segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Oa 4 leitões roubados ao Pelotão de Intendência


O 1º. aniversário do Pelotão de Intendência iria ser festejado com muita pompa, no dizer do alferes que o comandava. Foram comprados quatro magros leitões que, de imediato, passaram à fase de engorda.
Iriam (e foram) ser alimentados com produtos da xitaca, restos de comida do rancho geral e da messe de sargentos. Da messe de oficiais, não sobrava nada, diziam, por uma razão que não vem, hoje, ao caso.
Os leitões engordavam a olhos vistos, com um pêlo luzidio que dava gosto ver. De tal maneira, que passaram a ser alvo de cobiça por parte de quatro militares da CCS, que não viravam a cara a um bom petisco. Não havia nada a fazer, o destino dos suínos estava traçado! E não tardou muito que o primeiro caísse nas malhas do quarteto, com tal habilidade que nem o silêncio da noite os denunciou.
«O que é feito do porco, pá?..., como é que o gajo saiu?!...», interrogavam-se os proprietários, por não verem qualquer hipótese de fuga! E voltaram a interrogar-se mais três vezes, tantas quantos os suínos desaparecidos.

Não se conformaram os homens da Intendência e disso deram conta ao capitão! E dali saiu um auto a… desconhecidos! Apenas mais um de muitos autos levantados, alguns tão surreais e cómicos, com o devido respeito, que aqui não vou falar! Certo é que se consumaram as churrascadas, feitas pelas mãos de quem sabia – uma por semana! Mas, contaram-me, nem tudo foram rosas e um dos animais ainda bateu a pata antes de se entregar para repasto. Um dos elementos ter-se-á embrulhado com ele numa luta corpo a corpo, para impedir os grunhidos, acabando mordido e num estado tal que não havia margem para dúvidas: a luta tinha sido travada numa pocilga!
Quando já se acreditava em “crime perfeito”, quis o destino que um elemento do quarteto apanhasse uma bebedeira de “caixão à cova” e, ao exibir a sua valentia alcoólica no bar, exclamasse: «O pá, avance o primeiro que aguente cerveja com eu!…, e com um leitão assado, aberto e de churrasco ainda embocava mais c…….!!!...».
Ao furriel, a jantar mas atento aos excessos, não escapou o deslize e montou-lhe o cerco no dia seguinte, “espremendo-o” ao primeiro bocejo da manhã. Surpreendido e ainda com a boca a saber a papéis de música, logo ali confessou tudo!
«Ó mô furriel…,ó mô furriel!..., eu “esplico”!..., balbuciava o Neves. E explicou mesmo, sem sair da cama!
Afim de evitar punições disciplinares para o quarteto, faria de conta que nada sabia, desde que lhe pagassem os leitões. E pagaram, mas bem inflacionados! O dobro…, garantem ainda hoje! Mas antes assim!
O auto, esse ficou como todos os outros! Esquecido na gaveta!
ANTÓNIO CASAL

(CCS do BCAC. 3879)

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O alferes «Ranger» João Machado da Companhia de Aldeia Viçosa


João Machado foi alferes miliciano dos que não olhavam para trás  -  se o perigo espreitasse, se se tivesse de gritar uma ordem de combate, se se vivesse algum momento de medos e de frios. Se os cheiros da pólvora, ou os pavores da metralha nos enlutassem a alma, nos adormecessem o corpo ou anestesiassem a coragem.Coragem que nunca lhe faltou.
Jornadeou por Lamego, onde, no mesmo curso, vestimos o camufalado da instrução «Ranger». Liderou, depois, a escola de recrutas da 2ª. CCAV. 8423, como adjunto do capitão Cruz, em Santa Margarida, e daqui, por Lisboa e para Luanda, galgou os ares e os mares até Aldeia Viçosa - onde oficialou na guarnição da vila.
As suas qualidades de comando foram sublinhadas por Almeida e Brito, o tenente-coronel que liderou o BCAV. 8423 por terras do Uíge, dele falando como «um bom oficial», competência que, frisou, «sobretudo se tornou notória no todo coeso que conseguiu dos homens que comandou».
Comandou um grupo de combate da 2ª. CCAV. e as suas qualidades ampliaram-se na função de adjunto do Comandante da Companhia, «manifestando sempre a maior vontade e determinação nas situações que lhe foram impostas».
O sentido de servir e a extrema dedicação, «casou-os» com a enorme capacidade física e mental - que lhe deram lastro para, nos amargos dias de Carmona, ter «actuação de destaque». Em Junho de 1975, releio no Livro da Unidade, «no decurso dos graves incidentes, nova e mais abertamente pôs as suas qualidades à prova».
O alferes Machado, então soldado-cadete, foi contemporâneo do 2º. curso de Operações Especiais (Rangers), em Lamego. Com o Mário Sousa e o Pinto (1ª. CCAV.), o Letras (2ª.) e o Rodrigues (3ª.), o Garcia, o Monteiro, o Neto e o Viegas (CCS).  Por lá, como nós, sofreu as dores da alma e do corpo, que nos prepararam a para a guerra que íamos viver. Foi 24º. classificado do curso de oficiais milicianos, com 14,54 pontos de média final - tirada dos 13,70 de mérito escolar e 15,80 de mérito militar. Curiosamente, exactamente a meio dos 47 cadetes que ficaram Ranger´s. Oito, não o concluíram, passando atiradores de cavalaria.
Foi um dos bravos Cavaleiros do Norte e com ele ontem cavaqueei ao telefone, lembrando momentos e figuras da missão que nos levou a Angola. Acháramos-nos em 1995, 1995 e 1996 (nos encontros do BCAV.) e uma outra vez nas areias da praia de Santa Eulália, no Algarve. Ontem, disparámos sobre essas e muitas outras recordações e matámos, de uma cajadada, a emoção que nos faz saudosos de Angola e o gosto do pão do nosso próximo encontro.
- MACHADO. João Francisco Pereira Machado, alferes miliciano de Operações Especiais (Ranger´s), aposentado da administração fiscal e residente nas Amadora. Foto de 1995.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

