terça-feira, 4 de maio de 2010

O IAO de Santa Margarida e as dores de cabeça curadas com uma massagem

Viegas e Ferreira, no RC4, em Santa Margarida, semanas antes da partida para Angola.
Francisco Miranda, em baixo, soldado que foi do PELREC e não foi para a «guerra»


Ontem, dia 3 de Maio de 2010, fizeram-se 36 anos do início do IAO, em Santa Margarida - na mata do Soares. Era sexta-feira e todos nós sabíamos da importância deste período de instrução - que se desenvolvia já com as quatro companhias em completa autonomia.
O objectivo era colocar os homens em situações de todo semelhantes às que iríamos encontrar em Angola, ainda que tenuemente próximas, logo pelas diferenças climáticas. E a circunstância mais evidente: não termos inimig real. Era o PELREC que, pela Mata do Soares, fazia de IN, emboscando, armadilhando, atacando os grupos de combate das três companhias operacionais do BCAV. 8423.
Por estes dias, soubemos que a partida para Angola seria a 27 de Maio, uma segunda-feira. Sabíamos há zsemanas que era em finais do mês, faltava saber o dia. Soubemos também que Francisco Miranda, soldado do PELREC já não ia connosco. Era ciclista profissional e tinha «comprado» a tropa.
Os dias e noites de 3 a 10 de Maio foram vividas com entusiasmo, dedicação e partilha. Por mim aconteceu-me uma coisa curiosa: ao terceiro ou quarto dia, senti fortes dores de cabeça, agudas, impertinentíssimas, violentas..., e fui enviado à enfermaria militar do RC4 - onde estranhamente o médico, um senhor já de idade bem avançada, mandou o enfermeiro fazer-me massagens às pernas.
«Massagens?!...», perguntei-lhe eu.
Que o «o dr. mandou...» e estava mandado. Era o que ele ia fazer, «ponha lá as calças para baixo...», mandou-me ele, esticando-me eu na maca.
A verdade, vejam lá... e ainda hoje estou saber porquê, é que, de volta ao acampamento para lá de Malpique e fronteirando com S. Miguel de Rio Torto, pouco depois estava sem dores de cabeça. Há 36 anos! E nunca mais tal dor de cabeça me deu!
- RC4. Regimento de Cavalaria de Santa Margarida, unidade mobilizadora do BCAV. 8423.
- IAO. Instrução de Aperfeiçoamento Operacional. Dizísmos nós, Instruçao Altamente Operacional.
- IN. Inimigo, assim era identificado.
-MIRANDA. Francisco Miranda, ciclista profissional. Fôra campeão nacional de rampa, pelo Sporting e pelo Bombarralense. Viria a ganhar a Volta a Portugal de 1980. Ver AQUI.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Os primeiros dias Maio de 1975, em Carmona, não foram fáceis...

Rua do Comércio, cidade de Carmona (foto dos anos 70 do século XX)

O ambiente na cidade de Carmona era tenso, nos primeiros dias de Maio de 1975. «Pareceria que o fim tácito de vários anos de guerra em Angola traria, como consequência, situações de acalmia em todo o território, procurando os diversos movimentos emancipalistas, através da ideologia político-social que defendem, fazer enraizar nas populações os seus ideais e, daí, com maior ou menor facilidade, conduzir-se-iam as suas acções no decurso do processo de descolonização», lê-se no livro do Batalhão de Cavalaria 8423.
A verdade é que não era isso que acontecia - no terreno e na prática. O que parecia ir ser fácil e desejado por todos, complicava-se, e o papel de arbitragem que tacitamente era atribuído a Portugal e às suas forças armadas era muitas vezes posto em causa - acusadas por uns e outros de não isenção. Pelos dirigentes e militantes dos movimentos, pela população branca.
A manutenção da ordem era cada vez mais difícil e repetiam-se as escaramuças, nalguns casos envolvendo mesmo confrontações físicas. Mas o mais vulgar eram os insultos à tropa, acusada das mais incríveis responsabilidades e muitas vezes alvo de tentativas de vexame, de agressões verbais.
A PM que desde a nossa chegada do Quitexe actuava diariamente na cidade era vulgarmente alvo de piadas e críticas, da parte de populares - o que nos obrigava a permanente auto-controlo. Nem sempre fácil! O que mais valia, por esse tempo, era a disciplina dos militares - o seu garbo e virtude, que resistia a provocações e tentativas de chacota. Em alguns momentos, foi precisa muita coragem. E sorte. A que protege os homens de bem e de boa-vontade. E era cada vez mais latente o que separava os movimentos!

