sábado, 4 de junho de 2011

O Batalhão de Cavalaria 8423 em voos seguidos para Luanda

Aldeia Viçosa, no Uíge. Onde estacionou a 2ª. CCAV. 8423

A 4 de Junho de 1974, chegou a 2ª. CCAV. 8423 (a de Aldeia Viçosa) a Luanda, logo seguindo para o Grafanil - onde já estavam a CCS (Quitexe) e a 1ª. CCAV. (Zalala). Dia 5, amanhã se fazem 37 anos, chegou a 3ª. CCAV. (Santa Isabel), que hoje se encontra na zona de Torres Vedras.
Companhia a companhia, o Batalhão de Cavalaria 8423 rodava (em voos de Lisboa, nos TAM) e instalava-se em Angola, antes de jornadear para o Uíge-mártir de 1961 e anos seguintes.
As companhias operacionais eram completadas no Grafanil com os chamados Grupos de Mesclagem - militares angolanos, formados e instruídos em Angola, no Regimento de Infantaria 20, em Luanda. Cada grupo, tinha 36/37 homens - que se integravam na guarnição europeia. Eram soldados, na esmagadora maioria, e alguns deles 1º.s cabos. Todos atiradores.
Os CCS´s já iam na «veterania» de seis dias em Angola e, tanto quanto podiam, espraiavam sonhos e apetites pela cidade de Luanda, conhecendo-a nos pontos mais turísticos.
Por mim, com a mobilidade de transporte facilitada pelo Albano Resende, não perdi pitada do (que se dizia ser) melhor da cidade, das praias aos templos do prazer, dos cinemas aos belíssimos restaurantes e esplanadas da capital angolana.
As (poucas ou nenhumas) obrigações militares davam tempo para tudo, com a (minha) sorte de, pela maioridade militar (devida ao curso de OE) nem sequer ter chegado a fazer serviços no Grafanil.
A única impertinência destes seis dias de Luanda foi criada pelo tenente Mora, num dos seus habituais excessos de zelo, numa história algo puéril e até anedótica, que talvez um dia aqui contemos. O que interessava, nestes dias, era viver... Luanda!!!
- MORA. João Elói Borges da Cunha e Mora, tenente do SGE, adjunto do comandante da CCS. Faleceu a 21 de Abril de 1993, com 67 anos.
- OE. Operações Especiais (Rangers).

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Encontro dos que foram quitexanos antes dos Cavaleiros do Norte..


Clicar na imagem, para a ampliar

ANTÓNIO FONSECA
Texto

Ainda não eram dez da manhã e já parte da rapaziada estava pronta para a “formatura”. Alguns, já tinham galgado centenas de quilómetros, depois de desafiarem o sono e a madrugada. Mas ninguém se queixou do cansaço, tal era a vontade de estar presente, para rever e abraçar os amigos que, por terras quitexanas e ambrizetanas fizeram parte da sua família.
Foi bonito ver aqueles abraços fortes e sentidos, sempre acompanhados de sorrisos francos que nos enchem a alma. E também dos sorrisos cúmplices dos amores das nossa vidas que, já verdadeiramente integradas, não só entendem bem o porquê da velha amizade, como ainda deixam escapar uma lágrima de emoção.
É assim a nossa família da CCS do BCAÇ. 3879, com uma amizade enraizada e que se prolonga para lá dos encontros anuais. É bom saber que há amigos em todos os pontos do país. É reconfortante!

Em memória aos que partiram, celebrou-se uma missa, solenizada pelo Coral Cantábilis, que fez questão de nos presentear com a ante estreia de uma peça em latim, ensaiada para orquestração. De olhos e ouvidos colados, no final não pouparam mimos e elogios aos elementos do Coral. E eu, emocionei-me…claro…, era o “meu” coral!
Mas os estômagos vazios não perdoavam e eram horas do tacho! “Calma aí, pessoal, têm um minuto para formar para as fotos!..., e as senhoras ficam já de piquete porque serão a seguir!...”, ordenei” eu, puxando da minha divisa de 1º. cabo! Fotos tiradas, agora, sim, iríamos reconfortar os estômagos, porque vazios certamente não iriam longe!
O almoço, esse foi bem comido e bem regado, mas com muita atenção e regra no que respeitou ao álcool, não fosse algum carregar demais nos “cavalos”!
O resto da tarde foi testemunha de um convívio extraordinário, de uma alegria bem patente, que denotou, em cada palavra e em cada olhar, um sentimento franco de amizade. Eu, que até tinha um discurso num papel, para não me perder, dobrei-o e mandei-o às urtigas. Foi de improviso, como eu sempre gosto, de coração aberto e olhos nos olhos, um a um. É que assim, se alguém adormecer, damos logo por ela e elevamos a voz!..., mas não foi o caso, felizmente!
E a festa continuou, sempre com a mesma animação mas já a dar mostras de alguma saudade, imaginem, porque as horas passavam e só nos voltaríamos a ver para o ano! O que é uma verdade, para a maioria!
Mas as horas não perdoaram e lá demos por terminado o encontro de 2011, porque havia muitos quilómetros para percorrer.
Para trás, ficou um dia fantástico e inesquecível, como fizeram questão de referir na despedida, apenas lamentando o rápido passar do tempo.
Não posso deixar de falar do/para o Costa (condutor), que não víamos há 40 anos: o teu coraçãozito estava ao rubro, meu amigo!..., acho que te faltou tempo para dizeres tudo o que te ia na alma!!!
Malta, para o ano há mais! Será em Mangualde e fica ao cuidado do nosso amigo Rodrigues. E olhem que o tempo passa muito depressa!
- FONSECA. Organizador do evento e autor do texto. O terceiro, de pé, da direita para a esquerda. Bancário aposentado, natural e residente em Marrazes (Leiria).
- COSTA. Condutor, empresário de restauração em Águeda. O quinto, da direita para a esquerda, de pé (camisa roxa).

