domingo, 21 de agosto de 2011

O «sô» António Cabrita, do Quitexe a Cascais...


Cabrita e Viegas, em 1974 (Quitexe, em baixo) e Agosto de 2011 (baía de Cascais)


Há dias, reencontrei-me com o «sô» Cabrita. Estava eu ali a dois passos do habitual pouso dele, na baía de Cascais, passava pela hora do almoço e nada melhor que telefonar-lhe. Reconheceu-me logo, minutos depois já estávamos juntos e tagarelámos sobre o Quitexe e a tropa. Conversa fatal como o destino...
O «sô» Cabrita era, seguramente, o militar mais genuíno da guarnição dos Cavaleiros do Norte, no Quitexe. Sem especialidade, sem entrar nas escalas de serviço, sem se incomodar com cousa alguma, passeava-se pelo aquartelamento e pousava muitas vezes na casa dos furriéis, de quem era  uma espécie de impedido. Digo eu!!! Mas um «impedido» sempre desimpedido, sempre disponível para tudo.
A vida do Quitexe levou-me a ser o «escrevinhador» oficial do namoro que então fez com a (ainda hoje) mulher dele, em confidências que me tornavam escravo da minha palavra com ele. Eu tinha de ouvi-lo, desenhar no papel as letras da paixão que me descrevia e ser-lhe fiel e confessor. Depois, 20 anos depois, quis conhecer-me a mulher de Cabrita, como (AQUI) já descrevi. E tempo houve em que o «sô» Cabrita me procurou, através de um programa da SIC.
Agora, neste verão que corre de 2011, falámos e passeámos pela baixa de Cascais, narrando intimidades familiares e evocando os tempos saudosos de 1974 e 1975, quando jornadeámos, jovens e ambiciosos, por terras do Uíge angolano.
Esta bem de vida, o «sô» Cabrita, fazendo vésperas para a reforma e continuando pescador no mar de Cascais.
«Doem -me as pernas, já não me seguro bem no barco.., ando nisto há 40 anos anos, sô Viegas...», disse-me ele, explicando-me o desejo de antecipação da reforma.
Isto, é a pesca!!! Ser dono de uma barco, era, em 1974, a sua maior ambição. Dono e arrais. Para isso, precisava do exame da 4ª. classe. Por isso, andou nas aulas regimentais e lá o fez.
Aquilo é que eram tempos, «sô» Cabrita. E lembra-se das semanas de Luanda?. O «sô» Cabrita lembrava-se muito bem.
«Aquilo foi bravo!..., mas voltámos todos...», disse-ele, com o imperdível sotaque algarvio a cantarolar-lhe as palavras, rasgando o sorriso, quase de orelha a orelha, feliz, feliz, feliz..., mas sempre tímido e confiante. Era assim o «sô» Cabrita. É assim!
Ver AQUI.

sábado, 20 de agosto de 2011

Encontro dos Cavaleiros de Aldeia Viçosa

Soldado condutor José Nunes, organizador do Encontro 2011

A 2ª. Companhia de Cavalaria do BCAV. 8423 vai reunir a 24 de Setembro, em Leiria. Não vai falta entusiasmo e memória, para se continuar a fazer a história do grupo que, formado em Santa Margarida, foi a Angola, em 1974/85, participar num momemto histórico da nova pátria, por terras do Uíge.
O organizador é José Nunes (foto), que por lá foi condutor, e a concentração será pelas 10 horas, na fábrica de cimento SECIL, na Maceira (mesmo ao lado da cidade). O programa continuará e culminará com o almoço no restaurante O Casarão.
A 2ª. CCAV. era comandada pelo capitão miliciano José Manuel Romeira Pinto da Cruz. A guarnição incluía os alferes milicianos Machado, Periquito, Carvalho e Capela, o 1º. sargento Norte e os furriéis Cruz, Ferreira, Martins, Mourato, Matos e Brejo, Melo, Letras, Ramalho, Costa, Gomes, Guedes, Rebelo e Chitas. O grupo de praças era formado por cerca de uma centena (93) 1º.s cabos e soldados.
Os «cavaleiros» interessados em participar, poderã contactar o Nunes - através dos telefones 244 771 597 e 96 512 0114, ou ainda pelo email davidvitorino@live.com.pt.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Um boato e ameaças de processo judicial...

Viegas e Pires (de Bragança) nas escadas das traseiras da messe de Carmona 


Há dias, em Bragança, estive com o Pires - que goza a sua reforma e se privilegia com os ares transmontanos. Eu e ele (de barbas), somos os dois jovenzinhos da foto, que tem já mais de 36 anos e foi tirada nas escadas da messe de sargentos, em Carmona, no Bairro Montanha Pinto.
A tropa, inevitavelmente, foi o tema de dois dias de conversa - recordando-se situações e nomes da nossa jornada angolana, que passou pelo Quitexe, por Carmona e por Luanda.
A «histórica» saída à aldeia do Dambi Angola veio à baila (ver AQUI), assim como a conversa de pé de orelha (e bem pouco simpática) que eu tive com o comandante Almeida e Brito, que me pedia contas por, alegadamente, dele eu ter dito que seria preso quando a Lisboa viesse de férias. Por ele ser um oficial fascista.
Chamado por ele, ao seu gabinete do Quitexe, senti-me acossado e recorda-me o Pires que reagi com pouca simpatia para com Almeida e Brito: «Processo judicialmente seja contra quem for que me acuse de tal...», disse-lhe eu. Meio violento, determinado. imperativo, sem medo.
À distância de quase 37 anos (isto aconteceu nas vésperas do Natal de 1974), recordar uma singular situação como esta não deixa de nos fazer sorrir. Era a juventude e a irreverência a darem pé ao meu protesto, a uma injustiça que se fazia contra mim, pela mão de alguém que me seria pouco grato e me acusava de uma inverdade. Um boato!
Anos mais tarde, em Coimbra, onde foi 2º. Comandante da Região Militar Centro, falei ao então brigadeiro Almeida e Brito sobre a origem desta história. Mas ele sorriu-se, desviou a conversa para os lendários e dramáticos últimos dias de Carmona e... e vou morrer sem saber quem criou o boato. Mas lá que desconfio, desconfio!!! Ainda hoje.
Ver AQUI.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O furriel Teixeira das transmissões

Casal e furriel Teixeira, no Quitexe (1973)

ANTÓNO CASAL FONSECA
Texto

Andava aqui às voltas com as fotos do Quitexe e retive uma, por alguns minutos. Caramba, o “meu” furriel de transmissões a posar a meu lado?!

