sexta-feira, 16 de setembro de 2011

1 006 - O dr. Leal..., médico e capitão do Quitexe


O dr. Leal, no Quitexe, de cigarro na boca (1974), com os alferes Garcia e Ribeiro (è esquerda) e tenente Luz (à direita). Em baixo, o consultório de Fafe (Setembro de 2011)




ANTÓNIO FONSECA
Texto

Já por diversas vezes aqui se escreveu sobre o dr. Leal, distinto médico que por terras do Quitexe, e outras, jornadeou com o 8423. E também com o 3879 e o 4211, que antecederam os Cavaleiros do Norte.
São muitas as histórias sobre os feitos, enquanto médico, do dr. Leal. Outros, talvez porque não chegaram a necessitar dos seus préstimos, realçam-lhe outras qualidades. Defeitos não lhe apontam, embora naturalmente os tenha, mas serão talvez tão inofensivos que não lhes salta à memória.
São muitos os episódios contados pelos ex-enfermeiros, ao tempo colaboradores do dr. Leal e que com ele trabalharam e conviveram durante cerca de um ano. O ex-furriel enfermeiro, desde há muitos anos seu colega de profissão, lembra, com nostalgia e muita saudade, as muitas horas vividas em trabalho e também em momentos lúdicos.
«Excelente médico e com uma capacidade de trabalho que nos impressionava. Muitas vezes nos serviu de motor em horas difíceis, sempre com um sorriso e uma disponibilidade exemplares. Gostava de rever esse homem… O dr. Leal… será vivo?!», comentava comigo o dr. Gouveia, com ar nostálgico e um acenar de cabeça, a deixar adivinhar o respeito que por ele nutre!
“Não só é vivo como, tanto quanto sei, goza de boa saúde e ainda dá consultas!”, informei-o eu, deixando-o um tanto perplexo com a saudável longevidade. Para que melhor nos situemos no tempo, na altura os meus 22 anos corresponderiam aos 45 do Dr. Leal, suponho eu!
Em périplo, por Alto Minho, resolvi dar um saltinho de Viana do Castelo a Fafe, e procurar o dr. Leal, na esperança de uma boa conversa e também de uma boa história para aqui postar. Iria também, porque não, agradecer-lhe os seus cuidados quando o paludismo me pôs mais para lá do que para cá!
Não tive a sorte que procurava e dei de caras com a porta fechada! Tive pena, muita pena, mas ficará para outra altura. Talvez até para breve!
Não conseguindo eu a “entrevista” nem a foto desejada, contentei-me em “trazer” a entrada do gabinete onde ainda dá consultas e, solidariamente, “teima” em isentar os economicamente mais frágeis!
«Excelente pessoa, afável… já não há como ele!», garantiam!
É assim o dr. Leal! Assim mo descreveram pessoas anónimas com quem encetei conversei, enquanto aguardava uma possível chegada a casa, do médico que Fafe bem conhece, respeita e admira! O mesmo homem que todos aprendemos a respeitar em terras Quitexanas. Bem haja, dr. Leal!
ANTÓNO CASAL DA FONSECA

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

1 005 - Um país novo e de si inimigo...

Os meus primeiros dias do Portugal europeu, chegado eu da ultramarina Angola que se preparava em parto para a independência, teve momentos de choque. E de surpresa! E de expectativa!!!
Tudo para mim era novo: o deslumbramento revolucionário, a capacidade reinvindicativa, as manifestações e os plenários, o azimute único para um caminho que eu desconhecia, umas coragens inflaccionadas que me arrefeciam a alma! E eu, por aí apanhado de surpresas, a querer entender as diferenças de um Portugal onde, nas ruas e nas praças, cantavam de raiva algumas G3 roubadas em quartéis, atirando sobre irmãos nossos, sangue nosso.
Eu chegava de Angola, que se violentava de Luanda para o norte - para o nosso Quitexe,a  nossa Carmona; de Luanda para o Cunene e para o Huambo, em guerra fraticida. De uma Angola em torrente abrupta de sangue, que sujava muitas mãos. Uma Angola que, irada ao rubro e violenta, atirava para Lisboa aviões de bojo grávido de gente mártir, que fugia, com uma mão à frente e outra atrás.
E que Portugal eu reencontrava?
Um Portugal diferente! Muito desigual, levedando esperanças de igualdade e liberdade.
Um Portugal já em V Governo, em prolongada e complexa crise de Verão Quente, que despertou fervores revolucionários e amordaçou muita gente - ameaçada com a grilheta das prisões. Otelo e o seu COPCOM a ameaçar, até que Vasco Gonçalves caiu, apesar da muralha de aço de que se rodeou e o segurou. Parecia-me, na minha inocência, que os políticos não eram mais que vendedores ambulantes de sonhos, mercadores de simpatia fácil e votos, exploradores da boa fé dos portugueses. Vinha de um sítio que entremeava esperança com a morte e chegava a outro, ao meu país, que parecia fazer-se de si inimigo.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

1 004 - O último combatente, são e salvo e com o juízinho todo...


Viegas, Mosteias e Neto, últimos dias de Carmona (Agosto de 1975)

Os meados de Setembro de 1974, em termos pessoais, foram de visita a aqui e a ali, de cumprimentos e confraternizações com familiares e amigos. Afinal, no dia 9 desse mês chegara eu,o último combatente da aldeia na guerra ultramarina. São e salvo e com o juízinho todo!! E, compreendam, numa aldeia de pouco mais de 700 pessoas, uma chegada dessas era acontecimento festivo e de dar graças a Deus!!!
Não faltaram abraços e perguntas: como é que estás e como é que está Angola? Então, viste lá fulano e cicrano? Sabes se eles vem embora, ou se não? Aquilo lá está mau, não está?
Entre uns bons bacalhaus e saborosos rojões, uns tracanazes de broa (ai a broa da minha mãe, a broa da minha mãe!!!, quantas saudades e quantas fomes eu tinha dela!!!...), lá fui eu dando recado da carta angolana que trazia nas minhas memórias, não me dispensando de algum exagerozito, para dourar as glórias dos meus méritos militares! Daqueles de entrar para a lenda... 
Minha mãe, agora em vésperas de 91 anos mas ao tempo carregada do luto de meu pai e das dores de um filho na guerra, já não falando nos berbicachentos bicos de papagaio que tanto lhe «adormeciam» as cruzes, dispensou-me de exageros «inquisitoriais». Perguntou-me, tão só, se sempre era verdade que «lá na guerra» nos davam comprimidos para nos matar o medo.
Ó mãe!!!! Lá lhe contei que não, que nunca dera por isso, que se dizia sempre muita coisa da guerra, e, a garfar o escoado de couves com bacalhau, na velha cozinha do forno, expliquei-lhe que, sim, tomávamos comprimidos, sim...,mas para prevenir doenças. As doenças tropicais.
«Então é isso!...», concluiu ela, a pegar no copo da água-pé, para empurrar as batatas molhadas de bom azeite - o azeite das nossas oliveiras.
Claro que era!!! E para provar, fui buscar e mostrei-lhe os comprimidos e injecções que eu, bem aprudentado, trouxera na mala de guerra, para me defender desses males sanitários de África. Vim  a ter de, por volta de Janeiro/Fevereiro de 1976, usar umas injecções, justamente por causa de um paludismo chato que me interrompeu uma tardada de domingo.  

terça-feira, 13 de setembro de 2011

1 003 - Os dias de Luanda e os Cruz(es) na praia...

