quinta-feira, 17 de junho de 2010

A Fazenda de Santa Isabel e a 3ª. Companhia do BCAV. 8423



Fazenda Santa Isabel, o castelo. Onde estava a 3ª. CCAV. do BCAV. 8423

MANUEL RAMOS DEUS
Texto

Santa Isabel, apesar de ser uma fazenda isolada, foi onde passei o melhor tempo em Angola.
Havia sempre caça, que comprávamos a um preço muito acessível aos nativos. Não faltavam os cachos de bananas, que nos permitia comê-las quando estavam no ponto. Papaias, mamões, etc., também não faltavam.
Certa noite, um grupo foi à caça e caçou uma pacaça enorme. Tivemos carne para alguns dias, o que permitiu ao 1º. Sargento Marchã equilibrar as finanças!
Apanhou-se também uma gibóia com cerca três metros! Foi uma novidade paratodo o pessoal da companhia.
Havia um pombal, com um bando enorme de pombos, aos quais deu a "moléstia" e, a pouco e pouco, ficou reduzido a cinzas!
É evidente que terá havido momentos difíceis e tensos, mas devido às minhas funções, não passei por eles e, por conseguinte, não falo do que não vivi.
- MARCHÃ. Francisco António Gouveia Marchã, 1º. sargento SGE e chefe da secretaria da 3ª. CCAV. do BCAV. 8423, em Santa Isabel.
- DEUS. Manuel Ramos Deus, 1º. cabo operador-cripto da 3ª. CCAV. do BCAV. 8423, em Santa Isabel.
- PACAÇA. A pacaça de Santa Isabel, ver AQUI.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A maior fortuna da mãe negra de olhos tristes...

Furriéis milicianos Neto e Viegas no final de mais uma operação militar (1975)

Os primeiros dias de Junho, em Carmona, foram de muitas dúvidas e medos e regados de sangue, nas mais das vezes inocente. Foram dias de muitos momentos grávidos de incertezas, de perigos que se semeavam a cada esquina das ruas da cidade, a cada sombra que nos enublava a vista e enlutava a alma. O que mais custava era ver o olhos tristes da crianças com medo, pedindo pão e amparo.
«Dá o eslata, esfurrié!!..», pediam elas, apontando a nossa ração de combate, quando passávamos nas ruas da cidade, ou nos bairros envolventes - por onde se gritavam lutos e fome, prolongados nos dias que medravam de «macas». Uma delas, sei lá qual, lembro lá quem!!!..., ranhosava-se pelo queixo abaixo e estendia a mão direita, enquanto enfiava a outra nos anéis do cabelo em carapinha.
«Dá o eslata, esfurrié!!...», insistia a criança de olhos tristes e de alma a chorar - a pedir-me o que eu não tinha para dar, naquele momento. Foi umas da que, nos dias de refúgio do BC12, se acamaradou no aquartelamento e por lá matou fome e medos.
O som da metralha ouvia-se sempre, de mais longe ou de mais perto, e o que nos espantava era a serenidade das crianças, no meio da balbúrdia de sons e de cheiros a pólvora.
Uma jovem mãe, de criança traçada nas costas, soluçava silêncios de dor que viemos a saber dever-se a um outro filho desaparecido. O outro, um outro..., sujo de ranho e de terra, brincava de tronco nu e calção maltrapilhado e roto, fazendo riscos no pó vermelho da rua do pequeno bairro.
«Vais no quartel!! Queres ir?...», perguntou-se à mãe.
Não disse nada, mas riram-se-lhe os olhos, carregando um embrulho de plástico com toda a sua fortuna. A outra, a maior fortuna desta mãe negra de Angola..., eram os filhos. Mas não sabia de um deles! Não sei se alguma vez soube!

terça-feira, 15 de junho de 2010

O Encontro dos Cavaleiros de Santa Isabel

Ribeiro e Flora (furriéis) e José Paulo Fernandes (capitão), da 3. CCAV. 8423 (Santa Isabel)


A 3ª. Companhia do BCAV. 8423 esteve reunida em Coruche, a 5 de Junho de 2010 - num encontro organizado pelo Friezas. E a 6 de Junho de 2009, em Alter do Chão, com a «chancela» do (ex-furriel) Gordo e onde nem a chuva estragou a festa dos cavaleiros de Santa Isabel!
A foto é da «cavalaria» na confraternização do ano passado - no momento em que (o comandante da Companhia, nos idos tempos de Angola) José Paulo Fernandes fatiava o bolo da praxe, sob os olhares atentos do Ribeiro e do Flora.
- FERNANDES. José Paulo de Olveira Fernandes, capitão miliciano e comandante da 3ª. CCAV. do BCAV. 8423, instalada em Santa Isabel.
- RIBEIRO. Delmiro da Silva Ribeiro, furriel miliciano atirador de cavalaria, engenheiro de telecomunicações, residente na Livração.
- FLORA. António Pires Flora, furriel miliciano atirador de cavalaria, quadro superior da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Os confrontos militares no chão do Uíge!

Avenida de Portugal, em Carmona (anos 70 do Século XX)

Os incidentes dos primeiros dias de Junho de 1975 não se limitaram a Carmona, onde se aquartelava a maior parte da guarnição do Batalhão de Cavalaria 8423. Também ao Quitexe!!! O nosso Quitexe!!! E no Negage, onde se situava a base aérea militar. E a Ponte do Dange, a Aldeia Viçosa e Vista Alegre, onde quer que existissem forças armadas dos movimentos.
Os combates entre MPLA e FNLA que ferozmente ensanguentavam Luanda, na verdade, foram transbordando. Primeiro para as localidades mais próximas, depois crescentemente pelo Cuanza-Norte acima, até ao Uíge - terra do café, de que Carmona era a capital.
O grave conflito que enlutou o chão uígense só não terá tido mais graves consequências pela intervenção serena e apropriada das Forças Armadas Portuguesas - pelo seu sentido de grandeza, cumprindo com elevados riscos a tarefa de soberania e honra que lhe competia.
«O grave conflito armado entre os movimentos de libertação atingiu todas as vilas do distrito, onde tais forças existiam, através das suas forças, ELNA e FPLA», refere o Livro da Unidade, de que nos socorremos também para lembrar o papel das FAP, «a calma demonstrada, o sangue frio posto, o espírito de sacrifício mostrado», como garantes da sua «tenacidade e firme certeza de que está imbuído no sentido de grandeza próprio do consciente desinteressado e leal desejo de cumprir a missão que lhe está sendo imposta no processo de descolonização».
A FNLA, em clara supremacia militar, «ficou com a sua hegemonia mais vincada» e pode dizer-se que «todos quantos se possam considerar combatentes ou simpatizantes do MPLA foram expulsos do distrito». Isto, ainda citando o Livro de Unidade, «nos melhores dos casos», porquanto «noutros há a citar algumas dezenas de mortos».
- FAPLA. Forças Armadas Populares de Libertação de Angola, braço armado do MPLA.
- ELNA. Exército de Libertação Nacional de Angola, braço armado da FNLA.

domingo, 13 de junho de 2010

A família que morreu em casa...