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Os dias de Junho de 1974 em Luanda


Os dias de Luanda, por Junho de 1974, foram vividos em grande movimentação. A enorme metrópole respirava segurança, se havia guerra seria lá para o norte, na mata... A cidade aguçava e «matava» a nossa curiosidade, a baía enchia os olhos e a descoberta da enorme urbe era caldeada pelas emoções de por lá achar alguns conterrâneos.
O primeiro que procurei foi o Custódio, que por lá era militar sapador. Não o achei no Grafanil, onde aquartelava, mas na casa de José Martinho (da PSP), no Bairro da Cuca. Procurei os irmãos Resende, aqui vizinhos do lado, mas dos quais apenas conhecia o Albano - para quem levava encomenda da mãe. Irmãos dele, eram o José Bernardino e o Manuel. E encontrei a Cândida, o Mário e a Benedita.  E ficámos a saber que íamos para o Quitexe.
Almeida e Brito, o nosso comandante (soubemos depois), já lá estivera como oficial de operações/adjunto do Batalhão de Cavalaria 1917, em 1968 (à esquerda, na foto). E agora (1974), já a 27 de Maio lá tinha  ido - e também a Zalala (1ª.), Aldeia Viçosa (2ª.) e Santa Isabel (3ª.), onde se iriam instalar as três companhias operacionais. Passara por Carmona, na Zona Militar Norte e Comando do Sector do Uíge e lá foi, à nossa futura zona de acção, fazer o necessário reconhecimento e estabelecer os necessários contactos com a guarnição que íamos substituir - o Batalhão de Caçadores 4211.
A nossa jornada africana estava em marcha.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Batalhão de Cavalaria 1917, os antes de nós no Quitexe

A CCS do Batalhão de Cavalaria 1917 esteve reunida no sábado, em S. Pedro de Moel. Esteve no Quitexe entre Maio de 1967 e Junho de 1969. E pronto. A foto foi-nos enviada por Luís Patriarca, com este comentário: «Mais um ano mais um convívio do BCAV 1917 com a tendência já acentuada de cada vez menos presença».
O grupo é de malta agora com 68/69 anos. Malta fixe, que jornadeou pelas terras que foram nosso berço de 6 de Junho de 1974 a 2 de Março de 1975. O Quitexe!

terça-feira, 31 de maio de 2011

As duas despedidas de Tomás para Angola...



Nem sempre é bom recordar, mas no caso da minha despedida paa Angola, em Maio de 1974, a minha mãe e meu irmão (que já partiram!), foram comigo até à estação de Campanhã, no Porto. Meu irmão, encorajou-me, pois tinha vindo da Guiné e de uma zona 100% operacional (Farim e Cuntima). E disse-me: «Vai descansado que tudo vai correr bem, vais ver...».
Deu-me um abraço, abracei a minha mãe - que me disse, com os olhos em lágrimas: «Deus queira que não tenhas pior sorte do que o teu irmão, que Deus te proteja...».
 Despedi-me e com uma coragem vinda não sei de onde, disse-lhe: «Vai ver que dentro de pouco tempo estou aquí». E assim saí de um café, em direção à estação de Campanhã, com os dois sacos com as fardas às costas e dizendo-lhes adeus. Passado cerca de 24 horas estava eu a entrar pela porta dentro: «Olá, cá estou eu novamente, cheguei...».
Depois, já custou menos, a segunda despedida, sempre na esperança de haver outra surpresa e... voltar. O que equivaleria a já não ir para Angola. Mas o tal regresso, o definitivo, só viria a acontecer 15 meses depois.
RODOLFO TOMÁS

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O dia da chegada a Luanda e ao Grafanil...