O capitão Cruz e o alferes Cruz, «cruzados» na praia da Barracuda, em Luanda (1975). As esposas atrás, com o bebé a do capitão, ao meio a do alferes

 
Os dias de Agosto de 1975, por Luanda, foram como aqui tenho contado: os servicinhos da ordem, no Grafanil (para quem os fazia!...), e descobrir e viver a cidade e... arredores!! Por exemplo, as praias da ilha, os encantos do Mussúlo, as vistas sobre a cidade (lá do alto da fortaleza), as noites e os dias de uma urbe  fantástica, que fervilhava todas as horas do dia e nos dava o que as nossas juvenis apetências mais desejavam!
E pôr os medos da guerra atrás da porta!
Isto para os solteirinhos da.. silva, que se faziam corredores das noites de cio e dos neons, das bebidas brancas, da boa cerveja e dos manjares trincados com a gula de que ama a vida e não tem colesterois, ou ácidos úricos!..., a limitarem os desejos da carne.
Mas havia quem por lá andasse casado de amores e família. Era o caso do alferes Cruz, o homem das mecânicas, ido das berças de Santo Tirss para os calores de África. Com a dra. Margarida, a sua mais que tudo!!!! E o Ricardo, que nasceu desse amor que perdura até hoje.
Vem ele, aqui ao blogue, lembrar-nos Agosto de 1975, quando por lá se pôs de férias, para aligeirar a vida. «Estes dias permitem-nos recarregar as nossas energias,bastando para isso sair da rotina do dia a dia, quer em casa quer fora dela», conta o alferes Cruz, de nome António Albano.
Assim e agora, 36 anos depois!!!..., lembrou-se o nosso oficial miliciano das mecânicas de «partilhar esta fotografia, de um magnífico dia de férias em 1975, na praia da Barracuda, em Luanda». 
Esta partilhada, meu alferes!
A foto veio adoçar-nos a vida de hoje, fazendo-nos esquecer a crise, os impostos, a política que nos azucrina a disposição, os sócrates e os coelhos deste país, os portas, os louçãs e os jerónimos que nos enfastiam, nos incomodam, nos tornam mais amargos.


- NOTA. O engº. (alferes) António Albano Araújo de Sousa Cruz, em email para o blogue, envia «saudações para os Cavaleiros do Norte, com desejo que todos tenham tido (ou ainda venham a ter) as melhores férias». E um grande abraço para o Capitão Cruz.
- CRUZ. José Manuel Romeira Pinto da Cruz, capitão miliciano e comandante da 2ª. Companhia 8423, a de Aldeia Viçosa. É proefssor e reside em Esmoriz (Ovar). 

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

1 002 - Os Cavaleiros do Norte e a disciplina militar

Os Cavaleiros do Norte no Encontro de Ferreira do Zêzere, a 29 de Maio de 2010

Todos nós quisemos que o batalhão fosse um todo». São palavras do tenente-coronel Almeida e Brito, comandante do BCAV. 8423, em Setembro de 1975, quando se faziam vésperas e malas para regressar a Portugal e ele concluía o Livro da Unidade.

Os Cavaleiros do Norte, pode dizer-se, bem se podem identificar, sem falsas modéstias ou quaisquer constrangimentos, como servidores da Pátria onde nasceram. Servidores, sem nada exigirem e sem nada pedirem - para além de «regressarem sãos e salvos», como todos desejávamos, como desejavam as nossas famílias e amigos.
Almeida e Brito, no remate final da nossa comissão, escrevia que «todos nós fizemos por honrar o lema da nossa unidade mobilizadora e todos nos praticamos o nosso querer e saber vencer».
Escreveu bem!
E disse bem!
Assim foi, ainda que uma outra excepção confirmasse a regra.
A comissão de 15 meses regista apenas 7 punições, entre 87 oficiais e sargentos. Menos ligeiras, duas. As de dois amigos que, por razões disciplinares, tiveram de abandonar o batalhão - um deles (furriel) lamentavelmente já falecido. Um outro (alferes miliciano), com quem falei telefonicamente há alguns meses - não se lhe notando qualquer mágoa pelo que a vida militar lhe apôs na caderneta. Mais difícil lhe foi, depois, a vida civil - que o levou aos tribunais e coisas mais.
Lê os Cavaleiros do Norte, eu sei..., e aqui o saúdo. O saúdo, recordando-lhe uma célebre noite de serviço, quando o abandonou (para se enlevar em outros pousos e compromissos) e lhe foi «escondida» a falta disciplinar. Não resistiria a outros e seguintes encantos das noites de África e abandonou o BCAV. 8423 em Março de 1975, por razões disciplinares, já nos jornadeávamos por Carmona, mas ele com pecado do Quitexe.
Ficou-lhe o gosto pelos Cavaleiros do Norte! E a paixão!
- NOMES. Os nomes dos personagens são intencionalmente omitidos.

domingo, 11 de setembro de 2011

1 001 - Dever cumprido e saudade dos que partiram

CCS dos Cavaleiros do Norte no Encontro de Setembro de 2009 (Águeda)


Quem foi Cavaleiro do Norte e em Angola, vestiu a farda de Portugal, para a missão que recebeu e cumpriu, só pode sentir-se honrado e orgulhoso. Não fomos dos que fugiram e agora são heróis, mas dos que, sem recuar a desafios, medos e perigos, deram o corpo e a alma pela defesa de um projecto que afirmou a Nação Portuguesa. E nos fez mais homens, mais maduros e solidários, mais portugueses.
A nossa consciência é, obviamente, muito para além da de dever cumprido. «O dever que nos solicitaram e que nem sempre foi fácil de cumprir», como leio no Livro da Unidade. Assim foi.
Estes já tantos anos passados, que nos trouxeram à (provecta!) idade quase sexagenária - eu, querendo fazer graça, costumo dizer se-xI-ge-ná ri o!!! -, são tempo mais que suficiente para a fria e desapaixonada leitura do que foi a nossa jornada angolana. E nunca ouvi dúvidas de alguém, do colectivo que faz os Cavaleiros do Norte de hoje: todos sentem a alegria e a honra, o orgulho, de terem feito parte de um tempo único das histórias de Portugal e de Angola. Único e irrepetível! Valeu a pena!
O Livro da Unidade, reflectindo em Setembro de 1975, sobre a missão do BCAV. 8423, afirma que existe «a certeza do dever cumprido».
Não tenho dúvidas.
Na verdade, entre os momentos de euforia e de glória, de lenda!, e outros menos bons, quiçá vésperas de tragédias, há um espaço e um fôlego que nos fez maiores e actores de um momento que todo o mundo livre viu. E aplaudiu! Aplaudiu o «parto» da nova nação e o desprendimento da nação-mãe e irmã e dos seus homens (nós e muitos outros!), que deixaram famílias, namoradas, mulheres, filhos e amigos e em Angola fizeram o casamento da liberdade com a independência.
Este momento, 36 anos depois, é de alegria. E de saudade pelos companheiros que, nesta caminhada que nos traz já desde 1975, já nos deixaram e não podem comungar o nosso abraço. Prestamos-lhe a nossa continência!

