segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Os dias de Luanda, em Agosto de 1975!

Largo da Portugália (foto de Henrique Oliveira), local de «culto» da tropa portuguesa


A Luanda dos dias de Agosto de 1975 era de ferro e fogo e sucediam-se os «ataques» entre elementos dos movimentos. Os que tinham, ficado, depois da chamada Batalha de Luanda, a 9 de Julho - «ganha» pelo MPLA, que escorraçara a FNLA e a UNITA da capital.
A violência e insegurança alastravam pela cidade e não era raro os próprios militares portugueses serem alvo de intervenções menos ortodoxas. E começou a faltar comida. Cito o general Gonçalves Ribeiro, no seu livro «Vertigem da Descolonização»:
«A Cruz Vermelha Internacional já, desde fins de Junho de 1975, fazia distribuição de grandes quantidades de alimentos e também vestuário e medicamentos a habitantes dos musseques, a desalojados e a hospitais, socorrendo-se de pessoal voluntário que minha Mulher integrou, acompanhada de Luísa Cardoso, Teresa Almendra e Maria da Piedade Alves Cardoso, até à partida para Lisboa.
A população portuguesa vivendo, como a esmagadora maioria dos angolanos, num meio de insuportável violência e de todos os desmandos que lhe estavam associados, passou também a sentir carências de toda a ordem até ao limite da falta de alimentos. Com o quotidiano devastado, refeições esporádicas e esperanças anuladas, aquela comunidade começou a sentir-se enclausurada, em especial nas terras do interior, e deu início a um movimento sem retorno quer para Luanda, na procura de avião ou barco, quer para fora de Angola».
Estes sentimentos eram manifestados por amigos nossos, civis. E nós próprios, militares, sentimos os perigos da insegurança urbana e a escassez de alimentos. Nesta altura, e já desde Carmona, corria por nossa conta (sargentos e oficiais) a alimentação - ainda que abonada. Não houve restaurante que não corressemos, em Luanda, á procura de almoço ou jantar.
Um dos locais preferidos era a Portugália, restaurante da baixa de Luanda, ao lado do Jornal de Angola. Na zona havia outros locais de «culto» da tropa: o Paris Versailles, Pólo Norte, Amazonas, Baleizão, a Biker, a Mutamba, entre outros.

domingo, 7 de agosto de 2011

Os Cavaleiros do Norte no Grafanil, Viana e Luanda



A epopeica coluna militar do BCAV. 8423 chegou ao Campo Militar do Grafanil no dia 6 de Agosto de 1975 (ver DAQUI a AQUI), fez ontem 36 anos. Tinha saído na madrugada do dia 4, uma 2ª. feira, e esta chegada foi emotiva para todos.
A CCS, mais afortunada quanto ao meio de transporte (de avião, no dia 3, domingo), tinha preparado as instalações para os valentes e generosos companheiros da 2ª. e da 3ª. CCAV´s (e alguns militares da CCS). Instalações no Grafanil, achadas em mau estado: sujas, dessanitarizadas, imundas. E bem mereciam eles que estivesse limpas, para o justificado descanso. Assim fizemos.
Eu, o Monteiro e o Neto, por influência deste, tínhamos a sorte de estar instalados numa vivenda particular, em Viana, cidade da poucos quilómetros. Magnificamente instalados. A casa era do aguedenses Manuel Cruz - que por lá tinha uma fábrica de ferragens (assim como o pai do Neto). Também dispunhamos de transporte, um automóvel da FRAL Angola (a empresa do pai do Neto), e, por isso, a nossa mobilidade era segura, a toda a hora.
Tínhamos de cumprir as nossas tarefas militares, é verdade..., mas o resto do tempo era para a boa-vai-ela, por Luanda adentro, dia e noite... - não se nos pegando quaisquer medos pelo sangue que todos os dias se vertia na cidade - onde se degladiavam ódios inter-movimentos e se matava gente a troco de meras raivas pessoais.
A capital, depois de várias semanas de combates com a FNLA, era controlada por forças do MPLA, já desde 15 de Julho. A 22, fôra decretado um novo cessar fogo  que, creio bem, era pouco respeitado. Por essa altura, intensificava-se a ponte aérea que, a partir de Angola e de outras ex-colónias, fez afluir a Portugal milhares e milhares de retornados.  Muito mais intensa seria depois da nossa viagem para Luanda, a 8 de Setembro de 1975.

Angola, de norte a sul, era ferro e fogo. Em verdadeira guerra civil!

