quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O dr. Leal, a dra. Margarida e os três madeireiros mortos no Quitexe...

Enfermaria militar do BCAV. 8423, no Quitexe (em cima) e alferes Cruz (em baixo)




Vim ao Cavaleiros do Norte e... que agradável surpresa recordar o HOMEM e amigo Dr. Leal!!! Com ele, ninguém podia estar mal disposto e, nas condições em que estávamos, isso valia muito.

Recordo, por agora, uma pequena história:
A minha esposa Margarida tinha chegado do «puto» e, depois de a ter ido buscar ao Negage, comecei a fazer as apresentações. Como futura colega, fui apresentá-la ao Dr. Leal que, com toda a simpatia, tentou mostrar-lhe que a nossa vida ali era boa e folgada. Depois perguntou: «Então, colega, que cadeiras é que lhe faltam para ser médica?».
A Margarida lá lhe respondeu.
«Então pode vir comigo à Delegacia, parece que temos lá problemas...».
Quando chegou, vinha branca.
«Sabias que estavam lá 3 madeireiros irreconhecíveis e tão queimados que nem um metro de comprimento tinham ? Afinal, ainda há guerra !!!», disse-me ela.
Foi remédio santo. Daí para a frente, tudo o que acontecia nunca era pior...
Daqui envio um grande abraço para o Dr. Leal e família.
António Sousa Cruz
- PUTO. Designação com que identificava o Portugal Europeu.
- CRUZ. António Albano Araújo de Sousa Cruz, alferes miliciano, comandante do Parque-Auto, engenheiro, natural e residente em Santo Tirso.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Dia da mobilização para Angola, faz hoje 37 anos!

A Nota nº. 47000 - Pº. 33.007, de 17 de Novembro de 1973 - hoje se completan 37 anos! -, da Repartição de Serviço de Pessoal, da Direcção de Serviço de Pessoal do Ministério do Exército, dava conta da mobilização de uns quantos mancebos, «nomeados para servir no Ultramar».
Ultramar era a designação oficial das colónias portuguesas, que ao tempo iam da Europa à Oceânia (Timor-Leste), passando por África  (Cabo Verde, Guiné, Angola e Moçambique) e pela Ásia (Macau). Um império e pêras!
Era também o destino da minha geração, que se habituara a ele desde 1961 - éramos ainda crianças, a caminho da adolescência, da juventude e da guerra!
Um um dos mancebos era eu!
Outro, era o Neto.
Outro ainda, era o Monteiro!
E muitos outros, para outros batalhões.
As chamadas «Nomeações para o Ultramar» não nos chegavam logo que decididas e a nossa só viria a ser publicada na Ordem de Serviço nº. 286, de 7 de Dezembro de 1973, do Centro de Instrução de Operações Especiais (CIOE), em Lamego. Eram feitas nos termos da alínea c), do artº. 20º. do Decreto-Lei nº. 49107, de 7 de Julho de 1969.
Eu, o Monteiro e o Neto éramos mobilizados para Angola.
Assim diz, na parte que me respeita: «1º. cabo miliciano «Op. Esp». mec. 06810773, CELESTINO J. P. M. VIEGAS, do RC4 e adido a este Centro e à CCAÇ., com o nº. 487/73/A.
Destinado ao BCAV 8423/RC4/RMA».
Pronto, estava «destinado» o destino. E lá se passaram 37 anos!
- CIOE. Centro de Instrução de Operações Especiais, em Lamego.
- OP. ESP. Operações Especiais.
- CCAÇ. Companhia de Caçadores.
- BCAV. Batalhão de Cavalaria.
- RC4. Regimento de Cavalaria 4, em Santa Margarida.
- RMA. Região Militar de Angola.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Os dias da nossa mobilização para Angola, em Novembro de 1973



O dia 16 de Novembro de 1973 era uma 6ª. feira e, ao tempo, cochichava-se cada vez mais, entre a guarnição do quartel de Santa Cruz e do CIOE de Penude, por Lamego, a iminência da nossa mobilização para Angola. Sabia eu que por aquele fim de semana por lá iria ficar de serviço e acomodei-me na minha convencional racionalidade: o que vier, virá!
Ao tempo, o grande desejo de cada mobilizável apontava para os ares de Angola, onde a guerra seria muito mais tranquila que nas trincheiras da Guiné-Bissau ou Moçambique. Pela Guiné, já o  PAIGC, de resto, a 24 de Setembro de 1973, anunciara a independência, unilateralmente, na colinas verdes de Medina de Boé - que eu viria a conhecer em 2000. O que por lá estaria a sofrer a tropa!! De Moçambique se diziam cobras e lagartos da Frelimo e a imprensa internacional falava de massacres.
Angola era o destino apetecível.
Por todos. Por mim, também porque por lá tinha família.
A noite de 16 para 17 de Novembro de 1973, em Lamego, comigo de serviço no quartel de Santa Cruz, deu para farta conversa com o Grilo, na messe de Almacave - onde refeiçoávamos. Naquela noite, vindo ele do treino do Sporting local, cansado e sem vontade de dormir, deu para grandes falas - continuadas no aquartelemento, onde a noite iria ser de alerta. Não se brincava em serviço, quando se estava de serviço, em Lamego.
O Grilo, que no domingo seguinte iria ter jogo - e de sargento de ronda na cidade, por lá iria passar eu... - veio ter comigo ao qaurtel, continuando a nossa conversa sobre a mobilização. Também ele, futebolista do SC de Lamego (por empréstimo) e nadador-salvador da Nazaré, queria Angola.
«Alguém tem de ir para a Guiné ou Moçambique...», disse-lhe eu, por dentro a rezar que a «rifa» me trouxesse Angola.
Mal sabíamos nós o que nesse dia, na Repartição do Serviço de Pessoal (RSP) do Ministério do Exército já tinha sido decidido sobre o nosso futuro.
- GRILO. Joaquim José Sales Grilo, ao tempo 1º. cabo-miliciano de Operações Especiais (Ranger´s). Funcionário público, natural e residente na Nazaré.
- PAIGC. Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde, liderado por Amílcar Cabral.
- FRELMO. Frente de Libertação de Moçambique, liderada por Samora Machel, depois da morte de Eduardo Mondlane, em 1969.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Os transportes e a extinção de aquartelamentos