Hospital Provincial de Carmona (1975). Pelotão de Reconhecimento, Serviço e Informação (PELREC).  Almeida é o primeiro ds esquerda, em cima. Vicente, na linha de baixo, é o primeiro do lado esquerdo. Depois, eu e o Francisco. Hipólito é o sexto.


Os dias mais sangrentos de Carmona, deixaram marcas pesadas e lavadas em sangue para o futuro de muita gente. Uma família civil foi reduzida a uma pessoa. Eram seis!!! O bombardeamento numa das ruas que dava para a zona industrial, num patético combate entre as forças beligerantes, esmagou cinco pessoas, debaixo da escada interior da residência.
Poupemos as palavras do drama. Quando chegámos ao hospital com os feridos do Montanha Pinto - ontem aqui falados... - foi-nos solicitado que fossemos à tal rua, onde se combatia de uma ponta para a outra, num estranho baile de morteiros que caíam e explodiam onde a sorte dava. A maior parte longe dos objectivos, metralhando e esfacelando telhados, casas civis e o que calhava.
Passámos pelo grupo do Rocha, que nos avisou do que se passava por aquele lado - vindo eles de uma qualquer missão. Íamos nós na nossa, já seriam duas para as três da tarde, esgalgados de fome. Recolheríamos os feridos, voltaríamos ao hospital e rezaríamos para que pudessemos dar uma saltada ao BC12.
Não foi fácil entrar na rua, mesmo nos irregulares momentos de tréguas do bombardeamento. Suspeitava o grupo que abordámos (não me lembro se da FNLA, se do MPLA, mas para o caso vale o mesmo!!!) que iríamos apoiar o outro (o inimigo) e dificultava a nossa passagem. Mas lá fomos!
A casa estava esvrentada, paredes no chão, móveis destruídos!! Como outras casas estariam!!! Ouvimos um breve gemido e acorremos à escada destruída, sob a qual se protegeram mãe, dois filhos e, creio, dois sobrinhos. Mortos!!! A senhora protegera-os com o corpo, mas a violência da deflagração destruira os degraus e o patamar de cimento da escada e ateara um pequeno incêndio que se pegou a tapetes e cortinados. Porém, facilmente controlado - com o engenho e rapidez de acção do Cordeiro, do Marcos, do Vicente, do Francisco e do Hipólito, e/ou outros, que improvisaram uma mangueira, já não sei como, e o apagaram.
Regressados ao hospital, demos a notícia ao familiar. Sem uma palavra, ele entendeu tudo. «Disse-lhe para não ir lá...». Mas ela foi. Foi morrer com os seus meninos!
Foi, seguramente, o  momento para nós mais dramático dos nossos lutos de Carmona.
- ROCHA. Nélson dos Remédios da Silva Rocha, furriel miliciano de transmissões, de Valadares (Vila Nova de gaia), técnico de vendas.
- CORDEIRO. José Manuel de Jesus Cordeiro, o Savimbi, 1º. cabo atirador de cavalaria. Natural e residente em Porto de Mós.
- VICENTE: Jorge Luís Domingues Vicente, 1º. cabo atirador de cavalaria, de Vila Moreira (já falecido)
- MARCOS. João Manuel Lopes Marcos, soldado atirador de cavalaria, natural e residente em Pego (Abrantes).
- HIPÓLITO. Augusto de Sousa Hipólito, soldado atirador de cavalaria, natural de Vinhais, com residência em Lisboa e a trabalhar em França.
- FRANCISCO. Vitor José Ferreira Francisco, soldado atirador de cavalaria, natural e residente na Marinha Grande.
- OUTROS. Esta lista peca por defeito. Outros militares entraram nesta acção, mas não recordo os nomes. Lembro estes e, neles, todos os outros.

sábado, 12 de junho de 2010

Os mortos esperariam...