sábado, 6 de agosto de 2011

O tenente capelão Roque


ANTÓNIO FONSECA
Texto

Domingo, dia 6 de Agosto de 1972, foi dia de (quase) todos comparecermos na eucaristia dominical na Igreja do Quitexe. Não porque se tratasse de um dia especial mas, sim, porque o nosso capelão, o tenente Roque, nos pediu que não faltássemos. O certo é que a igreja se encheu, o que deve ter surpreendido o padre Albino, não muito habituado a ver tanta tropa junta na casa de Deus.
Era impossível resistir ao apelo do nosso tenente, pessoa por quem sempre tivemos uma grande estima e, tal como fez o padre Albino, dava conselhos a uns e outros, principalmente aos que sempre cumpriram o seus deveres de católicos do outro lado do Atlântico e temiam perder o “hábito”! É que ali era diferente e alguns sentiam-se perdidos e até receosos de não conseguirem cumprir à risca os mandamentos por que tanto zelavam nas aldeias, vilas e cidades da sua proveniência.
Quem realmente tinha fé e fazia questão de comparecer às missas dominicais, quase sempre arranjava maneira de não faltar. Muitos me impressionaram pela sua persistência, principalmente os meus colegas de transmissões, o Capela e o Nunes. O primeiro, não perdia uma oportunidade para me chamar à atenção sempre que eu faltava, quase desfiando o rosário de todos os mandamentos e as consequências para os não cumpridores; o segundo, já casado e pai, demonstrava em actos e palavras uma formação pessoal e católica acima da média. Contido e sempre senhor das suas convicções, chegava a irritar alguns com a sua educação. Nunca se lhe ouviu um palavrão e corava sempre que ouvia um mais ousado, o que lhe terá causado o rubor das faces milhares de vezes.

Voltando ao capelão Roque, com quem conversei e ri, não muitas mas algumas vezes, lembro-o como militar e sacerdote, mas principalmente como Homem que nos cumprimentava sempre com a sua mão madura, sempre disposto a dar o seu conselho fiável. A alguns, serviu de ombro em momentos mais difíceis, sem reclamações e demonstrando sempre o porquê da sua presença no batalhão. Fez parte do percurso das nossas vidas em terras do Quitexe e em boa hora se atravessou nos nossos destinos.
Foi este Homem que nos solicitou que ouvíssemos a missa no Quitexe, e ainda hoje estou convencido que o fez, também, para causar boa impressão ao padre Albino. A solicitação foi feita individualmente, em conversa com todos os que com ele se cruzaram nas (poucas) artérias da vila e até nos bares do Topete ou do Pacheco.
Aquando da organização do 1º. encontro, em 1990, envidei esforços para o reencontrar, mas as frágeis tecnologias de então não mo permitiram. Em passeio, calcorreei a terra e a paróquia onde exercia, mas desconhecendo-o. No Funchal, talvez até tenha passado pela rua que, desde 2009, tem o seu nome. São as voltas da vida!
Faleceu a 01/9/2006, aos 62 anos, e sei que deixou uma obra impressionante. Assim é relatado por quem com ele privou nos últimos anos de vida, testemunhos que me encheram de orgulho. E de muita saudade, devo-o dizer! Como obra, deixou em todos os que com ele partilharam terras quitexanas, principalmente os que a ele, por razões distintas recorreram. Até um dia, meu Tenente!
ANTÓNIO CASAL FONSECA
- ROQUE. Padre Manuel Romão Roque Aveiro, era pároco nas Comunidades Paroquiais da Ribeira Grande e Piquinho (Machico), quando faleceu, a 1 de Setembro de 2006, aos 62 anos.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Louvor ao alferes Pedrosa de Oliveira

Alferes Pedrosa, da 3ª. CCAV. 8423, a 5 de Agosto de 2011

Ontem aqui foi chamado o alferes Pedrosa, da 3ª. CCAV. 8423 - a de Santa Isabel - pela razão de ter, em dia de descanso, se ter voluntariado para o transporte de um ferido (de acidente) ao hospital.
Hoje,a aqui o trago de novo, para lembrar o louvor militar que recebeu, «pela forma como sempre soube conduzir todo o seu pessoal e como se soube conduzir durante a sua comissão».
O louvor, proposto pelo capitão José Paulo Fernandes, comandante da 3ª. CCAV., foi publicado na Ordem se Serviço nº. 161 e dá cor e brilho a um «militar cumpridor, com zelo e brio, em todas as situações da vida da sua Companhia, mesmo as mais difíceis». Também por ter sido «disciplinado por natureza e altamente diciplinador». Teve, lê-se no louvor, «diversas actuações de relevo, actuando com segurança e decisão firme».
As «altas qualidades militares» e também «a dignidade posta ao serviço da sua Companhia» levaram a que nele «sempre fosse depositada confiança ilimitada», razão porque, sublinha o louvor assinado pelo comandante Almeida e Brito, «a sua vida militar é digna de registo em público louvor, premiando o comando do deu grupo de combate».
Um abraço, ó Pedrosa! E esquece lá aquela da barba por escanhoar! O comandante Almeida e Brito era mesmo assim.
Ver «A barba faz-se logo
de manhã», AQUI.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A barba faz-se logo de manhã...