Além de ser, para mim, uma pessoa com características muito especiais, principalmente pelas razões que em tempos aqui descrevi, foi também a pessoa que um dia me surpreendeu ao dizer-me: «Sei que és meu amigo, portanto ouve-me se tiveres um bocadinho»! E eu ali fiquei, com todo o tempo do mundo, no papel de confessor, meio atrapalhado, assim… sem mais nem menos! E chorou! Chorou convulsivamente! A razão, não a posso nem devo aqui revelar, mas se me ler, e eu espero que sim, ele saberá bem do que falo. E bem melhor que eu!
Como ele sempre fez questão de frisar, sem a ninguém guardar segredo, era de uma família muito humilde, e por ela deixou o Seminário. Dizia-me que o que mais o amargurava era não poder estar junto dos irmãos, não tanto pela saudade mas pelas necessidades que lhes adivinhava. Sempre entendeu ser uma injustiça a sua mobilização, quando tinha tanta gente para cuidar. Pois tinha, «como tantos outros, milhares...», - fazia-lhe eu ver para lhe atenuar o desassossego!
As férias, pelas quais tanto ansiava, foram passadas no Quitexe, da maneira mais simples que se possa imaginar.
«Gostava de ir ao puto como alguns vão, mas não há taco!...”, disse-me mais uma vez com a voz embargada e os lábios a tremerem-lhe!
Pois…, ele bem queria, e até sei que precisava, mas não podia mesmo! As férias não passariam do Quitexe, tirando duas ou três deslocações a Carmona, mas sem se estender nos gastos. E era a retenção de gastos, uma das razões porque raramente tinha a companhia dos colegas furriéis, segundo me dizia com ar algo desgostoso! Muito desgostoso mesmo, mas camuflado (mal) pelo seu sorriso franco que o tornava, penso, mais vulnerável.
E era verdade, não precisava de mo dizer! Infelizmente!
A muito custo lá me pediu a máquina para tirar meia dúzia de fotos nas férias, mas fez questão de tirar esta comigo.
“É para um dia, quando eu morrer, te lembrares do teu furriel!...”, disse-me, com um sorriso amarelo e com ar de quem tinha dito a maior piada do dia! Mas não morreu, felizmente, e, tanto quanto sei, continua bem vivo e de boa saúde na casa que o viu nascer, em terras transmontanas!
Munido de máquina fotográfica, lá foi com um companheiro até Carmona, disposto a “arrasar”. «Vais ver pá!!!...». Mas começou mal!..., da pior forma possível! Com tantas mulheres jovens e bonitas na cidade, logo havia de deitar o olho a um borracho…casado!
«Tive azar pá…como é que eu sabia que era casada?..., não podia adivinhar…são todas iguais»!, desabafava ele, já no Quitexe, e inteiro de corpo porque fora salvo pelo Palma “candongueiro”, o guarda-costas do comandante!
«Qualquer manguelas, a milhas de distância, vê a pinta da fêmea…tá lá tudo escrito…ali!...», opinava de cigarro no canto da boca retorcida de tiques, o Martins do Cais do Sodré! Com esta do “tudo escrito” é que o furriel se baralhou! ~
«Se quiser umas explicações sobre mulheres venha ter comigo…mas paga bem…», insistia ele no seu discurso de presunçoso “matador”!
Não perdeu tempo, o furriel, a tentar decifrar o discurso demasiado gasto e, também por via disso mesmo, já despido de toda a graça!
Serenamente e num jeito educado que sempre lhe foi peculiar, lá foi cumprindo a sua obrigação, sem grandes alardes nem conquistas amorosas mas, ao contrário do Martins do Cais do Sodré, não viu posto em causa o seu regresso à então Metrópole! Pois é, um verdadeiro (g)aranhão não se deixa envolver na teia que tece!...
Agora, que tenho saudades do meu furriel Teixeira…lá isso tenho! É verdade!..., o que é que eu hei-de fazer?!
ANTÓNIO C. FONSECA







quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O 1º. sargento Fernando Norte, de Aldeia Viçosa


O 1º. sargento Norte secretariou a 2ª. CCAV., a de Aldeia Viçosa, «inteiramente dedicado ao seu serviço (...), de irrepreensível aprumo, disciplinado e sabendo exigir, sem que isso constituísse entrava a sempre estar pronto a compreender os seus subordinados», como de lê no louvor publicado na ordem de serviço 174.
Achou-me por Águeda, no anos 80, quando passou pela Escola Central de Sargentos (ou talvez já o Instituto Superior Militar), onde frequentou o curso de acesso a oficial.
Em 1994, esteve no 1º. Encontro do Batalhão (foto), em Águeda.
A sua última jornada angolana, como «precioso auxiliar do seu comandnate de companhia», justificou um louvor, que destaca uma dedicação que «não olhou a esforços», nela colocando «elevado sentido de responsabilidade», facto que «rapidamente o creditou como sério e leal colaborador».
O louvor do Comando Territorial de Carmona, por proposta do comandante Almeida e Brito, sublinha ainda «a firmeza e interesse pela função militar, educação, correcção e prontidão» para «cumprir qualquer missão que lhe fosse exigida».

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Carta de um artilheiro de 75 anos aos Cavaleiros do Norte


Caros Camaradas
Cavaleiros do Norte:



O signatário deste comentário foi, no período de 1965/67, furriel do QP de Artilharia e, posteriormente, 2º. sargento, fazendo parte do QO da CART. 785, do BART. 786, que inicialmente foi colocada na Fazenda Liberato, depois em Santa Isabel e, na parte final da comissão, novamente no Liberato.
A nossa comissão no Sub-Sector do Quitexe, Sector de Carmona, foi uma duríssima provação de dois anos de operações intensivas, em que éramos utilizados por todas as cadeias de Comando, pois tínhamos que fazer serviços operacionais desde o escalão Companhia, passando pelas do Batalhão, do Sector e até ao nível das da RMA.
Éramos um "pau para toda o obra" e não nos pouparam em nada. Para fazerem uma ideia do real panorama que tínhamos pela frente, basta dizer-vos que, em muitos meses do ano, muitas, mas muitas vezes mesmo, papávamos 21 rações de combate, tipo EE, reforçando este quadro, ainda recordo o discurso feito na Unidade de Mobilização, pelo n/ 2º. Comandante, no fim da comissão:
"O nosso Batalhão, nos seus dois anos de missão, realizou trabalhos que um só homem levaria, sem parar, 44 anos a realizar".
Ao ler alguns "posts" do v/ blogue, reavivaram-se todas as imagens que, desde aquele tempo, me ficaram gravadas na memória e que estavam em stand by. Memórias de uma vida dura, cheia de riscos, em que palmilhámos difíceis itinerários com destino a diversas serras: Vamba, Quitoque, Pingano, Uíge e Quivinda e ainda os vales do Luége, Vamba, Loge, Dange, Sanda, etc., etc.!..., que configuravam o nosso calvário.
Mas, por incrível que pareça, há um estranho sentimento de saudade desse temmpo, não das circunstâncias em que se vivia e viveu, mas da camaradagem, espírito de corpo e amizades que se cimentaram e mantêm até hoje e que, ainda hoje, fazem com que os elementos dessa força expedicionária se reúnam em convívios anuais regulares.
Hoje, sou Sargento Ajudante de Artilharia, aposentado, já com os meus quase 75 anos, doente coronário (fiz um bypass em 1989), diabético insulino-dependente, mas espero ainda este ano ir encontrar-me, pela primeira vez, com os meus camaradas dessa memorável expedição a Angola e ao Quitexe.
Sem mais, os meus cumprimentos para o blogmaster e colaboradores dos Cavaleiros do Norte, assim como para todos os elementos do vosso BCAV., do camarada,
OCTÁVIO BOTELHO
(na foto)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Fumar e desenfiar, em horas nocturnas e de serviço...

Aeroporto de Carmona (foto de Jorge Oliveira)


Rodolfo Tomás
Texto

O aeroporto de Carmona foi local de uma experiência pessoal que eu diria quase única. Só conto agora, porque só a esta distância no tempo (36 anos), tenho finalmente a noção do perigo e da temeridade cometida.
Fui destacado, com outros colegas, para fazer segurança noturna ao aeroporto de Carmona. Nesse tempo fumava(!), e não é que eu andei a passear pela pista e a fumar descontradidamente, com os projectores apontados à pista? Fui, sem dúvida, um alvo fácil mas felizmente sem consequências.
Isto faz-me meditar sobre quantos de nós não cometeu erros de "palmatória", ao longo do serviço militar - ou nas nossas vidas. Apesar de tudo tivemos muita sorte, com erros flagrantes e imperdoáveis.
Angola, faz-me recordar caçadas nocturnas, que tanto nos enstusiasmavam. E passeios de mota até Carmona, de noite e desenfiados, sem ninguem saber!...
Felizmente, ainda está muita gente por cá para contar em primeira mão como fizeram tais aventuras.
Saudades... Éramos mais novos. Mas estas coisas não esquecem, vivem na nossa memória.
RODOLFO TOMAZ

domingo, 14 de agosto de 2011

Picadas, estradas e segurança dos centros urbanos


Agosto de 1974 foi tempo, na área do Quitexe, para «arranjos da rede estradal», a cargo da JAEA, com protecção de escoltas da tropa portuguesa. O itinerário para Zalala - a infernal picada desta fazenda, onde se quartelava a 1ª. CCAV. 8423 - foi concluído a 23. Era uma tarefa sumultâneamente folgada e perigosa.
Folgada, porque, na prática, era um dia de descanso para a tropa. Perigosa, porque a vigilância obrigava a cuidados permanentes, não fosse o IN espreitar e disparar, a... matar. Nunca nada de especial aconteceu, felizmente.
A 14 de Agosto,  e porque «foi noticiada a intenção de recrudesciento de actividade» do IN (leio no Livro da Unidade), «fizeram-se remodelações temporárias, com vista a garantir a eficiência das actuais missões prioritárias das NT» - que vinham a ser «a segurança dos centros urbanos e a liberdade dos itinerários».
A 26, começou-se o arranjo da picada para o Liberato e, por este tempo, iam continuando os arranjos do troço asfaltado de Vista Alegre a Ponte do Dange, na chamada estrada do café - que ligava Carmona a Luanda.
Um ano depois (1975), em Luanda, somavam-se as véspera do regresso a Portugal.
Os Cavaleiros do Norte aquartelavam-se nas anteriores instalações do Batalhão de Intendência de Angola, no Campo Militar do Grafanil, e iam fazendo pela vida. Que não se punha fácil! O BCAV. 8423 era uma espécie de «anjo mau» das Forças Armadas Portuguesas - já o último com educação militar pré-25 de Abril e obrigado (sem quaisquer constrangimentos) aos deveres da disciplina e da honra militares. Que, nalguns momentos, tão úteis nos foram.
- JAEA. Junta Autónoma de Estradas de Angola.
- IN- Inimigo.
- NT- Nossas Tropas.


sábado, 13 de agosto de 2011

Os auto-bancos de Angola...


Amigo e conterrâneo meu, em Luanda - de quem tenho esquecido falar... - era também o Santiago dos Reis, por lá gerente bancário e corredor de automóveis. Nomeadamente, em ralis do BCA.
Por duas ou três vezes o tinha procurado, sem que a sorte me ajudasse, até que lhe tomei o gosto, em Agosto, quando finalmente localizei numa das duas agências bancárias que dirigia, creio que na Vila Alice.
Ao tempo, novidade aos meus olhos, para mim e para (quase) todos portugueses europeus, era o auto-banco. Havia um na baixa, na marginal (creio que na zona frontal ao Pólo Norte), que me despertava curiosidade: os automóveis paravam, os condutores depositavam papéis (assim me parecia) e lá iam à vida deles. Explicou-me Santiago dos Reis o funcionamento do tal de auto-banco: uma grande novidade, que acelerava e simplicava operações operações. Até para levantar dinheiro. Era coisa extraordinária! Havia mais na cidade (como este da foto, creio que na Maianga) e muito utilizados.
Portugal europeu, ao tempo, não teria este tipo de serviços. Ou pelo menos na província. Recordo-me de ver um, anos depois, em Aveiro, na avenida Louenço Peixinho. Angola, andava anos à frente!
Pelo Grafanil, o BCAV. 8423 contava os dias para o regresso a Lisboa, marcado para 8 de Setembro, no navio «Niassa». Ao tempo, num ambiente de desorganizaão e instabilidades visíveis, o batalhão fazia serviços internos e cumpria «missões como unidade de reserva da RMA».

