terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A preparação militar do BCAV. 8423 em Santa Margarida


PELREC, já em Angola. Alferes Garcia (1º. de pé, do lado direito) e furriéis Neto (1º. em baixo do mesmo lado) e Viegas (6º. da esquerda para a direira, de pé). 
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Os meados de Fevereiro de 1974 foram de instrução nas matas de Santa Margarida, campo militar por onde se realizaram dezenas ou centenas de escolas de recrutas e se prepararam dezenas de milhares de nomes para a então chamada guerra do ultramar. Por lá passou o Batalhão de Cavalaria 8423, em semanas de alguma dureza, preparando corpos e almas para a missão que o destino lhe fadara: ir para Angola.
A instrução era realmente dura e nela, garbosos e irreverentes, davamos nós o nosso melhor, emprestando a nossa melhor sabedoria, a maior competência e resistência, para adestrar os companheiros praças que, chegados das suas terras, ali se «faziam» atiradores de cavalaria.
Os do futuro PELREC eram particularmente «apanhados» pela rigidez dos ensinamentos e treinamentos de técnicas de combate e de sobrevivência, de resistência à sede e à fome que aprenderamos no CIOE, em Lamego. Nesses dias duros, quiçá violentos, assim, em um ai..., se modelaram bravos soldados, companheiros sem um falha de coragem e de solidariedade - que tão úteis nos viriam ser em Angola.   
«Um destes dias vamos para a mata, para os exercícios finais», disse-nos um dia, na parada do Destacamento do RC4, por trás do cinema, o aspirante a oficial miliciano Garcia - que era já o nosso comandante de pelotão. Eram os dias decisivos que se aproximavam cada vez mais: o IAO.
- PELREC. Pelotão de Reconhecimentro Serviço e Informação, pelotão operacional da CCS.
- CIOE. Centro de Instrução de Operações Especiais, em Lamego - onde o aspirante e futuro alferes miliciano Garcia e os 1ºs. cabos  milicianos (futuros furriéis) Monteiro, Viegas e Neto tiraram a especialidade de Operações Especiais (Rangers´s).
- IAO. Instrução de Aperfeiçoamento Operacional, preparação militar pré-embarque para teatros de guerra.

O bravo alferes miliciano Carvalho de Aldeia Viçosa


O Carvalho era alferes miliciano atirador de cavalaria. E com um homem destes, ninguém se deve meter. Jornadeou por Aldeia Viçosa, sob o comando do capitão miliciano José Manuel Cruz - da 2ª. CCAV. 8423.
Ele mesmo, com o conhecimento e experiência que o oficialato lhe deu, liderou um pelotão que a Angola foi em missão de paz e de bem, mas que ainda teve de se enfrentar com os dramas e as tragédias que se adivinhavam de cada vez que, saltadas as vedações do aquartelamento de Aldeia Viçosa, se dirigiam às picadas de susto e às matas de medos do Uíge que era terra de guerra e de sangue. E depois em Carmona, nos amargos tempos de Junho de 1975.
O alferes Carvalho era um companheiro divertido, de piada solta, espírito alegre, aberto a qualquer brincadeira que desbloqueasse tensões na guarnição - genética que lhe fez, facilmente, conquistar as graças do pessoal.
«Disciplinado, cumpridor, soube transmitir estes predicados aos seus subordinados e restante pessoal da sua subunidade, o que muito contribuiu para facilitar a acção de comando em que se enquadrava», lê-se no Livro da Unidade.
Foi louvado pelo Comandante do BCAV. 8423, por proposta do capitão José Manuel Cruz, comandante da 2ª. CCAV. E o louvor, publicado na Ordem de Serviço 169, dá conta de um oficial miliciano  que «sempre soube cumprir as missões que lhe foram solicitadas no decorrer da sua comissão de serviço na RMA, quer no comando do seu grupo de combate, quer em outras quaisquer situações onde foi necessária a sua ajuda e trabalho».
Foi um bravo Cavaleiro do Norte, com amizade pessoal, que se «esticou» pela vida civil de ambos.
A minha continência, meu alferes!
- CARVALHO. Domingos Carvalho de Sousa, alferes miliciano
 atirador de cavalaria, natural e residente em Marrazes (Leiria). 
É técnico de vendas. Foto de 1994.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O ópio do povo que destressava os militares do Quitexe



Aqui se tem falado tanto de futebol, em vez de guerra, que me ponho hoje de «guarda» para voltar a falar desse ópio que transforma o povo e destressa pressões, à mistura com muitos nomes às santas das mães e às fiéis das mulheres.
António Casal, a propósito do que Eugénio Silva aqui veio falar de um craque do Quitexe, o Alvarito, veio aprazer-se a refrescar-lhe a memória.
Então, caro contemporâneo de Carmona e engenheiro da Sonangol, o Faruk, diz o Fonseca, era soldado e médio, baixo e possante. O Nelson (guarda-redes) e Victor (médio), eram ambos furriéis. Todos eram jogadores da então 2ª. Divisão Nacional, tal como o Alvarito que, curiosamente, era adversário de Victor. O Marinhense do Alvarito e o Caldas do Victor, pertenciam à mesma série.

Quanto ao boato do perecimento de Alvarito, ele ocorreu em 1973. E correu célere, qual internet nos nossos dias!
Eugénio Silva, por sua vez, vem presentar-nos com esta foto, do estádio dos Coqueiros, em Luanda, em 1972 ou 73, num jogo do Recreativo do Uíge contra o Benfica de Luanda, a contar para o campeonato provincial da segunda divisão, zona Norte.
O Alvarito, diz Eugénio Silva, certamente se recorda de nomes como Nelson, Fernando Correia, Ernesto, Hélder, Piscas, Caseiro, Acácio, Faruk, Victor e Silva. Quem lhe enviou a foto (a ES), foi o filho do Hélder.
Alvarito, o tal craque do Quitexe, é o último da direita, em baixo.