Casal, Viegas e Pedrosa, nos Marrazes, a falar do Quitexe


As orelhas do Quitexe, se as tivesse, teriam estado hoje a arder por largas horas, bdem prolongadas do almoço, pelas bocas de memórias de três ex-combatentes: Casal, Viegas e Pedrosa. Comeu-se, bebeu-se e falou-se. Em sítio próprio, sugerido pelo Casal, que por terras quitexanas jornadeou pelo BCAÇ. 3879: o restaurante Pipo Velho, em Marrazes (Leiria).
Foi bom o manjar e óptima a conversa, com sobremesa de saudades das terras uíjanas.
Hoje, vem ao caso, em dia de 36 anos de partida da épica coluna militar de Carmona para Luanda, com um cuidado muito especial: «a população civil, conhecedora do movimento das NT, insegura no seu dia a dia, descrente do seu futuro e receosa de futuras represálias, resolveu-as pelo exodo e começou a sentir-se que iriam acompanhar a nossa coluna centenas de viaturas, com o consequente muito elevado número de pessoas», como se lê no Livro da Unidade. E juntar-se-iam 700 viaturas.
A situção já foi circunstanciadamente tratada neste blogue, DAQUI (post de 4 de Agosto de 2010) a AQUI, (post de 29, seguinte), entre outras postagens.
O que aqui venho lembrar, contado pelo Pedrosa, tem a ver com  as exigências disciplinares de Almeida e Brito, o nosso comandante, que não tolerou a um alferes não ter feito a barba do dia.
O oficial miliciano era Pedrosa, que em perído de folga, teve de acudir a acidente de um militar, transportando-o de Santa Isabel para Carmona. De passagem pelo Quitexe, visitou a guarnição e a messe de oficiais, onde cumprimentou quem por lá estava. E estava o comandante do BCAV. 8423.
«A barba faz-se logo de manhã», avisou-o Almeida e Brito. Imperativo.
Estupfactou-se o jovem oficial: afinal, em dia de folga militar, dispusera-se a conduzir um ferido. Como era seu dever. Era isso muito mais importante que uma barba que não se desfizera em dia de descanso.  Mas continuou imperativo, o comandante: "A barba faz-se logo de manhã!».
- PEDROSA. Luís António Pedrosa de Oliveira. Alferes miliciano atirador de cavalaria. Natural e residente em Marrazes (Leiria).

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Adeus Carmona, que vou para Luanda...

Aeroporto de Carmona! Por aqui passámos a 3 de Agosto de 1975, no adeus ao Uíge

Hoje se completam 36 anos que a CCS do BCAV. 8423 deixou Carmona, em vários voos para Luanda. O dia, em 1975, era domingo e as vésperas, vésperas de largos dias, foram de montagem da delicada operação de retirada de toda a guarnição militar.
Relizaram-se várias reuniões com o QG/RMA, para «obter os meios necessários à sua execução» e a sua materialização aconteceu a partir de 31 de Julho - com «a chegada de viaturas e tropas de recurso».  Nada mais, nada menos: uma Companhia de Comandos e uma Companhia de Páraquedistas. E meios aéreos, para apoio à coluna terrestre: Fiats e heli-canhões de protecção. Para o que desse e viesse.
Na verdade, era falada a intenção de a FNLA se opôr à saída das FAP de Carmona para Luanda, que era a mesma coisa que dizer, de território controlado por este movimento (liderado por Holden Roberto), para área do MPLA. E sabia-se também dos graves conflitos que se viviam em Salazar - por onde a coluna iria passar. E estava fresca a memória sobre os impedimentos de 13 e 21 de Julho - quando a FNLA não quis que a coluna militar portuguesa evoluísse para Luanda. Só passaria a 25, à força. E pelas armas seria, caso a situação a tal se proporcionasse.
Hoje, neste dia de 1975, a CCS e a 1ª. CCAV. (a Zalala) disseram adeus a Carmona. De  avião: em duas levas de um  DC6 e dois Nord´Atlas.
Ficaram, em terras do Uíge, a 2ª. CCAV. (a de Aldeia Viçosa) e a 3ª. CCAV´s (de Santa Isabel), que integrariam a épica coluna que saiu na madrugada de 4 de Agosto de 1975.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O Garcia de Pombal de Ansiães...

Associação Recreativa e Cultural de Pombal de Ansiães. Foi sonhada em Angola, no corpo do BCAV. 8423 (em cima). Homenagem associativa a António Manuel Garcia (em baixo)


Caro Garcia: Aqui te falei ontem, mas não disse tudo da tua terra de Pombal de Ansiães. Por exemplo, que uma semana antes lá estivera a tua Olga, que me achei «órfão» por lá e lá me lembrei de procurar a tua gente. Lembrei-me de Noémia, tua prima - a quem me levou o sr.  Ventura, fazendo nisso muita questão.No adro da igreja, onde certamente tu semeaste muitos sonhos, conterrâneos teus já me tinham falado de ti, do Toninho!!!. Que a associação se deve a ti! Ai não fosses tu!!!
Noémia não estava em casa, mas afinal... estava e apareceu depois no centro social, quando eu já me privilegiava a falar com tua mãe. Olha, foi bonito, foi emotivo, li os olhos de tua mãe a sorrirem-se, nostálgicos, serenos...
E eu nervoso - olha eu, nervoso!!, «como foi possível?!», perguntar-me-ias tu. Mas, de repente, tinha ali, como que sentadas no meu colo, gente íntima do teu eu. Parecia que estavas de lado, a olhar-nos de sorriso rasgado e feliz!, prolongando-nos estes momentos deliciosos.
A prima Noémia fez questão que fossemos a casa da irmã, também tua prima e afilhada, a Paula Zuzarte (agora tem este apelido...) - que eu já«conhecia» destas coisas da net, que não existia no nosso tempo terreno comum.
Veneram-te!
Paula lembrou-me a tua «responsabilidade de padrinho» - eras padrinho dela!... - e de ti disse teres sido «um pilar de vida», que sempre lhe transmitiu «segurança, carinho e todo um conjunto de valores/princípios». Falou-nos da tua «autenticidade, originalidade e coragem» e de «todo um conjunto de características fantásticas, que temos alguma dificuldade em achar por aí».
O que te posso dizer - e disso fica seguro, ó Garcia!!!..., seguríssimo!!! - é que deixaste por cá saudades infinitas e admiração para sempre.
Fiquei contente, com isso. E feliz!
Lembrei-lhes, porque era o dia dos 36 anos, a nossa seriíssima altercação de 31 de Julho de 1975, no BC12, quando a tua bravura e generosidade se bateram a pé juntos com a, quiçá, maior racionalidade do Neto e minha, que não queríamos envolver o PELREC, que tu «oferecias» para a última coluna para Luanda. Falámos e sabíamos que nos escutavas. E eu senti-me em casa, com a tua boa gente.
Até um destes dias, meu caro Garcia.
C. Viegas
- NETO. José Francisco Rodrigues Neto, furriel miliciano de operações especiais (Ranger´s). Empresário, natural e residente em Águeda. 