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O Jumbo de Luanda na Estrada de Catete


Os hoje vulgaríssimos super(hiper)mercados (ou grandes superfícies) que enxameiam o país, como «catedrais de consumo», já existiam em Luanda em 1975. A foto mostra o Jumbo, na estrada de Catete - onde, com o Neto, fui «conhecer» como era, num dia de Agosto desse ano! Impressionei-me!
A ideia, se me lembro bem, era «importada» do Brasil (do Grupo Pão de Açúcar) e, como se vê pelo estacionamento e vultos de pessoas, era bem afreguesado. Muito afreguesado!!! Por perto, ficava a 7ª. Esquadra da PSP e o Bairro Popular 3. Mais à frente, o Campo Militar do Grafanil e Viana!
Coisa que me impressionou, foi a imensidão de artigos expostos para venda: milhares e milhares! Até um stand de automóveis! Era um mundo completamente novo para mim e para quem o visitava. Imenso e deslumbrante. Lembro-me de por lá ficar parado, a ver as pessoas a sair com os carros das compras cheiinhos!...  Até pode parecer saloio dizer isto, mas falamos de há 36 anos. No Portugal europeu, ainda não se falava em superfícies comerciais desta dimensão! Lá comprei umas calças castanhas, calças quase à bica de sino e que foram arranjadas pela senhora da loja, pois não apreciava tanta largura na baínha. Foi também por ali que, a 30 de Agosto, fui «perseguido» por um grupo de Pioneiros, crianças/adolescentes armados que formavam o chamado Poder Popular. Foram momentos aflitivos. Ali por perto, uma (ex)sede da FNLA estava parcialmente destruída, depois dos incidentes militares do mês de Julho.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A alma gémea e os 3 ranger´s de Viana...

Correios de Viana (Angola), em foto de 2005



A estação dos Correios de Viana, muito perto da casa onde morámos (eu, o Neto e o Monteiro) no mês de Agosto e até 7 de Setembro de 1975, foi espaço de larga frequência do trio, atraído por beleza angolana que por ali parava. Telefonar para Portugal foi a razão de uma primeira visita. Depois, eram os selos, depois mandar as cartas, depois... era querer mesmo ir lá! Era meter paleio!
A idade e os sonhos dela (da idade), tudo faziam «adivinhar»! E, depois, era o cheiro de Angola, a sensualidade que se respirava, a atracção que se metia pelos olhos dentro. Eram lindos aqueles tempos!!! E paradoxais: por um lado, a guerra. A guerra mortal e sanguinária, que espalhava e multiplicava lutos! Por outro, o romantismo de quem sonhava noites de luar, de amor e de cio, no calor angolano!
A coisa esteve enrabichada e chegou a meter visitas e jantares na casa de família: família de gente da nobreza local, endinheirada e aburguesada! E gerou alguma ciumeira entre o trio, cada qual se querendo fazer mais cúmplice da mulher que não era de cor de ébano nem europeia, mas enchia os olhos e a alma de desejos.
Não me lembro do nome, do nome dela - que era tratada por diminutivo.. -, mas tinha olhos grandes e curvas de volúpia,  era gentil e apetitosa, de voz doce e meiga, mais velha umas pouquinhas primaveras mas com a jovialidade a saltar-lhe do corpo, as medidas a fugirem-lhe da roupa curta que nos tapava tentações!
Julgo que morará por Coimbra e tem agora mais de 60 anos! Ler-nos-á a «alma gémea» de Viana? E lembrar-se-á dos três furriéis ranger´s de Viana?

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Os dias das Viana´s, aos 10 de Agosto....

Carlos Sucena e Gilberto Marques (amigos aguedenses) e furriéis Viegas e Neto, em Viana de Angola (a 10 de Agosto de 1975)

A 10 de Agosto de 1975, na casa angolana de Manuel Cruz, em  Viana, «emprestada» por Gilberto Marques, juntaram-se quatro amigos de Águeda: para uma mariscada. As dificuldades de alimentação eram evidentes (como por aqui já dissemos) e nada melhor que a solidariedade e a mão dada de quem por lá bem conhecia os caminhos e ementas: o Gilberto.
O dia era domingueiro e tinha sido passado a laurear o queijo pelas praias da ilha de Luanda, com o Albano Resende, com almoço mesmo assim refastelado no Amazonas, visitas apressadas a alguns conterrâneos civis -  os outros Resendes, o Zé Martinho (na PSP, estava de serviço), a Cândida, e um momento de reflexão e oração no cemitério de Catete, junto à campa da Zé da Rita - que eu não conheci e deixou viúva Bernardete, ainda hoje minha vizinha e amiga.
Eu não sabia, mas nesse mesmo dia, indo e estando eu na Viana da Angola, estava a ser tio do meu terceiro sobrinho: a Marta. Que nascia em outra Viana. A do Castelo. Soube dias depois, por aerograma da minha irmã Ana Maria - a mãe!
O dia da Viana angolana, melhor... a noite, foi de festa e comezaima na casa de Manuel Cruz, nesse 10 de Agosto de 1975. Noite bem regada de cerveja e com os entusiasmos juvenis de quem, aos 22 anos - e gente como nós!!!!, irreverente, ambiciosa e com sentido de missão cumprida!!! -, esperava o passar dos dias para abandonar a guerra e regressar aos chão das suas terras e aos colos dos seus afectos familiares.
Luanda explodia, por esse tempo: as noites (mesmo os dias) medravam em ambientes pesadíssimos e envolvidos pelos sons de tiroteios dispersos e do deflagrar isolado de granadas e morteiros. Era muito vulgar ouvirem-se rajadas nocturnas e levedava o medo de circular pelas ruas. O estrondo das granadas ou os tiroteios de armas automáticas enlutavam os medos que cresciam e a tropa não era tida em boa conta - acusada, pelo povo europeu, de apoiar o MPLA.
«O que é que isto vai dar?...», era pergunta, repetida e sem resposta, dos civis mais próximos de nós. Muitos deles a decidirem-se já pelo que não imaginariam semanas antes: regressar a Portugal. O êxodo! O êxodo que viríamos a conhecer como movimento dos retornados. 