Baía de Luanda e capela do Campo Militar do Grafanil (1974)

O alvoroço da chegada a Luanda, hoje se completam 37 anos, foi agitado pela curiosidade natural, a de saber como lidar com os naturais e residentes; a adaptação do clima, conhecer o lendário campo militar do Grafanil, saber para onde iriam os nossos juvenis ossos parar. Viemos a saber que seria a vila do Quitexe.
O Grafanil era imenso, como nos tinham dito. Uma mini-cidade militar, com dezenas de unidade e uma população (residente e flutuante) que poderia passar das 20 000 pessoas! Talvez!
A viagem do areroporto, pela cidade e estrada de Catete, até ao Grafanil encheu-nos os olhos e matou-nos algumas curiosidades: os prédios enormes, a circulação automóvel e de peões, brancos e negros misturados, as ruas cheias de gente. Se havia guerra em Angola, não era ali que a conhecíamos. Não se via!
Arrumadas as malas no destacamento que nos estava destinado e acomodado o pessoal, foi dada ordem de saída: à cidade de Luanda se poderia ir! E cada qual que se desencassse para o almoço. Assim foi!! O táxi levou-nos à baixa, deslumbrando-se os olhos com a beleza da baía. Eu levava chouriços e rojões para malta amiga e logo procurei, após almoço, a residência de Mário Neves - parente com apartamento na rua do estádio dos Coqueiros. Não o achei (só viria a encontrá-lo em Setembro, na Gabela), mas lá deixei a encomenda. E fui à descoberta da cidade! Que nos embriagava a curiosidade com o seu cosmopolitismo e a vida social que viríamos a descobrir! Aí, e então, começaram a nascer as saudades de hoje! 
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AQUI
e AQUI

domingo, 29 de maio de 2011

A noite do embarque para Angola, há 37 anos!!!

Monteiro, Neto e Viegas no refeitório dos cabos milicianos do RC4, em Santa Margarida (1974), dias antes do embarque para Angola. Em baixo, avião Boeing 707 dos Trannsportes Aéreos Militares (TAM)


Ao fim da tarde de 29 de Maio de 1974, hoje se completam 37 anos, subimos os degraus dos autocarros que nos levaram de Santa Margarida (do RC4) até Lisboa. Aí começou a nossa jornada africana.
Foi um dia de estreias: andar numa auto-estrada, conhecer uma portagem e um aeroporto. «Coisas» que eu nunca tinha visto. Como quase todos! E fazer o baptismo de voo num avião. Eu já tinha andado de helicóptero, na instrução dos Rangers, em Lamego. Aí ia a CCS do BCAV. 8423!!!
Choveu a bom chover, no percurso de auto-estrada (que era apenas até Vila Franca de Xira) e pelo tempo em que, já no aeroporto (o AB9), fizemos tempo de espera para o embarque. Íamos viajar de noite - diziam-no que era  por questões de segurança!... - e, do avião, olhar a noite de Lisboa foi um encanto! A cidade era bonita, esmagadoramente deslumbrante, abria apetites para a rasgar até à madrugada!!! Mas nós íamos para a guerra!
Correu bem a viagem! Por mim, recordo-me de ter dormido e, a certa altura, alguém me acordar a dizer que as luzes que se viam na noite já africana eram as da cidade de Bissau, capital da Guiné Portuguesa. E dormi! E comi! Comida de avião? Julgo que sim!
O voo foi de 9 horas! Alvoreceu e nós a ver África do ar, furando os céus que descobríamos estranhamente avermelhados. A ver as tropicalíssimas paisagens africanas. E lá se espreitou Luanda, durante os largos minutos em que o avião de fez à pista do aeroporto internacional! Já era a manhã de 30 de Maio. E que manhã de calor! Que logo nos levou a tirar o blusão e a experimentar o sabor da cerveja angolana.
O comandante Almeida e Brito, o oficial adjunto (capitão Falcão) e o oficial de transmissões (alferes Hermida) tinham viajado uma semana antes e lá estavam à nossa espera. A 1ª. companhia chegou no dia 1 de Junho; a 2ª. CCAV. desembarcou a 4; a 3ª. CCAV. a 5! Assim o Batalhão ficou completo para a jornada angolana - que se iria estender até Setembro de 1975.

sábado, 28 de maio de 2011

Desporto, recreio e espectáculo, antes da guerra...



