terça-feira, 6 de dezembro de 2011

1 089 - Negócios de combustíveis que chegaram aos tribunais...

Martins e Casal, da CCS do BCAÇ. 3879, no Quitexe


O dia que antecedeu a nossa partida do Quitexe, foi para despedidas e fotos, ora com amigos civis, ora com companheiros, no jardim da vila.
Sentado ao meu lado direito, está o Martins, operador de mensagens, que esteve sempre envolto em polémicas, desde o dia em que assentou arraiais no Quitexe, até ao dia da partida. Não era, nem é, mau rapaz, não senhor, mas a sua infância e juventude foram demasiado madrastas, com tudo o que isso viria a acarretar, até na vida militar! No entanto, era exímio na sua especialidade e extremamente educado no trato com todos. Leal, mesmo, e com grande sentido de companheirismo.
O problema dele era, também, o problema de outros…de muitos – um praça ganhava pouco e não dava para loucuras! Pois é, mas o Martins trazia hábitos faustosos lá do Cais do Sodré! Noitadas, boa vida e alguns etcs. que me escuso de aqui referir, ao tempo tão ousados e até chocantes para um provinciano, como era o meu caso! Enganou-se quem pensou que a sua vida, no Quitexe, iria ser monótona, sem mordomias e longe do que estava habituado! O Martins engendrou esquemas que não passariam pela cabeça do mais imaginativo, obtendo conhecimentos e assim alargando o seu leque de negócios, principalmente na área dos combustíveis! Mas o que é que um operador de mensagens tinha a ver com combustíveis?!, será legítimo perguntar! Nada, mas o certo é que, quase num toque de mágica, o Martins auto-promoveu-se a empresário de sucesso! Quem diria?! Ele que nunca trabalhara, realmente, na vida civil, mostrava finalmente o que valia!
Mas os últimos negócios não correram da melhor forma e ficou a ver os pagamentos por um canudo! E quem estava a vê-los, os pagamentos, também por um canudo, eram os proprietários dos bares Topete e Pacheco, que foram dar com a língua nos dentes para o Comando! Ai, ai..., se eles abdicavam das contas dos bifinhos com batas fritas e ovo a cavalo, dos frangos devorados com cerveja e dos camarões acompanhados com vinho verde, em grandes noitadas! O Martins, que sempre pagara as suas contas, desta feita viu alguns “amigos” virarem-lhe as costas! E agora?!...
Mas lá houve uma alminha caridosa que lhe adiantou o dinheiro, tipo troika mas sem juros, para que o Martins pudesse respirar fundo e levar a vida para a frente, noutras paragens. E levou, mas exactamente igual à do Quitexe, direi até mais atribulada, mas com outros “sócios”, alguns, fazendeiros ambrizetanos!
No final da comissão, a cena viria a repetir-se, mas com contornos ainda mais complicados! Que se resolveram, com toque daqui, toque dali, também com uma cunha pelo meio, para não perder o voo que o levaria ao aconchego dos amigos – a sua única família! Chorou baba e ranho, desesperou mas conseguiu enfiar-se no avião!
Agora, o que me causa estranheza, e até me dá vontade de rir, é o facto de os ditos negócios, quitexanos e ambrizetanos, por falta de equidade na distribuição dos lucros (refere o queixoso), terem sido entregues a um advogado, quase dois anos depois da passagem à disponibilidade! Então o 1º. cabo «gasolinas» foi meter o sócio e amigo 1º. cabo Martins nas barras dos tribunais por causa dos “negócios” de combustíveis, e outros?! Dos tempos da tropa?! C’um raio, só podiam ser grandes negócios! Parece de doidos! Dá para embasbacar!
E 37 anos depois continuam de costas voltadas por causa das contas da gasolineira! Isto não faz sentido! Ou eu estou a ver mal a coisa?!
Agora, interrogo-me eu do alto da minha ingenuidade e ignorância! Mas então, o Martins e o “gasolinas” tinham alguma empresa de distribuição de combustíveis, e outros, enquanto militares?! As coisas que eu desconhecia!
Talvez mo esclareçam quando, e se, eu conseguir a proeza de os juntar à mesa, com os filhos e netos de ambos! Nunca se sabe!!!
ANTÓNIO CASAL DA FONSECA
CCS da BCAÇ. 3879



segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

1 088 - Notícias do Portugal de há 37 anos

Neto e Viegas no seu quarto da Casa dos Furriéis do Quitexe

O Neto voltou de férias e trouxe notícias frescas. Da nossa Águeda (minha e dele) e de uma mão-cheia de amigos comuns, da política local e das labaredas revolucionárias que incendiavam Lisboa e chegavam à província feitas em fagulhas e cinzas.
Não dava grande coisa pelo futuro próximo - o Neto! - e, sobre os partidos políticos, falava até com algum distanciamento, embora entusiasmado com o país que se fazia novo.
Deu conta da abertura da sede do PS em Águeda e de comícios que, mais ou  - menos por todas as freguesias, todos os partidos políticos faziam. Já se falava nas eleições (viriam a ser as Constituintes de 25 de Abril de 1975) e os activistas políticos do tempo, preparavam as suas manobras de aliciamento. E quem eram os políticos de Águeda? Não vem ao caso aqui dar conta dos seus nomes (não são para aqui chamados), mas bem nos rimos de alguns. Quem eles eram antes, quem se faziam agora!! - nesse distante Dezembro de 1974.
Já a 2 desse mês, o Diário do Governo publicou a lista de não eleitos e não eleitores, devido ao seu passado político. Dela soube, pelo jornal que me chegou no dia 8  - que era feriado e um domingo - e tema forte foi para fartas tertúlias quitexanas. Alguns amigos nossos, estavam nessa lista.
Perguntas repetidas tinham a ver com a ideologia dos  partidos que, ao tempo, nasciam como cogumelos em Portugal. Alguém se lembra, por exemplo, do Partido Trabalhista Democrático Português? E do Partido Cristão Social Democrata? E do Partido Social Democrata Independente? Foram partidos da alvorada democrática pós-25 de Abril, de quem ninguém tem notícia desde esse tempo.