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Carta ao Garcia...



Meu caro Garcia:

Estejas onde estiveres, fica a saber que ontem estive contigo, na tua terra natal de Pombal de Ansiães, lá na serra de Trás-os-Montes e Alto Douro, onde revi tua mãe e, com ela, com a sua doçura, falámos do Toninho. O Toninho que eu conheci oficial miliciano, meu comandante e meu amigo. Muito especialmente meu amigo.
Estava escrito que um dia lá voltaria eu. Foi ontem. Galguei quilómetros atrás de quilómetros, desde Bragança e da casa do Pires das transmissões, por uma mão-cheia de desvios naquela tua terra transmontana do Alto Douro - que por lá se faz, ainda agora, a auto-estrada.
E cheguei a Pombal. A Pombal de Ansiães!
Não dei logo com a  tua casa, que teu irmão restaura. Mas logo achei a tua associação e a igreja onde fizeste juras de amor a Olga. Eu já conhecia aquelas ruas estreitas, orladas de casas de pedra, aqui e ali com uma outra mais modernas. E lá cheguei.
Lá estava a mesma escada do adro, a mesma pedra escura do tempo, o mesmo templo da nossa religião católica, o mesmo cheiro pombalino, e as pessoas que logo me deram conta da tua família - a do Toninho. Até teu tio por lá andava. Na tua associação.
Parei uns momentos na terra que te serve de pouso. Até te fotografei! Não me quis pôr do teu lado, como fazíamos no chão vermelho de Angola, por onde jornadeámos a nossa juventude, casando afectos e multiplicando a generosa amizade que distribuías como cerejas.
Olhei-te de frente!!
E ali estavas tu, o Garcia!  A olhar-me de rosto sereno e seguro, como se ambos, e com os nossos soldados, fossemos partir para mais uma missão, mais uma patrulha, uma escolta, uma operação militar. Estes momentos, como tu sabes, fazem-nos lembrar muitas coisas e eu estou certo que, se pudessemos falar, ali ficaríamos horas e horas, e horas!!!!, muitas horas!!!, a evocar os lendários momentos da nossa passagem por Angola.
Olha, fui ver tua mãe, a senhora dona Maria do Calvário! Está no lar. E como eu sei que esta obra social faria chorar os teus olhos, de emoção e de alegria!!
Aqui, ocorreram-me os nossos sonhos associativos semeados em Angola e deixa-me dizer-te que os levei para a minha aldeia. Tal como tu! Nisso, fomos muito iguais!
Tua mãe falou-me de saudade e do que o seu  mundo seria diferente, se não tivesses ido antes de nós. E deixa-me dizer-te um coisa: ao abraçá-la, senti o cheiro do bravo alferes, com quem eu fui soldado de Portugal!
Ela está bem! Muito bem!
A vida leva-me ali, agora. Tenho de ir.
Amanhã volto a escrever-te.
Grande abraço.
Viegas

- GARCIA. António Manuel Garcia, alferes miliciano de Operações Especiais (Rangers). Natural de Pombal de Ansiães (Carrazeda de Ansiães). Foi inspector da Polícia Judiciária e  faleceu a 2 de Novembro de 1979.
- PIRES. José dos Santos Pires, furriel miliciano de Trasmisssões. Aposentado da GNR e residente em Bragança.

domingo, 31 de julho de 2011

Os fenómenos da Casa das Transmissões

Alavrito e Fonseca (BCAÇ. 3879) no Quitexe de 1972


ANTÓNIO FONSECA
Texto


Estive à conversa com o Alvarito, também ele ex-radiotegrafista, e lá vieram as histórias sobre Quitexe. Principalmente, as vividas na casa que albergava o pessoal de transmissões.
«Tivemos muita sorte com as instalações!...», disse-me ele, com aquele riso malandro e ansioso por me contar as suas aventuras! Como se eu as não soubesse! Na verdade, sem ser um luxo, tinha excelentes condições de habitabilidade. Não me recordo que alguma vez tenha faltado água no chuveiro, por exemplo. E se tal aconteceu, não me apercebi. Para ser mais exacto, ali não faltava rigorosamente nada. Talvez por isso um oficial miliciano tenha movido influências para correr dali connosco - episódio que um dia abordarei.