Pavilhão do Clube Recreativo do Uíge, em Carmona 

A tensão cresceu nos últimos dias de Maio de 1975, em Carmona. Pressentia-se e sentia-se!  Os patrulhamentos eram constantes, na cidade e acessos. As NT, assoberbadas e sempre atentas, protegiam os pontos vitais da cidade - ainda que de forma camuflada, digamos. O aeroporto, as comunicações, o hospital, o abastecimento de água. A guarnição não tinha parança.
Os pequenos conflitos com os movimentos armados também se repetiam. Queriam eles controlar os itinerários - ao que opôs a tropa portuguesa - «a única autoridade militar constituída», como refere o Livro da Unidade. 
O mês de Maio de 1975, sublinha o mesmo livro, «foi o período onde, franca e verdadeiramente, se verificou a viragem das nossas possibilidades de uma ordem que se deseja e quer se impõe seja conseguida».
Carmona, agora Uíge, era a capital da província e, naturalmente, o seu ponto fulcral. Eram permanentes as  quezílias entre o MPLA e a FNLA (que «não aceitava muito bem qualquer outra opção política», numa terra que achava sua). Foram crescendo, tendendo sempre a aumentar, levedando ódios e suscitando instabilidades. A pequena guarnição militar tinha enorme dificuldade em fazer o seu papel de árbitro.
Por estes dias, um grupo de militares ensaiava um espectáculo que iria (mas não chegou) ser apresentado no pavilhão do Clube Recreativo do Uíge. E equipas militares, no  mesmo pavilhão, participavam em torneios de futebol de salão e basquetebol. Sem sabermos, fazíamos cultura, recreio e desporto, em vésperas da iminente guerra.
Assim foi na quarta-feira, dia 28 de Maio de 1975.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

O dia em que a partida para Angola foi adiada

Viegas e Ferreira (Pimenta) na messe de cabos milicianos do RC4

A 27 de Maio de 1974, bem de madrugada, acompanhou-me minha mãe até ali abaixo, ao agora chamado Largo do Centro Social da ARCOR - até há pouco tempo baptizado de Cruzeiro. Foi de silêncios a nossa viagem, apeada, da casa ao largo, uns longos 150... metros - onde esperámos o carro do Neto, conduzido pelo Benigno, para com ele irmos de viagem até Santa Margarida. Era o dia da partida para Angola!
A despedida foi rápida: «Pronto, mãe!... Adeus, adeus... quando menos contar, cá estarei de volta!...», disse-lhe eu, cheio de nove horas, feito forte de alma e de coração.
«Adeus, rapaz!...», disse ela. Sem um ai, ou um qualquer sinal de amargura!
Lá fomos, pela estrada fora, a ver abrir a alvorada, até Santa Margarida. Pouco depois, soubemos que a partida fôra adiada para 4ª. feira, dia 29. E estávamos autorizados a voltar para casa. O Neto voltou e fiquei eu por lá, roubando-me a mais uma despedida. A ler, a parlapear com a tropa que por lá ficou e a dar uma volta pela Mata do Soares - por onde fizeramos o IAO! Por lá fui companheiro do Zé Ferreira (o Pimenta, na foto), outro aguedense e companheiro de escola, Ranger do curso seguinte (o terceiro) ao meu (o segundo).
Sabe bem, passados estes 37 anos, recordar estes momentos e, com uma vida entretanto feita, perceber e concluir como era generosa a nossa comunhão com o que a Pátria nos pedia. E pediu-nos a mobilização para Angola - para onde fomos pela razão que este blogue anda a contar.
Ver AQUI

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O domingo de véspera da minha partida para Angola



A 26 de Maio de 1974, um domingo, gravei o sinal de chamada para a missa. Já tinha a cassete com o dobrar de sinos do funeral do Quim, que se enterrara no dia 12, e eu próprio tocara um repenique de trindades, que fiz de aleluias na torre sineira da igreja.
O dia e a véspera foram passados a vadiar pela aldeia, olhando campos por onde até aí ajudava minha mãe no amanho minguado de terras - o subalo, a pontepedrinha, a codiceira, o serrado, a travessa, o vale do serrano, a longa, a arroteia, a tapadinha..., o valbom, o gramal!!! -, mandando falhas nas águas amoliçadas da pateira e a dar dois dedos de conversa com quem me cruzava nestas minhas horas do «adeus, que vou para... Angola!!!».
Foram dias descontraídos! Muito serenos! Minha mãe, ao tempo recém-viúva, lá me almofadou a mala e o saco que levava de viagem, com conselhos que ainda hoje guardo. «Lembra-se do que me disse faz hoje 37 anos?!...».
Não se lembrava a autora dos meus dias, hoje repousada no Jardim Social aqui do lado, quando há bocado lhe falei e até que lhe disse: « Foi quando fui para Angola!!!...».
«Ah, prá guerra!...», exclamou-se ela, agora a caminho dos 91 anos e de sorriso aberto, a tocar-me no ombro direito com uma espécie de soco, certamente a esconder-me a recordação das dores que ao tempo sentiu.  
Assim dito, logo desfiámos longa conversa, até que lhe chegou a hora da janta. Fui eu de seguida, e de carro, dar a volta por aqueles sítios de há 37 anos, fazendo «reconhecimento» dessas memórias e aqui estou, agora, a editar o post 880 deste blogue dos Cavaleiros do Norte. O tempo passa depressa!
- QUIM. Joaquim Augusto Tavares Pires, 36 anos, conterrâneo então falecido. Irmão de Porfírio, Lurdes, José e Fernando, o actual presidente da Junta de Freguesia de Ois da Ribeira, a minha aldeia natal e de residência. 
Ver AQUI

