segunda-feira, 23 de maio de 2011

O emblema e o crachat do Batalhão de Cavalaria 8423



O crachat/emblema do Batalhão de Cavalaria 8423 foi desenhado pelo (alferes miliciano) Mário Simões e conhecido a 11 de Fevereiro de 1974. O comandante  Almeida e Brito, desejando desde logo «instituir o espírito de corpo o BCAV., de modo a que se conctituísse um todo coeso, disciplinado e disciplinador», achou por bem idealizar o emblema braçal da Unidade, ao mesmo tempo que se desejou «a sua plena identificação com a sua unidade mobilizadora» - o Regimento de Cavalaria 4.
Conta-nos (o alferes miliciano) Simões (foto ao lado) que, quando chegou a Santa Margarida para formar batalhão, sabendo-se que era desenhador, foi chamado pelo comandante Almeida e Brito, que lhe apresentou o conceito que pretendia para os crachás e galhardete, o símbolo que iria representar o batalhão, assim como as cores para cada companhia, em terras de Angola.
«Mostrou-me um galhardete onde se via um cavalo em fuga e foi a partir dessa base que eu comecei a trabalhar algumas maquetas, a fim de serem apresentadas ao comando», recorda, agora, Mário Simões.
O trabalho foi «exaustivo e desafiante», mas no fim de alguns dias chegou-se ao resultado final. «O tempo era curto, havia que mandar executar os vários crachás, os autocolantes e os galhardetes», recordou Mário Simões.
O emblema seve o lema «Perguntai ao inimigo quem somos», dentro das tradições do RC4, sendo o fundo de cor preta. E foram escolhidas as cores para cada companhia: vermelha (1ª. CCAV., a de Zalala), azul (2ª. CCAV., a de Vista Alegre) e castanha (3ª. CCAV., a de Santa Isabel).
Assim se criou a imagem dos Cavaleiros do Norte!

domingo, 22 de maio de 2011

O sr. Augusto de Zalala...

Rodrigues, Augusto e Queirós, boa gente de Zalala (1974)

Augusto foi um militar de Zalala, que todos tratavam por senhor. Senhor? Então não era camarada? Bom, a verdade é que Augusto, de idade bem mais avançada que a nossa, fez parte do 4º. pelotão em Zalala da 1ª. Companhia; e depois em Vista Alegre, sempre tratado por senhor.
Ninguém sabe, ou se lembra, de como e porque foi mobilizado para o serviço militar, mas de três dias de mato, numa operação em que o pobre do sr. Augusto foi vítima das famosas formigas “quissonde”, disse muitos se lembram. Eram enormes, as formigas, de cor avermelhada. E quando mordiam, mordiam a sério. Bem faziam sentir a dor que provocavam.
Sempre que íamos para o mato, tínhamos de utilizar roupa apertadas com bons elásticos, porque as formigas entravam nas calças e procuravam logo os testículos, para morder. Eram um perigo! E, se mordessem, era escusado..., que não largavam. Para as retirar, tínhamos de as puxar até as partir e lá ficava a cabeça da fixa na pele.
O sr. Augusto, numa dessas vezes, teve o azar de uma dúzia destas “amigas” terem pegado com ele. O pobre do homem não usava cuecas, imaginem como ficou! Sangrava a bom sangrar e isto logo no segundo dia, mesmo depois do tratamento do enfermeiro e de uma tentativa de evacuação - que foi recusada. O bom do sr. Augusto, assim, teve de aguentar o resto da operação, movimentando-se com grande custo e por vezes carregado às costas pelos restantes camaradas.
Mais tarde e devido à sua difícil mobilidade - o que já não tinha tanto a ver com as quissonde, mas com a idade, passou a ficar no quartel e a fazer serviços na cantina e cozinha, entre outros. Foi, por isso, por nós “promovido” a  sr. Augusto. Pelo nosso respeito a pessoas de mais idade e, no caso, por ser um bom camarada e um amigo sempre pronto a colaborar em qualquer tipo de serviço - desde que ele fosse capaz.
Aqui lhe deixo um grande abraço, sr. Augusto! AMÉRICO RODRIGUES

sábado, 21 de maio de 2011

As vésperas de partir para Angola, há 37 anos!



Há  37 anos, em Maio de 1974, estes eram os dias de vésperas de partida para Angola - que era para ser a 27 e foi a 29. Aqui pela aldeia, fiz a procissão das despedidas, depois de, num salto de comboio, ter ido a Viana do Castelo baptizar o meu sobrinho  Zé Fernando e dizer «até um dia destes...» aos familiares e amigos que ainda por hoje por lá vivem.
Os amigos mais próximos, um a um, tiveram o abraço do adeus, embrulhado em desejos de que tudo me corresse bem e na esperança de que por Angola não demorássemos muito tempo. O 25 de Abril tinha sido semanas antes, ainda não fizera um mês, e os ventos revolucionários chegavam à aldeia com sugestões de mais nenhum soldado ir para a guerra. Mas fomos!
Os amigos, nas despedidas, todos me faziam votos  de sorte, a que eu, na imberbidade dos 21 para 22 anos, dizia amen com convicções seguras: sentia-me preparado, física, mental e tecnicamente, e recusara mesmo uma oferta de favor para não ir ao ultramar. Portanto, era ir e sem medos.
«Escreve, pá!...», era a sugestão mais repetida por aqueles e aquelas que, mais próximos ou mais distantes, eram gente da minha horta de amigos. Assim fiz sempre!!! De Angola, trouxe uma mala de correio, que ainda guardo, com mais de um milhar de cartas e aerogramas. Documentos que agora, para este blogue, são semente de ideias e colheita e maná de pormenores, que são pão desta leitura diária - desde 9 de Abril desde 2009.
Hoje, ali no cemitério, onde levei minha mãe à sua habitual romagem de sábado, achei-me diante da campa de primo meu, mais velho e de quem tenho nome igual, que foi fuzileiro especial, depois militar de carreira e que, no aquartelamento do Vale do Zebro, morreu há 15 anos na sequência de uma estúpida queda de uma escada.
Fiquei a pensar na observação de minha mãe: «Tás a ver, o teu primo também andou lá na guerra e veio morrer cá...». Assim foi. Há guerras a sério que não matam. Há coisas vulgares que nos derrotam. Nos abatem
- FOTO: A foto do meu primeiro serviço em Angola, no Quitexe.
Ver AQUI

sexta-feira, 20 de maio de 2011

O FNLA que ia ver os jogos de futebol em Zalala

Furriel Rodrigues com elementos da FNLA, em Vista Alegre (1975)


Os primeiros contactos “amigáveis” com elementos da FNLA aconteceram em Zalada, onde eles iam com familiares, procurar intensamente a enfermaria e remédios para cura de um interminável número de doenças, que nem eles sabiam definir.