E até as “negras sensuais e bonitas” Maria e Joana apreciavam a “estalagem”, razão, suponho, porque lá dormiam ou pernoitavam não raras vezes! E em ambiente de festa, a avaliar pelos risos e gargalhadas que atravessavam as finas paredes das divisões! O que se passava por lá, não sei porque nunca vi, mas que a coisa era animada… lá isso era!
E as noitadas na varanda, onde quase se madrugava num desfiar de sentimentos - alegrias, tristezas, amores e desamores!? E também sonhos que cada um acalentava para depois do serviço militar, mencionando sempre terna e apaixonadamente o nome dos seus amores. Passados 37 anos, quando olho nos olhos estes casalinhos já avós e de cabelos brancos, dá-me uma enorme vontade de rir! E porquê?! Porque me vêm à memória todas aquelas conversas cheias de romantismo e de promessas de amor que se faziam ali naquele cantinho do Quitexe! Ainda hoje, as lindas senhoras me perguntam “como se portavam eles por lá ?”, o que os desconcerta e faz transpirar…de medo! Melhor, de pânico!...
Ah…, agora é que eu descobri porque é que o Zé Carlos, no almoço deste ano, fazia mímica e retorcia o bigode, enquanto me pontapeava as canelas, a coberto da mesa!...
ANTÓNIO CASAL FONSECA









sábado, 30 de julho de 2011

O que vai ser da terra e da gente do Uíge?

Alferes Garcia, na porta d´armas do BC12. Atrás, na parada, algumas viaturas da coluna para Luanda

O alferes Garcia era o nosso comandante de pelotão! Homem corajoso, de não dar pé atrás a qualquer perigo. Quis ele adiantar-nos alguns pormenores sobre a operação de saída de Carmona, com a boa nova de que a CCS iria de avião. E foi! Mas queria o Garcia que o PELREC se oferecesse para ir na coluna. Mas não foi!
A 30 de Julho de 1975, na reunião do Estado Maior Unificado, o comando português informou oficialmente a FNLA da próxima e última operação dos Cavaleiros do Norte: a da saída do Uíge, de Carmona.
A reacção foi eufórica, da parte dos fnla´s. Compreende-se: ficavam donos e senhores da sua terra e sem disputa com o MPLA, militarmente derrotado nos incidentes dos primeiros dias de Junho. E da UNITA pouco se falava por lá! Mal existia no norte angolano.
«O que é que esta m... irá dar?!», interrogava-se o Garcia, à conversa comigo e o Neto, num dos últimos serviços do BC12. Dele e nossos. Adivinhavam-se lutas fraticidas e derramamento de muito sangue, depois da saída da tropa portuguesa - que era muito mal-amada pelas comunidade civil mas, na prática, era o seu seguro de vida! 
Um civil angolano, nosso conhecido do Bairro Montanha Pinto, futurou o pior. «Com a tropa portuguesa, a gente sabia com o que contava. Agora, sei não...», queixava-se ele, de amargura estampada no rosto. O que será feito dele?

sexta-feira, 29 de julho de 2011

1000 aerogramas e cartas da jornada africana...

Mosteias, Viegas, Bento, Cruz e Pires, furriéis do BCAV. 8423 no bloco residencial à direita do BC122


A 23, 28 e 29 de Julho de 1975, realizaram-se reuniões de trabalho, preparando a operação de de saída do BCAV. 8423, de Carmona para Luanda. Daqui, chegaram ao Uíge vários oficiais do QG/RMA e, com eles, o comando do BCAV. 8423 esquematizou a rotação dos Cavaleiros do Norte. Uma operação que «não se adivinhava fácil», como se lê no Livro da Unidade.
«Como é que isto vai ser?», era a pergunta que circulava entre a guarnição, por aqueles dias muito apressados, a fazer caixotes para «transportar» a bagagem pessoal. Pedido vulgar, ao tempo, era a da cedência do espaço a que cada militar tinha direito, a troco de negócios algo «chorudos», propostos pelos civis - que, muito naturalmente, queriam pôr a salvo (em Lisboa) alguns dos seus bens. Os mais que pudessem.
Ocorre-me uma proposta que me foi foi feita, para ceder o meu: a de me ser dado um diploma académico. E uma outra: uma carta de condução de pesados. Ainda hoje não sei como isso seria feito, mas era a hora do desenrasca, do vale tudo. Não sei se alguém aproveitou estas inesperadas generosidades.
Sei é que, por estes dias, preparando eu malas para Luanda, me dei com um sério problema: onde pôr o meu correio pessoal, se não tinha espaço?! Valeu-me o Pires, de Bragança, que me cedeu uma mala, de que não precisava, e onde enfiei, ordenados e numerados, os na volta de 1000 aerogramas (e cartas) que acumulava desde Junho de 1974, nos 15 meses de jornada africana e que ainda guardo ali no sotão de casa. E são fonte abundante de informação deste blogue.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

O começo do «fim» da nossa guerra...