Primeiros dias de Junho de 1975, a 2 ou 3. O PELREC evolui na cidade de Carmona e já levara algumas dezenas de civis refugiados para o BC12. Ouve-se regularmente o rebentar de morteiros e obuses e, de quando em vez, uma ou outra rajada.
O Francisco, no cruzamento da Rua do Comércio para a Praça da ZMN e dos edifícios públicos, ofereceu «resistência» - porém, rapidamente quebrada... - à subida de uma família para a Berliet. Dias antes, quase no mesmo local, tinham ofendido a equipa de PM - eu, o António e ele.
Estamos ao fim da manhã, hora de refeiçoar a ementa quente que os nossos companheiros da cozinha e da padaria nunca deixaram faltar naqueles dias de metralha, de sangue e muitas dores! Foram extraordinários!!! De uma generosidade impagável!!! Alguns deles andaram dias seguido sem dormir: o Pereira, o Almeida, o Ferreira, o Rebelo, o Baião, que me perdõem os que aqui esqueço! Foram todos iguais!!!
Guardámos as armas e íamos para o refeitório quando fomos chamados: havia mortos e feridos no bairro Montanha Pinto (foto), mesmo ao lado da nossa messe. Tínhamos de ir.
«Cuidado com o fogo!..». gritou o tenente Mora, creio que na altura nas suas vezes de oficial de dia. O ribombar dos morteiros ouvia-se no BC12, como se soprassem a fronteirar as nossas orelhas.
«Calma, pessoal... Eles não se metem connosco!!!...», foi dito aos bravos soldados do PELREC, já nós descíamos para a cidade! Para os descansar! E iludir os nossos medos.
«Não metem, o c......!! ...da-se!!!», gritou um eles, a morder os lábios de raiva e a cuspir da Berliet para o asfalto, enquanto esbracejavacom violência, pontapeando a caixa da viatura e fazia mira na G3, pelo canto do olho. «Calma, ó fulano...», disse-lhe, levantando-lhe a arma. Nestes momentos, sentíamos uma estranha calma e uma coragem que muitas vezes nem identificávamos connosco.
«Estamos a ver o alvo!!!», disse o Garcia, pela rádio de outra viatura, num bairro a que passaram pelo campo de futebol. «Estão debaixo de mira!!!... manenham contacto».
A barriga dava horas desde as quatro ou cinco da manhã, mas tínhamos de avançar. E, digamos, na verdade avançar com muita confiança! Se coisa havia que nos descansava - neste caso para além da protecção das NT, do alferes Garcia -, era o respeito que, nestes dias de violenta e mortífera metralha na cidade, os movimentos tinham pelas FAP. Parecia, por vezes e ao vivo, a imortal guerra de Solnado: chegávamos, dizíamos ao que íamos (buscar feridos) e parava-se o combate por uns minutos. O tempo de os recolher.
Naquele dia e no Montanha Pinto (foto), avistámos uma linha de fogo da FNLA e fizemos segurança à ambulância militar, para transportar os feridos. Os mortos esperarariam! A guerra lá «parou» e logo abandonámos o local. Ainda a tempo, porém, de vermos a serem disparados morteiros, que caíram quase em cima dos próprios apontadores e municiadores. Estranha guerra!
- FAP. Forças Armadas Portuguesas.
- ZMN. Zona Militar Norte.
- PM. Polícia Militar, em Carmona denominada Polícia de Unidade (PU).
- NT. Nossas Tropas.

Perguntai ao inimigo quem fomos!

Avenida Capitão Pereira, em Carmona (anos 70 do século XX) 



MANUEL MACHADO
Texto

Há episódios que nos marcam para sempre. O que aqui ontem contei, marcou-me muito e felizmente há ainda muitos dos participantes vivos. Não porque tenha sido um acto de grande significado em tempo de guerra, mas pela atitude, pela generosidade, pelo desprendimento e, porque não dizer?, pela valentia de pôr a sua vida ao serviço do bem comum.
Estávamos em Junho de 1975, aquartelados no ex-BC12, em Carmona, quando rebentou a sério a guerra civil na cidade e arredores. A verdade é que a FNLA, apresentou-se na cidade com um grande número de efectivos, bem armada e bem fardada. Deu-se ao luxo de exibir caros blindados do tipo Panhard e o Exército Português não tinha nenhum no local.
A nova situação militar constituiu nova preocupação para o comando Português. Um dia, fui chamado à sala de operações para dar informação do armamento anti-carro que possuíamos. Só podiamos responder com o lança-granadas foguete (Instalaza), municiado com granadas de fósforo. Tratou-se, então, de dotar as torres de vigia do quartel com esse equipamento e dar instruções de funcionamento a quem exercia a vigilância do perímetro da unidade.
Também fiz parte do grupo de furriéis milicianos que resolveu, sem autorização, fazer uma patrulha à cidade de Carmona para ver como estava o ambiente e preparados para o que desse e viesse. Não andámos lá muito tempo, porque o Comandante de Batalhão, quando soube, ordenou o nosso regresso ao quartel, com o argumento de que, em caso de problemas graves, ficava sem sargentos para enquadrar as tropas.
Sãp episódios da nossa missão em Angola!
MANUEL MACHADO

Ver texto de ontem: http://cavaleirosdonorte.blogspot.com/2010/06/valentia-dos-nao-operacionais-do-bcav.html
- MACHADO. Manuel Afonso Machado, furriel miliciano mecânico de armamento. Natural de Covelo do Gerez (Montalegre) e residente em Braga, onde é quadro superior da EDP. Foto de 1975.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

A valentia dos não operacionais do BCAV. 8423

Furriel Rocha, alferes Pedrosa e furriéis Machado, Lino e Cruz, na piscina de Carmona


MANUEL MACHADO
Texto



Corriam os primeiros dias de Junho de 1975, estava eu de sargento de dia ao batalhão, quando o 1º. cabo cozinheiro Pereira me  comunicou que a bomba de água tinha avariado, sem possibilidades de arranjo imediato e que já não havia água no quartel.
Entretanto, tinha sido pedida ajuda aos Bombeiros de Carmona - que tinham disponibilizado um auto-tanque, mas que não se atreviam a deslocá-lo para o BC12, devido a beligerância entre os movimentos de libertação.
Nesse dia, os combates intensificaram-se e já estava dentro do quartel cerca de 1200 refugiados e o pessoal militar, com necessidades de higiene e limpeza, para além da confecção de refeições. ~
A preocupação do 1º. cabo cozinheiro foi devidamente contada ao  oficial de dia - o alferes Pedrosa, da 2ª. CCAV., já instalada no quartel - que me informou que toda a tropa operacional estava no exterior a fazer segurança aos bancos, ao hospital, ao Comando do Sector do Uíge, etc. Restava o pessoal não operacional. Como já estávamos para lá das 17,30 horas, nas instalações restava o pessoal de serviço e os militares que permaneciam à espera do jantar.
O alferes Pedrosa disse-me logo: «Tem que organizar uma escolta, para que o camião cisterna possa vir para o quartel».
Dirigi-me à caserna da CCS, que conhecia melhor, e a um grupo de militares: «Preciso de voluntários para uma escolta».
Quase toda a gente se ofereceu e preparei uma coluna com uma Berliet e um Unimog 404. Arranquei na viatura da frente, como me competia, e entreguei o comando da viatura da retaguarda a um 1º. cabo do pelotão de manutenção, com indicação para responderem ao fogo que lhe fosse dirigido, e enquadrei os militares da viatura da frente.
Atravessámos a cidade pela zona industrial, com paragem nos dois chek-points montados pela FNLA e até à zona das piscinas. Aqui, enquadrámos o camião-cisterna entre as duas viaturas militares e fizemos o caminho inverso sem qualquer problema, até ao quartel.
Este pequeno episódio só serve para prestar a minha homenagem a estes homens que, sem qualquer hesitação e sem medo, também arriscavam a sua vida, num local onde todo o dia houve fogo e íamos agora atravessá-lo de noite.