Queixava-se o furriel enfermeiro Barreto de estar «tramado para tratar este pessoal»: «Só sabem dizer que dói aqui, aqui e aqui, já lhes disse que o que dói é a ponta do dedo, quando eles apontam para localizar a dor».
Realmente era difícil ajudar estes homens, mulheres e crianças que, após anos provavelmente sem um comprimido, ou outro tipo de medicamento, ansiavam vivamente por uma cura milagrosa, na base de uma injecção, pomada, pensos ou um xarope, que os livrasse de um qualquer mau estado físico, ou “mental. Todos eles viam na enfermaria essa oportunidade. Troquei impressões com alguns elementos da FNLA, no tempo de Zalala e dos nossos confrontos, sobre os pontos onde atacavam.
Há várias histórias de escaramuças, de que eles se recordavam perfeitamente - até dos locais onde fazíamos operações militares. Diziam eles que muitas vezes nos localizavam, mas evitavam o contacto. Pude verificar algum do seu armamento, mas o que mais me espantou foi um deles dizer que ia ver os nossos jogos de futebol -sempre muito bem escondido no mato envolvente ao aquartelamento. Vejam lá se algum dia me passaria pela cabeça ter tal espectador...
Em Vista Alegre, já eram bastantes, mas não eram tão genuínos, nem comparados, com os de Zalada - por provavelmente terem sido recrutadas à última da hora. Já apareciam em grupos e com “fardas”e melhor armamento. Como os outros movimentos, MPLA e UNITA, tinham presença muito reduzida, as escaramuças a valer foram mais tarde. Reservadas para o palco de Carmona.

AMÉRICO RODRIGUES

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Instrução ao futuro Exército Nacional de Angola


Quartel do BC12, onde esteve o BCAV. 8423, de 2 de Março a 4 de Agosto de 1975. A norte, a estrada para o Songo


O quartel do Batalhão de Caçadores 12  (foto) foi onde, de 2 de Março a 4 de Agosto de 1975, esteve o comando e algumas companhias do Batalhão de Cavalaria 8423. De lá partiam ordens e operações, tendencialmente para manter a segurança da cidade e da região, das pessoas e bens. Mas eram cada vez mais ingratos os dias finais do mês de Maio de 1975.
Ao tempo, procurava-se incrementar as chamadas Forças Mistas, que seriam o futuro exército de Angola -  envolvendo militares da FNLA, MPLA e UNITA. Que, nas diversas especialidades, recebiam instrução da tropa portuguesa.
A nós, milicianos do PELREC, coube instruir os atiradores, ex-combatentes das matas e dos trilhos do Uíge, ex-inimigos do ontem.Julgo poder dizer, afora uma ou outra situações menos ortodoxas, que o relacionamento foi pacífico e pedagógico. Nao foi por nós - ou por falta da nossa paciência, ou competência, ou dedicação, que não se formou o Exército Nacional da Angola. São contas de outro rosário, que não o nosso?

quarta-feira, 18 de maio de 2011

A modernidade de Vista Alegre, por onde jornadearam os «zalalas»...

Vista Alegre em 1974/75 (em baixo) e já no século XX (em cima, foto da net). Repare-se que a casa do lado direito, atrás da placa, ainda é a mesma


Vista Alegre foi pouso da jornada africana dos Cavaleiros do Norte, por lá jornadeando a 1ª. CCAV. (a de Zalala), de 22 de Novembro de 1974, a 24 de Abril de 1975 - quando passou para o Songo. Assumiu a responsabilidade operacional no dia 25 desse mês, mês véspera de Natal.
A companhia de Zalala foi lá render a Companhia de Caçadores 4125/72 - nessa altura de partida para Luanda. O Destacamento de Ponte do Dange tam´bém integrava a guarnição comandada pelo capitão Castro Dias.
A foto de cima identifica a localidade com algum ar de modernidade, bastando olhar para os candeeiros de luz pública, que parecem alimentados por “painéis solares” - luxo que nem se sonhava no tempo dos Cavaleiros do Norte.
«Verifico, com alegria, que a casa perdura nos tempos de hoje...», diz o (furriel) Rodrigues, que m´enviou a foto, com
«a placa genuína, a de 1974/74», como fez questão de sublinhar.
A estrada de 1974 e 1975 nem tinha a linha contínua, o que leva a concluir que foi melhorada a chamada estrada do café - que liga(va) Carmona (Uíge) a Luanda. E sabe-se que sim, por notas recolhidas ma imprensa angolana actual.
- Ponte do Dange, ver AQUI

terça-feira, 17 de maio de 2011

Carmona e o o Uíge eram uma ilha no mar da FNLA

Carmona, capital do Uíge. Quartel do BC12, onde esteve
o BCAV. 8423. Visto do lado do Songo.

As dores de Maio de 1975 foram crescendo, dia a noite, cada vez mais sentidas pela guarnição e, em particular, pelos homens que saíam em serviços - para a cidade de Carmona, ou para os patrulhamentos a itinerários.
A autoridade militar portuguesa era frequentemente questionada, ora pelos dirigentes e militares dos movimentos, ora pela população civil europeia. Já aqui várias vezes falámos disso. 
Não era invulgar sermos maltratados e acusados!! E muitos europeus cuspiam e vociferavam palavrões à nossa passagem. O Livro da Unidade dá conta de, relativamente à guarnição, «começar a verificar-se desautorizada e alvo de atropelos, o que levou publicamente a afirmar «viver-se numa ilha no mar da FNLA», com todas as inconveniência que daí advêem».
A FNLA era, de verdade, a força nacionalista dominadora da povíncia do Uíge, dizendo-se na altura que teria mais de 20 000 homens armados - número que nunca foi possível confirmar. E as escaramuças com o MPLA (principalmente) e depois com a UNITA pasarem ser frequentes - quiçá diárias. 
Era nesse tempo que os Cavaleiros do Norte tinham de ser árbitro justo e imparcial. Papel que, julgo bem, exercemos com honra e às vezes com sérios riscos.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Os estranhos cortes de cabelo à moda de... Zalala!!!

Rodrigues, Eusébio, Barata e Queirós. Estranhos cortes de cabelo, à... Zalala


Um dia resolvemos cortar o cabelo. Claro que, em Zalada, longe de um possível, imprevisível ou provável olhar do comandante Almeida e Brito, pois bem sabíamos da disciplina que era imposta e que tínhamos sempre de cumprir com o aprumo na nossa apresentação. Caso contrário, bem podíamos contar com as devidas sanções - que ele não perdoava a ninguém, nem admitia desculpas.
E olhem lá se ele nos apanhava assim!Nem quero imaginar onde iríamos parar.