BC12, em Carmona, visto da estrada que ia da cidade. A amarelo, destaca-se o refeitório. A vermelho, o edifício do comando. O espaço entre estas partes, correspondia às oficinas, casernas, serviços e parada. Ao lado direito, o bloco residencial

A 28 de Julho de 1975, já desde há dias que se preparava a saída da guarnição para Luanda: a CCS e a 2ª. CCAV. iriam de avião, no domingo seguinte, 3 de Agosto. Desde há dias, também, que os militares que residiam na cidade, tinham abandonado as instalações onde se aposentavam. No caso dos furriéis milicianos, fomos ocupar o edifício que na foto se assinala à direita. destacado do quartel (o BC12).
A este tempo, praparava-se cuidadosamente a terceira tentativa de saída do MVL para Luanda. Que viria a ser de vez, a 25 de Julho. Por duas ocasiões (a 13 e 21), tinha sido impedida, sem que os militares portugueses estivessem autorizados, pelo COPLAD, a forçar a evolução da coluna. A avançar na estrada, nem que fosse a tiro. Avançou a 25, depois da reunião com a FNLA/ELNA. Era uma questão de «ou vai, ou racha». Foi e não rachou.
O espírito da guarnição andava entusiasmado.
A saída para Luanda, embora soubessemos que por lá evoluíam seriíssimos problemas, era aguardada desde há muito. Era um passo gigante no caminho para a hora do regresso a Lisboa. Para o fim da «nossa» guerra. 
A cidade de Carmona, essa continuava hostil à comunidade militar e repetiam-se desrespeitos e desconsiderações. Que a tropa, para isso instruída, procurava ignorar. Multiplicavam-se, paradoxalmente, os pedidos de ajuda. Adivinhavam-se dramas humanos e familiares. Os civis ganhavam medo ao futuro e as ameaças dos fnla´s fizeram-se «pão de cada dia».
- COPLAD. Comando Operacional de Luanda, órgão coordenador das acções militares portuguesas.
- FNLA. Frente Nacional de Libertação de Angola, movimento presidido por Holden Roberto.
- ELNA. Exército de Libertação Nacional de Angola, braço armado da FNLA.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Há 37 anos: O direito de Angola à auto-determinação e independência



O mês de Julho de 1974 foi de (final da) «debutância» para os Cavaleiros do Norte. A mata, os trilhos, as picadas , o cheiro da pólvora e do pó avermelhado do chão uíjano, deixaram de ser virgens para os seus operacionais - que lhes iam conhecendo as curvas, os medos e os perigos.
A 27 desse mês, um sábado, hoje se completam 34 anos, ouviu-se no Quitexe uma mensagem do Presidente da República, que fazia adivinhar «uma solução para o problema militar da RMA». Iria demorar tempo!
A inportância histórica da declaração presidencial, leva-nos a transcrever na íntegra, tal como nos chegou, a nota que, sobre ela, emitiu a Junta Governativa de Angola:
«1 - Após a proclamação histórica hoje dirigida à Nação pelo Presidente da República, a missão das Forças Armadas em ANGOLA será dirigida especialmente no sentido de garantir a segurança da população e capacidade de construir uma ANGOLA nova, em ambiente de paz e de fraternidade.
2 - Acções contra bandos armados que possam ainda (ser) hostis são limitadas à defesa própria e a preservar a vida e bens dos habitantes pacíficos, devendo, neste caso, serem  usadas, se necessário, as maiores determinações e firmeza.
3 - ANGOLA terá que orgulhar-se da acção das Forças Armadas no auxílio à construção do seu futuro e estas deverão demonstrar todas a coragem, disciplina e capacidade de forma a manter intacto o seu prestígio tão duramente alcançado».
Comenta o Livro da Unidade, sobre isto: «Assim, pensa-se vir a verificar-se uma mutação na guerra que se efnfrenta desde 1961, o que impõe, pela futura situação a viver, um grande espírito de corpo e de missão».

Presidente da República nesse dia 27 de Julho de 1974 era António de Spínola e, em histórica declaração que ouvimos no Quitexe, através da rádio, reconhecia, em nome de Portugal, o direito dos povos africanos à auto-determinação e independência.
A nova situação foi-nos informalmente comunicada a 31 de Julho, nuna rápida reunião no gabinete de Operações.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Ida de Carmona para Luanda e louvor ao BCav. 8423

O BC12, em Carmona, visto do lado do Songo

Os Dias do Exército (21 de Julho) e da Cavalaria (25) foram comemorados em 1974, jornadeávamos nós pelo Quitexe, e, naturalmente, em 1975 - já nos aposentávamos por Carmona, no BC12. 
Por essa altura, já sabíamos do nosso destino próximo:Luanda. E, depois, o mais desejado: o voo para Lisboa e para o chão das nossas terras natais.
O de Cavalaria teve missa na capela da Unidade, com presença do birgadeiro e Chefe do Estado Maior do Comando Territorial de Carmona, e mensagem an Ordem de Serviço do Dia - a falar do lema «Querer e saber querer», já conhecido desde que em Santa Margarida formávamos batalhão. Frisava o documento que «assim sucedera» e se esperava que «continue a suceder no pouco tempo da nossa vivência como unidade independente da Cavalaria Portuguesa, sendo esta a lembrança e o desejo da data que hoje se comemora, com a plena convição de que assim irá verificar-se».
 Novidade muito especial era, também, a de que o BCAV. 8423 iria ser louvado pela RMA - «Para orgulho de todos nós, pois que tal se deve a oficiais, sargentos e praças», como sublinhava o Livro da Unidade.
- BC12. Batalhão de Caçadores 12, em Carmona, onde se aquartelou o BCAV. 8423, entre 2 de Março e 3 de Agosto de 1975.
- RMA. Região Militar de Angola.
- LOUVOR. Pode ser visto AQUI

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Os Dias da Cavalaria e do Exército, no Quitexe!


