terça-feira, 15 de novembro de 2011

1 066 - O dr. Leal e a coisa que mingava ao Neto

Capitão miliciano médico Leal (em baixo) e furriel Neto (em cima)

O dr. Leal disse-nos adeus em Novembro de 1974, finda a sua comissão de serviço e com um capital de prestígio popularidade notáveis, entre a guarnição militar e a comunidade civil. 
Era um profissional excelente e um companheiro inesquecível, muitíssimo competente, extremamente dedicado, um verdadeiro sacerdote da medicina.
O que recordo dele, hoje, é uma situação algo caricata, que envolveu o Neto, em  banho de fim de tarde, nas casa dos furriéis.
Tinha o Neto (como todos nós) de tomar algumas precauções sanitárias e o banho era ocasião preciosa para algumas de carácter físico externo. E assim fez ele, naquela tarde de um dia de muito calor quitexano, esfregando um líquido por partes íntimas, prevenindo-se de eventuais doenças. Mas trocou o receituado.
E afligiu-se, com a coisa a mingar-lhe da vista e ele a gritar, a gritar!! E nós, ali a meia dúzia de metros, a fazer de conta. Deixa lá gritar o homem! Só que aquilo passou das normas e lá fomos nós, afogueados e a saber de que mágoas se qeixava o Neto.
Ao que vimos e não vimos, fomos em passo de corrida reclamar a presença do dr. Leal. Que rogado não se fez, deixando o seu jogo de damas (ou de xadrez, na messe) para, em passo acelerado, acudir aos males do Neto. O que foi e não foi? Pois, resumamos: o Neto tinha trocado a receita e a reacção física deu para a coisa lhe decrescer, lhe mingar, se apequenar, desaparecer da vista! Estão a ver o susto!
E quanto se riu o dr. Leal, há algumas semanas, quando, pelo telefone, nos lembrámos dessa «aventura»! E quanto nos divertimos, eu e o Neto, quando, a beber um café ou a saborear um tracanaz de leitão, nos lembramos da coisa que se lhe mingava!
- LEAL. Manuel Soares Cipriano Leal, capitão miliciano médico. Natural de Santarém, reside em Fafe - onde, aposentado, ainda exerce, já com  mais de 80 anos e principalmente servindo gente humilde e não endinheirada.
- NETO. José Francisco Rodrigues Neto, furriel miliciano de Operações Especiais (Rangers). Empresário, natural e residente em Águeda.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

1 065 - O carpinteiro, carpinteirava...


O carpinteiro, carpinteirava, pois então? E o Manuel Augusto era carpinteiro, logo carpinteirava, E, por carpinteirar, apodado foi de Carpinteiro!
O Carpinteiro, assim lhe vamos chamar, cá entre nós, era rapaz de graça fácil, com a piada na ponta da língua, às vezes até brejeira. Dele já falámos AQUI.
Hoje aqui voltamos a falar do Carpinteiro, por lhe termos achado louvor do comando da Companhia. Reza então o «despacho» que o então jovem militar manifestou, no desempenho das suas funções, «ser muito trabalhador, sempre pronto a atender os serviços que lhe eram determinados, ou pedidos, procurando cumpri-los o mais rapidamente possível e demostrando a maior vontade». Lá isso era.
O Carpinteiro notabilizou-se, segundo o louvor, pela sua "colaboração nos serviços de cozinha, aquando do apoio aos refugiados dos incidentes de Carmona, em que, de dia e de noite, ali permaneceu, ajudando os cozinheiros a orientar e atender grande número de crianças e senhoras à hora das refeições que lhe eram servidas no quartel». Tambem é verdade.
O capitão Oliveira, comandante da CCS, sublinha depois, no louvor, que «não deixou tambem de emprestar o seu esforço a quaisquer outras missões que lhe fossem  solicitadas, pelo que se torna merecdor de público reconhecimento».
Cá para nós, que ninguém nos ouve (ou lê...), o Carpinteiro notabilizou-se especialmente foi a fazer caixotes para o capitão encher de todas as bugigangas possíveis e imaginárias. Até uma urna! Era exímio e rápido. E cumpridor, tal qual do capitão Oliveira gostava. Grande abraço, ó Carpinteiro! O que é feito de ti?!
- MARQUES. Manuel Augusto da Silva Marques, 1º. cabo carpinteiro, natural de Esmoriz (Ovar).

domingo, 13 de novembro de 2011

1 064 - As cartas, os aerogramas...

Letras, Costa, Guedes e Gomes, a lerem correio pessoal, em Aldeia Viçosa

O correio! Fosse aerograma, ou carta! Quantos suspiros se tiveram pela hora da chegada, com notícias da terra, da família, da namorada, da mulher, dos amigos!!!
Quantas frustações não se sentiram quando, nessa hora, não era reclamado o nosso nome! E logo nesse dia, sabe-se lá porquê... - quando uma carta, um aerograma, meia dúzia de linhas, uma notícia do mais banal que fosse, retemperaria forças e ânimos aos bravos soldados que, a milhares de quilómetros, tinham saudades dos seus, dos seus cheiros e dos seus sons da terra, dos abraços amigos e dos colos que os faziam homens.
A carta levava-nos a voz amiga, a mensagem sábia, falava-nos de notícias que a gente já sabia, mas da quais queríamos saber mais, e das quais tinha saudades.
A carta era o mistério e a atracção, benzia-nos a alma e descomplexava-nos o corpo das dores que se sentiam pela terra quente de Angola fora, entre a saudade e a escolta, a operação militar, a patrulha, ou o simples e demorado passar dos dias de um calendário cujo fim era outro mistério.
A carta era lida e relida, dobrada em quatro e arrumada na mala, para ler ao outro dia, dias depois, ou daí um bocadinho! A carta era o bálsamo tranquilizador, o anestesiante que matava todas as dores e absolvia todos os pecados.
Não escrevia a namorada há três dias, há quatro?"..., Filha da mãe, não me liga nenhuma, será que já  tem outro? Mas chegava a carta, ou o aerograma - todo cheiinho, escrito por todos os lados, até nas dobras!!!..., a dizer pouco, ou nada, ou tudo - e renascia a ventura, morriam as dúvidas e as angústias. Desaparecia o peso da saudade e da nostalgia, traziam verdades.
Era a carta! Ou o aerograma!!