A foto é de um daqueles dias de liberdade (sem serviços) e, como tal, das respectivas e habituais “maluquices de Zalala” - que, porém, fomentavam as amizades e a união e nos ajudavam matar o tempo e a esquecer o resto.
Neste caso, combinámos os quatro cortar o cabelo. Solicitámos os serviços do barbeiro da companhia e da sua famosa máquina de cortar. Máquina, desse tempo, manual!
Não lhe pedimos os catálogos ou fotos de penteados da moda, porque isso não existia. Cada um foi designer a seu gosto. O Rodrigues optou por cortar o cabelo dos lados e a meio da cabeça, o Eusébio, cortou o cabelo à Santo António, rapado por cima e deixar o resto por baixo. O Barata, já prevendo o desfecho da iniciativa, rapou logo a cabeça e o Queirós fez um corte de “apache”.
E assim passámos a tarde, porque, no final, lá voltou o barbeiro, para nos fazer outro corte - como o do Barata, de cabeça rapada, não fosse o nosso capitão Castro Dias dar com a transformação dos  penteados e, por tabela da disciplina militar, nos aplicar os respectivos castigos.
Assim se passava uma tarde em Zalada.
AMÉRICO RODRIGUES



domingo, 15 de maio de 2011

O auxiliar Rebelo e todos os cozinheiros do BCAV. 8423


A tropa puxa-nos a contar epopeias de guerra, narrando os dramas que se viveram (ou não) nas operações e patrulhamentos, cada qual puxando mais o lustro dos seus feitos.
Sempre se fala dos heróicos atiradores, a «carne para canhão» que invariavelmente saía dos aquartelamentos para missões apeadas ou transportadas, sempre em mil cuidados, não fosse o perigo que nos espreitava enlutar-nos as fileiras. Mais remotamente, fala-se dos sapadores - que também de quando em vez malhavam com o corpo pelas picadas e nos trilhos do norte angolano. E até já aqui falámos dos enfermeiros e dos mecânicos - cada especialidade sempre em dia com as suas obrigações, para que tudo nos corresse bem! E até dos escriturários e do sacristão, ou dos homens das transmissões, os criptos, ou outros!
Nunca aqui falámos dos cozinheiros!!! E como eles nos eram tão úteis, todos dos dias, para nos saciarem a fome de corpos jovens. No refeitório geral, ou nas messes, eles eram verdadeiros mestres, autênticos chefes, sempre prontos na arte de bem cozinhar, para que fome não houvesse entre a guarnição.
O Rebelo era um deles. Auxiliar na messe de sargentos, ajudava na cozinha e foi sempre prático e diligente na sala de jantar - onde nos servia, sempre despachado, empratando os pitéus cozinhados pelo Almeida. A foto é dele, na messe de sargentos do bairro Montanha Pinto, em Carmona - «armado até aos dentes", para a pose. Nele, vai a nossa homenagem a todos os cozinheiros dos Cavaleiros do Norte.
- REBELO: José Joaquim Robalo Rebelo, auxiliar de cozinha. Funcionário da Fábrica Militar da Braço de Prata (FMBP). Natural de Aranhas (Castelo Branco), mora em Odivelas.
- ALMEIDA. José Maria Antunes de Almeida, 1º. cabo cozinheiro. Natural de Arganil e residente em Boliqueime, Albufeira (Algarve).

sábado, 14 de maio de 2011

Os bravos e isentos Cavaleiros do Norte

Rua do Comércio, em Carmona, agora cidade do  Uíge (anos 70 do século XX)


Os meados de Maio de 1975 foram tempo de crescente avolumar da tensão entre os movimentos então já instalados na cidade Carmona. E pouco valia a intervenção dos comandos militares portugueses, sugerindo e aconselhando calma na gestão dos seus relacionamentos. Só á força!
A missão prioritária das NT era arbitrar esses conflitos e manter a segurança da cidade, das pessoas e dos bens, do tráfego rodoviário e dos abastecimentos, das comuinicações, unidades de saúde, da energia. Mas era um missão incompreendida. Acusada de parcialidade. Pelos movimentos e pela população civil europeia.
Leio do Livro da Unidade: «Procurando posição de isenção, foi a actuação das tropas orientada no sentido da sua missão, contudo viu sempre escolhos diversos a vencer, viu e sentiu ameaças». Ameaças que os mais operacionais, bem sentiam na pele e na alma, sempre que as tarefas nos levavam às ruas da cidade, ou às  estradas que ligavam ao Songo, ao Negage e a Luanda (pelo Quitexe).
As NT eram não raramente «alvo de vexames», como recorda oLivro da Unidade. E, sobretudo, «apelidada de partidária». As suas actividades (as nossas), no sentido de se cumprir o acordo entre portugueses e angolanos, para a independência destes, eram «mal aceites, ainda que não suscitem quaisquer dúvidas quanto à sua isenção». Mal aceite, repitamos, pelos movimentos e pela população europeia.
Passados 36 anos e com tanta pós-história de Angola escrita, não tenho quaisquer dúvidas: o Batalhão de Cavalaria 8423 esteve à altura. Foram bravos, e isentos, os Cavaleiros do Norte!

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A morte do soldado sapador José Gomes Coelho


José Gomes Coelho, no Quitexe, ao centro de bigode. E na foto a cores, em baixo. Reconheço, na de cima, os 1º.s cabos João Monteiro «Gasolinas» (à esquerda) e Soares (à direita). Os dois companheiros que ladeiam o José Coelho, quem são? Recordo os rostos, mas esqueci os nomes. Quem os identifica?  


A13 de Maio de 2007, há 4 anos, faleceu José Gomes Coelho, que pelos Cavaleiros do Norte jornadeou como soldado sapador, operacionalizando-se em Santa Margarida, depois  estacionando no Quitexe e em Carmona, antes de Luanda e do regresso a Portugal - a 8 de Setembro de 1975.
Pertencia ao pelotão de sapadores, comandado pelo alferes Ribeiro, e dele lembro a pacatez  e sentido de dever, sempre humilde, sem falhar um serviço, sempre em missão.
A vida levou-o pela Universidade do Porto, onde profissionalmente exerceu a arte de carpinteiro - até que a doença o levou a reforma antecipada, por invalidez, falecendo aos 55 anos, vítima de doença que lhe atormentou os últimos tempos da sua passagem terrena.
«Teve um tumor cereberal. Nunca quis ser operado...», disse-me a filha Ângela, reportando o luto da sua família.
Casou com Maria Elisa Sousa Ferreira, viúva que me deu a notícia da sua morte há dois anos, pelo tempo do Encontro de Águeda. Teve duas filhas e ainda conheceu dois netos.
Está sepultado no cemitério de Oldrões da Calçada, em Penafiel, onde vivia.
Até um destes dias, amigo!
Ver AQUI.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

