sexta-feira, 16 de março de 2012

1 205 - O 16 de Março e os Cavaleiros do Norte...



A Revolta das Caldas, ou intentona, foi a 16 de Março de 1974 - hoje se completam 38 anos. O dia correspondeu ao primeiro, depois da visita inspectiva ao BCAV. 8423. Era sábado e a 18 (2ª.-feira) entrámos no gozo das chamadas Licença das Normas.
Ao tempo, os meios de comunicação estavam longe, muito longe, da velocidade de hoje e, por mim, apenas soube de tal à noite, no telejornal. E foi uma enorme surpresa, como é de calcular.
E o que foi a Revolta das Caldas? Dispensando o pormenor, foi uma resposta de militares do RI5 (da Caldas da Raínha) à demissão dos generais Francisco da Costa Gomes e António de Spínola dos cargos de Chefe e Vice-Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas. Outra versão aponta o acto como reacção à sessão de obediência ao Governo por parte da esmagadora maioria dos oficiais-generais e da hierarquia das Forças Armadas, no dia 14 de Março, quatro horas antes de Costa Gomes e Spínola serem demitidos, por se recusarem a comparecer. Outras interpretações, dão a revolta como o movimento precursor do 25 de Abril, a Revolução dos Cravos que derrubou o regime de Marcelo Caetano. Seria, pois, uma tentativa frustrada de golpe de Estado e cerca de duas centenas de oficiais, sargentos e praças foram detidos antes de chegarem a Lisboa, por forças leais ao governo.
A relação do movimento com o BCAV. 8423 teve a ver, apenas, com o facto de alguns oficiais milicianos terem estado detidos nas instalações que os 1ºs. cabos milicianos (futuros furriéis) ocupavam no RC4 - o que soubemos apenas depois de chegarmos da Licença das Normas, a 29 de Março de 1974. Ou até talvez depois.
- IMAGEM. Capa do Diário de Notícias 
com a notícia da Revlta das Caldas.

quinta-feira, 15 de março de 2012

1 204 - O dia da inspecção e da emboscada...



O PELREC, já em Angola. Alferes Garcia (o primeiro da direita, em pé) e 
furriéis Neto (o primeiro, da direita, em baixo) e Viegas (o sexto, da esquerda, de pé)


O PELREC estava preparadíssimo para o que desse e viesse da visita inspectiva de 15 de Março, mas nesse dia foi «colocado» como IN de outros pelotões e teria de «voar» sobre minas de armadilhas, com petardos e granadas a rebentaram no espaço e nos ouvidos da tropa que se preparava para a guerra de Angola.
Formados na parada do Destacamento, recebemos ordens do aspirante Garcia: «A ordem de operações é assim, assim e assado, têm de progredir por aqui e por acolá... Eu vou para tal parte!!!....». E pôs-se a andar.
Não nos disse, mas desconfiámos. Murmurou o Neto: «Vamos ser emboscados...». Também me parecia e chamámos os já 1º.s cabos, o Soares (o mais rebelde de todos...), o Ezequiel, o Albino, o Almeida (o mais velho de nós todos, mais dois anos...), o Pinto, o Vicente, todos chefes de equipa.
 «Vamos ser emboscados!!! Reage-se assim e assim, actua-se assado, atenção à voz de comando!!!...». E lá palavreámos a teoria parida da nossa prática instrutória de Lamego, com os tiques, os gritos, os golpes, os sinais, a forma de evoluir no terreno, os silêncios desses momentos, o olhar de lince que tudo tem de ver em redor e mais a frente e ao lado.
Lá fomos, pé sem tropeçar em arames e armadilhas, até que o Hipólito, de vista larga, desconfiou: «É acolá!...».
E era!
Era meio da manhã, já o pão barrado de manteiga se desfazia no estômago, e foi à frente o Neto, com mais dois ou três soldados. «Vamos mandar uma equipa, por ali e atacamos por acolá, tal e tal...», sugeriu ele. E assim foi. 
O grupo do Vicente fez de isca, mostrou-se e chamou atenções. O IN, a coçar a barriga na arriba da mata camuflada de muita vegetação, de arbustos e de sobreiros, esperava só que entrássemos na zona de fogo, que era um trilho muito estreito, rodeado de silvados e árvores dobradas, que faziam uma espécie túnel sobre quem por lá passasse. E era onde iríamos passar, onde seríamos massacrados. 
Só que o IN mordeu a isca e foi ele o atacado. Pelas costas e de lado, não teve por onde fugir e caiu no trilho que ele próprio tinha armadilhado. 
Pum, pum, pum, trã-tã-tã-tã-tã-tã-tã-tã..., o silvo das balas de instrução, o estourar das granadas ofensivas a encherem o trilho de poeirada, o ar a cheirar a pólvora seca e o IN apanhado com as calças na mão.
Ainda agora estou a ver o supremo gozo dos pelrec´s!, a delirar de prazer, pela partida pregada ao IN. De tal não gostou tanto o Garcia, que foi um dos emboscados e por uns dias gelou relações com os seus soldados. É que nunca acreditaram que eles não nos tivesse avisado. E não tinha.
- SOARES. Fernando Manuel Soares 1º. cabo, residente no Laranjeiro. O segundo, de bigode e do lado esquerdo da foto, em baixo.
- EZEQUIEL. Ezequiel Maria Silvestre, 1º. cabo, residente em Almada.
- ALBINO. Albino dos Anjos Ferreira. 1º. cabo, residente em Casal de Cambra.
- ALMEIDA. Joaquim Figueiredo de Almeida. 1º. cabo. já falecido, de Penamacor. O primeiro, em cima, do lado esquerdo.
- PINTO. João Augusto Rei Pinto,  1º. cabo, residente em Corroios (Seixal). O terceiro, a contar da direita, em cima.
- VICENTE. Jorge Luís Domingos Vicente, 1º. cabo. já falecido, de Alcanena. O primeiro da esquerda, em baixo, de bigode.
Ver AQUI

quarta-feira, 14 de março de 2012

1 203 - Encontro 2012 dos Cavaleiros do Norte do Quitexe

Casa da Vessada, em Paredes (Porto). Aqui se vão encontrar os 
Cavaleiros do  Norte do Quitexe e respectivas  amazonas, a 2 de Junho de 2012