Reino, Carvalho e Belo na frente do bar de Santa Isabel

As carências de meios de transporte, nesta altura de 1974, complicaram a vida dos Cavaleiros do Norte, sublinhando-se embora - e por total justiça! - a eficácia permanentemente disponível e competente do bravo grupo de mecânicos, comandados pelo discreto e sempre atento alferes miliciano Cruz, com apoio do 1º. sargento Aires e do furriel miliciano Morais.
Quantas vezes uma falha mecânica poderia resultar em algum drama, assim se perdesse a viatura por alguma picada agreste, em fronteiras de alguns perigos???!!!
Uma vez, a caminho de Santa Isabel, numa ligeiríssima elevação de terreno, parou um «burro de mato», por avaria. Saltaram os «pelrec´s», a fazer aprudentada segurança, quando nos surgiu o Lino, como que caído do céu e que prontamente «saneou» a crise, cum artes que me escapam mas que fizeram o milagre de pôr o motor a trabalhar e a coluna a avançar.
Não se julgue que avaria destas é como quem por aqui anda na estrada e se vê empanado, chamando o pronto socorro e depois accionando o seguro. Lá, pelas picadas de Angola, uma avaria poderia significar mil perigos, horas de espera até que chegasse apoio - e todas elas (as horas) a medir a temperatura dos temores que nos enchiam a alma.
Aos meados de Novembro de 1974, houve grande movimentação de viaturas entre o Quitexe e Santa Isabel.
A 3ª. CCAV. 8423 preparava a sua rotação para a sede do batalhão e importava deslocar todos os seus bens e equipamentos.
«A rotação dos dispositivo militar conmeçou a ser efectivada à  custa de verdadeiros sacrifícios, dadas as carências de meios-auto, que permitissem a materialização desses movimentos», lê-se no Livro da Unidade. É que, sublinha-se, «envolviam não uma simples mutação, mas, sim, a extinção de aquartelamentos».
- CRUZ. António Albano Araújo de Sousa Cruz, alferes miliciano Mecânico-Auto. Engenheiro, natural e residente em Santo Tirso.
- AIRES. Joaquim António de Aires, 1º. sargento Mecânico-Auto.
- MORAIS. Norberto António Ribeirinho Carita de Morais, furriel miliciano Mecânico-Auto, natural de Niza e residente em Elvas, onde é quadro superior da Estação Nacional de Plantas.
- LINO. José Rodrigues Lino, furriel miliciano mecânico-auto, natural e residente no Fundão, empresário de madeiras (serração).
- REINO. Armindo Henriques Reino, furriel miliciano de Operações Especiais (Ranger´s), aposentado da GNR, natural e residente no Sabugal.
- CARVALHO. José Fernando Costa Carvalho,. natural e residente em Santarém. Aposentado da PSP.
- BELO. Agostinho Pires Belo, furriel miliciano de Alimentação. Aposentado da Administração Fiscal, do Retaxo (Castelo Branco).
- BURRO DE MATO. Assim vulgarmente se denominava o UNIMOG, veículo de transporte de pessoal militar. 

domingo, 14 de novembro de 2010

O aeroporto de Carmona, onde ir era chic...

Lino, Belo e Gordo, três furriéis Cavaleiros do Norte da 3ª. CCAV. do BCAV. 8423, no aeroporto de Carmona

O aeroporto de Carmona foi a nossa "porta de saída» para Luanda e local, nos nossos meses da cidade, para rituais passeios de lazer: ir ao aeroporto, digamos, era chic.
Operacionalmente, foi motivo de segurança máxima nos duros primeiros dias de Junho de 1975 - quando foi guardado de armas nas mãos, do fogo e da metralha que poderia atingir a pista, o hangar e o edifício principal, tornando-o inoperacional. Por lá, se evacuaram muitos «refugiados», para Luanda.
A foto, como se vê pelo jeito deles, descontraído e calmo, foi de passeio de três dos furriéis da 3ª. CCAV. 8423: o Lino, o Belo e o Gordo. Tudo boa gente!
Por lá havia um snack-bar/restaurante, com vista para a pista e onde se comiam uns bons pregos no prato, com ovo a cavalo, e uns excelentes  bifes grelhados, que regávamos a cerveja - raríssimamente com vinho, que por lá era bem caro.  
- LINO. José Rodrigues Lino, furriel miliciano mecânico-auto, natural e residente no Fundão, onde é empresário do sector de madeiras (serração).
- BELO. Agostinho Pires Belo, furriel miliciano de alimentação, aposentado da administração fiscal, natural e residente no Retaxo (Castelo Branco).
- GORDO. António Luís Barradas Mendes Gordo, furriel miliciano atirador de cavalaria, funcionário da Câmara Municipal de Alter do Chão, onde reside.

sábado, 13 de novembro de 2010

Imagem da coluna militar de Carmona para Luanda

Imagem da coluna militar de Carmoma para Luanda, em Agosto de 1975. Repare-se que se vêem viaturas até ao fundo da recta. A coluna chegou a ter 24 quilómetros de viaturas 

 
A epopeica coluna militar de Carmona para Luanda já aqui foi contada, com narrativa o mais pormenorizada que se soube, mas com poucas imagens fotográficas. Esta foi-nos enviada pelo Belo, que foi furriel de alimentação da 3ª. CCAV. 8423, a de Santa Isabel, e nela (na coluna) seguiu.
«Chegámos a estar entricheirados debaixo dos carros, perto de Malange e noutros sítios. Fomos ameaçados!! Havia um grande confronto entre o MPLA e a FNLA, que rococheteava em nós...», recordou Agostinho Belo.
A foto, se a memória não falha, terá sido tirada numa zona completamente deserta do itinerário, numa das situações em que a coluna foi interpelada pelo MPLA ou pela FNLA. Essas situações repetiram-se, é difícil identificar o local e muito menos quem era o «agressor» - o que, para o que aqui falamos, vale o mesmo.
«Havia sempre medo, quando passávamos em zonas desertas, principalmente por sanzalas abandonadas», recordou-se o Belo.
Ver AQUI e postagens anteriores e posteriores

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

A ligação familiar do capitão médico Leal a Águeda

Tenente Luz, alferes Ribeiro e Hermida, tenente Mora, alferes Cruz, capitão Oliveira, alferes miliciano médico Honório Campos e capitão miliciano médico Leal


Volto hoje ao capitão miliciano Leal, quem a  graça do destino me fez reencontrar na noite de ontem. Porque, imaginem lá, ele tem «coisa» a ver com Águeda, a minha terra, da parte da «mais que tudo» de sua vida, a mulher - que é familiar do arquitecto António Carneiro, que foi meu professor e empresário do sector de faianças.
«Ai não sabia?!...», perguntou-me ele, a brincalhar, em farta gargalhada, com a minha surpresa e a aquecer-me a alma com a riqueza de pormenores que me contou do seu «ramo» aguedense.
«Ó dr. Leal, mas como é que é possível que eu não soubesse disso?!... Como é possível?!», , interroguei-o eu, a beber a surpresa, muito embora inocentado pela minha ignorância sobre a árvore genealógica do dr. Leal. 
Riu-se o doutor, que por Santarém se mestrou em clínica geral, «fez» todas as especialidades em Angola e por cá curriculou mais de 30 anos no Hospital de Fafe e nas redondezas que o reclamavam - a Misericórdia, os lares e as creches, a toda a gente que precisou da sua bondade e da sua sabedoria médica.
«Ainda hoje vou a Celorico ou a Felgueiras, se me chamarem. Vou sempre...». E dá consultas diárias, no rés-do-chão da sua casa de Fafe, a que se ligou pelo casamento, em 1959. «Um ribatejano só se dá bem no Ribatejo, mas não foi o meu caso, que gosto de Fafe, destas terras bonitas, destes ares...».
O dr. Leal falou-me dos Encontros dos Cavaleiros do Norte: «Ó pá, você dê-me uma apitadela, que eu quero ir.., nem que seja morto!!!...».
Mas qual morto, qual quê? O nosso médico do Quitexe respira saúde e, em 82 anos, um mês e oito dias dias de vida, só por duas vezes lhe mediram a tensão, aos 50 e as 70. «Vou voltar a medi-la aos 90!!!...», gargalhou o dr. Leal - que do Quitexe tem a mesma saudade que sentem todos os Cavaleiros do Norte. 