Notícias melhores que estas tinha levado o Neto, em mala de viagem: uma lata de unto Tóbom, cheiinha de rojões, feitos ao lume de minha casa, pelas mãos calejadas de quem ao mundo me trouxe, a senhora minha mãe. Agora, com quase 91 anos!

domingo, 4 de dezembro de 2011

1 087 - Os últimos dias de Santa Isabel

Fazenda Santa Isabel, onde esteve instalada a 3ª. CCAV. 8423


Os primeiros dias de Dezembro de 1974 foram de preparar o adeus a Santa Isabel, onde jornadeou a guarnição da 3ª. CCAV. 8423, comandada pelo capitão miliciano José Paulo Fernandes.
A 5 deste mês, hoje se completam 37 anos, foi visitada pelo capitão José Paulo Falcão, comandante interino do BCAV. 8423. Foi o seu adeus a santas Isabel!
Pode imaginar-se a alegria dos homens que, na história, ficaram como os últimos portugueses daquela fazenda - por onde passaram, desde 1961, milhares de militares.
Santa Isabel não era o fim do mundo, mas a solidão e o perigo que por lá se sentiam nesses anos todos, foram companheiros de muitos momentos de medos e de heroísmos. Por lá se sentiram muitos lutos e tristezas de alma. A ida para o Quitexe, para os Cavaleiros de Santa Isabel, era mais um passo - e importante! - na viagem de regresso a Portugal. Que ainda teria etapas em Carmona e Luanda.
A rotação da guarnição de Zalala para Vista Alegre e Ponte do Dange dera nota da dificuldade em gerir os meios auto, gestão feita «à custa de verdadeiros sacrifícios». Não seria menos fácil a evacuação de Santa Isabel, mas foi materializada com entusiasmo pela guarnição - pudera!!!!... -, ora no desmantelamento da estrutura militar assente, na extinção que por estes dias de Dezembro de 1974 se ultimava; ora no fechar das malas e sacos com os bens e recordações pessoais.

sábado, 3 de dezembro de 2011

1 086 - Os movimentos chegaram do mato...

Militares dos movimentos em Vista Alegre. O furriel Dias em primeiro plano 

Os primeiros dias de Dezembro de 1974 foram tempo de os movimentos emacipalistas abrirem delegações em Carmona. E de, seguidamente, criarem secretarias no Quitexe e em Vista Alegre. Eram tempos novos para todos, tempos de inimigos de ontem se darem hoje de mãos, para construir um futuro novo, uma nova nação.
Havia, porém, desconfianças.
Não tanto da parte dos movimentos - FNLA e MPLA, nomeadamente, mas também a UNITA, pelo norte menos representada -, dos movimentos para com a tropa portuguesa, mas principalmente entre eles. 
«Adivinha-se um reserva latente, entre os dois movimentos, já que na área predomina a FNLA», sublinha o Livro da Unidade. Porém, por todo o mês de Dezembro de 1974, não se registaram  incidentes especiais. No Quitexe, pelo menos, não tenho memória de ter acontecido nada de especial.
«Não se tem verificado actos que possam preocupar», sublinha  Livro da Unidade.
Quem não aceitou de boa maneira e grado a presença dos movimentos nas áreas urbanas foi a população civil europeia. O Livro da Unidade, curiosamente, refere que «continuava pensando com reservas sobre o seu futuro, mas aceitando de bom grado, pelo menos aparentemente, a presença efectiva dos movimentos». Não seria bem assim.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

1 085 - O alferes Carvalho de Aldeia Viçosa e dos Marrazes

Neto e Viegas (em cima) e Carvalho (em baixo). Angola, 1974

O comandante interino do Batalhão de Cavalaria 8423, capitão José Paulo Falcão, esteve reunido no Comando do Sector do Uíge, em Carmona, a 2 de Dezembro de 1974. Há 37 anos!!! Vejam lá como o tempo passa! «A constante evolução dos acontecimentos», refere o Livro da Unidade, implicava «o estreitamento de contactos entre comandos, necessários mais que nunca». Hoje, eram para aí 11 horas, tocou o telefone. Era o Domingos!! Domingos Carvalho de Sousa, que por Aldeia Viçosa e na 2ª. CCAV. 8423 fez tropa contemporânea.
«Eh pá, Viegas..., tou a caminho de Águeda, vamos almoçar!», disse-me ele, a conduzir de sul para norte, perto de Coimbra. Ficou combinado!
Liguei ao Neto, que pelo Quitexe, Carmona e Luanda furrielou comigo, no mesmo PELREC que nos enriqueceu para a vida, e lá fomos os três, ao João da Piedade. Ao quê? Ao leitão, pois claro. E para falar de quê? Ora bem, de tropa e dos Cavaleiros do Norte.
E falar, falamos..., lá isso falámos.
Mas o tema maior da conversa do trio foi a... crise. Não se vende, não se compra, não se paga, não há emprego, estamos falidos (aqui o termo não foi propriamente este, embora rimasse...), os diabetes, o colesterol, o ácido úrico, eh pá... e os ossos!! Dói aqui, dói ali... e eu a ouvir a especializada conversa do Neto e do Carvalho, que conhecem os termos médicos destas maleitas na ponta da língua. Então e os meus ais?!! Ora essa, também tenho isso tudo, menos a diabetes. Bom, pronto, olhem... cá nos aguentamos todos, na nossa pré-sexagenaridade que se pode e não propriamente a que se quer!
Tá fixe, o Carvalho: sempre palrador, bem disposto, belísimo contador de histórias e com juventude que nem a frescura de uma alface a sair da horta.
Hoje, voltou a ser feriado nacional dos Cavaleiros do Norte.
- CARVALHO. Domingos Carvalho de Sousa, alferes miliciano atirador de cavalaria, da 2ª. CCAV. 8423, a de Aldeia Viçosa. Técnico de vendas, agricultor e vitivincultor, natural e residente em Marrazes (Leiria).