Cavaleiros do Norte do Quitexe, atenção: Dia 2 de Junho, o encontro de 2012 é em Paredes (do Porto), na Quinta da Vessada, mesmo no parque da cidade onde o Monteiro faz pela vida e dorme o sono dos aposentados e eternamente enamorados. É ele quem organiza! 
Dia 2 de Junho, não esquecer!
O Monteiro era o mordomo de 2011, mas a vida atrasou-lhe a «operação». Adiou-a para este ano e, a  dar conta nas imagens que aqui mostramos, está a caprichar. O sítio parece abrir o apetite e não vão faltar emoções e saltos da palavra e do verbo, não se fecharão os olhos que vêem saudades desenhadas na alma e os corações que sentem a saudade dos tempos de 1974 e 1975.
O Monteiro «furrielou» nos Cavaleiros do Norte. Era um pé da trempe de furriéis do PELREC, que o Garcia comandava, com competência e sempre solidário, sem alguma vez cuidar de mostrar os galões de alferes. Era ele (mais dado a papéis), era eu e era o Neto.
O Monteiro já não é maçarico nestas coisas. Organizou o terceiro encontro, a 27 de Setembro de 1997, em Penafiel. Com missão cumprida, sem falhas!
Não tardará, entretanto, que a malta comece a receber o convite oficial (com a ordem de operação), mas os mais avisados já pode ir apontando 2 de Junho na agenda.
Os contactos para as necessárias inscrições são os do Monteiro: telefones 966724685, 912730350 e 255776765, email josemonteiro_@hotmail.com

terça-feira, 13 de março de 2012

1 202 - Os soldados maiores do aspirante Garcia...

Militares do PELREC do BCAv. 8423: Viegas, Francisco, Pinto, Caixarias 
e Garcia (em cima), Leal, Moreira (?), Hipólito, Aurélio, Madaleno e Neto


A 13 de Março de 1974, por volta do meio dia, o aspirante a oficial miliciano Garcia alertou-nos para a especificidade especial da semana de instrução que decorria desde 2ª-feira e era a última, antes do chamado período de férias de 10 dias - as Licenças de Normas, que antecipavam a partida para o ultramar.
«O pelotão tem de mostrar o que vale...», disse o Garcia, solene, imperativo, de rosto juvenil e quase imberbe (como os nossos), não querendo ficar mal na fotografia cujo flash se aproximava. E o que era, o que não era? Pois era a inspecção de instrução operacional, que estava marcada para o dia 15, uma sexta-feira.
O pelotão do aspirante Garcia, o futuro PELREC, era solidamente disciplinado, garboso, sem uma falha na marcha, ou na progressão, no assalto, ou no patrulhamento pela Mata do Soares que se fazia passar pela selva angolana. Sentia-se preparado, capaz, competente, fisicamente apto e mentalmente forte.
Horas de muita conversa - a psic.... -, nos dias de Santa Margarida, ditavam essa certeza. Eram rapazes simples, disciplinados, de boa educação, bons ouvintes do verbo com que lhes enchíamos a alma jovem, que se preparava  para a guerra. O Garcia, que se levedava de entusiasmo na messe de oficiais, fazendo elogios repetidos do seu pelotão - que era «o melhor, o melhor de todos!!!!...» -, dele fazendo lendas e glórias, viria a ficar bem no retrato de 15 de Março de 1974 quando, galgando um monte da Mata do Soares, em silêncio, sem um recuo, como gamos, agéis, ligeiros e valentes, os PELREC´s fizeram um golpe de mão ao grupo fiscalizador, liderado pelo coronel Lobato Faria.
Aqui estivesses tu, ó Garcia, e iria abaixo uma imperial! Ou duas!!! Ou três!!!
Os nossos companheiros, recorda-te lá, tinham orgulho por serem do (teu) PELREC!  Marchavam de joelhos bnem no alto e de botas bem batidas no chão. Tinham orgulho e garbo. Batiam a palada «à Lamego, à ranger» - assim lhes insistíamos nós, glorificando-lhe a alma e a vaidade. Ser do PELREC do 8423 era ser soldado maior. 

segunda-feira, 12 de março de 2012

1 201 - O Aurélio, que era atirador e cortador de cabelos...

Hipólito, Monteiro, Almeida, e Vicente (em cima), Garcia,
Leal, Neto e Aurélio (Barbeiro) na caserna do PELREC, no Quitexe (1974)