O 1º. Encontro dos Cavaleiros do Norte, em 1994


O primeiro encontro dos Cavaleiros do Norte, depois do regresso de Angola (em Setembro de 1975), aconteceu em Águeda, na Estalagem da Pateira, a 9 de Setembro de 1995. Faziam-se 20 anos do nosso regresso de Angola.
O encontro foi de muitas emoções, que verteram lágrimas de saudade e alegria, nos abraços mil vezes repetidos entre rapazes que tinham selado fartas amizades e solidariedades nas terras do Uíge.
Quero dizer, e sem exagero ou deslumbramento, que me empenhei pessoalmente de forma exaustiva. Localizei a maior parte dos 93 militares do Batalhão que participaram a partir de centenas de telefonemas e de uma base de dados de... memória. Ora, fulano chama-se assim, é de tal parte, vê na lista telefónica. E quando não a tinha, ligava às informações. Semanas seguidas de serões do verão de 1994 foram passados assim. Gastei uma pipa de massa.
O Matos, da 2ª. CCAV., quis até fazer um peditório, mas recusei. A minha grande compensação foi sentir a alma e a de todos aqueles companheiros a ferver de alegria.
Podia recordar desse dia um mar de momentos mágicos. Vou lembrar o que se seguiu ao desta foto, onde apareço a ler mensagens de companheiros que não puderam estar. Falei das memórias de uma jornada africana que nos engradecera e orgulhara, citei Almeida e Brito como o comandante certo na hora certa. E, simbolicamente, chamei o Cabrita ao pequeno palco, para, ele que era o menos graduado de todos nós, entregar a Almeida e Brito uma peça de faiança de Águeda. Foi um momento simbólico e emotivo, ovacionado de pé. 
O Cabrita, nervoso, chegou-se ao pequeno palco e embaraçou-se com a peça de faiança na mão, ia deixando cair. Entregou-a «ao nosso comandante» e o abraço forte que trocaram simbolizou a irmandade que todos nós, sem saber, quiçá sem darmos por ela, tínhamos construído na nossa jornada de África.
A 9 de Setembro de 1994.
- ALMEIDA E BRITO. Carlos José Saraiva Lima Almeida e Brito, tenente coronel e comandante do BCAV. 8423. Atingiu a patente de general e faleceu a 20 de Junho de 2003.
- MATOS. Mário Augusto da Silva Matos, furriel miliciano atirador de cavalaria, da 2ª. CCAV. 8423. Natural e residente em Anadia.
- CABRITA. António Santana Cabrita, soldado básico, natural de Alvor (Portimão). É empresário do sector da pesca, em Cascais.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A escolta na picada de Zalala


Aquartelamento de Zalala, por onde jornadeou a 1ª.
CCAV. 8423 - que ali foi a última guarnição das Forças Armadas Portuguesas


ANTÓNIO FONSECA
Texto

A partida para uma escolta era sempre bem alicerçada em planos e estratégias, nunca se sabendo como iria decorrer, por mais simples e inofensiva que à partida nos parecesse. Recordo uma escolta e protecção ao pessoal da Junta Autónoma de Estradas de Angola (JAEA), na picada para Zalala, numa zona de visibilidade reduzida e onde já se tinham registado alguns acidentes com viaturas militares. Creio, até, que se deveu também ao facto de ser considerado um local pouco seguro, e onde se teriam registado já alguns incidentes com o IN. Foi, se não me engano, a terceira vez que eu passei por aqueles lados, embora nunca tenha parado na picada, porque ao que íamos a isso não obrigava. E quanto mais depressa passássemos, melhor!
Pela primeira vez tive a noção dos perigos que continha e a fragilidade a que estava sujeito quem nela transitava - na minha única ida a Zalala, pouco depois de ter chegado ao Quitexe, fiz o percurso num espírito de “excursão”, apenas para cumprir uma missão a que me comprometera. Desta vez, senti na pele e na alma os receios e os perigos de que muitos falavam quando já se encontravam bem seguros na vila do Quitexe.
Parece que ainda estou a ver a vegetação que nos ladeava: alta, fechada e de difícil transposição.
«Isto é uma autêntico muro!,.., será que não estão ali a cinco metros a olhar para nós e a gozar o pagode?!», murmurei eu ao furriel, à espera que ele me dissesse que não, para me deixar mais tranquilo!
«Ó pá…, isto está controlado mas deves saber bem onde estamos!!!».
Não fora por acaso que, ao ordenar a posição de cada um, me mandasse sentar ao lado da roda do “burro de mato” com o rádio TR 28 camuflado. A meu lado, estava sempre o Canidelo, tão valente na mata como no refeitório, e que nunca se descolava de mim um minuto que fosse. Era o meu “guarda-costas”, lembrava ele ao alferes!

O dia decorreu sob um calor abrasador, que ainda tentou alguns a deitarem-se debaixo das viaturas, mas o rigor de quem mandava e tinha a responsabilidade de manter a segurança, não deixou pôr o pé em ramo verde. Qualquer “balda” seria sempre um risco e sinónimo de desrespeito para com o restante grupo. Foi também graças a essa rigidez disciplinar que todos voltámos, sempre, das escoltas e operações durante quase 27 meses!
Estávamos em Setembro/Outubro de 1972 e os principais alvos eram, naquele período, os fazendeiros, os seus trabalhadores e funcionários da Junta Autónoma de Estradas de Angola. E por eles, também, nunca nos poupámos a esforços!
ANTÓNIO FONSECA






quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Os exercícios finais da Escola de Recrutas do BCAV. 8423

Marco geodésico da Mata do Soares, nos arredores do Campo Militar de Santa Margarida, onde decorreram os exercícios finais da recruta do BCAV. 8423 (em cima). Neto e Veigas, num carro de combate do RC4

A 17 de Fevereiro de 1974, ao príncípio da noite desse domingo de que hoje se fazem 37 anos, lá partimos nós - o Neto e eu - para Santa Margarida, onde ao outro dia dia começar a chamada instrução especial, que encerrava a escola de recrutas. Os dias de campo, que se iriam estender pela conhecida Mata do Soares. Até 6ª.-feira seguinte, dia 22. E assim foi. A estrutura orgânica do Batalhão de Cavalaria 8423 já estava definida, na sa quase totalidade - sobrando meros pormenores. Por exemplo, não conhecíamos ainda, a esse tempo, quem seriam os futuros furriéis enfermeiro (o Lopes, de Vendas Novas) e rádiomontador (seria o Cruz). E faltavam os oficiais milicianos de reabastecimentos - que seria o alferes Gaspar José F. Carmo Reis, dado como «incapaz para o serviço militar» - e, se me lembro bem, o de transmissões, o alferes José Leonel Pinto de Aragão Hermida. Talvez outros, ainda.
A semana de campo não iria ser nada fácil, com exercícios fisicos e técnicos muuito exigentes, mas era para a guerra que aqueles jovens de então se preparavam e nada melhor, por isso, que adestrar o corpo e a alma ao que seriam os perigos que nos esperavam nas matas de Angola.
Os exercícios tácticos e de técnicas de combate desenvolveram-se na conhecida Mata do Soares, por onde alguns de nós sofreram as dores da preparação que nos tornariam os futuros e garbosos Cavaleiros do Norte.
Ver AQUI

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A preparação militar do BCAV. 8423 em Santa Margarida


PELREC, já em Angola. Alferes Garcia (1º. de pé, do lado direito) e furriéis Neto (1º. em baixo do mesmo lado) e Viegas (6º. da esquerda para a direira, de pé). 
Clicar na imagem, para a ampliar