domingo, 2 de maio de 2010

O roubo de dentes de elefante e a detenção dos assaltantes

Avenida Portugal, em Carmona. Os incidentes decorreram na rua para a direita
A noite de 2 para 3 de Maio de 1975 foi acidentada: um grupo de populares assaltou várias residências na rua que dava para a Rádio Clube do Uíge e Cine Moreno. Esta mesmo que, na foto, fica para a direita deste cruzamento (se a memória não me falha).
Jantava eu na messe de sargentos do bairro Montanha Pinto quando recebi instruções: imediatamente para o local, com o piquete. E por lá passámos, como quem diz, «calma aí, nós estamos por cá!...». Mas nada vimos e ninguém nada nos disse. Apenas uma vozearia insultuosa e anónima se ouviu na noite, escondida atrás do cortinados das casas: «Traidores, cabrões..., filhos desta e daquela!...». Nem o denunciante dos assaltos apareceu.
Voltei à messe a dessedentaram-se os soldados com missions e dussois, enquanto eu acabei o jantar, guardado em panos quentes pelo Cabrita. Já iam para lá das 10 horas da noite e o ceú estrelado de Carmona convidava a um repouso, a uma partida de damas, uma suecada ou a um bom pé de orelha entre a malta que por lá acamaradava. Mas quais quê?! Tínhamos missão a cumprir e lá voltámos ao BC12, de onde saíria o patrulhamento misto. E saiu!
Voltámos à cidade e ao «local do crime», onde se barulhavam populares por novo assalto: um grupo de três homens negros levava dentes de elefante e outros objectos de marfim, de uma casa particular. Tentámos apaziguar a situação e diligenciámos a detenção dos assaltantes (armados), mas a missão ia abortando - por alguns soldados da força mista quererem tomar partido por eles, seus conhecidos. A 35 anos de distância, talvez todos ainda sintamos os arrepios do momento.
Os populares europeus desde há tempos que baptizavam a tropa de demissionária, de traidora, e apontavam-nos o dedo acusador - por supostamente não os defendermos. O que era literalmente inverdade.
Ali, espreitavam das janelas, enquanto os assaltantes (armados) ofereciam resistência. Por um momento, valeu a intrepidez do Marcos e do Francisco, ágeis a segurar um deles e a sacar-lhe a arma. Foi um ápice e a situação foi controlada, sem permitir qualquer desautorização. Nem quando os tivemos de «carregar» para o unimog e levar para o BC12.
Nunca os assaltados ou vizinhos nos deram uma palavra. Então, ou depois! Escarraram das janelas e portas e assobiaram, vaiando a garbosa tropa que arriscava a vida para lhes salvar vidas e bens! Os detidos foram depois entregues à PSP.
- MARCOS. João Manuel Lopes Marcos, soldado atirador de Cavalaria. Natural e residente no Pêgo (Abrantes).
- FRANCISCO. Vitor José Ferreira Francisco, soldado atirador de Cavalaria. Natural e residente na Marinha Grande.
- MISSION E DUSSOL: Refrigerantes.

sábado, 1 de maio de 2010

Os escolhos dos últimos militares portugueses em Carmona

Viegas, Mosteias e Neto na messe de Carmona. Em baixo, o bar da messe
O dia 1 de Maio de 1975, comigo já apresentado de férias e com serviço marcado para o outro dia, foi conversado sobre as semanas anteriores, na comodidade do bar da que tinha sido messe de oficiais e agora era de sargentos, no bairro Montanha Pinto.
Vim a saber o que se desconfiava: instabilidade permanente, desconfianças a levedarem cada vez mais entre MPLA e FNLA - com esta a «jogar» no seu terreno e não querer (assim julgávamos) intromissões do movimento de Agostinho Neto. Quando se suporia que, dando mãos, os movimentos apeariam armas e fariam por «impôr» as suas idelologias junto da população, nada disso acontecia.
«Isto está uma m...», disse o Neto, numa larga conversa no bar, narrando algumas escaramuças das semanas anteriores: «Temos de andar de olho aberto e com muita calma, há quezílias permanentes, não sei o que é que isto pode dar...».
O Mosteias, furriel sapador, era da mesma opinião e contou um incidente num dos cafés da cidade, quando ele e outros militares foram provocados por civis. «Não sei como me segurei...», disse ele, algo colérico - ele que era dos mais impulsivos do BCAV. 8423 e, seguramente, um dos técnica e fisicamente mais bem preparados... - lembrando as instruções do comando, no sentido de não reagir a provocações, de mantermos coesão e disciplina, para «impôrmos» a segurança pública e a defesa de vidas e de bens!
A histórica missão de sermos os últimos militares portugueses de Carmona e do Uíge tinha muitos escolhos. E era permanentemente ameaçada.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