O Aurélio era atirador e barbeiro. Bom praça!!! Não pela condição de militar (que era), mas pela de cidadão e companheiro. Cortava cabelos, e até ameaçava dar umas tesouradas nas orelhas!, com a mesma ligeireza com que, amochilado e de G3 na mão, galgava as picadas vermelhas de Angola ou o um trilho mais medonho, por assustador e misterioso, na densa floresta uíjana.
Tinha palavra solta, o Aurélio! O Barbeiro!! Não a fechava, fosse por medo (que não tinha, de nada!) ou pelo que quer que fosse. Dir-se-ia, até, que era um pouco pró refilão, demasiado respondão para o feitio dos furriéis - que eram gente da mesma criação, da mesma idade, do mesmo ano, ele lá das barbas do Zêzere, nós (eu e o Neto) aqui pelas do Águeda e da pateira. 
Porque era refilão, digamos assim..., estava sempre na mira de quem punha a braçadeira verde, de serviço. Ora porque chegava a destempo da formaturas, com  a velha desculpa de estar no corte dos cabelos; ora, porque... sim! Um dia, quisemos (eu e o Neto) experimentar-lhe a paciência. E impedimos, por alguns minutos (poucos), que fosse rendido num serviço.  Ui, ui, ui..., espumou o Aurélio, que deveria ter alguma contratada (e sabíamos nos qual era). Veio ele dizer, mal-disposto e chateado que nem um perú, que não podia fazer o serviço, que o compromisso dele era «ir fazer o cabelo ao capitão». Pois que fosse (e não era), que dissesse ele ao capitão que o tínhamos impedido de ir! Que até lá íamos com ele!
Não quis.
Minutos depois, de propósito, encontrámo-nos com ele, no Topete, onde, em grupo de amigos, estava a  mastigar frango de churrasco carregado de piri-piri (ginguba, por lá assim se chamava) e a emborcar Cucas atrás de Cucas. «Então, ó barbeiro, já fez o cabelo ao capitão?», perguntei-lhe eu.
Que, sim senhora, tinha ido a casa dele, mas ele que o dispensara, por causa das dores nas cruzes, e que, por via disso, viera ali ao Topete. A filha do capitão, que era professora e mãe solteira, tal coisa viera dizer-lhe à porta. «Não querem comer?», perguntou ele, a desviar a conversa.
Sentámo-nos, eu e o Neto, comemos e bebemos, mais um frango e outro, uns dixotes e umas palavrões, olhem-me para aquela mulata, olhem pr´aquela, quando o Neto lhe diz: «Sabe, ó Barbeiro, você  vai levar uma porrada. Mentiu, para se safar do serviço! O capitão não está nada em casa, está ali na varanda da messe».
O Barbeiro corou, ligeiramente, mas não se desfez: «Foi a filha que eu disse que disse, não foi o capitão».  
Combinado, aproximou-se o Garcia, com a mesma lata: «Tenho de participar de ti. Mentiste...», disse-lhe. Aó, o Aurélio estremelicou. «Ó meu alferes, então... , mas!!!...».
O Garcia desmanchou-se e lá o pôs à vontade: «Para a próxima, também me convidas...». E fez-lhe entender que tinha sido alvo de uma brincadeira.
Não sei se estou certo, ó Barbeiro, mas isto não foi no dia dos teus 23 anos, a 23 de Fevereiro de 1975.
- GARCIA. António Manuel Garcia, alferes miliciano de operações especiais (Ranger´s). Faleceu a 2 de Novembro de 1979, vítima de acidente. Era de Pombal, Carrazeda de Ansiães.
- MONTEIRO. José Augusto Guedes Monteiro, furriel miliciano (Ranger´s). De Marco de Canaveses e residente em Paredes. Aposentado dos Transportes Colectivos do Porto e empresário.
- NETO. José Francisco Rodrigues Neto, furriel miliciano (Ranger´s). De Águeda, aposentado e empresário.
- ALMEIDA. Joaquim Figueiredo de Almeida, 1º. cabo atirador de cavalaria. Natural de Penamacor, faleceu a 28 de Fevereiro de 2009, vítima de doença.
- VICENTE. Jorge Luís Domingos Vicente, 1º. cabo atirador de cavalaria. Natural de Alcanena, faleceu a 21 de Janeiro de 1977, vítima de doença.
- HIPÓLITO. Augusto de Sousa Hipólito, 1º. cabo de reconhecimento e informação. Emigrante em França.
- LEAL. Manuel Leal da Silva, soldador atirador de cavalaria. De Pombal, faleceu a 18 de Junho de 2009, vítima de doença súbita.
- AURÉLIO. Aurélio da Conceição Godinho Júnior, o Barbeiro. Soldado atirador de cavalaria, de Pias (Ferreira do Zêzere). empresário comercial. 

domingo, 11 de março de 2012

1 200 - O Cabo Chico dos Caçadores do Quitexe!...


Igreja da Mãe de Deus do Quitexe, em 2012

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ANTÓNIO CASAL DA FONSECA
Texto


Ontem à noite, falei ao telefone com o meu amigo Cabo Chico, o carpinteiro oficial da CCS do 3879! Ligou-me ele de Viana, bem pertinho de Luanda, onde faz pela vida e exactamente na mesma profissão em que era exímio no Quitexe.

Foi mobilizado quando já nada o fazia prever, a escassos meses de terminar o tempo de serviço militar. Mexeu-se quanto pôde, revoltou-se e indignou-se, mas faltou-lhe o argumento/cunha e lá foi como todos nós! A sua alcunha – convém não esquecer que o seu nome é Albino -, nasceu precisamente do tempo de serviço que já contava, e que era do conhecimento de toda a CCS, inclusive do Comando. Atendendo a esta situação usufruiu, curiosamente, de alguma liberdade de expressão que a outros não era tolerada. 
O seu humor e ironia eram de fino requinte e, aliados à sua extrema educação e sentido de companheirismo, fizeram dele dos mais respeitados militares da CCS. Sem ponta de exagero!

Descreveu-me a Angola de agora, comparando-a com a de então, mas sem entrar em grandes detalhes – ficará para Maio, disse!

Quando no decorrer da conversa lhe confessei que no passado verão quase estive com um pé em Angola, com um empresário amigo, respondeu-me de imediato: «Nem penses, pá!!! Seria um grande erro na tua vida! Revisitei Ambrizete, onde estivemos, que agora é Nzeto, tirei fotos a tudo quanto era sítio, e sabes o que me sobrou?! Tristeza, angústia e desolação, não pela diferença física do espaço, que é naturalmente atroz, mas pelo vazio que se sente na alma! Há coisas que não conseguimos recuperar, meu amigo, e oxalá consigamos guardar as boas memórias, porque delas também nos alimentamos, por estranho que possa parecer!

Foi pouco mais ou menos com estas palavras, se não exactamente estas que, nostalgicamente e sempre no seu discurso pausado, me transmitiu o seu estado de alma, justificando-me assim o porquê de não se ter ainda deslocado ao Quitexe, conforme eu já lhe sugerira em outros contactos. Não me deu nenhuma novidade, já que é também este o meu pensamento!

E para final de contacto rematou: olha amigo, agora vou ali ao bar da frente beber umas cervejinhas frescas porque está um calor do caraças!..., neste campo, tudo continua igual…, é o que tem de melhor!