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

1 084 - O alferes miliciano que depois foi médico em Águeda


Andava eu hoje para aqui a tratar de coisas que nada tem a ver com os Cavaleiros do Norte, quando os olhos se pousaram sobre um anúncio de jornal, de há precisamente 30 anos - Dezembro de 1981. Olha, Honório Campos, médico especialista!!! Mas este era o médico militar do Quitexe?!!! Exclamei-me, para mim mesmo e interrogado!
Apurei melhor as ideias e, não fosse a idade fazer-me a memória mais trôpega que o que é, fixei o anúncio da página 2 do jornal, reli-o, trerreli-o e confirmei: Honório Campos!!!
Honório Campos, exactamente! Consultório no largo Dr. João Elísio Sucena, mesmo em frente ao rio Águeda, num espaço onde estacionei centenas e centenas de vezes por aquele tempo, por, por esse tempo, prestar serviços ali ao lado, a uns 60 metros. E nunca o vi! É espantoso!
As virtudes profissionais e pessoais do alferes miliciano médico Honório Campos - foi asim que eu o conheci, no Quitexe, há 37 anos!!!... - já aqui foram sublinhadas. Vale hoje a memória do médico para acentuar a sua (dele) carreira, que o trouxe pelo chão de Águeda, servindo centenas e centenas de doentes da sua especialidade.
Um deles, meu companheiro de cavaqueira de café, quase diária, ainda hoje é doente dele - agora no consultório do Oita, em Aveiro. Ainda há dias desbragámos o riso, com uma peripécia epidérmica desse amigo, o Orlando  - que, vejam lá as coincidências, também jornadeou pelo Quitexe, em meados dos anos 60, e pelo Quitexe ficou atraído.
E sabem como é que redescobriu o dr. Honório, por lhe per perdido o rasto e dele precisar? Pois foi ao google (o Orlando), debitou Honório Campos e não se admirem do que lhe apareceu. Justamente: o post que acima destacamos e que fala dos méritos do médico militar. Depois, foi espreitar o blogue e vê-lo ali, na coluna da direita, com cara de 20 e poucos anos.
A minha continência, alferes miliciano médico Honório Campos.
- CAMPOS. António Honório de Campos, alferes miliciano médico em Santa Isabel, Quitexe e Carmona, servindo as guarnições militares do BCAV. 8423 e as comunidades civis. Aposentado, mora em Coimbra e ainda dá consultas em Aveiro.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

1 083 - Adeus, Novembro de 1974, ao meio ano de Angola...

Ponte do Dange vista do aquartelamento do mesmo nome (1974)


A 13 e 19 de Novembro de 1974 reuniu, no Quitexe, a Comissão Local de Contra-Subversão (CLCS) - que a 2 de Dezembro mudaria de nome, com efeitos práticos da data de 11 seguinte. 
AS CLCS agiam directamente junto das populações, através de meios de acção psicológica e com o objectivo de influenciar o seu comportamento, no sentido de uma maior fixação no território e negar o apoio a elementos infiltrados - aos chamados terroristas. Era uma espécie de braço civil não armado (com militares) de apoio às Forças Armadas. Não creio, agora vista à distância de 37 anos, que tivesse um efeito muito prático.
Tal comissão, de resto, passava praticamente despercebida da guarnição e não creio, também, que a comunidade civil lhe desse importância por aí além. Alguns civis, aliás - e como já por várias vezes foi dito por este blogue - tinham muitas vezes comportamentos duplos. Quem sabe - e nunca saberemos... - quantas informações dessas reuñiões não terão sido passadas para o inimigo. Deus lhes perdõe!!!
Operacionalmenmte pouco ocupada, para além da garantia de segurança nos principais itinerários (de resto, bastante cansativa...), a guarnição ocupou-se, também, neste mês de Novembro de 1974, da protecção às brigadas da JAEA nos trabalhos de requalificação da estrada do café - de Aldeia Viçosa a Ponte do Dange - e de um troço da estrada (picada) do Quitexe para Camabatela.
E já lá iam seis meses da comissão em Angola. Hoje se fazem precisamente 37,5 anos da chegada da CCS a Luanda, por via aérea.
- JAEA: Junta Autónoma de Estradas de Angola.


terça-feira, 29 de novembro de 2011

1 082 - O GE que ameaçava disparar de rajada...