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O capitão miliciano médico Leal...

Alferes Garcia e Ribeiro, capitão médico Leal e tenente Luz

Meados de Novembro de 1974 foi tempo do adeus do capitão médico Leal, que pelo Quitexe missionou e suavizou a saúde de militares e civis. Falei hoje com ele. Foi emocionante! Tem 82 anos, feitos em Outubro!!! 82 anos joviais, bem-dispostos e disponíveis, continuando a dar consultas e a servir. Notável sacerdócio!
O dr. Leal, como todos o conhecíamos, era médico de clínica geral, mais tarde especializado em otorrino. Fez milagres pelo Uíge angolano, ora nas guarnições militares, ora ao serviço da administração civil e sempre que, feito João Semana, se dividia pelas sanzalas - onde consultava e distribuía medicamentos pelo povo que sofria dos males do corpo.
Tive o privilégio de integrar muitas escoltas que o levaram em missão por aquelas picadas fora, de ter a graça da sua permanente boa disposição e o gosto de lhe ouvir a farta piada que deitava na espuma da cada palavra e nos alegrava a vida. Imenso!!!
Recordámos hoje, em divertida conversa de memórias, a história do Neto - que inadvertidamente fez uma trocada aplicação de pomadas e «viu» decrescer-lhe uma parte do corpo que vão perceber adiante. A correr e atrapalhado, chamei eu o dr. Leal, que conversava no varandim térreo da messe de oficiais. Foi ele, de passo rápido e com o alferes Garcia à ilharga, acorrer à aflição do Neto e perguntou-lhe o que fizera.
Pois «foi isto e aquilo, sr. doutor!!!...», gritou-lhe o Neto, a doer-se de alma e com o desespero das grandes dúvidas e a angústia a medrar-lhe, na proporção em que lhe decrescia o membro.
«Era o contrário, pá!!!!!.... Faz isto e faz aquilo...», disse-lhe o dr. Leal, a rir-se muito, mas mesmo muito, em gargalhada bem sonora e de mão direita no bolso, a coçar a mesma parte (a dele), que o Neto via a mingar-se-lhe (a própria).
Rimo-nos hoje de tal história, e a farto rir!!!..., e, ao ouvi-lo, como que lhe estava a ver o rosto sempre feliz que passeava pelo Quitexe - sempre disposto a acudir aos males do corpo, fosse de militar saudoso dos cheiros e dos amores deixados no «puto», fosse de nativos ou residentes do Uíge onde fez notável sacerdócio da medicina e do BCAV. 8423 recebeu louvor e condecoração.
- LEAL. Manuel Soares Cipriano Leal, capitão miliciano médico, natural de Santarém e residente em Fafe.
- PUTO. Designação que vulgarmente era atribuída ao Portugal europeu, por ser territorialmente pequeno, em relação a Angola. 
Ver post sobre o capitão médico Leal, clicar AQUI.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Dias de Luanda a ficaram piores que os do mato...


A 10 de Novembro de 1974, datado de dois dias antes, recebi aerograma de Luanda, do inesquecível amigo Alberto Ferreira - dando-me conta dos incidentes que por lá se repetiam e metiam armas pesadas e fogo que amedrontava a comunidade civil - habituada ao sossego,à paz e cosmopolitismo de uma grande capital.
«Ou muito me engano, ou isto está a ficar pior que no mato...», assim me contava o cabo especialista da Força Aérea, aqui vizinho de Fermentelos. E acrescentava que «já há medo de andar de noite na rua...» e que uns dias antes «houve m... da grossa no Operário e no Rangel...» - dois dos bairros da cidade.
E a parte mais agradável: «Não tenho ido ao Comodoro. mas tenho passado pela Núvem, onde lá me desenrasco quando me perguntam por ti...».
Falava-me de dois espaços de Luanda, que eram chão e seara de muitos amores pingados e por onde se passeavam «duas almas feitas para nós», do Liceu Salvador Correia de Sá, e, sempre espampanante e a deslumbrar os nossos olhos gulosos, uma antiga estudante contemporânea de Águeda, sobre quem atiçávamos desejos e volúpias. 
«Às vezes, arma-se ao pingarelho..., mas passa-lhe», assim explicava o amigo, de quem me fiz gémeo em aventuras da noite luandina.
Que saudades!!! Que saudades de ter 22 para 23 anos, disponíveis, irreverentes e muito bem vividos! Qual guerra, qual quê!!! 
Ver AQUI.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

A mudança da 3ª. CCAV. 8423 de Santa Isabel para o Quitexe

Flora, Belo, Fernandes e Ricardo, furriéis da 3ª. CCAV. 8423 (Santa Isabel).

 
O mês de Novembro de 1974 do relativamente pacífico no plano operacional, como já aqui foi dito - pelas bandas e chãos do Quitexe-mártir de 1961. Uma das vantagens que capitalizávamos, era o conhecimento do terreno que tinha o nosso comandante Almeida e Brito - que por lá fôra oficial de operações do Batalhão de Cavalaria 1917, em 1968.
Eram, aliás, quase lendárias as histórias que nos contavam da sua acção de então. Por exemplo, a de ter integrado ao vivo (pelo menos) uma operação de grande envergadura militar - «coisa» que não era para a sua patente, mas que terá feito para impôr confiança aos seus homens e alguns medos ao dito inimigo. Não estranharíamos nós muito, tal feito. Dele nos falavam os velhos das aldeias e das machambas do Sub-Sector do Quitexe, por onde nós jornadeámos em missões do mais variado tipo.
«O escavaleiro branco?, heim esfurriééé... homem bravo!!!», exclamaram-nos muitos gentios, falando do então comandante do BCAV. 8423, tenente-coronel Almeida e Brito.E dele conheciámos  nós, por experiência própria, o destemor e o rigor, a autoridade e a disciplina, a competência e a decisão, o carácter firme que não deixava dúvidas, quaisquer que fossem!
Novembro de 1974, ao dia 4, veio ele de férias para Lisboa e assumiu o capitão Falcão o comando - com sucessivas reuniões no Comando de Sector, em Carmona; no Quitexe e nas companhias operacionais. Preparava-se já a rotação de várias companhias e no Quitexe era esperada a 3ª. CCAV., que «morava» por Santa Isabel. São dela os quatro furriéis da foto.
- FLORA. António Pires Flora, furriel miliciano atirador de cavalaria, quadro superior da Caixa Geral de Depósitos, morador em Lisboa.
- BELO. Agostinho Pires Belo, furriel miliciano de Alimentação, natural e residente no Retaxo (Castelo Branco), aposentado da administração fiscal.
- FERNANDES. António da Costa Fernandes, furriel miliciano atirador de cavalaria, professor do ensino secundário, de Lomar (Braga).
- RICARDO. Alcides dos Santos da Fonseca Ricardo, furriel miliciano atirador de cavalaria, residente em Odivelas. 

