domingo, 22 de janeiro de 2012

1 136 - O Pinto de Sousa que foi futebolista do Benfica



Aguiar, Casal e Pinto de Sousa, no Quitexe

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A. CASAL DA FONSECA
Texto

Ontem, estive à conversa com o Pinto de Sousa, ao tempo 1º. cabo radiotelegrafista em Santa Isabel. Companheiro de recruta e especialidade, em Leiria e Porto, respectivamente, por coincidência veio a fazer parte do meu batalhão, em Angola.
Ex-jogador dos juniores do Benfica, viria a jogar no União de Leiria, como sénior, prevendo-se uma carreira auspiciosa. Que não se concretizou, devido a uma lesão, a seis meses do embarque, e que se agravaria como jogador do ASA de Luanda.
E foi exactamente por ir jogar para Luanda, que se apresentou no Quitexe, onde foi buscar a autorização assinada pelo comandante de batalhão. Que apenas, penso eu, se limitou a dar seguimento ao que já estava devidamente delineado por quem mais poder tinha e mandava! O nosso comandante, ao tempo Tenente-Coronel, nesta matéria não mandaria grande coisa, ou mesmo nada, suponho!
Sei, porque disso me deu conta, que a carta a entregar ao seu comandante em Santa Isabel, vinha assinada por um brigadeiro e que continha ordens no sentido de não provocar quaisquer entraves ao militar em questão, na transferência que já estava devidamente tratada. Não só pelo clube que representava, mas também, e principalmente, pelo Benfica, que queria o atleta de volta ao clube, e em boa forma!
Mas, como ainda ontem me dizia, a confirmar a conversa que tivemos no bar do Topeto, no Quitexe,teve sempre a colaboração de Humberto Coelho, também companheiro no Regimento de Transmissões do Porto, e do jogador José Augusto – funcionava também como relações públicas.
«Nem imaginas do que eu me safei pá!..., acho que iria dar em doido em Santa Isabel!», dizia Pinto de Sousa, aliviado e de volta do bife com batatas fritas!
Na altura, não sabia se não estaria a exagerar, dado que tínhamos apenas cerca de um mês de Angola, e o único contacto que tinha com a companhia era via rádio. Mais tarde, conheci pessoalmente quem o substituira, que não ficou nada agradado com a mudança de Luanda para Santa Isabel! Enfim, coisas da vida!
Despedimo-nos no Quitexe em 1972 e iremos reencontrar-nos muito brevemente, para falar sabe-se lá de quê, talvez de tudo, mas passará de certeza, pelo futebol, Luanda, Santa Isabel e Quitexe!
A. CASAL DA FONSECA
BCAÇ. 3879

sábado, 21 de janeiro de 2012

1 135 - O espectáculo do MFA no Recreativo de Carmona

Pavilhão do Clube Recreativo do Uíge (em Carmona) e capitão miliciano Fernandes

A 21 de Janeiro de 1975, o BCAV. 8423 apresentou-se (e representou) num espectáculo do MFA realizado em Carmona, no pavilhão gimnodesportivo do Clube Recreativo do Uíge - onde acorreu farta participação militar e, evidentemente, interessantíssimas actuações e muitas ovações.
Recuando ao tempo, e com as fragilidades de memória que se podem imaginar - dou conta que nos surpreendeu o então capitão Fernandes, a cantar o fado de Lisboa - e os coimbrões Fado Hilário e a Samaritana, que, daqui da minha aldeia, o conterrâneo e amigo António Bernardino (Berna) imortalizou por todo o mundo.
Acabei de falar com o capitão-miliciano Fernandes, puxando-lhe a memória desta noite de festa do MFA
 - de que se lembrou sem pormenor e modestamente se desculpando de falar da sua ovacionada actuação.
O pavilhão encheu, de militares e civis, aplaudindo a mestria daqueles (cujo nome esqueço) que subiram ao palco e mostraram quanto valiam, no conto, no teatro, na revista, na declamação, na música - fosse o que fosse com que fizeram o programa da festa do MFA.
Foi há 37 anos!! 
Passou tanto tempo que muitos de nós até já perdemos não só a verdura da idade, como também ao aspecto esguio do nosso corpo de militares operacionais. É a vida, diria um nosso antigo governante.
- FERNANDES.José Paulo de Oliveira Fernandes, capitão miliciano e comandante da 3ª. CCAV. 8423. Engenheiro, aposentado, residente em Torres Vedras

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

1 134 - O dia de anos de minha mãe...

Os meus amigos desculpem lá, mas hoje só me apetece falar da mulher que me pôs no mundo: Maria Dulce. Faz hoje 91 anos!!! E a festa vai ser amanhã!
Se me perguntassem há 37 anos, quando eu jornadeava pelo Quitexe, se este foto que hoje vos mostro era possível, seguramente não saberia responder. Hoje, posso: ali está, senhora do seu nariz, a mulher que por amor se fez minha mãe, rodeada de quatro dos seis netos.   
Quando há bocado lhe perguntei se se lembrava deste dia de 1975, o dia dos anos dela - foram 54!!!, e era ela mãe viúva de filho (o mais novo) na guerra colonial - disse-me, com resposta afiadinha na ponta da língua, que se lembrava muito bem e que «foi um dia triste...»
Pelo Quitexe, o PELREC teve um patrulhamento apeado, saímos pelas 8 horas da manhã e voltámos antes do jantar. Quando passávamos à distância de um pequeno olhar do cemitério da vila, o alferes Garcia notou-me diferente. «O que é que se passa, pá?!...».
Eu não disse nada e fiz-me forte!! Afinal, eu era um Ranger!!! Mas a minha memória estava nas palavras de meu pai, que a morte me roubara um ano e tal antes. E nas «poucas palavras escritas nesta tarde de domingo», o domingo de 13 de Janeiro de 1975, lavradas por minha mãe em aerograma que agora reli, fazendo ela o culto da família e deixando fluir o seu amor de mãe pelo filho que estava na guerra e de quem tinha saudades e preocupações.
«Põe lá isso na internet...», disse-me Maria Dulce, a minha mãe. E vim, a saber, já hoje, que ela procura aos netos para ver as histórias do blog. Esta eu não imaginava! Mas quem tem uma mãe, realmente, tem tudo!!!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

1 133 - A cobra na lenha e o almoço no Pacheco...