E lá foi o Cabo Chico saciar-se com umas cervejolas angolanas, tal como fazia na cantina do Quitexe e onde punha em prática os seus dotes de excelente conversador, de que não perdeu o jeito!

Desta vez, não precisarei de ler a sua mensagem enviada de Angola, já que planeou a sua vida para poder estar de novo connosco, após alguns anos de interregno! Ainda bem Cabo Chico, lá te esperamos!
ACF
2/03/2012

sábado, 10 de março de 2012

1 199 - O 2º. comandante e o novo médico do batalhão

Alferes Machado 2ª. CCAV.) e capitães Falcão e 
Themudo, na varanda interior do edifício do comando do BC12

Algures, por um dos dias de Março de 1975, o BCAV. 8423 deixou de estar «órfão» do 2º. comandante. Apresentou-se o capitão Themudo, que foi exercer essas funções - vagas desde as vésperas da nossa partida para Angola.
Ornelas Monteiro, major de cavalaria, era o oficial que exerceria essas funções e, por isso, se apresentara no CAV.. 8423, em Santa Margarida, a  4 de Fevereiro de 1974. Mas «por motivos imperioso de serviço» e por solicitação do Movimento das Forças Armadas, acabou por não nos acompanhar e, isso sim, foi deslocado, nas vésperas do embarque, para o Comando Chefe das Forças Armadas da Guiné (Bissau).
Actualmente com 72 anos, é coronel reformado e, em 2010, enviou uma cativante mensagem para o encontro dos Cavaleiros do Norte. Ver AQUI.
O batalhão, ao tempo, foi também «reforçado» com o médico Carlos Ferreira,e destacado em diligência do Hospital Militar de Luanda.
- THEMUDO: José Diogo da Mota e Silva Themudo, capitão de cavalaria. Mora em Lisboa e é coronel aposentado.
- FERREIRA. Carlos Augusto Monteiro da Silva Ferreira, alferes miliciano médico. Não consegui apurar a sua localização. Terá 66 para 67 anos.

sexta-feira, 9 de março de 2012

1 198 - A 2ª. CCAV. 8423 de Aldeia Viçosa para Carmona

Letras e Mourato na messe de sargentos de Carmona (1975)

A 2ª. CCAV. 8423 rodou para Carmona entre 2 e 11 de Março de 1975, abandonando Aldeia Viçosa - onde chegara a 10 de Junho do ano anterior. Ida do Campo Militar do Grafanil. E aqui chegada de Lisboa, a 4 do mesmo mês. Depois de Santa Margarida.
A companhia era comandada pelo capitão miliciano Cruz e, já no Grafanil, foi completada com um grupo de mesclagem: 36 homens angolanos, militarmente formados no RI 20. Já em Aldeia Viçosa, teve mais reforço: o GE 222.
As tarefas da guarnição militar de Carmona eram, assim, principalmente assumidas pela CCS e 2ª. CCAV. 8423, gente pouca para tantos serviços. Poucos mais militares sobravam no BC12 e, na ZMN, não seriam tantos assim. E, como por aqui já foi dito, os grupos de mesclagem tinham passado à disponibilidade e os GE sido desactivados. E havia uma cidade para segurar.
Não se queixou a guarnição e, com sacrifícios de monta (no plano pessoal e físico), tudo se foi fazendo e garantindo. Por mim, recordo estar de serviço (24 horas) quase dia-sim-dia-não, sendo muito vulgar sair de sargento de dia ou da guarda e, ao outro dia, fazer policiamento militar.
A tropa, embeiçada pela cidade e pelo que ela oferecia, aceitou a missão com serenidade e desbloqueava emoções nas tardes e noites carmonianas. Tropa bem instalada, quer no BC12 e melhor nas messes, como se vê na imagem.
- LETRAS. António Carlos Dias Letras, furriel miliciano de operações especiais (Ranger´s), da 2ª. CCAV. 8423. Empresário do ramo do mobiliário, residente em Palmela.
- MOURATO. Abel Maria Ribeiro Mourato, furriel miliciano vagomestre, da 2ª. CCAV. 8423. Aposentado da administração fiscal e residente em Vila Viçosa, onde é eleito da Assembleia de Freguesa de S. Bartolomeu. 

quinta-feira, 8 de março de 2012

1 197 - O Movimento de Viaturas de Logística - MVL


Movimento de Viaturas de Logística (MVL). Foto da net


Octávio Botelho (foto) prestou no serviço na Companhia de Artilharia 785, no Sub-Sector do Quitexe e nas fazendas Liberato e Santa Isabel, que tão bem conhecemos e, no caso dele, entre 1965 e 1967. Veio dar-nos conta do que era um MVL.
«Chamar ao MVL um movimento de viaturas ligeiras, não é correcto, pois essas colunas eram compostas maioritariamente por viaturas pesadas.A designação correcta deve ser Movimento de Viaturas de Logística.
As viaturas militares e os seus ocupantes - oficiais, sargentos e praças -, integrados no MVL, constituíam a respectiva escolta de segurança. 

As restantes viaturas pesadas civis transportavam mercadorias para os civis, géneros alimentícios e material para os militares e mesmo pessoal militar. Por essa razão, eram designadas pelo nome que lhes deram MVL - Movimento de Viatura.
- BOTELHO. Octávio Botelho, 1º. sargento ajudante, na 
situação de aposentado. Vive  nos Açores.

quarta-feira, 7 de março de 2012

1 196 - A chegada dos especialistas a Santa Margarida

Cruz, C. Pires, Mosteias, Neto, J. Pires e 
Rocha, furriéis no Quitexe

A 4 de Março de 1974, a Santa Margarida e ao RC4, começaram a chegar os especialistas que completaram o quadro de efectivos do Batalhão de Cavalaria 8423. Por especialistas, entendam-se os militares que não eram atiradores: transmissões, rádio-montadores e operadores-cripto, enfermagem, sapadores, mecânicos-auto e de armas, bate-chapas, alimentação, amanuenses e escriturários, condutores, cozinheiros e outros. Até um correeiro-estofador, um auxiliar de serviços religiosos, um analista de águas e um básico.
A família dos Cavaleiros do Norte formava-se, entre crescente amizade, conhecimentos e afectos novos, por sabermos que, pela frente, estava uma comissão de serviço que não teria menos de dois anos, no mínimo. Viria a ser de 15 meses, em Angola.
A lista é longa, incluindo os praças (1ºs. cabos e soldados) pelo que vou recordar alguns nomes. Desde logo, o comando do batalhão: tenente-coronel Almeida e Brito (comandante), capitão Falcão (oficial-adjunto) e tenente Luz (chefe de secretaria). Os médicos Leal (capitão) e Honório (alferes miliciano), já estavam em Angola.


