sábado, 15 de janeiro de 2011

A notícia de um falecimento na aldeia...


Aeroporto internacional Craveiro Lopes, em Luanda (1974/75)

Aqui falei, no dia 11 d Janeiro, de um encontro de ribeirenses em Luanda, no bacalhau do Vilela - ao bairro da Cuca. E da visita que, nessa altura, eu e o Albano Resende fizemos ao Neca Reis.
Neca e Aníbal (também Reis, o Lito) foram os dois primeiros conterrâneos mobilizados para Angola, em 1961. O Neca, que é meu vizinho de a 100 metros, passou mesmo pelo Quitexe e Carmona, em passas de guerra que nem vale a pena lembrar.
Esta tarde encontrei-me com ele e eu, de memória fresca pelo post de 3ª.-feira, lá lhe lembrei a bacalhauzada do Vilela.
«E sabes que novidade me deste ao outro dia?», perguntou-me ele, de olhar grave e olhos a quase marejar para a emoção. Não, não me lembrava. «Deste-me a notícia da morte do meu pai...».
Rebobinei a memória, reli apontamemtos e vem ao caso lembrar que, na manhã de domingo, dia 12 de Janeiro de 1975, estando eu em Luanda, fiz um telefonema para a vizinha Celeste, querendo  surpreender minha mãe, que era vizinha da loja que tinha um dos apenas dois telefones que existiam na minha aldeia. Telefonar de Angola para Portugal, naquele tempo, era uma verdadeira epopeia, um verdadeiro atrevimento, e em nenhuma das vezes consegui falar com a autora dos meus dias. Mas, dessa vez, disse-me a vizinha Celeste que tinha sido o enterro do pai do Neca, na véspera. O enterro de José Simões dos Reis - que conhecíamos por Taipeiro.
Fiquei naquela de ir ter com ele, ou não. Ele já saberia, ou não. Na véspera, que tinha sido o dia de funeral e da bacalhauzada, não sabia. Resolvi-me a ir e lá fui de táxi, até ao restaurante onde ele trabalhava - para lhe dar a notícia. Horas depois, lá tinha de voltar ao Quitexe e dei-lhe a má nova num ápice de tempo. Ele ainda não sabia. Naquele tempo as comunicações não eram como hoje, quase instantâneas - e ainda lá não tinha chegado a má nova. 
«Ainda servi os almoços e depois fui para casa. Só uns dias depois recebi uma carta a dar-me a notícia», comentou-me o Neca, na conversa de hoje. E desfiou-me, depois, a maldição do seus tempos de militar em Angola, ns epopeicos tempos de 1961 e 1962. 

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Estado Maior do Comando de Sector do Uíge reunido no Quitexe

Edifício do comando do BCAV. 8423, à esquerda, na
avenida principal do Quitexe  



A 15 de Janeiro de 1975, o Estado Maior do Comando do Sector do Uíge esteve no Quitexe, reunindo com todas as unidades da área e participação dos respectivos oficiais. O objectivo era definir as actividades operacionais e, pelo mesmo motivo, o comandante Almeida e Brito já tinha estado em Carmona, no Comando de Sector - onde voltou no dia 28.
A mesma razão o levou também a Vista Alegre, onde estava a 1ª. CCAV. 8423, comandada pelo capitão miliciano Castro Dias. E à 2ª. CCAV., em Aldeia Viçosa, do capitão miliciano José Manuel Cruz, a 23. No dia 18, esteve no BC12, em Carmona (a nossa futura unidade). Contactos em que se fazia acompanhar do oficial-adjunto do BCAV. 8423, o capitão José Paulo Falcão.
Ao tempo, os movimentos emancipaliatsa prosseguiam as suas actividades políticas, verificando-se que, e cito o Livro da Unidade, que «a área do Quitexe é quase na íntegra da FNLA, enquanto nas áreas de Aldeia Viçosa e Vista Alegre se verifica uma mesclagem deste movimento com o MPLA» - o que, voltamos a citar, «tem dado azo a situações de atrito entre eles».
Melhor que eu disso poderiam falar os companheiros da 1ª. CCAV. e 2ª. CCAV., mas lembro, vagamente, notícias de alguns incidentes em Aldeia Viçosa, que obrigaram a pronta intervenção das Forças Armadas Portuguesas. Havia, é justo lembrar, algum respeito dos homens dos movimentos pela tropa portuguesa e esse facor terá sido dissuasor de alguns mais graves e complexos problemas.
Ver AQUI.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A falta de água na guarnição da Fazenda do Liberato