Restaurante Pacheco, no Quitexe, mesmo em frente à messe de oficiais e casa de furriéis (foto 2005)



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ANTÓNIO CASAL DA FONSECA

Estou aqui a lembrar-me das nossas idas à lenha, para os lados da fazenda Santa Isabel. Não digo que fosse uma saída de alto risco, como eram as escoltas aos fazendeiros, onde estes eram, como muito bem se sabia, os alvos privilegiados. 
Alguns, até mesmo já identificados pelo IN, por razões que agora não vêm ao caso, e que até gozavam de estatuto especial no que à protecção respeitava. Não era de alto risco, mas também não era nenhuma balda!

A minha última ida à lenha, em Fevereiro/Março de 1973, ficou marcada por um episódio rocambolesco, dos que só nos acontecem, em princípio, uma vez na vida. Espero bem que sim, mas se voltar a acontecer, não será em terras de Angola! Bom, o dia de amanhã, como se diz, ninguém o viu!...

Sentado num molho de lenha seca, ali deixada por alguém, almoçava eu e o Domingos, com quem trocara a minha lata de rojões pela de atum, dele. Mas havia ali, na lenha, alguma coisa de estranho que já incomodava! O Domingos olhou para mim, eu olhei para o Domingos, e por instinto e em simultâneo ganhámos molas no traseiro! «F….pá, que é isto?!..., a lenha está a mexer-se!», exclamava ele, de olhos esbugalhados e com metade dos rojões no camuflado! 
Ali havia coisa…, e mexia! E afinal havia mesmo! Uma cobra de consideráveis dimensões e na firme disposição de se defender, agora que era o centro das atenções!

Antes que alguém começasse aos tiros, desordenadamente, e sabendo-se bem que havia ali meninos capazes de o fazer, teve o alferes que se impor! E com má cara, quando já via três ou quatro com a mira no réptil!

Calhou ao Teixeira, que dias antes demonstrara ser um ás com a G3 – a gastar balas para não perderem a validade, ali num qualquer descampado!... -, tentar matar o bicharoco e de preferência com um tiro! É que, pelo menos no meu tempo, as balas não eram para gastar de qualquer maneira e delas teriam de ser prestadas contas!

O Teixeira, bom na mira e no gatilho, e ainda por cima incentivado por um almoço prometido pelo alferes, acertou à primeira!

«Ora, que avaria, a menos de um metro de distância e quase com a arma a fazer-lhe festas, se falhasses eras preso pá!», ria-se o alferes Sousa, agora bem mais solto e de peito feito. Antes só dera uma espreitadela bem discreta, não fosse o diabo tecê-las!

Mas o alferes cedo se esqueceu da promessa e qual almoço qual carapuça! Não se conformou o Teixeira, que não teve pejo em “envergonhá-lo”, no Pacheco e com casa cheia, em almoço de domingo: «Então, meu alferes?, Vim aqui convencido que me pagava o tal almoço que me prometeu! Posso pedir o prato?».

Claro que o alferes cumpriu a promessa, ali mesmo, com sorriso de orelha a orelha, mas bem amarelado! Nada preocupado estava o Teixeira,  com a cor do sorriso do seu comandante de pelotão, de quem era (é) grande amigo, desde que viesse o tal bife com batatas fritas!

O alferes Sousa, sempre tão cumpridor e empenhado em passar despercebido, ainda se viu em papos de aranha para justificar o disparo daquela bala!

«Se houve disparo, tem de existir relatório!», insistia o capitão! E houve, embora com dois dias de atraso, mas tão exagerado (e aldrabado!...) que o Domingos acabou por constar nele quase como herói! E muito bem! Afinal, eu e o Domingos tínhamos sido atacados por um réptil perigosíssimo! Tinha-nos valido o Teixeira, destemido! Francamente, não demos por nada, mas se o relatório do oficial o dizia, quem éramos nós para o desmentir?!

E ainda hoje se diz que o seu louvor se deveu àquele acto de coragem, já que de coragem falava o louvor, e outro acto de relevo não se lhe conhecia! 
Grande Teixeira!!!  
ACF   

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

1 132 - A primeira aparição pública do BCAV. 8423

A primeira aparição do Batalhão de Cavalaria 8423  «como unidade constituída» foi a 16 de Janeiro de 1974 - há 38 anos, uff!!!!... -, na cerimónia de tomada de posse do comandante do RC4, o coronel Craveiro Lopes, filho do antigo Presidente da República com o mesmo nome e bem conhecido (ficámos a conhecer!..) pela sua austeridade, diria que aspereza e exigências disciplinares.
Vagamente, dele recordo um momento de entrada (de vários futuros Cavaleiros do Norte) na porta d´armas do RC4, idos do Destacamento onde o BCAV. 8423 se formava. Ao ver que Craveiro Lopes estaria para sair do aquartelamento, ao fim do dia, simulámos uma caminhada até à capela, para não nos cruzarmos com ele, quando ele nos mandou chamar, por um dos homens do reforço e nos pregou sermão e missa cantada, que ainda nos zumbe nos ouvidos. Tinha "topado" que nos furtáramos a passar pelo portão lateral da porta d´armas, no momento da sua saída.
Quanto à cerimónia da sua posse, teve parada na entrada do aquartelamento e recordo o garbo dos «8423´s», exibido na formatura e desfile, com um grupo (vários pelotões?!) formado à pressa e até algo nervoso. Na prática, o BCAV. formava-se desde há apenas uma semana e julgo não errar dizendo que era principalmente formado por futuros atiradores - já que os especialistas chegariam mais tarde.
Voz de comando do grupo que eu integrava, essa recordo-a e com saudade. Era a do aspirante a oficial miliciano Garcia. Que viria a ser o «comandante-em-chefe» do PELREC, na jornada que nos levou a Angola.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

1 131 - Angola Governada por angolanos a partir de 31 de Janeiro

Rosa Coutinho em Luanda, a 15 de Janeiro de 1975,  
a falar sobre a independência de Angola