A atribulada viagem aérea de Luanda para Carmona

Aeroporto de Carmona (Uíge), visto do lado da pista (1974)
Há 35 anos, de véspera e como manda(va) a minha lei, aí estava eu em Carmona, por via aérea, voando de Luanda. Numa viagem nada pacífica, que começara no dia anterior. O avião levantou voo, mas teve de voltar para trás, devido a intenso tiroteio e ao sesgado e estridente rebentamento de morteiros nos céus da capital - onde a FNLA e o MPLA se batiam de armas.
Ficámos (eu e o Cruz) num hotel da rua de acesso ao aeroporto, umas centenas de metros acima do Largo da Maianga, seria umas 10,30 da noite. Sem comer!!! A ideia era irmos jantar a Carmona, assim lá chegasse o avião à hora prevista - ao fim da tarde. Mas assim não foi. Com o estômago a dar horas e recolher obrigatório na cidade, saímos mesmo assim à procura de comida. Conhecíamos por ali perto uma esplanada, no largo da Maianga, e para lá nos dirigíamos quando ouvimos mais rajadas a silvar na noite. Entrámos apressados num bar que não conhecíamos, cheio de gente, e por lá acabámos a comer, não sei já o quê! O medo era geral e nós também não eramos heróis. Passavam, rápidas e fortemente armadas, viaturas militares portuguesas, num frenesim enorme! E ficámos a saber que rajadas tinham silvado na cobertura da esplanada da Maianga!
Já só por perto da meia noite, arranjámos «vaga» e coragem para sair. Estávamos a uns 200 metros do hotel e aconselhava a prudência que os fizessemos «tranquilamente», sem pressas, para não suscitar suspeitas. Lá saímos... Colado a nós, seguia um homem, já grisallho e na casa dos 50 anos..., sempre chegado na nossa «sombra», sem trocar uma palavra mas cumpliciando-se com a nossa aventura que desafiava o recolher obrigatório. Como que fazendo-nos «guarda-costas». Chegámos a desconfiar dele!
Já no hotel, vim a saber quem era: Custódio Pereira Gomes, advogado em Carmona. «Espere lá, você é o viúvo da D. Augusta, pai do Alvarinho?».



Era! Viajámos para Carmona na manhã seguinte, faz hoje 35 anos. Chegados ao aeroporto, combinámos encontrar-nos no Escape, uns dias depois.- CUSTÓDIO P. GOMES. Advogado em Carmona, já falecido e ao tempo viúvo de Maria Augusta Tavares - filha de Laura e Manuel Tavares, que foram daqui, de Ois da Ribeira, minha terra natal e de residência. Os sogros tinham sido patrões de minha irmã Maria Dulce. Tem família a residir em Coimbra.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Tiros na caserna de Santa Margarida no dia 25 de Abril de 1974


RODOLFO TOMÁS
Texto

O que me lembro do dia 25 de Abril, em Santa Margarida, foi que era a manhã de uma quinta-feira e que o nosso saudoso alferes Garcia entrou de repente, e com muito alvoroço, na caserna da CCS e de G3 na cinta, abriu o portão da direita e, ali mesmo, disparou um ou dois tiros para o ar.
"Está andar, está andar quero tudo lá fora em 5 minutos...", gritou ele.
E foi o que aconteceu naquela manhã de Abril. Mais tarde cerca das 10 e qualquer coisa, começámos então a perceber melhor o que se estava a passar, através do Rádio Clube Português. Sentados, com os cantos das G3 entre as pernas e sem sabermos ao certo no que aquilo iria dar. Bons tempos, éramos mais novos 36 anos.
Lembro-me, perfeitamente, que alguns dos companheiros de casernas fizeram ouvidos moucos mas o «problema» ficou logo resolvido, quando o alferes Garcia fez os beliches deles tombar para o chão. Acordaram num instante.
RODOLFO TOMÁS

quarta-feira, 28 de abril de 2010

O 25 de Abril de 1975 e o whisky Sbell

Publicidade ao whisky Sbell (em cima) e o o Comando da Zona Militar Norte (CTC).
Repare-se na Bandeira de Portugal hasteada no alto do edifício
Aqui se falou como foi o 25 de Abril de 1974 em Santa Margarida e no Quitexe. E o de 1975, em Carmona? Realizaram-se as eleições, com «ida às urnas de todo o pessoal que o quis fazer».
Não foi o meu caso, e o do Cruz, pois andávamos a jornadear pelas praias e folguedos de Luanda, com noitadas de neons e cio que serviam de pasto aos nossos desejos. Tínhamos chegado da passeata que nos levou ao sul, aos prazeres do Huambo (Nova Lisboa) e à praias e sensualidades de Benguela e Lobito - onde, por exemplo, pela primeira e única vez entrei numa fábrica de whisky, a Sbell. E quem não se lembra, por muito mau tropa que tenha sido, do whisky Sbell? Quais scotch, quais escocês?!!!
Compradas, ou oferecidas (não me lembro), de lá trouxemos umas garrafas - e também de licor do dito - para oferecer a amigos, em Luanda.
Carmona, nesse dia 25 de Abril de 1975, assistiu ainda a «cerimónia simples mas singela, no CTC, com o içar da Bandeira Nacional, com as melhores honras militares e a presença de todos os oficiais do CTC e Batalhão de Cavalaria».

terça-feira, 27 de abril de 2010

O dia 25 de Abril vivido no Quitexe

Rua principal de Quitexe, estrada de Luanda para Carmona (Uíge)