«Não me lembro do resultado deste jogo, mas o Recreativo do Uíge era muito forte!», comentou Eugénio Silva.
E, pronto, hoje não falámos de guerra!!
Mas fica o desafio para os especialistas: identificar estes fulaninhos que trocavam a farda e a espingarda pelos calções, pela camisola e as chuteiras e uma bola.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A extinção do Comando de Sector do Uíge


O Comando do Sector do Uíge (foto) foi extinto a 13 de Fevereiro de 1975 - faz hoje 36 anos, precisamente. Não tenho memórias especiais deste edifício, no qual estiveram instalados os Comandos do Sector e a logística que apoiava o enorme província do Uíge, cuja capital era Carmona.
O BCAV. 8423 passou a depender directamente da ZNN - em Luanda. Espalhava-se por Quitexe (CCS e 3ª. CCAV.), Aldeia Viçosa (2ª. CCAV,) e Vista Alegre  e Ponte do Dange (1ª. CCAV.). Há tempo que tinham sido abandonadas as fazendas de Zalala e Santa Isabel.
Por uma vez, estive lá em reunião do MFA e do encontro não tenho grandes recordações, pois tive um desaguisado com um oficial do movimento - que chegara de Luanda e nos mostrava planos atrás de planos, sobre a forma como deveriam agir os Cavaleiros do Norte. A «coisa» ia dando para o torto - porventura devido a alguma impertinência minha, que sempre reagia menos bem a imposições que achava mais arbitrárias. E nesta coisas, é bem sabido, quem se lixa é sempre o mexilhão. Se é que, no caso, nem tal  aconteceu.
Estou em crer que a 1ª. CCAV. 8423, depois de sair de Vista Alegre e Ponte do Dange e da passagem pelo Songo, esteve algum tempo instalada neste edifício.
Ver AQUI.
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sábado, 12 de fevereiro de 2011

O 2º. aniversário da comissão dos Artilheiros do Quitexe

Comemorou-se na CCS, num ambiente de festa e justificada alegria, o 2º. aniversário do Batalhão de Artilharia 786. O último domingo do mês de Maio de 1967 significava, para todos, o termo de uma obrigação de serviço que exigiu muitos sacrifícios, a meta que todos atingiram de cabeça erguida, o fim da comissão! Justificava-se, assim, o ar festivo que pudemos verificar em todas as manifestações incluídas no programa do dia, não tendo faltado, contudo,um momento de recolhimento e de saudade, expresso numa romagem ao cemitério da vila.
Após ter ouvido missa na capela do Quitexe, todo o pessoal do Comando, CCS e representações das CART´s, se reuniu, com as famílias e convidados, num almoço de confraternização. Saliente-se a presença do Governador do Distrito do Uige (e esposa), comandante interino do Sector I, comandante do AB 3, CEM do Sector I, 1º. e 2º. Comandantes do BCAÇ 3, administrador do concelho do Dange, alguns oficiais das Unidades vizinhas e representantes das fazendas da ZA.
Findo o almoço, aos brindes, foi enaltecida a notável acção desenvolvida pelo Batalhão ao longo de 24 meses de permanência na ZIN.
Cerca das 21 horas e dentro do programa do dia, realizou-se um serão recreativo que decorreu com a maior animação. O espectáculo, realizado ao ar livre, em recinto preparado para o efeito, reuniu a família militar (SubUnidades próprias e de reforço) e a população civil, em mais uma jornada de são companheirismo, de amizade e camaradagem, que esteve na base do éxito alcançado pelo Batalhão na sua passagem pelo Quitexe.
O espectáculo foi repetido na noite de 29, para o pessoal que não pudera estar presente na noite anterior, em virtude de imperiosos motivos de serviço.
A terminar, uma palavra de agradecimentoa quantos colaboraram, com dedicação e a melhor vontade, neste espectáculo que marcou o encerramento das actividades do Grupo Cénico do Batalhão.
JOSÉ LAPA
(foto)
Quitexe, 28 de Maio de 1967

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Apresentação formal do emblema do BCAV. 8423

A 11 de Fevereiro de 1974, no Destacamento do Regimento de Cavalaria nº. 4, em Santa Margarida, foi formalmente apresentado o emblema do Batalhão de Cavalaria 8423, servindo o lema «Perguntai ao Inimigo Quem Somos», que era (e é) «pertença das tradições da unidade mobilizadora».
O emblema do BCAV. 8423 era (é) em fundo preto (como se vê na imagem), definindo-se outras cores para as companhias operacionais: vermelha (1ª.), azul (2ª.) e castanho 3ª).
O então tenente-coronel Almeida e Brito, comandante do BCAV. 8423, que então se formava, escreveu no Livro da Unidade prosa que aqui recriamos em forma de entrevista, explicando o lema «Perguntai ao Inimigo Que somos» e o que era ser soldado do BCAV. 8423.
- P1: O que é ser-se de cavalaria?
- AB: Não é ser-se melhor, nem pior, é ser-se diferente. Ser-se do RC4, é obedecer ao lema «Perguntai ao Inimigo Quem Somos».
- P2: Como se poderá atingir a qualidade?
- AB: Com aprumo permanente, asseio irrepreensível, pontualidade em extremo, dedicação até ao sacrifício, interesse total, educação firme, valentia até ao destemor.
- P3: Assim se será, também, um soldado BCAV. 8423?
- AB: Assim se será um soldado do BCAV. 8423 e daqueles a quem o inimigo, ao perguntará quem és, te achará diferente.
- P4: Quais são as melhores virtudes de um soldado?
- AB: A resignação, a coragem fria, a disciplina, a confiança nos superiores e a subordinação. A anulação do interesse individual, perante o da colectividade. O que sabe o que quer, sem exigências e sem dúvidas, e se entrega con generosidade total, cumprindo e fazendo cumprir tudo o que envolve a palavra servir.
- P5: É também aquele que querer e sabe querer?
- AB: É aquele que querer e sabe querer e que tem por fim único servir bem, por enlevo a glória e por único móvel a honra e a dignidade.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A «psic» dos jogos de futebol do Quitexe

Futebol uma equipa da CCS. Em cima, Grácio, Gomes, Miguel (1º. cabo), Botelho
(Cubillhas), Miguel (furriel miliciano paraquedista), NN e Soares (em cima).
Miguel (condutor, ?), Mosteias, Lopes, NN, Monteiro e Teixeira (estofador).
Alguém pode ajudar a identificar os desconhecidos?




O tempo de Fevereiro de 1975, no Quitexe, foi também tempo de futebol - ora entre equipas do batalhão, ora contra formações civis. Os jogos do campo ao lado da estrada para Carmona, antes do quartel da OPVDCT, foram «batalhas» menos perigosas que as operações militares, mas disputados com ardor verdadeiramente guerreiro.  
O Livro da Unidade, relativamente a este período, dá conta que «a saída do oficial de acção psicológica (...) e a sua substituição, fez melhorar o panorama dos trabalhos inerentes àquela função, impulsionando-se a prática de jogos desportivos». E o futebol, obviamente, era rei.
Recordo-me, agora, de um jogo de um domingo à tarde, estava eu de piquete, de que não sei o resultado mas que envolveu umas breves escaramuças entre civis e militares, que implicaram a nossa intervenção  para aliviar os ânimos, que se exaltavam - depois de umas cucas, uma ekas ou umas fartas nokais bem bebidas, seguramente por excesso. Nada que não se resolvesse, com mais berro menos encontrão.
Antes dos Cavaleiros do Norte, de 1965 a 1967, conta-nos José Lapa que havia no Quitexe uma equipa que tinha as camisolas amarelas, com punhos e golas pretas, calção preto e meias também pretas. Os jogadores do Clube Desportivo do Quitexe eram todos, mas mesmo todos, militares do BART 786. Entre eles, havia um que sobressaía pela sua classe: o Zé Manel, atleta  do S.C.Beira-Mar, clube de Aveiro que na altura militava no segundo escalão do futebol nacional.
«Era um bom ponta-esquerda!», recodou José Lapa, acrescentando que «nesses anos, nos distritais, ficaram agrupadas as  equipas do C. D. Quitexe, Futebol Clube do Uige, Recreativo do Uíge e Sporting do Negage».
Quanto à agressividade, nos jogos no Quitexe, recorda José Lapa que «a coisa era mesmo real,aquilo era a tocar o rasgadinho que nem queira saber».
Ver AQUI.
E AQUI.
Também AQUI.
E AQUI.
- OPVDCT. Organização Provincial de Voluntários da Defesa Civil do Território, força paramilitar.
- Eka, Nocal, Cuca. Marcas de cerveja angolana.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Guião e emblema do Batalhão de Cavalaria 8423