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Saudades de Angola!...

Largo da Mutamba (Luanda, 1974/75), outro espaço de culto da tropa portuguesa


RODOLFO TOMÁS
Texto

Como é bom falar destes nomes todos: Portugália, Mutamba!!! Ai, ai, ai..., não há lenço que chegue. Lembro-me, a propósito, de mais uma aventura da CCS em terras africanas.
Estávamos no Grafanil quando, num belo fim de tarde, apareceu na caserna da rapaziada da CCS do BCAV. 8423 um condutor (?) e disse alto e em bom som:«Malta, quem quiser ir a Viana jantar venha comigo».
Muitos de nós ficamos a pensar: onde será que ele nos leva? Foram apenas alguns, muitos outros ficaram pensativos e com receio, eu fui um deles. No outro dia, tambem alinhei. O transporte era feito por um "belo" autocarro, ao qual já não estávamos habituados, por causa dos bancos e suspensão, mas sem luzes.
Tudo ao molho e fé em Deus.
À entrada de Viana havia umas bombas de gasolina que também tinham um restaurante. Não íamos mais longe, era mesmo ali que matávamos a fome, pois o rancho era quase impossível. Era comida liofilizada, diziam eles. Ou seja, era preciso pôr de molho todos os condimentos para crescerem no tacho.
Ainda se lembram?
RODOLFO TOMÁS

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Os dias de Luanda, em Agosto de 1975!

Largo da Portugália (foto de Henrique Oliveira), local de «culto» da tropa portuguesa


A Luanda dos dias de Agosto de 1975 era de ferro e fogo e sucediam-se os «ataques» entre elementos dos movimentos. Os que tinham, ficado, depois da chamada Batalha de Luanda, a 9 de Julho - «ganha» pelo MPLA, que escorraçara a FNLA e a UNITA da capital.
A violência e insegurança alastravam pela cidade e não era raro os próprios militares portugueses serem alvo de intervenções menos ortodoxas. E começou a faltar comida. Cito o general Gonçalves Ribeiro, no seu livro «Vertigem da Descolonização»:
«A Cruz Vermelha Internacional já, desde fins de Junho de 1975, fazia distribuição de grandes quantidades de alimentos e também vestuário e medicamentos a habitantes dos musseques, a desalojados e a hospitais, socorrendo-se de pessoal voluntário que minha Mulher integrou, acompanhada de Luísa Cardoso, Teresa Almendra e Maria da Piedade Alves Cardoso, até à partida para Lisboa.
A população portuguesa vivendo, como a esmagadora maioria dos angolanos, num meio de insuportável violência e de todos os desmandos que lhe estavam associados, passou também a sentir carências de toda a ordem até ao limite da falta de alimentos. Com o quotidiano devastado, refeições esporádicas e esperanças anuladas, aquela comunidade começou a sentir-se enclausurada, em especial nas terras do interior, e deu início a um movimento sem retorno quer para Luanda, na procura de avião ou barco, quer para fora de Angola».
Estes sentimentos eram manifestados por amigos nossos, civis. E nós próprios, militares, sentimos os perigos da insegurança urbana e a escassez de alimentos. Nesta altura, e já desde Carmona, corria por nossa conta (sargentos e oficiais) a alimentação - ainda que abonada. Não houve restaurante que não corressemos, em Luanda, á procura de almoço ou jantar.
Um dos locais preferidos era a Portugália, restaurante da baixa de Luanda, ao lado do Jornal de Angola. Na zona havia outros locais de «culto» da tropa: o Paris Versailles, Pólo Norte, Amazonas, Baleizão, a Biker, a Mutamba, entre outros.

domingo, 7 de agosto de 2011

Os Cavaleiros do Norte no Grafanil, Viana e Luanda



A epopeica coluna militar do BCAV. 8423 chegou ao Campo Militar do Grafanil no dia 6 de Agosto de 1975 (ver DAQUI a AQUI), fez ontem 36 anos. Tinha saído na madrugada do dia 4, uma 2ª. feira, e esta chegada foi emotiva para todos.
A CCS, mais afortunada quanto ao meio de transporte (de avião, no dia 3, domingo), tinha preparado as instalações para os valentes e generosos companheiros da 2ª. e da 3ª. CCAV´s (e alguns militares da CCS). Instalações no Grafanil, achadas em mau estado: sujas, dessanitarizadas, imundas. E bem mereciam eles que estivesse limpas, para o justificado descanso. Assim fizemos.
Eu, o Monteiro e o Neto, por influência deste, tínhamos a sorte de estar instalados numa vivenda particular, em Viana, cidade da poucos quilómetros. Magnificamente instalados. A casa era do aguedenses Manuel Cruz - que por lá tinha uma fábrica de ferragens (assim como o pai do Neto). Também dispunhamos de transporte, um automóvel da FRAL Angola (a empresa do pai do Neto), e, por isso, a nossa mobilidade era segura, a toda a hora.
Tínhamos de cumprir as nossas tarefas militares, é verdade..., mas o resto do tempo era para a boa-vai-ela, por Luanda adentro, dia e noite... - não se nos pegando quaisquer medos pelo sangue que todos os dias se vertia na cidade - onde se degladiavam ódios inter-movimentos e se matava gente a troco de meras raivas pessoais.
A capital, depois de várias semanas de combates com a FNLA, era controlada por forças do MPLA, já desde 15 de Julho. A 22, fôra decretado um novo cessar fogo  que, creio bem, era pouco respeitado. Por essa altura, intensificava-se a ponte aérea que, a partir de Angola e de outras ex-colónias, fez afluir a Portugal milhares e milhares de retornados.  Muito mais intensa seria depois da nossa viagem para Luanda, a 8 de Setembro de 1975.