O Pinto, companheiro de Lamego e de terras de Angola

Telefonou-me hoje o Pinto (foto), que foi companheiro dos melhores da jornada angolana, ele em missão por terras de Zalala, furrielando na 1ª. CCAV. Eu, na já bem mais «cosmopolita» vila do Quitexe. Mas essa amizade levadada no norte de Angola, já como Cavaleiros do 8423, fôra semeada e nascida nos tempos da exigente e amarga instrução  militar do CIOE, em Lamego - onde nos fizemos «ranger´s». 
A conversa foi longa, regada de saudades dos nossos tempos mais jovens - de 21 para 22 anos, de Lamego a Angola, passando por Santa Margarida. E caricaturando alguns momentos mais relevantes, ou assaz pitorescos, desses tempos de farda camuflada, que nos fizeram soldados dispostos, se necessário, a dar a vida!
O Pinto já goza as delícias da reforma, depois de uma vida dedicada à mecânica e aos automóveis. Reside em Paredes, do Porto. «Estou bem, pá... Tenho tudo o que preciso, uma família porreira», disse-me hoje, notando-se-lhe aleluias na voz, por  ter chegado a este tempo de 59 anos sem custas no corpo e na alma.
Queixou-se o Pinto que a 1ª. CCAV. 8423 não se reúne. Vai ligar ao Queirós, ao Rodrigues: «Temos de nos encontrar, pá!...».
Olha, vem a talho de foice: e o nosso encontro de antigos instruendos do CIOE? Reunimo-nos uma vez, há uns 20 anos, em Águeda. E nunca mais! Vamos pensar nisso, ó Pinto?!
Ver AQUI.
- PINTO. Manuel Moreira Pinto, furriel miliciano de Operações Especiais (Ranger´s), da 1ª. CCAV. 8423 - a de Zalala. Reformado, natural de Penafiel e residente em Paredes (Porto).
- CIOE. Centro de Instrução de Operações Especiais, em Lamego.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

A frota de Mercedes do aquartelamento de Zalala...



Zalala era um lugar inóspito e isolado, carregado de problemas de toda a espécie, mas o Rodrigues, que por lá jornadeou como furriel atirador de cavalaria e depois até gestor de alimentação, vem lembrar que «comparando com os tempos de hoje, até vivíamos bem». A situação, do ponto de vista dele e tendo em contra a frota automóvel, «equivaleria a um industrial de sucesso, nos tempos actuais».
«Deixa-me brincar, mas «eram só» Mercedes», diz ele, na nota que enviou para o blogue, com a foto que se vê acima.
A primeira Mercedes, à esquerda, andava sempre carregado de sacos de areia, tipo rebenta-minas. E já tinha rebentado muitas, segundo relatos dos companheiros da CCAC. 3534, que os Cavaleiros do Norte de Zalala substituíram.
As mazelas eram vem visíveis e a «desgraçada» fazia a picada de Zalada ao Quitexe muitas vezes em 8, 9 ou mais horas, na altura das chuvas.
«A parte da frente ia na direita da picada e a traseira na esquerda e, por isso, ficava no Quitexe, porque precisava duma estrada só para ela, não tinha o prazer de andar no alcatrão», comenta o Rodrigues.
A versão dos mecânicos falava do chassis empenado e, por isso, não havia nada a fazer. Os gasolinas eram mais rápidos e em terreno mais ou menos plano tinham bom andamento e superavam alguns obstáculos. Os unimogs (”burros do mato”) nem tanto, porque entravam em tudo o que era buracos e principalmente no meio do capim, quando batiam em obstáculos que não se viam ou venciam.
«Quando havia colisão, ninguém se segurava e o pessoal voava para fora da viatura, mas tinham um guincho, que muitas vezes foi crucial para vencer obstáculos e repor outras viaturas na colunas», lembra o Rodrigues, com «um grande abraço aos mecânicos que cuidavam destas máquinas

terça-feira, 10 de maio de 2011

Estranhas dores de cabeça no IAO de Santa Margarida

Campo Militar de Santa Margarida (sublinhada a vermelho) e
área de S. Miguel de Rio Torto e Mata do Soares
Clicar na imagem, para a ampliar

A 10 de Maio de 1974, ficou concluída a Instrução de Aperfeiçoamento Operacional (IAO) que os futuros Cavaleiros do Norte fizeram pelas redondezas de Santa Margarida e nomeadamente pela chamada Mata do Soares.
Já aqui chamámos algumas histórias, as que a memória lembrou, mas muitas outras se terão passado - principalmente entre os companheiros das três companhias operacionais, que no IAO mais sofreram que os CCS´s, que por lá faziam de IN.
Ocorre-me uma, por estes dias passadas comigo e que teve a ver com uma brutal dor de cabeça que me enfermou. Coisa de impacto físico brutal e estranha a um fulano da minha idade e constituição física, mas que me levou à enfermaria do aquartelamento, o RC4.
Lá fui eu, em boleia militar, e por lá esperei vez de ser «aviado» pelo médico de serviço, que me fez algumas perguntas e me mandou esperar fora  da sala que servia de consultório. E por ali fiquei bons pares de minutos, até que um enfermeiro me chamou e mandou deitar numa maca. para me massajar.
«Massajar-me?!...», interroguei-o eu, de espanto.
Pois não é fulao? Que sim, era eu.
«Então, deite-se e puxe as calças para baixo...», disse o enfermeiro, imperativo e com umas bisnagas na mão.
«Há engano, homem.... eu queixo-me é de dores de cabeça», disse-lhe eu. E doíam-me bem, a martelarem-me de tal fprma, que tinha necessidade de comprimir as têmporas. «Doi-me é a cabeça....», insisti eu.
O enfermeiro é que não me ouviu e lá me massajou, por ordem receitada pelo médico militar - que era homem para os seus 70 anos e de quem suspeitei ter «alguma coisinha» na cabeça.
Mas não é que as dores de cabeça desapareceram?
Ainda hoje, 37 anos depois, não entendi a maleita que de forma tão violenta me fazia doer as têmporas.
- CCS. Companhia de Comando e Serviços.
- IN. Inimigo.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Os dias de tensão e quezílias na cidade de Carmona

Bairro Popular, em Carmona (1975). As antenas são
das instalações da Junta Provincial de Povoamento