Aspecto da guarnição militar da Fazenda Liberato
(foto de Luís Patriarca)

Não me engano se lembrar que apenas duas ou três vezes estive no Liberato - fazenda por onde durante anos se instalaram várias unidades militares. E é certo que foi uma revolta da companhia mista lá sedeada em Setembro de 1974, a última de todas, que mais preocupações criou à guarnição do Quitexe.
O Liberato era para lá das matas e do asfalto, a picada metia-nos medos e os barulhos que nos zurziam os ouvidos nem às vezes nos deixavam respirar. E nós que gozávamos o privilégio de «morar» numa vila como o Quitexe, abençoávamos este luxo, mas solidários, sempre, com os nossos companheiros que eram «desterrados» para as ingratas posições militares da mata norte-angolana. Zalala e Santa Isabel, ou Luísa Maria, com as suas diferenças e pluralidades, nunca seriam tão «apetitosas» para a vida de um militar em missão de guerra como seriam o Quitexe, ou Aldeia Viçosa, ou Vista Alegre, ou até a Ponte do Dange - povoações ao longo da estrada do café, asfaltada até Luanda.

Ao nosso tempo, por lá fez jornada a Companhia de Caçadores 209, do RI21 (Luanda), que integrava militares angolanos e alguns quadros da então chamada metrópole - era o caso do Marques (furriel), que era do Caramulo mas foi meu companheiro na escola de Águeda. Noutros tempos, outra gente por lá cumpriu comissão. Em Abril de 1966, por exemplo, por lá estava estacionada a CART. 784, do BCART. 786, e José Lapa veio dar-nos nota de que, sendo embora o mês de época das chuvas, por cruel ironia, começou por lá o racionamento de água.
E porquê? Ora, porque o rio Calambinga não levava a dita, era é só lama, e foram necessárias várias e morosas "operações" para a tentar captar, embora com fraca garantia para se extraírem umas gotas do precioso líquido.
O médico, preocupado e com a sabedoria que tinha sobre a matéria, já engendrara um improvisado filtro e o comando de Engenharia também por lá trabalhou no assunto.
O que não se sofria, para se ter água.
Ver AQUI.
E AQUI.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Acidente na estrada de Camabatela, pouco à frente do cemitério


Ao fundo, vê-se o casario do Quitexe e aqui, na foto do cemitério da vila, olha-se um momento de profundo recolhimento da comunidade civil, em honra e memória dos que, quitexanos de natal ou de paixão, civis ou militares, ali estavam em repouso final. 
O campos dos mortos ficava na saída da vila, na estrada (picada) para Camabatela, talvez a um quilómetro da urbe quitexana, ou nem isso. De poucos metros à frente, recordo um acidente de Unimog, saíamos nós num dos primeiros patrulhamentos da comissão que por lá nos levou. Virou-se a viatura, saltei eu e saltaram outros, mas feriu-se o Hipólito e o Dionísio - que eram garbosos soldados do PELREC.
Foi um susto, sentiram-se os suores frios do medo, mas felizmente com poucas mazelas físicas - se bem que o condutor (cuja cara lembro, mas o nome esqueço...) tenha ficado maleitado de um dos braços. A ocasião foi aproveitada, nos dias seguintes, para prelecções sobre as motivações e implicações de segurança em pisos a que não estavam os nossos condutores habituados.
A foto, que nos foi enviada por José Lapa, recorda o cerimonial do dia 1 de Novembro de 1966, no cemitério de Quitexe.
- HIPÓLITO. Augusto de Sousa Hipólito, 1º. cabo de Reconhecimento de Infantaria, do PELREC, natural de Vinhais e residente em França.
- DIONÍSIO. Dionísio Cândido Marques Baptista, soldado atirador do PELREC, residente no Seixal.  