ANTÓNIO CASAL
Texto

Quando em Lisboa se tomavam posições com vista à Revolução, eu e outros camaradas apetrechavamo-nos para uma operação de dois dias. Alheios aos acontecimentos, partimos às duas da madrugada para uma operação que marcaria não só esta data, mas também a nossa passagem por Angola.Com o nosso tempo terminado a 14 de Abril, foi com algum, e até muito receio, que iniciámos a caminhada em zona onde sabíamos ser alvos fáceis.
Os nossos receios viriam a provar-se fundados.
A travessia de um riacho "obrigou-nos" a uma desatenção que quase nos foi fatal. De um morro, surgiram rajadas de metralhadora que nos fizeram aumentar o clima de tensão. E de medo também! Afinal, tínhamos o nosso tempo cumprido e estávamos a passar por uma situação complicada. Recordo as sucessivas cargas de água misturadas com um calor abrasador, e que que nos secava a roupa, em pleno andamento.
O alferes viria a necessitar de ajuda, mercê de uma repentina indisposição que o debilitou fisicamente. Homem de Operações Especiais, tinha um ponto fraco que não conseguia controlar em situações de grande tensão - o estômago! Ainda nos faltavam muitos quilómetros para percorrer e o nosso guia parecia não estar com muita vontade de avançar. Pairou a desconfiança sobre a sua lealdade e as coisas chegaram a estar feias para o seu lado! Teve o furriel de tomar atitudes que não estavam previstas nos códigos de boa conduta, para "convencer" o cavalheiro a cumprir a sua obrigação.
Chegada a hora certa, via rádio, fiz o contacto com o comando, para que nos recolhessem com medicação adequada e alertando para os necessários cuidados com que o deviam fazer. A minha parte estava feita e eu, digo-o com vaidade, fiquei satisfeito por me sentir útil. Ainda avistámos o IN à distância, mas o seu rumo era diferente do nosso. Além disso, a nossa operação acabava ali mesmo. e quanto menos ondas melhor!
O nosso pensamento estava na família e disso já muito falavam as nossas missivas. Regressados ao quartel, nada ainda transpirava sobre a Revolução. Mas eu soube-o, ainda com o meu banho por tomar. Em segredo e depois de assumir a minha «palavra de honra», o Silva (operador-cripto) lá desabafou ao meu ouvido o que só viria a saber-se alguns, e até muitos, dias depois.Já com dez dias passados, viria a receber uma encomenda com jornais que nos davam conta das novidades. Correram toda a Companhia, mas alguns nem para ele olhavam. Aquilo nada lhes dizia e queriam era ir para casa!
Era (foi) o meu 25 de Abril de 1974! Cheio de acontecimentos e muito marcante, por terras de Angola.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A oitava do 25 de Abril de 1974

A 26 de Abril de 1974, uma 6ª.-feira, fomos surpreendentemente mandados de fim-de-semana. «Todo o Batalhão se sentiu parte integrante do Movimento das Forças Armadas, de tal modo que nessa mesma data, o exmo. comandante explicou a todo o pessoal o que o MFA pretendia, em palestras orientadas especificamente para oficiais, sargentos e praças», lê-se no Livro da Unidade.
Pouco me lembro disso, para além de uma (im)pertinente pergunta do (1º. cabo miliciano) Machado e das dúvidas dos soldados (e de todos nós): «Ainda vamos para Angola?». E de todos estarmos com uma pressa danada, depois de sabermos que tínhamos fim de semana.
Almoço para dentro do estômago, logo foi tempo de o velho SIMCA 1100 do Neto galgar os quilómetros que nos separavam de Águeda. Em Coimba, à saída da ponte e entre as duas estações da CP, estavam milhares e milhares de pessoas, em manifestação, vitoriando o MFA. Não sei, mas ainda na 6ª. feira, a falar com o Neto, ambos mantemos a dúvida: o carro andou ou não andou pelo ar? Cá para mim, andou, à força dos braços do povo que o levantou frente ao Hotel Astória. Foi este, talvez, o momento mais empolgante dos meus dias desse Abril que se abria para o país. E de faz hoje 36 anos bem me lembro que, chegado a casa, fui ter com a minha mãe, que sachava milho na Codiceira, mesmo á beira da pateira.
«Então, ainda vais lá para fora?...», perguntou-me ela, talvez ansiosa. Disse-lhe que sim, que ia. E trouxe-lhe o carro de mão carregado de milho para casa.

domingo, 25 de abril de 2010

O dia 25 de Abril de 1974 no Batalhão de Cavalaria 8423

A 25 de Abril de 1974, estava eu pelo RC4, em Santa Margarida, e levantei-me cedo, como sempre. Fui para a higiene pessoal na maior das tranquilidades, levando um velho rádio de pilhas para as notícias da manhã. Daí por minutos, chegariam os meus companheiros, apressadíssimos como sempre, para escanhoar a barba e pôrem-se «finos» para mais um dia.
Estranhei, para dizer a verdade, o facto de só ouvir música militar, mas por lá fui dando ao pincel e à lâmina, para escanhoar os pêlos do dia. O ruído da água da torneira imperceptibilizou-me a audição: «Aqui, Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas (...) Conforme tem sido difundido, as Forças Armadas desencadearam na madrugada de hoje uma série de acções com vista à libertação do País do regime que há longo tempo o domina (...)
Eh, pá!!! O que é isto?!
Acabei o escanhoamento e fui a correr «avisar» a malta, que ainda dormia. Choquei com um companheiro no corredor e contei-lhe. Assobiou.... quiçá lembrando-se do 16 de Março. Mas rapidamente toda a gente estava de pé e alarmada. E curiosa! O pequeno almoço foi apressado e não nos deixaram sair para o Destacamento. Até que quisemos saber o que se passava, para além do que se ouvia no Rádio Clube Português.
Era a manhã do 25 de Abril!
Por volta das 11,30 horas, já no Destacamento, o comandante falou às tropas. Acalmou, mas pouco explicou! As melhores (mas muito poucas) imagens que nos chegavam eram as da televisão, a preto e branco! A serenidade expectante foi raínha no dia 25 de Abril de 1974, entre os homens do Batalhão de Cavalaria 8423. Faz hoje 36 anos!
- RC4. Regimento de Cavalaria 4, em Santa Magarida. Unidade de Carros de Combate e mobilizadora do BCAV. 8423.