sábado, 12 de novembro de 2011

1 063 - A extinção de aquartelamentos


A extinção de aquartelamentos, na sequência da rotação dos dispositivo do BCAV. 8423, suscitou reacções diferentes - ora se tratando dos povos naturais, ora dos europeus, ora da comunidade militar.
Entre esta, cada extinção era um momemto de alívio para a guarnição, que abandonava locais do meio das matas (normalmente em fazendas de café) e chegava ao meio urbano, em espaço e tempo que iam fazendo vésperas para o regresso a Portugal.
A comunidade europeia, muitas vezes hostil aos militares, creio que se dividia. Mais tarde, muitos sentiram na pele e na alma as consequências do processo de descolonização. E era este que, já pelos dias de Novembro de 1974, avançava para o futuro. Disso era sintoma, e bem real, a extinção de aquartelamentos - que tantas vezes lhe guardavam as costas, a vida e a fortuna.
Dividido seria, também, o sentimento da população autóctone - que se relacionava bem (no geral) com a  tropa e poderia vir a ser vítima de represálias da parte do novo poder. E algumas vezes foi, mesmo ainda no tempo da presença militar portuguesa.
O mês de Novembro de 1974 foi tempo para a extinção de Zalala (onde jornadeou a 1ª. CCAV. 8423) e Liberato (CCAÇ. 209). E preparava-se a de Santa Isabel e Luisa Maria

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

1 062 - Equipa de futebol da CCS do BCAC. 3879

Equipa de futebol da CCS do BCAÇ. 3879.
Quem é capaz de identificar a malta toda?


ANTÓNIO CASAL DA FONSECA
Texto

Olhem só se a CCS do 3879 não havia, também, de ter o seu jogo de futebol! Teve, e muitos, apesar de eu só assistir a um. Assistir e jogar! Jogar, é como quem diz…, dar uns pontapés na bola e alguns nas canelas dos adversários! Principalmente nas do 1º. Valente, que só tinha mais três anos que nós (era velho!...) e ainda se aguentava muito bem com a pancada! Foi a oportunidade dourada de arrear num sargento e pagou um 5 estrelas! Ninguém o mandou passar-se, na 2ª parte, para o «inimigo»! É logo o primeiro dos agachados, sempre muito penteadinho, como hoje! Ó “meu” 1º., estava a brincar…, sei que anda “por aqui”!

O árbitro, completamente desastrado e que me deu a impressão de nunca ter visto uma bola, foi o furriel Rafael, o incansável do parque-auto. E muito se riu ele (e nós!...) com a sua falta de jeito e desconhecimento de todas as regras! Então o homem queria marcar uma grande penalidade quase no meio campo?! E não sabia que existiam fora de jogo?! Escusado será dizer que jogo, jogo não houve! Mas houve, à fartazana, joelhos, costas e cotovelos esfacelados, o que deu muito trabalho à equipa de enfermagem! Principalmente ao enfermeiro Pilório, que dava assistência de cerveja na mão e cigarro na boca - «Tá tudo bom, pá!!!… Deixem-se lá de mariquices!...", gracejava ele ao entornar álcool puro para a ferida do Teixeira! 
«F…., se te apanho mato-te, c…»!, gritava este de ardor!
Como não havia equipamentos, o adversário jogou de camisola interior, e nós em tronco nu! Ora, num campo pelado e rijo, dá para perceber em que resultaram as quedas!
Esquecia-me de acrescentar que o nosso guarda-redes, que jogou de camuflado, era um grande frangueiro! Passavam todas, ó Pardalhoco!..., quem é que te disse que eras guarda-redes?! - provoco-o eu, agora, bem longe da vista (que ele não é certo) mas na esperança de que me leia por aqui!
De tal maneira foi assobiado que esteve quase a abandonar o campo, com uma grande birra! Valeu o “nosso” 1º, que lhe apontou o Comandante!
Mas que foi um dia bonito, foi! Recordo-me que a festa foi animada, com um bom almoço, bem regado e estendido por toda a tarde.
Francamente, não me lembro do resultado! E ainda bem, porque levámos uma goleada de se lhe tirar o chapéu e falar aqui de números até me ficaria mal! Não fora o nosso mau ataque, a má defesa, o péssimo guarda redes e o árbitro tendencioso, podíamos muito bem ter ganho o jogo! Digo eu!!!
Jogo à parte, e tanto quanto sei, 48 anos depois todo o grupo está em grande forma física! Quer dizer…não exactamente… mas quase!...
Agora estou aqui a fazer contas e… tá tudo sexagenário!!! Tudo não, que o Mário ainda vai nos 58! Não fora a grande ideia de ir como voluntário, não teria a felicidade de conhecer o Quitexe! Ideias felizes!
Espera lá…sexagenários?!…sexagenários?!…, os jovens aqui em cima já são sexagenários?!..., como é que pode ser?! C’um caraças, foi um instante…, está tudo muito rápido! Tá bem, tá!...
Tão rápido como os golos do jogo de futebol! Retenho na memória que, em cinco minutos, levámos com outros tantos golos! Que grande cabazada!!!
ANTÓNIO CASAL DA FONSECA




quinta-feira, 10 de novembro de 2011

1 061 - A parada militar do Quitexe...


O espaço que aqui se vê é o da parada do Batalhão de Cavalaria 8423, no Quitexe. Mesmo na frente, o espaço ajardinado onde, no mastro, diariamente se içava e descerrava a bandeira nacional.
Ao fundo, eram os balneários colectivos. Ao centro, o espaço das oficinas, sendo bem visível as duas bombas de combustível. Mais para o lado, sem se verem na foto, ficavam as casernas e, para o outro, a cozinha e o refeitório dos praças.
A parada era onde, também diariamente, se formava a guarnição, para o controlo de pessoal e entrada em escalas de serviço.
O grupo de militares que se vê, de calções e camisolas camisolas brancas, era (e não erro, por certo), algum dos que, por este tempo de 1974, participava em diversos jogos de futebol - ora entre pelotões e especialidades da guarnição, ora desta com equipas civis, em disputadíssimos despiques no campo da vila.  
O jogo da bola (ou das cartas, ou das damas e do dominó) eram algumas das actividades com que os  militares ocupavam o seu tempo, destressando emoções e fazendo a leitura (ou a redacção) de um ou muitos aerogramas, para a família que ficava em Portugal e se roía de saudades, ou para as namoradas e mulheres a quem faltava o colo das suas paixões.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

1 060 - O adeus à Fazenda do Liberato

Monumento aos mortos, na Fazenda do Liberato


A Fazenda do Liberato foi militarmente abandonada a 8 de Novembro de 1974, quando de lá saiu a Companhia de Caçadores 209, do RI 21.
A CCAÇ. 209 era maioritariamente formada por militares da incorporação local e era uma das subunidades que integavam o Batalhão de Cavalaria 8423 - com as quatro companhias próprias, a CCS (no Quitexe), a 1ª. CCAV. (Zalala), a 2ª. CCAV. (Aldeia Viçosa) e a 3ª. CCAV. (Santa Isabel). A guarnição de Vista Alegre era formada pela CCAÇ. 4145. Associadas ao BCAV. 8424 estavam também o Pelotão de Morteiros 4281 (no Quitexe) e os GE 217 e 223 (Quitexe), 222 (Aldeia Viçosa) e 208 (Vista Alegre). Assim era constituído o elenco militar do Subsector do Quitexe.
Por esta altura de Novembro de 1974, preparava-se a grande rotação do dispositivo militar do batalhão.
Zalala e Santa Isabel seriam as próximas guarnições a «desaparecer do mapa» - abandonando posições estratégicas da zona de acção e que estavam ocupadas pelas formas armadas portuguesas desde 1961.
- LIBERATO. Ver AQUI
- RI 21. Regimento de Infantaria 21, de Nova Lisboa.


terça-feira, 8 de novembro de 2011

1 059 - O furriel mecânico-auto Martins...