«Angola governada por angolanos» era o título, garrafal, da primeira página do jornal A Província de Angola, a16 de Janeiro de 1975, com a fotografia de Costa Gomes, Jonas Savimbi, Agostinho Neto e Holden Roberto.
"Foi num ambiente de confiança mútua e de franca cordialidade, que decorreu, esta noite, no Hotel da Penina, a cerimónia de encerramento da conferência geral sobre Angola», referia a notícia, referindo-se ao dia de véspera - quando, no Alvor foi celebrado o acordo do Governo Português com os três movimentos (MPLA, FNLA e UNITA). Que, principalmente, apontava 11 de Novembro com a data da Independência de Angola.
Não me lembro se o jornal chegava ao Quitexe, mas sei que esta edição ma enviou o Alberto Ferreira, que era cabo especialista da Força Aérea, em Luanda.
Vale a pena recordar que foi acordada a constituição de um Governo Provisório, chefiado por um Alto
Comissário português, e estabelecem o dia 11 de Novembro para a proclamação da independência de Angola. O Governo Provisório seria constituído até ao final de Janeiro.
A notícia, tão importante como era, gerou larga manifestações de regozijo e euforia na guarnição e confirmava o que se murmurava há muito: a declaração da independência e, por consequência, a antecipação do nosso regresso a Angola. Que só viria a acontecer em Setembro. 
Em Luanda, na véspera, o alto-comissário e governador geral Rosa Coutinho (foto), falava aos jornalistas sobre o acontecimento.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

1 130 - Zalala, a mais rude escola de guerra


Boas-vindas em Zalala, a mais rude escola de guerra

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ANTÓNIO CASAL DA FONSECA
Texto

«Bem-vindos a Zalala, a mais rude escola de guerra!». Li isto, pela primeira vez em 1969, quando recebi a primeira missiva de meu irmão que por lá (Zalala) fez “férias”! Há dias, e porque as conversas são como as cerejas, vieram à baila os tempos de Angola e os momentos que cada um penou!
Quando eu pensava que tinha sido um herói e sofredor em defesa da Pátria, eis que me “esfrega” na cara meia dúzia de pastas onde tem arquivados todos os relatórios das operações que comandou! Tudo pormenorizado, com anotações pessoais da época e tudo!
E eu a pensar que tinha feito grandes coisas, ao relatar as minhas escoltas, protecções ao pessoal da JAEA e as poucas operações em que participe com o PELREC e Pelotão de Morteiros! Concluo que o meu currículo militar não tem nada de extraordinário, afinal não tem história! Só a minha, alguma bem guardada e outra que aqui desfio com a malta que passou por Quitexe e arredores!
Claro que visitei Zalala logo nos primeiros dias de Quitexe, aguçado pela curiosidade em saber por onde tinha andado o meu irmão e tentar colar um pouco o teor das cartas, ao terreno. Não consegui colar coisa nenhuma, tão abismal era a diferença entre a imaginação que eu mesmo construíra, e a verdade verdadinha! Não tinha nada a ver!
Lá estava a Imagem de Nossa Senhora de Fátima, a quem muitos recorreram em momentos de aflição, e a tal frase de recepção aos maçaricos. Do resto, pouco ou nada me ficou na memória, tão curta foi a minha estadia. Oportunidades de lá voltar não me faltaram, vontade também não, mas…não estava para ali virado.
Não era por nada, mas pensava eu: Espera lá, se te há-de acontecer alguma coisa quando a Pátria mais precisa de ti, é melhor estares quieto! Se não pensava exactamente isto…pensava coisa parecida! Bom, adiante!...
Dizes tu que pintaram a frase que dava as boas-vindas, em Zalala, aquela bem escarrapachada no muro?! Descaracterizaram Zalala!, quando estiver com o teu vizinho Macedo vou dar-lhe a novidade!, disse-me, com cara (apenas cara) de espantado, como se tencionasse voltar e ver o muro como antes!
Espantado fiquei, também, por o vizinho aqui do lado também ter batido com os costados em Zalala! Quase se fazia uma excursão ao Quitexe, Santa Isabel, Aldeia Viçosa e Zalala, só com malta aqui da aldeia! Quanto mais não fosse, para voltar a pintar o muro, mas só para a fotografia!
A. CASAL DA FONSECA
BCAÇ. 3879

domingo, 15 de janeiro de 2012

1 129 - O enorme peso das responsabilidades

Alferes Carlos Silva (assinalado a amarelo) numa «excursão» às Quedas do Duque de Bragança, com um grupo de Cavaleiros de Santa Isabel



Os passeios turísticos animavam a malta e tornaram-se apetitosos aos desejos dos Cavaleiros do Norte. O (alferes) Carlos Silva achou aqui uma imagem de companheiros seus, da 3ª. CCAV. 8423 (a de Santa Isabel),  e foi aos alfarrábios procurar uma outra. 
«Passei pelo blog, como aliás faço todos os dias, e vi a foto com os camaradas da 3ª. CCAV.  Mas não estava eu e porquê?», interrogou-se ele. E respondeu-se: «Porque fiz parte deste grupo». Fazia parte, de verdade, mas estava do outro lado - a tirar a fotografia.
O (alferes) Carlos Silva, então, recordou-se que tinha uma foto igual no álbum da então namorada de Angola, ainda hoje a mulher sua «mais que tudo» - pois o dele «foi-se» nos caixotes do porto de Lisboa, perdido entre os milhares que chegaram de Luanda, em 1975. 
A imagem que nos fez chegar foi tirada exactamente no mesmo sítio, com um enorme pedra daquelas, como se vê, nas costas dos bravos Cavaleiros de Santa Isabel, que excursionavam para os lados de Malanje, a caminho das Quedas do Duque de Bragança.
E que significado teria a pedra?
Carlos Silva, 36 anos depois, vem «filosofar» que, «como em tudo na vida, nada acontece por acaso» e pergunta se a pedra não seria «o peso da responsabilidade que nos impuseram?».
Bem perguntado, ó CS.
E quanto aos nomes da malta da foto? 
«Recordo-me perfeitamente das caras e dos nomes de alguns, mas só confirmando no livro da unidade. Talvez o M. Deus possa dar uma ajuda», comentou Carlos Silva, com um «uma vez mais obrigado e que o 2012 seja repleto de saúde».
Para todos os Cavaleiros do Norte, claro!