Angola, de norte a sul, era ferro e fogo. Em verdadeira guerra civil!

sábado, 6 de agosto de 2011

O tenente capelão Roque


ANTÓNIO FONSECA
Texto

Domingo, dia 6 de Agosto de 1972, foi dia de (quase) todos comparecermos na eucaristia dominical na Igreja do Quitexe. Não porque se tratasse de um dia especial mas, sim, porque o nosso capelão, o tenente Roque, nos pediu que não faltássemos. O certo é que a igreja se encheu, o que deve ter surpreendido o padre Albino, não muito habituado a ver tanta tropa junta na casa de Deus.
Era impossível resistir ao apelo do nosso tenente, pessoa por quem sempre tivemos uma grande estima e, tal como fez o padre Albino, dava conselhos a uns e outros, principalmente aos que sempre cumpriram o seus deveres de católicos do outro lado do Atlântico e temiam perder o “hábito”! É que ali era diferente e alguns sentiam-se perdidos e até receosos de não conseguirem cumprir à risca os mandamentos por que tanto zelavam nas aldeias, vilas e cidades da sua proveniência.
Quem realmente tinha fé e fazia questão de comparecer às missas dominicais, quase sempre arranjava maneira de não faltar. Muitos me impressionaram pela sua persistência, principalmente os meus colegas de transmissões, o Capela e o Nunes. O primeiro, não perdia uma oportunidade para me chamar à atenção sempre que eu faltava, quase desfiando o rosário de todos os mandamentos e as consequências para os não cumpridores; o segundo, já casado e pai, demonstrava em actos e palavras uma formação pessoal e católica acima da média. Contido e sempre senhor das suas convicções, chegava a irritar alguns com a sua educação. Nunca se lhe ouviu um palavrão e corava sempre que ouvia um mais ousado, o que lhe terá causado o rubor das faces milhares de vezes.

Voltando ao capelão Roque, com quem conversei e ri, não muitas mas algumas vezes, lembro-o como militar e sacerdote, mas principalmente como Homem que nos cumprimentava sempre com a sua mão madura, sempre disposto a dar o seu conselho fiável. A alguns, serviu de ombro em momentos mais difíceis, sem reclamações e demonstrando sempre o porquê da sua presença no batalhão. Fez parte do percurso das nossas vidas em terras do Quitexe e em boa hora se atravessou nos nossos destinos.
Foi este Homem que nos solicitou que ouvíssemos a missa no Quitexe, e ainda hoje estou convencido que o fez, também, para causar boa impressão ao padre Albino. A solicitação foi feita individualmente, em conversa com todos os que com ele se cruzaram nas (poucas) artérias da vila e até nos bares do Topete ou do Pacheco.
Aquando da organização do 1º. encontro, em 1990, envidei esforços para o reencontrar, mas as frágeis tecnologias de então não mo permitiram. Em passeio, calcorreei a terra e a paróquia onde exercia, mas desconhecendo-o. No Funchal, talvez até tenha passado pela rua que, desde 2009, tem o seu nome. São as voltas da vida!
Faleceu a 01/9/2006, aos 62 anos, e sei que deixou uma obra impressionante. Assim é relatado por quem com ele privou nos últimos anos de vida, testemunhos que me encheram de orgulho. E de muita saudade, devo-o dizer! Como obra, deixou em todos os que com ele partilharam terras quitexanas, principalmente os que a ele, por razões distintas recorreram. Até um dia, meu Tenente!
ANTÓNIO CASAL FONSECA
- ROQUE. Padre Manuel Romão Roque Aveiro, era pároco nas Comunidades Paroquiais da Ribeira Grande e Piquinho (Machico), quando faleceu, a 1 de Setembro de 2006, aos 62 anos.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Louvor ao alferes Pedrosa de Oliveira

Alferes Pedrosa, da 3ª. CCAV. 8423, a 5 de Agosto de 2011

Ontem aqui foi chamado o alferes Pedrosa, da 3ª. CCAV. 8423 - a de Santa Isabel - pela razão de ter, em dia de descanso, se ter voluntariado para o transporte de um ferido (de acidente) ao hospital.
Hoje,a aqui o trago de novo, para lembrar o louvor militar que recebeu, «pela forma como sempre soube conduzir todo o seu pessoal e como se soube conduzir durante a sua comissão».
O louvor, proposto pelo capitão José Paulo Fernandes, comandante da 3ª. CCAV., foi publicado na Ordem se Serviço nº. 161 e dá cor e brilho a um «militar cumpridor, com zelo e brio, em todas as situações da vida da sua Companhia, mesmo as mais difíceis». Também por ter sido «disciplinado por natureza e altamente diciplinador». Teve, lê-se no louvor, «diversas actuações de relevo, actuando com segurança e decisão firme».
As «altas qualidades militares» e também «a dignidade posta ao serviço da sua Companhia» levaram a que nele «sempre fosse depositada confiança ilimitada», razão porque, sublinha o louvor assinado pelo comandante Almeida e Brito, «a sua vida militar é digna de registo em público louvor, premiando o comando do deu grupo de combate».
Um abraço, ó Pedrosa! E esquece lá aquela da barba por escanhoar! O comandante Almeida e Brito era mesmo assim.
Ver «A barba faz-se logo
de manhã», AQUI.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A barba faz-se logo de manhã...

Casal, Viegas e Pedrosa, nos Marrazes, a falar do Quitexe


As orelhas do Quitexe, se as tivesse, teriam estado hoje a arder por largas horas, bdem prolongadas do almoço, pelas bocas de memórias de três ex-combatentes: Casal, Viegas e Pedrosa. Comeu-se, bebeu-se e falou-se. Em sítio próprio, sugerido pelo Casal, que por terras quitexanas jornadeou pelo BCAÇ. 3879: o restaurante Pipo Velho, em Marrazes (Leiria).
Foi bom o manjar e óptima a conversa, com sobremesa de saudades das terras uíjanas.
Hoje, vem ao caso, em dia de 36 anos de partida da épica coluna militar de Carmona para Luanda, com um cuidado muito especial: «a população civil, conhecedora do movimento das NT, insegura no seu dia a dia, descrente do seu futuro e receosa de futuras represálias, resolveu-as pelo exodo e começou a sentir-se que iriam acompanhar a nossa coluna centenas de viaturas, com o consequente muito elevado número de pessoas», como se lê no Livro da Unidade. E juntar-se-iam 700 viaturas.
A situção já foi circunstanciadamente tratada neste blogue, DAQUI (post de 4 de Agosto de 2010) a AQUI, (post de 29, seguinte), entre outras postagens.
O que aqui venho lembrar, contado pelo Pedrosa, tem a ver com  as exigências disciplinares de Almeida e Brito, o nosso comandante, que não tolerou a um alferes não ter feito a barba do dia.
O oficial miliciano era Pedrosa, que em perído de folga, teve de acudir a acidente de um militar, transportando-o de Santa Isabel para Carmona. De passagem pelo Quitexe, visitou a guarnição e a messe de oficiais, onde cumprimentou quem por lá estava. E estava o comandante do BCAV. 8423.
«A barba faz-se logo de manhã», avisou-o Almeida e Brito. Imperativo.
Estupfactou-se o jovem oficial: afinal, em dia de folga militar, dispusera-se a conduzir um ferido. Como era seu dever. Era isso muito mais importante que uma barba que não se desfizera em dia de descanso.  Mas continuou imperativo, o comandante: "A barba faz-se logo de manhã!».
- PEDROSA. Luís António Pedrosa de Oliveira. Alferes miliciano atirador de cavalaria. Natural e residente em Marrazes (Leiria).