Os dias de Maio de 1975, em Carmona, foram-se levedando de tensão - já não só pela animosidade da população civil para com os militares, mas também porque, numa terra que era «terra da FNLA», por isso, não eram bem vistas, nem aceites, outras opções políticas - nomeadamente o MPLA! E a UNITA, que pelo norte uígense começou também aparecer. E, muito timidamente, até alguns movimentos da preocupada sociedade civil. 
Por isso mesmo, tornaram-se vulgares e regulares as quezílias entre eles e, cito o Livro da Unidades, «por vezes nem se conhecendo bem as razões, ou sequer se conseguindo distinguir a origem das situações» - que, à partida, pareceriam de entendimento fácil, mas que se tornavam motivos de polémicas e agressividade - com as NT a terem «enorme dificuldade em fazer vingar o papel de árbitro», que seria condição prioritária para que os processos de integração dos (ex)combatentes e de independência corressem bem. Minimamente bem!
E que o dissessemos nós, os militares que patrulhávamos a cidade (prncipalmente durante a noite), ou nela policiávamos
o atavio, o aprumo ou a segurança militares, e tantas vezes era alvos até de chacota e de muitas provocações.
Numa noite, numa das primeiras depois da minha chegada de férias, seriam umas duas da manhã, chamaram-nos para incidentes no bairro popular e recordo-me bem do frio dos nervos quando nos aproximávamos. Dos suores que nos encharcavam o camuflado. E não era só do calor africano, era da tensão física e emocional. Ouviam-se tiros, que felizmente acabaram quando nos aproximámos, de unimog e armas aperradas e de bala na câmara, para o que desse e viesse.
Não deu nem veio nada! Havia algum respeito pela tropa e este era um bem que queríamos manter.

domingo, 8 de maio de 2011

Os dias de piquete no aquartelamento de Zalala


Furriel Rodrigues, à esquerda, com o piquete de serviço,
em Zalala, na protecção à avioneta do “tabaco»


 
Os dias de piquete, em Zalala, eram de previsível descanso - normalmente os que se sucediam aos de operações pelas matas uígenses  - essas, sim, sempre perigosas, ainda que não tivesse havido um tiro, uma mina, ou uma armadilha nos trilhos que se batiam passo a passo e de olhos bem abertos, para verem o que não queriam ver.
Não eram (os piquetes) muito diferentes de Quitexe, de Aldeia Viçosa ou de Santa Isabel. Ou Vista Alegre, Ponte do Dange, Luísa Maria ou outro qualquer pouso dos Cavaleiros do Norte. Ou, mais tarde, de Carmona, ou do Songo.
O Rodrigues, que jornadeou por Zalala, veio recordar o que por lá acontecia sempre que uma avioneta sobrevoava o aquartelamento, duas ou três vezes: «Já sabíamos o que era e o pessoal de piquete escalado tinha de se deslocar para a pista de aterragem, para fazer a respectiva segurança».
Uma vezes, muitas vezes, eram voos civis, de gente que ia à fazenda de Ricardo Gaspar, em Zalala. Mas em outras, na maioria dos casos, eram o marketing do tabaco ou da cerveja a anunciar as suas marcas e a fazer a campanha do fumador.
«Normalmente, o piquete tinha pouca actividade, mas uma vez ou outra era requisitado para prestar auxílio a algum pelotão que estivesse no mato, ou em patrulhamento e precisasse de apoio de qualquer espécie», agora recorda Américo Rodrigues.
O piquete, portanto, representava para os Cavaleiros do Norte de Zalala uns dias de merecido descanso e refeições quentes no quartel, após as nossas investidas no mato.
«Quando aparecia a avioneta do “tabaco”, a importunar o nosso repouso, todos ficávamos revoltados. Se pudéssemos, a avioneta vinha a baixo, em vez de nós irmos para a pista de aterragem», diz o Rodrigues, 36 para 37 anos depois de os seus dias se passarem por Zalala.
Assim se passava a jornada angolana de terras uígenses.

sábado, 7 de maio de 2011

Comandante Almeida e Brito


O dever cívico levou-me hoje às festas do ano de prata de uma IPSS de Águeda (Os Pioneiros), que conheço de perto e por onde sei estar semeado um grande campo de solidariedade. E o que tem isto a ver com os Cavaleiros do Norte? Pois, é que encontrei lá o general Pires Tavares, irmão de armas e de peito do nosso saudoso comandante Almeida e Brito (foto).
Desfiámos histórias, recordámos um nosso encontro de Coimbra, nos anos 80 para 90, quando Almeida e Brito era brigadeiro e adjunto dele, então comandante da Região Militar Centro.
Registei o sentimento de admiração que nutria pelo nosso comandante. Admiração que adubou de elogios às competências militares, profissionais e pessoais de Almeida e Brito, de quem foi companheiro na Academia, depois em jornada moçambicana, depois em comando militar regional e outras fases das suas carreiras, sempre íntimos pela vida fora. «Um grande militar, fui eu quem o escolheu para meu adjunto em Coimbra, sempre o quis comigo», disse-me Pires Tavares, recatando a emoção.
Recordou-me a sua missão em terras dos Dembos (Quibaxe), muita vizinhas do nosso Quitexe uígense e a fidalguia de D. Isabelinha, agora viúva de Almeida e Brito.
Ficaram de ouro, os anos de prata que hoje fui viver a Os Pioneiros. 
- ALMEIDA E BRITO. Carlos José Saraiva de Lima Almeida e Brito, tenente-coronel e comandante do BCAV. 8423. Atingiu a patente de general, depois de, por exemplo, ser 2º. Comandante da Região Militar Centro e da GNR e comandante da Região Militar Sul. Faleceu a 20 de Junho de 2003, durante um passeio turístico a Espanha. Tinha 76 anos.  

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Os primeiros dias de Carmona em Maio de 1975

O Cinema Moreno, em Carmona (1975). Ficava em frente à Rádio Clube do Uíge

O ambiente de Carmona, pelos idos primeiros dias de Maio de 1975, era pesado, com várias escaramuças entre militantes e dirigentes dos movimentos e crescentes constrangimentos nas relações entre civis e militares portugueses. Estes, eram sucessivamente acusados de traidores e sobre eles dito cobras e lagartos. O ambiente era tenso...
A criação da Polícia Militar, de resto, surgiu disso mesmo. Não só para garantir o necessário atavio e comportamentos dos homens da guarnição, mas muito mais para resolver «as muitas quezílias existentes entre a população civil e as NT, devido à animosidade que aquela tem a esta», com leio no Livro da Unidade.
Os incidentes, na verdade, repetiam-se regularmente e ocorre-me, de memória, uma sessão de cinema no Moreno, que foi  interrompida por causa dos insultos que eram «vomitados» sobre os militares, proferidos por alguns civis, acobardados no escuro da sala. Cada cena mais a jeito, era aproveitada para fazer trocadilhos, para se insultar a tropa, e o ambiente tornou-se assaz dramático. E imprevisível.
A sessão foi interrompida à força, ligada a luz subitamente e «avisada» toda a gente para as consequências iminentes, em caso de se continuarem os insultos. Recordada a cena, assim, com esta singularidade, até parecerá brincadeira de meninos amuados, mas não era assim. Até porque entre o público estavam também elementos dos movimentos emancipalistas e, valha a verdade, havia algum medo do eventual exercício de vinganças acobardadas nos escondidos da noite.
Maio de 1975 não foi de flores, mas de dores. De dores na alma na sociedade carmoniana e no espírito de paz que as NT a tudo o custo queriam fazer vincar.
- NT. Nossas Tropas.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Por que não voltar a reunir todo o Batalhão?