Estes são os anónimos que também fizeram a guerra e de quem muita gente desconhece a sua valentia e a generosidade.
Pretendo apenas, passados que foram 35 anos, dar a conhecer um pequeno momento que demonstra inequivocamente a valentia destes homens e a honra que tive em os comandar por um breve lapso de tempo.
O lema do batalhão “perguntai ao inimigo quem somos”, aplica-se assim como uma luva a todos os militares do BCAV8423, sem qualquer distinção, porque todos cumpriram e até excederam as missões que lhe foram confiadas.
MANUEL MACHADO
Ler amanhã: Perguntai ao inimigo quem fomos!



- MACHADO. Manuel Afonso Machado, furriel miliciano mecânico de armamento, da CCS do BCAV. 8423. Natural de Covelo do Gerez (Montalegre) e residente em Braga, onde é quadro superior da EDP.
- ROCHA. Furriel-miliciano de transmissões. Natural e residente em Valadares (V. N. de Gaia), técnico de vendas.
- PEDROSA: Luís António Pedrosa de Oliveira, alferes miliciano atirador de cavalaria, da 3ª. CCAV. (Santa Isabel), natural e residente em Marrazes (Leiria).
- LINO. José Rodrigues Lino, furriel miliciano mecânico-auto, da 3ª. CCAV. (Santa Isabel). Natural do Fundão.
- CRUZ. António José Dias Cruz, furriel miliciano rádio-montador da CCS, natural de Cardigos e residente em Lisboa, onde é quadro da Câmara Municipal.
- PEREIRA. Alcino Fernandes Pereira, 1º. cabo cozinheiro da CCS.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

O Encontro da CCS dos Cavaleiros do Norte em 2011!!!...

Aurélio (barbeiro), Cruz e Ribeiro (alferes) e Alfredo Buraquinho (1º. cabo). Ao fundo,
vê-se o aeroporto de Carmona, no power-point do Encontro de Ferreira do Zêzere

O (alferes) Ribeiro foi o mestre de cerimónias do Encontro de Ferreira do Zêzere - co-organizador com o Aurélio (barbeiro) e o Vicente (condutor). Falou da muita alegria do reabraço dos cavaleiros, do gosto de organizar o encontro, de reencontrar amigos e companheiros da jornada de África.
«Os muitos que aqui estão são a prova da amizade que ficou desses tempos!», disse Jaime Ribeiro, que agora professa o seu magistério civil por terras do Tramagal.
Saudou os bravos Cavaleiros do Norte, agora às portas da sexagenaridade mas que, nos idos anos de 1974/75, levedaram experiências e amadurecimentos por terras do Uíge, servindo a Pátria Portuguesa no solo da nação nova que nascia. Com bravura, sem medos, com honra e garbo militares.
E passou (passaram) o testemunho: a organização do Encontro da CCS do BCAV. 8423 de 2011 estará a cargo do (furriel) Monteiro e do (1º. cabo enfermeiro) Gomes. Era para ser o Buraquinho, mas a coisa deu em «buracada». Será na zona do Porto e a data será oportunamente anunciada.
Que nasça outro encontro como o de Ferreira do Zêzere 2010!! Só pode!!!

O Encontro da 3ª. Companhia, os Cavaleiros do Norte de Santa Isabel


Capitão Fernandes, furriel Reino (da 3ª. Companhia), comandante Almeida
e Brito e alferes Ribeiro (sentados), no jantar de Natal de 1974, no Quitexe


A 3ª. Companhia de Cavalaria do BCAV. 8423 esteve reunida a 5 de Junho, em Coruche, com muito boa organização do Friezas - ou não tivesse sido ele mestre de cozinha em terras do Uíge - por Santa Isabel, depois Quitexe e Carmona.
Comensaram muitos dos Cavaleiros do Norte da 3ª. CCAV., conversando horas sobre meses que passaram de ano e meio - ano e meio em que a solidariedade sempre se viveu foi mais alto que interesse algum e as cumplicidades se fizeram irmãs por estes anos todos.

O que se semeou e colheu deste encontro está na memória dos companheiros de Santa Isabel - que já marcaram encontro para 2011. Dia 4 de Junho, na zona de Torres Vedras. E quem organiza, quem? Pois o ex-capitão miliciano Fernandes - que anunciou a vontade de convidar as famílias de ex-militares já falecidos e também militares de outras companhias do batalhão - que não conseguem encontrar-se com os seus companheiros, por uma qualquer razão.
«Todos serão bem.vindos, basta que façam saber a disponibilidade para se nos juntar», comentou o ex-capitão Fernandes - rapaz, agora, para os seus bem conservados 63 aninhos. Pois não!!!! O tempo passa a correr!!! 
Quem quiser pode desde já contactá-lo, através do telemóvel 917588737 ou pelo email paulofernandes1947@hotmail.com.
- FERNANDES. José Paulo de Oliveira Fernandes, capitão miliciano e comandante da 3ª. Companhia, instalada em Santa Isabel

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A nossa vida dava um filme...

Quartel BC12, em Carmona. Torres de vigia do bloco principal. Ao meio, vê-se a porta d´armas

RODOLFO TOMÁS
Texto

Carmona, 1 de Junho de 1975. Eram cerca de cinco e quinze da manhã, quando acordei com o barulho dos morteiros entre MPLA e FNLA. 
Era domingo e nessa madrugada o "estufa" (Domingos) tinha ficado até tarde a cantar uns fadunchos, de Fernando Farinha, com as mãos nos bolsos, tal como era seu hábito.
Eu, muito zangado disse-lhes para se calarem e para me deixarem dormir. De repente, vi uns clarões muito intensos na noite do BC12. Tinha começado a guerra entre os dois partidos. Eu ia entrar de serviço, de cabo de dia, e ainda não eram cinco e trinta, quando já eu, o Emanuel e o Damião estávamos no posto de vigia do BC12,  por cima da sala de operações.
Embora sendo horrível, era um «espectáculo», ver na escuridão da noite, o cruzamento de fogos, entre as partes em conflito.
Pouco depois, entrava eu de serviço. Assim aconteceu e o mais difícil foi a hora do meio dia,  pois era preciso levar de comer ao edifício da ex-PIDE/DGS, bem no coração da cidade de Carmona. Mas, entre medos e valentias, lá conseguimos cumprir a nossa missão.
Mesmo com fogo cruzado e não sendo nós operacionais, nunca me senti tão protegido com uma Berliet e cerca de 20 homens armados, para levar uma panela de sopa e outra de comida a quem lá estava.
A nossa vida dava um grande filme.
- TOMÁS. Rodolfo Hernâni Tavares Tomás, 1º. cabo rádio-montador, residente em Lousada. 