Os meados de Fevereiro de 1974 foram de instrução nas matas de Santa Margarida, campo militar por onde se realizaram dezenas ou centenas de escolas de recrutas e se prepararam dezenas de milhares de nomes para a então chamada guerra do ultramar. Por lá passou o Batalhão de Cavalaria 8423, em semanas de alguma dureza, preparando corpos e almas para a missão que o destino lhe fadara: ir para Angola.
A instrução era realmente dura e nela, garbosos e irreverentes, davamos nós o nosso melhor, emprestando a nossa melhor sabedoria, a maior competência e resistência, para adestrar os companheiros praças que, chegados das suas terras, ali se «faziam» atiradores de cavalaria.
Os do futuro PELREC eram particularmente «apanhados» pela rigidez dos ensinamentos e treinamentos de técnicas de combate e de sobrevivência, de resistência à sede e à fome que aprenderamos no CIOE, em Lamego. Nesses dias duros, quiçá violentos, assim, em um ai..., se modelaram bravos soldados, companheiros sem um falha de coragem e de solidariedade - que tão úteis nos viriam ser em Angola.   
«Um destes dias vamos para a mata, para os exercícios finais», disse-nos um dia, na parada do Destacamento do RC4, por trás do cinema, o aspirante a oficial miliciano Garcia - que era já o nosso comandante de pelotão. Eram os dias decisivos que se aproximavam cada vez mais: o IAO.
- PELREC. Pelotão de Reconhecimentro Serviço e Informação, pelotão operacional da CCS.
- CIOE. Centro de Instrução de Operações Especiais, em Lamego - onde o aspirante e futuro alferes miliciano Garcia e os 1ºs. cabos  milicianos (futuros furriéis) Monteiro, Viegas e Neto tiraram a especialidade de Operações Especiais (Rangers´s).
- IAO. Instrução de Aperfeiçoamento Operacional, preparação militar pré-embarque para teatros de guerra.

O bravo alferes miliciano Carvalho de Aldeia Viçosa


O Carvalho era alferes miliciano atirador de cavalaria. E com um homem destes, ninguém se deve meter. Jornadeou por Aldeia Viçosa, sob o comando do capitão miliciano José Manuel Cruz - da 2ª. CCAV. 8423.
Ele mesmo, com o conhecimento e experiência que o oficialato lhe deu, liderou um pelotão que a Angola foi em missão de paz e de bem, mas que ainda teve de se enfrentar com os dramas e as tragédias que se adivinhavam de cada vez que, saltadas as vedações do aquartelamento de Aldeia Viçosa, se dirigiam às picadas de susto e às matas de medos do Uíge que era terra de guerra e de sangue. E depois em Carmona, nos amargos tempos de Junho de 1975.
O alferes Carvalho era um companheiro divertido, de piada solta, espírito alegre, aberto a qualquer brincadeira que desbloqueasse tensões na guarnição - genética que lhe fez, facilmente, conquistar as graças do pessoal.
«Disciplinado, cumpridor, soube transmitir estes predicados aos seus subordinados e restante pessoal da sua subunidade, o que muito contribuiu para facilitar a acção de comando em que se enquadrava», lê-se no Livro da Unidade.
Foi louvado pelo Comandante do BCAV. 8423, por proposta do capitão José Manuel Cruz, comandante da 2ª. CCAV. E o louvor, publicado na Ordem de Serviço 169, dá conta de um oficial miliciano  que «sempre soube cumprir as missões que lhe foram solicitadas no decorrer da sua comissão de serviço na RMA, quer no comando do seu grupo de combate, quer em outras quaisquer situações onde foi necessária a sua ajuda e trabalho».
Foi um bravo Cavaleiro do Norte, com amizade pessoal, que se «esticou» pela vida civil de ambos.
A minha continência, meu alferes!
- CARVALHO. Domingos Carvalho de Sousa, alferes miliciano
 atirador de cavalaria, natural e residente em Marrazes (Leiria). 
É técnico de vendas. Foto de 1994.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O ópio do povo que destressava os militares do Quitexe



Aqui se tem falado tanto de futebol, em vez de guerra, que me ponho hoje de «guarda» para voltar a falar desse ópio que transforma o povo e destressa pressões, à mistura com muitos nomes às santas das mães e às fiéis das mulheres.
António Casal, a propósito do que Eugénio Silva aqui veio falar de um craque do Quitexe, o Alvarito, veio aprazer-se a refrescar-lhe a memória.
Então, caro contemporâneo de Carmona e engenheiro da Sonangol, o Faruk, diz o Fonseca, era soldado e médio, baixo e possante. O Nelson (guarda-redes) e Victor (médio), eram ambos furriéis. Todos eram jogadores da então 2ª. Divisão Nacional, tal como o Alvarito que, curiosamente, era adversário de Victor. O Marinhense do Alvarito e o Caldas do Victor, pertenciam à mesma série.

Quanto ao boato do perecimento de Alvarito, ele ocorreu em 1973. E correu célere, qual internet nos nossos dias!
Eugénio Silva, por sua vez, vem presentar-nos com esta foto, do estádio dos Coqueiros, em Luanda, em 1972 ou 73, num jogo do Recreativo do Uíge contra o Benfica de Luanda, a contar para o campeonato provincial da segunda divisão, zona Norte.
O Alvarito, diz Eugénio Silva, certamente se recorda de nomes como Nelson, Fernando Correia, Ernesto, Hélder, Piscas, Caseiro, Acácio, Faruk, Victor e Silva. Quem lhe enviou a foto (a ES), foi o filho do Hélder.
Alvarito, o tal craque do Quitexe, é o último da direita, em baixo.

«Não me lembro do resultado deste jogo, mas o Recreativo do Uíge era muito forte!», comentou Eugénio Silva.
E, pronto, hoje não falámos de guerra!!
Mas fica o desafio para os especialistas: identificar estes fulaninhos que trocavam a farda e a espingarda pelos calções, pela camisola e as chuteiras e uma bola.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A extinção do Comando de Sector do Uíge


O Comando do Sector do Uíge (foto) foi extinto a 13 de Fevereiro de 1975 - faz hoje 36 anos, precisamente. Não tenho memórias especiais deste edifício, no qual estiveram instalados os Comandos do Sector e a logística que apoiava o enorme província do Uíge, cuja capital era Carmona.
O BCAV. 8423 passou a depender directamente da ZNN - em Luanda. Espalhava-se por Quitexe (CCS e 3ª. CCAV.), Aldeia Viçosa (2ª. CCAV,) e Vista Alegre  e Ponte do Dange (1ª. CCAV.). Há tempo que tinham sido abandonadas as fazendas de Zalala e Santa Isabel.
Por uma vez, estive lá em reunião do MFA e do encontro não tenho grandes recordações, pois tive um desaguisado com um oficial do movimento - que chegara de Luanda e nos mostrava planos atrás de planos, sobre a forma como deveriam agir os Cavaleiros do Norte. A «coisa» ia dando para o torto - porventura devido a alguma impertinência minha, que sempre reagia menos bem a imposições que achava mais arbitrárias. E nesta coisas, é bem sabido, quem se lixa é sempre o mexilhão. Se é que, no caso, nem tal  aconteceu.
Estou em crer que a 1ª. CCAV. 8423, depois de sair de Vista Alegre e Ponte do Dange e da passagem pelo Songo, esteve algum tempo instalada neste edifício.
Ver AQUI.
Ver AQUI.