O bar do Rocha, na estrada principal do Quitexe (a do café) à entrada da vila, do lado de Luanda

O que é que o 29 de Novembro tem a ver com os Cavaleiros do Norte? Foi um dia como muitos outros. mas foi também véspera do início do processo de desactivação dos GE, no Quitexe.
A história já aqui foi falada. Vem hoje ao blogue para falar de um momento de elevada perigosidade, vivido no bar do Rocha, onde, bem entrado no álcool, um GE almeaçou disparar sobre tudo o que bulisse. E, muito especialmente, sobre um jovem oficial miliciano português. 
Não recordo o dia - aliás, a noite... -, mas lembro-me que não desarmava o GE, cambaleante e notoriamente embriagado, de G3 na mão e sabe-se lá se com bala na câmara. Veio a apurar-se que não. Não desarmava e mantinha a bravata insolente e leviana, ameaçando disparar, de rajada - o que deixou toda a gente que enchia o bar do Rocha com os cabelos em pé. De medo, a suar em bica, em suores frios, a adivinhar uma tragédia.
Serenaram-se os medos quando o GE, continuando embriagado e muito cambaleante (mal se aguentava de pé...), aceitou «negociar» e foi sugerido para a disciplina militar a que estava obrigado.
«Eu não dás os arma..», disse ele, tropeçando nas sílabas e nas pernas. Mas deu e foi um grande alívio.
Sem ela ficou, dormiu no posto 5 e foi entregue à justiça militar. Meses depois, creio bem dizer que sem o processo concluído, foram desactivados os GE e nunca mais se soube dele. Provavelmente, foi mais um militar do ELNA. Ou das FAPLA. Quem sabe?!
- GE. GRUPO ESPECIAIS (GE). Unidades auxiliares formadas em 1968, constituídas por voluntários africanos de etnia local, que operavam adidas às unidades do Exército Português. No seu auge, em Angola existiam, 99 grupos GE de 31 homens, cada. O BCAV. 8423 tinha adidos os GE 217 e 223 (à CCS, no Quitexe), o 222 (à 2ª. CCAV., emAldeia Viçosa) e o 208 (à CCAÇ. 4145/72 em Vista Alegre).

- ELNA. Exécicto Nacional de Libertação de Angola, braço armado da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), antiga União dos Povos de Angola (UPA).
- FAPLA. Forças Armadas de Libertação de Angola, braço armado do MPLA - Movimento Popular de Libertação de Angola.
- POSTO 5. Posto de vigilância e defesa do Quitexe. Funcionava como prisão militar, no rés-do-chão.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

1 081 - O princípio do adeus a Santa Isabel...


Novembro, finais do mês de 1974. É grande a azáfama por Santa Isabel - onde jornadeia a 3ª. CCAV. 8423, comandada pelo capitão miliciano Paulo Fernandes. Está por um dia, a partida definitiva.  
«Foi mantida a actividade desenvolvida do antecedente, excepção feita à 3ª. CCAV., na qual de iniciaram os preparativos para o seu movimento para o Quitexe», lê-se no Livro da Unidade, referindo-se a toda a guarnição do BCAV. 8423.
A Santa Isabel chegaram os Cavaleiros do Norte a 11 de Junho de 1975, assumindo a responsabilidade operacional da zona de acção. Não era o degredo, Santa Isabel!!! Mas não era, também a praia do Mussulo, ou a restinga e ilha de Luanda, por onde se passeavam corpos de ébano (e outros), de fazer lamber o queixo de desejo.
A picada, até à estrada do café, era uma dor de cabeça e de alma para quem, fazendo pela vida ou cumprindo missão militar, por lá tinha de galgar quilómetros de pó e de curvas, aqui e ali fechadas de mata densa, por onde espreitavam perigos para quem por ela tinha de passar. Por lá passei algumas vezes, sempre de olho aberto e sentidos  bem apurados. Mas mais, muitas mais vezes, por ela se empoeiraram os companheiros de Santa Isabel.
Há 37 anos, faziam malas e arrumavam as pequenas coisas pessoais, para o adeus a um sítio marcado pela guerra, desde 1961.
Sábado passado, dia 26 de Novembro, outros 37 anos se passara sobre um comício em Vista Alegre. A FNLA procurava mentalizar a população local para as suas ideias, «procurando anular a influência local e de área» que por aquelas bandas, diz o Livro da Unidade, «o MPLA possui».

domingo, 27 de novembro de 2011

1 078 - O Zé de Murça!!!


Aquartelamento do Quitexe, na zona assinalada a roxo.
A castanho, o espaço das casernas, em 1974/75. A verde, a capela


ANTÓNIO C. FONSECA
Texto

Volto à revista às tropas, para dar conta do incidente com o amigo Zé. Nascido e criado em Murça, era talvez o militar mais discreto da CCS. Discreto até demais, mas com muito pouco, ou mesmo nenhum, sentido de humor! Teve sempre muita dificuldade em relacionar-se com pessoal de outras especialidades, não tendo conseguido mais de dois ou três amigos - os colegas de quarto! Era preciso estudar o homem, antes de se lhe dirigir a palavra, porque nunca se sabia o que dali sairia! Ora sorria de orelha a orelha, ora despejava um chorrilho de palavrões, assim…do nada!

No dia da revista às tropas, entendeu o capitão passar o Zé, em revista minuciosa e prolongada! Talvez pretendendo fazer dele o “bobo da corte”, exagerou nas considerações demasiado inconvenientes e piadas de mau gosto, a que ele apenas “respondeu” com um rubor das faces! Melhor, das faces, do pescoço e se calhar até do couro cabeludo, se tal fosse possível! Mas manteve-se imóvel, aguentando tudo, sabia-se lá como! Até que, depois de despejada a gaveta dos seus objectos pessoais para cima da cama, vê o capitão usar a «varinha» para atirar para o chão as fotos da família! Delas, em tamanho grande, fazia parte uma dos pais, tirada em estúdio, como em tempos se usava. Talvez ainda use!
«Não meu capitão…, isso não!...», disse-lhe o Zé, energicamente e ao mesmo tempo que segurava a varinha do capitão com mão de aço! Tinha deixado de estar em sentido e virara-se para o capitão, o que nos deixou perplexos e aflitos! Rangeu os dentes e sem pestanejar avisou (sem aspas) o capitão: «Os meus pais não!!!...».
Não lhe deu resposta o capitão, olhou-o de alto a baixo e em silêncio deu meia volta, acompanhado da “comitiva”, guiado, pareceu, por sussurros do alferes!
Claro que ficámos em pânico, preocupados com o que iria acontecer ao Zé!