Aqui fica o registo, neste 2012 que se adivinha bem amargo para os portugueses.

sábado, 14 de janeiro de 2012

1 128 - Os excessos do bom do Gonçalves...


Sanzala do Talabanza, mesmo à saída do Quitexe, na estrada para Carmona


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ANTÓNIO CASAL DA FONSECA
Texto

«O rescaldo da festa de fim de ano, no Quitexe, não foi assim tão sereno como tu contas!..., estás esquecido ou fazes-te?!», quase me acusa o Franco, à mesa, em almoço de há uma semana! 
E lá me falou do Gonçalves, entre outros, e de excessos que aqui não ouso referir! E protagonizados por malta toda certinha, de ar angelical e incapaz de partir um prato!

Por estes pecadilhos, concluo eu, há malta que nos almoços anuais se remete a silêncios quase sepulcrais, ou pura e simplesmente se faz de desentendida! Ai os gajos!...

O Gonçalves, que não era visto desde o dia 31, e até já faltara a um serviço, começava a causar muita preocupação - era o epicentro de quase todas as grandes confusões geradas na Companhia.

Foi dada ordem para se passar a pente fino a sanzala Talabanza, à saída para Carmona, onde algumas vezes, ou quase sempre, pernoitava e até participava em rituais estranhos, sempre acompanhados de grandes quantidades de marufo e outras misturas explosivas! Um estilo de vida que o definhava, a olhos vistos, mas sempre com reparos de quem se preocupava com ele, embora pouco pudesse fazer.

Apesar dos constrangimentos causados pelas buscas, que alguns moradores não aceitaram de bom grado, a operação acabaria por dar os seus frutos.

Finalmente, o Gonçalves tinha sido encontrado – como se não se soubesse onde “morava”!  -  e arrancado à força dos braços da sua “negrinha”, como docemente lhe chamava. À força, não porque oferecesse resistência mas porque tinha os músculos presos, coisa por nós nunca vista.

Pelo que se contou, e ainda conta, a rapariguinha poderá mesmo ter passado a noite presa aos braços quase inertes e adormecidos do Gonçalves! O que terá sido uma decepção, imagino!

Ao certo, ninguém sabe que drogas (chamemos-lhe assim...) terá ingerido, mas que por pouco não se passou para o outro lado, é uma verdade!

Mas não havia nada a fazer, o Gonçalves era assim mesmo! Sempre alegre, vivia com demasiada intensidade, talvez demasiado depressa, mas sempre descurando as inevitáveis consequências. Quem o conhecia de perto e convivia com ele, conhecia-lhe bem os excessos. Nem as ameaças de uma transferência para outras zonas de Angola ou para o interior dos “arames de Zalala”, como ao tempo se dizia na gíria, alteraram o seu comportamento!

«A primeira quinzena do ano foi quase toda “à Benfica”!, lembra o Franco, que não os cumpriu os castigos…, porque os pagou!

«E bem caros pá, naquele tempo a 50$00, e 100$00 ao fim de semana!...», acrescentou!

Tiraram vantagem os mais cumpridores, claro, isentados que ficaram das escalas de serviço.

Enfim, eram as primeiras festas natalícias passadas longe da família e amigos, aos 21/22 anos de idade! Que se havia de fazer?!
A CASAL DA FONSECA
BCAÇ. 3879


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

1 127 - Os dias da Cimeira do Alvor...

Agostinho Neto, Costa Gomes, Holden Roberto e Jonas Savimbi na Cimeira do Alvor, em Janeiro de 1975

Os dias 10 a 15 de Janeiro de 1975 foram os da Cimeira do Alvor, reunindo o Governo de Portugal e os três movimentos de libertação (MPLA, FNLA e UNITA), depois das negociações e da plataforma de entendimento político acordada em Mombaça, no Quénia. 
As negociações terão sido muito complexas e delicadas devido, principalmente, às desconfianças entre as partes angolanas, já que da portuguesa a ordem seria mais para despachar a coisa e... depressa.
Os movimentos tinham, antes de Mombaça, chegado a acordos bilaterais - a FNLA com a UNITA, em Kinsahasa; o MPLA com a UNITA, no Luso; e FNLA e MPLA, já em Mombaça -, imediatamente antes da Cimeira tripartida desta cidade queniana, de 3 a 5 de Janeiro. Por este tempo, a UNITA de Jonas Savimbi foi reconhecida pela OUA como movimento de libertação.
A guarnição do Quitexe - e as de Aldeia Viçosa e Vista Alegre - estavam, obviamente, à margem de todas estas diligências políticas (nem delas entendíamos alguma coisa), mas eram conhecidos, isso sim, os graves combates que se travavam em plena cidade de Luanda,  nomeadamente entre a FNLA e o MPLA.
Equivale isto por dizer que a pacificação que se mostrava ao mundo estava longe de ser real. Os confrontos repetiam-se na capital e pelos ares uíjanos também aqui e ali surgiam algumas escaramuças - já que principalmente a FNLA e o MPLA queriam afirmar-se no território, não raras vezes confrontando-se de forma armada, intervindo as tropas portuguesas para apaziguar os ânimos.
«Continuaram os movimentos emancipalistas as suas actividades de politização, verificando-se que a área do Quitexe é quase na íntegra da FNLA, enquanto nas de Aldeia Viçosa e Vista Alegre se verifica uma  mesclagem deste movimento com o MPLA, o que tem dado aso a situações da atrito, entre eles», historia o Livro da Unidade, referindo-se a Janeiro de 1975.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