O enconto dos Caçadores do Quitexe da CCS do 3879

A CCS do BCAÇ. 3879 no encontro de 15 de Maio de 2010, na Lourinhã

O encontro da CCS do Batalhão de Caçadores 3879 está marcado para o próximo dia 28 de Maio de 2011, às 10,30 horas, na Azóia, em Leiria.
Junta companheiros que pelo Quitexe jornadearam entre 1972 e 1973, antes de partirem para Ambrizete - onde concluíram a comissão que os levou a Angola.
O organizador é o 1º. cabo Casal, filho da avó do cantor David Fonseca e que, aqui no Cavaleiros do Norte, assina crónicas como António Fonseca. E que belas crónicas, de memórias e de saudades quitexanas!

A almoçarada será no restaurante O Casarão e a concentração no parque do dito cujo. Os Caçadores do Quitexe partilharão logo depois (11,30 horas) a celebração de missa na igreja local - antes do almoço (13).
«O resto...será conversa! Da boa!!!», diz-nos António Fonseca, o Casal da 3879.
Bom encontro, ó malta!!!

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O Destacamento da Ponte do Dange


Ponte do Dange, onde a 1ª. CCAV. 8423 teve
um Destacamento, em 1974 e 1975


A 1ª. CCAV. 8423. a de Zalala, rodou para Vista Alegre a 22 e Novembro de 1974 e, por consequência, ocupou o Destacamento da Ponte do Dange - precisamente para fazer segurança à ponte - que era vital na estrada do café, ligando Carmona a Luanda.
Vista Alegre, relativamente a Zalala, tinha muito melhores condições. Era já uma vila, embora pequena, com estrada de alcatrão em frente ao quartel - a tal estrada do café...
«Eu já não digo «aquartelamento”, porque a diferença de qualidade das instalações era muito significativa, por isso sendo grande o nosso alívio em poder deixar de combater, entre ”outros inimigos”, a anterior picada de Zalala», recorda-me o Rodrigues, que era furriel atirador e fazia de vagomestre.
Os tropas de Zalala conheciam a picada como a palma das mãos, todos os seus declives, a lama e o pó, os buracos, as curvas e os mil perigos, aos quais já estava mais ou menos habituados. Mesmo familiarizados. Estar em Vista Alegre era estar no... paraíso.
O sempre bem-humorado Barata comentava, com graça e até farta ironia, que «isto, sim, é uma vila; tem quatro casas e uma “oliveira“ a marcar o centro».
A verdade é que, em Vista Alegre, já dava para sair do quartel e beber uma cerveja num dos estabelecimentos que vendiam de tudo, desde medicamentos a peixe seco, pregos, ferramentas, farinha, a cerveja e um indeterminável número de artigos.
O mesmo não se pode dizer do Destacamento da Ponte do Dange, que não deixava nada a dever às condições de Zalada, em termos logísticos.
«Eram iguais ou para pior...», recorda o Rodrigues.
Como se vê nos postes eléctricos (da foto), dava a impressão de quem lá esteve anteriormente só queria que não tombassem no tempo deles, utilizando escoras de “engenharia militar”. Era desenrascar quanto se podia.
- BARATA. Jorge António Eanes Barata, furriel miliciano atirador de cavalaria, residente em Alcains.
Ver AQUI.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Os últimos dias de Maio de 1975, em Carmona...