Estranhamente, ou nem tanto, o incidente não constou de qualquer relatório! Talvez não tenha sido fruto de um apelo à consciência, mas de conversa ao ouvido por parte de alguém mais ponderado! E que era, sem dúvida alguma, o Sargento-Ajudante, por quem toda a Companhia nutria uma grande admiração. Ali houve puxão de orelhas, isso houve!
Poderá pensar-se que se safara o Zé duma grande embrulhada, mas quem o conheceu bem tem a noção de que se safaram os dois! Assim dito, poderá parecer um pouco estranho, mas não o é! Nada mesmo! “Cuidado porque na tropa há filhos de muitas mães”, era das frases mais ouvidas, quando se assentava praça, e que serviu que nem uma luva no caso em questão! Não no sentido pejorativo, mas no desconhecimento da sua personalidade.
Sei que o assunto morreu ali, e nem o próprio Zé alguma vez dele voltou a falar! Meia hora depois do incidente, parecia-nos que nada se tinha passado com ele, não indiciando nervosismo! À parte, perguntámos ao Pinto, ainda de camisa ensopada do nervoso miudinho, como estava o seu colega de quarto, mas a resposta foi apenas: «O Zé?!, o Zé ia-me matando do coração e está ali como se nada fosse e a falar de outras coisas! Vê-se que não o conheces, “aquilo” é bem de Murça, parece um penedo!!!».

sábado, 26 de novembro de 2011

1 077 - Zalala, a mais rude escola de guerra

Zalala ficou sem tropa portuguesa a 25 de Novembro de 1974, mas ficou na lenda da jornada militar angolana. O blogue de José César mostra-nos um recorte do Jornal A Província de Angola, de data indeterminada (infelizmente), que titula «Quitexe - Posto de Honra  /// Zalala - a mais rude escola de guerra».
Ampliando a imagem (basta clicar sobre ela) e com um bocadinho de paciência, consegue-se ler.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

1 076 - De Zalala para Vista Alegre e Ponte do Dange


A 25 de Novembro de 1974, completou-se a rotação da 1ª. CCAV. 8423, da mítica Zalala para Vista Alegre, terra aberta e rasgada sobre a estrada do café, no itinerário que ligava Carmona a Luanda. De lá saía, em fim de comissão, a CCAç. 4145/72 - regressada ao Grafanil e à espreita do voo para Lisboa.
Não é difícil imaginar a alegria dos companheiros de Zalala, que saíam de uma fazenda imortal (e perigosa!!!) da guerra angolana e não mais tinham de fazer os infernais quilómetros (mais de 40!!!...) de picadas, até ao Quitexe - onde já se sentia o cheiro de alguma «civilização» e a vida era, quiçá, mais fácil para a guarnição.
A memória recua-me 37 anos, fugazmente, a lembrar-me da passagem das últimas viaturas - as berliets e unimogs carregados de material e militares de Zalala... -, pelo Quitexe e a caminho de Vista Alegre e Ponte do Dange, buzinando e com os últimos homens a gritarem de alegria, erguendo a G3 no ar, como se festejassem um título desportivo, ou uma qualquer outra vitória! 
Aqueles homens, aqueles rapazes da nossa idade, nossos irmãos e filhos de muita mãe e de muitos sítios, eram companheiros com o mesmo síndrome de saudade, o mesmo desejo de fim de comissão. E sentiam, e sabiam, como nós, que a rotação era mais uma etapa do nosso regresso, mais um passo para a frente de uma comissão que nos honrou e orgulha.
Eram, afinal, muitos e bons tempos! Hoje aqui recordados com nostalgia!

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

1 075 - O último adeus a Zalala, há 37 anos !...

Fazenda de Zalala, a mais rude escola de guerra (1974)


A esta hora, no ido dia 24 de Novembro de 1974, os últimos Cavaleiros do Norte de Zalala fechavam as malas para a despedida final da fazenda-mártir do norte angolano. Por lá, desde 1961, se semeou morte e regou o chão uíjano de sangue. Era o chão da «mais rude escola de guerra», como por lá se escrevia, em mural que assustava o mais herói. À entrada.
Há mil histórias de lágrimas e de dores, por lá sofridas, naquele assustador sertão onde se chegava por picada poeirenta e minada de perigos. Também por lá as senti, nas vezes que missões levaram o PELREC ao chão de Zalala. Mas, poucas vezes!
Heróis, heróis de verdade, foram todos os companheiros que, desde 1961, por lá jornadearam e sentiram o cheiro da pólvora e da morte, o medo da trovoada de bombas, das minas, armadilhas e emboscadas que espalharam sangue e lutos entre muita gente! Por lá viveram o drama de sentir, no corpo e na alma, a agressão de guerra - a guerra que não perdoa erros nem desculpa fracassos.
A 24 de Novembro de 1974, os últimos bravos e garbosos Cavaleiros do Norte de Zalala aprontaram os seus lenços de adeus àquele chão onde se entrincheiram tantos companheiros, tantas vezes, tão sofridas.
Ao outro dia, 25 de Novembro de 1974, completou-se a rotação zalaliana e fixaram-se os comandados do capitão Castro Dias em Vista Alegre, com destacamento em Ponte do Dange.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

1 074 - A nomeação para servir em Angola...