1 126 - Os passeios turísticos às Quedas do Duque de Bragança


Andavam os políticos de Lisboa a desbaratar a revolução e, por estes dias de Janeiro de 1975, a preparar a Cimeira do Alvor e, no Quitexe, ensaiava-se uma intervenção cultural e recreativa para "exibir" em Carmona e faziam-se excursões a Malange, às Quedas do Duque de Bragança, ao Cacuso - porventura a outras localidades do mapa turístico do norte angolano.
Machimbombos, para tal, ora essa...., nem pensar. O pessoal arrumava-se como podia numa berliet e lá ia todo ele a cantar e a rir, bebericando e pulando em festa, pelas estradas de asfalto da Angola calorenta que nos recebia, como mãe, irmã e amiga!! E eram extraordinárias as imagens que se descobriam, delas sendo exemplo majestático as fabulosas Quedas do Duque de Bragança. Realmente, espantosas para os nossos olhos - nada habituados a todas aquelas magnificiências da mãe-natureza!
A fotografia do post mostra um grupo da 3ª. CCAV. 8423 (a de Santa Isabel, mas ao tempo já no Quitexe) numa dessas muito popularizadas viagens do tempo, nela se reconhecendo o Rabiça (sublinhado a amarelo) e o Querido (a roxo, assim me parece). E o da boina, ou m´engano ou é o Ricardo. Alguém pode identificar os outros Cavaleiros?
- RABIÇA. Ângelo Tuna Rabiça, furriel miliciano enfermeiro, da 3ª.  CCAV. 8423. Professor aposentado, em Vila Real.
- RICARDO. Alcides dos Santos da Fonseca Ricardo, furriel miliciano atirador de cavalaria, da 3ª. CVAV.. Mora na área de Lisboa.
- QUERIDO. José Adelino Borges Querido, furriel miliciano atirador de cavalaria, da 3ª. CCAV. 8423, funcionário público e empresário em Lisboa.
- MACHIMBOMBO. Autocarro, assim se chamava em Angola.
 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

1 125 - O Almeida, alferes miliciano e oficial de justiça

Alferes Garcia, 1ºs. sargentos Barata e Aires e alferes Almeida

O Almeida era alferes miliciano. Chegou ao Quitexe em rendição individual, por meados de Julho de 1974, e eu mesmo, casualmente de serviço, o anfitrionei na paragem do autocarro que o fez chegar de Luanda ao solo uíjano e, depois, até à guarnição do BCAV. 8423. 
O alferes Almeida era oficial de reabastecimentos. Matava, mas era a fome!!! Mais tarde, também foi o de justiça e a ele caiu a ingrata tarefa de elaborar processos disciplinares a um alferes e um furriel milicianos. Estávamos em finais de 1974.
Coube-me a mim ser o «secretário» e deveria redigir os autos, nos termos de um RDM que eu manifestamente desconhecia mas que, valha a verdade, muitas vezes nos era atirado à cara pelo capitão Oliveira. E disso - da minha ignorância em termos de elaboração de autos - fiz eu questão de lhe sublinhar, quando fui reclamado à secretaria do comando do BCAV., onde ele trabalhava.
Eu ia lá agora escrever autos!! Um dos arguidos, furriel miliciano, até era amigo próximo e já por uma vez o livrara de apertos, que agora não vêm ao caso.
Falei com o alferes Garcia: «Ó pá, então temos operações, patrulhamentos, escoltas, serviços e ainda tenho de ser escriturário?! E, ainda por cima, o (fulano) é amigo...», disse-lhe eu, comovendo-o para a minha recusa em secretariar o oficial de justiça.
Pusemo-nos a caminho, à fala com o alferes Almeida: «Bem vês, ó Almeida, o furriel está quase permanentemente de serviço e ainda vai ter de fazer isso dos autos?», observou-lhe o Garcia. E tal, e tal, e tal! E eu a ver no que aquilo dava.
O alferes Almeida olhou-me de lado, arrumou uns papéis e sorriu-se. Ele tinha (e tem) um sorriso suave, que se lhe adivinhava cúmplice, e disse: «Pronto, eu faço os autos...». E fez, deixando-me baldado a tal tarefa.
Já agora, o alferes «apanhou» 3 dias de prisão disciplinar, agravada para 8 dias de prisão disciplinar agravada, no Comando de Sector do Uíge. Reside na Figueira da Foz. O furriel «apanhou» 5 dias de prisão disciplinar agravada, depois agravada no CSU - para 10 dias de prisão disciplinar agravada. Faleceu em Amarante, onde residia, a 14 de Julho de 2005.
- ALMEIDA. José Alberto Alegria Martins de Almeida, alferes miliciano. Licenciado em economia e arquitectura, empresário em Albufeira e Cônsul de Marrocos no Algarve.
- ALFERES E FURRIEL. Eram ambos da CCS e intencionalmente omitimos os seus nomes.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

1 124 - As vésperas quitexanas da Cimeira do Alvor



Aos meados de Janeiro de 1975 murmurava-se pelo Quitexe a cada vez mais iminente saída para Carmona, a capital da província do Uíge. Hoje, a cidade, assim denominada. Mas, e a nota, muito reservada, era do comandante Almeida e Brito, passada pelo alferes Garcia à malta do PELREC, «aguardava-se o que resultaria da Cimeira do Alvor» - que pelo Quitexe, ao tempo, se chamava da Penina, o nome do hotel.
A cimeira, de resto, «polarizou todas as atenções», mas por estes dias de Janeiro de 1975 ainda se faziam as suas vésperas e ao chão quitexano não chegavam muitas informações que nos esclarecessem minimamente. Especulava-se, aventava-se, sonhava-se, supunha-se e, principalmente desejava-se. Desejava-se que nos dissessem o dia do regresso a casa.
O Quitexe militar impacientava-se, é verdade, mas a guarnição mantinha-se serena, na expectativa e cumpridora dos seus deveres, embora agora «lutando com grande falta de meios humanos». Já não tínhamos, recordemos, as Companhias de Vista Alegre (CCAÇ. 4145) e do Liberato (CCAÇ. 209/RI 21), o Pelotão de Morteiros e os GE 217 e 223 (do Quitexe), 222 (de Aldeia Viçosa) e 208 (de Vista Alegre).  
O ar bem disposto dos Cavaleiros do Norte da imagem é  testemunha da boa disposição quitexana: ali temos o Cândido Pires (à civil), o Cruz, o José Pires, o Reino, o Lopes, o Morais e o Belo, com o Lopes à frente, sentado. Todos com olhar feliz, se bem que nostálgico!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