Aos idos dias de Fevereiro de 1974, há 37 anos, jornadeavam os futuros Cavaleiros do Norte pelo Campo  Militar de Santa Margarida, sabendo já que o destino era Angola, mas desconhecendo o poiso da guarnição. Viria a ser no Quitexe, como todos depois soubemos. E em Zalala, em Aldeia Viçosa e Santa Isabel.
Os praças aprontavam especialidades, disparando e marchando os atiradores; batendo teclas os amanuenses e os escriturários; radiomontando os homens da transmissões, mecanizando-se os das oficinas (auto e de armamento) e conduzindo os condutores, enquanto os enfermeiros treinavam as seringas e termómetros, mercenava o carpinteiro e especializavam-se os cozinheiros em ementas, enquanto os sapadores treinavam a montagem e desmontagem de minas e armadilhas e os futuros homens do aprovisionamento faziam contas e simulavam compras.
Levedava-se o espírito de grupo.
Nos primeiros dias de Fevereiro, agora se fazem 37 aninhos - vejam lá como o tempo passa!!!!... - ficámos a conhecer o emblema da unidade. «Desejando-se desde o início instituir espírito de corpo no BCAV., de modo a que constituíssse num todo coeso, disciplinado e disciplinador, começou a idealizar-se o futuro emblema braçal, ao mesmo tempo que se desejou a sua plena identificação com a sua inidade mobilizadora», leio no Livro da Unidade.
O Unidade Mobilizadora era o Regimento de Cavalaria 4 (RC4), logo, inevitavelmente, o cavalo e o cavaleiro apareciam estampados no emblema, estilizados e simbolizando a força e capacidade de combate. Confesso que, pessoalmente, não gostei muito do emblema - quando a ideia nos foi mostrada pelo então aspirante miliciano Garcia, que nos perguntou do que achávamos. Mas, obviamente, nada valeu a opinião, pois quem mandava era quem decidia. E decidiu. Hoje, aqui o digo, olho para o emblema e arrepia-se-me o corpo e alegra-se-me a alma. Tive (tenho) orgulho de servir Portugal, sob  a nossa bandeira e o emblema dos (então) futuros Cavaleiros do Norte.
Já agora, imagina, quem o BCAV. 8423 epitetou de Cavaleiros do Norte? 
Voltaremos ao tema, por estes dias!  

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O futebol do Quitexe e o Alvarito do Recreativo do Uíge




EUGÉNIO F. SILVA
Texto

O blogue fez referência ao Alvarito que jogou no Clube Recreativo do Uíge. Eu conheci-o muito bem,  pelos golos que marcava. Era um grande goleador! Conheci também o guarda-redes Nelson, não sei se era ele o furriel; conheci um grande médio, alto, chamado Vítor; conheci outros jogadores deste clube, de que eu muito gostava, como o veloz Acácio, Faruk, Zé Alberto, Hélder, Faria, Ezequiel, Polainas, Duarte, Albertino, os guarda redes Lima, Rego, Durão e Ernesto, a maior parte deles eram militares.
O Clube Recreativo do Uíge era a equipa que eu mais gostava. Assisti a vários jogos por eles realizados!

Havia no Quitexe uma equipa que tinha camisolas amarelas e calções pretos, meias amarelas ou pretas, que disputava também o Distrital do Uíge, mas penso que o Celestino Viegas já não a encontrou quando esteve Quitexe! Diziam-me que era muito agressiva, quando perdia em casa. Eu nunca vi nenhum jogo em Quitexe, nem no Negage, via apenas em Carmona.
Fico contente por saber que o Alvarito está vivo, porque,  em 1972 ou 1973, eu tinha ouvido um colega de turma, filho de um dirigente do FC do Uíge, a dizer que ele tinha perecido numa frente de combate. Eu não acreditei. Agora, será ele que fracturou a perna? 
Sabem que o CRU e o FCU eram rivais de Carmona!

- EUGÉNIO F. SILVA. Engenheiro Gedofísico, na Sonangol, em Angola. Estudante do Liceu de Carmona (Uíge) em 1975. A sua família foi uma das recolhidas no BC12, aquando dos graves incidentes de Junho daquele ano.
Ver AQUI.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O fim das escoltas na estrada do café

Militares do PELREC da CCS do BCAV. 8423, que muitas escoltas fizeram: Almeida (1º. cabo, já falecido), Messejana, Dionísio, Soares (1º. cabo), Pinto e Florêncio (em cima), Vicente (1º. cabo, ja falecido), Viegas (furriel), Marcos e Leal (já falecido)

A 7 de Fevereiro de 1975, oficialmente, deixaram de ser feitas as escoltas à estrada do do café - a que ligava Carmona a Luanda e por onde passava muito tráfego de transportes de mercadorias. Era uma missão nem sempre feita em asfalto, pois por vezes tínhamos de ir a fazendas ou a zonas de floresta, apoiar os camionistas.
Era, em qualquer dos casos, uma tarefa muito desgastante e exigente, ora para o pessoal, ora mesmo para as viaturas. E, por estas, lá vinha sempre, e em tempo próprio, a competente manutenção do grupo oficinal, comandado pelo habilitado e sempre disponível alferes Cruz.
Cobríamos o percurso de meio de Carmona para o Quitexe e deste até Aldeia Viçosa. E sempre havia incidentes, de maior ou menos gravidade - nomeadamente com camionistas de longo curso, que transportavam enormes tonelagens de cargas, sempre cheios de pressa e muito renitentes ao controlo que fazíamos - o mais discreto possível. E eficaz, como tinha de ser.
Uma vez, entre Quitexe e Carmona, um motorista chegou a querer disparar sobre os militares e gerou-se uma situação muito constrangedora - pois teve de ser detido e entregue às autoridades civis, sob suspeita de fazer transporte de armas, camufladas em sacos de café.
A decisão de acabar com as escoltas foi, obviamente, muito bem recebida na guarnição - pois não!!!, pudera!!!... - mas infelizmente, meses depois, já quando os Cavaleiros do Norte estavam em Carmona, tiveram de ser retomadas. E, obviamente, tal não aconteceu pelas razões mais pacíficas.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

A carreira de grande futebolista «perdida» no Quitexe

ALVARITO, militardo Quitexe. Equipa do Marinhense de  1970/71, que quase subiu à 1ª. divisão. Em cima, Pinto (treinador), Manuel Joaquim, Carlos Alberto, Vitor Manuel, Parada, José Morais, Ribeiro, Florival, Cardoso e Anacleto. Em baixo, Leitão, Jacinto, Cunha Velho, Naftal, Carapinha, Zeca e Alvarito

ANTÓNIO FONSECA
Texto

Quando escrevemos um texto, corremos o risco de omitir este ou aquele pormenor – também não se pode exigir demasiado da memória -, ou este ou aquele camarada d’ armas. Vem isto a propósito de aqui ter falado do Alvarito, que no Recreativo de Carmona espalhou o seu perfume futebolístico. E digo perfume, sem qualquer favor. Aliás, o termo nem é meu mas sim de quem o via actuar em campo!

