Hoje fui reler a minha mãe o aerograma que escrevi, para lhe saudar o dia 20 de Janeiro de 1975. Fazia ela, por esta data, uns juvenis 54 anos. Hoje, faz 90 e tem uma memória de aço! Quem me dera!!!
A minha incorporação militar foi menos de um ano depois da morte de meu pai e, como todos sabemos, as famílias portuguesas desse tempo viviam o estigma da guerra do ultramar - onde iam parar todos os rapazes, aos 20/21 anos, nem que fossem coxos, surdos, mudos ou carecas! Eu não escapei à onda e por casa ficou a senhora minha mãe, viúva e só - que as minhas irmãs tinham casado e ido à vida delas.
«Eras um bruto!!!...», atirou-me ela, de um ápice, a «mastigar» a piada de filho saudoso que eu lhe mandara no aerograma que hoje lhe reli, «castigando-a» por nele a felicitar pelos anos que fazia mas também a interpelar sobre os dias que se passavam entre a sua escrita para o filho que andava na guerra.
«Julgas que eu tinha a tuda vida!!!...».
E não tinha. Teve vida sacrificada, sem luxos, sem prebendas, sem coisa a mais que fosse para além da mesa sempre com pão, a gaveta sempre cheia e a roupa sempre lavada. A dor da partida do filho para a guerra, não sei se não terá sido muito igual à da perda de seu marido, meu pai!.
«Vê lá se voltas, rapaz!!!...», disse-me ela na madrugada de 26 de Maio de 1974, quando nos despedimos - sofrida, assim a via eu, mas segura e sem um ai.
Eu ia para Santa Margarida e logo depois para Angola. E sei lá eu quantas orações fez pela sorte do filho, nesse tempo que foi o meu tempo de Angola.
«Lembra-se do que me disse quando voltei?...», provoquei-a hoje, a testar a sua memória e brincalhar com os seus afectos.
Sabia muito bem. Eu fôra chamar a minha irmã, para a ir acordar, e ao ver-me, de olhos a sorrir, os mais doces que alguma vez lhe vi, perguntou-me: «Então, já chegaste, rapaz?!!!...».
Hoje, fez 90 anos. A festa vai ser sábado.
NOTA: Foto de C. Viegas, no Quitexe, em
data muito próxima de 20/01/1975




