sábado, 24 de abril de 2010

Incidentes no Negage e patrulhamentos mistos urbanos

Base Aérea do Negage, aspecto de 1970 (foto de Jorge Oliveira) e furriéis Cruz e
Viegas, em férias na zona de Nova Lisboa (em baixo)
Os dias de Carmona foram adensando problemas, por Abril de 1975 fora. A guarnição do BCAV. 8423, já reforçada com grupos de combate de companhias da ZMN, tinha «água pela barba», todos os dias. Os patrulhamentos mistos continuavam, principal ou exclusivamente na cidade.
«Não se podia deixar a cidade de Carmona inactiva», frisa o Livro da Unidade, de que me socorro.

A 20 de Abril, incidentes no Negage - cidade próxima, onde se situava a base aérea (foto), por isso localidade estratégica... - levaram à realização de uma reunião de emergência, com a FNLA, de modo a «obter-se uma mentalização do que deverá ser a missão das NT e dos Exércitos de Libertação, neste período que decorre até à independência».

A ideia, generalizada, todavia, era a de que se vivia uma situação da calma fictícia - ainda que, valha a verdade, «permita manter-se um dia-a-dia mais ou menos estável, quebrado por um ou outro incidentes...».

Por estes dias, ao sul, jornadeava eu e o Cruz, em férias (foto de baixo) - neste caso convivendo com familiares dele, que nos receberam principescamente em Benguela. A foto é da véspera da nossa saída de Nova Lisboa, no regresso de um passeio pela zona. Nas nossas costas, está a cidade - a uns 8/10 quilómetros.
- ZMN. Zona Militar Norte.
- NT. Nossas Tropas.
- FNLA. Frente Nacional de Libertação de Angola (a antiga UPA, de Holdem Roberto).

sexta-feira, 23 de abril de 2010

1º. dia de tropa

O regresso dos Cavaleiros do Norte a Santa Margarida

Neto e Viegas, 1º.s cabos milicianos da CCS, no RC4 (Santa Margarida, 1974)

Dia 22 de Abril de 1974, 2ª. feira. A formatura das 8 horas da manhã já incluiu a maior parte dos jovens que, mobilizados desde o princípio do ano (a maior parte) e outros já desde 1973 (Dezembro), integravam o Batalhão de Cavalaria 8423. Já se sabia o lema: «Perguntai ao Inimigo Que Somos». E já se tinham gozado os dez dias da licença de normas - a período que antecipava a partida para os teatros de guerra.
O BCAV. 8423, porém, por causa da Revolta das Caldas, teve dez dias que se fizeram por mais de um mês e foi nos quartos que os 1ºs. cabos milicianos que «dormiram» alguns dos oficiais de intentona. Assim nos disseram.
Fomos chamados (eu e o Neto), na tarde de 19 de Abril e por uma via inusual: através da então Escola Central de Sargentos, que por Águeda preparava futuros oficiais. E lá fomos nós, a 20 de Abril - um sábado, despedindo-me eu de minha mãe, que mercava na praça de Águeda, tendo o cuidado de ir vestido à civil, para não suscitar constrangimentos entre o povo. O SIMCA 1100 do Neto voou até Santa Margarida.
O tema das conversas, todas mais ou menos camufladas, tinha, evidentemente, a ver com o golpe das Caldas (a 16 de Março), que nós não entendíamos muito bem. Chegámos já depois do almoço, feito em Abrantes - o Neto era sempre adepto de chegar o mais tarde possível, ao meu contrário, que era amante de chegar sempre cedo - e lá ficámos a saber, já em Santa Margarida, que éramos os primeiros milicianos e que, entrando de serviço na manhã de domingo, iríamos passar a noite de domingo para segunda-feira a receber o pessoal que chegaria. Assim foi! E a satisfazer a maior curiosidade de todos: a partida da CCS para Angola seria a 27 de Maio. E iríamos fazer o IAO a partir de 3 de Maio!
- IAO: Instrução Altamente Operacional, período de preparação real.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O meu primeiro dia de tropa...




Há 37 anos, hoje se completam, era véspera de eu assentar praça. Não me lembro muito bem, mas certamente foi um dia a imaginar muitos cenários e a gerir expectativas. Prevenindo-me para factos e emoções.
Era Abril de 1973 e ia no oitavo mês de luto pela morte de meu pai, já trabalhava e essa minha partida gerava alguns constrangimentos familiares, pessoais e afectivos.
Mas não havia como escapar e eu não também quis, teimosamente, beneficiar de qualquer apoio que, em qualquer grau, m´evitasse ir à tropa. E à guerra!!! Gente próxima, bem se disponibilizou para isso. Mas teimoso e orgulhoso, aí me pus eu, faz hoje 37 anos, em traje de ir para a guerra.