Entretanto, recebi uma “reclamação” do meu amigo Matos que não esteve com meias medidas e interrompeu-me o jantar: «ouve lá ó amigo, eu também joguei no Recreativo e não falaste de mim!..., como é?!». Se diz que jogou é porque jogou…mas eu não me lembro, desculpa!
Hoje mesmo, liguei ao Alvarito e convidei-o para almoçar. Entre uma garfada e um copo, fomos desfiando recordações quitexanas, tanto quanto nos permitiu a nossa memória. Umas deixaram-no de boca aberta, outras deixaram-me de queixo caído. Tudo fruto da pirataria que os nossos 22 anos nos permitiam, mas que não posso aqui contar. Mas posso, isso sim, dizer que a minha Companhia tinha por lá outros craques, não tão “luminosos”, é certo, mas que não deixaram os seus créditos por pés alheios. Os furriéis Nelson e Victor, os soldados Silva e Matos, o “cambuta” do P. Morteiros, um outro que não recordo o nome e…o Alvarito. Todos jogaram no Recreativo de Carmona. Era um orgulho para a malta da CCS, mas não tanto para o Capitão que nunca viu com bons olhos o “sucesso” dos homens da bola. E demonstrou-o sempre que para isso teve oportunidade – e quando não tinha, inventava-a! «As coisas que aquela cabecinha ia buscar ao RDM!..., mas acredita que tenho saudades do homem! Éramos uns putos e lá tivemos de ser homens à força! Que tempos pá…que tempos!...», diz-me o Alvarito em tom nostálgico!
Ciente das suas capacidades, ansiava pelo regresso à então Metrópole, disposto a ser profissional, preparando-se técnica e fisicamente. O quintal da casa das transmisões era o seu ginásio, entre uma bananeira e um coqueiro, onde “forrava” o chão com dois ponchos. Tudo corria bem, até ao dia em que uma infantil brincadeira lhe fracturou um pé. Chorou convulsivamente, temendo o pior para o seu futuro no mundo do futebol. E assim aconteceu! O que podia e devia ser tratado, nunca o foi, convenientemente, apesar das atenções do Dr. Leal e de toda a equipa da enfermaria. Outros passos deviam ter sido dados, mas pesou, e muito, o facto de ser soldado “raso”, como viria a reconhecer, já no final da Comissão, o 2º. Comandante, que lhe reconhecia os dotes.

Passados todos estes anos, ainda cuida da mazela que, diz, lhe roubou o seu grande sonho! «Custou-me muito mas valeu a pena ter conhecido o Quitexe e muita malta fixe que lá morava! Se valeu!...», rematou ele, saudoso!


















sábado, 5 de fevereiro de 2011

A última reunião dos Comandos do Comando de Sector do Uíge

Busto de Acílio Gala, na cidade do Songo, no 
Uíge (norte de Angola) e crachá do BCAÇ. 5015


A 5 de Fevereiro de 1975, realizou-se a última reunião dos comandantes das unidades do Comando do Sector do Uíge - que ia ser extinto no dia 13 seguinte. Foi no Songo, por onde ao tempo jornadeava o Batalhão de Caçadores 5015.
O comandante Almeida e Brito fez-se acompanhar do oficial-adjunto (capitão Falcão) e do delegado dos oficiais ao MFA - movimento que por lá também reunia.
A rotação do BCAV. 8423 era cada vez mais iminente e os comandos das unidades do Sector acertavam os movimentos que se seguiriam. As suas subunidades, ao tempo, sofriam o desgaste psicológico resultante das incertezas quanto ao futuro próximo e o cansaço físico provocado pelas cargas operacionais diárias - nomeadamente nos patrulhamentos de itinerários, pois tinham terminado as operações no mato. E acumulavam também algumas dificuldades logísticas. «Estavam a  braços com alguns problemas, no respeitante às suas cargas», refere o Livro da Unidade.
Ao Songo, creio ter ido duas ou três vezes, não mais - e nem tenho bem ideia de datas, sendo certo que foi entre 2 de Março e 3 de Agosto de 1975 (período que corresponde à nossa estadia em Carmona). Não tenho, pois, grande recordações da vila, mas agora, ao despistar imagens de lá, refresquei a memória num busto: o de Acílio Gala, cidadão que não conhecia e com quem, bem depois, partilhei actividade profissional durante anos. Foi presidente da Câmara Municipal de Oliveira de Bairro e deputado da Assembleia da República. No Songo, foi presidente da Câmara e Administrador do Concelho e virtudes teve que levaram a comunidade local a homenageá-lo, a 15 de Julho de 1973.
Vejam bem como a vida é!

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Medalha Militar para o tenente Acácio Luz

 s
Alferes Ribeiro e Garcia, tenentes Luz e Mora, na
avenida principal do Quitexe. A casa com a bandeira
era a do edifício da secretaria do Comando do BCAV. 8423


 
O tenente Luz era o chefe da secretaria do Comando do BCAV. 8423. Respeitadíssimo por toda a guarnição, que dele nunca teve um azedume, uma queixa ou lhe fez alguma crítica.
É o grande veterano dos encontros anuais da CCS, a que empresta presença serena, cortez e de simpatia sem findar. Ele e a senhora, sua esposa.
A Fevereiro de 1975, a Ordem de Serviço nº. 45, do Batalhão de Cavalaria 8423 dava conta da sua condecoração, com a Medalha Militar Comemorativa das Campanhas do Exército Português, com a legenda ANGOLA - 1963-64-65.
A Julho de 1975 viria a ser louvado pelo Comandante do BCAV. 8423, que lhe reconheceu «qualidades militares e cívicas que o cotaram como precioso e desejado auxiliar do comando que serviu».
Qualidades, frisa o louvor, que «o creditam como excelente Oficial, que de igual modo o tornaram considerado pelos camaradas e estimado pelos subordinados». Oficial,  de resto, «disciplinado, de lealdade e correcção inexcedíveis, de elevadas qualidades militares, de total dedicação pelo serviço».
A 36 anos de distância, aqui dizemos nós que teríamos assinado por baixo a exaltação das virtudes do tenente Luz.
- LUZ. Acácio Carreira da Luz, tenente do SGE, do Comando do BCAV. 8423, Agora, com mais de 80 anos e capitão aposentado, residente na Marinha Grande 
AQUI se fala do agora capitão Luz.
E AQUI.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Cavaleiros do Norte em rotação para Carmona...