sábado, 10 de setembro de 2011

O 1000º. post dos Cavaleiros do Norte

O blogue Cavaleiros do Norte chega hoje ao 1000º. post!
O milésimo!!! Mil vezes que inspiraram falar de um período muito especial e intenso das nossas vidas!
Ninguém tal diria e muito menos eu, a 9 de Abril de 2009, quando me meti nesta «brincadeira» de contar histórias e lembrar pessoas da nossa jornada africana, «brincadeira» que ficou «obrigação» diária, quase um dever profissional, um imperativo institucional, um objectivo levedado pelos permanentes estímulos que foram chegando.
Talvez os amigos que por aqui passam, lendo e recordando passagens da nossa jornada africana de Angola, não façam ideia, nem a mínima, da investigação, trabalho, disciplina e concentração que obriga esta tarefa de aqui, diariamente, fazer memória dos nossos tempos de militares que, ao serviço de Portugal e por uma causa boa, um dia partimos para aquela (ao tempo) colónia portuguesa - em vésperas de independência. De onde regressámos há 36 anos - que se passaram anteontem, 8 de Setembro de 2011.
O correio e registos pessoais do tempo, a leitura de alguma imprensa, o meu álbum fotográfico e as centenas de telefonemas e emails feitos e recebidos têm sido preciosas ajudas para a tarefa. Também, e aqui a sublinho, a colaboração de alguns companheiros de então, cada qual à sua dimensão: o tenente Luz, os alferes Almeida, Ribeiro e Cruz ,os furriéis Neto (que me lembra momentos de lá), Pires, Machado, Monteiro e Lopes e os 1ºs. cabos Tomás e Coelho (Buraquinho) - todos da CCS.  O furriéis Rodrigues e Pinto (da 1ª. CCAV.), o alferes Machado (da 2ª.). o capitão Fernandes, o furriel Belo e o 1º. cabo Deus (da 3ª.) - com textos e fotos. Talvez outros Cavaleiros do Norte, que agora não lembrarei. E outros quitexanos que nos antecederam: Octávio Botelho, Luís Patriarca, César e, muito principalmente, o António Casal Fonseca. Não esqueço, o (agora) 1º. sargento Louro (filho do malogrado 1º. cabo Louro). O CIOE, de Lamego! E tanta gente que neste tempo fui consultando: companheiros de Angola, Juntas de Freguesia,  paróquias e associações de localidades natais de tantos dos que foram nossos irmãos na jornada angolana.
Meus amigos: acho que valeu a pena começar! E chegar ao 1000º. post!!!
Um abraço para todos.
C. VIEGAS
(ex-furriel miliciano)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Os presos que foram soltos no aeroporto de Lisboa

Viegas e Neto, no jardim do Quitexe (1974)

Os Cavaleiros do Norte (do Quitexe) chegaram a Lisboa ao fim da tarde de 8 de Setembro de 1975, ontem se completaram 36 anos - regados de bom espumante e boas lascas de leitão à Bairrada. Pois não!!! E desfiámos muitas memórias. Uma delas, vejam lá, a de termos abandonado três presos, no aeroporto de Lisboa. 
A história vinha de horas antes, ainda em Luanda, onde a PM nos «entregou» um preso, militar, a cada um - a  mim, ao Neto e ao Mosteias. Algemados ao nosso braço esquerdo, cada um. Presos que tínhamos de, em Lisboa, entregar à PM - que, para o necessário efeito, o comandante do avião avisaria, uma hora antes da aterragem.
O «meu» preso, já na casa dos dos 27/28 anos, alentejano de não sei onde e cara de rufia, tinha estado detido na cadeia do deserto de Moçâmedes - que, lá por Angola e entre a tropa, era conhecida como o Tarrafal. Já de isto se imagina que não seria homem de ir à missa ao domingo. Vim a saber, metendo conversa com ele, já no avião, que tinha assassinado dois militares, graduados! A tiro! E isto dito da boca dele, com tal tranquilidade e crueza, fez-me crer, sem falta de convicção e sem qualquer dúvida, da brutalidade da rês.
Mas vamos à história.
Chegámos a Lisboa, desembarcámos, a malta pôs-se toda a dar o fora, correndo para todo o tipo de transportes, para casa, e nós os três, ali pespegados, de homens algemados aos nossos braços e nada de aparecer a PM. Aquilo era uma angústia.
Resolveu-se o Mosteias, sempre mais ágil que eu, e também mais que o Neto, para tudo o que fosse «desenrascar».
«Sabes onde fica isto?...», perguntou ele, ao preso dele.
«Isto» era o destino, o quartel indicado na guia de marcha do preso. Pois, que sabia, sim senhor - assim lhe respondeu o detido, ao Mosteias.
O Mosteias, do alto da sua envergadura física e mortinho, pela certa, por ir abraçar a mulher e o filho (que não via há um ano), olhou para nós, olhou para ele, pegou na chave, abriu a algema e mandou embora o homem, o preso dele!
«Vai-te embora, desaparece...».
E deu o homem de frosques, com a pressa toda que as pernas lhe deram.
Eu e o Neto, espantados, banzados..., olhámos um para o outro, para o Mosteias a dar-nos um abraço e a pegar nas malas, para os (nossos) presos e, vai daí, desenchavámos as algemas e mandámo-los embora. E eles foram! Até hoje

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Setembro, dia 8, anos de 1975 e de 2011...

Monteiro, Pinto, Neto, Viegas e Rodrigues, 5 Cavaleiros do Norte em Águeda, 36 anos depois, em 2011. Aos 59!!!


A 8 de Setembro de 1975, pegámos malas no Grafanil e fomos até ao aeroporto de Luanda, passando pelo terminal da base aérea. Por volta das 10 horas da manhã (ou pouco mais!!...), já no avião dos TAM, demos a última olhadela sobre a capital angolana, a aeronave fez o azimute para a Europa e lá viemos nós até Lisboa, onde chegámos ao fim da tarde. Ufff!!!!, até qu´enfim!!!
A 8 de Setembro de 2011, cinco Cavaleiros do Norte juntaram-se em Águeda, para saborear o leitão à Bairrada que por aqui se festeja (e come!!!) e, horas a fio, para falar de Angola, do Quitexe, de Zalala, de Aldeia Viçosa, de Santa Isabel, do Songo, de Carmona e de Luanda. E tantas histórias se contaram, quantas memórias foram avivadas, dos mil e um incidentes que fizeram os nossos 15 meses angolanos!!! Não houve espaço para outra coisa, com o espumante a regar a nossa sede física e a fazer desfiar memórias e o prazer de revivermos alguns dos anos melhores das nossas vidas.
O Pinto, mais irreverente (ao tempo e hoje), não se cansou de memoriar as suas aventuras: as de moto e as de carro, desenfiado de Zalala, de Vista Alegre ou do Songo, para Carmona.
O Rodrigues lembrou o "embarca-desembarca" que atrasou o regresso das companhias operacionais a Lisboa por duas semanas. Até que, ao comandante Almeida e Brito, bateram o pé, ameaçando tomar um avião de assalto. Acho que eram homens para isso!
O Monteiro, a contar a (quase) trágica viagem ao Negage, onde ia levar um capitão e um tenente do MFA. Viagem interrompida por acidente que levou os oficiais para o hospital. 
O Neto, a bater-se de igual para o comandante Almeida e Brito e a invocar-lhe o seu curso de «ranger´s», a propósito de uma norma regulamentar sobre fardamento. E as ironias relacionais com o tenente Mora. Dele e de todos.
Eu, a ouvir e a também não deixar por boca alheia o lembrar das nossas lendas - pessoais e colectivas.
Assim festejámos os 36 anos do nosso regresso de Angola! 