O Martins era mecânico-auto e jornadeou por Aldeia Viçosa, como glorioso militar da 2ª. CCAV. 8423. Logo pela cara se vê que era boa gente. E era! Olhem-se só para a bogodaça! E nunca lhe falhou a mão para não gripar o motor, ou rebentar a junta da colaça. Nunca um «burro de mato» arreou na picada, se fosse pela mecânica.
Agora, 36 anos depois do adeus a Angola, leio um louvor ao Martins, atribuído «pela maneira eficiente e cuidada como desempenhou as duas funções». Nem mais nem menos.
O Martins, que era dado a bons folguedos e se afirmou como um bom companheiro de jornada, garantiu com o seu «exempo de militar» e com o seu «esforço e firmeza» - e as palavras são do louvor! -, garantiu «o melhor aproveitamento do pessoal técnico, sob as suas ordens», com o que «obteve excecpcional operacionalidade das viaturas da subunidade» - a 2ª. CCAV. 8423.
Gajo bom, portanto!
O Martins continuou, pela vida fora, a arte da mecânica automóvel e não pensa reformar-se tão cedo. «Se um homem pára, morre... Vou trabalhar sempre», disse ele, há poucos minutos, quando telefonicamente foi roubado à sua hora da janta, para falar da tropa.
O louvor foi proposto pelo capitão  miliciano José Manuel  Cruz, comandante da 2ª. CCA. 8423, e cita, expressamente, que «aliando estes factores a uma impecável conduta cívica e militar, tornou-se merecedor  de se ver distinguido com este justo prémio» - o louvor militar.
Um abraço, ganda Martins de Pegões!
- MARTINS. Amorim António Barrela Martins, furriel miliciano mecânico-auto. Natural e residente em Pagões-Gare, continuou mecânico-auto pela vida fora. Erradamente, o Livro da Unidade atribui-lhe a especialidade de atirador de cavalaria.
- BURRO DE MATO. Unimog, viatura de transporte militar.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

1 058 - O Letras, das Operações Especiais...

O Letras numa aldeia dos arredores de Aldeia Viçosa


O Letras é de Palmela, mas no ido ano de 1973 e pelo 2º. curso de Operações Especiais fora, em Lamego, fez-se Ranger como sendo de Setúbal. Para nós, instruendos que pelas serras e aquartelamentos de Lamego demos o corpo por instrução dura, às vezes violenta, o Letras era de Setúbal. Ponto final.
De Setubal e boa gente. Dele me lembro de ser dos poucos instruendos que, no dia do final de curso, tinha a famíla em Penude. Julgo até que a namorada. O Letras foi classificado com 13,25 de média final e ficou de divisas de cabo miliciano nos ombros - fazendo vésperas para a mobilização e a promoção a furriel miliciano.
Seguiu ele a vida dele e fiquei eu por Lamego, até à mobilização para Angola e a formação de batalhão no RC4, em Santa Margarida. Por aqui nos reencontrámos, nos primeiros dias de Janeiro de 1974.
«Olhó Letras!!...», observei-lhe eu no bar dos cabos milicianos,  quando m´apareceu pela frente, de saco na mão, a apresentar-se no que viria a ser o Batalhão de Cavalaria 8423. Já eu (e o Neto e o Monteiro) por lá éramos veteranos. Tínhamos chegado na véspera de Natal anterior.
Achamo-nos na vida, por duas mãos cheias de vezes, delas recordando uma célebre caldeirada em Setúbal, com o Brejo - que ele foi pescar para o reencontro de «heróis do Uíge», para aí há uns 15 anos.
E o Letras vem aqui hoje, porquê?
Porque a 31 de Outubro de 1974, há dias se passaram 37 anos, passou ele pelo Quitexe,a  caminho de Luanda, para vir de férias. Ele  e o Mourato, dois «cavaleiros» de Aldeia Viçosa.
- LETRAS. António Carlos Dias Letras, furriel miliciano de Operações Especiais (Rangers), da 2ª. CCAV. 8413. Empresário do sector do imobiliário, em Palmela.
- MOURATO. Abel Maria Ribeiro Mourato, furriel miliciano vagomestre, da 2ª. CCAV. 8423, de Aldeia Viçosa. Técnico administrativo tributário adjunto, aposentado. Residente em Vila Viçosa. 
- BREJO. João António Piteira Brejo, furriel miliciano atirador de cavalaria, da 2ª. CCAV. 8423. Trabalha na área da segurança, é natural de Montemor-o-Novo e reside em Vale de Milhaços (Seixal).

domingo, 6 de novembro de 2011

1 057 - O soldado Gonçalves

Posto de vigilância na estrada para Aldeia Viçosa
(foto By Bende, Julho de 2010)

ANTÓNIO CASAL FONSECA
Texto

Hoje dei comigo a pensar no Gonçalves! Melhor, nas travessuras e actos indisciplinados que o acompanharam ao longo de toda a comissão. Foi, seguramente, o militar mais incorrecto da CCS. Mas, a par disso, foi também o que mais sofreu no corpo a justiça militar, aplicada por oficiais e sargentos. Era um “Cristo”, mas nem isso o impedia de transgredir quase diariamente, tanto na recusa de cumprir as escalas de serviço como, até, no desrespeito pelos seus superiores!