Fachada principal do BC12, em Carmona, para
onde rodou parte do BCAV. 8423

Os primeiros dias de Fevereiro de 1975 trouxeram a novidade: íamos para o BC12, em Carmona. «Escapávamos», assim, às convulsões de Luanda e quanto ao futuro, fosse o que Deus quisesse.
A capital andava a ferro e fogo e da metrópole chegavam insistentes pedidos para que dessemos notícias de conterrâneos que por lá faziam pela vida. Telefonar não era coisa fácil ao tempo - tínhamos de recorrer aos CTT... - e nem sempre encontrávamos quem queríamos, do outro lado da linha. A solução era ir a Luanda, em «desenfianço» combinado. Assim aconteceu pelos primeiros dias de Fevereiro e em Luanda adquiri uma aparelhagem sonora que Fátima Resende, em viagem para Portugal, fez o favor de me trazer. Os conterrâneos ali residentes, estavam todos bem, embora cheios de dúvidas quanto ao futuro.
De volta ao Quitexe, murmurava-se então a iminente rotação para Carmona, que o alferes Garcia nos confirmou: «Vamos nós e vai a 2ª. Companhia», disse ele, com ar de segredo.
E quando?, perguntava a nossa ansiedade. Saberíamos dentro de dias, o que nos foi confirmado pelo Cruz, dias depois, chegado ao Quitexe de uma reunião do MFA.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Comício e incidentes em Aldeia Viçosa, entre FNLA e MPLA

Furriel Dias (1ª. CCAV. 8423) em Aldeia Viçosa, com
militares da FNLA ao fundo, de capacete, e civis a assistir
Clicar na imagem, para a ampliar


A 2 de Fevereiro de 1975 - há precisamente 36 anos, hoje se completam!!! - realizou-se um comício da FNLA, em Aldeia Viçosa, registando-se alguns incidentes com militantes do MPLA, «rapidamente sanados pelas NT», segundo leio no Livro da Unidade. 
Ao furriel Dias, que jornadeou por Angola como Cavaleiro do Norte da 1ª. Companhia - a de Zalala, depois transferida para Vista Alegre e comandada pelo capitão Castro Dias - calhou a «rifa» de ser escalado para comandar duas viaturas militares que transportaram efectivos da FNLA, desde Vista Alegre, para Aldeia Viçosa, na zona de acção da 2ª. CCAV., comandada pelo capitão José Manuel Cruz.
«O orador de serviço intitulava-se de comandante operacional e de logística da Zona Norte e chamava-se Bundula», recorda-me o Dias, lembrando também que «a acção teve vários episódios, uns mais sérios, outros mais caricatos».
A imagem que aqui deixamos mostra o Dias em primeiro plano - precisamente em Aldeia Viçosa e nesse histórico dia.
Os elementos da FNLA de capacete na cabeça não são os que guarneciam a zona, pois que estes, na sua maioria, nem botas tinham.
Assim se ia fazendo o período de transição.
- DIAS. João Custódio Dias, furriel miliciano de transmisões da 1ª. CCAV. do BCAV. 8423, em Zalala e Vista 
Alegre. É aposentado da Polícia Judiciária e reside em Tomar.
- NT. Nossas Tropas.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Os primeiros dias do Quitexe em Fevereiro de 1975


Bar dos Praças da CCS do BCAV. 8423, no Quitexe.
Ficava na na avenida principal. O coberto da esquerda era o espaço
onde eram dadas as aulas regimentais


Os primeiros dias de Fevereiro de 1975 foram de crescente expectativa, na guarnição do Quitexe. Murmurava-se cada vez mais sobre o nosso futuro próximo, apontado para o BC12, em Carmona - que estava em processo de extinção. Assim como o Comando de Sector de Uíge. Para onde vamos, para onde não vamos? Foi o que quisemos saber do comandante Almeida e Brito, sem que tivéssemos resposta.
As próprias envolvências político-militares decorrentes do Acordo do Alvor nos eram, por,lá, praticamente desconhecidas -embora fosse dado como certo, era seguro, que Angola ia ser independente. Em que termos e que papel nos estaria reservado, era pergunta que não tinha resposta. Tudo era expectável.
Por estes dias, de viagem-relâmpago a Luanda, chegou-nos a suspeita de que, afinal, o BCAV. 842 iria era para Luanda - onde o quereriam os responsáveis da Região Militar de Angola. Luanda, ao tempo, era um putativo barril de pólvora, regada de incidentes - principalmente envolvendo militantes dos movimentos de libertação que se transformavam em partidos políticos, mas também cada vez mais envolvendo a população civil.
«O mais certo é que fiquemos por aqui, provavelmente para ajudarmos na formação do futuro exército de Angola», foi o mais que ouvimos do tenente-coronel Almeida e Brito, numa viagem de jeep que nos levou a uma fazenda da zona do Quitexe, para um almoço com a família anfitriã.
E no Quitexe ou em Carmona? Pois, seria seguramente em Carmona. Como foi!

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

BART. 786: Os que antes de nós fizeram o Quitexe...

Edifício do Comando do BART. 786, no Quitexe (em cima) e crachat (em baixo) 


JOSÉ LAPA
Texto

A 11 de Junho de 1965, depois de longa e penosa viagem, o Batalhão das Artilharia 786 chegou ao Quitexe onde, hoje, completa 10 meses de estadia.
Não estamos tão longe desse dia, que não possamos estabelecer um confronto, meditar um pouco e sentir a alegria de um trabalho duro, mas largamente compensador! Quando chegámos, o Quitexe era uma terra triste que ensaiava finalmente, com base no esforço das Unidades que nos antecederam , o regresso à vida que conheceu antes dos dias fatídicos de 1961. A nossa presença trazia uma mensagem de fé, de confiança e boa vontade, que a "Vila do café" sentiu, aceitou e compreendeu. Tão evidente era o nosso desejo de trabalhar, de levar a bom termo a missão que aqui nos trouxe, que houve entre a população civil uma não menos evídente vontade de colaborar. Assim. enquanto as Forças Armadas levaram, dia e noite, a todos os recantos da ZA, uma presença firma mas isenta de ódios, na que foi a "Vila mártir" a população apagava, aqui e ali,os últimos vestígios de destruição, abria as portas que o terrorismo fechara e alindava a sua Vila! Essa conjugação de esforços, essa perfeita união entre militares e civis, tinha, forçosamente, de dar os seus frutos. A população nativa, refugiada nas matas sob a ameaça dos seus "libertadores", começa a acreditar nas Forças Armadas e,mais do que isso , sente que lhe oferecem incondicionalmente, a liberdade, o direito à vida que procurou, em vão, durante 5 anos de falsas promessas. Receoso, a princípio,apresenta-se um pequeno número que vai engrossando na medida em que, á mata,chegam notícias do acolhimento que lhe é dispensado.
Voltam as sanzalas a ladear as estrada par Carmona, o capim é substituido pelas culturas indígenas e, ao domingo, já o Quitexe nos oferece um ar de festa, nas cores garridas dos trajes e no barulhento e tradicional batuque que o nativo não dispensa.
A Vila tem hoje, incontestávelmente, um aspecto mais limpo, mais cor, mais alegria, outra vida! Não levamos a nossa modéstia ao ponto não aceitarmos a parte importante que essa transformação se deve ao Batalhão de Artilharia 786. Antes pelo contrário, a aceitamos, nos orgulhamos dela e sentimos que estes 10 meses de sacrifícios sem conta, hão-de constituir um do períodos mais belos da nossa vida.
JOSÉ LAPA
Abril de 1966