Nunca me arrependi, nem nos duros tempos de Lamego (nas Operações Especiais que me fizeram Ranger), muito menos na recruta da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém. Ou sequer nos tempos de Santa Margarida - onde se fez a família dos Cavaleiros do Norte.
No bornal e fresquinhas como alface saída da horta, levava recomendações de família e amigos e a memória a rebobinar conversas de meu pai - que me falava de coisas de quando ele, nos anos 40, se fizera magala, chegando a 1º. cabo enfermeiro: "Cumpre sempre as ordens, discute-as só quando tiveres certezas e depois de as cumprires!». Assim julgo ter feito.
Hoje, 37 anos depois, se me perguntarem, direi que valeu à pena ir à tropa. Que gostei. Que, entre virtudes e defeitos, boas e más memórias, dramas e glórias, me fiz melhor. Melhor, com a solidariedade dos muitos companheiros que, de 23 de Abril de 1973 a 8 de Setembro de 1975, foram gente do meu dia-a-dia, dividindo-se e/ou multiplicando-se comigo.
Não tivesse ido e ainda hoje me sentiria um cidadão menor! Ainda hoje, melhores dos meus amigos, são amigos da tropa. De Portugal e de Angola!

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Oa rádios-montadores que faziam de tudo e mais alguma coisa...

Tomás e Pais (1º.s cabos) e Silva, rádio-montadores da CCS do BCAV. 8423

Texto
RODOLFO TOMÁS
O Almeida não foi o único a mudar de especialidade. Lembro que o António Silva, rádio-montador, também foi "convidado" a trabalhar na padaria. Convidado à força!, é bom dizer!
O capitão Oliveira que era, como todos nos recordamos, um grande defensor das NEP´s, nessa altura esqueceu-as totalmente e há que por todos a trabalhar, principalmente os rádio-montadores.
Vamos relembrar: Um fazia de escriturário, o Tomás..., «gramava» a escala dos reforços como cabo de dia e dava assistência técnica - e não só militar, como de âmbito civil; outro, o Pais, era foto-cine (ou seja, dava cinema), fazia reforços e cabo de dia e dava assistência técnica. Finalmente, o Silva fazia reforços, faxinas, assistência técnica e foi também padeiro.
Para quem aqui já disse que ser rádio-montador era uma maravilha..., que até tínhamos umas tainadas pela noite dentro com fados e etc.!!, até que nem era nada mau!
Bom..., apesar de tudo, quem nos dera tal escala e estarmos pelo Quitexe e Carmona!!! Afinal, sempre éramos mais novos só... 36 anos!!! E «aguentavam-se» todas as injustiças!
- TOMÁS. Rodolfo Hernâni Tavares Tomás, 1º. cabo rádio-montador, mora em Lousada.
- PAIS. António Correia Lourenço Pais, 1º cabo rádio-montador, residente em Viseu.
- SILVA. António Jorge Pereira da Silva, soldado rádio-montador, residente em Vila Nova de Gaia.
- ALMEIDA. Joaquim Figueiredo de Almeida, ver post de ontem.
- NEP. Normas de Execução Permanente, regulamento de uma unidade militar.

terça-feira, 20 de abril de 2010

O atirador de cavalaria Almeida que se fez padeiro...

Miltares do PELREC. Em cima, da esquerda para a direita, Hipólito, Monteiro (furriel),
ALMEIDA e Vicente. Em baixo, Garcia (alferes), Leal, Neto (furriel) e Aurélio (barbeiro)


O 1º. cabo Almeida era atirador de Cavalaria e um ano mais velho que todos nós - os gloriosos «pelrec´s» da CCS dos Cavaleiros do Norte. Rezava a lenda de caserna que tinha ele fugido para França, a salto, e, por isso, teve incorporação militar um ano depois. Era de 72, nós 1973. Nunca ele, mesmo perguntado, confirmou se assim foi.
O 1º. cabo Almeida era a paz em pessoa! Quiçá, envergonhado da sua condição humilde, parido que foi lá pelas serranias da Estrela, nas abas de Penamacor. Nunca dele se teve um problema. Foi sempre zeloso, cumpridor e aprumado, humilde até parecer excesso. A equipa de combate que comandava era do PELREC e disciplinada, corajosa, sem medos... E ele, para além das missões que lhe competiam, como atirador de cavalaria - comendo o pó das picadas e vencendo o medos dos trilhos de perigos das matas... - , emprestava-se ainda às tarefas internas da guarnição, sem um ai de queixume e indo para além do curial - por exemplo, fazendo-se padeiro e coordenando as tarefas de ordenação do refeitório.
Ocorre-me isto, por ler um louvor do comando do BCAV. 8423, relevando «um militar muito disciplinado, correcto e sempre pronto a cumprir quaisquer serviços, mesmo voluntários, que se solicitassem». O documento dá especial ênfase ao período dramático de Junho de 1975, quando milhares de civis foram socorridos no BC12 e tinham de... comer. Pois o 1º. cabo Almeida, atirador de cavalaria que se fez padeiro, teve «esforço especialmente notório» nesse período de incidentes, «trabalhando dia e noite, para apoiar tão elevado número de pessoas».
O militar Almeida, evoco-o como sempre disponível, sempre cumpridor e sempre atento, sem uma qualquer exuberância ou algum deslumbramento, sempre consciente dos momentos que se viviam. E também o lembro pelo pão quentinho que barrávamos de manteiga, às vezes recheávamos de queijo ou goiabada, ou presunto em dia de festa. Era pelas noites dentro, quando estávamos de serviço, no Quitexe ou em Carmona.
E como era bom o casqueiro amassado e cozido pelo padeiro Almeida, no forno da CCS!
- ALMEIDA: Joaquim Figueiredo de Almeida, 1º. cabo atirador de cavalaria, natural de Pedrogão de S. Pedro, em Penamacor. Faleceu a 28 de Fevereiro de 2009.
- FALECIMENTOS. Garcia, Almeida, Vicente e Leal já faleceram