O Bar do Eugénio, na cidade de Carmona (actual Uíge)


Os últimos dias de Maio de 1975, em Carmona, foram de crescente instabilidade - que se sentia a cada dia, levedando nas ruas e nas almas. Os patrulhamentos das Forças Mistas - as NT, com aqueles que seriam o futuro Exército Nacional de Angola - mantinham a segurança pública, mas não evitavam uma ou outra escaramuças.
Vulgarmente se ouviam tiros, às vezes rajadas, principalmente de noite e para o lado dos bairros que circundavam a cidade. E também nesta. Tenho presente, num incidente diurno e perto do Bar do Eugénio, entre civis e militantes (armados) de um dos movimentos, a necessidade de a patrulha de PM (PU) intervir de forma rápida e ágil, quem sabe se, com isso, evitando alguma(s) morte(s). E de, logo depois, numa transversal da Rua do Comércio terem sido disparados tiros sobre a patrulha - que, por razões que agora não lembro, seguia apeada.
O sacrifício da guarnição era evidente: aos serviços normais somavam-se os de excepção, como eram os patrulhamentos na cidade e nos principais itinerários. Os menos de 400 homens do BCAV. 8423 não tiveram, por esses dias de Maio de 1975, tarefa que se desejasse. Aumentavam as dificuldades e ponderava-se a concentração, na cidade, de todo o Batalhão. A 1ª. Companhia, recorde-se, estava na vila do Songo e em Cachalonde - comamdada pelo capitão José Paulo Fernandes.  
- PM (PU). Polícia Militar, Polícia de Unidade. Criada em Carmona, em
Março de 1975, para «melhor garantir a apresentação  do pessoal militar e
prevenir a resolução de muitas quezílias entre a população civil e as NT,
devido à animosidade que aquela tem a estas», como se lê no Livro da Unidade.
- NT. Nossas Tropas.  

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O emblema e o crachat do Batalhão de Cavalaria 8423



O crachat/emblema do Batalhão de Cavalaria 8423 foi desenhado pelo (alferes miliciano) Mário Simões e conhecido a 11 de Fevereiro de 1974. O comandante  Almeida e Brito, desejando desde logo «instituir o espírito de corpo o BCAV., de modo a que se conctituísse um todo coeso, disciplinado e disciplinador», achou por bem idealizar o emblema braçal da Unidade, ao mesmo tempo que se desejou «a sua plena identificação com a sua unidade mobilizadora» - o Regimento de Cavalaria 4.
Conta-nos (o alferes miliciano) Simões (foto ao lado) que, quando chegou a Santa Margarida para formar batalhão, sabendo-se que era desenhador, foi chamado pelo comandante Almeida e Brito, que lhe apresentou o conceito que pretendia para os crachás e galhardete, o símbolo que iria representar o batalhão, assim como as cores para cada companhia, em terras de Angola.
«Mostrou-me um galhardete onde se via um cavalo em fuga e foi a partir dessa base que eu comecei a trabalhar algumas maquetas, a fim de serem apresentadas ao comando», recorda, agora, Mário Simões.
O trabalho foi «exaustivo e desafiante», mas no fim de alguns dias chegou-se ao resultado final. «O tempo era curto, havia que mandar executar os vários crachás, os autocolantes e os galhardetes», recordou Mário Simões.
O emblema seve o lema «Perguntai ao inimigo quem somos», dentro das tradições do RC4, sendo o fundo de cor preta. E foram escolhidas as cores para cada companhia: vermelha (1ª. CCAV., a de Zalala), azul (2ª. CCAV., a de Vista Alegre) e castanha (3ª. CCAV., a de Santa Isabel).
Assim se criou a imagem dos Cavaleiros do Norte!

domingo, 22 de maio de 2011

O sr. Augusto de Zalala...

Rodrigues, Augusto e Queirós, boa gente de Zalala (1974)

Augusto foi um militar de Zalala, que todos tratavam por senhor. Senhor? Então não era camarada? Bom, a verdade é que Augusto, de idade bem mais avançada que a nossa, fez parte do 4º. pelotão em Zalala da 1ª. Companhia; e depois em Vista Alegre, sempre tratado por senhor.
Ninguém sabe, ou se lembra, de como e porque foi mobilizado para o serviço militar, mas de três dias de mato, numa operação em que o pobre do sr. Augusto foi vítima das famosas formigas “quissonde”, disse muitos se lembram. Eram enormes, as formigas, de cor avermelhada. E quando mordiam, mordiam a sério. Bem faziam sentir a dor que provocavam.
Sempre que íamos para o mato, tínhamos de utilizar roupa apertadas com bons elásticos, porque as formigas entravam nas calças e procuravam logo os testículos, para morder. Eram um perigo! E, se mordessem, era escusado..., que não largavam. Para as retirar, tínhamos de as puxar até as partir e lá ficava a cabeça da fixa na pele.
O sr. Augusto, numa dessas vezes, teve o azar de uma dúzia destas “amigas” terem pegado com ele. O pobre do homem não usava cuecas, imaginem como ficou! Sangrava a bom sangrar e isto logo no segundo dia, mesmo depois do tratamento do enfermeiro e de uma tentativa de evacuação - que foi recusada. O bom do sr. Augusto, assim, teve de aguentar o resto da operação, movimentando-se com grande custo e por vezes carregado às costas pelos restantes camaradas.
Mais tarde e devido à sua difícil mobilidade - o que já não tinha tanto a ver com as quissonde, mas com a idade, passou a ficar no quartel e a fazer serviços na cantina e cozinha, entre outros. Foi, por isso, por nós “promovido” a  sr. Augusto. Pelo nosso respeito a pessoas de mais idade e, no caso, por ser um bom camarada e um amigo sempre pronto a colaborar em qualquer tipo de serviço - desde que ele fosse capaz.
Aqui lhe deixo um grande abraço, sr. Augusto! AMÉRICO RODRIGUES