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A tranquilidade do mês de Novembro de 1974

O cessar-fogo anunciado a 15 de Outubro de 1974, não sendo embora cumprido à risca pelos movimentos - pois sempre se registou uma ou outra escaramuças... -, deixou porém, as guarnições militares em estado de muito conforto psicológico e moral elevado. E os operacionais, como era o meu caso (o do PELREC), muito mais descansados.
«Pode dizer-se que o mês de Novembro se caracterizou por uma acalmia não encontrada ha longos anos», sublinha o Livro da Unidade.
Carta minha para minha mãe, que agora reli e datada deste dia de 1974, dá conta que «as coisas estão a correr muito bem, pois os políticos já se entenderam e nós já não fazemos já operações no mato». Lá lhe expliquei o que era uma operação do mato e, dando-lhe alma às esperanças, afirmava-lhe a minha certeza absoluta de que não iriam aparecer problemas.  
Eu datava as cartas, aditando-lhe o dia da semana, e sei por isso que esta carta é de uma 6ª.-feira, uma semana depois do 1 de Novembro. «Fui ao cemitério aqui da vila onde estamos e bem me lembrei do nosso (...), depois passei pela igreja, onde havia cerimónias, mas é muito pequenina e nem entrei». Viria a receber, por não ter entrado, um reprimenda das sérias, no troco do correio: «Já te esqueceste do que te ensinei...», apontou-me minha mãe, num chá de tília que não deixa de me emocionar, neste momemto em que releio o que me escreveu, com data de 16 de Novembro de 1974.
A foto que aqui edito, sentado eu na entrada da  Igreja da Mãe de Deus do Quitexe, enviei-na nessa carta de 8 de Novembro, com a a seguinte legenda: «Aqui estou eu, sentada na entrada da igreja. As placas que vê na fachada estão cheias de nomes de mortos, de quando foi o início do terrorismo, em 1961. Agora, está tudo sossegado». E assim era. A foto é de data anterior ao envio para Portugal.

domingo, 7 de novembro de 2010

O amor do Lopes pela caboverdiana bonita... (fim)




ANTÓNIO CASAL (texto)
(continuado de ontem)

(...) Bem caída a noite, aperaltado à civil e a antever umas  horas luxuriantes, lá foi o Lopes em passo acelerado, ao compasso dos batimentos cardíacos, como se tivesse asas nas pernas.
Foi, mas, para sua surpresa, quando chegou tinha toda a família dela à sua espera e a fazer “guarda de honra”! E não menos aperaltada! Afinal, o momento era cerimonioso!...
Foi aqui que o Lopes, pessoa sempre empolgada mas que transpirava ingenuidade, sentiu as pernas curtas para o passo que dera! Ao aperceber-se da alhada em que se metera, ainda tentou dizer qualquer coisa para salvar a pele, mas viu a voz fugir-lhe! Com um nó na goela, depressa viu que não tinha saída e, instintivamente, fez meia volta volver, e voltou a ganhar asas nas pernas mas em sentido oposto! Só parou na caserna, com o coração aos saltos e os olhos esbugalhados! Todos recearam que morresse ali mesmo!!!
Nos dias que se seguiram, não foi nada fácil escapar à ira dos irmãos da donzela! E agradecido está ao Figueiredo “candongueiro” que, muito diplomaticamente, e de G3 na mão, lhes foi pôr os pontos nos ii!!!
A digerir o susto, esteve quase três meses sem sair da avenida de baixo e limitando-se a tímidas saídas ao bar do Topete, mas sempre acompanhado! Tudo isto nos recordou com empolgamento, gesticulando freneticamente e não omitindo os palavrões da época! E sempre, sempre a pôr-se em bicos de pés para poder olhar por cima dos nossos ombros, qual camaleão, não sei se para se certificar de que a mulher não ouvia a conversa, se por recear que a família da caboverdiana ainda por ali andasse para marcar a data do casamento!!!
ANTÓNIO CASAL
(FIM)
NOTA: A foto não corresponde à mulher da história (foi recolhida na net)

sábado, 6 de novembro de 2010

O amor do Lopes pela caboverdiana bonita... (1)



ANTÓNIO FONSECA
TEXTO

Quem pensa que no Quitexe não havia verdadeiros amores, desengane-se! E que o diga, e disse, o soldado Lopes, que por lá viveu uma grande paixão e por ela teria ficado em terras de Angola!

Julho de 1972, dois meses estavam passados no Quitexe, e já ele andava perdido por uma beldade de origem caboverdiana. Lindíssima, cor de ébano aveludado e olhos filtrantes, passeava-se pela vila exibindo um sorriso provocador, a que era difícil, se não impossível, ficar indiferente. Era dona de uma beleza estonteante, diga-se!
Solteiro e desimpedido, e também nada curto de vista, foi-se enleando, enleando…, e encetaram um namoro. Começou discreto, receando ser alvo de piadas de caserna, mas pouco a pouco assumiu-o sem quaisquer preconceitos e até começou a programar o futuro, que passaria por Angola.
Mas teve dias nada fáceis, com a família dela sempre desconfiada das intenções, sabendo bem o que por ali se “gastava”! E tanta coisa a rapariga ouviu que a relação começou mesmo a esfriar, limitando-se a encontros mais esporádicos.
Bem avisado foi ele, depois de um civil ter assegurado que os irmãos não eram flor que se cheirasse!... Mas não adiantava, e até se tornava colérico, tal era a fixação!
Desorientado, logo reuniu com dois “experientes” na matéria, e de imediato foram montadas estratégias e ensaiadas frases românticas! Até os perfumes fizeram parte da lista, afim de substituir os que a impregnavam! Resultado das estratégias ou não, o certo é que a coisa resultou!
De novo, dava gosto ver o Lopes feliz da vida. Quem lhe conhecia aquela paixão não tinha a coragem de lhe negar uma troca de serviço para que pudesse estar com a sua amada. Aquilo era enternecedor!
Finalmente chegou a prometida noite, em “suite” emprestada perto do bar do Pacheco! E ali mesmo, embrulhado em juras de amor, deixou-se embebedar da paixão que há muito levedava e falou-lhe em casamento! Palavras não eram ditas e já ela se engalfinhava, quase sufocando-o! Sem mais delongas e ainda em vale de lençóis perfumados a “bien-être”, logo o convidou para ir a sua casa no fim–de-semana. Que mais poderia querer se tudo estava perfeito?!
ANTÓNIO CASAL
NOTA: Amanhã se saberá o resto do namoro.
A foto não corresponde à história que aqui se conta.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A profissão actual de um Cavaleiro do Quitexe