Foi dos que esteve quase com um pé em Zalala e também com uma guia de marcha para uma Companhia algures no Leste. Só não foi porque, dizem, o Sargento-Ajudante quase implorou o seu perdão ao Comandante do Batalhão! Este era austero e duro, sim senhor, mas a verdade é que o Sargento em questão era o militar do Batalhão com quem tinha mais intimidade e também o único que entrava no gabinete sem bater! A sua avançada idade e o seu fino trato eram bem compatíveis com a personalidade e educação do Comandante. A amizade já vinha de trás, de uma outra comissão de serviço.
Certo é que o Gonçalves lá se viu livre de alguma zona de fim de mundo, prometendo e jurando a todos os santos que mudaria o seu comportamento! Mas não mudou nada! Dois dias depois já estava de castigo no posto de vigia à saída para Aldeia Viçosa, posto a que já estava habituado! E não queria outro, já quase o considerava seu, de tantos castigos ali ter cumprido!
O posto até não era mau, segundo dizia, porque dali se avistava tudo! Quem saía e quem entrava na casa de quem, o que lhe permitia devassar um pouco a vida de quem à noite se movimentava em pés de lã! Isto dizia ele, cujas conversas teriam de ser bem filtradas para que uma palavra ficasse no filtro! Nesta matéria foi sempre compulsivo, valha a verdade!
A última noite que aqui esteve de castigo, levou consigo uma garrafa de Sbell, e encharcou-se! Misturado com cerveja, não deu bom resultado e parece que começou a “ver coisas”! Ou melhor, passou-se e começou aos tiros em tudo o que mexia!
Ora, apenas se mexia o Alferes Ruivo, que se dirigia para o quarto alugado ali para aqueles lados! Vinha, tranquilamente, de uma “confraternização” com o então tenente Marques Júnior, que viria a ser Capitão de Abril. Valeu ao alferes a tremideira do Gonçalves, já que nenhuma das três balas foi certeira!
Acordou a vila de arma em punho, a confusão instalou-se e foi o colega do Gonçalves que desceu para acalmar os ânimos e esclarecer o que se tinha passado no posto! Lá em cima, chorava convulsivamente o atirador que “vira movimentações estranhas”. “Movimentações” que manteve nos interrogatórios e que, mesmo sabendo-se serem falsas, o livraram novamente de mudar de ares! Creio, até, que nunca o transfeririam! Não seria a solução para ninguém e muito menos para ele!
ACF

sábado, 5 de novembro de 2011

1 056 - Apresentação de FNLA´s em Santa Isabel


Capitão José Paulo Fernandes, comandante da 3ª. CCAV. 8423


O cessar-fogo declarado pela FNLA, a 15 de Outubro, fez o mês de Novembro de 1974 «caracterizar-se por uma  acalmia não encontrada há longos anos», como sublinha o Livro da Unidade.
Os contactos directos de elementos da FNLA com as autoridades militares e da administração civil portuguesas, «agora já nas categorias elevadas da sua chefatura», continuaram por estas semans - «como já vinha sucedendo em Vista Alegre».
A 4 de Novembro de 1974, ontem se fizeram 37 anos, por exemplo, realizou-se um encontro na fazenda de Santa Isabel, onde jornadeava a 3ª. CCAV. 8423, comandada pelo capitão miliciano José Paulo Fernandes.
O dia 4, a nível de Batalhão, aliás, ficou marcado pela partida do comandante Almeida e Brito, de férias e para Portugal. O comando efectivo (embora interino) ficou assegurado pelo capitão Falcão, oficial de operações e adjunto do BCAV. 8423 - que nesse mesmo dia se reuniu com outros comandantes das unidades do Comando do Sector do Uíge, no BC12, em Carmona.
Dois dias antes (a 2 de Novembro), tinham estado no Quitexe o brigadeiro Altino de Magalhães, comandante da ZMN, assim como (a título particular) o comandante do BCAV. 8324 (de Sanza Pombo) e diversos oficiais da guarnição de Carmona.
- BRITO. Carlos José Saraiva de Lima Almeida e Brito, tenente-coronel e comandante do BCAV. 8423. Faleceu a 20 de Junho de 2003, vítima de doença súbica. Tinha a patente de general.
- FALCAO. José Paulo Mendnonça Montenegro Falcão, capitão de cavalaria. Actualmente, coronel aposentado e residente em Coimbra.
- FERNANDES. José Paulo de Oliveira Fernandes, capitão miliciano de infantaria e comanmdante da 3ª. CCAV. 8423. Engenheiro, residente em Torres Vedras.
- FNLA. Frente Nacional de Libertação de Angola.
- ZMN. Zona Militar Norte.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

1 055 - Uma guarnição de serviço no Quitexe

Aquartelamento do Quitexe, visto da capela.
Casernas do PELREC e dos sapadores em primeiro plano

Quantas pessoas estavam de serviço, num aqurtelamento como o do Quitexe? Muita gente! Excluindo as tarefas convencionais - secretarias, enfermarias, oficinas, transmissões, faxinas, cozinhas e bares de praças, sargentos e oficiais, padaria e depósitos de material de guerra e géneros, eram nada mais nada menos que 45 militares «à ordem»! E mais um pelotão de piquete (mais ou menos 30 homens).
O exemplo de 4 de Novembro de 1974 era este:
- Oficial de dia: Alferes miliciano Carlos Silva.
- Sargento de dia: Furriel miliciano Morais.
- Sargento de ronda: Furriel Miliciano Gordo.
- Piquete: Pelotão de Morteiros 4281, comandado pelo alferes miliciano Leite.

Praças nomeados pela CCS:

- Reforço ao quartel: 18.
- Serviço à pista: 6.
- Guarda de polícia: 6.
- Ronda: 3.
- Escolta ao Correio: 2.
- Condutores de ronda: 2.
- Cabo de Guarda de Polícia: 1.
- Enfermeiro d dia: 1.
- Clarim de dia: 1.
- Electricista de dia: 1.
- Ordenança à secretaria: 1.
Agora, duas curiosidades:
1 - A 3 de Novembro, vieram de férias os 1º.s cabos Luciano Borges e Joaquim Breda, ambos de Leiria. 
2 - A 4 de Novembro, foi «solto das prisões do quartel, por terminar o cumprimento da pena que lhe foi imposta», o 1º. cabo Alfredo Coelho (Buraquinho) - 10  dias de prisão discipinar, dois agravada pelo Comando de Sector (20 dias) e Comando da Zona Militar Norte (30). Falamos do inimitável e sempre muito-falante Buraquinho, para quem fica um abraço.
- SILVA. Carlos Almeida da Silva, alferes miliciano atirador de cavalaria, da 3ª. CCAV. 8423. Funcionário bancário aposentado, residente em Ferreira do Zêzere.
- MORAIS. Norberto António Ribeirinho Carita de Morais, furriel miliciano mecânico-auto, da CCS do BCAV. 8423. Natural de Niza, é quadro superior da Estação Nacional de Plantas, em Elvas, onde reside.
- GORDO. António Luís Barradas Mendes Gordo, furriel miliciano atirador de cavalaria, da 3ª. CCAV. 8423. Funcionário camarário em Alter do Chão, onde reside.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