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O meu (antepún)último dia de Angola - 2

Igreja da Sagrada Família e maternidade de Luanda (à direita, casa de branco. Viegas e Resende na Ilha de Luanda (em baixo)


A quente tarde de 6 de Setembro de 1975 finou-se num instante, entre as muitas portas batidas nos muitos adros de Luanda: ora a despedir-me deste ora daquele, naquele adeus que se diz a correr como se fosse apenas até amanhã. E nós não sabíamos, ninguém sabia!!!, que amanhã teriam os que ficavam naquela balbúrdia de cheiro a pólvora que microclimatava Luanda.
O Neto, com outras vidas para o resto daquela tarde, largou-me na avenida D. João II (onde ficava o escritório da FRAL), para eu ir à messe de sargentos, nos Combatentes - onde me ia encontrar com o Albano Resende. Foi no Toyota dele, de azul claro, que viajei o resto da tarde pelo infinitos da enorme metrópole luandina, a distribuir os últimos abraços, a debitar os últimos «segredos» e conselhos, a deixar encher o bornal de mensagens para os familiares (daqui) daqueles (civis) que por lá ficavam a gritar contra o destino que lhe levedava constrangimentos e raivas. E ódios! E desejos de vingança! Porque, pelo menos aparentemente, a tropa portuguesa não protegia o que e quem devia, deixando fragilizar a segurança do património humano e material dos (futuros) retornados.
«Isto ... está a cheirar a esturro!!!..», disse-me o Albano, que, caustelosamente e com a família, já tinha mudado de um dos bairros novos da saída da cidade para Catete, perto do Jumbo!, para um prédio de apartamentos no centro de Luanda. Mais seguro, menos perigoso, na zona da praça de touros.
O Toyota comeu qulómetros pela cidade e fomos à Sagrada Família, perto do Hospital Militar, da maternidade e da Emissora Oicial de Angola - onde, sem resultado, procurei respostas à procura de mensagens dos amigos e familiares de Gabela e Nova Lisboa.

O reencontro com o Neto foi na hora de jantar, antes de voltarmos a Viana. Ainda lá iríamos dormir uma noite e, depois, dar a chave ao Gilberto. Foi quando, no regresso, o Neto me falou no que a família dele lá ia deixar: a FRAL Angola, fábrica do Grupo Neto que já laborava na Zona Industrial de Viana. Ainda passámos por lá, no pequeno Daihatsu, antes de voltarmos à última noite da casa de Viana! Era guardada por um angolano!
- FRAL. Ferragens Reunidas de Águeda, Limitada. A empresa industrial do pai de Francisco Neto. Instalava uma fábica em Viana e tinha escritório na avenida D. João II.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

O meu (antepen)último dia de Angola - 1

A baía de Luanda. Cúpula do Banco de Angola, à esquerda, e o porto, lá ao fundo (foto de Jorge Oliveira). Em baixo, entrada para a ilha

Viana, Angola, 6 de Setembro de 1975!
O calor de África abriu-se nas janelas gradeadas da casa de Viana, ainda não são 6 horas da manhã de domingo. Já ando a pé, como sempre mais madrugador que todos! Espreguiço-me, desfaço a minha antepenúltima barba da jornada que me levou por lá e saio, em passeio pelo descampado em frente. Dou uma volta, menos de uma hora, e volto a casa, onde encontro o Neto e o Monteiro de pé - este já aparelhado para a boleia do Grafanil, onde irá fazer algumas horas de secretaria.
É o nosso penútimo dia de Angola!
Vamos sair do campo militar na madrugada de terça-feira seguinte - a dia 8. Para o aeroporto de Luanda. Depois, para Lisboa!
As malas fecham-se, depois de arrumadas os últimos pertences, ficando de fora os de higiene pessoal: a lâmina de barbear, o creme, a escova dos dentes e o resto de uma lata de graxa líquida, até uma água de colónia que alguém me dera e eu nunca usei! Levarei isso tudo, depois, no velho saco da TAP, que ainda ali guardo no sotão.
As garrafas de wiskye, religiosamente guardadas e escondidas da nossa sede - como que delas fazendo espólio de guerra!!! -, estão arrumadas numa mala mais forte. Não vão elas partir-se, nas andanças e andarilhanças de aeroportos e bojo dos aviões. Num instante, o pequeno Daihatsu da FRAL, está cheio. Com as minhas malas, as do Neto, as do Monteiro. E aí vamos nós para o Grafanil. Lá as deixámos e seguimos para Luanda, para alguns dos últimos adeus ao chão que nos fez felizes e sofridos, homens de fome pelos prazeres da vida e solidários com quem por lá, mais próximo de nós, sentia das dores das dúvidas do futuro.
As malas lá ficaram, num espaço do batalhão de Intendência, à guarda do fiel Almeida, do generoso Leal, dos sempre voluntários Marcos, António e  Silvestre. O que será feito do Ezequiel Silvestre?
Já está próxima a hora do almoço e o pequeno  Daihatsu «voa» pela estrada de Catete. «Acabou, pá... Acaaaaaaaaaaaabou!!!....», cantarolou, ou gritou???!!!!, o Francisco Neto, de pé pesado no acelerador. 
Peço-lhe para parar no cemitério e vou pela última vez, naquele primeiro domingo de Setembro de 1975, visitar a campa do Zé da Rita, no cemitério de Catete! Seguimos para a baixa e almoçámos. Por muitos instantes, ficámos de olhos na baía, espairecendo o espírito e nela lavando a alma. Já tínhamos saudades daquela terra onde semeámos e colhemos sonhos, onde nos fizemos mais homens, mais companheiros e mais solidários. Onde amadurecemos ideias e aprendemos a amar a terra de Angola.
«Vamos à ilha?!...».
Fomos e vimos a cidade, do outro lado. Demos a volta e fomos para outros algures da cidade. A deixar «morrer» as últimas horas da nossa jornada africana.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Os dias de véspera de regressar a Portugal...