Cabrita e Viegas, com uma idosa da sanzala do Talabanza, à saída do Quitexe, para
Carmona (1974). Em baixo, a capa do livro da 4ª. classe do ensino oficial, usado nas aulas regimentais do BCAV. 8423


O que este blogue tem de mais graça, para além de aqui se recordarem histórias de importante período das nossas vidas pessoais e das Histórias de Portugal e de Angola, é o prazer de se redescobrirem companheiros que comungaram da mesma solidariedade e partilha. Companheiros que, pelo chão angolano do Uíge e depois em Luanda, nos quentes e fragéis tempos de Agosto e Setembro de 1975, nos regaram entusiasmos e multiplicaram amizades que nos fizeram mais maduros e afirmados. 
Este blogue dá para isso e, imaginem lá, até para reachar famílias que o tempo afastou e se perderam umas das outras. Ou para saber por onde pára este e aquele, este e aqueloutro dos todos que fizemos a grande família dos Cavaleiros do Norte: por onde andam, o que fazem, como estão?? E a saúde, como vai? Já és avô? Já está reformado? O que é que fazes? Sabes quem já faleceu?
A mim, e isto dá-me uma certa graça, já me atribuíram uma data de profissões: escriturário, contabilista, engenheiro de construção civil, empreiteiro, delegado de propaganda médica, gerente comercial, vendedor, advogado, funcionário público, empresário, industrial, despachante, empregado de escritório, professor... Não é nenhuma destas, mas a esta última quis chegar, para lembrar que, por estes tempos do Quitexe, em 1974, fui professor, sim senhor... nas aulas regimentais. E «tive» um aluno muito especial: o inimitável e fraterno Cabrita. Remeto-vos para AQUI.
- CABRITA. António Santa Cabrita, soldado básico. Natural do Alvor (Portimão) e morador em Cascais, onde é proprietário de um barco de pesca de mar. 
- LIVRO. «Caminhos Portugueses», livro de leitura para a 4ª. classe, aprovado oficialmente para o Ultramar, por despacho ministerial de 29 de Agosto de 1969 e para ser utilizado a partir do ano lectivo de 1979/71. Os originais de alguns textos foram modificados, por exigências de ordem didáctica.  

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O 4 de Novembro de 1974 e os que já partiram

Dia 4 de Novembro de 1974, encontro do PELREC com guerrilheiros da FNLA na aldeia do Dambi Angola, a uns 30 quilómetros do Quitexe. Em baixo, Viegas a experimentar uma arma do gerrilheiro da foto. Pires, de Bragança, ao lado


A 4 de Novembro de 1974, hoje se completam 36 anos, o PELREC «encontrou-se» com combatentes da FNLA. Terá sido  a primeira vez que aconteceu este tipo de encontros, do pós-cessar fogo - entre militares portugueses e grupos armados da chamados movimentos de libertação de Angola. A história já AQUI foi contada. Foi um dia de muitas emoções e alguns medos - muitos mesmos... - e deles nem adianta falar. Do grupo que arriscou os perigos e o pó da picadas, as dores e a ansiedade de quem sabe que pode cair uma emboscada, a cada momento, ser alvo de um disparo ou do deflagrar mortal de alguma granada, de uma mina ou outra qualquer  arma de guerra, já alguns partiram. 
Aqui lhes faço homenagem:
1 - ALMEIDA. Joaquim Figueiredo de Almeida, 1º. cabo atirador de cavalaria, falecido a 2 de Fevereiro de 2009, vítima de doença, natural do Penedono. Ver AQUI.
2 - VICENTE. Jorge Luís Domingues Vicente, 1º. cabo atirador de cavalaria, de Vila Moreira (Alcanede). Faleceu a 12 de Janeiro de 1997, vítima de doença. Ver AQUI.
3 - ARMANDO. Armando Domingues Gomes, soldado atirador de cavalaria, falecido a 3 de Setembro de 1989.
4 -LEAL. Manuel Leal da Silva, soldado atirador de cavalaria, de Caixaria (Pombal). Morte súbita a 18 de Junho de 2007. Ver AQUI.
Outros, terão falecido. Não sabemos!  Mas hoje todos evocamos, com a emoção de quem com eles comungou solidariedades que só quem foi militar em zonas de combate alguma vez pode perceber! 
A nossa saudade e homenagem. Foram heróis que nunca voltaram a cara aos perigos! Sempre generosos e corajosos!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A véspera do dia 4 de Novembro de 1974

Mapa de Angola, com as acções da UPA (FNLA) em 1961. Imagem do livro «Guerra Colonial), de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes. Destacadas as principais localidades por onde jornadeou o BCAV. 8423. Clicar, para a ampliar


O dia 3 de Novembro de 1974 tem registo muito especial na história do PELREC, quando recebeu a talvez mais delicada ordem de operações de toda a comissão: sair na madrugada do dia seguinte, para a sanzala do Dambi Angola, onde nos encontraríamos (e encontrámos) com elementos da FNLA.
Também já aqui contei do desejo do Pires, o furriel de transmissões, que a todo custo querer participar numa operação. AQUI. Não falei o meu recolhimento pessoal, nessa noite quitexana, depois de horas de conversa com o Neto - deitados no nosso quarto da Casa dos Furriéis.
Falámos das nossas coisas, dos nossos cheiros e das nossas gentes de Águeda. Lembrámos fases da nossa preparação operacional em Lamego!! Li correio do dia e das vésperas, sentindo-me desassossegado, e, por volta da meia noite, saí já fardado, como por volta das cinco horas da manhã iria sair. Sair, armado dos pés à cabeça-
O quarto do Pires (e do Rocha) era ao lado, virado para a avenida, e espiei-lhe o silêncio. Saí, dei volta pelo bar, desci e achei-me junto à igreja da Mãe de Deus do Quitexe. Por ali, pensei alguns momentos. Nostálgicos! A olhar o céu vermelho de Angola, a espreitar o luar que se escondia por detrás da mata do Quipimba!!! Voltei e passei na caserna do PELREC, onde alguns homens já dormiam e outros jogavam cartas e escreviam. «Pessoal, tudo na choça!!...», gritei-lhes eu, para irem dormir. Daí a ora, sabe-se lá o que ia acontecer!!! Tinham todos de estar bem preparados. E descansados.