sábado, 12 de fevereiro de 2011

O 2º. aniversário da comissão dos Artilheiros do Quitexe

Comemorou-se na CCS, num ambiente de festa e justificada alegria, o 2º. aniversário do Batalhão de Artilharia 786. O último domingo do mês de Maio de 1967 significava, para todos, o termo de uma obrigação de serviço que exigiu muitos sacrifícios, a meta que todos atingiram de cabeça erguida, o fim da comissão! Justificava-se, assim, o ar festivo que pudemos verificar em todas as manifestações incluídas no programa do dia, não tendo faltado, contudo,um momento de recolhimento e de saudade, expresso numa romagem ao cemitério da vila.
Após ter ouvido missa na capela do Quitexe, todo o pessoal do Comando, CCS e representações das CART´s, se reuniu, com as famílias e convidados, num almoço de confraternização. Saliente-se a presença do Governador do Distrito do Uige (e esposa), comandante interino do Sector I, comandante do AB 3, CEM do Sector I, 1º. e 2º. Comandantes do BCAÇ 3, administrador do concelho do Dange, alguns oficiais das Unidades vizinhas e representantes das fazendas da ZA.
Findo o almoço, aos brindes, foi enaltecida a notável acção desenvolvida pelo Batalhão ao longo de 24 meses de permanência na ZIN.
Cerca das 21 horas e dentro do programa do dia, realizou-se um serão recreativo que decorreu com a maior animação. O espectáculo, realizado ao ar livre, em recinto preparado para o efeito, reuniu a família militar (SubUnidades próprias e de reforço) e a população civil, em mais uma jornada de são companheirismo, de amizade e camaradagem, que esteve na base do éxito alcançado pelo Batalhão na sua passagem pelo Quitexe.
O espectáculo foi repetido na noite de 29, para o pessoal que não pudera estar presente na noite anterior, em virtude de imperiosos motivos de serviço.
A terminar, uma palavra de agradecimentoa quantos colaboraram, com dedicação e a melhor vontade, neste espectáculo que marcou o encerramento das actividades do Grupo Cénico do Batalhão.
JOSÉ LAPA
(foto)
Quitexe, 28 de Maio de 1967

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Apresentação formal do emblema do BCAV. 8423

A 11 de Fevereiro de 1974, no Destacamento do Regimento de Cavalaria nº. 4, em Santa Margarida, foi formalmente apresentado o emblema do Batalhão de Cavalaria 8423, servindo o lema «Perguntai ao Inimigo Quem Somos», que era (e é) «pertença das tradições da unidade mobilizadora».
O emblema do BCAV. 8423 era (é) em fundo preto (como se vê na imagem), definindo-se outras cores para as companhias operacionais: vermelha (1ª.), azul (2ª.) e castanho 3ª).
O então tenente-coronel Almeida e Brito, comandante do BCAV. 8423, que então se formava, escreveu no Livro da Unidade prosa que aqui recriamos em forma de entrevista, explicando o lema «Perguntai ao Inimigo Que somos» e o que era ser soldado do BCAV. 8423.
- P1: O que é ser-se de cavalaria?
- AB: Não é ser-se melhor, nem pior, é ser-se diferente. Ser-se do RC4, é obedecer ao lema «Perguntai ao Inimigo Quem Somos».
- P2: Como se poderá atingir a qualidade?
- AB: Com aprumo permanente, asseio irrepreensível, pontualidade em extremo, dedicação até ao sacrifício, interesse total, educação firme, valentia até ao destemor.
- P3: Assim se será, também, um soldado BCAV. 8423?
- AB: Assim se será um soldado do BCAV. 8423 e daqueles a quem o inimigo, ao perguntará quem és, te achará diferente.
- P4: Quais são as melhores virtudes de um soldado?
- AB: A resignação, a coragem fria, a disciplina, a confiança nos superiores e a subordinação. A anulação do interesse individual, perante o da colectividade. O que sabe o que quer, sem exigências e sem dúvidas, e se entrega con generosidade total, cumprindo e fazendo cumprir tudo o que envolve a palavra servir.
- P5: É também aquele que querer e sabe querer?
- AB: É aquele que querer e sabe querer e que tem por fim único servir bem, por enlevo a glória e por único móvel a honra e a dignidade.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A «psic» dos jogos de futebol do Quitexe

Futebol uma equipa da CCS. Em cima, Grácio, Gomes, Miguel (1º. cabo), Botelho
(Cubillhas), Miguel (furriel miliciano paraquedista), NN e Soares (em cima).
Miguel (condutor, ?), Mosteias, Lopes, NN, Monteiro e Teixeira (estofador).
Alguém pode ajudar a identificar os desconhecidos?




O tempo de Fevereiro de 1975, no Quitexe, foi também tempo de futebol - ora entre equipas do batalhão, ora contra formações civis. Os jogos do campo ao lado da estrada para Carmona, antes do quartel da OPVDCT, foram «batalhas» menos perigosas que as operações militares, mas disputados com ardor verdadeiramente guerreiro.  
O Livro da Unidade, relativamente a este período, dá conta que «a saída do oficial de acção psicológica (...) e a sua substituição, fez melhorar o panorama dos trabalhos inerentes àquela função, impulsionando-se a prática de jogos desportivos». E o futebol, obviamente, era rei.
Recordo-me, agora, de um jogo de um domingo à tarde, estava eu de piquete, de que não sei o resultado mas que envolveu umas breves escaramuças entre civis e militares, que implicaram a nossa intervenção  para aliviar os ânimos, que se exaltavam - depois de umas cucas, uma ekas ou umas fartas nokais bem bebidas, seguramente por excesso. Nada que não se resolvesse, com mais berro menos encontrão.
Antes dos Cavaleiros do Norte, de 1965 a 1967, conta-nos José Lapa que havia no Quitexe uma equipa que tinha as camisolas amarelas, com punhos e golas pretas, calção preto e meias também pretas. Os jogadores do Clube Desportivo do Quitexe eram todos, mas mesmo todos, militares do BART 786. Entre eles, havia um que sobressaía pela sua classe: o Zé Manel, atleta  do S.C.Beira-Mar, clube de Aveiro que na altura militava no segundo escalão do futebol nacional.
«Era um bom ponta-esquerda!», recodou José Lapa, acrescentando que «nesses anos, nos distritais, ficaram agrupadas as  equipas do C. D. Quitexe, Futebol Clube do Uige, Recreativo do Uíge e Sporting do Negage».
Quanto à agressividade, nos jogos no Quitexe, recorda José Lapa que «a coisa era mesmo real,aquilo era a tocar o rasgadinho que nem queira saber».
Ver AQUI.
E AQUI.
Também AQUI.
E AQUI.
- OPVDCT. Organização Provincial de Voluntários da Defesa Civil do Território, força paramilitar.
- Eka, Nocal, Cuca. Marcas de cerveja angolana.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Guião e emblema do Batalhão de Cavalaria 8423