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Adeus Carmona, que vou para Luanda...

Aeroporto de Carmona! Por aqui passámos a 3 de Agosto de 1975, no adeus ao Uíge

Hoje se completam 36 anos que a CCS do BCAV. 8423 deixou Carmona, em vários voos para Luanda. O dia, em 1975, era domingo e as vésperas, vésperas de largos dias, foram de montagem da delicada operação de retirada de toda a guarnição militar.
Relizaram-se várias reuniões com o QG/RMA, para «obter os meios necessários à sua execução» e a sua materialização aconteceu a partir de 31 de Julho - com «a chegada de viaturas e tropas de recurso».  Nada mais, nada menos: uma Companhia de Comandos e uma Companhia de Páraquedistas. E meios aéreos, para apoio à coluna terrestre: Fiats e heli-canhões de protecção. Para o que desse e viesse.
Na verdade, era falada a intenção de a FNLA se opôr à saída das FAP de Carmona para Luanda, que era a mesma coisa que dizer, de território controlado por este movimento (liderado por Holden Roberto), para área do MPLA. E sabia-se também dos graves conflitos que se viviam em Salazar - por onde a coluna iria passar. E estava fresca a memória sobre os impedimentos de 13 e 21 de Julho - quando a FNLA não quis que a coluna militar portuguesa evoluísse para Luanda. Só passaria a 25, à força. E pelas armas seria, caso a situação a tal se proporcionasse.
Hoje, neste dia de 1975, a CCS e a 1ª. CCAV. (a Zalala) disseram adeus a Carmona. De  avião: em duas levas de um  DC6 e dois Nord´Atlas.
Ficaram, em terras do Uíge, a 2ª. CCAV. (a de Aldeia Viçosa) e a 3ª. CCAV´s (de Santa Isabel), que integrariam a épica coluna que saiu na madrugada de 4 de Agosto de 1975.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O Garcia de Pombal de Ansiães...

Associação Recreativa e Cultural de Pombal de Ansiães. Foi sonhada em Angola, no corpo do BCAV. 8423 (em cima). Homenagem associativa a António Manuel Garcia (em baixo)


Caro Garcia: Aqui te falei ontem, mas não disse tudo da tua terra de Pombal de Ansiães. Por exemplo, que uma semana antes lá estivera a tua Olga, que me achei «órfão» por lá e lá me lembrei de procurar a tua gente. Lembrei-me de Noémia, tua prima - a quem me levou o sr.  Ventura, fazendo nisso muita questão.No adro da igreja, onde certamente tu semeaste muitos sonhos, conterrâneos teus já me tinham falado de ti, do Toninho!!!. Que a associação se deve a ti! Ai não fosses tu!!!
Noémia não estava em casa, mas afinal... estava e apareceu depois no centro social, quando eu já me privilegiava a falar com tua mãe. Olha, foi bonito, foi emotivo, li os olhos de tua mãe a sorrirem-se, nostálgicos, serenos...
E eu nervoso - olha eu, nervoso!!, «como foi possível?!», perguntar-me-ias tu. Mas, de repente, tinha ali, como que sentadas no meu colo, gente íntima do teu eu. Parecia que estavas de lado, a olhar-nos de sorriso rasgado e feliz!, prolongando-nos estes momentos deliciosos.
A prima Noémia fez questão que fossemos a casa da irmã, também tua prima e afilhada, a Paula Zuzarte (agora tem este apelido...) - que eu já«conhecia» destas coisas da net, que não existia no nosso tempo terreno comum.
Veneram-te!
Paula lembrou-me a tua «responsabilidade de padrinho» - eras padrinho dela!... - e de ti disse teres sido «um pilar de vida», que sempre lhe transmitiu «segurança, carinho e todo um conjunto de valores/princípios». Falou-nos da tua «autenticidade, originalidade e coragem» e de «todo um conjunto de características fantásticas, que temos alguma dificuldade em achar por aí».
O que te posso dizer - e disso fica seguro, ó Garcia!!!..., seguríssimo!!! - é que deixaste por cá saudades infinitas e admiração para sempre.
Fiquei contente, com isso. E feliz!
Lembrei-lhes, porque era o dia dos 36 anos, a nossa seriíssima altercação de 31 de Julho de 1975, no BC12, quando a tua bravura e generosidade se bateram a pé juntos com a, quiçá, maior racionalidade do Neto e minha, que não queríamos envolver o PELREC, que tu «oferecias» para a última coluna para Luanda. Falámos e sabíamos que nos escutavas. E eu senti-me em casa, com a tua boa gente.
Até um destes dias, meu caro Garcia.
C. Viegas
- NETO. José Francisco Rodrigues Neto, furriel miliciano de operações especiais (Ranger´s). Empresário, natural e residente em Águeda. 

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Carta ao Garcia...