CCS, a do Quitexe:
- Oficiais do quadro (2): Capitão Oliveira (comandante) e Mora (tenente do SGE). 
- Alferes milicianos (3): Cruz (comandante do pelotão mecânico-auto), Ribeiro (dos sapadores), Hermida (de transmissões) e Garcia (operações especiais, dos atiradores), todos da CCS. O alferes Almeida (reabastecimentos), apenas chegou em Julho e já no Quitexe.
- Sargentos (4): Machado (ajudante), Barata (operações), Luzia (secretaria) e Aires (mecânico) 
- Furriéis milicianos (15): Morais (mecânico-auto), Lopes (enfermeiro), José Pires e Rocha (transmissões), Dias (alimentação), Cruz (rádio-montador), Bento (reconhecimento e informação), Fonseca (amanuense), Machado (mecânico de armamento), Cândido Pires, Mosteias e Farinhas (sapadores), Monteiro, Viegas e Neto (operações especiais), 


1ª. CCAV., a de Zalala:
- Oficiais milicianos (5): capitão Castro Dias (comandante) e alferes Sousa (operações especiais) Pedro Rosa, Sampaio e Lains (atiradores).
- 1º. sargento (1): Alexandre Panasco (secretaria).
- Furriéis milicianos (13): Barreto (enfermeiro), João Dias (transmissões), Nascimento (alimentação), Manuel Dias (mecânico-auto), Pinto (operações especiais) e Mota Viana, Barata, Queirós, Rodrigues, Vitor Costa, Louro, Aldeagas e Eusébio (atiradores). 


2ª. CCAV, a de Aldeia Viçosa
- Oficiais milicianos: Capitão Cruz (comandante) e alferes Machado (operações especiais), Periquito, Carvalho e Capela (atiradores).
- 1º. sargento: Fernando Norte (secretaria).
- Furriéis milicianos (14): Mourato (vagomestre), Rebelo (transmissões), Chitas (armamento pesado), Cruz,  Ferreira, Martins, Matos, Brejo, Melo, Ramalho, Costa, Gomes e Guedes (atiradores) e Letras (operações especiais).


3ª. CCAV., a de Santa Isabel:
- Oficiais milicianos (5): Capitão Fernandes (comandante) e alferes Rodrigues (operações especiais), Simões, Pedrosa e Carlos Silva (atiradores).
- 1º. sargento (1): Francisco Marchã (secretaria).
- Furriéis milicianos (16): Belo (alimentação), Rabiça (enfermeiro), Lino (macânico-auto), Cardoso (transmissões), Guedes (armamento pesado), Ribeiro, Flora, Fernandes, Ricardo, Carvalho, Graciano, Gordo, Lopes, Capitão e Querido (atiradores) e Reina (operações especiais).
Já faleceram, tanto quanto temos conhecimento, o capitão Oliveira, o tenente Mora, o alferes Garcia, o 1º. sargento-ajudante Machado, o 1º. sargento Aires e o Furriel Farinhas (CCS),  1º. sargento Norte (2ª. CCAV.) e furriéis Guedes e Capitão (3ª. CCAV.).

terça-feira, 6 de março de 2012

1 195 - O Macedo do MVL e os militares castigados...


Camiões do Movimento de Viaturas de Logística (MVL)
 abasteciam os aquartelamentos do norte de Angola

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ANTÓNIO CASAL DA FONSECA
Texto

Aí pelos idos dias de Janeiro/Fevereiro de 1973, estacionou o MVL em terras do Quitexe. Ali esteve cerca de duas horas, tempo suficiente para o pessoal degustar a boa comida nos bares da vila. Quase se esgotou a lotação do Topete e do Pacheco e até a cantina dos praças.

O MVL era comandado por um alferes, alto, esguio e com a walter pendurada à cintura, à cowboy. A cara não me era estranha, embora “disfarçado” com óculos rayban, o que me levou a aproximar-me.

«Macedo…, o que é que andas aqui a fazer,  pá?!...», perguntei-lhe eu, ali em frente à secretaria, onde se iria apresentar e falar com quem devia.

Abancámos no Pacheco onde, para não fugir à regra, nos regalámos com o tradicional bife com batatas e ovo, enquanto desfiávamos o bom e o mau da nossa estadia em Angola. Ele estava bem pior que eu, tantas eram as chatices em que se via envolvido sempre que saíam. Tinha alguma dificuldade em controlar todo o pessoal, pelo facto de haver ali meia dúzia de homens com problemas disciplinares e que contaminavam outros!

E foi o que aconteceu no Quitexe! Copos a mais, algazarra e alguns pequenos distúrbios não passaram despercebidos ao comandante, que de imediato mandou chamar o alferes.

E lá foi o Macedo, ainda mal almoçado e já a adivinhar as chatices que o esperavam. Ele, que tudo fazia para controlar o pessoal pela via do diálogo, viu-se forçado a fazer duas participações!
«Tive pena pá, eram dois gajos que nunca tinham causado problemas, mas puseram-me entre a espada e a parede!...», dizia-me ele passados alguns meses, quando o reencontrei, por mero acaso, também e ainda no MVL, mas em Ambrizete.