1 054 - Cavaleiros de Santa Isabel no Quitexe

O grupo que acompanhou o alferes Silva na apresentação no Quitexe, a 2 de Novembro de 1974, incluía ao furriéis Ricardo (a cores e em camisa) e Gordo ( o segundo, na ordem) e 19 praças, cinco deles do Grupo de Mesclagem, RI21 - Paulo Sebatela, Gonçalves Muecária, João Buende e Gouveia Gonga.
Os militares europeus eram José Valdemar Guinote Mendes Antunes, José António dos Santos Neves e José Carlos Gonçalves Catarino (todos 1ºs. cabos) e os soldados António Franciso Tomás, José Manuel Viegas Sequeira, Graciano Letras Castelo, Joaquim Martins, Diamantino R. Tobias, Albertino Moleiro Duarte, Carlos Alberto B. Carvalho, António Carvalho Moita, Ricardo da Conceição Botelho e Constantino Oliveira Santos. Tudo gente fixe, ao Quitexe chegada a 2 de Novembro de 1974. Por curiosidade, neste mesmo dia, estava eu nomeado de serviço, como Sargento de Dia ao Batalhão - mas fui substituído pelo Gordo! Não faço ideia da razão.
De regresso a Santa Isabel, com o alferes Simões e os furriéis Graciano (primeiro, em cima) e Carvalho (a cores e de bigode, em baixo) foram os 1ºs. cabos Macário e Moreira  e os soldados António Silva, José Eusébio, Custódio Guia, Raúl Graça, José Luís,José Lobo, Henrique Ramos e Simão Cardoso (todos europeus) e, do Grupo de Mesclagem, Adriano Correio, Jose Vunge, Abel Silva, Silvestre Oliveira, Inácio Neto e João Dala (angolanos).
O que será feito desta gente toda?

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

1 053 - Missões e amores d´alferes de Santa Isanel

b
Alferes Carlos Silva (e esposa, em cima) e Mário Simões (em baixo)

A CCS do BCAV. 8423, que pelo Quitexe fez a sua jornada angolana, era habitualmente reforçada com pelotões (grupos de combate) das três companhias operacionais. Um, por mês.
A 2 de Novembro de 1974, apresentou-se o alferes miliciano Carlos Silva (foto de cima), «a fim de desempenhar uma missão de serviço». Era da 3ª. CCAV., a de Santa Isabel, e ficou adido à CCS, para «efeitos de alojamento e alimentação». No mesmo dia, marchou para a sua companhia (a mesma, a de Santa Isabel), o alferes Mário Simões (foto de baixo), «por ter terminado a missão de serviço que veio desempenhara este batalhão», no Quitexe.
Cada qual comandava o seu grupo de combate. E cada qual era «ajudado» pelos respectivos furriéis milicianos: o Ricardo e o Gordo (com o alferes Silva), o Graciano e o Carvalho (com o alferes Simões). Tudo gente do alto!
O alferes Silva já pelo tempo se enamorara por lá, pela hoje sua mulher e por quem voltou a Angola, depois de desmobilizado. Do romance, resultou o casamento, na cidade de Luanda e a poucos dias da independência angolana.
A princesa dos sonhos do jovem alferes miliciano vivia e trabalhava em Luanda e o conhecimento vinha de Tomar, onde ambos tinham vivido e estudado, nos anos 60. A paixão multiplicou-se e Carlos Silva não se ficou por demoras. Depois do embarque Luanda/Lisboa, com a 3ª. CCAV., e logo após passar à disponibilidade, voltou a Luanda afogueado d´amores e lá casou a 18 de Outubro de 1975. Há dias se fizeram 36 anos.
Amores de Angola e para toda a vida!
- SILVA. Carlos Almeida da Silva. Alferes miliciano atirador de cavalaria. É aposentado da banca e reside em Ferreira do Zêzere.
- SIMÕES. Mário José Barros Simões, alferes miliciano atirador de cavalaria. Professor do ensino secundário nas Caldas da Raínha.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

1 052 - O furriel Ferreira, de atirador a amanuense...


Furriel Ferreira no aquartelamento de Aldeia Viçosa

A 1 de Novembro de 1974, a 2ª. CCAV. 8423 viu partir o furriel miliciano Ferreira, colocado na 1ª. Repartição da CCS do Quartel General (QG) de Luanda, nos termos da nota nº. 37880/1, de 23 de Outubro de 1974. Atirador de cavalaria, fôra reclassificado como amanuense.
As razões vinham de trás, de 1 de Julho de 1974, reportadas a um acidente na escolta que a 2ª. CCAV. 8423 assegurava até ao Piri - seguindo depois para (ou vindo de) Luanda.
O Ferreira voltava a Aldeia Viçosa num Unimog que se despistou, por volta das 11,30 horas da manhã e numa curva perto do Quibaxe - onde se cortava para Maria Fernanda -, atravessou a estrada e caiu por uma ravina, bem alta. O Ferreira e o condutor rebolaram até ao fundo e ficaram maltratados.
Os feridos foram levados ao PAD do Quibaxe e, daqui, transportados para o Hospital Militar de Luanda, onde chegaram apenas por volta das 18,30 - sete horas depois. O Freitas com a perna e a clavícula esquerda partidas. Por lá ficou, em tratamento, tendo alta a 23 de Setembro, quando regressou a Aldeia Viçosa.
A burocracia militar viria a reclassificá-lo como amanuense e colocá-lo em Luanda, considerando-o «apto para os SAE»,como se lê na Ordem de Serviço nº. 119, de 2 de Novembro de 1974.
«Por mim, teria ficado em Aldeia Viçosa, mas ninguém me perguntou nada sobre a minha vontade», disse o Ferreira, hoje em conversa com o blogue. Acrescentou: «Tinha gostado de ficar com aquela malta, malta boa, e ir com eles para Carmona».
- FERREIRA. José Maria Freitas Ferreira, furriel miliciano atirador de cavalaria, reclassificado como amanuense. Natural de Guimarães, onde reside (em Costa) e é profissional de contabilidade, auditoria e consultoria fiscal.
- PAD. Pelotão de Apoio Directo.
- SAE. Serviços Auxiliares do Exército.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

1 051 - A despedida do Neto, para férias em Portugal


Viegas e Neto no jardim público do Quitexe, em 1974. Em baixo,
a ordem de serviço com a «marcha» para férias