Não era vulgar por aquela hora eu passar na caserna, a não ser que estivesse de serviço, e isso me notou o Botelho (foto), um dos mais irreverentes pelrec´s, mas um bom soldado. «Vamos sair?!...», perguntou-me ele. Voltei a passar no bar, onde o Lajes arrumava o balcão. «Quer alguma coisa, furriel?!...». «Sorte!!! Sooooorte!!!...», disse-lhe eu. Passei na porta da messe de oficiais e lembrei ao oficial de dia que nos acordassem. E fui deitar-me, a três metros do sono dos justos em que já se descansava o Neto. Às 5 da manhã, esfregáms a cara na água e lá fomos nós acordar o «pelrec". 
"Tudo a pé, malta!!! Tudo a pééééééé´!!!!...Três minutos para estarem na parada, com equipamento de combate!!!...", gritei eu, e gritou o Neto, aos pontapés nas camas, a soltar os lençóis  e a acordar os homens. 
Bebemos leite com cacau no refeitório, comemos pão, queijo e fiambre. Afivelámos a ração de combate e aí fomos nós, estrada fora, até à picada do Dambi, ainda não se tinha aberto o céu madrugador do Uíge angolano.
- BOTELHO. Jorge António Pinto Botelho, soldado atirador de cavalaria. Natural e residente em Vila Nova de Gaia.
- LAJES. Carlos Alberto Aguiar Lajes, soldado atirador de cavalaria, destacado no bar dos sargentos. Natural e residente em Lisboa. 

terça-feira, 2 de novembro de 2010

A moambada de Sanza Pombo, à boleia desde o Quitexe

Edifício da CCS da unidade militar instalada em Sanza Pombo, foto de Jorge Oliveira


O dia 2 de Novembro de 1974 foi de visita do Bispo de Carmona ao Quitexe (ver AQUI) e do Brigadeiro Altino de Magalhães, ao tempo Comandante da Zona Militar Norte (ZMN). Também por lá passaram neste dia, em visita de cortesia e de carácter particular, «o comandante do Batalhão de Cavalaria 8324 e vários oficiais da guarnição de Carmona», como se lê no Livro da Unidade.
O BCAV. 8324 (não confundir com o 8423, o dos Cavaleiros do Norte) jornadeou por Angola entre 1973 e 1975, na área de Sanza Pombo e mobilizado pelo Regimento de Cavalaria 3, de Estremoz. Poucas notas consegui obter sobre a unidade, sendo mais relevante a de um morto em combate, a 17 de Maio de 1975 - o soldado António José Duarte Silva, da 3ª. CCAV. 8324.
Sanza Pombo foi terra de uma visita minha, em data que não consigo precisar - lá chegado em sucessivas boleias militares, do Quitexe para Carmona, daqui para Negage, depois para Sanza Pombo. Lá morava um conterrâneo meu, o Adolfo Pires dos Reis, funcionário do Ministério da Agricultura e já falecido. E lá comi uma das primeiras moambadas da minha vida, de que sempre em disseram maravilhas mas de que nunca fui muito apreciador. Naquele dia, soube-me muito bem. Sei lá se por a conversa rimar sobre as coisas da terra de ambos, falando dos conterrâneos e da coisas que nos eram comuns!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O dia 1 de Novembro de 1974...

Fernandes, Guedes, Rabiça, Querido e Belo, furriéis milicianos da 3ª. CCAV. 8423, de Santa Isabel 


A 1 de Novembro de 1974, estive em Santa Isabel - a fazenda onde se instalava a 3ª. CCAV. 8423. Por nada de especial, mas em escolta normal - que lá levou o comandante Almeida e Brito, em qualquer missão, já que dias depois iria de férias para o «puto».
A razão de aqui vir falar disto tem apenas a ver com a pressa que eu e outros militares tínhamos, por nesse dia  ser o 1º. de Novembro - que recomendava recolhimento e oração, aos homens de mais fé. Por mim, ao tempo órfão de pai há relativamente pouco tempo, o dia tinha emoção ainda mais particular. E «precisava» de ir ao cemitério do Quitexe. Como realmente fui, depois de, sem entrar, ter dado uma espreitadela na pequena igreja da vila.
A pressa de Santa Isabel não evitou, porém, que, no bar dos furriéis, se bebessem uns boas cucas, regando mancarra e uma boa sandes de chouriço - entre a algazarra que por lá se fazia. Foi nesse dia que, recolhendo-me eu por uns momentos, em passeio isolado pelo eirado do café da fazenda, fui interrogado pelo Garcia. «O que é que se passa, pá?!!!».
O alferes miliciano comandante do meu grupo de combate, olhara-me da janela da messe de oficiais e alguma coisa notou no meu passo, ou gestos, que o levou atrás de mim. «Nada, nada!!! Nad de especial... desopilo!...». E aproximei-me do Fernandes, que vinha do outro lado, a pensar na sua queda de cabelo. «Eh pá, hoje percebi porque é que a malta do meu pelotão fica a olhar para mim quando lhes pergunto se estão com algum problema...», exclamei para ele.
Na verdade, sendo meu hábito perguntar isso, quando lhes notava comportamentos diferentes, naquele 1 de Novembro de 1974 era eu quem se sentia constrangido e diferente! E emocionado!
- FERNANDES. António da Costa Fernandes, furriel miliciano atirador de cavalaria. Professor do ensino secundário, natural e residente em Lomar (Braga).
- GUEDES. Vitor Mateus Ribeiro Guedes, furriel miliciano de armamento pesado. Residia em Lisboa (Alfama) e já faleceu.
- RABIÇA. Ângelo Tuna Rabiça, furriel miliciano enfermeiro, de Via Real.
- QUERIDO.José Adelino Borges Querido, furriel miliciano atirador de cavalaria, colaborador do Liceu Francês e comerciante por conta própria, residente em Famões (Odivelas).
- BELO. Agostinho Pires Belo, furriel miliciano amanuense, aposentado da administração fiscal, do Retaxo (Castelo Branco).

domingo, 31 de outubro de 2010

O desarmamento dos milícias e o GE que chegou a capitão

Bar do Rocha, na entrada do Quitexe, do lado de Luanda, na Estrada do Café

O desarmamento dos milícias começou a ser feito, «voluntariamente», a 28 de Outubro de 1974. E sem quaisquer problemas. Para trás, ficavam alguns constrangimentos levantados pelos regedores das sanzalas, qu´andavam tementes de eventuais represálias dos combatentes dos movimentos de libertação - em particular da FNLA, o mais operativo na zona.
Desses dias, mas sem agora conseguir precisar pormenores, lembro-me da reacção meio tresmalhada de um GE que, no bar do Rocha (foto), já mais de meio embriagado, fazia questão de garantir, em ar de bravata e até insolência, que ele «nunca entregaria a arma».
Um GE, repare-se! Não um milícia.
Mas os próprios GE´s, quando chegou a hora do seu desarmamento, também não levantaram quaisquer problemas. Alguns deles, sem qualquer estranheza ou surpresa nossas (nossas, Forças Armadas de Portugal...), acabaram até por aderir ora à FNLA, ora ao MPLA.  
Um deles, vi eu a encontrá-lo - ou ele a mim, como queiram... - na avenida D, João II, em Luanda, com os galões de capitão nos ombros. Comandava uma força do MPLA, nos conturbados tempos de Agosto para Setembro de 1975.
Lembro-me que os seus olhos brilhavam de alegria: «Subi nos vida, esfurrié...», disse ele, para mim e para o Neto, radiante da vida e com o ar da felicidade de quem está no céu.
Era o mesmo GE que muitas vezes me dizia que tinha «mais esdinheiro nos puto que tu...». Tu, que era eu. Valha a verdade que não era difícil, mas, sendo isto verdade ou mentira, certo é que também me dizia que tinha um ou dois filhos a estudar num colégio do Estoril.
- GE. Grupos Especiais. Unidades auxiliares formadas em 1968, constituídas por voluntários africanos de etnia local, que operavam adidas às unidades do Exército Português. No seu auge, em Angola existiam, 99 grupos GE de 31 homens, cada. O BCAV. 8423 tinha adidos os GE nºs. 217 e 223 (Quitexe), o 222 (Aldeia Viçosa) e o 208 (Vista Alegre).
- PUTO. Designação dada a Portugal (continental), por ser pequeno, relativamente a Angola. Angola é territorialmente 14 vezes maior que Portugal.