 

domingo, 30 de janeiro de 2011

O guia sabia mais que os tropas operacionais

Vista aérea do Quitexe, antes da chegada do BCAV. 8423. A vermelho, a capela. A amarelo, o espaço da parada, oficinas e casernas (estas, ainda não construídas). A a roxo, a casa dos ffurriéis. A verde, a messe de sargentos. Entre a casa dos furriéis e a messe, o depósito de géneros e a messe de oficiais




ANTÓNIO FONSECA
Texto

A partida para uma operação revestia-se sempre de secretismo, por todas as razões que se conhecem, ou conheceram. Se bem que, e aqui sempre achei estranho, nunca entendi muito bem porque razão os guias tinham conhecimento delas.
Então se nós, militares, são sabíamos, porque razão sabiam os guias?! E porque andávamos nós em surdina e quase a rastejar pela vila do Quitexe para que ninguém nos visse? Por que diabo tinha eu de me esgueirar avenida abaixo? Foi coisa que nunca deu para entender e quem sabia, se sabia, estava calado.

É verdade que nós, por questões de segurança, não devíamos nunca saber! Por outro lado, sempre achámos que se tornava incómodo sabermos pela boca do dono da padaria civil ou até através de um empresário da vila que explorava pó de talco! Pois é, e por estas e outras, o Comando pedia muita contenção a quem se sentia impelido a visitar sanzalas, e principalmente a nelas passar a noite. E aqui é que residia o problema nada fácil de resolver. Quitexe não tinha quartel fechado, e de noite, contava a ronda, muitos eram os vultos a esgueirar-se.
Não foi por acaso que o Pinto, homem de Transmissões, ficou de boca aberta quando uma cliente da “loja” dos radiomontadores lhe disse que o marido ia com os militares de noite!
“Dôs dia ele vai sim, sempre eli vai mas sempre eli volta1...”.
O bom do Pinto, que estava na calha das saídas, foi perguntar ao furriel se realmente iam sair, mas não foi lá muito bem recebido porque o homem estava mal disposto. E porquê?, porque também tinha sabido da mesma forma e não gostou!
A melhor maneira de resolver o problema era acabar com os guias e guiarmo-nos sozinhos, pensou-se. Mas aqui tínhamos dois problemas: o primeiro é que não conhecíamos bem (nem mal) as densas matas; o segundo, é que o guia, por “desemprego” ou por opção, podia mudar-se de catana e bagagens para o outro lado. E levando consigo tudo o que sabia, e que já era muita coisa! Assim, tudo ficou na mesma mas com sérios avisos à navegação, por parte do Comandante, para terem cuidado em vale de lençóis! Mas ninguém percebeu o que raio tinha vale de lençóis a ver com padaria, restaurante ou café, de onde vinham realmente as informações! A questão não havia volta a dar!
ANTÓNIO FONSECA

sábado, 29 de janeiro de 2011

A evolução do Posto 3 e a segurança do Quitexe


O posto de vigia que se vê na foto de baixo (a cores) fica(va) na saída do Quitexe para Luanda, na estrada que ia de Carmona até à capital e era conhecida por Estrada do Café. Toda asfaltada. A imagem é de 2005, mas não difere da actualidade, válida a 1974 e 1975. Ali se vê, à esquerda e se me lembro bem, a famosa Geladinha do Quitexe.
O posto de vigia (o posto 3!) também se pode ver na foto do meio, onde se passeiam os furriéis Viegas (à esquerda) e Miguel Santos (paraquedista), embora visto de outro ângulo.
Já era instalações muito razoáveis (mesmo boas...), nada tendo a ver com os tempos de 1965/66, quando por lá passou o Batalhão de Artilharia 786 - as que se vêem na foto de cima, cedida por José Lapa. «Repare-se na blindagem...», como anota este artilheiro que antecedeu os Cavaleiros do Norte.
O esforço das autoridades militares para melhorar as condições dos aquartelamentos foram evoluindo, e muito... - nada tendo a ver com os primeiros e dramáticos tempos de 1961 e 1962 - quando os militares se viam sujeitos às mais difíceis condições. Por exemplo, de alojamento.
«Tínhamos períodos de semanas inteiras na mata», disse-me, ainda ontem, um dos primeiros militares metropolitanos que por lá se viu em combate, às vezes quase corpo a corpo - José Gonçalves Martinho, agora aposentado da PSP. Semanas inteiras sem uma refeição quente, sem um banho, sem uma cama!

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Cavaleiros do Norte que vão aparecendo...