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A mensagem que foi forjada para a coluna terrestre passar para Luanda

Refugiados da cidade de Carmona (Uíge) no BC12, protegidos pelo BCAV. 8423

JOSÉ DIOGO THEMUDO
Texto

A dada altura, estava eu a comandar o Batalhão, pois o tenente-coronel Almeida e Brito tinha entrado de férias, começámos a entregar algumas infraestruturas aos três movimentos : MPLA, FNLA e UNITA.
Para isso, reuníamos no Comando de Sector com os responsáveis locais dos Movimentos e combinávamos o que cabia a cada um e como é que essas infrestruturas, nomeadamente quarteis, iriam ser entregues. Só que a ganância era tanta que não cumpriam o que se havia combinado e ocupavam clandestinamente tudo que lhes aparecia à mão.
Como era de esperar, e como já li numa das histórias deste blogue, a determinada altura, os Movimentos deixaram de se respeitar e de nos respeitar também a nós e envolveram-se em guerra. Na nossa Zona de Acção a "força"estava do lado da FNLA e assim , os "militares" da UNITA e principalmente os do MPLA , tiveram que fugir. Muitos deles refugiarando-se, com alguns familiares, no nosso Quartel.
Para tirarmos a salvo esses refugiados, organizamos um transporte aéreo e uma coluna com destino a Luanda. No transporte aéreo, seguiram os mais "perigosos", assim como alguns civis - nomeadamente mulheres e crianças. Do aeroporto, tinham-me dito que no avião só cabiam 100 pessoas incluindo nesses 100, algumas crianças. Só que, na hora de embarcar as pessoas nas viaturas de transporte para o aeroporto, foi completamente impossível controlar quem ia e quem ficava. Uns diziam que só queriam ir despedir-se dos seus familiares e outros, de facto, queriam era fugir. Assim embarcaram no avião mais de 150.
Os pilotos nem queriam acreditar no número que lhes foi apresentado. A porta do avião fechou-se a muito custo e, depois de "comer" quase toda a pista , lá conseguiu levantar e levar os "forçados passageiros" para Luanda.
A coluna terrestre "encalhou" no Negage, porque a FNLA não nos queria deixar passar
. Dizia que aquela gente ia para Luanda e que, depois de se armar, regressaria a Carmona para se vingar da derrota sofrida. Depois de termos informado o Comando de Sector da situação e para que não houvesse mais derramamento de sangue, este forjou uma mensagem assinada por Ngola Kabango, que era Ministro em Luanda e era dos quadros da FNLA , que autorizava a nossa passagem. E assim a coluna lá seguiu o seu destino sem mais quaisquer problemas. Que será feito dessa gente? Uns terão ficado sempre por Luanda, outros talvez tenham regressado mais tarde.
Pequenas histórias passadas há 35 anos.
Um abraço para todos
JOSÉ DIOGO THEMUDO
- THEMUDO. José Diogo da Mota e Silva Themudo, capitão de Cavalaria e 2º. comandante do BCV. 8423, entre Março e Setembro de 1975. Actualmente, é coronel na situação de reformado e reside em Lisboa.

domingo, 18 de abril de 2010

Palestras orentadoras para as primeira eleições depois de Abril

Férias em Nova Lisboa, capital do Huambo (Abril de 1975) e correio

com notícias (políticas) de Portugal (em baixo)