Reencontrei e lá fomos de novo, não almoçar porque a hora era tardia, mas deliciarmo-nos com marisco que nos era servido, quase de borla, no Brinca n’Areia.

 E pescado, devo dizer, pelos soldados Damião (o” Peniche”), ao tempo pescador de profissão, e o Palma, que nas horas vagas trabalhavam para o proprietário da embarcação e do bar!

Também este quase esgotou a lotação, a exemplo dos do Quitexe, mas desta vez sem os incidentes provocados pelo álcool! Melhor dizendo, por quem o bebia sem regra!
ACF

segunda-feira, 5 de março de 2012

1 194 - As primeiras noites da cidade de Carmona

O BC12, visto de Carmona. A amarelo, o bloco residencial onde os furriéis milicianos viveram os últimos dias de Carmona


A 5 de Março de 1975, o comandante do Batalhão de Cavalaria 8423, tenente-coronel Almeida e Brito,  fez uma visita de cortesia ao Governador do Distrito do Uíge, ao Bispo da Diocese e aos Juízes do Tribunal. Ver AQUI.
A guarnição adaptava-se ao novo mundo que lhe proporcionava a cidade e não surpreenderam os pequenos e repetidos incidentes com a comunidade civil europeia. Para eles estávamos avisados e não seria por não termos forma de os contornar que não os procuraríamos evitar. E evitávamos. 
O Batalhão de Caçadores 12 (BC12) era a nova casa dos Cavaleiros do Norte, na estrada para o Songo e logo a saída de cidade, para aí uns 2 quilómetros, não mais. As instalações eram modernas, pouco (ou  nada) tendo a ver com a modéstia da serventia militar do Quitexe - onde continuou a 3ª. CCAV., a do capitão José Paulo Fernandes.
A guarnição, para além dos serviços normais, procurava a noite urbana, nas boas esplanadas, bares e restaurantes da cidade, idas ao cinema (ao Moreno e ao Ginásio), às piscinas e uns desenfianços ao Negage, ao Songo, a Salazar e a Sanza Pombo (uns ou outros) e, mais distantemente, a Luanda. 
O aeroporto passou a ser vulgar romaria da rapaziada, para ver o tráfego aéreo (nem tanto!!!) e, principalmente, para saborear as ementas do restaurante e abrir os olhos aos «desfiles» das raparigas da cidade - que lá faziam ponto de encontro, meramente social  ou para receber familiares e/ou amigos em viagem. Ir ao aeroporto, era coisa chique e fixe!
O Garcia chamou a rapaziada do PELREC e «avisou-nos» dos perigos que a cidade poderia «oferecer» a rapazes como nós (e ele). Nada de abusos, nada de responder a bocas dos civis, muito menos exageros alcoólicos. Exageros e infracções, houve algumas!!! Havia sempre a tentação de sair do quartel, mesmo sem «passaporte»! Dois 1ºs. cabos apanharam «porradas»:  3 dias de prisão disciplinar, para um, e 5 dias de detenção, para outro. Nada que alterasse a sua formação humana. Hoje, 37 anos depois, são homens realizados e nem se devem lembrar disso. Assim se afirmavam os Cavaleiros do Norte!  

domingo, 4 de março de 2012

1 193 - Quinteto de Cavaleiros do Norte nas piscinas de Carmona

As piscinas de Carmona eram um bom ponto de lazer da cidade, muito procuradas pela tropa, que por lá se ociava, banhava e comia. Era um excelente sítio, para uma boa tarde/noite de intervalo das sempre exigentes obrigações militares.
Os primeiros dias dos Cavaleiros do Norte lá pela urbe foram, naturalmente, de descoberta. Havendo excepções, muitos de nós (como já aqui foi dito) éramos profundamente provincianos « e num tempo em que as comunicações eram, lentas e envergonhadas. Nada que se assemelhe com a velocidade de hoje, quando, num segundo, se chega ao outro lado do mundo.
As piscinas eram também pouso habitual da raparigas da cidade, onde os tropas as iam espreitar e apiropar, algumas vezes com algum êxito; outras, nem por isso. A vida!!
A foto mostra um quinteto de Cavaleiros do Norte, provavelmente em tarde dominical e de passeio, todos (menos um) de farda º. 2, a  de saída. A excepção, à civil, é o alferes Pedrosa e todos os outros são especialistas e furriéis. 
O Rocha, primeiro da esquerda, era de transmissões e vive em Vila Nova de Gaia, como promotor comercial. O «civil» Pedrosa, logo a seguir, era alferes atirador de cavalaria e faz hoje pela vida em Marrazes, de Leiria. O Machado, ao centro e actualmente quadro da EDP em Braga, tira um mestrado e era furriel mecânico de armamento. Lino era mecânico da 3ª. CCAV. (Santa Isabel) e é empresário do sector das madeiras, no Fundão. O Cruz, o mais velho de todos (60 anos em Agosto de 2011), era furriel rádio-montador e aposentou-se da Câmara Municipal de Lisboa em Dezembro do ano passado.
Olha-se para esta fotografia de 1975 e, fixando-nos nestas carinhas bem jovens e quase imberbes, o que mais ocorre dizer é coisa parecida com isto: «Mas que grandes artistas!!...!». E seguramente grandes amigos!!! Sem quaisquer dúvidas.

sábado, 3 de março de 2012

1 192 - Aldeia Viçosa a caminho de Carmona

Letras, Machado e Melo, da 2ª. CAV. 8423, 
nas piscinas de Carmona (em 1975)