1 123 - Os primeiros dias do Batalhão de Cavalaria 8423

A 8 e 9 de Janeiro de 1974, chegou  ao RC4, em Santa Margarida, a maioria do pessoal que viria a formar o Batalhão de Cavalaria 8423. Já por lá militavam alguns de nós, adiantados aos praças que iriam fazer a sua formação militar de atiradores.
Ao chegar de véspera (uma segunda-feira, dia 7), tivéramos oportunidade de conhecer o então tenente-coronel Almeida e Brito, que viria a ser o nosso comandante. Eu, o Neto e o Monteiro fazíamos passar o tempo com uma jogatana da cartas no bar dos cabos milicianos, a meio da manhã, quando fomos reclamados para ir ao Destacamento. Já lá estavam alguns soldados, outros cabos  milicianos e aspirantes a oficiais milicianos, sargentos e oficiais do quadro. Era o final da manhã e foi, podemos dizer,  o primeiro encontro, informalíssimo, dos futuros Cavaleiros do Norte.
Os contactos mais formais foram nos dias seguintes (8 e 9, uma terça e uma quarta-feira), já com o organigrama do batalhão muito mais detalhado, não sei mesmo se já na forma definitiva. 
O Livro da Unidade refere «uma reunião de trabalho em que estiveram presentes os quadros do BCAV», que foi «precedida de uma palestra a todo o pessoal, na qual foram expressos os princípios básicos da vida que teriam de nortear a vida do BCAV. durante o tempo em que, como Unidade constituída, vivesse no RC4 e na RMA».
Vejam bem, isto foi há 37 anos. Todos nós éramos uns meninos e ali nos preparávamos para a guerra. 

domingo, 8 de janeiro de 2012

1 122 - O furriel Costa do Pelotão de Morteiros

Flora, Costa, Belo, Bento e Abrantes no Quitexe (1974)

O Costa foi um companheiro muito especial da guarnição do Quitexe, onde foi furriel do Pelotão de Morteiros 4281. E faz tempo que tentava achar uma fotografia dele, que o mostrasse e lembrasse a esta boa gente que se partilha no blogue. E para saber dele!
Tinha de a encontrar! Que diabo, o Costa! E o que será feito dele? Pois aqui está ele, de gargalhada solta, na porta da entrada do bar de sargentos do Quitexe, em abraço fraterno e largo com outros companheiros.
O Pelotão de Morteiros 4281 chegou a Luanda a 17 de Abril de 1974 e era comandado pelo alferes Leite, açoreano que desde 1976 faz vida nos Estados Unidos. Furriel, era também o Pires, para além do Costa. 
O PM 4281 esteve uns dias no Grafanil, como era da «ordem», e marchou para o Quitexe - onde foi anfitrionado pelo Batalhão de Cavalaria 4211. E ele mesmo, o PM 4281, já anfitrionou o Batalhão de Cavalaria 8423, que ali chegou a 6 de Junho do mesmo ano de 1974.

Os seus primeiros homens a abandonar o Quitexe saíram a
 20 de Dezembro de 1974, indo para Carmona, até que a 4 de Janeiro de 1975 se completou a rotação. O pelotão ficou pela capital do Uíge até Março seguinte, quando partiu para o Grafanil, antes de regressar a Lisboa.

Felizmente, sem ter quaisquer feridos ou mortos na sua campanha angolana.
E o Costa? O que será feito do Costa?


sábado, 7 de janeiro de 2012

1 121 - O dia de reunião do MFA/Angola em Carmona

Comandante Almeida e Brito e capitão Falcão (oficial adjunto) no Encontro de 1994. Furriéis Cruz e Viegas, na avenida do Quitexe (em baixo)


A 7 de Janeiro de 1975, o comandante Almeida e Brito (tenente coronel) e o capitão Falcão (oficial adjunto e 2º. comandante em exercício do BCAV.8423) estiveram em Carmona, no Comando de Sector, reunidos com outras unidades, por «necessidade de estabelecimento de contactos operacionais».
O mesmo acontecera no dia 3 e, depois, a 28 de Janeiro. A 5, estiveram em Vista Alegre, na 1ª. CCAV., a de Zalala - comandada pelo capitão Castro Dias. A 23, na 2ª. CCAV., a de Aldeia Viçosa, do capitão José Manuel Cruz. E a 18, no BC12 - que ia ser extinto.
Murmurava-se pelo Quitexe, a esse tempo, a mais que provável deslocação dos Cavaleiros do Norte para Carmona e muito provavelmente para ir ocupar o BC12, tal como efectivamente veio a acontecer. Mas nada de seguro se sabia e a agitação emocional da guarnição era por isso bastante. Do Acordo de Mombaça (aqui ontem falado), pouco sabíamos (ou nada), para além do acordo entre os 3 movimentos que, porém, em armas, se combatiam em Luanda e outros pontos do território.
Almeida Santos, então ministro da Coordenação Interterritorial, comentaria anos depois, sobre a reunião de Mombaça, que "foi quase um milagre conseguir sentá-los (aos líderes dos movimentos) à mesma mesa, porque a guerra civil já estava no auge, principalmente em Luanda, onde já se estavam a matar uns aos outros"
Ao tempo, a guarnição quitexana ansiava por dias a passar rápido e marcava férias do ano. E eu  e o Cruz (ele delegado do MFA e eu suplente) estivemos reunidos em Carmona, no mesmo dia 7 de Janeiro, no Comando de Sector, com um grupo de oficiais do MFA/Angola vindos de Luanda que, na prática, vinham «dar ordens». Que não foram muito bem recebidas e suscitaram uma discussão muito agreste.
«O que é que eles percebiam da situação militar que se vivia na província do Uíge, para lá chegarem e mandar bitaites?», ainda na 4ª.-feira passada nos interrogámos (eu e o Cruz), a almoçar em Lisboa e a recordar os nossos dias de Janeiro de 1975! E já lá vão 36 anos! Do que disse nessa reunião, ouvi polida reprimenda de Almeida e Brito - que, porém, entendi como elogio.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

1 120 - A Cimeira de Mombaça, em vésperas de Alvor...