Aos idos dias de Fevereiro de 1974, há 37 anos, jornadeavam os futuros Cavaleiros do Norte pelo Campo  Militar de Santa Margarida, sabendo já que o destino era Angola, mas desconhecendo o poiso da guarnição. Viria a ser no Quitexe, como todos depois soubemos. E em Zalala, em Aldeia Viçosa e Santa Isabel.
Os praças aprontavam especialidades, disparando e marchando os atiradores; batendo teclas os amanuenses e os escriturários; radiomontando os homens da transmissões, mecanizando-se os das oficinas (auto e de armamento) e conduzindo os condutores, enquanto os enfermeiros treinavam as seringas e termómetros, mercenava o carpinteiro e especializavam-se os cozinheiros em ementas, enquanto os sapadores treinavam a montagem e desmontagem de minas e armadilhas e os futuros homens do aprovisionamento faziam contas e simulavam compras.
Levedava-se o espírito de grupo.
Nos primeiros dias de Fevereiro, agora se fazem 37 aninhos - vejam lá como o tempo passa!!!!... - ficámos a conhecer o emblema da unidade. «Desejando-se desde o início instituir espírito de corpo no BCAV., de modo a que constituíssse num todo coeso, disciplinado e disciplinador, começou a idealizar-se o futuro emblema braçal, ao mesmo tempo que se desejou a sua plena identificação com a sua inidade mobilizadora», leio no Livro da Unidade.
O Unidade Mobilizadora era o Regimento de Cavalaria 4 (RC4), logo, inevitavelmente, o cavalo e o cavaleiro apareciam estampados no emblema, estilizados e simbolizando a força e capacidade de combate. Confesso que, pessoalmente, não gostei muito do emblema - quando a ideia nos foi mostrada pelo então aspirante miliciano Garcia, que nos perguntou do que achávamos. Mas, obviamente, nada valeu a opinião, pois quem mandava era quem decidia. E decidiu. Hoje, aqui o digo, olho para o emblema e arrepia-se-me o corpo e alegra-se-me a alma. Tive (tenho) orgulho de servir Portugal, sob  a nossa bandeira e o emblema dos (então) futuros Cavaleiros do Norte.
Já agora, imagina, quem o BCAV. 8423 epitetou de Cavaleiros do Norte? 
Voltaremos ao tema, por estes dias!  

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O futebol do Quitexe e o Alvarito do Recreativo do Uíge




EUGÉNIO F. SILVA
Texto

O blogue fez referência ao Alvarito que jogou no Clube Recreativo do Uíge. Eu conheci-o muito bem,  pelos golos que marcava. Era um grande goleador! Conheci também o guarda-redes Nelson, não sei se era ele o furriel; conheci um grande médio, alto, chamado Vítor; conheci outros jogadores deste clube, de que eu muito gostava, como o veloz Acácio, Faruk, Zé Alberto, Hélder, Faria, Ezequiel, Polainas, Duarte, Albertino, os guarda redes Lima, Rego, Durão e Ernesto, a maior parte deles eram militares.
O Clube Recreativo do Uíge era a equipa que eu mais gostava. Assisti a vários jogos por eles realizados!

Havia no Quitexe uma equipa que tinha camisolas amarelas e calções pretos, meias amarelas ou pretas, que disputava também o Distrital do Uíge, mas penso que o Celestino Viegas já não a encontrou quando esteve Quitexe! Diziam-me que era muito agressiva, quando perdia em casa. Eu nunca vi nenhum jogo em Quitexe, nem no Negage, via apenas em Carmona.
Fico contente por saber que o Alvarito está vivo, porque,  em 1972 ou 1973, eu tinha ouvido um colega de turma, filho de um dirigente do FC do Uíge, a dizer que ele tinha perecido numa frente de combate. Eu não acreditei. Agora, será ele que fracturou a perna? 
Sabem que o CRU e o FCU eram rivais de Carmona!

- EUGÉNIO F. SILVA. Engenheiro Gedofísico, na Sonangol, em Angola. Estudante do Liceu de Carmona (Uíge) em 1975. A sua família foi uma das recolhidas no BC12, aquando dos graves incidentes de Junho daquele ano.
Ver AQUI.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O fim das escoltas na estrada do café

Militares do PELREC da CCS do BCAV. 8423, que muitas escoltas fizeram: Almeida (1º. cabo, já falecido), Messejana, Dionísio, Soares (1º. cabo), Pinto e Florêncio (em cima), Vicente (1º. cabo, ja falecido), Viegas (furriel), Marcos e Leal (já falecido)

A 7 de Fevereiro de 1975, oficialmente, deixaram de ser feitas as escoltas à estrada do do café - a que ligava Carmona a Luanda e por onde passava muito tráfego de transportes de mercadorias. Era uma missão nem sempre feita em asfalto, pois por vezes tínhamos de ir a fazendas ou a zonas de floresta, apoiar os camionistas.
Era, em qualquer dos casos, uma tarefa muito desgastante e exigente, ora para o pessoal, ora mesmo para as viaturas. E, por estas, lá vinha sempre, e em tempo próprio, a competente manutenção do grupo oficinal, comandado pelo habilitado e sempre disponível alferes Cruz.
Cobríamos o percurso de meio de Carmona para o Quitexe e deste até Aldeia Viçosa. E sempre havia incidentes, de maior ou menos gravidade - nomeadamente com camionistas de longo curso, que transportavam enormes tonelagens de cargas, sempre cheios de pressa e muito renitentes ao controlo que fazíamos - o mais discreto possível. E eficaz, como tinha de ser.
Uma vez, entre Quitexe e Carmona, um motorista chegou a querer disparar sobre os militares e gerou-se uma situação muito constrangedora - pois teve de ser detido e entregue às autoridades civis, sob suspeita de fazer transporte de armas, camufladas em sacos de café.
A decisão de acabar com as escoltas foi, obviamente, muito bem recebida na guarnição - pois não!!!, pudera!!!... - mas infelizmente, meses depois, já quando os Cavaleiros do Norte estavam em Carmona, tiveram de ser retomadas. E, obviamente, tal não aconteceu pelas razões mais pacíficas.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

A carreira de grande futebolista «perdida» no Quitexe

ALVARITO, militardo Quitexe. Equipa do Marinhense de  1970/71, que quase subiu à 1ª. divisão. Em cima, Pinto (treinador), Manuel Joaquim, Carlos Alberto, Vitor Manuel, Parada, José Morais, Ribeiro, Florival, Cardoso e Anacleto. Em baixo, Leitão, Jacinto, Cunha Velho, Naftal, Carapinha, Zeca e Alvarito

ANTÓNIO FONSECA
Texto

Quando escrevemos um texto, corremos o risco de omitir este ou aquele pormenor – também não se pode exigir demasiado da memória -, ou este ou aquele camarada d’ armas. Vem isto a propósito de aqui ter falado do Alvarito, que no Recreativo de Carmona espalhou o seu perfume futebolístico. E digo perfume, sem qualquer favor. Aliás, o termo nem é meu mas sim de quem o via actuar em campo!

