noite, pareciam guerreiros os gritos que silvavam pelo ar fora e começou a ver-se, ao longo, o clarão de uma fogueira enorme.
«Que m... é esta?!...», interrogou-se o Neto, com os companheiros do reforço.
A malta que dormia foi toda acordada e posta em guarda. Atacada, poderia ser a messe, mas teria defesa. Ai isso teria!
Resolveu o Neto tirar dúvidas e, com dois ou três militares e as precauções devidas, galgou um carreiro que por ali havia até, já na pequena sanzala, descobrir o que era: festejava-se qualquer coisa de famílias e a gritaria e a batucada não passava, afinal, de um qualquer samba tribal, ritmado pelas tradições da etnia e de homenagem a um qualquer Deus.
Muito nos rimos, eu e o Neto, quando cheguei da ronda de PU, sem saber de nada e já depois das 8 da manhã. «Tu sabes lá, pá!!! Tu sabes lá o qu´era aquilo!!!...», explicava-se o Neto. E notava-se no olhar um resto de esgar de ansiedade. «Era festa lá dos gajos, mas a gente sabia lá!... A gente sabia lá, pá...».
O melhor da noite do susto, está visto, foi mesmo ir ver as danças que desnudavam os seios das raparigas mais novas e puseram a tropa em sentido. Em sentido figurado!! E perceber, afinal, que não havia ataque nenhum. O Neto é que não pregou olho nesssa noite, mesmo depois de ter visto o que viu! Ou se calhar por isso mesmo!