A 31 de Outubtro de 1974, por esta hora do Quitexe, já o Chico Neto tinha as malas feitas, para o voo intercontinental que ao outro o traria de férias e ao afago e aos abraços da família, dos amigos e a mais qualquer coisa da Ni. «Eh pá, traz lá os rojões e os chouriços da minha mãe», era a minha recomendação repetida, não fosse ele esquecer-se de tal missão e, depois, ficar eu por lá a xuxar no dedo e amuado, pela ausência dos sabores maternos. E já que não podia ser um escoadinho, ou um bacalhau com couves ou grelos, que de cá fossem umas latinhas bem fechadas e cheias dos ditos preparos de porco.
As nossas mães não se conheciam, mas com os filhos a peregrinar na guerra d´Angola, passaram a encontrar-se na praça de Águeda, onde a minha ia vender as suas hortaliças e animais de capoeira (para acautelar a economia doméstica) e a dele fazer compras.
A janta de há 37 anos, inevitavelmente, foi no Pacheco, mesmo em frente à casa da avenida que nos servia de ninho, e onde uma senhora de cor (suponho que tendo alguma coisa a ver com a propriedade do dito) preparava manjares de abrir a boca de apetites.
Lá veio o pratinho de camarão, mais outro e se calhar outro, com umas canecas de cerveja, enquanto o bife com ovo a cavalo se condimentava na cozinha. Até parece que lhe estou a tomar o sabor. Tenho a ideia de que ainda fomos ao Rocha e chegámo-nos ao bar de sargentos, onde o Neto foi amaciar a despedida com uns Porto´s e uns brandys Vital ou Macieira. E por láestava o Rocha, que com ele vionha até Lisboa!
Faz hoje 37 anos!!!
- ORDEM. Ordem de serviço
com a «saída» do Neto e
do Rocha, de férias. Clicar na
imagem, para a ampliar

domingo, 30 de outubro de 2011

1 050 - A contra-subversão e os cavaleiros de férias

Administração Civil do Quitexe, nos anos 70. Ontem, foto de 2011


A Comissão Local de Contra-Subversão (CLCS) do Quietexe reuniu a 30 de Outubro de 1974, uma 4ª.-feira - repetindo encontros do mesmo mês (a 3 e 16).
As CLCS actuavam junto das populações, através de acção psicológica e visando influenciar o seu comportamento, no sentido de uma maior fixação no território e de negar o apoio a elementos infiltrados do exterior.O topo da estrutura era o Conselho Provincial de Contra‑Subversão - composto pelo Governador‑Geral, Comandante‑Chefe, Secretário Geral, Secretários Provinciais, Comandantes dos três Ramos das Forças Armadas - e  apoiado por um Gabinete de Estudos e Coordenação da Contra‑Subversão (chefiado pelo Chefe de Estado‑Maior do Comando‑Chefe).
A nível dos distritos, instituíram‑se os Conselhos Distritais de Contra‑Subversão (com o Governador, Comandante de Sector, Intendente, Chefe do Estado‑Maior do Sector) e nos concelhos, circunscrições administrativas e postos administrativos organizaram‑se Comissões Locais de Contra‑Subversão (integrando a autoridade administrativa e comandante militar locais). Assim era no Quitexe.
As reuniões passavam despercebidas da guarnição militar e decorriam principalmente na administração civil (foto).
A 30 de Outubro, entraram de licença na metrópole os 1ºs. cabos Luciano Borges Gomes (mecânico de armamento ligeiro) e Joaquim Rama Breda (condutor), ambos de Leiria. E o (furriel) Neto preparava as malas para, a 1 de Novembro, voar até Luanda e Lisboa e depois para Águeda, também de férias. Todos da CCS.

sábado, 29 de outubro de 2011

1 049 - Elementos armados da FNLA apresentaram-se no Quitexe

Administração do Quitexe (foto de Agosto de 2011, edifício restaurado).
Em baixo, o administrador Galina




A 29 de Outubro de 1974, 6 elementos armados da FNLA apresentaram-se no Quitexe, ao comandante do BCAV. 8423 (tenente coronel Almeida e Brito) e às autoridades administrativas para «esclarecimento da actividades na serra do Quibunda, que julgavam ser das NT».
O Livro da Unidade, de que me socorro, cita o caso como tendo «o maior relevo» e sublinha que «facilmente se concluiu ser de elementos estranhos, que procuravam, certamente, criar um clima de desconfiança local, entre a FNLA e as NT». Não eram estranhas nem surpreendentes essas manobras, de gente interessada em criar conflito e animosidades entre as partes que até às vésperas eram inimigos em armas e, então, se faziam irmãos na construção de um país novo.
O grupo da FNLA era liderado pelo sub-comandante João Alves e, em termos de organização militar do movimento independendista presidido por Holden Roberto, pertenciam ao denominado quartel de Aldeia.
O mesmo dia, no acção do Centro Recreativo do Quitexe, foi tempo para mais uma exibição de um filme, desta feita especialmente «orientado para as populações».
- ADMINISTRADOR. O administrador civil do Quitexe,
em 1974, seria o sr. Galina (na foto, de João Garcia).
Não estou certo que fosse.
A foto do edifício é de Cecilia Miguel.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

1 048 - O Brejo alentejano de Aldeia Viçosa


Estão a ver este tipo, com este olhar de gente fina, arguta e malandreca?! É o Brejo!!! O inimitável e grande companheiro Brejo, de Aldeia Viçosa - a mítica "capital" da 2ª. Companhia dos Cavaleiros do Norte!!
O Brejo era a ironia em pessoa, era a piada fácil e solta que se contava, a inteligência e o saber que se desvendavam do seu sotaque alentejano, sempre bem disposto e satírico, com a resposta e o trocadilho sempre na ponta da língua!
O Brejo era inimitável e crítico: sempre crítico, mordaz e multitalentoso no engenheirar de palavras e argumentos para esgrimir em qualquer debate de ideias, em quaisquer incidente que levasse o verbo à discussão, à diferença e à pluralidade de opiniões.  
Onde estivesse o Brejo, estava a boa disposição, o bom-humor, a alegria de viver - mesmo que o dia, ou a hora, fossem de dor por um qualquer incidente, uma qualquer diferença ou mágoa, algum desalento, ou constrangimento. 
Eu e o Brejo, na verdura entusiasmada dos nossos 22 anos, chegámos a ensaiar uma rábula que seria apresentada numa festa militar em Carmona. Ele à boca do palco, colado ao pano gigante que tapava a cena, girandolando saudades e metáforas, amores e desamores que se sentiam por lá, desembrulhando o cartucho reinvindicativo da tropa (que nem sempre entendia a palavra e a ordem do comando). Ele, de rosto que se fazia Cantinflas, versejando em prosa que se fazia graça. E fazia mesmo!! Pelo ar gingão, pelo talento e pelo dom que tinha de comunicar. Nunca a rábula chegou ao palco.
O Brejo era assim!
Achei-o algumas vezes, pela civil fora. E sei das dores que sente, porque nem sempre tudo corre bem! Mas não se lhe ouve uma amargura! Aceita a vida com a frescura dos que sentem viçosos e confiantes. Ainda hoje lhe senti isso, ao falar-lhe ao telefone.
O manganão chegava do trabalho e não perdeu momento para lamentar este país que somos! Tal qual há 36/37 anos, quando embrulhava a contestação em palavras acesas e fortes. E eu, daqui, a ver-lhe a cara, o esgar rezingão e sério! Mas sempre a brinca(lha)r!!! Sempre igual!!! Abraço forte, ó Brejo!
- BREJO. João António Piteira Brejo, furriel miliciano
atirador de cavalaria, da 2ª. CCAV. 8423, a de Aldeia
Viçosa. Natural de Montemor-o-Novo e residente em Vale
de Milhaços (Seixal). Trabalha na área da segurança, em Lisboa.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