sábado, 21 de maio de 2011

As vésperas de partir para Angola, há 37 anos!



Há  37 anos, em Maio de 1974, estes eram os dias de vésperas de partida para Angola - que era para ser a 27 e foi a 29. Aqui pela aldeia, fiz a procissão das despedidas, depois de, num salto de comboio, ter ido a Viana do Castelo baptizar o meu sobrinho  Zé Fernando e dizer «até um dia destes...» aos familiares e amigos que ainda por hoje por lá vivem.
Os amigos mais próximos, um a um, tiveram o abraço do adeus, embrulhado em desejos de que tudo me corresse bem e na esperança de que por Angola não demorássemos muito tempo. O 25 de Abril tinha sido semanas antes, ainda não fizera um mês, e os ventos revolucionários chegavam à aldeia com sugestões de mais nenhum soldado ir para a guerra. Mas fomos!
Os amigos, nas despedidas, todos me faziam votos  de sorte, a que eu, na imberbidade dos 21 para 22 anos, dizia amen com convicções seguras: sentia-me preparado, física, mental e tecnicamente, e recusara mesmo uma oferta de favor para não ir ao ultramar. Portanto, era ir e sem medos.
«Escreve, pá!...», era a sugestão mais repetida por aqueles e aquelas que, mais próximos ou mais distantes, eram gente da minha horta de amigos. Assim fiz sempre!!! De Angola, trouxe uma mala de correio, que ainda guardo, com mais de um milhar de cartas e aerogramas. Documentos que agora, para este blogue, são semente de ideias e colheita e maná de pormenores, que são pão desta leitura diária - desde 9 de Abril desde 2009.
Hoje, ali no cemitério, onde levei minha mãe à sua habitual romagem de sábado, achei-me diante da campa de primo meu, mais velho e de quem tenho nome igual, que foi fuzileiro especial, depois militar de carreira e que, no aquartelamento do Vale do Zebro, morreu há 15 anos na sequência de uma estúpida queda de uma escada.
Fiquei a pensar na observação de minha mãe: «Tás a ver, o teu primo também andou lá na guerra e veio morrer cá...». Assim foi. Há guerras a sério que não matam. Há coisas vulgares que nos derrotam. Nos abatem
- FOTO: A foto do meu primeiro serviço em Angola, no Quitexe.
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sexta-feira, 20 de maio de 2011

O FNLA que ia ver os jogos de futebol em Zalala

Furriel Rodrigues com elementos da FNLA, em Vista Alegre (1975)


Os primeiros contactos “amigáveis” com elementos da FNLA aconteceram em Zalada, onde eles iam com familiares, procurar intensamente a enfermaria e remédios para cura de um interminável número de doenças, que nem eles sabiam definir.

Queixava-se o furriel enfermeiro Barreto de estar «tramado para tratar este pessoal»: «Só sabem dizer que dói aqui, aqui e aqui, já lhes disse que o que dói é a ponta do dedo, quando eles apontam para localizar a dor».
Realmente era difícil ajudar estes homens, mulheres e crianças que, após anos provavelmente sem um comprimido, ou outro tipo de medicamento, ansiavam vivamente por uma cura milagrosa, na base de uma injecção, pomada, pensos ou um xarope, que os livrasse de um qualquer mau estado físico, ou “mental. Todos eles viam na enfermaria essa oportunidade. Troquei impressões com alguns elementos da FNLA, no tempo de Zalala e dos nossos confrontos, sobre os pontos onde atacavam.
Há várias histórias de escaramuças, de que eles se recordavam perfeitamente - até dos locais onde fazíamos operações militares. Diziam eles que muitas vezes nos localizavam, mas evitavam o contacto. Pude verificar algum do seu armamento, mas o que mais me espantou foi um deles dizer que ia ver os nossos jogos de futebol -sempre muito bem escondido no mato envolvente ao aquartelamento. Vejam lá se algum dia me passaria pela cabeça ter tal espectador...
Em Vista Alegre, já eram bastantes, mas não eram tão genuínos, nem comparados, com os de Zalada - por provavelmente terem sido recrutadas à última da hora. Já apareciam em grupos e com “fardas”e melhor armamento. Como os outros movimentos, MPLA e UNITA, tinham presença muito reduzida, as escaramuças a valer foram mais tarde. Reservadas para o palco de Carmona.