Alferes António Cruz  (à esquerda), da CCS, e Mário Jorge Sousa (?), da 1ª. CCAV. à entrada de Zalala


O blogue tem falado muito da 1ª. Companhia do BCAV. 8423, a de Zalala, e queria aproveitar a oportunidade para enviar ao Capitão Castro Dias - e a todos aqueles que dela fizeram parte - um grande abraço de solidariedade.
Tive o previlégio de passar alguns dias em Zalala, quebrando a rotina do Quitexe, nas visitas que tive de fazer como alferes do Pelotão Auto.

Entre os que iam comigo estavam o Machado, ou o Morais (furriéis auto), e outros que, sendo condutores, mecânicos e de operações especiais ou atiradores, se alternavam para nos acompanhar.
À parte o desagradável de termos que meter o nariz no estado em que as viaturas e o armamento se encontravam, só tenho boas recordações de Zalala e da maneira como eramos recebidos. Recordo com muito gosto duas emocionantes caçadas, um passeio fantástico pelo mato e algumas noites de muita conversa e wisky.
Porque não voltar a reunir todo o Batalhão?
A. SOUSA CRUZ
Alferes miliciano da CCS do BCAV. 8423

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O «IAO» em dia de rebentamento de petardos


O PELREC, em foto tirada no Quitexe, em Angola (1974)

A 4 de Maio de 1974, por ali andávamos nós em patrulhamentos, assaltos e emboscadas, e golpes de mão, pelas redondezas do campo militar de Santa Margarida e aos grupos de combate das três companhias operacionais do BCAV. 8423. Alimentados a ração de combate e fruta que por lá se apanhasse desprevenida. Roubada! Era sábado, com o futuro alferes miliciano Garcia a azimutar o PELREC e nós, todos juntos, a baralhar os caminhos das três companhias operacionais.
Operacionais, também éramos nós, mas ali fazíamos de inimigo - o IN! E aconteceu uma coisa chata: instalámos arames de tropeçar, armadilhámos trilhos e alguns homens de um pelotão que seguia em progressão livre e excessivamente despreocupada, caíram na armadilha.
Um deles, cujo nome não lembro, foi atirado ao ar, projectado pela explosão provocada pelo arame de tropeçar.
Foi um grande susto! Teve de ser levado para o aquartelamento (o RC$) e lá tratado na enfermaria. Felizmente, sem consequências de maior para ele - que voltou logo depois aos exercícios militares.
A emboscada foi logo ao abrir da manhã e terçaram-se alguns medos - até pelas consequências disciplinares que daí poderiam decorrer. Descansou-nos o aspirante Garcia e lá continuámos nós, pelo Fortim do Caneiro (antigo reduto militar), por S. Macário, Vale da Cortiça e Arreciadas, com um salto «camuflado» a um café de S. Miguel de Rio Torto. A noite de 4 para 5 de Maio de 1974  foi tempo para golpes de mão, emboscadas e detenção de «prisioneiros», com alguns tiros reais pelo meio, rebentamento de granadas ofensivas e defensivas, tudo como se a guerra fosse mesmo a sério.
Preparavam-se os futuros Cavaleiros do Norte para o que Angola nos traria ao colo. E à alma! E ao corpo!
Ver
AQUI.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Os 2 anos do Blog «Cavaleiros do Norte»

O blog Cavaleiros do Norte já se edita, diariamente, há mais de 2 anos


ANTÓNIO CASAL
Texto

O blog “Cavaleiros do Norte” completou dois anos de vida. Está de parabéns o Viegas, não só por ter mantido este espaço com textos diários mas, muito especialmente, pelos temas tão diversos que aqui edita. Tal só é possível com muito trabalho, afinco e dedicação. E com o saber, claro, devo-o dizer.
A abrangência dos temas tem a particularidade de nos transportar por terras angolanas, por terras portuguesas e, curiosamente e muitas vezes, fazem-nos sentir cá e lá simultaneamente, prendendo-nos à leitura. Os pormenores do dia-a-dia e as coisas “sem importância” aqui narrados, desempenham o seu papel no enriquecimento do blog – é o que penso e minha convicção. Não porque as pequenas histórias que aqui se contam venham a fazer parte da História, mas porque, e sem quaisquer dúvidas, farão sempre parte da «nossa história» - a história das nossas vidas. Como se diz, e se sabe, o que fomos e somos, assim como todos os nossos actos, nunca se apagarão, antes se prolongam para além de nós (mais ou menos isto!).
Agora que já não temos aqueles 22/23 anos e quando os restantes 30 e tais tanto insistem em pesar-nos, é salutar que continuemos a olhar para trás, nus de saudosismo mas com orgulho de um dever que foi cumprido.
Como disse o Viegas, quando apresentou o blog, «a ideia de contar estórias avulsas é meramente lúdica – embora não inocente». Na verdade, tem sido este o trilho seguido. E pronto, pouco a pouco, por culpa do Viegas, fui-me familiarizando com os Cavaleiros, mas sem esquecer a família dos Caçadores – a do 3879, que muito sofreu e deixou a marca da sua pena em sangue derramado em matas e picadas que viriam também a causar suores ao 8423. Indubitavelmente, porque todos pisaram o mesmo terreno, embora em situações bem distintas mas sempre adversas, e pelas mais variadas vivências na vila do Quitexe, os Cavaleiros do Norte terão sempre uma ligação aos Batalhões e Companhias que os antecederam.
Por aqui continuarei, assim a saúde, o tempo e a memória mo permitam. E o Viegas!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O IAO dos futuros Cavaleiros do Norte

Mata do Soares, arredores de Santa Margarida e S. Miguel de Rio Torto, com um marco geodésico

A 2 de Maio de 1974, em Santa Margarida, por onde se preparava de armas e bagagens o BCAV. 8423, foi decidido iniciar-se a realização do IAO. Que foi de 3 a 10 do mesmo mês, pela chamada Mata do Soares e com o batalhão totalmemte automomizado, Isto é: cada companhia om o seu espaço e operações. Como se estivesse em zona operacional.
O objectovo, segundo o Livro da Unidade, era «pô-las a viver à semelhança, embora ténue, daquilo que viria a ser a vida no ultramar».
O dia 2 de Maio era uma 5ª.-feira, precisamente uma semana depois do 25 de Abril, e por onde passássemos, ainda embora sem camuflados, eramos aclamados pelos populares das aldeias - que nos ofereciam de comer e beber. A 5 de Maio, que era domingo, atá nos convidaram para comer num casamento que decorria numa mini-quinta à entrada de S. Miguel de Rio Torto.
Era enorme a euforia que então se vivia, de lés-a-lés, por Portugal inteiro, Portual que ardia de emoções e em labaredas revolucionárias descontroladas.
A instrução nem por isso abrandou, bem pelo contrário, embora nem sempre com o material suficiente. Mas, e cito o Livro da Unidade, «decorreu em bom nível, porquanto foram envidados todos os esforços no sentido de melhor tornear as dificuldades existentes».
Os soldados recebiam literatura de mentalização, orientada para a instrução que era dada no terreno.
- IAO.Instrução Altamente Operacional, ou Instrução de Aperfeiçoamento Operacional, administrada imediatamente antes da partida para os teatros de guerra.