Entretanto, recebi uma “reclamação” do meu amigo Matos que não esteve com meias medidas e interrompeu-me o jantar: «ouve lá ó amigo, eu também joguei no Recreativo e não falaste de mim!..., como é?!». Se diz que jogou é porque jogou…mas eu não me lembro, desculpa!
Hoje mesmo, liguei ao Alvarito e convidei-o para almoçar. Entre uma garfada e um copo, fomos desfiando recordações quitexanas, tanto quanto nos permitiu a nossa memória. Umas deixaram-no de boca aberta, outras deixaram-me de queixo caído. Tudo fruto da pirataria que os nossos 22 anos nos permitiam, mas que não posso aqui contar. Mas posso, isso sim, dizer que a minha Companhia tinha por lá outros craques, não tão “luminosos”, é certo, mas que não deixaram os seus créditos por pés alheios. Os furriéis Nelson e Victor, os soldados Silva e Matos, o “cambuta” do P. Morteiros, um outro que não recordo o nome e…o Alvarito. Todos jogaram no Recreativo de Carmona. Era um orgulho para a malta da CCS, mas não tanto para o Capitão que nunca viu com bons olhos o “sucesso” dos homens da bola. E demonstrou-o sempre que para isso teve oportunidade – e quando não tinha, inventava-a! «As coisas que aquela cabecinha ia buscar ao RDM!..., mas acredita que tenho saudades do homem! Éramos uns putos e lá tivemos de ser homens à força! Que tempos pá…que tempos!...», diz-me o Alvarito em tom nostálgico!
Ciente das suas capacidades, ansiava pelo regresso à então Metrópole, disposto a ser profissional, preparando-se técnica e fisicamente. O quintal da casa das transmisões era o seu ginásio, entre uma bananeira e um coqueiro, onde “forrava” o chão com dois ponchos. Tudo corria bem, até ao dia em que uma infantil brincadeira lhe fracturou um pé. Chorou convulsivamente, temendo o pior para o seu futuro no mundo do futebol. E assim aconteceu! O que podia e devia ser tratado, nunca o foi, convenientemente, apesar das atenções do Dr. Leal e de toda a equipa da enfermaria. Outros passos deviam ter sido dados, mas pesou, e muito, o facto de ser soldado “raso”, como viria a reconhecer, já no final da Comissão, o 2º. Comandante, que lhe reconhecia os dotes.

Passados todos estes anos, ainda cuida da mazela que, diz, lhe roubou o seu grande sonho! «Custou-me muito mas valeu a pena ter conhecido o Quitexe e muita malta fixe que lá morava! Se valeu!...», rematou ele, saudoso!


















sábado, 5 de fevereiro de 2011

A última reunião dos Comandos do Comando de Sector do Uíge

Busto de Acílio Gala, na cidade do Songo, no 
Uíge (norte de Angola) e crachá do BCAÇ. 5015


A 5 de Fevereiro de 1975, realizou-se a última reunião dos comandantes das unidades do Comando do Sector do Uíge - que ia ser extinto no dia 13 seguinte. Foi no Songo, por onde ao tempo jornadeava o Batalhão de Caçadores 5015.
O comandante Almeida e Brito fez-se acompanhar do oficial-adjunto (capitão Falcão) e do delegado dos oficiais ao MFA - movimento que por lá também reunia.
A rotação do BCAV. 8423 era cada vez mais iminente e os comandos das unidades do Sector acertavam os movimentos que se seguiriam. As suas subunidades, ao tempo, sofriam o desgaste psicológico resultante das incertezas quanto ao futuro próximo e o cansaço físico provocado pelas cargas operacionais diárias - nomeadamente nos patrulhamentos de itinerários, pois tinham terminado as operações no mato. E acumulavam também algumas dificuldades logísticas. «Estavam a  braços com alguns problemas, no respeitante às suas cargas», refere o Livro da Unidade.
Ao Songo, creio ter ido duas ou três vezes, não mais - e nem tenho bem ideia de datas, sendo certo que foi entre 2 de Março e 3 de Agosto de 1975 (período que corresponde à nossa estadia em Carmona). Não tenho, pois, grande recordações da vila, mas agora, ao despistar imagens de lá, refresquei a memória num busto: o de Acílio Gala, cidadão que não conhecia e com quem, bem depois, partilhei actividade profissional durante anos. Foi presidente da Câmara Municipal de Oliveira de Bairro e deputado da Assembleia da República. No Songo, foi presidente da Câmara e Administrador do Concelho e virtudes teve que levaram a comunidade local a homenageá-lo, a 15 de Julho de 1973.
Vejam bem como a vida é!

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Medalha Militar para o tenente Acácio Luz

 s
Alferes Ribeiro e Garcia, tenentes Luz e Mora, na
avenida principal do Quitexe. A casa com a bandeira
era a do edifício da secretaria do Comando do BCAV. 8423


 
O tenente Luz era o chefe da secretaria do Comando do BCAV. 8423. Respeitadíssimo por toda a guarnição, que dele nunca teve um azedume, uma queixa ou lhe fez alguma crítica.
É o grande veterano dos encontros anuais da CCS, a que empresta presença serena, cortez e de simpatia sem findar. Ele e a senhora, sua esposa.
A Fevereiro de 1975, a Ordem de Serviço nº. 45, do Batalhão de Cavalaria 8423 dava conta da sua condecoração, com a Medalha Militar Comemorativa das Campanhas do Exército Português, com a legenda ANGOLA - 1963-64-65.
A Julho de 1975 viria a ser louvado pelo Comandante do BCAV. 8423, que lhe reconheceu «qualidades militares e cívicas que o cotaram como precioso e desejado auxiliar do comando que serviu».
Qualidades, frisa o louvor, que «o creditam como excelente Oficial, que de igual modo o tornaram considerado pelos camaradas e estimado pelos subordinados». Oficial,  de resto, «disciplinado, de lealdade e correcção inexcedíveis, de elevadas qualidades militares, de total dedicação pelo serviço».
A 36 anos de distância, aqui dizemos nós que teríamos assinado por baixo a exaltação das virtudes do tenente Luz.
- LUZ. Acácio Carreira da Luz, tenente do SGE, do Comando do BCAV. 8423, Agora, com mais de 80 anos e capitão aposentado, residente na Marinha Grande 
AQUI se fala do agora capitão Luz.
E AQUI.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Cavaleiros do Norte em rotação para Carmona...