Gabela, centro da cidade, com a igreja em primeiro pleno. Mário Neves morava ali ao lado esquerdo

 
A 1 de Setembro de 1975 escrevia eu, em carta a minha mãe: «Isto, por aqui, não anda nada bom. Em Luanda, ou mais propriamente no Caxito, tem havido guerra da forte, entre MPLA e FNLA. Para o sul, então, em sido do piorio». Para o sul, na cidade de Gagela, estava parte da nossa família: o Mário Neves e o Clemente Pinheiro, com as respectivas famílias. E por lá estava, também, outra família conterrânea, a de Anaceto Melo. E de lá tinha saído, já, a de Rafael Polido e Cecíla, para Nova Lisboa.
Eu tinha estado na Gabela em Setembro de 1974 e Abril de 1975, recebido como príncipe, pelos meus familiares. E a preocupação, por eles, crescia todos os dias. Medrava, medrava, medrava!!!... - sem por eles nada poder fazer. Os contactos telefónicos eram dificílimos, se não impossíveis. Nunca consegui, de resto, chegar à fala com eles, nem mesmo depois dos apelos lançados na Emissora Oficial de Angola.
A epístola a minha mãe dava-lhe, porém, conta que eu, por Luanda, já nem ia ao quartel desde 6ª.-feira (28 de Agosto). «Isto quer dizer - explicava-lhe eu - que a guerra não tem sido connosco», referindo-me ao meu batalhão e, claro, a mim próprio. Assim procurava eu descansar-lhe as preocupações de mãe. Mãe recentemente viúva e com um filho na guerra. 
Não lhe furtando verdades, informava-a, porém, que «houve macas fortes na Gabela» - a cidade dos nossos familiares - e dava-lhe conta de que «assim que souber» lhe diria quando voltava. Eu j sabia, é verdade, mas queria chegar de surpresa. Para mão lhe alimentar ansiedades. Ou alimentar expectativas. E de surpresa lhe cheguei, às primeiras horas de 9 de Setembro de 1975.

domingo, 4 de setembro de 2011

Tempo de sofrer e de morrer, em Angola...

Bichas para a compra de bilhetes da TAP (em cima) e entrada do Campo Militar do Grafanil, em 1975 (foto de Jorge Oliveira) 

Ainda em (finais de) Agosto de 1975, já em tempo de corte dos dias do calendário para o nosso regresso, recebi  jornal de Águeda - onde me surpreendi a ler declarações do general Silva Cardoso, alto-comissário de Angola até dias antes, em Lisboa: «Porque já não acredito nos homens, principalmente nos políticos, aqui vim. Estou cansado da mentira, das falsas promessas, das atitudes de fachada. Venho cansado da miséria, de ver miséria, de ver ódio, de ver desespero. Venho cansado do egoísmo, da crueldade e da ambição desmedida». Assim mesmo, sem tirar nem pôr. Cruamente.
Não fugia à verdade, o general. Era isso mesmo que nós víamos por Luanda. Com outros olhos, quiçá menos responsáveis. Talvez menos sensíveis. Mas que viam o povo anónimo a sofrer e a morrer.
A amargura do genral Silva Cardoso foi mais longe, dirigindo-se aos «milhares e milhares de portugueses europeus brancos, escorraçados daquela terra, terra que já consideravam como sua Pátria». Portugueses que, frisava o general (ex-alto comissário), «perdendo tudo, deixando tudo, tiveram de se refugiar em Portugal».
Por estes dias e até Novembro de 1975, decorria já a ponte aérea que de Angola trouxe centenas de milhares de pessoas. E o que faziam os  Cavaleiros do Norte? Cumpriam as tarefas da guarnição, no Campo Militar do Grafanil e «laureavam o queijo pela cidade», a contar os dias. Com os medos e as precauções de ordem. Até 8 de Setembro e com um e outros incidentes pelo meio. 

sábado, 3 de setembro de 2011

O Garcia e o PELREC à procura dos Martins de Carrazeda

Viegas, Marcos, Pinto, Caixarias e Garcia (em cima), Leal, Moreira (TRMs?), Hipólito, Aurélio (Barbeiro), Madaleno e Neto, membros do PELREC

Trago aqui hoje uma parte do PELREC, em foto, para ilustrar uma história destes dias de Setembro de 1975, os nossos últimos de Luanda e de Angola.Um momento que tem a ver com o nosso saudoso (alferes) Garcia.
Já abundantemente por aqui foi falado sobre os dramas pessoais e familiares da população civil, inquieta e insegura com a situação que lhe pereclitava a vida, ante os permanentes conflitos que por lá se viviam e, nalguns casos, se sentiam em carne viva. E de eu mesmo, o mais que pude e soube, por Luanda ter procurado familiares, amigos e conterrâneos de quem se tinha perdido o rasto e temia pela vida. Não fui só eu a ter esse tipo de problemas e preocupações. Foi muita gente.
No Grafanil, alguém nos deu nota (a mim e ao Neto) da urgência do (alferes) Garcia em falar connosco. Falámos. O problema estava em ir localizar uns conterrâneos dele, de Carrazeda de Ansiães, que moravam na Vila Alice, bairro chic de Luanda, e onde tinham acontecido graves conflitos em finais de Julho.
Então, um jeep das Forças Armadas, com um sargento e condutor, foi interceptado e mandado parar por uma patrulha do MPLA. Identificados e autorizados a prosseguir, o sargento foi alvejado pelas costas logo que a viatura se pôs em marcha, tendo ficado gravemente ferido. O que motivou enérgica reacção do então alto-comissário, general Silva Cardoso. Viria a demitir-se.
Poupando a narrativa, o objectivo do (alferes) Garcia era ir descobrir a família Martins, que por lá morava e onde tinha lojas de moda (se me lembro bem). Conterrâneos dele, eram, não sei se parentes. Estão mortos, estão vivos, como é que estão?  Bem se pode imaginar a angústia da dúvida sobre o destino de amigos.
Queria saber deles, com a mesma dor de alma e nó na garganta de muitos de nós, pelas mesmas razões! Juntaram-se uns quantos «pelrec´s» e lá fomos, fortemente armados e em viatura militar, de olhos bem abertos, com todas as mobilidades e seguranças de quem sabe que está em ambiente de hostilidade e de guerra.
Achámos os Martins, para felicidade do Garcia! Que se ria rasgadamente, de alegria e de olhos molhados de felicidade. 
Mal sabia eu (só soube muito mais tarde e em Portugal) é que um deles era casado com uma aguedense e em Águeda se viria a fixar, depois da descolonização. É o Martins da Xitaca!
- PELREC. Pelotão de Reconhecimento, Serviço e Informação, atiradores. Era comandado pelo alferes Garcia.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Cartas de filho para mãe, a falar de amigos...