O que terá a ver 17 de Novembro de 1973 com os Cavaleiros do Norte? Muita coisa, ou nada - depende da forma como vejamos a situação. Por mim, pelo Neto e pelo Monteiro, é dia memorável, embora, na altura, nem tenhamos dado por tanto. Foi o da nossa mobilização, da qual apenas viemos a saber a 7 de Dezembro, quando tal foi publicada «à ordem», em Lamego. 
A Direcção do Serviço de Pessoal (DSP) da Repartição de Serviço de Pessoal (DSP) do Ministério do Exército, publicou nesse dia a Nota nº. 47 000 - Processo 33 007, nomeando «para servir no ultramar, nos termos da alínea c) do artigo 20º., do decreto-lei nº. 49 107, de 7 de Julho de 1969» um alargado grupo de militares do 2º. Curso de Operações Especiais de 1973 e, entre eles, nós os três nós.
Oa aí está de como esse dia foi tão relevante nas nossas vidas, «empurrando-nos» para uma comissão de serviço que, 38 anos depois, nos traz por aqui amarrados a este blogue.
Afortunados, em termos de mobilização, eu, o Neto e o Monteiro lá fomos parar a Angola. Tal como o Grilo, o Matos, o Rui Lucas e o Salgueiro, todos de Operações Especiais. Também para Angola e para o BCAV. 8423, o Rebelo (transmissões) - que foi da 2ª. CCAV., a de Aldeia Viçosa. Prestava serviço no CIOE, no aquartelamento da cidade de Lamego.
Companheiros desse dia que marcou destinos, e assinalados na mesma ordem de serviço, foram os «rangers» Manuel Ferreira, Américo Ferreira, Praxedes, Ribeiro, Pedro e Gama (todos mobilizados para Moçambique) e Rodrigues, Caldeira, Cristóvão, Couto, Alves, Zacarias, Sousa, Amaral e Santos (que foram para a Guiné). 
Agora, uma curiosidade: os três primeiros classificados do nosso curso foram mobilizados para a Guiné, a mais «detestada» por todos: o Cristovão (1º. lugar, com média final de 16,58), o Caldeira (2º., com 16,33) e o Fernando Rodrigues (3º., com 16,22). O quarto mais pontuado, o Gama, foi para Moçambique.


terça-feira, 22 de novembro de 2011

1 073 - O princípio do adeus a Zalala para Vista Alegre...


Vista parcial de Vista Alegre, na estrada de Carmona para Luanda.
Crachá da CCAÇ. 4145/72 (em baixo)

A 22 de Novembro de 1974, reuniu o capitão Falcão, no Comando do Sector do Uíge, em Carmona, com comandantes das outras unidades do dito CSU, naturalmente para preparar o movimento de rotação que se adibinhava antecipar a retirada da tropa portuguesa. Estávamos em Novembro e muito pó ainda haveríamos de «comer», até que tal acontecesse. 
Estou certo, todavia, que por esta altura já era conhecida saída para Carmona - o que, todavia, só viria a acontecer a 2 de Março de 1975. Embora, para nós, todas as semanas fossem vésperas.
O capitão Falcão era o oficial adjunto do BCAV, também o oficial de operações, e, na circunstância, o comandante do Batalhão de Cavalaria 8423, interinamente substituindo o tenente-coronel Almeida e Brito - de férias em Portugal. Nessa qualidade, reuniu com os comandantes do Sector do Uíge nos dias 8, 13, 18, 22 e 27 de Novembro.
A 21 de Novembro, foi a Vista Alegre, reunindo com o comando da CCAÇ.4145/72, que por ali jornadeava, até à Ponte do Dange, na fronteira com os Dembos. E, por essa data, preparava o seu arranque para Luanda.
Zalala, por estes dias, fazia as malas e preparava a viagem para Vista Alegre e Ponte do Dange. Assim determinava o plano de rotação da tropa portuguesa.
Vista Alegre e Ponte do Dange não poderiam ficar sem guarnição, essencialmente para assegurar a segurança na importantíssima estrada do café - que ligava Carmona a Luanda, passando por Quitexe e Aldeia, onde se aquartelavam a CCS e a 2ª. CCAV. do BCAV. 8423.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

1 072 - 22 anos!


Há 37, eu fiz 22 anos!!! E foi um «festão» (digo eu...), roubado à minha missão de sargento de dia, com jantar no Rocha, que meteu camarão (um luxo!!!), boas cervejas e muito cuidado nos excessos, pois estava de serviço e eu sabia que alguns «alguéns» espreitavam uma escorregadela minha, para me «premiarem».
Eu nunca tinha festejado anos, não era granda hábito da casa familiar, para além de no dia, se melhorar a refeição da noite, porventura com uns rojões, ou uma galinha no forno! Era frugal a vida desses tempos! E prendas? Ai, quais prendas!!!
Angola e o Quitexe deram-me a graça de sentir o «fazer anos»! E dá-me agora a nostalgia desse dia - em que me fiz «mecenas» da furrielada, pagando porto´s e brandys macieira (ou vital, ou aliança velha), ou uns bons tragos de wiskye, bebidas que por lá eram relativamente vulgares, a preços que se colhiam bem dos nossos bolsos. 
Hoje, 37 anos depois, surpreendeu-me o número de pessoas que me telefonaram, emailaram e facebookaram, fazendo-me lembrar - caso eu não soubesse, valha-me Deus!!!... - que estou imediatamente pré-sexagenário! Toma lá 59, CV!!! Toma e embrulha!!
Uma mensagem me emocionou, desculpem todos os outros correspondentes: a de um dos muitos angolanos (milhares!) do Uíge que, nos trágicos primeiros dias de Junho de 1975, a tropa recolheu na parada do BC12!!!
Dispenso-me da riqueza de pormenores com que este angolano veio narrar-me o que pensa, agora, daqueles que aos 22 para 23 anos, participaram no processo de independência de Angola! E lhes deram guarida, pão e vida! É emocionante!
Foi bom fazer 22 anos, envolvido num processo da grandeza histórica que foi o do nascimento de um novo país e dele, e nele, ter colo de amigos que nos mandam recados em dias como este.
Abraço para todos!
E para todos os Cavaleiros do Norte - e respectivas amazonas - que, neste 21 de Novembro de 2011, me encheram de mimos!
Ver AQUI
E AQUI

domingo, 20 de novembro de 2011

1 071 - Revista às tropas...