1 047 - O 1º. cabo Esteves da Secretaria do Comando

O Zé Esteves foi 1º. cabo escriturário e comissionou por Angola na secretaria do comando do Batalhão, dirigida pelo então tenente Luz. Era a discrição e a competência em pessoa, aquele tipo para quem olhamos e sentimos ser boa gente, bem apessoada, cuidada, civilizada e amiga.
«Ao logo de toda a comissão, demonstrou interesse e dedicação por todos os serviços de que foi encerregado na secretariado comando, onde desempenhou funções da sua especialidade», lê-se no louvor que lhe foi atribuído, pelo tenente Luz.
O documento sublinha que era «muito desembaraçado, correcto e cumpridor, procurando com todo o seu entusiasmo e noção exacta das responsabilidades, apresnetar todos os serviços que lhe eram distribuídos, mesmo os mais variados, com a maior perfeição e em devido tempo».
Exemplar, pois!
- ESTEVES. José Lopes Esteves, 1º.-cabo escriturário,
natural e residente em Viseu (foto de 1994).

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

1 046 - O Grupo de Mesclagem da Fazenda Santa Isabel


Um Dala e um Bila, um Muecária e um Micaela, um Quinguegue!!! Estes apelidos dizem-vos alguma coisa? Dirão, seguramente, mas aos companheiros de Santa Isabel, já que foi por lá que aquartelaram os angolanos do Grupo de Mesclagem da 3ª. CCAV. 8423, comandada pelo capitão miliciano José Paulo Fernandes.
O grupo era oriundo do RI 20, de Nova Lisboa, e tinha militares como o Vunge, o Boma e o Conga, o Sola, o Buende e o Jinga! E o Paulo Sebetela, ouviram falar? Também era de Santa Isabel e foi promovido a 1º. cabo - tal qual o Abel A. Silva, o Manuel Franco e o Felisberto P. Barata.
De Santa Isabel eram, também, o Caiango, o Canda, o Cassul. E o Cassulo e o Capesse, todos nomes bem africanos. E, inevitavelmente, um Neto: o Inácio A. E o Salomão e o Sebastião (o M. Pedro), o Conceição e um outro Sebastião (o Paulo F.), mais o Simão (Daniel). O Oliveira era Silvestre e o Neves... Tomás. E havia o Diás.
Os mais velhinhos deles todos, eram o Sebastião M. Pedro e o Paulo F. Sebastião, nascidos em 1945, já idos nos seus 29 aninhos. O Garcia Conda e o Francisco Caiango eram de 1946 (28 anos). De 1948: Francisco Pedro, Bernardo Oliveira e José Buende. De 1949: Simão Bila e José Capesse, Francisco P. Correia,  De 1950: Miguel D. Gomes, Paulo Sebetela, João Canda. Neves Tomás, Diás Quinguegue, Inácio A. Neto, Francisco C. Sebastião. Manuel Franco, Cabral Pedro, Mateus J. A. Domingos e António José. Os outros eram de 1951 e 1952.
Alguns deles nos lerão? Contactem os Cavaleiros do Norte.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

1 045 - Os mesclados de Aldeia Viçosa

Aldeia Viçosa, antes de 1974 (foto de José Lapa)

O Manhanga e o Cacongo, conhecem? Eram dois dos 36 soldados do Grupo de Mesclagem da 2ª. CCAv. 8423, a de Aldeia Viçosa. 
O Manhanga, Mateus D. Manhanga, era, por qualquer graça que desconheço, da  incorporação de 1966, portanto nascido em 1945 e o mais velho de todos quantos, naquele espaço os Cavaleiros do Norte, eram comandados pelo capitão milicianoJosé Manuel Cruz. O Cacongo, ligeiramente mais novito, era de 1971, portanto nascido em 1950. Havia tambem o Cipriano A. M. Costa, de 1969 - nascido em 1948.
Mais antigos, de data de nascimento, eram ainda o Rafael S. António e o João P. Mussoqui, o Paulo Santos  e o Fernando Águas, todos de 1949 e da incorporação de 1970.
Quanto a apelidos da malta dos «mesclados» de Aldeia Viçosa, temos um Quiala, um Mussoqui e um Bartolomeu, um S. Tomé (nada como ver para crer...) e até um Sobrinho. E um Bravo e um Amaro, um Romão e dois Costas (o Adelino e o Filipe, nomes bem europeus). Também não falta um Neto (o José A.). Aliás, dois: também o Adelino F.
Quanto a outros nomes e apelidos, ainda tenos um Panzo, um Gabriel, um Bernardo e um... Viegas. Não o conheci! Todos eles eram do RI20, de Nova Lisboa.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

1 044 - O Grupo de Mesclagem de Zalala


Alguns elementos do Grupo de Mesclagem de Zalala, com militares europeus (brancos)

Nomes e apelidos foi coisa que por aqui não faltou, há dias, recordando companheiros europeus das 4 companhias do CCAV. 8423. Sobraram curiosidades até fartar, tantas e tão singulares eram (e são) os baptismos dos Cavaleiros do Norte.
Deixámos os companheiros angolanos no tinteiro e é deles que hoje vimos falar.
O Grupo de Mesclagem do RI20 completava a 1ª. CCAV., a de Zalala, e tinha um Etelvino e um Marcolino, um Gigante e um...  Helena. E um Marias! Um Adão e um Cimba, o Eliseu, o Dala, o Mussoque e o Mequiana, o Júnior, o Leite o o Cabindo.
Esta gente deverá ter agora na casa dos 60 anos, eram rapazes mais ou menos da nossa idade. Também o Macumbo, o Zangola e o Cunola. E o Tito Tandala! Dois Netos: o dito Ramos e o Augusto S.
Os mais idosos de todos eram o José Luís e o Manuel Garcia, da incorporação de 1968 e com nomes bem europeus. Reparo agora que há um «mesclado» de 1967, o Augusto M. Dala. E um de 1969, o Eliseu Neves. Outro de 1970: Eduardo Alberto.
O ano de 1971 foi ano de incorporação de 10: Neto Ramos, Tito C. Tandala, Diniz José, Roque Martins, Tiago Marques, Gaspar Manuel, João Q. Campos, Ernesto Filipe, o José Pedro e o Duarte A. João.
Havia ainda 21 de 1972: Etelvino J. Nunes, Jorge André, Amtónio J. João, José J. Ferreira, Domingos M. António, Daniel J. Helena, Albano V. Marias, Adão J. Francisco, Eduardo H. Júnior, Miranda Cimba, Paulo Mussoque, Gomes Mequiana, Eduardo P. G. Leite, Pedro M. Cabindo, Francisco J. António, Augusto S. Neto, Daniel Macumbo, Adão C. Manzola, Augusto C. Zangala, João S. Manuel Joaquim Ferrão. Todos os outros eram da incorporação de 1973, portanto nascidos em 1952.