AMÉRICO RODRIGUES

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Instrução ao futuro Exército Nacional de Angola


Quartel do BC12, onde esteve o BCAV. 8423, de 2 de Março a 4 de Agosto de 1975. A norte, a estrada para o Songo


O quartel do Batalhão de Caçadores 12  (foto) foi onde, de 2 de Março a 4 de Agosto de 1975, esteve o comando e algumas companhias do Batalhão de Cavalaria 8423. De lá partiam ordens e operações, tendencialmente para manter a segurança da cidade e da região, das pessoas e bens. Mas eram cada vez mais ingratos os dias finais do mês de Maio de 1975.
Ao tempo, procurava-se incrementar as chamadas Forças Mistas, que seriam o futuro exército de Angola -  envolvendo militares da FNLA, MPLA e UNITA. Que, nas diversas especialidades, recebiam instrução da tropa portuguesa.
A nós, milicianos do PELREC, coube instruir os atiradores, ex-combatentes das matas e dos trilhos do Uíge, ex-inimigos do ontem.Julgo poder dizer, afora uma ou outra situações menos ortodoxas, que o relacionamento foi pacífico e pedagógico. Nao foi por nós - ou por falta da nossa paciência, ou competência, ou dedicação, que não se formou o Exército Nacional da Angola. São contas de outro rosário, que não o nosso?

quarta-feira, 18 de maio de 2011

A modernidade de Vista Alegre, por onde jornadearam os «zalalas»...

Vista Alegre em 1974/75 (em baixo) e já no século XX (em cima, foto da net). Repare-se que a casa do lado direito, atrás da placa, ainda é a mesma


Vista Alegre foi pouso da jornada africana dos Cavaleiros do Norte, por lá jornadeando a 1ª. CCAV. (a de Zalala), de 22 de Novembro de 1974, a 24 de Abril de 1975 - quando passou para o Songo. Assumiu a responsabilidade operacional no dia 25 desse mês, mês véspera de Natal.
A companhia de Zalala foi lá render a Companhia de Caçadores 4125/72 - nessa altura de partida para Luanda. O Destacamento de Ponte do Dange tam´bém integrava a guarnição comandada pelo capitão Castro Dias.
A foto de cima identifica a localidade com algum ar de modernidade, bastando olhar para os candeeiros de luz pública, que parecem alimentados por “painéis solares” - luxo que nem se sonhava no tempo dos Cavaleiros do Norte.
«Verifico, com alegria, que a casa perdura nos tempos de hoje...», diz o (furriel) Rodrigues, que m´enviou a foto, com
«a placa genuína, a de 1974/74», como fez questão de sublinhar.
A estrada de 1974 e 1975 nem tinha a linha contínua, o que leva a concluir que foi melhorada a chamada estrada do café - que liga(va) Carmona (Uíge) a Luanda. E sabe-se que sim, por notas recolhidas ma imprensa angolana actual.
- Ponte do Dange, ver AQUI

terça-feira, 17 de maio de 2011

Carmona e o o Uíge eram uma ilha no mar da FNLA

Carmona, capital do Uíge. Quartel do BC12, onde esteve
o BCAV. 8423. Visto do lado do Songo.

As dores de Maio de 1975 foram crescendo, dia a noite, cada vez mais sentidas pela guarnição e, em particular, pelos homens que saíam em serviços - para a cidade de Carmona, ou para os patrulhamentos a itinerários.
A autoridade militar portuguesa era frequentemente questionada, ora pelos dirigentes e militares dos movimentos, ora pela população civil europeia. Já aqui várias vezes falámos disso. 
Não era invulgar sermos maltratados e acusados!! E muitos europeus cuspiam e vociferavam palavrões à nossa passagem. O Livro da Unidade dá conta de, relativamente à guarnição, «começar a verificar-se desautorizada e alvo de atropelos, o que levou publicamente a afirmar «viver-se numa ilha no mar da FNLA», com todas as inconveniência que daí advêem».
A FNLA era, de verdade, a força nacionalista dominadora da povíncia do Uíge, dizendo-se na altura que teria mais de 20 000 homens armados - número que nunca foi possível confirmar. E as escaramuças com o MPLA (principalmente) e depois com a UNITA pasarem ser frequentes - quiçá diárias. 
Era nesse tempo que os Cavaleiros do Norte tinham de ser árbitro justo e imparcial. Papel que, julgo bem, exercemos com honra e às vezes com sérios riscos.