Estação dos CTT de Viana (2005), Rafael, Cecília e Viegas (a 14 de Abril de 1975), na Barragem do Quando, no Huambo

Acabo de reler uma carta minha, de 28 de Agosto de 1975, dando notícias de Luanda para minha mãe, longe ela de saber que a sua cria mais nova (eu mesmo) estava a dias de lhe chegar casa, ido da guerra.
Dava-lhe conta das minhas buscas, em Luanda, de conterrâneos nossos: a Cecília e o Rafael (em Nova Lisboa), o Mário e a Benedita, o Clemente e a mulher - estes em Luanda. Gente por quem ela e perguntara, em correio do dia 21.
Tenho esquecido este casal - o Clemente e mulher -  que me recebeu principescamente na Gabela, em Setembro de 1974, quando por lá viandei em férias. Pelos finais de Agosto de 1975, procurava eu um cunhado dele (irmão da mulher), de Viana do Castelo - que eu sabia viver perto do Benfica de Luanda, justamente para saber do seu paradeiro.
«Sei mais ou menos onde é e vou lá, a ver se me consigo recordar da casa. Depois digo alguma coisa», reportava eu, a minha mãe.
E dava-lhe notícias: a Fátima do Zé Bernardino já foi para Lisboa, a Benedita vai de avião no dia 30 e o Mário fica cá. De Rafael e Cecília, dava-lhe conta que não os conseguia localizar e que os procurava num programa da Emissora Oficial de Angola.
«Ainda ontem ouvi eu próprio esses apelos, duas vezes, uma às duas da tarde e outra às nove da noite», epistolava eu, na carta para a minha mãe. 
A Emissora Oficial de Angola, ao tempo, tinha um programa especialmente feito para lançar apelos, pedindo às pessoas para se localizarem. «É mais ou menos a dizer que preocupado com a falta de notícias deles, que agradeço que entrem em contaco comigo, pelo telefone 210 de Viana, ou então pela Emissora Oficial», expliquei na epístola enviada à autora dos meus dias.
O 210 era o telefone da Estação dos CTT de Viana, onde pessoa amiga se disponilizou para servir de eventual intermediária. Infelizmente, nunca fui contactado. Cheguei à minha aldeia a 9 de Setembro e eles tinham chegado uns dias antes, via Gabão - fugidos de Nova Lisboa por via aérea.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Dias de despedidas e de mesas sem pão...

O Pólo Norte, onde muito se comeu e algumas vezes se ficou sem... comer!

Furriéis Monteiro (à esquerda) e Viegas (á direita), rodeando os aguedenses Carlos Sucena e Gilberto Marques, na casa da Viana


Os últimos dias de Angola, com as precauções a que nos obrigavam os repetidos incidentes luandinos, foram, alguns deles, passados em momentos de despedida dos conterrâneos e amigos que pela capital faziam pela vida.
Os maus momentos da nossa jornada africana cada vez mais eram passado e se, por Luanda, nos preveníamos de armas (camufladas) para o que desse e viesse - e muita coisa se dava!!! - não é menos verdade que não me escapou um amigo com quem não tivesse um momento (por mais curto que fosse), ou uma refeição de despedida. Há 36 anos, neste dia 1 de Setembro, estávamos a uma semana de voar para Lisboa e apertava-se o tempo para esse adeus.
Amigos, dos bons!!!, eram o Carlos Sucena e o Gilberto Marques - que esta foto, tirada pelo Neto, mostra em confraternização de marisco e cerveja, na casa de Viana. Não exactamente do nosso último encontro, mas como mostra de como, por terras de Angola em guerra fraticida, os companheiros se davam de mãos e amizade.
Este dia, uma 3ª.-feira, foi de nova busca de gente conhecida no aeroporto de Luanda e, sem ninguém encontrar, de ida para a baixa - onde eu, o Neto, o Pires (de Bragança), o Cruz e o Rocha tentámos almoçar. Sem conseguir. Uns dias antes, acontecera o mesmo: depois da largo tempo em bicha, o Pires e o Rocha ficaram sem comida. Luanda estava sem abastecimentos e a população crescia. Era gente a mais para o pão que (não) chegava.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O Documento dos Nove assinado em Luanda

Os SUV em conferência de imprensa, a 6 de Outubro de 1975

O Documento dos Nove foi publicado no Jornal Novo a 7 de Agosto de 1975 e chegou-me às mãos duas semanas depois, enviado pelo Alberto Ferreira - já regressado a Portugal. Era, no fundo, um  manifesto de um grupo de militares (nove, daí o nome) contra a  corrente política que, ao tempo, levedava em Porugal e da qual nós, lá por Angola, muito pouco sabíamos.
O autor foi principalmente Melo Antunes mas também foi assinado por Vasco Lourenço, Sousa e Castro, Vítor Alves, Pezarat Correia, Franco Charais, Canto e Castro, Costa Neves e Vítor Crespo. Os nomes poucos nos diziam, à excepção do do próprio Melo Antunes, que, jornadeávamos nós por Carmona (Uíge), se deslocara a Luanda (ido de Lisboa) e proferira afirmações que fragilizaram (e bastante) a posição militar dos Cavaleiros do Norte.
Afirmações que desagradaram aos responsáveis da FNLA, que eram a força maioritária da província do Uíge. E que sustos apanhámos nós, por isso. E que ameaças tivemos, os Cavaleiros do Norte.
Tinha passado os olhos pelo manifesto publicado no Jornal Novo, em Lisboa, quando o recebi (enviado pelo Ferreira) mas desistira da leitura - por, pela minha medida daquele tempo, ser muito extenso e pesado. Mas fui lê-lo, quando se soube que, na Unidade, circulava um abaixo-assinado, justamento do Documento dos Nove. Associei a leitura às informações do Ferreira: expectro de guerra civil em Portugal, manifesfações atrás de manifestações, anarquia, forças armadas divididas e incapazes de manter a ordem pública, a criação dos SUV (uma organização de classe no interior das FA) e boatos atrás de boatos sobre golpes e contra-golpes. «Isto está insuportável, nõa se sabe o que vai acontecer...», dizia-me o (ex-cabo especialista da Força Aérea), em carta de 16 de Agosto de 1975, que acabei de reler.
O clima de insegurança desestabilizava toda a sociedade civil e os militares, divididos e quiça excessivamenet politizados,  manifestavam-se incapazes de assimilar as contradições de um pais que se fazia de novo.

O Documento dos Nove rejeitava «o modelo de sociedade socialista tipo europeu-oriental" e também a sociedade social-democrata, de alguns países da Europa Ocidental. Propunha, antes, um modelo socialista estreitamente ligado à democracia política. Linguagem que, na verdade, era excessivamente densa e impercebível ao nosso conhecimento. Estou em crer que toda a guarnição o assinou.
O Documento dos Nove pode ser relido AQUI.
- SUV. Soldados Unidos Vencerão, organização de classe, dentro das Forças Armadas, em 1975. Apresentaram-se encapuzados, em conferência de imprensa (foto). Ver AQUI
- FERREIRA. Alberto Fernando Dias Ferreira, cabo especialista da Força Aérea, em Luanda. Na altura, já na disponibilidade. Natural de Fermentelos (Águeda), já falecido,