Casal e Mário no Quitexe, antes de uma revista às tropas


A revista às tropas, na CCS, era sempre motivo de preocupação. Não havia alferes, furriel ou praça que não fosse passado a pente fino! Farda, barba, cabelos, patilhas, etc., tudo teria de estar um brinco, não havendo margem para qualquer descuido.
Assim foi feito!

A foto foi tirada quando se fazia um compasso de espera pelo capitão, que viria acompanhado do oficial, sargento e cabo dia. Talvez viesse também o comandante, que era de poucas falas e deixava alguns a suar, só de os olhar! Nunca percebi bem porquê, mas era assim mesmo!
Satisfeito e convencido estava eu, a conversar com o Mário, o voluntário, fazendo fé na minha apresentação - bem escanhoado, roupa engomadíssima e sapatos a brilhar de graxa!
«Com tantos cuidados ainda levas um louvor…ou então ainda te f…., que é o mais certo!», gracejava o Mário, que se achava desobrigado da revista por estar de baixa!
Por volta das 11 horas, finalmente a revista! Sem o comandante, mas com o capitão bem áspero e a remexer tudo o que havia nos quartos, na esperança de pegar fosse pelo que fosse! E pegou mesmo! Começou logo pelo Nunes, alegando que não tinha feito a barba! Mas o Nunes tinha lá alguma barba?! Tinha apenas meia dúzia de pêlos no queixo e outros tantos no lugar de bigode, a que no dia-a-dia não dava valor! Pois é, mas eles realmente estavam lá a “rir-se” para o capitão!
O Mário, contente por estar isentado, levou uma ripada por três razões: por usar bigode sem autorização, andar de calções armado em havaiano e não estar fardado como se impunha! Estava de baixa, mas continuava militar!
Mas eu estava confiante, parecia o espelho da nação! Enganei-me, fui traído pelas mangas demasiado arregaçadas!´
«Você pensa que está na praia?!», questionava-me o capitão!
Até o Pinto, tão certinho, viria a ouvir uma piada por causa da foto da namorada!
«Ouça cá, o que é que ela está aqui a fazer ao pé da cama? Tem medo de dormir sozinho, tem?!, também a leva p’rá mata?!».
 Fez-se o Pinto vermelho e gago, sem saber onde havia de se meter, e a engolir a saliva que já não tinha!
O Zé foi o último a ser confrontado com a revista minuciosa. Uma revista que, por razões várias, ultrapassou alguns limites e originou uma situação grave, das que nos deixam as pernas a tremer, de tão insólita, brusca e desconcertante! Dela falarei oportunamente.
Passada a revista, foi chamado o furriel de transmissões afim de mostrar a escala de serviço do seu pessoal, não tivesse algum trocado o serviço para dar corda às botas para Carmona, logo que terminasse a revista, o que não aconteceu!
O que encolerizou ainda mais o capitão!
Soube-se que a revista daquele dia tinha sido arrasadora, o que causou até algum mal-estar entre os oficiais e sargentos, “punidos”, veio a saber-se, com aparadelas de patilhas e cortes de cabelo. Para não dar nas vistas, soube-se também, foi-lhes concedida uma semana para regularizarem a sua apresentação! Os praças, como sempre, fizeram fila à porta da barbearia, para que todos vissem quem eram os incumpridores! Assim o disse o capitão, no seu tom pausado mas implacável, como era seu apanágio sempre que a vida lhe era madrasta! E como lhe estava a ser madrasta! Por sua exclusiva culpa…ou dos seus ímpetos!..., e mais não digo!!!
O comandante não terá ficado nada agradado com os resultados da revista, tendo estes sido amaciados e contornados com alguma frases e gargalhadas de ironia num seio restrito de oficiais! Soube eu, por acaso e recentemente, em amena conversa que lembrou factos de há 37/38/39 anos! Apesar de tudo, bons tempos, num tempo em que o cabedal aguentava tudo! Ou quase!
ANTÓNIO CASAL FONSECA

sábado, 19 de novembro de 2011

1 070 - Aerograma de Portugal, para os 22 anos...



«Meu filho,
desejo que ao receberes estas minhas linhas te encontres bem, nós por cá vamos na forma do costume e com as dores que não me deixam, mas será como Deus quiser. O que eu queria mais era ver-te por cá, embora me digas que tudo corre bem e que estás bem, o meu coração de mãe atravessa-se de um negrume muito triste e diz-me que as coisas por aí não devem ser bem assim como dizes.   
Chegou cá a mulher do José Bernardino, com uma encomenda tua, que arrumei ali na sala, à tua espera.
(...)".
A 19 de Novembro de 1974, uma quarta-feira, recebi correio de minha mãe, antecipando os meus 22 anos (que seriam a 21) - dia de sexta-feira que ela iria passar na solidão da sua viuvez recente, com problemas de saúde e com o filho mais novo na guerra. E guerra, por muito que eu lhe dissesse que era assim ou assado, nada do que por cá se pintava, guerra era... guerra, coisa de muito sofrimento, de sangue e de mortes. ~
O pai dela, meu avô, fora combatente da 1ª. grande guerra e faleceu (como civil) quando ela tinha 8 anos, filha mais velha de quatro irmãos, dele lhe ouvira, em criança, narrativas de muitas tragédias.
Agora, em 1974, era o filho dela mesma quem, servindo Portugal, galgara milhares de quilómetros, abandonara o seu ninho de mãe e, como muitos  milhares de outros jovens, participava na guerra que iria emancipar Angola.
Hoje, ali desfrutando o calor da lareira, fui ler-lhe o aerograma.
«Hei, mãe... quem diria que hoje lhe iria ler o que escreveu há 37 anos», brincalhei eu, com ela.
«Escrevi-a a um domingo para a receberes antes do dia 21», respondeu-me, a puxar o xaile para os ombros e com as costas da mão virada para mim- como quem me dar com ela na cara. E sorriu-se, a gozar o momento e não sem uma alfinetada de humor: «Nesse tempo, tinhas muito mais cabelo e menos barriga que agora!».
- FOTO. Casal Fátima e José Bernardino Resende (com
a filha Alexandra à frente), Albano Resende e sobrinha, Viegas (à civil) e
capitão Domingues (primo de Fátima),
em Luanda. Dias antes dos seus 22 anos de Viegas. Há 37!