Há amigos Cavaleiros do Norte que vão «galopando» ao encontro do blog. Pela graça da net, que galga todas as fronteiras e, ao alcance de um clic, nos bate à porta, ou se senta na soleira da nossa saudade. A de todos. E todos, com mais ou menos dimensão, temos saudades dos tempos que nos fizeram «cavaleiros» de jornada africana.
Últimamente, tivemos contacto com vários.
O capitão LEAL foi um deles e desse reencontro AQUIAQUI demos conta, falando da relação  com este médico, que foi João Semana da tropa e da comunidade civil.
O alferes HERMIDA foi um outro. Era o oficial de transmissões (ver AQUI) e acção psicológica. Por lá jornadeou com a esposa (foto), até que, em Janeiro de 1975, foi para outras paragens angolanas. Engenheiro de formação, reside na Figueira da Foz e com ele falámos plo telefone, achando-lhe o mesmo tom de voz - que parecia brincar com as palavras e as ironias da vida. Matámos  saudades, na conversa, falando de nomes que nos foram comuns num tempo importante das nossas vidas.
O alferes LEITE (ver AQUI) era o comandante do pelotão de morteiros e desde 1976 que está nos Estados Unidos. Emailámos de cá para lá e de lá para cá, contando-nos ele da nostalgia  que sente sempre que a memória lhe aviva os anos de 1974 e 1975, quando oficialou pelo Quitexe e Carmona. É natural dos Açores.
O 1º. cabo ALMEIDA faz vida pelo Algarve. Era o responsável pela cozinha da messe de sargentos e a ele devemos o sabor de quem comeu bem durante a comissão e dele teve cavalheirismo e camaradagem.
O soldado REBELO era auxiliar de cozinha na mesma messe e não houve, alguma vez, alguma coisa que nos faltasse, ou que nos fosse menos bem servida, sempre em pratos de boa disposição e atenta partilha de atenções. Faz a vida por Odivelas. 
VARGAS, soldado condutor da 1ª. CCAV., a de Zalala. Ligou dos Açores, da ilha do Pico - onde tem uma bomba de gasolina, na povoação de Piedade. Da conversa telefónica, resultou sabermos de uma curiosa coincidência: há anos, em viagem que fiz pela ilha e na sequência de um problema no táxi em que me transportava, estive na bomba de gasolina. Mas nem eu sabia de quem ela era, nem ele me reconheceu. Foi uma pena, concordámos anteontem - quando me ligou dos Açores.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Incidentes em Aldeia Viçosa, entre FNLA e MPLA

Vista aérea de Aldeia Viçosa. Aquartelamento militar na parte superior


A 26 de Janeiro de 1975, aconteceu em Aldeia Viçosa o que se esperava. E não esperava. Atritos entre a FNLA e o MPLA levaram à necessária e pronta intervenção das Forças Armadas Portuguesas, para sanar o que se tornava inevitável: os confrontos para além das palavras.
Já por aqui se disse que as actividades de politização organizadas pelos dois  movimentos/partidos eram vistas com alguma desconfiança pela tropa. Não que se metessem connosco, não, não era o caso. Mas porque não se entendiam entre eles e, por isso, se levedavam azedumes e confrontos nada pacíficos.
O mais grave, terá sido a 26 de Janeiro (ontem fez 35 anos), quando MPLA e FNLA, imaginem!, pretenderam fazer um comício conjunto. Só que, afinal, não conseguiram entendimento e ia havendo mosquitos por cordas. O Matos e o Letras, ambos furriéis da 2ª. CCAV. (a de Aldeia Viçosa) e que consultei sobre esta data, não me refrescaram a memória destes incidentes - lembrando-se vagamente de tal ter acontecido. 
O Livro da Unidade, que agora cito, fala que a situação «deu origem à intervenção das NT, em situação apaziguadora, que se conseguiu». 
Ver AQUI

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Os primeiros dias de formação do BCAV. 8423

Regimento de Cavalaria de Santa Margarida, o Regimento de Cavalaria 4 (RC4), unidade
mobilizadora do Batalhão de Cavalaria 8423. Ao fundo, vê-se a capela do campo militar.
Foto de 26/08/2010


A 23 de Janeiro de 1974, nem se pensava em Abril seguinte e, por Santa Magarida, o Batalhão de Cavalaria 8423 dava os seus primeiros passos de formação. Eram os futuros Cavaleiros do Norte.
Duas semanas antes, Almeida e Brito, então tenente-coronel e comandante do batalhão, dera uma prédica sobre os valores militares, numa reunião em que já participou a maior parte dos quadros do 8423. E nela expressou «os princípios e hábitos de vida que teriam de nortear a vida do batalhão», durante o tempo em que, como unidade constituída, «vivesse no RC4 e na Região Militar de Angola». Ainda não se sabia que iríamos parar ao Quitexe.
A 23 de Janeiro - agora se fizeram 37 anos, o tempo voa!!!... - o BCAV. 8423 foi alvo de uma inspecção do coronel Magalhães Correa, da DAC. Repetida a 31, neste caso pelo coronel Paixão, do IGEFE.
Dessas inspecções já neste blog fizemos relato (ver AQUI). O que nos traz hoje a falar disto tem a ver com o orgulho que o grupo de militares do PELREC teve, por ser elogiado o seu comportamento militar - obviamente resultante do seu empenhamento no período de formação e treinamento militar - a recruta. Começara a 7 de Janeiro e era já uma equipa unida, uma família que se cimentou pela jornada africana que nos levou a Angola.
Hoje, 37 anos depois, todos temos orgulho dessa missão!

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Os passeios turístico-militares de Janeiro de 1975



O mês de Janeiro de 1975, já conhecidos os desenvolvimentos da Cimeira do Alvor - que apontavam para a independência de Angola - foram vividos com muita tranquilidade e também expectativa, quanto ao futuro próximo da guarnição.
A instalação da 3ª. CCAV. (a de Santa Isabel) no Quitexe, libertou-nos de parte dos muitos serviços que mesmo assim tínhamos de assegurar, apesar de já terem cessado as operações militares  - os piquetes, as escoltas, os de dia, os de guarda. Por isso, Carmona - e os desafios que a cidade sempre nos provocava e aliciava - passara a ser destino mais comum dos militares que, por uma ou outra razões, seriam financeiramente mais abonados. 
Mais aliciantes, ainda, eram os passeios que passaram a ser organizados pela acção psicológica - nomeadamente aos fins de semana. As Quedas do Duque de Bragança era uma das grandes atracções do tempo e, a partir do Quitexe, para lá se dirigiram verdadeiras excursões em viaturas militares. E a Malange! Ao Cacuso! A Salazar! Cidades próximas e atracções que refrigeravam a alma e davam ego a quem, os militares, por lá missionava em jornada militar com planeamento diferente da razão que lá nos levara.
A imagem, das majestosas Quedas do Duque de Bragança, mostram o Pires, de Bragança, furriel miliciano de transmissões da CCS do BCAV. 8423. Um Cavaleiro do Norte em passeio turístico e de farda vestida. 
Vida boa! 

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O espectáculo do MFA na cidade de Carmona



A 21 de Janeiro de 1975 realizou-se em Carmoma, no pavilhão do Clube Recreativo do Uíge (foto), um espectáculo cultural organizado pelo MFA e destinado aos  militares de todas as unidades do Comando do Sector. E lá esteve gente do Batalhão de Cavalaria 8423.
A memória confunde-me: não estou certo que no espectáculo tenham participado militares do batalhão ao tempo ainda sedeado no Quitexe (os Cavaleiros do Norte) - sendo seguro que, neste ou outro, houve participação de vários. E também se me escapa a segurança para dizer que um dos participantes mais activos era o então capitão miliciano José Paulo Fernandes, comandante da 3ª. Companhia. Arrisco a dizer que tocava viola e formou um grupo musical que entusiasmou, literalmente, toda a assistência militar e, muito em particular a comunidade civil que assistia também. Alguém pode confirmar, ou esclarecer isto?
A acção psicológica, como se vê, ultrapassava as fronteiras dos quarteis e assumia-se como meio de aproximação entre as forças armadas e os civis. Nesse sentido, e já com o BCAV. 8423 em Carmona, se realizaram torneios desportivos neste pavilhão. E ficou por realizar, o sarau cultural e recreativo que estava marcado para 31 de Maio - o sábado que foi véspera dos incidentes que encheram a cidade de fogo e sangue.  

domingo, 23 de janeiro de 2011

A picada para a fazenda e aquartelamento do Liberato...