A missão de bem!...

Avenida principal do Quitexe. A casa da esquerda era a do Comando do BCAV.8423. Foto de Cesar


ACÁCIO LUZ
Texto

A nossa «missão de bem», em terras do Uíge e para que fique claro, deve ser entendida num contexto militar e não no civil ou político, como é óbvio.
Tal expressão foi por mim parafraseada nas palavras que dirigi aos Cavaleiros do Norte em Ferreira do Zêzere, a 29 de Maio de 2010.
Assim, devo repeti-las, textualmente: “Fomos numa missão de bem, como disse o nosso querido amigo alferes José Alberto Alegria, que hoje não está aqui presente”. Só que o alferes Alegria escreveu no blogue “causa de bem”, mas penso que tudo está muito próximo.
De facto, nunca ninguém nos disse que nós íamos para Angola (neste caso, para o Quitexe) para “matar ou esfolar”, mas, antes, enquadrados militarmente, com vista a manter a segurança das populações nativas e até, quando possível, promover o seu desenvolvimento e outros afins.
Claro que estivemos colocados em situações de risco e de uma vida, por vezes muito dura, que rondava o sacrifício de muitas coisas. Pelo resultado da missão, bom ou menos bom, não somos responsáveis.
Intuito político, todos sabemos que existia mas, enquanto militares, colocámos acima de tudo os valores do serviço, da honra, da camaradagem, da lealdade e de tantas outras virtudes, próprias da vida militar e que muito dignificam a pessoa humana.
Finalmente, a satisfação do dever cumprido.
É neste contexto que se cimentam amizades e, neste caso, bem patenteadas não só nos encontros/convívios dos Cavaleiros do Norte, mas também porque frutificaram com bons amigos que se fizeram.
ACÁCIO LUZ
- LUZ. Acácio Carreira da Luz, tenente do SGE no Quitexe e Carmona. Agora, capitão aposentado, reside na Marinha Grande. A foto é da época.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Carmona, 1 de Junho de 1975...

Rotunda de Carmona, para a RIMAGA (esquerda), zona industrial (em frente) e Negage (à direita)

A madrugada de 1 de Junho de 1975, em Carmona foi de muitos medos. O susto ganho na viagem da messe para o BC12 «avisou-nos» do que poderíamos esperar desse domingo de dores e de sangue.
O silvo das rajadas, o estrondo dos morteiros e dos obuses ouviam-se como se rebentassem na parada do quartel. Chegou a supor-se que iríamos ser atacados, aperfeiçoando-se rapidamente a defesa da unidade.
Todos nós, os mais operacionais do BCAV. 8423, tínhamos missões pré-destinadas. Ao PELREC, por exemplo, coube alternadamente a defesa rotativa de pontos essenciais da cidade: o aeroporto, o hospital, a central eléctrico, o abastecimento de água, a estação de rádio, a recolha de feridos e de refugiados.
A foto mostra uma área próxima da zona industrial, onde assistimos a pertinaz e feroz caça ao inimigo. O militante de um partido fugia pela estrada fora, escapando entre as balas de sucessivas rajadas, sem que fosse atingido. Acabou por cair, extenuado e já dento de um capinzal, onde foi abatido à catanada, pontapé e tiros de pistola, à queima-roupa.  
Dito isto assim de forma quase crua, parece até uma «brincadeira» de desenhos animados. Mas era assim, na prática, que angolanos se puseram contra angolanos. Matando-se, regando o chão vermelho da sua terra com o seu próprio sangue, empastando-o no pó da tragédia que medrava diante dos nossos olhos.
O cheiro da pólvora e da morte sentia-se a cada momento que passava. Civis amedrontados, ontem cuspindo para o chão onde passavam militares, socorriam-se da tropa que passava. A nenhum foi dito «não».
Os combates, alguns quase corpo a corpo, entrincheiraram ódios e semearam lutos. Carmona, a 1 de Junho de 1975, cheirava a pólvora, a morte, a tragédia!

Um cavaleiro do 8423 é sempre um Cavaleiro do Norte...

J. A. Monteiro e J. Gomes (organizadores do Encontro de 2011) e R. Tomaz

Foi bonito vermos a família dos Cavaleiros do Norte no Encontro de Ferreira do Zêzere, reencontrando companheiros que já não víamos há quase 35 anos.
E dizia o (furriel) Cruz: «É pá e já lá vão 36 anos, não posso acreditar... como o tempo passa. Mas estamos "quase" todos aqui...».
Alguns, jamais voltámos a ver e outros, pelo contrário, continuam os mesmos de sempre. O Gaiteiro, o Domingos (estofador), o Celestino e tantos outros. Espero que para o ano não falte o Calçada, por exemplo, assim como o Machado (Beduíno), o ex-alferes Alegria, o Dias (vago-mestre) e tantos outros.
Para o Ribeiro, o Aurélio, o Vicente, parabéns, pois tudo decorreu muito bem. O local era muito lindo mas, com gente assim, qualquer local é bom para dar um abraço.
Até para o ano e felicidades para o Monteiro e o Gomes, desejo um bom trabalho, sempre. Para o Carlos Silva, da 3ª. CCAV., acho que é sempre bem-vindo, pois um Cavaleiro do 8423 tem sempre entrada garantida e sem conotações de A ou B ou C, é sempre um Cavaleiro do Norte, digo eu.

RODOLFO TOMÁS
- TOMÁS. Rodolfo Hernâni Tavares Tomaz, 1º. cabo
rádio-montador, residente em Lousada (Porto).