domingo, 1 de maio de 2011

O cabrito que foi parar à enfermaria do Quitexe

A enfermaria militar do Quitexe "tratou" de um cabrito

O quarteto que tinha cometido a “proeza” de fazer desaparecer os leitões destinados aos festejos do Pelotão de Intendência – que visavam comemorar o 1º. aniversário no Quitexe – voltou a atacar. Desta feita, as preferências voltaram-se para um cabrito que circulava pela vila, sempre acompanhado e vigiado pela sua progenitora. Lançado o isco, quando se “passeavam” frente à enfermaria, deitaram mão ao inocente cabrito que, apesar da sua recusa, acabou preso no interior da dita.

A progenitora não se ficou e tudo fez para salvar o filho, levando tudo e todos à frente, para espanto de quem assistia ao longe.
Durante cerca de meia hora, foi um reboliço até que o animal esgotou as suas forças. Cansado e ofegante, acalmou mas não saiu da entrada da enfermaria. O instinto maternal estava bem vivo e só o cansaço a acalmou.
As coisa estavam já a compor-se quando, inesperadamente e vá lá saber-se porquê, o Capitão Leal, distinto médico, foi avistado a conversar com outro oficial, entre o edifício do Comando e a enfermaria.
 «Agora é que é o diabo!», exclamou o Neves, encarregado da vigilância!
É que ele já tinha ficado mal visto no caso dos leitões, quando se “encharcou” no bar do Pacheco, e terá dito mal da sua vida!
Aflitos, pegaram no cabrito e casa de banho com ele! Antes de o calarem com adesivo no focinho, ainda soltou um “méeee” aflito, que fez recuperar as forças e o ânimo da progenitora. Esta, corria de porta em porta, enquanto o filho tentava trepar pelas paredes da casa de banho.
Mas o maior problema era o capitão Leal, que podia chegar a qualquer momento, logo terminasse a conversa que o tinha retido. Ainda tentaram segurar a cabra e levá-la para longe, mas a sua voz caprina e desesperada já começava a chamar as atenções.
O problema, contam ainda hoje, já não era que o Dr. Leal soubesse do desvio do cabrito – tinha mais com que se preocupar - , mas da sua indignação por este ter sido levado para dentro da enfermaria!
Face a tanta agitação, pensaram em soltar o animal, mas a sorte virou-se para o quarteto «sequestrador», quando o vigilante viu o Dr. Leal afastar-se.
«Ó pá, o médico seguiu para baixo…aguentem aí!»,, disse ele.
Aguentaram e o cabrito teve o fim que já lhe estava destinado! O tacho!
Quanto à progenitora, essa não abandonou as imediações da enfermaria durante dois ou três, dias num choro que metia dó! Coitada, ela lá sabia!
ANTÓNIO FONSECA

sábado, 30 de abril de 2011

Fim de férias e novidades em Carmona...

Furriéis Cruz e Viegas, no separador ajardinado da avenida do Quitexe. Atrás, vê-se o alferes Ribeiro e o bar dos praças. O coberto, serviu de espaço para as aulas regimentais

A 30 de Abril da 1975, uma quarta-feira, acabou-se a nossa boa vida - minha e do Cruz. Foi o útimo dia de férias e voámos de Luanda para Carmona no avião do fim da manhã, com tempo útil de chegada para almoço. Inevitavelmente, no Escape, restaurante da Rua do Comércio, que era poiso habitual da tropa. Por lá já estava o Neto e pusemos a conversa em dia:
1 - A 1ª. Companhia (do capitão Castro Dias), a de Zalala, tinha mudado para o Songo, com um destacamento em Cachalonde. Tinha transitado, a 21 de Novembro de 1974, de Zalala para Vista Alegre e Ponte do Dange, duas povoações da estrada do café, a de Carmona a Luanda. Delas saíram a 24 de Abril.
2 - A 2ª. Companhia (do capitão José Manuel Cruz), a de Aldeia Viçosa, saiu a 26 de Abril e foi instalar-se em Carmona. 
3 - O alferes Meneses, a 13 de Abril, detivera elementos do MPLA e da FNLA que se tinham envolvido em tiroteio na cidade. Tal acto, corajoso, valeu-lhe um louvor.
4 - As eleições tinham decorrido normalmente, sem muita gente (militar) a votar.
5 - A rotação feita no BCAV. 8423 deveria ser a última, até ao terminar da comissão.
E sabia-se quando íamos embora?
Pois, nada se sabia.
Sabia-se, e a voz era do Neto, é que haviam momentos tensos na cidade, se mantinham as diferença da sociedade civil para com os militares; que os militantes da FNLA e do MPLA, e agora já também alguns da UNITA, não se entendiam - nem à lei da bala.  Que eles mesmos não entendiam muito bem o papel das Forças Armadas Portuguesas. Que a situação de calma era... fictícia.
Portanto, para quem chegava de férias, um bom enredo para os filmes das próximas semanas!
- MENESES. Manuel Meneses Alves, alferes miliciano de cavalaria. Transitou do Batalhão de Caçadores 4519/73, que concluíra a comisssão em Cabinda, onde esteve em rendição individual. Chegou à 2ª. CCAV. 8423 em Fevereiro de 1975. Empresário, em Leiria. Ver AQUI.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

O "truque" de escuteiro do (futuro) alferes Sousa



Furriéis Louro , Rodrigues, Nascimento, Barata e Barreto e
 alferes Sousa e Lains dos Santos, gente de Zalala