Avenida do Quitexe (ou Rua de Baixo) em 1974/75. Esquina da casa dos furriéis, messe de oficiais (cor de rosa e telhado de chapa) e messe de sargentos (ao fundo, casa branca)

O ano de 1975 abriu, para os três movimentos de libertação de Angola, com a realização, de 3 a 5 de Janeiro, da Cimeira de Mombaça, no Quénia - que, em boa fé, criou uma plataforma para a negociação com Portugal, na que se aproximava Cimeira do Hotel  Penina, no Alvor (Algarve), de 10 a 15 de Janeiro
.
As conversações da FNLA, do MPLA e da UNITA com os novos governantes de Portugal, levaram á assinatura do chamado Acordo de Alvor - negociando os termos da independência de Angola. 
«A cimeira polarizou todas as atenções, já que, primeiramente, na de Mombaça, parecia, pela primeira vez, ter-se conseguido uma comunhão de interesses de todos os movimentos», lê-se no Livro da Unidade (o BCAV. 8423) - citando a.
Ao tempo, mal (ou nada) informados sobre essas altas diligências, a guarnição quitexana fazia a sua vida normal, soprando do Portugal europeu repetidas (contra)informações sobre a iminência do nosso regresso. Chegavam-nos em forma de aerogramas e cartas (da família e dos amigos) e também de alguma imprensa - o Jornal de Notícias e o Expresso, os jornais que lá chegavam com algum atraso.
O que não faltava - e até, aliás, levedava bem substantivamente... - era o azedume de parte da comunidade civil europeia em relação aos militares, vulgarmente acusados de cobardes e traidores. E repetiam-se algumas escaramuças entre elementos dos movimentos que se iam instalando nos meios urbanos.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

1 119 - O adeus do Pelotão de Morteiros 4281...

Grupo de militares do Pelotão de Morteiros 4281 em confraternização, no Quitexe, em 1974




A 4 de Janeiro de 1975, completou-se a mudança do Pelotão de Morteiros 4281 para Carmona, onde ficou até que o destino os levou a Luanda e depois a Lisboa. 
A saída do Quitexe começara a 20 de Dezembro e inseria-se no processo de mutação do dispositivo militar da zona de acção do Batalhão de Cavalaria 8423. Recordemos que as fazendas do  Liberato, de Zalala e Santa Isabel já tinham sido abandonadas pela tropa portuguesa. Assim como Luísa Maria! E que os Cavaleiros do Norte se concentravam, agora, ao longo da estrada do café - a que ainda hoje liga Luanda a Carmona (a hoje cidade do Uíge!).
Os «morteiros», comandados pelo alferes João Leite, já jornadeavam pelo Quitexe aquando da nossa chegada à voa, a 6 de Junho de 1974 - continuando como reforço activo da guarnição. 
Sempre foram bons companheiros.
A sua rotação para Carmona (a cidade de Uíge), por outro lado, significava mais um passo no caminho que todos mais desejávamos percorrer: o do regresso. Indo eles, lá iríamos nós. Era uma questão de tempo. Os primeiros dias do no ano novo de 1975, começavam a ser riscados no calendário, entrávamos nós no sétimo mês de comissão.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

1 118 - Natal, Ano Novo e desenfianços para Carmona...

Entrada do Quitexe, na estrada do café, em Julho de 2010 (Foto By Bembe)
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A. CASAL FONSECA
Texto



Estou aqui a recordar-me da noite de passagem de ano, no Quitexe de 1972/1973. Não terá sido muito diferente das restantes Companhias, até porque não havia muito por onde inventar. 
Sabia-se, isso sim, que haveria lugar a grandes copofonias, para não dizer bebedeiras e alguma algazarra, e que as coisas não iriam correr muito bem,  face a tantos e minuciosos preparativos! Fora da vila sentia-se alguma insegurança, e não foi por acaso que nas semanas que antecederam o natal se fizeram mais operações militares que o habitual. Tínhamos, portanto, que estar ainda mais atentos no período de Natal e ano novo - foi este o recado dado pelo nosso Comandante. Para no-lo dar, mandou reunir toda a Companhia e, num tom grave, deixou sérios avisos a todos os que pisassem o risco por ele imposto! Não estragou a festa a ninguém, nem era o seu objectivo, mas deixou bem claro que os festejos não poderiam, em alguma circunstância, colocar em risco a segurança dos militares, dos civis e da própria vila! Por experiência própria, sabia bem que o período natalício era melindroso! 
Terminou assim: «Confio em todos, não me desiludam! Boas Festas!».

Sei que houve alguns abusos, apesar da apertada vigilância, mas nada de muito grave. Algumas bebedeiras, dois ou três na enfermaria, por não aguentarem as bebidas alcoólicas mais fortes, e houve até quem se descontrolasse e viesse chamar pela mãezinha, para a rua! Chorou que nem um desalmado e, por fim, adormeceu sentado no chão, tal qual uma criança! E, tal como a uma criança, levei-o ao colo para a cama, onde ficou a dormir profundamente! O “valentão” que tudo aguentava, fora-se abaixo! Como os melhores! Ainda hoje, faço questão de lhe lembrar o episódio! Para chatear, claro!

O rescaldo das festas natalícias quitexanas, para alguns não foi lá muito famoso! Principalmente para quatro que se desenfiaram e só voltaram ao Quitexe no dia 2 de Janeiro! Depois de uma farra em Carmona, apanharam boleia para o Quitexe, mas para não darem nas vistas quiseram fazer o percurso a pé, a partir do quartel dos Voluntários! Mas não acabaram de o fazer, porque o próprio capitão, numa das suas famosas incursões pelos arredores, lhes deu boleia até ao aquartelamento! Ficou sem fala, o quarteto, quando viu o jeep parar na berma oposta! Ficaram sem pingo de sangue, sem reacção, quando pensavam que tudo correra tão bem! Foi pena rapazes, mas deixem lá porque, segundo se constou, gozaram que se fartaram!
ACF

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

1 117 - Outros dias de ano novo de 1975...