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Perguntai ao inimigo quem são as mulheres dos Cavaleiros do Norte

Abertura do power-point do Encontro dos Cavaleiros do Norte de Ferreira do Zêzere



José A. Monteiro
Texto

Hoje, ao recordar o nosso encontro/convívio de 29 de Maio, senti a necessidade de dizer o que me vai no coração. Mais um encontro, mais algumas emoções fortes sentidas e vividas juntamente com aqueles que comigo estiveram em terras de Angola, onde, durante 16 meses, fomos suportando saudades, criando amizades e, fundamentalmente, como dizia o nosso Tenente Luz, "estávamos numa missão de bem".
Foi um dia maravilhoso, passado num ambiente onde se notava a alegria estampada no rosto de cada cavaleiro da CCS.
A beleza natural que nos envolvia também ajudava a criar um ambiente de grande felicidade.
Quero aqui e agora expressar a minha admiração pelas nossas "amazonas". São muitas as que acompanham os seus maridos e companheiros. Penso que elas são a grande força para continuarmos nesta luta da vida, são elas que dão o apoio e a coragem para que muitos de nós não falte à chamada.
Apetece-me dizer que lema do BCAV. 8423 também lhes ficaria bem: «Perguntai ao inimigo quem são as mulheres dos cavaleiros da CCS". Os do Norte, do BCAV. 8423.
Foi um dia em que experimentei emoções fortes. A alegria contagiava. Estes 36 anos passados desde a nossa partida para Angola levam-me a dizer que dificilmente esqueceremos aqueles 16 meses vividos a 10.000 kms. de distância. Somos agora como que uma verdadeira família! Quando nos encontramos, sentimos uma alegria que nos contagia a todos nós.
2011 é já ali.
Vamos começar a trabalhar para um novo encontro. Ainda não há data, nem local. Sabemos que vai ser no Norte. Sabemos que vai ser no distrito do Porto.
As saudades do encontro já começaram.
Parabéns à organização de Ferreira do Zêzere. Os Cavaleiros da CCS - o Ribeiro, o Aurélio e o Vicente - trabalharam bem para que o evento tivesse o êxito que teve. PARABÉNS!
E para ti, meu caro Viegas, continua com o blogue, pois ele é, para mim, uma forte ligação a todos vós. Para o meu amigo Neto, obrigado por teres sido o meu azimute até Condeixa.
Abraços,
José Monteiro


- MONTEIRO. José Augusto Guedes Monteiro, furriel miliciano de Operações Especiais (Rangers). Aposentado dos STCP (Porto) e empresário. Natural de Vila Boa de Quires (Marco de Canaveses) e residente em Paredes (Porto).

domingo, 6 de junho de 2010

Saudades nossas da jornada de África...

Morais, Pires (Montijo) e Cruz, furriéis do Quitexe e Carmona (1974/75)

Há 35/36 anos, quando jornadeei pelo Quitexe e por Carmona, depois por Luanda, não havia pedra no rim que m´incomodasse. Houve agora, em Ferreira do Zêzere. A 27 e 28 de Maio, dias de véspera do festim dos cavaleiros, tive de me sujeitar aos bons cuidados do Hospital de Águeda. E parti com o Neto, com o medo entalado na garganta: o de me ir abaixo. Lá m´aguentei.
A sorte era que o meu papel por lá, se limitado já era - por razão da eficiente organização do Ribeiro, do Aurélio e do Vicente... - mais ficou, mesmo com os cuidados tidos com o power-point que mostrou cerca da meio milhar de fotos da nossa jornada de África.
Coube-me a leitura das três mensagens, aqui mostradas em dias anteriores, e cuidei-me bem de «avisar» amazonas e cavaleiros, quanto à minha provável emoção na leitura. Nem sei como m´aguentei, até porque, segundos antes, o desgraçado do pedregulho «emboscara-me» a resistência física. Filho da mãe!!!... Mas como um verdadeiro «ranger», não me deixei ir abaixo.
E foi bonito, e emotivo!, ver e sentir como cada palavra lida foi ouvida com o silêncio a apertar os corações e o sentimento a levedar na alma! Coisas de rapazes da tropa, que só eles entendem bem!
Queria aqui dizer - com o gosto e a emoção de quem se reencontrou uma vez mais com tantos rapazes que deram o seu melhor, para que Angola fosse melhor... - dizer do gosto muito particular de ter «reachado» quatro «pelrec´s», quatro companheiros de tantas e tantas horas, as boas e as más das terras d´África: os dois Ferreira´s (Carlos e Albino), o Florêncio e o António.
E, fora do PELREC, o sempre inesquecível Pires do Montijo! O Morais e o Cruz! O Mosteias, o Monteiro, furriéis do meu dia-a-dia. O tenente (capitão) Luz, os alferes Ribeiro e Cruz, os cabos e soldados da nossa família militar. Todos!!! Quantas histórias se lembraram naquele dia da Estalagem do Lago!!! E o dr. Capela, ao tempo titular da missão do Quitexe! Todos, todos, todos!!! Até a pedra do rim «desinflamou» aos bocadinhos.

sábado, 5 de junho de 2010

O 1 de Junho de 1975 em Carmona

Refugiados de Carmona na parada do BC12, a 1 de Junho de 1975

Madrugou Carmona, ao 1 de Junho de 1975, com o rebentamemto de morteiros, obus e granadas nos céus da cidade. O alvor citadino encharcava-se de sangue e de morte, irmãos contra irmãos - como se o país a construir não estivesse nas mãos deles. Lhes fugisse da alma.
Fui acordado na messe do Montanha Pinto, ainda era noite, e a notícia era mais ou menos esperada, mais dia menos noite: rebentaram as macas. Havia fogo cruzado por todo o lado e mesmo ali perto de nós, por trás da capela do Montanha Pinto.
Eu era sempre dos primeiros a acordar e nessa madrugada de 1 de Junho de 1975, saltei da cama a acordar o Neto, que sonhava a metro e meio de mim: «Ha porrada, pá!!! Prepara-te!!!...». 
Levantou-se o Neto, apressando o atavio e fui eu a correr, ainda descalço, a acordar os resto dos furriéis. Dormia em frente o Monteiro, que acordei aos berros!!! E fui corredor fora, alvoraçado, afoitando rapidez na preparação para sair.
De perto, muito de perto, ouviam-se repetidos rebentamentos de material de guerra. E gritos, muito gritos!!! Alguém, do BC12 e pelo telefone civil, apressou a nossa saída. Uma berliet vinha a caminho!!!
Mal eu fora acordado, dissera para o Cabrita para chamar o cozinheiro: que «apresse o pequeno almoço!!...». Mas ninguém matabichou.
Era para aí umas seis horas da manhã, já galgávamos as ruas da cidade, a caminho do BC12. De G3 aperradas e granadas prontas a deflagrar. Tinham começado as macas de Carmona e cada um de nós sabia que missões lhe competiam! Chegara a hora de provar quanto valíamos. A caminho do BC12, na zona do liceu, quase fomos alvejados e chegámos a pensar o pior. A rajada assobiou-nos as orelhas!!! As próximas iam ser de dor e de sangue... Milhares de civis foram recebidos no BC12!
Ver AQUI.