sábado, 30 de outubro de 2010

Três garbosos «cavaleiros» de Santa Isabel

Lopes, Belo e Graciano, três furriéis de Santa Isabel (3ª. CCAV. 8423)


Os tempos de tropa, costuma dizer-se, são dos melhores das nossas vidas. Nunca os esquecemos, por isto, por aquilo, por tudo!!! E também pelas sementes de companheirismo que se desenvolveram e se transformaram em amizades para toda a vida! Há, na vida militar - e nomeadamente a que se desenvolve em teatros de guerra -  uma solidariedade imensa, que nasce dos momentos comuns de dor e de saudade e se multiplica em cada gesto, em cada dia, pelas semanas e os meses fora, os anos!
Os companheiros de Santa Isabel, os da 3ª. CCAV. do capitão Fernandes, foram os que mais privaram com a CCS - por no Quitexe termos sido contemporâneos, de Dezembro de 1974 e princípios de Março de 1975.
Aqui recordamos, desse tempo, três jovens e gabosos furriéis milicianos:
- LOPES. José Avelino Grenha Lopes, atirador de cavalaria, natural de Galegos de Santa Maria (Barcelos) e residente em Lisboa. Está ligado à área dos têxteis e confecções.
- BELO. Agostinho Pires Belo, amanuense, natural e residente no Retaxo (Castelo Branco), aposentado da administração fiscal. 
- GRACIANO. Graciano Correia da Silva, atirador de cavalaria, de Lamego, vitivinicultor. 

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Apresentação de 6 homens armados da FNLA no Quitexe

Edifício do Comando do CCAV. 8423 (à esquerda), na esquina da rua para a Igreja do Quitexe


A 29 de Outubro de 1974, um grupo de seis elementos armados da FNLA apresentou-se ao comando do Batalhão de Cavalaria 8423, no Quitexe. Era um fim de tarde, já a estender-se para a hora do jantar, seriam para aí umas cinco, cinco e meia, e a guarnição mexia-se no bulício habitual.
As oficinas e secretaria já tinham trancado as portas e fumegavam panelas e tachos na cozinha, enquanto alguns militares enxaguavam o corpo nos balneários, despegando-se do pó vermelho da terra angolana, que era fartamente regado pelo suor que lhes irritava a pele, mas desentupia os poros.
A «coisa», digo eu..., devia estar combinada, pois chegaram os seis homens, seis homens negros da cor do pau-preto, de carapinha meia tapada por bonés rotos e a enfeiar-lhe o rosto, modestamente fardados, de cinturão feito de corda de sisal, camisa em tons de camuflado e calças descaídas, a tapar-lhe os pés meio calçados. E um deles, me lembro eu, de sandálias meio avermelhadas e a deixar ver a sola branca dos pés e as unhas grandes, por onde parecia terem vegetado matacanhas.
O Garcia tínha-nos posto de sobreaviso. «Podem aparecer aí uns gajos..., nada de hostilidades!!!...». E nós ali a vê-los, de olhos desconfiados, como milhafres grandes a mirar as presas, «presas» a subirem a rua de baixo, do lado da estrada para Camabatela, até que um oficial os pegou.
«Filhos da p... Ainda os f.... e é já!!!...», ouvimos por ali, na porta da casa dos furriéis, vendo-os entrar para o edifício do comando - onde já estava a autoridade administrativa do Quitexe.
Os seis homens, viemos a saber, diziam-se pertencer ao quartel de Aldeia e vinham comandados pelo sub-comandante João Alves. Vinham e apontaram o dedo aos militares portugueses - que culpavam de actividades ofensivas na serra do Quibinda. Depois do anunciado cessar-fogo de 15 de Outubro.
«Facilmente concluíram serem tais actividades de elementos estranhos, que procuram, certamente, criar um clima de desconfiança total, entre a FNLA e as NT», lê-se no Livro da Unidade.
Ainda hoje é estranho falar deste momento, que foi tão pacífico e tão relevante, ao mesmo tempo. Faz hoje 36 anos!!

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

As botas que eram da Força Aérea e custaram 400$00



A 28 de Outubro de 1974, recebi umas botas pelo correio. Botas da tropa, bem entendido.
As minhas, um dos dois pares de cabedal que daqui levara, já estavam muito gastas pelos milhares de quilómetros calcorreados desde a Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, passando pelo exigente e muito palmilhado Centro de Instrução de Operações Especiais - os Rangers, em Lamego - e não esquecendo os tempos de Santa Margarida. E as operações militares nas matas do Uíge angolano. 
E o que de história tem receber um par de botas?! Bom, é que eram botas da Força Aérea e eu era do... Exército, o que causou alguns engulhos. Nomeadamente, por causa da velhíssima relação persecutória que um quadro superior da CCS mantinha com a minha pessoa.
Fui chamado a contas.
«O nosso furriel não sabe que calça umas botas da Força Aérea?», interpelou-me o impertinente superior hierárquico, uns dias depois. Bem poucos.
«As botas são minhas...», respondi, com ar e atitude de respeito.
«Não pode usá-las, são da Força Aérea...», insistiu quem na tropa mais era que eu.
«São minhas!...», retorqui, já meio refilão, diria mesmo algo insolente - que a paciência também morre.
«Faça favor de as ir tirar, se não participo...», ameaçou-me a superior figura.
«Pois participe!!! Eu conheço das NEP...», respondi eu, já impaciente, mas respeitador qb e até algo receoso, confesso. «Dá-me licença que me retire?».
Fui licenciado e ao outro dia repreendido: «O sr. furriel nunca mais me responde assim, se não....».
Vim a saber - estas coisas sabem-se sempre... - que a venerável figura tinha passado horas a procurar nas NEP um artigozinho da lei com o qual me pudesse «fazer a cama».
«Ó Viegas, pá... o homem até se babava de ansiedade, por não encontrar forma de te pegar...», disse-me um 1º. cabo que assistiu ao acto.
As botas foram enviadas pelo amigo Alberto Ferreira, que era cabo especialista da Força Aérea, na Base Aérea de Luanda. Custaram 400$00. «O correio foi de borla, pois trata-se de um envio de SPM para SPM», contou-me ele, na carta capeada pelo envelope da imagem que se vê acima.
- NEP. Normas de Execução Permanente.
- SPM. Serviço Postal Militar

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Os refrigerantes do Costa tinham álcool