Picada para a fazenda e aquartelamento Militar do
Liberato (foto de Luís Patriaca)



 
A picada para o Liberato sempre foi dor de cabeça para quem por ela tinha de passar. Não necessariamente apenas para as colunas militares, também para os civis que por aquelas bandas faziam pela vida. Em Abril de 1966, por exemplo e por relato de José Lapa, estava «novamente muito mal». 
José Lapa, que por lá jornadeou em missão,  fala de «a famigerada picada do Liberato» e o jornal da unidade - a BART  786 - chegava a chamar-lhe de «coitada!». «Não resistiu às primeiras chuvas e voltaram a manifestar-se os mesmos sintomas e mazelas que uma cura superfícial parecia ter eliminado», assim reportava a imprensa do batalhão.
«Os médicos (JAEA) estão outra vez de volta dela... mas até quando?», interroga o jornal do batalhão.
Outra questão era tempo desdse tempo, pois estava concluída a capela. «Se Deus quiser, será inaugurada solenemente na noite de 24 para 25 Dezembro, pouco antes da Missa do Galo que será a primeira Missa nela celebrada», relatava o jornal, de que nos mandou nota o amigo José Lapa.

sábado, 22 de janeiro de 2011

O 1º. cabo Casal participado em plena operação militar


António Casal da Fonseca, 1º. cabo de transmissões,
participado por alferes miliciano em plena operação militar

Por volta das três da manhã, em data que não consigo precisar, fomos acordados para mais uma operação de três dias, que nos levaria à densa mata angolana. Por onde andei, nunca o soube exactamente, mas recordo-me que foram dias de chuvas torrenciais e um calor abrasador, que nos secou as roupas no corpo.
Ao terceiro dia, fomos obrigados a passar um riacho que nos levaria a água aos joelhos. Calculei a distância entre as margens para ver se, saltando, evitava encher as botas de água, para tornar menos penoso o resto da caminhada. O alferes Sousa, de Operações Especiais e comandante do grupo, era especialista a debitar piadas de mau gosto, o que lhe terá causado dificuldades de relacionamento na Companhia, principalmente com sargentos e praças.
«Ó Casal, não tenha medo da água!..., se quiser eu levo-o pela mão… blá…blá…blá»!..., em tom gozão, achando que todo o grupo se iria rir da piada.
Ninguém se riu e muito menos eu, que lhe respondi no mesmo tom, mas com um sorriso largo, não o desrespeitando: «Desculpe lá meu alferes, mas não sou eu que ando a arrojar as botas desde ontem…, não fui eu que passei a mochila ao guia, apesar de ser eu que venho a alombar com um rádio…, e mais, eu até atravessava o riacho consigo às costas»!
Não gostou do que ouviu e nem eu gostei do que me vi “obrigado” a responder! Mas, pronto, estava dito, e de tal não me gabo nem me arrependo! Certo é que não atravessei o riacho, saltando por cima dele depois de tomar um balanço de cerca de 10 metros. Não molhei as botas, mas logo ali mesmo, à beira da água, me foi lida a sentença - uma participação!

Sentença interrompida por duas rajadas e dois ou três tiros isolados, que não nos terão passado muito longe! Devo dizer que houve ali alguma aflição, se não muita, porque as primeiras árvores distavam cerca de 20 metros. Fizemos melhor do que a instrução nos ensinara e rastejámos até ao arvoredo, lambendo a lama avermelhada. Não mais se ouviu um tiro e as horas que se seguiram foram de receios e cuidados. Não vimos ninguém, o que não era o melhor sinal, e pelas 15 horas a operação foi dada por terminada.
Visivelmente nervoso e sempre temendo que o TR 28 não fizesse o seu papel, aproximou-se de mim o alferes para que eu fizesse o contacto para o regresso ao quartel. «Você acha que o rádio vai funcionar?...contacte lá o quartel antes que se faça noite!»
E funcionou mesmo, com o Mário do outro lado da linha a perguntar se estava tudo bem - nesse mesmo dia, ao posto de rádio do Quitexe, enviadas de Santa Isabel, já tinham chegado noticias de outras movimentações. E a matar o tempo de espera, e também de medos, ali ficámos sentados a falar de coisas que nem tinham nada a ver com a operação. O seu curso de engenharia por acabar – tinha chumbado um ano - e do que eu fazia, ou não fazia, na vida civil, aguçando-se-lhe a curiosidade. E muito menos se falou da tal participação com que me ameaçara, assim como da troca de palavras na travessia do riacho que, vendo bem, não passaram de coisas menores. Até aos dias de hoje!
ANTÓNIO FONSECA

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O jantar de anos com marisco de há 35 anos...

Neto e Viegas, dois aguedenses que foram Cavaleiros
do Norte, no Quitexe, em 1974 e 1975)


Vejam lá como são estas coisas: encontrei hoje o Neto, à hora do almoço, estava ele com amigos da vida empresarial dele, e com as mesas cheias, deu para ficar na que ficava ao lado da dele, ia eu com dois amigos meus, das Finanças. «É pá, fez ontem 35 anos que comemos camarão no Rocha!», disse-lhe eu.
O Neto pôs-se a rir e intrigados ficaram os três companheiros dele, com quem já começava a refeiçoar. «Mas quem será este cromo?», deverão ter-se eles interrogado.
«Então?!...», olhou-me o Neto, a perguntar-me o que se tinha passado.
Lá lhe contei a história dos anos da senhora minha mãe e que nesse dia de 1975, dia 20 de Janeiro, fiz muita questão que fôssemos jantar ao Rocha - um restaurante muito frequentado por militares e que fica(va) ao lado direito da entrada do Quitexe, para quem vai de Luanda para Carmona. E jantámos bem, com entradas de camarão.
As nossas mães, de condição diferente, encontravam-se ao sábado na praça de Águeda - onde a minha vendia os seus produtos hortícolas, para guarnecer a sua magra economia doméstica, e a dele fazia compras. Lá trocavam informações sobre nós: «Então, o seu filho escreveu, como é que ele está e não está, blá, blá,. blá...».
O almoço lá se passou e com horas já apertadas para o trabalho - pois todos trabalhamos... - lá veio a peregrina ideia de se beber uma taça de espumante em honra da senhora minha mãe. Espumante do bruto!!! Do bom! E lá veio uma, lá vieram duas garrafas! E sobrou alguma coisinha no fundo? Era o sobravas. Foi todinho, em honra do jantar de fez ontem 35 anos. Como tempo voa, meus amigos...