Fachada principal do BC12, em Carmona, para
onde rodou parte do BCAV. 8423

Os primeiros dias de Fevereiro de 1975 trouxeram a novidade: íamos para o BC12, em Carmona. «Escapávamos», assim, às convulsões de Luanda e quanto ao futuro, fosse o que Deus quisesse.
A capital andava a ferro e fogo e da metrópole chegavam insistentes pedidos para que dessemos notícias de conterrâneos que por lá faziam pela vida. Telefonar não era coisa fácil ao tempo - tínhamos de recorrer aos CTT... - e nem sempre encontrávamos quem queríamos, do outro lado da linha. A solução era ir a Luanda, em «desenfianço» combinado. Assim aconteceu pelos primeiros dias de Fevereiro e em Luanda adquiri uma aparelhagem sonora que Fátima Resende, em viagem para Portugal, fez o favor de me trazer. Os conterrâneos ali residentes, estavam todos bem, embora cheios de dúvidas quanto ao futuro.
De volta ao Quitexe, murmurava-se então a iminente rotação para Carmona, que o alferes Garcia nos confirmou: «Vamos nós e vai a 2ª. Companhia», disse ele, com ar de segredo.
E quando?, perguntava a nossa ansiedade. Saberíamos dentro de dias, o que nos foi confirmado pelo Cruz, dias depois, chegado ao Quitexe de uma reunião do MFA.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Comício e incidentes em Aldeia Viçosa, entre FNLA e MPLA

Furriel Dias (1ª. CCAV. 8423) em Aldeia Viçosa, com
militares da FNLA ao fundo, de capacete, e civis a assistir
Clicar na imagem, para a ampliar


A 2 de Fevereiro de 1975 - há precisamente 36 anos, hoje se completam!!! - realizou-se um comício da FNLA, em Aldeia Viçosa, registando-se alguns incidentes com militantes do MPLA, «rapidamente sanados pelas NT», segundo leio no Livro da Unidade. 
Ao furriel Dias, que jornadeou por Angola como Cavaleiro do Norte da 1ª. Companhia - a de Zalala, depois transferida para Vista Alegre e comandada pelo capitão Castro Dias - calhou a «rifa» de ser escalado para comandar duas viaturas militares que transportaram efectivos da FNLA, desde Vista Alegre, para Aldeia Viçosa, na zona de acção da 2ª. CCAV., comandada pelo capitão José Manuel Cruz.
«O orador de serviço intitulava-se de comandante operacional e de logística da Zona Norte e chamava-se Bundula», recorda-me o Dias, lembrando também que «a acção teve vários episódios, uns mais sérios, outros mais caricatos».
A imagem que aqui deixamos mostra o Dias em primeiro plano - precisamente em Aldeia Viçosa e nesse histórico dia.
Os elementos da FNLA de capacete na cabeça não são os que guarneciam a zona, pois que estes, na sua maioria, nem botas tinham.
Assim se ia fazendo o período de transição.
- DIAS. João Custódio Dias, furriel miliciano de transmisões da 1ª. CCAV. do BCAV. 8423, em Zalala e Vista 
Alegre. É aposentado da Polícia Judiciária e reside em Tomar.
- NT. Nossas Tropas.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Os primeiros dias do Quitexe em Fevereiro de 1975


Bar dos Praças da CCS do BCAV. 8423, no Quitexe.
Ficava na na avenida principal. O coberto da esquerda era o espaço
onde eram dadas as aulas regimentais


Os primeiros dias de Fevereiro de 1975 foram de crescente expectativa, na guarnição do Quitexe. Murmurava-se cada vez mais sobre o nosso futuro próximo, apontado para o BC12, em Carmona - que estava em processo de extinção. Assim como o Comando de Sector de Uíge. Para onde vamos, para onde não vamos? Foi o que quisemos saber do comandante Almeida e Brito, sem que tivéssemos resposta.
As próprias envolvências político-militares decorrentes do Acordo do Alvor nos eram, por,lá, praticamente desconhecidas -embora fosse dado como certo, era seguro, que Angola ia ser independente. Em que termos e que papel nos estaria reservado, era pergunta que não tinha resposta. Tudo era expectável.
Por estes dias, de viagem-relâmpago a Luanda, chegou-nos a suspeita de que, afinal, o BCAV. 842 iria era para Luanda - onde o quereriam os responsáveis da Região Militar de Angola. Luanda, ao tempo, era um putativo barril de pólvora, regada de incidentes - principalmente envolvendo militantes dos movimentos de libertação que se transformavam em partidos políticos, mas também cada vez mais envolvendo a população civil.
«O mais certo é que fiquemos por aqui, provavelmente para ajudarmos na formação do futuro exército de Angola», foi o mais que ouvimos do tenente-coronel Almeida e Brito, numa viagem de jeep que nos levou a uma fazenda da zona do Quitexe, para um almoço com a família anfitriã.
E no Quitexe ou em Carmona? Pois, seria seguramente em Carmona. Como foi!

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

BART. 786: Os que antes de nós fizeram o Quitexe...

Edifício do Comando do BART. 786, no Quitexe (em cima) e crachat (em baixo) 


JOSÉ LAPA
Texto

A 11 de Junho de 1965, depois de longa e penosa viagem, o Batalhão das Artilharia 786 chegou ao Quitexe onde, hoje, completa 10 meses de estadia.
Não estamos tão longe desse dia, que não possamos estabelecer um confronto, meditar um pouco e sentir a alegria de um trabalho duro, mas largamente compensador! Quando chegámos, o Quitexe era uma terra triste que ensaiava finalmente, com base no esforço das Unidades que nos antecederam , o regresso à vida que conheceu antes dos dias fatídicos de 1961. A nossa presença trazia uma mensagem de fé, de confiança e boa vontade, que a "Vila do café" sentiu, aceitou e compreendeu. Tão evidente era o nosso desejo de trabalhar, de levar a bom termo a missão que aqui nos trouxe, que houve entre a população civil uma não menos evídente vontade de colaborar. Assim. enquanto as Forças Armadas levaram, dia e noite, a todos os recantos da ZA, uma presença firma mas isenta de ódios, na que foi a "Vila mártir" a população apagava, aqui e ali,os últimos vestígios de destruição, abria as portas que o terrorismo fechara e alindava a sua Vila! Essa conjugação de esforços, essa perfeita união entre militares e civis, tinha, forçosamente, de dar os seus frutos. A população nativa, refugiada nas matas sob a ameaça dos seus "libertadores", começa a acreditar nas Forças Armadas e,mais do que isso , sente que lhe oferecem incondicionalmente, a liberdade, o direito à vida que procurou, em vão, durante 5 anos de falsas promessas. Receoso, a princípio,apresenta-se um pequeno número que vai engrossando na medida em que, á mata,chegam notícias do acolhimento que lhe é dispensado.
Voltam as sanzalas a ladear as estrada par Carmona, o capim é substituido pelas culturas indígenas e, ao domingo, já o Quitexe nos oferece um ar de festa, nas cores garridas dos trajes e no barulhento e tradicional batuque que o nativo não dispensa.
A Vila tem hoje, incontestávelmente, um aspecto mais limpo, mais cor, mais alegria, outra vida! Não levamos a nossa modéstia ao ponto não aceitarmos a parte importante que essa transformação se deve ao Batalhão de Artilharia 786. Antes pelo contrário, a aceitamos, nos orgulhamos dela e sentimos que estes 10 meses de sacrifícios sem conta, hão-de constituir um do períodos mais belos da nossa vida.
JOSÉ LAPA
Abril de 1966