Avenida do Quitexe (Rua de Baixo). À direita, o edifício do Comando do BCAV. 8423 (com a bandeira) e a porta d´armas

A 25 de Julho de 1974, no Quitexe, assinalou-se o Dia do Exército, em cerimónia simples - tão discreta deve ter sido que nem dela tenho memória alguma. Noto no Livro da Unidade, porém, que o comandante enviou mensagens às subunidades, tal qual fizera no Dia da Cavalaria (a 21).
E assim dizia:
"A época é difícil, as solicitações são várias, o desentendimento entre os homens uma constante, mas esses factores não podem arrastar-se ao Exército e, por isso mesmo, neste Dia da Cavalaria de 1974, o comandante apela para o conceito de disciplina, o sentido da responsabilidade, lealdade e firmeza de atitudes, o desejo de cumprir, a agressividade do combatente, de modo a que possam os militares do BCAV. 8423 ser um desses muitos bravos que foram já imortalizados na afirmação do patrono de que «essas poucas páginas brilhantes e consoladoras que existem na História de Portugal contemporâneo, escrevemo-las  nós, os soldados de África».
O patrono era (é) Mouzinho de Albuquerque, que «tantos e tão bons exemplos deu à Pátria».
O tempo de 1974, porém, não era para festas e, por isso mesmo, o comandante Almeida e Brito limitou-se, na efeméride, a «assinalar a data», lembrando uma das frases que «imortalizaram o patrono»: «Querer e saber querer».
De Lisboa, chegavam notícias das labaredas revolucionárias do tempo. Tudo nos deixava perplexos e nem o correio que nos chegava, muita coisa esclarecia. Antes, confundia!!!

domingo, 24 de julho de 2011

Visita aos povos e fazendas a ZA do Quitexe


O mês de Julho de 1974, entre muitas coisas - algumas delas já aqui faladas e outras nem opor isso - foi tempo para os Cavaleiros do Norte melhor conhecerem a região, as autoridades locais (civis e eclesiásticas), as fazendas, as sanzalas. Como já acontecera em Junho.
O Livro da Unidade faz referência às seguintes fazendas:
- Dia 7: Negrão.
- Dia 14: Rio Duizo.
- Dia 25: Guerra, Chandragoa, Businaria e Isabel Maria (faz hoje 37 anos).
- Dia 26: Minervina.
E povos (sanzalas):
- Dia 6: Aldeia e Luege.
- Dia 10: Qutoqui e Quimassabi.
- Dia 13: Autoridades tradiconais e fazendeiros (no Clube do Quitexe).
- Dia 26: Aldeia Viçosa.
Foi numa destas saídas, em escolta, quer parecer-me que na ida para a Guerra e as outras (seguindo, em algum percurso, pela estrada/picada para Camabatela), que tivemos um primeiro acidente de Unimog. O que viria a acontecer por mais duas vezes: uma na picada para Santa Isabel, outra para Zalala. E uma outra, em plena estrada de alcatrão, entre o Quitexe e Aldeia Viçosa.
Desta vez, para os lados de Camabatela, julgo que era condutor o Canhoto, a viatura saiu fora da picada, ficou meia voltada e «voou» um dos nossos soldados - que teve de receber tratamento hospitalar. Não me lembro do nome dele. Eu, que ia sentado na travessa da carroçaria, saltei a tempo e tive a sorte de não ser apanhado pela viatura.
- ZA. Zona de Acção.
- CANHOTO. Alípio Canhoto Pereira, condutor-auto. Natural e residente em Belmonte, onde trabalha numa estação de serviço.

sábado, 23 de julho de 2011

Tropa criticada pelas populações civis de Carmona

Quartel do BC12, na saída de Carmona para o Songo

A 23 de Julho de 1975, e depois de das saídas em falso do MVL, de Carmona para Luanda, os comandos militares de Carmona reuniram com os responsáves da FNLA, para analisarem a delicada questão. Estava em causa o transporte de bens militares para Luanda e a autoridade militar portuguesa. A 13 e 21 de Julho, a coluna «teve» de voltar para Carmona.
Acumulando tensões, de trás, vinham também os incidentes de Luanda, Salazar e Malange e a muito «provável ressaca da FNLA» em Carmona. E não esqueçamos o cerco ao quartel de Negage e os comícios da FNLA/ELNA (no dia 13) e o «constante afluxo de refugiados da FNLA» a Carmona (começado a 14) e os pedidos de armas (a 15). Já não falando dos dramáticos incidentes carmonianos dos primeiros dias de Junho.
A guarnição dos Cavaleiros do Norte, essa, estava «em permanente situação de prevenção simples». E era «permanentemente alvo da crítica das populações brancas» - que, e cito o Livro da Unidade, se sentiam «marginalizadas e sem quaisquer apoios ou segurança daqueles que, ainda são, como afirmam, os lídimos representantes da Autoridade Portuguesa».

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O Melo está vivo!!!