Zalala era um "buraco", a uns 60 quilómetros do Quitexe (falo de memória), aonde se chegava por uma picada cheia de mistérios, de perigos e de medos. Uma picada mítica, pela qual muito sangue se amassou em lama com o pó vermelho de Angola. 
Os Cavaleiros do Norte já não viveram os dramas e tragédias de 1961 e anos seguintes, mas não foram «dispensados» de muitos amargos de boca e de alguns sustos. Por alguma razão lhe chamavam «a mais dura escola de guerra».
A foto que o Rodrigues me enviou mostra um grupo de bons companheiros Cavaleiros do Norte, de Zalala, companheiros de amizade e solidariedade semeada por Santa Margarida - e ainda por lá nascida... . e por Angola crescida e multiplicada. Mostra um dos muitos momentos de convívio que sempre existiu entre furriéis e alferes da 1ª. Companhia.
A mim, pessoalmente, sublinha-se-me o alferes Sousa, dele puxando de memórias de quase 38 anos, quando, ele cadete e eu instruendo, malhámos com o corpo no duríssimo curso de Operações Especiais, os Rangers!!!, em Lamego. Memórias de uma noite de Agosto de 1973, quase apostava que de 15 para 16, no decorrer de uma operação de instrução nocturna que levou cadetes e instruendos em provas de individuais, a galgarem a mais vária malha de obstáculos.
Saímos nós de Penude (o quartel), atravessámos a cidade que gorgitava de divertimento e marchámos em asfalto até um qualquer sítio da estrada para Régua - onde, noite cerrada e separados por minutos, íamos sendo largados individualmente.
Achámo-nos, eu e ele, num qualquer sítio onde tínhamos de trepar uns 3 ou 4 metros a pique - tipo de rapel, mas ao contrário. E como subir? As cordas de sisal no chão, cortadas, tinham dado subida a quem nos antecedera, mas de nada nos ajudavam agora. A solução foi proposta pelo Sousa, suponho com estratégia aprendida nos escuteiros: dobrou-se uma árvore, segurei-a eu quanto pude, trepou ele e saltou o obstáculo. Depois, amarrou as cordas em cima e subiu eu. E, atrás de nós, não sei quantos mais.
Não sei se o Sousa nos lê. Mas se lê, fique sabendo que aqui estou a recordar esta peripécia com os cabelos a arrepiarem-se-me!!! Emocionado!
Assim, desta e outras maneiras, se moldava a camaradagem  e nos preparávamos para enfrentar quaisquer obstáculos que a guerra nos pusesse diante dos nossos medos, da nossa generosidade e da nossa, deixem-me dizer, da nossa coragem.
- LOURO. José dos Santos Louro, furriel miliciano atirador de cavalaria, morador em Évora.
- RODRIGUES. Américo Joaquim da Silva Rodrigues, furriel  miliciano atirador de cavalaria, residente em V. N. de Famalicão.
- NASCIMENTO. José António Moreira do Nascimento, furriel miliciano de alimentação.
- BARATA. Jorge António Eanes Barata, furriel miliciano atirador de cavalaria.
- BARRETO. Jorge Manuel Mesquita Barreto, furriel miliciano enfermeiro, funcionário público aposentado, residente em Rio Tinto (Porto).
- SOUSA. Mário Jorge de Sousa Correia de Sousa, alferes miliciano de Operações Especiais.
- SANTOS. José Manuel Lains dos Santos, alferes miliciano atirador de cavalaria, residente em Alenquer.
Ver AQUI.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

O carro do militar que andou pelo ar nas mãos do povo...

Neto, Viegas, Matos e Monteiro, num carro de combate do RC4

A 26 de Abril de 1974, o BCAV. 8423, considerou-se «parte integrante do Movimento das Forças Armadas» e nesse dia, uma sexta-feira, o comandante Almeida e Brito «explicou a todo o pessoal» o que o movimento pretendia, em «palestras orientadas especificamente para oficiais, sargentos e praças».
Confesso que me escapa na memória o teor preciso da intervenção, mas tenho presente a euforia do momento em que todos fomos dispensados para fim de semana, o que não estava previsto - pois o que se deveria realizar a partir da 2ª. feira-seguinte o IAO.
Ao final do almoço, saímos de Santa Margarida para Águeda, no SIMCA 1100 do Neto, dando boleia ao Matos (da 2ª. CCAV), que era de Anadia e à porta dele passávamos nós, em Avelãs de Caminho. E ao Monteiro, que de Águeda seguiria para o porti e daqui para Marco de Canaveses.
A viagem, nas estradas do tempo, era algo morosa e lenta, batiam-nos palmas quando nos reconheciam militares, mas o espanto maior viria a ser em Coimbra - onde, na baixa, decorria uma manifestação com milhares de pessoas.
A passagem do trânsito era feita a velocidade menor que o passo, a certa altura os populares descobriram que dentro do SIMCA 1100 iam militares e, quando demos por ela, o carro foi levado no ar alguns metros, à força das mãos e do entusiasmo dos manifestantes. Foram uns três, quatro metros, em frente ao Hotel Astória, e esse momento, foi, porventura, aquele em que sentimos mais apaixonadamente a euforia que deslumbrava o povo.
Chegado à aldeia, soube que minha mãe andava no campo, a sachar milho. «Então, rapaz?!...», perguntou-me,quando me avistou. Ainda esta tarde, ambos recordámos esse momento. Disse-lhe que estava tudo bem, não lhe despindo, com a resposta, o luto que lhe ia na alma. E muito menos o faleci a Nilzalina, vizinha da terra e da sacha do milho, também ela viúva e mãe de António Melo - conterrâneo e amigo, do meu ano e escola, que nessa altura jornadeava pela Guiné.
« Tiveste sorte, já não vais...», disse-me ela, com o ar resignado de mãe que tem um filho na guerra.
Claro que fui. Para Angola. 

quarta-feira, 27 de abril de 2011

O primeiro aniversário e as primeiras eleições depois de Abril

Parada do BC12, em Carmona (anos 70 do século XX).
Ali se votou a 25 de Abril de 1975

O 25 de Abril de 1975, em Carmona, foi vivido na paz dos anjos e com o BCAV. 8423 a colaborar com «o processo revolucionário de Portugal», assim leio no livro da Unidade. Nesse dia, dia em que se fazia um ano da revolução militar e já com tantas águas passadas sob e sobre as labaredas revolucionárias, também se votou em Carmona, entre a guarnição.
«Verificou-se a ida às urnas de todo o pessoal que o quis fazer», relata o Livro da Unidade. 
Dias antes - a 16, 23 e 24 de Abril - tinham-se realizado palestras  sobre o acto eleitoral, orientadas por oficiais do Comando Territorial de Carmona (CTC) e do BCAV. 8423, ambos delegados do MFA. A 21, o brigadeiro comandante do CTC esteve no BCAV. 8423, acompanhado do seu Chefe do Estado Maior - com cerimonial que envolveu uma formatura geral na parada do BC12 (foto).
O dia 25 de Abril, para além do acto eleitoral para a Assembleia Constituinte, foi assinalado com «cerimónia simples mas singela», no CTC, com o içar da bandeira nacional e honras militares, na presença de todos os oficiais do mesmo CTC e do BCAV. 8423.
Assim se festejou o primeiro ano do 25 de Abril, em Carmona. Por Luanda, em devaneios de juventude, eu e o Cruz continuávamos a gozar as nossas férias.