A rotação do Comando e da CCS do BCAV. 8423 para  Carmona, a 2 de Março de 1975, foi acompanhada de um grupo de combate da 2ª. CCAV.,  a de Aldeia Viçosa. O batalhão estava em período de retracção e dias depois (a 11) completou-se a deslocação dos comandados do capitão miliciano Cruz, ficando a vila sem guarnição militar.
A 1ª. CCAV., a do capitão Castro Dias, estava em Vista Alegre e Ponte do Dange (ida da heróica Zalala), e a 3ª. CCAV, a do capitão José Paulo Fernandes, já estava no Quitexe, desde 10 de Dezembro de 1974, quando desguarneceu a mítica fazenda de Santa Isabel.
Os primeiros dias de Carmona, no geral, foram de adaptação à cidade. Muitos de nós, a esmagadora maioria, nem sabia bem o que era isso de viver numa urbe dessa dimensão populacional e territorial (quase todos idos de aldeias de província) e Carmona era já uma cidade de dimensões generosas, moderna e com farta oferta de serviços.
A guarnição militar, instalada no BC12 e nas messes de sargentos e oficiais, foi-a esventrando e conhecendo. As piscinas (foto) passaram ser um dos pousos privilegiados da malta, nos intervalos dos serviços de ordem - que, ao tempo, passavam pela segurança das instalações, escoltas, controlo de tráfego e policiamento militar. Dias de paz e boa-vai-ela"!!! Para vir, estava o bem pior!

sexta-feira, 2 de março de 2012

1 191 - O primeiro dia de Carmona, já 37 anos!!!

O BC12, na estrada para o Songo. A pintura já não é a de 1975


A 2 de Março de 1975, eis-nos então em Carmona, no BC12 e com os furriéis milicianos no bairro Montanha Pinto, naquela que até aí tinha sido uma das messes de oficiais. Magnificamente instalados, diga-se de verdade!
A cidade já não era novidade para nós! Por lá já cirandáramos várias vezes, em busca do folguedo e dos vícios e prazeres da carne. Em idas ao cinema e passagens mais ou menos furtivas e cúmplices pelo Diamante Negro, ou pela pensão que servia de «estação de serviço» (perto do Banco de Portugal e da PSP, se a memória me não falha). Ou à esplanada do Eugénio, ao Chave d´Ouro e outros pontos de matar a fome e folgar a alma. Não esqueço o Escape, o meu restaurante preferido, e a papelaria ali perto, onde íamos pousar os olhos nas revistas, nos discos e na empregada de olhos grandes de ali servia com delicadeza e competência que nos «esmagava» e abria apetites.
A Rua do Comércio e as largas esplanadas da cidade eram ponto de encontro da tropa, que por ali matava tempo e sedes, e fomes!!!, confraternizando nas folgas que os serviços nos dispensavam - em fugas do Quitexe, desenfiados, à boleia de civis ou no carro do Correio da tropa.
Agora, ali estávamos, em mais uma etapa da comissão que nos fizera ir de nossas e famílias, para a guerra que o país travava a tantos milhares de quilómetros e num clima que nos aquecia o corpo e amolecia o espírito. Até nos era hostil. Mas ali estávamos, para o que desse e viesse. Para guerra que queríamos finda, enquanto se fazia o país novo!

quinta-feira, 1 de março de 2012

1 190 - A véspera do adeus ao Quitexe...

Avenida principal do Quitexe (rua de baixo) do Quitexe. Bandeira 
de Portugal hasteada (a verde) e porta d´armas (a amarelo)

A 1 de Março de 1975, a CCS do BCAV. 8423 fazia malas para o adeus à vila-mártir de 1961. O Quitexe! Ali chegáramos a 6 de Junho de 1974, ali semeáramos esperanças de uma comissão feliz, sem mortos, sem feridos, sem traumas e sem constrangimentos de guerra. Ali, à distância, acompanháramos o processo revolucionário que incendiava Lisboa e amadureceramos a vida que nos fazia mais homens.
O PELREC, que eu integrava com orgulho, palmilhara milhares de quilómetros, em patrulhas e operações militares, galgando picadas de medos e trilhos balizados de perigos, por entre o capim e a mata densa, que não nos fizeram lutos, mas nos abriram olhos e sentidos - mesmo que nunca a metralha nos atropelasse o destino, ou acobardasse a generosidade de jovens roubados ao chão das suas terras e ao calor das famílias para servir na guerra.
 O PELREC sempre foi generoso, sempre valente, sempre sem medos - mesmo quando caminhou por trilhos e picadas onde se adivinhava a morte, onde as minas e armadilhas se camuflavam no pó ou no disfarce da natureza, onde teve de aprudentar avanços, que tiveram recuos para se chegar ao fim.
O PELREC nunca teve medo de ter medo! Não recuou, nunca, sob o comando do (alferes) Garcia, ou quando foi «dado» às ordens dos furriéis de sempre - o Neto, o Viegas ou Monteiro (mais entregue a armas de secretaria). 
O PELREC sentiu-se construtor do país que nascia e, hoje se fazem 37 anos, fez malas para o adeus ao Quitexe! 

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

1 189 - «Portugal e o Futuro», em tempo de férias



A escola de recrutas do BCAV. 8423 terminou a 22 de Fevereiro de 1974 e a rapaziada, já mobilizada para Angola, entrou de férias. Voltei a Águeda e à minha aldeia, fazendo tempo para a segunda fase de instrução.
A política, ao tempo e como hoje, pouco me interessava e a minha atracção pela leitura foi essencialmente justificada na admiração pelo desafio que o general, então Vice-chefe do Estado Maior General das Forças Armadas (era Costa Gomes o Chefe) lançava ao governo de Marcelo Caetano.O que fazia o livro tão polémico (e disputado nas livrarias) era o repto que o general lançava ao regime - que até autorizou a publicação. E por, com desassombro que me surpreendia, afirmar que as guerras coloniais não tinham solução militar. Ele que era o Vice-Chefe do Estado Maior das FA e ex-governador da Guiné. Isto é, um dos falcões maiores do tempo. E também por afirmar que era necessário que o país debatesse o problema da guerra colonial, que se arrastava desde 1961 e em três frentes: Angola, Moçambique e Guiné.O livro foi lido nos dias de férias e levado para Santa Margarida, por onde foi emprestado a amigos - o que justificou um alerta da hierarquia, quando disso soube. Um alerta para ter cuidado com a sua exibição.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

1 188 - A hora do banho em Zalala...