Portugal preparava-se para as primeiras eleições e, em Angola, os Cavaleiros do Norte «casavam» os momentos de alguns frissons de rua com sessões de esclarecimento político. Afinal, ia-se votar - o que, para todos, era uma grande novidade.
Não assisti a nenhuma, pois andava lá pelos suis angolanos, em gozo de férias e até pouco «sensibilizado» para a «coisa», mas chegaram comentários alarmantes de Portugal (imagem ao lado). «Depois da euforia, começa a temer-se coisas chatas, há muitas dúvidas entre o povo que não entende nada do que os políticos dizem e se diz enganado. Não sei onde isto irá parar...», escrevia-me pessoa amiga, em correio para Nova Lisboa, dando-me nota dos fervores revolucionários que por cá se viviam.
«Eu sei que nem devo estar a incomodar-te com estas coisas, pois precisas é de gente que te anime, mas eu acho que isto pode realmente dar em estardalhaço...», confidenciava-me o correio chegado de Portugal. Por sinal, de gente colocada na área de esquerda. E bem de esquerda. O pai era delegado sindical, entre UDP e PCP.
Carmona, essa continuava a «arder», com regulares escaramuças entre FNLA e MPLA. E preparavam-se as eleições de 25 de Abril de 1975. O BCAV. 8423 foi encarregado de distribuir as urnas de votos e, para esclarecer os «cavaleiros», realizaram-se as tais sessões de esclarecimento, a 16 e 23 de Abril.
O Livro da Unidade usa um preciosismo - eram, afinal, «palestras orientadoras» - para definir tais sessões, que mais tarde o Neto me veio dizer, respondendo a pergunta minha, que «foram uma confusão....». «Vieram para aí dizer umas coisas mas eu acho que ninguém entendeu nadinha...», disse ele, que até era dos mais esclarecidos.
Só por curiosidade, por conversas entre «cavaleiros», dir-se-ia que a maioria andava pela esquerda e pelo PPD, com franjas muito minoritárias do CDS. Mas, na verdade, ouso dizer que a malta, quase toda a alta, não entendia nada do assunto e as nossas «ideias» reflectiam muito do correio que nos chegava de Portugal.

sábado, 17 de abril de 2010

Férias em Nova Lisboa e as primeiras eleições em Portugal

Férias em Nova Lisboa, com família e amigos, e barragem do Cuando (em
baixo). Clicar, para ampliar as imagens
Vantagem de escrever anotações nas costas das fotografias é recordar histórias a elas ligadas. A de baixo, a preto e branco, fez memória da minha visita à barragem do Cuando, a 14 de Abril de 1975, com Cecília Neves e o marido, Rafael. Na de cima, a cores, estou eu com Rafael e os quatro filhos: Saudade, Fátima, Idalina e Valter. Num dos muitos jardim de Nova Lisboa, no dia 16.
Retratam alguns dos momentos da minha passagem de férias pela cidade e arredores - em tempos de paz e alegria que se testemunha no olhar sorridente e feliz de todos. Seguramente, foram tiradas pelo Cruz - meu companheiro dessa jornada que nos levou ao sul de Angola. Merendámos nesse dia 14 de Abril, na barragem, por cujo arredor se erguia ao tempo uma missão católica - a uns dez/quinze quilómetros de Nova Lisboa.
A memória mais viva que me ocorre da foto de cima tem a ver com o pequeno pescador, que à viva força nos queria vender (e vendeu...) o peixe que tinha tirado à linha da lagoa.
De Portugal chegavam notícias das primeiras eleições. «O largo do cruzeiro está transformado em cenário multicolor, está até mais vistoso. São vários os partidos propagandeados, mas o PS e o CDS são os que predominam», dizia-me, por correio recebido no Hotel Bimbe, minha irmã Maria Dulce, dando ainda nota que «foi à luz do dia que os partidos andaram a fazer a colagem dos cartazes e até se juntaram os simpatizantes dos partidos para fazerem pinturas».
Eram as primeiras eleições portuguesas, depois de Abril de 1974!

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O homem das transmissões aos berros no meio da emboscada...

Vista aérea da vila do Quitexe (foto cedida por José Lapa, do BART. 786).


ANTÓNIO CASAL
Texto
A propósito dos homens das transmissões, continência, sim senhor, muito bem. Aproveito para puxar dos meus galões, melhor dizendo, das minhas divisas. Ou não tivesse eu sido homem de transmissões!
Teria aqui pano para mangas muito compridas, mas vou resumir. Recordo-me de um dia almoçar com uns amigos, que faziam parte da escolta ao MVL. Dois tinham feito a recruta comigo e o alferes tinha sido meu colega de escola. Almoçámos os quatro e despedimo-nos cerca das duas da tarde. Ás 16 horas, recebemos uma comunicação via rádio, pedindo-nos ajuda. Não chegámos a sair do quartel, porque logo de seguida recebemos nova comunicação, a informar-nos que um PELREC já ia a caminho, proveniente de um destacamento mais próximo do local.
Partimos, sim, mas às seis da tarde, com uma tarefa bem mais dolorosa. Não vou entrar em detalhes, apenas quero salientar a atitude do homem das transmissões. Muito baixinho, metido apenas com ele mesmo e que quando falava, parecia que sussurrava. Contou-me o alferes, à noite, que o soldado de transmissões, ao saltar da viatura, foi protegido pelo rádio Racal TR 28, que foi atingido por uma das três Bredas montadas, ficando destruído e sem hipóteses de funcionamento. Abrigou-se atrás de a roda e aproveitou uma pequena pausa do tiroteio, para gritar a amplos pulmões, simulando que estava a falar com os camaradas e dando a entender que a ajuda estaria próxima. A atitude resultou e verificou-se uma reviravolta nos acontecimentos, que já tinham deixado as suas marcas.
O acto foi reconhecido e, já na vida civil, vim a saber que foi condecorado, ou que recebeu uma medalha pelo seu feito, não posso precisar. Creio que se chama(va) Mateus, o tal que se punha sózinho no seu canto e que era olhado como um "meia leca". E que, pelos vistos, até tinha boa voz, mas só dela fazia uso quando entendia ser necessário! Ele lá sabia. E lá soube!