Lopes, Viegas, Bento e Flora (em cima), Rocha, Carvalho, Lopes (3ª. CCAV.)
e Costa (Morteiros) e Reina no dia de ano novo de 1975

Uma das unidades operacionais da CCS do BCAV. 8423 era o Pelotão de Morteiros 4281, comandado pelo alferes Leite - se me não engano, sendo certo que era açoreano. Estava instalado ao lado da padaria, entre as messes da sargentos e oficiais, e dele (do PM) lembro o impagável furriel Costa.
Impagável - e o ponto de vista é meu, ele que me perdõe... - pelas teorias que desenvolvia sobre qualquer assunto (fosse ele qual fosse...) e porque vivia na suspeição de que o álcool fazia mal e não o bebia. Só refrigerantes: dussóis, missions, coca-colas e, vá lá, ousava até beber água.
Nós, então, a gozar com a coisa e por malandrice, até porque ele era lá das lisboas - um queque, do nosso ponto de vista rural... -  «voluntariavamo-nos» para lhe pregar sucessivas partidas, misturando-lhe álcool nas bebidas, à sucapa. Em dose qb, vá lá..., de molde a que ele não entendesse o nosso abuso.
Pois o bom do Costa bebia e entendia que tinham álcool, mas não percebeu que o púnhamos nós. Para ele, na sua santa bondade, os refrigerantes tinham álcool, tinham, tinham... sim senhora, e de tal forma que até o toldavam.
Ai as discussões que nós tivemos na messe do Quitexe, para defendermos a tese de que não tinham álcool, reinvidicando sempre o Costa razões para a sua tese: tinham álcool, sim senhor. Não eram todos, mas ele bem o notava n´alguns! 
- REINA. O amigo furriel Reina fazia anos neste, 22!!!! Foi uma festa!!!

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Retirada dos Cavaleiros do Norte das guarnições não urbanas

Monumento aos mortos, na Fazenda do Liberato (em cima) e porta
d´armas do Quitexe (em baixo, à direita), vendo-se hasteada a bandeira de Portugal)

A 25 de Outubro de 1974, começaram a conhecer-se as linhas gerais da  remodelação do dispositivo militar do Sub-Sector do Uíge - o do Batalhão de Cavalaria 8423, que por aqui vamos chamando de Cavaleiros do Norte.
1 - A Companhia de Caçadores 209, que se aquartelava na Fazenda do Liberato ia a regressar à sede (o RI21, em Luanda), com data marcada para 8 de Novembro.
2 - A Companhia de Caçadores 4145 abandonadoria Vista Alegre e passava para o Comando Operacional de Luanda. E para lá rodava a 1ª. CAV. 8423, a de Zalala - comandada pelo capitão miliciano Castro Dias. A operação viria a estar concluída no final de Novembro de 1974.
3 - A 3ª. CCAV., a do capitão José Paulo Fernandes, com guarnição na Fazenda de Santa Isabel, rodaria para o Quitexe - o que se viria a completar em Dezembro.
Na prática, eram abandonadas as posições militares de «mato», nas fazendas de Zalala, Santa Isabel e Liberato. O BCAV. 8423 passava a operar na linha do alcatrão da estrada do café, da Ponte do Dange a Carmona, com posições em Vista Alegre, Aldeia Viçosa e Quitexe

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Aqueles que no Quitexe pediam e ajudavam a tropa...

Capitão Oliveira, Alferes Cruz, Ribeiro e Garcia, furriel Viegas e alferes Simões, na sanzala do Canzenza (1974) 


ANTÓNIO CASAL
Texto

Socorrendo-me da minha memória visual, recordo bem o quitexano que está à esquerda do Viegas. Era um rapaz que não tinha ocupação fixa e que se abeirava da tropa, principalmente da enfermaria, à espera de qualquer pequena tarefa, a troco de comida.
Era afável e educado e a quem se confiava algumas tarefas, principalmente de limpeza. Tinha alguns problemas de dicção, o que o levava a olhar para o chão em alternativa à resposta.
Como ele, havia outros na vila e a quem a tropa não recusava ajuda, de um modo ou de outro. Quando chegámos, de imediato se foram abeirando e alguns até puxavam dos seus "galões", mostrando que já estavam integrados e, ao mesmo tempo, pediam este aval aos militares que substituimos. Era uma luta pela subsistência a que nós assistíamos e que nos era muito estranha. Afinal, tínhamos apenas meia dúzia de dias de Angola e muitas outras coisas iríamos estranhar.
De toda esta gente, não nos esquecemos e até dela falamos nos nossos encontros, como parte integrante do nosso dia-a-dia naquelas terras.
É que. quer se queira, ou não, toda aquela gente e toda aquela vivência fazem e sempre farão parte do nosso passado e das nossas vidas! E renegar o passado, passado de que nos orgulhamos, seria tentar apagar parte da vida, o que não faria qualquer sentido! Por isso mesmo, ainda hoje questionamos: o que será feito de fulano?... E de beltrano?
Nostalgia em estado de pureza à parte, é sempre bom e gratificante sentirmo-nos bem com o nosso passado! E com a nossa vida!
ANTÓNIO CASAL
- NOTA: Este texto reporta-se a AQUI.

domingo, 24 de outubro de 2010

Há 36 anos, uma ida a Aldeia Viçosa...

Rua principal de Aldeia Viçosa (em cima) e mapa da região, da Google 
(em baixo). Aldeia Viçosa (ao fundo), Fazenda Santa Isabel (acima) e
Dange, o Quitexe (canto superior direito)


A 24 de Outubro de 1974, hoje se completam 36 anos - vejam lá como o tempo passa!!!!... - jornadeámos do Quitexe para Aldeia Viçosa, em escolta por estrada de asfalto ao comando e oficiais da CCS do BCAV. 8423. Não sabíamos ao tempo, mas sabe-se agora: estava em causa a remodelação do dispositivo do batalhão e sobrava a questão, aliás complicada, do desarmamento do(s) milícias.
Aldeia Viçosa, como aqui já foi dito..., tinha registado várias resistências da parte dos povos (sanzalas) em que se localizavam os milícias - como aliás aconteceu na área de acção do Quitexe. Mas não foi coisa que não se resolvesse e lá foram convencidos os homens, de que não deveriam recear acções da FNLA.
«Argumentam os povos que esses núcleos armados são a sua melhor defesa às acções de depradação do IN», lê-se no Livro da Unidade, acrescentando-se que «tal argumento é difícil de contrariar». Mas a verdade é que também as NT não poderiam garantir a vivência pacífica entre os milícias e os combatentes que se iam apresentando às autoridades, na sequência do processo de descolonização. Eram, ao fim e ao cabo, angolanos e inimigos - até aí combatentes de lados diferentes das trincheiras.
Ainda hoje não encontro explicação razoável para a forma (quase) pacífica como tal acabou por ocorrer no Uíge - pesando, embora, os incidentes (e graves) que por aqui já foram registadas e outras que desconhecemos. Para tudo é preciso... sorte!