 

domingo, 30 de janeiro de 2011

O guia sabia mais que os tropas operacionais

Vista aérea do Quitexe, antes da chegada do BCAV. 8423. A vermelho, a capela. A amarelo, o espaço da parada, oficinas e casernas (estas, ainda não construídas). A a roxo, a casa dos ffurriéis. A verde, a messe de sargentos. Entre a casa dos furriéis e a messe, o depósito de géneros e a messe de oficiais




ANTÓNIO FONSECA
Texto

A partida para uma operação revestia-se sempre de secretismo, por todas as razões que se conhecem, ou conheceram. Se bem que, e aqui sempre achei estranho, nunca entendi muito bem porque razão os guias tinham conhecimento delas.
Então se nós, militares, são sabíamos, porque razão sabiam os guias?! E porque andávamos nós em surdina e quase a rastejar pela vila do Quitexe para que ninguém nos visse? Por que diabo tinha eu de me esgueirar avenida abaixo? Foi coisa que nunca deu para entender e quem sabia, se sabia, estava calado.

É verdade que nós, por questões de segurança, não devíamos nunca saber! Por outro lado, sempre achámos que se tornava incómodo sabermos pela boca do dono da padaria civil ou até através de um empresário da vila que explorava pó de talco! Pois é, e por estas e outras, o Comando pedia muita contenção a quem se sentia impelido a visitar sanzalas, e principalmente a nelas passar a noite. E aqui é que residia o problema nada fácil de resolver. Quitexe não tinha quartel fechado, e de noite, contava a ronda, muitos eram os vultos a esgueirar-se.
Não foi por acaso que o Pinto, homem de Transmissões, ficou de boca aberta quando uma cliente da “loja” dos radiomontadores lhe disse que o marido ia com os militares de noite!
“Dôs dia ele vai sim, sempre eli vai mas sempre eli volta1...”.
O bom do Pinto, que estava na calha das saídas, foi perguntar ao furriel se realmente iam sair, mas não foi lá muito bem recebido porque o homem estava mal disposto. E porquê?, porque também tinha sabido da mesma forma e não gostou!
A melhor maneira de resolver o problema era acabar com os guias e guiarmo-nos sozinhos, pensou-se. Mas aqui tínhamos dois problemas: o primeiro é que não conhecíamos bem (nem mal) as densas matas; o segundo, é que o guia, por “desemprego” ou por opção, podia mudar-se de catana e bagagens para o outro lado. E levando consigo tudo o que sabia, e que já era muita coisa! Assim, tudo ficou na mesma mas com sérios avisos à navegação, por parte do Comandante, para terem cuidado em vale de lençóis! Mas ninguém percebeu o que raio tinha vale de lençóis a ver com padaria, restaurante ou café, de onde vinham realmente as informações! A questão não havia volta a dar!
ANTÓNIO FONSECA

sábado, 29 de janeiro de 2011

A evolução do Posto 3 e a segurança do Quitexe


O posto de vigia que se vê na foto de baixo (a cores) fica(va) na saída do Quitexe para Luanda, na estrada que ia de Carmona até à capital e era conhecida por Estrada do Café. Toda asfaltada. A imagem é de 2005, mas não difere da actualidade, válida a 1974 e 1975. Ali se vê, à esquerda e se me lembro bem, a famosa Geladinha do Quitexe.
O posto de vigia (o posto 3!) também se pode ver na foto do meio, onde se passeiam os furriéis Viegas (à esquerda) e Miguel Santos (paraquedista), embora visto de outro ângulo.
Já era instalações muito razoáveis (mesmo boas...), nada tendo a ver com os tempos de 1965/66, quando por lá passou o Batalhão de Artilharia 786 - as que se vêem na foto de cima, cedida por José Lapa. «Repare-se na blindagem...», como anota este artilheiro que antecedeu os Cavaleiros do Norte.
O esforço das autoridades militares para melhorar as condições dos aquartelamentos foram evoluindo, e muito... - nada tendo a ver com os primeiros e dramáticos tempos de 1961 e 1962 - quando os militares se viam sujeitos às mais difíceis condições. Por exemplo, de alojamento.
«Tínhamos períodos de semanas inteiras na mata», disse-me, ainda ontem, um dos primeiros militares metropolitanos que por lá se viu em combate, às vezes quase corpo a corpo - José Gonçalves Martinho, agora aposentado da PSP. Semanas inteiras sem uma refeição quente, sem um banho, sem uma cama!

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Cavaleiros do Norte que vão aparecendo...




Há amigos Cavaleiros do Norte que vão «galopando» ao encontro do blog. Pela graça da net, que galga todas as fronteiras e, ao alcance de um clic, nos bate à porta, ou se senta na soleira da nossa saudade. A de todos. E todos, com mais ou menos dimensão, temos saudades dos tempos que nos fizeram «cavaleiros» de jornada africana.
Últimamente, tivemos contacto com vários.
O capitão LEAL foi um deles e desse reencontro AQUIAQUI demos conta, falando da relação  com este médico, que foi João Semana da tropa e da comunidade civil.
O alferes HERMIDA foi um outro. Era o oficial de transmissões (ver AQUI) e acção psicológica. Por lá jornadeou com a esposa (foto), até que, em Janeiro de 1975, foi para outras paragens angolanas. Engenheiro de formação, reside na Figueira da Foz e com ele falámos plo telefone, achando-lhe o mesmo tom de voz - que parecia brincar com as palavras e as ironias da vida. Matámos  saudades, na conversa, falando de nomes que nos foram comuns num tempo importante das nossas vidas.
O alferes LEITE (ver AQUI) era o comandante do pelotão de morteiros e desde 1976 que está nos Estados Unidos. Emailámos de cá para lá e de lá para cá, contando-nos ele da nostalgia  que sente sempre que a memória lhe aviva os anos de 1974 e 1975, quando oficialou pelo Quitexe e Carmona. É natural dos Açores.
O 1º. cabo ALMEIDA faz vida pelo Algarve. Era o responsável pela cozinha da messe de sargentos e a ele devemos o sabor de quem comeu bem durante a comissão e dele teve cavalheirismo e camaradagem.
O soldado REBELO era auxiliar de cozinha na mesma messe e não houve, alguma vez, alguma coisa que nos faltasse, ou que nos fosse menos bem servida, sempre em pratos de boa disposição e atenta partilha de atenções. Faz a vida por Odivelas. 
VARGAS, soldado condutor da 1ª. CCAV., a de Zalala. Ligou dos Açores, da ilha do Pico - onde tem uma bomba de gasolina, na povoação de Piedade. Da conversa telefónica, resultou sabermos de uma curiosa coincidência: há anos, em viagem que fiz pela ilha e na sequência de um problema no táxi em que me transportava, estive na bomba de gasolina. Mas nem eu sabia de quem ela era, nem ele me reconheceu. Foi uma pena, concordámos anteontem - quando me ligou dos Açores.