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

1 069 - As traições e a presença portuguesa...


Hoje, dia 18 de Novembro de 2011, foi feriado nacional dos Cavaleiros do Norte. Isto, porque o Neto (à direita na voto) e o Viegas (à esquerda) estiveram num almoço das 12,20 às 17,50 horas da tarde. Perdão, da noite.
Não há forma de dizer a coisa de outra forma. 
Isto até pode parecer presunção!!! Feriado nacional dos Cavaleiros do Norte, mas o que é isso, ó pá?!!!!! Pois que seja, mas foi uma tarde inteirinha a falar da tropa, do Quitexe, de Carmona, de Aldeia Viçosa, de Santa Isabel, de Zalala, de Luanda, de Angola.
O Chico Neto, bom de palavra e de memória afinada, veio lembrar a pouca vergonha de um fazendeiro cabo-verdeano que nos traiu (traiu a tropa portuguesa...) e foi duplo (ou triplo) agente no tempo em que fomos garantes da presença portuguesa em Angola.
Sobre este matéria, aliás, não há grandes dúvidas - de então e de agora! Havia gente que lidava com a tropa portuguesa com a mesma facilidade com que, nos seus domínios territoriais (as fazendas, as vilas, as aldeias...)  facilitava a entrada de militantes e combatentes da FNLA. Ou do MPLA, para o caso é o mesmo. Por lá, a presença da UNITA era pouco visível.
Destacou-se a estas memórias a assumpção que todos assumíamos da soberania portuguesa: tínhamos o controlo do território, o domínio militar e a hospitalidade dos nativos. A que podemos associar, sem exagero, a capacidade de miscegenação da raça lusitana.
Por alguma razão ouvíamos todos nós, ontem e hoje, o presidente José Eduardo dos Santos a dizer da sua afinidade e cumplicidade com  os problemas que hoje fragilizam a sociedade portuguesa. É isto que sabe bem dizer, 34 anos depois do tempo em que muitos de nós eram actores da transição.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

1 068 - A formação política dos militares do Quitexe

A 15 de Novembro de 1974, foi publicado um suplemento que incluía o decreto-lei que estabelecia quem não poderia ser elegível ou eleitor nas Eleições Constituintes que se viriam a relizar a 25 de Abril de 1975, um ano depois da revolução.
A lista era longa, enchendo meia página do jornal que lá me chegou, e foi tema de acaloradas discussões no bar e messe de sargentos. Abrangia uma imensidão de cargos públicos exercidos entre 28 de Maio de 1926 e 25 de Abril de 1974
A nossa politização era curta (nenhuma!!!) e o pouco que sabíamos era nascido das ideias que, quem de férias tinha vindo a Portugal, para lá nos levava, muitas vezes embrulhadas em confusões - até pelo uso do novos termos do léxico político. 
Tudo sabia a novidade, para nós, enquanto por cá já se desembuxavam teorias por tudo quanto era partido: os hoje convencionais PS, PSD (então PPD), CDS/PP, PCP e PCPT/MRPP, o MPD/CDE (entretanto extinto) e até o PPM, ou os meteóricos PCSD, PTDP, PSDI, o PUP, o MES, a UDP, o MES, a UDP, FSP, LCI, FEC-ML,  alguns dos quais nem chegaram às urnas das primeiras eleições pós-25 de Abril.
Eu tinha pedido ao Neto para me mandar o que pudesse de papelada política, mas só em meados de Novembro lá me chegou a "encomenda" - que me deu horas de muita leitura e pouco entendimento. Mas foi motivo de muitas e acaloradas discussões entre a «furrielada» do Quitexe - às vezes até com muito exagero!
Nem quero lembrar a argumentação que se trocava entre Machados, Mosteias, Cruz(es), Pires e quantos outros, com as minhas colheradas pelo meio. Afinal, eu é que tinha a bola (a papelada), era eu, pois, que mandava no jogo (na conversa...). À distância de 37 anos, dá vontade de rir, se nos lembrarmos da ingenuidade dos nossos argumentos... políticos.
- PCDS. Partido Cristão Social-Democrata.
- PTDP. Partido Trabalhista Democrático Português.
- PSDI. Partido Social-Democrata Independente.
- PUP. Partido de Unidade Popular.
- UDP. União Democrática Popular.
- MES. Movimento de Esquerda Socialista.
- LCI. Liga Comunista Internacionalista.
- FSP. Frente Socialista Popular.
- FEC/ML. Frente Eleitoral de Comunistas / Marxistas-Leninistas.
- CARTAZ. Cartaz das Eleições Constituintes de 1975