domingo, 23 de outubro de 2011

1 043 - Pelotões de Santa Isabel em Lucunga e Quipedro

Vista aérea de Lucunga, nos anos 70 (foto de blog da CCART. 3451)

A 23 de Setembro de 1974, dois grupos de combate da 3ª. CAV. 8423 «abandonaram» a Fazenda de Santa Isabel, deslocando-se um para a Fazenda Além-Lucunga, outro para Quipedro. Tal acontecia no âmbito da rotação aprovada pelo Comando da ZMN e iam reforçar a área do BC12, instalado em Carmona. Os grupos voltaram a Santa Isabel, a 8 de Novembro do mesmo ano.
A finais de Outubro, era cada vez mais iminente a remodelação de todo o dispositivo dos Cavaleiros do Norte e, por isso, repetiam-se reuniões na ZMN. A CCAÇ. 4145, até aí em Vista Alegre, iria mudar-se para o Comando de Sector de Luanda. A CAÇ. 209, a do Liberato, regressaria ao RI 21, a sua unidade de origem. As duas companhias estavam associadas ao BCAV. 8423 desde Junho desse ano, quando chegou ao Quitexe.
O Neto, meu conterrâneo de Águeda, contemporâneo de escola e companheiro «Ranger» de quarto, de companhia e de batalhão, preparava a mala de saudades para as férias do Portugal Europeu - onde o esperavam a família e a «mais que tudo» Ni Santos.
A 23 de Outubro de 1974, hoje se completam 37 anos, exibiu-se no Clube Recreativo do Quitexe (CRQ) o filme sobre a vida de Eusébio - que rodara em toda a zona de acção do batalhão, desde o dia 10 e no âmbito das actividades de acção psicológica junto das tropas. A 29, foi exibido para a população civil. Os cuidados técnicos da passagem da fita estavam ao cuidado do 1º. cabo Rodolfo Tomás - que também apoiava o CRQ, sempre que era preciso.

sábado, 22 de outubro de 2011

1 042 - Sem disparos de armas mas com rajadas de palavras

Praia da Ilha de Luanda, em Setembro de 1974

A guerra angolana não me «fez» disparar tiros, para além dos de treino. Ou os de instrução, na carreira de dito do BC12, ao que era para ser (e nunca foi) o Exército de Angola, que seria formado por elementos dos  movimentos independentistas: MPLA, FNLA e UNITA.
Operações militares, escoltas, patrulhas apeadas ou motorizadas, em nenhuma situação disparei - embora tal fosse iminente, por mais de uma vez. Mas nem sequer tal aconteceu nos dramáticos primeiros dias de Junho de 1975, em Carmona.
Disparei, isso sim, foram muitas palavras, às rajadas e em centenas e centenas de cartas e aerogramas, ora no meu ofício pessoal, ora dando mão (e letra) a companheiros que tal queriam. E mantive um registo pessoal regular, que não diário, sobre as minhas «aventuras» angolanas. Algumas delas, até no requinte da dactilografia, em papel de cera (um luxo!!!,...), como o nº. 4 de uma série que chamei de "Sou Apenas Um Homem», na qual ia narrando algumas coisas provocadas pelos desejos da idade, ou pela vontade de debitar emoções no papel.
A 20 de Outubro de 1974 (como se vê no final deste dizer de hoje), no por mim pomposamente denominado Solar dos Rangers, no Quitexe, escrevia eu (entre outros preparos de que vou dispensar o leitor) que tinha andado a laurear o queijo por Luanda, onde me sentira «sozinho na cidade grande».
Há na história uma Salomé («sempre faminta de jogos lúbricos!!!...») e uma Mariluz (de «corpo esguio e moreno, de olhos grandes, que abria apetites e suscitava sonhos...») e conto eu (em «Sou apenas Um Homem» - parte 4) que se esquivou esta aos meus desejos, mesmo já quando «entre nós nascera uma doce intimidade».
Por outras palavras, levei com os pés. Até quando «andámos alguns dias, como duas crianças, brincando na Praia do Bispo ou na ilha, e mirando o mar calmo, por onde navegavam traineiras e se se confundia o infinito do firmamento com o beijar das águas azuis da costa do Mussúlo».
Quanto ao resto, fico por aqui. Estava em vésperas de fazer 22 anos.
- ASSINATURA. A minha letra da altura, no
final do texto de 4 páginas, do nº. 4 da Série
"Sou Apenas Um Homem». A narração refere-se
às minhas férias de Setembro anterior.
- SOLAR DOS RANGER´S. O quarto dos furriéis
Neto e Viegas, de Operações Especiais (Rangers).
- NOMES. São fictícios, mesmo no original.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

1 041 - Os regedores e o desarmamento dos milícias do Quitexe

Regedores do município Quitexe (foto da net)

O desarmamento dos milícias foi um dos pontos mais delicados da actividade do Batalhão de Cavalaria 8423, em Outubro de 1974. E começou faz hoje precisamente 37 anos.
A questão já AQUI foi falada. Mas, ao tempo, foi necessária a intervenção dos regedores das aldeias (sanzalas) nas quais houve mais renitência ao desarmamento.
Ocorre-me uma convocação, apressada, do regedor de uma sanzala perto da vila do Quitexe (porventura o Tabi), onde o regedor local teve enormes dificuldades em convencer os milícias para entregarem as armas. A «coisa» pôs-se preta  - o que motivou a intervenção militar, de resto muito aligeirada e discreta, já que os milícias acabaram por compreender a situação, embora, e com legitimidade, tivessem receio de represálias, da parte dos elementos dos movimentos de libertação. 
Não consta, porém, que tivesse acontecido qualquer retaliação, pelo menos na zona de acção do BCAV. 8423.
A 26 de Outubro, no Quitexe, realizou-se uma reunião com todos os regedores, no sentido de os sensibilizar para a necessidade de entrega do armamento dos milícias - o que veio a acontecer, a partir de 28 de Outubro desse ano de 1974. Entregas voluntárias.
- REGEDORES. Representantes da autoridade
administrativa civil, nas sanzalas. Tinham
autoridade policial e até judicial.