Mensagem da filha do alferes António Manuel Garcia

Alferes Garcia no Natal de 1974. Falecido a 2 de Novembro de 1979.
Filha Marta e neto João (em baixo, foto de 2010)


Marta Garcia Tracana, professora universitária e filha do alferes Garcia, enviou uma mensagem para o Encontro dos Cavaleiros do Norte, de 29 de Maio de 2010. Foi lida pelo (ex-furriel) Viegas e emotiva e largamente aplaudida. Esta:


Hoje poderia ser um dia completo, mas quando deixamos de ser a filha de alguém e começamos a ser a mãe, a mulher e a profissional, temos que fazer escolhas que nem sempre são as que mais queremos.
Mas não me rendo e nunca desisto!
No passado dia 28 de Março, pela primeira vez na minha vida, comecei a sentir que a parte que me faltava para conhecer de meu pai estava a bater-me à porta! A Associação Recreativa e Cultural de Pombal de Ansiães tinha-me reenviado um e-mail que tinha recebido. Quando me ligaram para o telemóvel, a contar-me, nem queria acreditar! Os amigos do meu pai tinham-nos encontrado (à Associação e, por acréscimo, a mim!). Nesse dia fiquei até às tantas da madrugada a ler e reler todos os textos que continham referências ao Garcia e ainda hoje não me canso de ler esses textos - tão sentidos e tão íntimos, de assuntos que só vocês sabem do que se trata.
Saber que existe um enorme grupo que ainda hoje, passados 31 anos, se lembra do Garcia, com muita saudade e carinho, é um grande orgulho para mim.
Que ele era um “gajo porreiro”, já me tinham dito, mas que o coração dele conseguia tocar tanta gente, surpreendeu-me. Ele devia ser mesmo muito especial.
Quanto a mim… bem, adoro uma boa farra como ele, as artes estão-me incutidas na alma (música, essencialmente), gosto de fazer amigos e de cultivar amizades, caem-me as lágrimas quando estou a rir às gargalhadas (como ele) e choro quando o coração me aperta (assim como ele fez no Natal 1974, quando ficou sozinho num canto a relembrar a família).
Meus queridos novos amigos:
É uma enorme alegria saber que vocês não se esqueceram do Garcia que, por ironias do destino ou por influências sabe Deus de quem, foi o primeiro a abandonar o grupo, e uma honra conhecer-vos… mesmo que à distância.
Para todos vós, um muito obrigada por não se terem esquecido dele e um muitíssimo obrigada por me permitirem “entrar” no vosso grupo.
A todos um bem-hajam
Um abraço da filha do Garcia,
Marta


- GARCIA, António Manuel Garcia, alferes miliciano de Operações Especiais (Ranger´s), comandante do Pelotão de Reconhecimento, Serviços e Informação (PELREC). Nasceu a 1 de Maio de 1952 e faleceu a 2 de Novembro de 1979, num acidente de viação entre Viseu e Mangualde, era agente da Polícia Judiciária.
Foi fundador e sócio nº. 1 da Associação Recreativa e Cultural de Pombal de Ansiães (ARCPA), terra da sua naturalidade, em Carrazeda de Ansiães.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Mensagem de Angola para os Cavaleiros do Norte

Rua da cidade de Carmona, actual Uíge e capital da província


Um cidadão da Carmona de 1975, enviou a
seguinte mensagem para o Encontro de 29/05/2010


Ainda hoje me recordo do grande apoio que vocês deram a numerosas famílias, incluindo a minha, ao receberem-nos no então BC12, que era o vosso quartel.
Nós não nos sentíamos em segurança, após as escaramuças que tiveram lugar na então cidade de Carmona, entre o MPLA e a FNLA, a 1 de Junho de 1975, e vocês, não obstante terem já o BC12 abarrotado de gente, mesmo assim não hesitaram em receber mais gente.
Lembro-me também que alimentavam todo o “mundo” com as três refeições diárias.
Eu desejo a todos vós, boa saúde e êxitos na vida.
Abraço,
NN


- NOTA 1. A mensagem foi emotivamete aplaudida.
- NOTA 2. Meu caro, o que lhe podemos dizer é que
tudo o foi feito foi obrigação nossa, que nos orgulha.
Felicidades para o povo uígense e para toda a Angola.
CV

quinta-feira, 3 de junho de 2010

3ª. Companhia dos Cavaleiros do Norte tem festim em Coruche

O comandante Almeida e Brito (à direita) em Santa Isabel


A 3ª. Companhia do BCAV. 8423 reúne a 5 de Junho, em Coruche, no Restaurante O Farnel.
A organização é do José Manuel Friezas - que por Santa Isabel foi auxiliar de cozinheiro e agora preparou a ementa para o festim dos companheiros que connosco jornadearam por Angola, no Uíge.
Os contactos podem ainda ser feitos, justamente para o Friezas, através dos telefones 938971836 e 243106334.
A 3ª. CCAV. era comandada pelo capitão miliciano José Paulo Fernandes.