O Melo foi companheiro de alguns momentos epopeicos da nossa jornada de África. Ele, atirador de cavalaria e sempre mais impulsivo, mais arrebatado, mais empolgante e contestatário. Revoltado!! Anti-tropa, diria eu! E eu, de operações especiais (ranger´s), talvez mais recatado, menos explosivo, porventura mais racional, menos dado às dores de alma que nos constrangiam a comissão ultramarina.
Um momento menos bom da nossa passagem pela terra angolana aproximou-nos bastante. Sem sermos íntimos - ou sequer por isso ficarmos!... -, fomos cúmplices. E ainda bem!!! Ainda há dias falámos disso, pelo telefone!!!
O tempo passou, galgou os anos que nos fazem (quase) sexagenários, mas abre-se o baú de memórias e algumas coisas não esquecem! Estão gravadas na alma e até nos fazem chorar o coração. Vencem-nos pela emoção, ou pela nostalgia.
O Melo, em 1975, seguiu a vida dele e eu a  minha, cada qual pelo seu lado. Surpreendentemente, seguiu ele a carreira militar, na GNR, e um dia nessa função o achei, na antiga EN1, entre Pombal e Leiria. Ele não deu pela minha cara, enquanto o companheiro de patrulha me inspeccionava documentos. Eu fui-o "descobrindo". Aquele ar, aquele trejeito, aquele olhar, aquele nervosismo, aquela ansiedade..., eu conhecia "aquilo". Não via era de onde. Até que me deu o clic: era o Melo.
Abraçámo-nos, a espanto do GNR que me inspeccionava!
Voltámos a encontrar-nos, quando me visitou em Águeda, em finais dos anos 90 e por razões que não vem a caso. E a desacharmo-nos, de novo e por nada. Apenas porque a vida é mesmo assim.
Recentemente, chegou-me a notícia: morrera o Melo. De doença. Pffff!!!..., como é madrasta a vida!
Um amigo e conterrâneo do Melo, confirmou a infausta nova. E aqui a dei.
Mas não era assim. O instinto levou-me a refazer a "investigação", acreditando ter de vir a "desfazer" a minha "mentira". Um vizinho menos simpático confirmou-me a vida do Melo. Que era vivo, sim senhor! Daí, até me  socorrer de um companheiro do blogue, o Casal, foi um instante. Olhe vá aí, ao nº. tal da rua tal, e veja se por lá está o Melo. Estava! Já falei com ele e das mãos dele, pelas do Casal, aqui está a foto do Melo. O ganda Melo!!!
Ó pá, desculpa lá: aqui te "matei", aqui te ressuscito!
Um grande abraço!

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Apresentação de um IN no quartel de Vista Alegre

Vista Alegre, vista parcial em 1975 (foto de José Martins)


A 21 de Julho de 1974, apresentou-se à guarnição de Vista Alegre um elemento armado, fugido do IN e entregando uma arma semi-automática Simonov - a primeira «apanhada» pelo BCAV. 8423. Tratava-se de um antigo GE, que fora raptado pelo IN e que lhe conseguira fugir, quando o grupo inimigo andava em trânsito.
A apresentação foi espontânea, refere o Livro da Unidade, nada tinha a ver com os contactos qe se vinham a fazer, no sentido de elemendos do IN fazerem a sua apresentação, no «contexto da actual política».
O dia foi também o Dia da Cavalaria, com cerimónias simples (eu nem me lembro delas), destacando-se a mensagem que o comandante  Almeida e Brito enviou às várias subunidades.
No mesmo dia, mas de 1975, registou-se o segundo impedimento, da parte da FNLA, da saída de um MVL de Carmona para Luanda - o que, decididamente, enervou as autoridades militares portuguesas, sentindo-se desprestigiadas por esta arrogante (e até irresponsável) atitude dos comandantes do movimento de Holden Roberto. Reforçaram-se os patrulhamentos na cidade e itinerários, aumentou o nível de segurança e prevenção das instalações militares. Preveniu-se, para não ter de se remediar.
- FNLA. Frente Nacional de Libertação de Angola.
- IN. Inimigo.
- MVL. Movimento de Viaturas Ligeiras.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A guarnição militar partilhada com a comunidade civil

José Borges Martins, soldado atirador de Zalala, na rua principal do Quitexe

A passagem da tropa portuguesa pelas terras de Angola foi semeada de afectos, cultivando e multiplicando relacionamentos muito próximos com a comunidade local. Por exemplo, quando saíamos em missão, escoltando os médicos (capitão) dr. Leal e (alferes) dr. Honório nas suas consultas ao povo das sanzalas e das fazendas. No dia-a-dia da vila, em troca de cumprimentos e colaboração com os moradores e comerciantes, nos correios, no hospital, na escola, nos restaurantes e bares. Nas saltadelas às sanzalas - ao Talabanza, à Qual e ao Quimassabi, ao Quitoque (na estrada para Carmona), ao Cazenza (antes do cemitério), ou Aldeia, Catenda e Tabi, na estrada (picada) para Camabatela.
No fundo, era uma família grande e de cores e origens diversas mas, no geral, no comum, sentindo-se gente igual e comungando de ansiedades muito primas de alma.
O Papelino representava, aos meus olhos, a alma civil quitexana, negra, africana, viva, emotiva, saudável. As crianças eram, quantas delas, colo e alvo do carinho que a guarnição dava com generosidade.
A imagem mostra um desses momentos: o soldado atirador Martins dando-se de afecto com 7 crianças negras do Quitexe. E o que se vê não é só pose de fotografia: é também amor por aquela gente que nos recebia de sorriso tímido e de nós esperava a partilha do que tínhamos. Quantas vezes, da nossa mesa!
- MARTINS. José Borges Martins, soldado atirador da 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala.  Aposentado da Tudor Portuguesa e residente em Castanheira do RIbatejo.