terça-feira, 30 de agosto de 2011

O último comissário português de Angola



O almirante Leonel Cardoso no discurso da Independência de Angola


O almirante Leonel Cardoso foi nomeado líder da Junta Militar que assegurou a governação de Angola, a 25 de Agosto de 1975, em substituição do general Silva Cardoso. Chegou a Angola a 30 - faz hoje 36 anos. Assumiu o cargo de Alto Comissário, neste dia e viria a ser ele a fazer o discurso da independência, da parte portuguesa (foto).
Scorro-me do Centro de Documentação 25 de Abril, para lembrar que, por esse tempo de Agosto, «recrudescia a guerra civil em Angola» e que «a FNLA e a UNITA se uniram em diversas zonas do território». Por outro lado, «intensificou-se o retorno de nacionais vindos de Angola» - o dos portugueses que voltava à Europa. Há quem diga que foram 500 000 e, ainda segundo o CD25A, eram «cerca de 700 os retornados» que chegavam diariamente a Portugal, «através da ponte aérea estabelecida com Nova Lisboa». Vários países europeus e os EUA auxiliaram Portugal na organização desta ponte aérea e eu mesmo pude testemunhar, no aeroporto de Luanda, a situação dramática de milhares de populares que por lá faziam espera de «boleia» para Lisboa. Por lá andei, de resto e por mais de uma vez, a procurar familiares e conterrâneos de quem se ignorava o paradeiro.
A guarnição dos Cavaleiros do Norte riscava dias no calendário do regresso.Já decidido que a CCS viajaria a 8 de Setembro, voaram os companheiros de Zalala, Aldeia Viçosa e Santa Isabel nos dias seguintes. E todos nós tínhamos a noção do dever cumprido. Isto muito embora, como se lê no Livro da Unidade,tal objectivo nem sempre tenha sido «fácil de cumprir».

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O navio «Niassa« e o jeep do Machado...

Porto de Luanda e o navio «Niassa»

O capitão Oliveira tinha aquela «graça» de «simpatizar» comigo e com o Neto e destacou-nos para, com outros (o 1º. sargento Luzia foi quem nos foi «abrir» a porta ) irmos ao navio «Niassa» (foto), que estava estacionado no porto de Luanda, fazer a distribuição do pessoal que, do BCAV. 8423, partiria de Luanda para Lisboa, a 8 de Setembro de 1975.
E lá fomos! Foi nos últimos dias de Agostoe não gostámos muito do barco! Mas tinha de ser e, com alguém do «Niassa» (não me lembro bem como), ainda por lá andámos as ver porões e camaratas, cheios de papéis e de nomes na mão, para desarriscar do rol. Felizmente, a coisa deu para virmos de avião e, quando o soubemos, só não pusemos foguetes por não os termos. Entre 8/9 horas de avião e 9/10 dias de barco, não era preciso vir o diabo escolher.
Quem por nós decidira, decidira muito bem!
O Machado (que ontem fez 59 aninhos, festejados na sua casa do Gerez) também por lá esteve connosco numa das idas e, nessa, guiava um jeep militar. Decidimos ir almoçar para a Mutamba e metemos-nos ao trânsito da cidade. Que não era tão fluído assim e nos «enrascou». Melhor dizendo, «enrascou» o Machado - que se viu em palpos de aranha para fazer uma manobra, por falta de «bracagem» da viatura. Íamos fardados e fomos brindados com uma monumental assobiadela e um rol de nomes bem pouco simpáticos. A comunidade civil andava revoltada com a tropa portuguesa, não poupava quem visse de farda e insultava. Foram assim muitos dos nossos últimos dias de Angola, em Agosto e até 8 de Setembro de 1975.

domingo, 28 de agosto de 2011

Meses de Agosto(s) e os seus gostos...


Centro de Saúde (hospital) do Quitexe, em 2011 (em cima) e picada para Zalala (anos 70)
As semanas de Agosto de 1974, há 37 anos, foram de requalificação da rede estradal da zona de acção do BCAV. 8423. Já aqui falámos da itinerário de Zalala, mas no dia 26 começaram os trabalhos do acesso para a Fazenda do Liberato (na foto, de José Patriarca) e continuaram as da chamada estrada do café, em asfalto, entre Vista Alegre e Ponte do Dange. 
Ao Liberato, foi o comandante Almeida e Brito, em visita de trabalho à CCAÇ. 209, a 22 de Agosto. No mesmo dia, o mesmo fez à 2ª. CCAV. 8423, a de Aldeia Viçosa - comandada pelo capitão miliciano José Manuel Cruz. A 8, estivera em Zalala, na 1ª. CCAV. 8423, liderada pelo capitão miliciano Davide Castro Dias.
Por mim, estava en vésperas de férias - que me iriam levar em passeio por boa parte do território angolano - de Carmona a Luanda, Gabela, Nova Lisboa, Alto Hama,.Caala (Roberto Wiliams), Lobito, Benguela, Silva Porto, Moçâmedes e Sá da Bandeira, Novo Redondo e de novo Luanda. 
Um ano depois, já com muitas incidências passadas, fazíamos espera para o regresso a Lisboa, instalados no Campo Militar do Grafanil. E eu por lá cirandei (em Luanda), como todos os Cavaleiros do Norte, melhor conhecendo a cidade, da alta à baixa, à beleza da baía e da ilha, pela restinga; ou ao Mussúlo, aos bares da noite. Era o tempo de aventuras, esventrando-lhe os ninhos de festa e de prazer - já que éramos jovens de 22 para 23 anos, todos ávidos de vida e de alguma luxúria. Porque não dizê-lo?!

sábado, 27 de agosto de 2011

Os medos do Verão de 1975 em Luanda

Entrada do Campo Militar do Grafanil (foto de Jorge Oliveira)


Os últimos dias do Grafanil, campo militar nos arredores de Luanda, foram tudo menos normais. A guarnição dos Cavaleiros do Norte, a dias da data do regresso a Lisboa, fazia pela vida, sem actividade operacional mas todos os dias dando de cara com incidentes que iam roubando a tranquilidade de quem, indo no 15º. mês de comissão, o mais que queria era que chegasse o dia 8 de Setembro.
As comissões tinha sido reduzidas para este tempo, tendo em conta «as necessidades de responder aos compromissos tomados com os movimentos de libertação, no referente aos efectivos militares a estacionar em Angola», como se lê no Livro da Unidade. Por mim, fora dos compromissos que tinha de concretizar no BCAV. 8423, nas instalações do então já deslocado Batalhão de Intendência de Angola, no Grafanil, cirandava pela cidade de Luanda, essencialmente visitando conterrâneos que por ali se interrogavam quanto ao futuro próximo, entre a dúvida de ficar ou voltar para o «puto». 
O pequeno Daihatsu da FRAL (do Neto) era o transporte privilegiado e desses dias recordo uma azelhice automobilística minha, quando, ao volante do «mini», me aventurei na baixa da cidade e entrei em sentido proibido na rua da Portugália. Imaginem o «susto» do jovem furriel, encartado fazia poucos meses (de Carmona), quando se viu com todos os carros a «andarem ao contrário» e com o sinaleiro a apitar, a apitar... Que vergonha! E que medo!!! 
Ou, bem mais dramático, quando, no bairro de S. Paulo, fui interpelado por uma patrulha de independentistas, armados até aos dentes e que teimosamente não me queriam deixar passar, em pleno dia. Não foi fácil! Foi problemático. Tive medo!!!!
Notícias de Lisboa, via rádio, davam conta das labaredas revolucionárias que atropelavam a então chamada metrópole.
A 27 de Agosto (hoje se completam 36 anos), a Frente de Unidade Revolucionária (FUR), um dos muitos movimentos/partidos nascidos da revolução, promoveu, junto ao Palácio de Belém, uma grande manifestação de apoio a Vasco Gonçalves e a Costa Gomes. Ambos receberam os manifestantes com discursos mais uma vez com notórias diferenças de tom e de conteúdo. O Alberto Ferreira, cabo especialista da Força Aérea, já regressado a Águeda, dava-me conta do clima de pré-guerra civil que se vivia em Portugal. Era o verão Quente de 1975!




sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O Quitexe de hoje e a Luanda de 1975


Administração Civil do Quitexe e o antigo restaurante Pacheco (em baixo), o Quitexe de Agosto de 2011



O Quitexe de hoje não será muito diferente do do nosso tempo. Mantém-se a maioria dos edifícios que por lá conhecemos, em estados de conservação diferentes. 
A foto de baixo mostra-nos o que nos parece ser o antigo restaurante Pacheco (onde tantas vezes saboreámos boa cerveja, fresquinha e com pires de camarões a acompanhar). Ficava mesmo em frente à secrearia da CCS. A de cima, é o edifício da administração civil (assim se chamava no nosso tempo), no jardim público.
Agosto de 1975, por estes dias, já eram de preparação do adeus a Luanda e a Angola, preparando-se a viagem no «Niassa». Acabaríamos por viajar de avião, mas ainda chegámos a ver e visitar o navio no porto de Luanda - onde o capitão Oliveira nos mandou para marcarmos a acomodação dos praças. A 25, foi criada uma Junta Militar para assegurar a governação em Angola. A 30, o almirante Leonel Cardoso tomou posse do cargo de alto-comissário de Angola.
Por estes dias de 1975, no Grafanil, recebi correio de Portugal de minha mãe, pedindo notícias de um casal conterrâneo. Ver AQUI. Assim corriam os nossos dias da capital, fazendo tempo para o regresso, por entre incidentes que enxameavam a cidade e o futuro país. 

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O furriel Cruz já tem 60 anos!!! Sexagenário, pá!!!

Viegas e Cruz, de 1974 (em baixo) até 2011 (em cima)

O Cruz era o furriel mais velho da CCS, rádio-montador, e chegou a 2º. sargento miliciano. Foi meu companheiro de férias pelo chão angolano e, bebida a água do Bengo, ficámos amigos para a vida.  Por Lisboa, pelo Algarve e por Águeda nos temos encontrado muitos anos nesta vida que nos trouxe até hoje. As famílias ficaram amigas. São amigas. É daquelas amizades que se fazem na tropa e ficam para a eternidade.
A minha última ida à capital do antigo império «levou-me», inevitavelmente, ao contacto com o Cruz, com a grata coincidência de tal acontecer pelo dia dos seus (dele) 60 anos de vida! Eh pá, 60 anos!!!! Sexagenário!!!! Ou sexIgenário (com i...), para caricaturar este novo estádio de uma vida, que o (nos) levou à tal jornada africana que nos fez irmãos.
As horas foram curtas para tanta memória de Angola, deixando as nossas caras-metades perdidas para trás nas ruas da capital, da Portugália das Docas ou da Expo 98, o agora Parque das Nações.
Os 37 anos que separam as duas fotos mostram, também, o que mudou e não mudou nos dois então jovens furriéis: ambos mais fortes e pesados!! E mais velhos!!!! O bigodaço do Cruz mantém-se mas mais farto e abrancalhado. Como o cabelo. Eu, já de lábio superior desnudado - que só por aquele tempo «usei» tal aumentativo capilar. Mas de iguais gargalhada, à piada mais singular ou à memória mais remota de alguma historieca das nossas vidas militares de 1974 e 1975.
Ó Cruz, estamos velhos, pá!!!! Nenhum de nós se lembraria, há 37 anos, que nos encontraríamos no jantar dos teus 60!!! Vê lá tu como é a ida!!! E como foi bom termos sido Cavaleiros do Norte!
Ver AQUI

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O Quitexe nos dias de hoje...

Igreja (em cima) e Casa da Polícia do Quitexe (em baixo).
Fotos de Agosto de 2011, de Cecília Miguel. Clicar nas imagens, para as ampliar


Há notícia frescas do Quitexe, em forma de imagem. A gentileza é de Cecília Miguel, quadro da Mota-Engil, a trabalhar em Angola. Em cima, vê-se a Igreja do Quitexe, onde, no nosso tempo (1974/75) sacerdotou o padre Albino Capela. Em baixo a rua da enfermaria (que era casa azul, do lado esquerdo, encostada á casa de Alfredo Rei) e, em frente, também de azul, a actual Casa da Polícia Nacional de Angola. No nosso tempo de Cavaleiros do Norte, era a residência do comandante Almeida e Brito.
Identificando melhor o local, recordamos que para a direita (agora com uma placa de sentido obrigatório) começava a avenida, de duas pistas, com um separador ajardinado. A seguir e para  lado esquerdo da agora Casa da Polícia Nacional (direito, na foto), ficava a messe de sargentos e a  padaria, a messe de oficiais (com o bar dos soldados em frente, do outro lado da avenida), a casa dos furriéis, a secretaria e comando da CCS e, mais à frente, depois da rua para a capela, o edifício do comando do BCVAV. 8423, a parada, as oficinas, as casernas... Isto, portanto, do lado direito da foto de cima - a da capela.
Quantas vezes, nos dias e nas noites de luar de Angola, por ali passeámos saudades, conversámos futuros e discutimos a actualidade de então, somando dias ao calendário que nos separava do regresso a Portugal. Hoje, deixamos aqui esta amostra do Quitexe de hoje. Com saudosismo e paixão.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

A troca de escudos angolanos...

Nota de 1000$00 de Angola (1000 angolares). Nota-se a imagem do Almirante Américo Tomaz, Presidente da República a 25 de Abril de 1974

Os últimos meses da Angola de administração portuguesa foram de florescente crescimento do mercado negro cambial. Os escudos angolanos (os angolares) não tinham cotação em Lisboa e quem tinha deste dinheiro (os residentes angolanos) procurava trocá-lo na baixa de Luanda, normalmente com militares: uns em câmbio directo; outros, dando angolares em Luanda, para receberem escudos em Portugal.
As transacções chegavam a atingir números verdaeoraete astronómicos: um angolar podia «valer» três, quatro, cinco, dez, cem vezes mais. Era câmbio directo.
Arranjar escudos de Portugal era, na realidade, absolutamente, vital para muita gente. E quem os tinham eram os militares. E eram os civis a quererem «comprar» o dinheiro, não se importando de dar o que lhes fosse pedido. Ou importanto, mas sem isso lhes valer alguma coisa. Na verdade, mais valia ter um conto de reis (mil escudos) em moeda do Banco de Portugal que um milhão em notas do Banco de Angola - os tais angolares.
Algumas vezes resisti à tentação de «negociar» esse dinheiro e, pelo menos por uma, tive sério inconveniente com um civil - que, perto da Portugália, a todo custo queria trocar dinheiro. Chegou a esboçar uma agressão, à mistura com o chamamento de nomes que não honrariam minha mãe e mulher (se a tivesse). Compreende-se: era o desespero de quem se sentiam abandonado e procurava trazer no bolso alguma da riqueza que por lá teria feito. As notas do Banco de Portugal eram a sua melhor bagagem.