Rodrigues e Queiroz na hora do banho, em Zalala (1974)

Os aquartelamentos tinham as melhores condições possíveis. Uns melhores, quantas vezes pela obra e engenho dos residentes, que inventavam meios para ter mais qualidade de vida. Em terra de calor, muito calor, e os banhos diários eram imprescindíveis. Às vezes, dois e três!
A imagem mostra o Rodrigues e o Queirós, em Zalala, preparando-se para um banho. O Rodrigues, está com um  recipiente de lona impermeável adaptado, cheio de água. Depois, vejam lá a imaginação, era pendurado numa árvore e a engenhoca, diz ele, «fazia um chuveiro porreiro!».
O banho, como é bom de adivinhar, estava limitado à quantidade de água do balde, para que, diz o Rodrigues, com ironia, “a factura do fim do mês não fosse elevada”. Eram bons tempos e bons hábitos, os da poupança - a que muitos de nós não se habituou, como o próprio Rodrigues nos conta: «Nos dias de hoje, vou para o chuveiro e gasto água por vezes em demasia e a factura lá me faz lembrar esses tempos...».
Pudera!
Outras águas, e sem chuveiro mas com queda, estava o Queiroz na mão: para um banho por dentro! É uma garrafa do Black & White e o respectivo copo. O Queiroz  estava de folga e considerava-se «um civil nesse dia». Por isso, lembra o Rodrigues, «não alinhava com esses pobretões da tropa, que tomavam banho com um tipo de regadores»
O método era vulgar, por Zalala e sabe-se lá por quantas outras guarnições. «Não se abatia o inimigo, mas matava-se o tempo que por lá passamos», lembra-se o Rodrigues.
- RODRIGUES. Américo Joaquim da Silva Rodrigues, furriel miliciano atirador de Cavalaria, da 1ª. CCAV., a de Zalala. Aposentado e residente em Vila Nova de Famalicão.
- QUEIRoz. Plácido Jorge de Oliveira Guimarães Queiroz, furriel miliciano atirador de cavalaria, da 1ª. CCAV. 8423, de Zalala,. Aposentado e residente em Braga.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

1 187 - Dia dos anos do (furriel) Francisco Neto

A foto não é do dia, mas faz de conta que era: foi tirada na messe dos 1ºs. cabos milicianos do RC4, em Santa Margarida, e anda na roda do dia dos 22 anos do Neto - que ali está engravatado, à minha direita. 
Dir-se-ia, em boa gíria militar, que ali estavam dois lateiros, prontos a devorar a terrina da sopa, com o que quer que fosse que viesse lá dentro.
Tem o retrato mais ou menos 38 anos - um dia para cá, outro para lá -, mas centra-se a conversa de hoje no dia 28 de Fevereiro, que é o de amanhã. O dia dos anos do Neto. Estou em crer que nessa quinta-feira de 1974, teremos ido a Abrantes, «desenfiados» no SIMCA 1100 branco dele, para cear frango de churrasco, com umas jarras de vinho que por lá nos sabiam ao melhor néctar do mundo. Afinal, 22 anos não se fazem mais de uma vez e, para mais, na flor da idade em que se desafiam e correm todos os riscos.
Tenhamos ido, ou não, a Abrantes no 28 de Fevereiro de 1974 (estou certo que sim!!!), seguro é que em 1975, fomos jantar ao Pacheco, no Quitexe: uns camarõezinhos regados a Cuca ou Nocal, o convencional bife com ovo a cavalo e um pudim, admito que dos muito bem feitos por Maria Lázaro, do Pacheco - que tinha mãos de fada para a cozinha e fazia milagres aos sabores. 
Hoje, estive com o Neto e falámos disso. E lembrou-me ele que amanhã, dia dos seus anos natais (e lá vão 60!!!), também comemora os do casamento, em 1976. Já lá vão 36! Ei, Xico Neto, como a vida voa, rapaz!!!
- NETO. José Francisco Rodrigues Neto, furriel miliciano de Operações Especiais (Rangers). Empresário, aposentado, natural e residente em Águeda.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

1 186 - A rotação do BCAV. 8423 para Carmona


O BC12 visto do lado do Songo, nos anos 70


A 26 de Fevereiro de 1975 soube-se pelo Quitexe que os Cavaleiros do Norte iam rodar para Carmona, onde iriam ocupar o BC12, que estava em extinção. A curiosidade de muitos de nós já lá nos levara a espreitar o aquartelamento - que nada tinha a  ver com as modestas instalações do Quitexe. Ou de Aldeia e Viçosa, já não falando de Zalala e Santa Isabel.
Gradualmente, as guarnições militares portuguesas iam abandonando as posições ocupadas desde 1961 e anos seguintes e os Cavaleiros do Norte, pretendidos pela RMA e solicitados pela ZMN, acabaram por ficar em Carmona, a capital da província do Uíge, a terra do café. Nesse sentido e para «a rendição do BC12» se tinham realizado várias reuniões de trabalho na ZMN, nomeadamente a 19, 20 e 25 de Fevereiro. E outra a 26 (hoje se fazem 37 anos e a que decidiu a rotação para Carmona). Depois, a 27 e 28, para acertar detalhes.
O dia era de 4ª. feira e de nos chegarem jornais de Portugal. Ficámos a saber que tinha sido criado o subsídio de desemprego, igual a um terço do ordenado, nesta fase experimental e para os trabalhadores rurais (1 100$00, ou 5,5 euros). E de 2/3, para is restantes trabalhadores. Ou seja, 2 200$00 (11 euros). E dizia o ministro do Trabalho, Costa Martins, que «o subsídio poderá ser revisto no prazo de três a quatro meses. 
Escândalo era, a esse tempo, o custo de um quilo de açúcar, que passava dos 8$50 de Março de 1974 para os 22$50 de Março de 1975. Agora, fui ver ao site de um supermercado e andava entre os 0,98 e os 1,45 euros, dependendo da qualidade. Ou entre 200$00 e 290$00.