Mensagem do 2º. Comandante, capitão José Diogo Themudo

Alferes Garcia e capitães Falcão e Themudo, no BC12, em Carmona (1975)



O 2º. comandante do BCAV. 8423 não esteve
no Encontro de Ferreira do Zêzere, mas
mandou uma mensagem, lida pelo (furriel) Viegas:


Caros Cavaleiros
do BCAV. 8423:
Passados que foram 35 anos, é reconfortante voltar a encontrar-me convosco "em espírito". Só quem viveu momentos como os que nós vivemos naquelas paragens distantes, compreende a alegria, a satisfação e a emoção que sentimos quando, cada ano que passa, nos juntamos, agora já com filhos e netos, para recordar o passado. Tenho pena de não estar hoje físicamente convosco. Outro almoço do meu primeiro Batalhão, também de Angola, de 1970/72, já havia marcado o almoço de 2010 no mesmo dia. Mas agora que já nos encontrámos, não mais nos perderemos de vista. Espero estar convosco quando marcarem outro convívio.
Apesar de já não vos ver desde 1975, penso e falo muitas vezes aos meus amigos de todos vós. Conto-lhes como cheguei a Carmona, em Fevereiro de 1975, para desempenhar as funções de 2º. Comandante, embora fosse ainda Capitão, e como vivi alguns dos momentos mais complicados da minha carreira militar.
Os Movimentos e as guerras entre eles deram-nos água pela barba.
Tudo acabou.
Foi uma época.
Todos nós nos entregámos da melhor forma que sabíamos e podíamos às nossas missões e tarefas. Ainda hoje penso, muitas vezes, se valeu a pena o esforço, o sacrifício e as dificuldades por que passámos. Terá sido a melhor solução? Teria havido outra solução naquela altura? Não sei. Não podemos voltar atrás.
Hoje, dia 12 de Maio, dia em que vos escrevo estas linhas, o Papa visita Portugal e deixou-nos palavras de Esperança. Pediu que fosse respeitada a diferença. Pediu também que fossemos alegres. É, portanto, com palavras de Saudade, Alegria e Esperança que desejo a todos os Militares Cavaleiros do BCav. 8423 e às suas famílias, as maiores felicidades.
Bom almoço.
Um grande abraço para todos.
José Diogo Themudo
Coronel de Cavalaria Reformado

quarta-feira, 2 de junho de 2010

As histórias do Buraquinho...

J.
Miguel (escriturário), J. Celestino (condutor) e Buraquinho (analista de águas)

O Buraquinho é rapaz de palavra fácil. Solta! Solta em demais.!!! Fala, fala, fala... , explode em mirambolâncias e conta histórias inacreditáveis e insólitas, como aquela de ter fugido duas vezes de avião e de noutra ter saltado da carlinga de uns cinco metros de altura. E sem morrer, nem sofrer uma arranhadura!!!! Por milagre de Deus, ou do diabo, sabe-se lá!
Não fosse o Buraquinho e certamente nem teríamos «ganho a  guerra». Nem os morteiros estourariam, nem as balas silvariam nas madrugadas de Carmona, nem as rajadadas nos assobiariam as orelhas!!! O Buraquinho, por ele só, fez a «guerra» toda, limpou as armas todas, pôs os foguetes todos e ainda desfraldou a bandeira branca da paz.
«Fui preso três vezes!!! Três vezes!!!...», disse ele, arregalando os olhos para os Cavaleiros do Norte que, em Ferreira do Zêzere, ouviam placidamente a sua exibição de troféus, como se ir parar à cadeia fosse honra para atirar aos ventos.
Mas o Buraquinho é assim!!! Endeusa, mitifica, palavreia... como se fosse o nosso D. Quixote, a batalhar contar os moinhos da sua fértil imaginação. E todos o ouvem, glorificando-lhe as charlas.

Assim aconteceu no sábado, em Ferreira do Zêzere. Até à exaustão!
Preso uma vez, foi o Buraquinho e por participação minha, sargento de dia no Quitexe, na tarde de um domingo que lhe deu para o torto. Não tenho que  me absolver do que fiz (fiz o que tinha de fazer...), mas ainda hoje não me orgulho disso. Pois, como se nada fosse (e ainda bem!...), aí amostrou o Buraquinho este mais um seu troféu de guerra. É inimitável!!! Ainda nos dias de hoje!!! É rapaz que não pode faltar aos Encontros dos Cavaleiros do Norte! Nunca!!!
Ver AQUI.

terça-feira, 1 de junho de 2010

O bom ambiente, a ordem e a disciplina dos Cavaleiros do Norte

R. Malheiro, A. A. Cruz (alferes), D. Teixeira (estofador), J. Celestino,
A. Gaiteiro e H. Esgueira (condutores)


António Albano Cruz engenheirou pelo Quitexe as suas competências na área da mecânica. Era o oficial do parque-auto, o sítio da «ferrugem», onde debutaram jovens de entusiasmo sempre generoso e capazes de todos os milagres para que não falhassem os transportes, não escaldasem as colaças dos motores, ou falhassem os calços a travar; para que fossem feitas as revisões, as mudanças de óleo, e reparadas todas as avarias e mais uma.
Sábado, dia 29 de Maio de 2010, lá se deixou embargar na voz, num fiozinho mal disfarçado de emoção, para falar da nossa jornada de África, que nos fez debutantes do Quitexe e de Carmona, depois já veteranos de guerra nos escaldantes dias de Luanda. Evocou, no Encontro de Ferreira do Zêzere, «a disciplina e a ordem» naturalmente impostas pelo Comandante Almeida e Brito e referiu-se ao tenente (agora capitão) Luz como «uma referência para todos nós...», pela, assim disse António Albano Cruz, pela «sua serenidade e franqueza...». E, sublinhando o que assino por abaixo, pelo «muito, muito, muito, que devemos ao tenente Luz...».
Os Cavaleiros do Norte embebeceram-se e arrepiraram respirações, depois, com a oratória de António Albano Cruz, quando recordou «os nossos amigos que já partiram» e lembrou o alferes Garcia - com quem acamaradou na messe de oficiais, em cumplicidades e afectos que são história da unidade.
As palmas de amazonas e cavaleiros do Qutexe «abafaram» o que António Albano Cruz ia a dizer da jornada angolana: «A nossa sorte - sublinhou ele -, a nossa sorte foi a disciplina e a ordem do nosso comandante». E também, deixem-me agora e aqui enfatizar as palavras do então jovem oficial miliciano, «o bom ambiente que reinou entre nós!!».
Palavras certas!