Ano novo e mais caras novas, neste desfilar de imagens que são de há 36 anos, no Quitexe da nossa saudade, em dia 1 de Janeiro. Olhem ali para o bigodaças da esquerda; é o Fernandes, de mão dada ao Ribeiro e ao tempo enamorado de uma estudante de medicina e agora professor. Depois sou eu (e o meu bigodinho) e o Belo, já caras conhecidas. E lá mais atrás, idem, idem, está o Bento.
Cara nova, entre o Bento e o Flora (o mais à direita), está o inimitável Costa, furriel do pelotão de morteiros e que por esses dias fazia o seu adeus ao Quitexe. O Costa era singular: não bebia álcool (Deus me livre!) e um belo dia conseguimos pô-lo com os copos, fazendo de conta que sumo e cachaça era uma mission (um refrigerante angolano).
Do Ribeiro (de mãos no Fernandes) já falámos. Temos depois o sr. professor, o Rabiça - dois anos mais velho que nós, já homem feito, ao pé dos outros meninos. E o Graciano e o Abrantes, este de cachimbo, como ele gostava de esfumaçar. Escondido, tapado pelo Abrantes, parece-me ser o Lopes (de quem também já aqui falámos).
Como bem se vê, em pleno processo revolucionário que e tão se punha em curso, não faltava boa disposição na guarnição do Quitexe. E era tudo gente boa
- FERNANDES. António da Costa Fernandes, furriel miliciano atirador de cavalaria, da 3ª. CCAV. 8423. Professor, em Braga.
- COSTA. Furriel do pelotão de morteiros. Desconheço o paradeiro.
- RABIÇA. Ângelo Tuna Rabiça, furriel miliciano enfermeiro, da 3ª. CCAV. 8423. Professor aposentado, mora em Vila Real.
- GRACIANO. Graciano Correia da Silva, furriel miliciano atirador de cavalaria, da 3ª. CCAV. 8423. Empresário agrícola, em Lamego.
- ABRANTES. Joaquim Cardoso Abrantes, furriel miliciano ao tempo colocado no Quitexe. É director escolar em Castelo Branco.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

1 116 - Ano novo, whiskys de sempre....



Ontem, em dia de Ano Novo, aqui mostrei foto de alguns dos miúdos do Quitexe, da CCS e da 3ª. CCAV. 8423, que por lá, em 1975, mataram as saudades natais com boa comida e uns copos. Nem de propósito, o Belo  mandou-me mais - entre elas, esta, tirada na saída do bar de sargentos. Somos quase os mesmos, os da imagem de ontem. Mas há mais.
O da esquerda, em cima, de bigode, imortalizou-se por lá, por causa do papapaio - que ainda fez chegar a Portugal e que nós fizemos questão de ensinar a dizer uns vernáculos bem ditos e muito usuais no ambiente militar. É o Bento e algumas vezes se envergonhou ele com o palavreado a ave.
A seguir, estamos o Rocha, eu mesmo, o Flora e o Lopes - de quem ontem aqui falámos. Depois, vejam só, o Capitão, que era... furriel. É um dos Cavaleiros do Norte que já partiu, falecido a 5 de Janeiro de 2010. Sexta-feira se farão dois anos. Saudades, amigo! 
Depois,  mesmo à direita, o Ribeiro, da 3ª. CCAV. 8423, a de Santa Isabel.
Em baixo, malta conhecida pelo menos desde ontem: o Carvalho, o Belo, o Lopes e o Reino - todos da 3ª. CCAV.
Vê-se bem que não faltava a boa disposição e não foi lá por estarmos em zona de guerra (zona 100% operacional) que deixámos de regar a chegada do ano novo a whisky e lá se vê o Ribeiro a «despejá-lo», de garrafa na mão. Bem me parece ser uma Johnny Walker, que era muito popular, assim como uns brandy Vital e Macieira, para aquecer as noites de cacimbo africano. 
- BENTO. Francisco Manuel Gonçalves Bento, furriel miliciano de Reconhecimento, Informação e Operações, da CCS. Natural do Barreiro, reside em França.
- RIBEIRO. Delmiro da Silva Ribeiro, furriel  miliciano atirador de cavalaria, da 3ª. CCAV.. Engenheiro e aposentado da EDP, residente em Vila Real.
- CAPITÃO. Luís Ribeiro Capitão, furriel miliciano atirador de cavalaria, da 3ª. CCAV. Foi motorista da CP e faleceu a 5 de Janeiro de 2010. Residia em Ourém (Fátima). 

domingo, 1 de janeiro de 2012

1 115 - Dia de Ano Novo de 1975 no Quitexe

O dia de ano novo de 1975, há curtinhos 36 anos foi passado em beleza, na capital quitexana dos Cavaleiros do Norte. Rancho reforçado, feriado, secretaria, oficinas e serviços fechados, à ordem estava o pessoal nomeado para a segurança do aquartelamento. E, como não podia deixar de ser, lá estava eu de serviço. Sargento de Dia à Unidade. Não podia falhar. Já aqui contei que se faziam apostas para os dias especiais do ano em que eu, fatalmente, estava de serviço.
Para o caso e passados 36 anos, pouco interessa tal minudência e a vida ajudou a que todos percebamos estas coisas. É a vida, afinal!
E o que é que fará esta malta da foto, estes furriéis milicianos todos, estes anos todos, depois?
Ali à esquerda, de bigode e em cima, está o Carvalho, atirador da 3ª. CCAV., a de Santa Isabel: reformado da PSP e fazendo vida pelo Entroncamento.
A seguir e a rir, o Lopes, atirador, também de Santa Isabel: empresário da área têxtil, em Lisboa.
O outro de mãos nos óculos, é o Lopes, enfermeiro, da CCS (Quitexe). Agora, tesoureiro das Finanças de Vendas Novas.
O de óculos e bigode, na fila do meio, à esquerda, é o Belo, furriel de alimentação da 3ª. CCAV. É, agora, aposentado da administração fiscal.
Outro bigodaças, ao meio, é o Reino, operações especiais (rangers) de Santa Isabel. Aposentado da GNR.
Depois o Flora, atirador da 3ª. CCAV. e agora quadro superior da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa.
O Rocha, o bigodes de baixo, era de transmissões e agora é vendedor.
Sobra a minha pessoa, de boca aberta a gargalhar e apertado no pescoço pelo Reino. Era operações especiais (rangers) da CCS quitexana. Faço pela vida em Águeda, como antes de ir para a tropa.
Tirando o Lopes, que «desapareceu do mapa» (salvo seja...), todos os outros Cavaleiros do Norte reunidos nesta foto de dia de ano novo de 1975 se contactam de quando em vez e ficam uma eternidade «pendurados» ao telefone, a falar da nossa jornada africana da Angola, por terras do Uíge.