Meu caro Garcia:

Estejas onde estiveres, fica a saber que ontem estive contigo, na tua terra natal de Pombal de Ansiães, lá na serra de Trás-os-Montes e Alto Douro, onde revi tua mãe e, com ela, com a sua doçura, falámos do Toninho. O Toninho que eu conheci oficial miliciano, meu comandante e meu amigo. Muito especialmente meu amigo.
Estava escrito que um dia lá voltaria eu. Foi ontem. Galguei quilómetros atrás de quilómetros, desde Bragança e da casa do Pires das transmissões, por uma mão-cheia de desvios naquela tua terra transmontana do Alto Douro - que por lá se faz, ainda agora, a auto-estrada.
E cheguei a Pombal. A Pombal de Ansiães!
Não dei logo com a  tua casa, que teu irmão restaura. Mas logo achei a tua associação e a igreja onde fizeste juras de amor a Olga. Eu já conhecia aquelas ruas estreitas, orladas de casas de pedra, aqui e ali com uma outra mais modernas. E lá cheguei.
Lá estava a mesma escada do adro, a mesma pedra escura do tempo, o mesmo templo da nossa religião católica, o mesmo cheiro pombalino, e as pessoas que logo me deram conta da tua família - a do Toninho. Até teu tio por lá andava. Na tua associação.
Parei uns momentos na terra que te serve de pouso. Até te fotografei! Não me quis pôr do teu lado, como fazíamos no chão vermelho de Angola, por onde jornadeámos a nossa juventude, casando afectos e multiplicando a generosa amizade que distribuías como cerejas.
Olhei-te de frente!!
E ali estavas tu, o Garcia!  A olhar-me de rosto sereno e seguro, como se ambos, e com os nossos soldados, fossemos partir para mais uma missão, mais uma patrulha, uma escolta, uma operação militar. Estes momentos, como tu sabes, fazem-nos lembrar muitas coisas e eu estou certo que, se pudessemos falar, ali ficaríamos horas e horas, e horas!!!!, muitas horas!!!, a evocar os lendários momentos da nossa passagem por Angola.
Olha, fui ver tua mãe, a senhora dona Maria do Calvário! Está no lar. E como eu sei que esta obra social faria chorar os teus olhos, de emoção e de alegria!!
Aqui, ocorreram-me os nossos sonhos associativos semeados em Angola e deixa-me dizer-te que os levei para a minha aldeia. Tal como tu! Nisso, fomos muito iguais!
Tua mãe falou-me de saudade e do que o seu  mundo seria diferente, se não tivesses ido antes de nós. E deixa-me dizer-te um coisa: ao abraçá-la, senti o cheiro do bravo alferes, com quem eu fui soldado de Portugal!
Ela está bem! Muito bem!
A vida leva-me ali, agora. Tenho de ir.
Amanhã volto a escrever-te.
Grande abraço.
Viegas

- GARCIA. António Manuel Garcia, alferes miliciano de Operações Especiais (Rangers). Natural de Pombal de Ansiães (Carrazeda de Ansiães). Foi inspector da Polícia Judiciária e  faleceu a 2 de Novembro de 1979.
- PIRES. José dos Santos Pires, furriel miliciano de Trasmisssões. Aposentado da GNR e residente em Bragança.

domingo, 31 de julho de 2011

Os fenómenos da Casa das Transmissões

Alavrito e Fonseca (BCAÇ. 3879) no Quitexe de 1972


ANTÓNIO FONSECA
Texto


Estive à conversa com o Alvarito, também ele ex-radiotegrafista, e lá vieram as histórias sobre Quitexe. Principalmente, as vividas na casa que albergava o pessoal de transmissões.
«Tivemos muita sorte com as instalações!...», disse-me ele, com aquele riso malandro e ansioso por me contar as suas aventuras! Como se eu as não soubesse! Na verdade, sem ser um luxo, tinha excelentes condições de habitabilidade. Não me recordo que alguma vez tenha faltado água no chuveiro, por exemplo. E se tal aconteceu, não me apercebi. Para ser mais exacto, ali não faltava rigorosamente nada. Talvez por isso um oficial miliciano tenha movido influências para correr dali connosco - episódio que um dia abordarei.

E até as “negras sensuais e bonitas” Maria e Joana apreciavam a “estalagem”, razão, suponho, porque lá dormiam ou pernoitavam não raras vezes! E em ambiente de festa, a avaliar pelos risos e gargalhadas que atravessavam as finas paredes das divisões! O que se passava por lá, não sei porque nunca vi, mas que a coisa era animada… lá isso era!
E as noitadas na varanda, onde quase se madrugava num desfiar de sentimentos - alegrias, tristezas, amores e desamores!? E também sonhos que cada um acalentava para depois do serviço militar, mencionando sempre terna e apaixonadamente o nome dos seus amores. Passados 37 anos, quando olho nos olhos estes casalinhos já avós e de cabelos brancos, dá-me uma enorme vontade de rir! E porquê?! Porque me vêm à memória todas aquelas conversas cheias de romantismo e de promessas de amor que se faziam ali naquele cantinho do Quitexe! Ainda hoje, as lindas senhoras me perguntam “como se portavam eles por lá ?”, o que os desconcerta e faz transpirar…de medo! Melhor, de pânico!...
Ah…, agora é que eu descobri porque é que o Zé Carlos, no almoço deste ano, fazia mímica e retorcia o bigode, enquanto me pontapeava as canelas, a coberto da mesa!...
ANTÓNIO CASAL FONSECA









sábado, 30 de julho de 2011

O que vai ser da terra e da gente do Uíge?

Alferes Garcia, na porta d´armas do BC12. Atrás, na parada, algumas viaturas da coluna para Luanda

O alferes Garcia era o nosso comandante de pelotão! Homem corajoso, de não dar pé atrás a qualquer perigo. Quis ele adiantar-nos alguns pormenores sobre a operação de saída de Carmona, com a boa nova de que a CCS iria de avião. E foi! Mas queria o Garcia que o PELREC se oferecesse para ir na coluna. Mas não foi!
A 30 de Julho de 1975, na reunião do Estado Maior Unificado, o comando português informou oficialmente a FNLA da próxima e última operação dos Cavaleiros do Norte: a da saída do Uíge, de Carmona.
A reacção foi eufórica, da parte dos fnla´s. Compreende-se: ficavam donos e senhores da sua terra e sem disputa com o MPLA, militarmente derrotado nos incidentes dos primeiros dias de Junho. E da UNITA pouco se falava por lá! Mal existia no norte angolano.
«O que é que esta m... irá dar?!», interrogava-se o Garcia, à conversa comigo e o Neto, num dos últimos serviços do BC12. Dele e nossos. Adivinhavam-se lutas fraticidas e derramamento de muito sangue, depois da saída da tropa portuguesa - que era muito mal-amada pelas comunidade civil mas, na prática, era o seu seguro de vida! 
Um civil angolano, nosso conhecido do Bairro Montanha Pinto, futurou o pior. «Com a tropa portuguesa, a gente sabia com o que contava. Agora, sei não...», queixava-se ele, de amargura estampada no rosto. O que será feito dele?