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O bacalhau do Vilela num encontro de ribeirenses



O Katekero (foto), no Largo Serpa Pinto, era o meu pouso habitual - sempre que me deslocava a Luanda, ora por qualquer razão de serviço, ora de férias ou nalgum desenfianço de ocasião.
Lá me ia buscar o Albano, sempre que a sua vida de comercial na imensa metrópole luandina lhe permitia proporcionar-me alguma passeata turística - a visitar algum lugar mais especial, ir à ilha ou ao Mussulo; a algum restaurante mais especial. Num destes dias de Janeiro de 1975, fomos à zona mais alta - onde ele descobrira outro conterrâneo nosso e familiar dele, o Neca - que meses antes eu localizara no Úcua, ao balcão de um snack-bar.
Assim foi e, para a noite, foi decidido ir ao Viela - um famoso restaurante da estrada da Cuca, área onde viviam  duas famílias ribeirenses - o Mário (e a Benedita) e o José Martinho (e Emília). Este, fôra um dos primeiros combatentes do Quitexe e dele ouvi relatos da bravura que, nos dramáticos meses de 1961, provocou e sentiu martírios e dores que a memória não esquece, mas não quer lembrar. Era, ao tempo, agente da PSP em Luanda.
Jantar no Vilela, assim e com a nossa gente, como se estivéssemos ali no adro, no fim da missa, a perguntar por cada um das nossas famílias e a sentir os cheiros e os sabores da nossa terra de Ois da Ribeira, foi um luxo emotivo muito especial. Até mete saudades!
Ver AQUI.
E AQUI.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A independência de Angola e os primos Resende

Estrada do Café, á saída de Carmona (Foto de Bembe, em Agosto de 2010). O troço que se vê ia dar ao Quitexe (a 41 kms), para Luanda. Aeroporto de Carmona (em cima)

O mês de Janeiro de 1975 decorria sem grande alvoroço, murmurando-se embora, pelo Quitexe, uma nova remodelação do dispositivo militar - na sequência da próxima extinção do BC12, em Carmona. Lá chegarímos, a 2 de Março.
Ao dia 9, combinado com amigos próximos - que me defenderiam as costas, caso fosse necessário... - preparei-me para uma escapadinha a Luanda. Pela estrada de asfalto, galgavam-se 280 quilómetros, zás, trás, pás e já lá estávamos. Mas mais fácil era ir de avião, voando de Carmona.
Buscou-me o Albano, no aeroporto, e por lá me deixei ficar no remanso do Katekero, à mão de qualquer sítio mais desejado de Luanda - na baixa de todas as cores e apetites, das mesas e esplanadas de sabores e frescuras, dos calores, dos cios e das emoções das noites, que invariavelmente desfrutava na companhia do Alberto. E por lá nos fazíamos até passar por irmãos gémeos.
A 10 de Janeiro, hoje se completam 35 anos, o Albano «pregou-me» uma surpresa: a visita ao primo Paulo, que eu conhecia da casa da família Resende (aqui a 100 metros) e da relação deles com as minhas irmãs - e por quem nutria a admiração de ser dirigente do Benfica de Luanda e da secção de basquetebol feminino, que tempos antes (1966/67) tinha sido campeã nacional. Suponho até que tinha sido ele o treinador da equipa.
Vimos as instalações do clube e a noite foi para falar de política, que nesse dia começava no Alvor a Cimeira que iria determinar a independência de Angola. Decorreu entre os dias 10 e 15 de Janeiro de 1975, sendo a base das negociações constituída pela plataforma acordada pelos três Movimentos, em Mombaça, no Quénia.
Não o sabíamos nessa noite, como é  óbvio, mas o Acordo do Alvor viria a afirmar a FNLA, o MPLA e a Unita como «os únicos e legítimos representantes do povo angolano» e proclamava o direito à independência, com Angola «constituindo uma entidade una e indivisível nos seus limites geográficos e políticos» desse tempo e que, neste contexto, Cabinda era «parte integrante e inalienável do território angolano».

A data da independência ficou marcada para 11 de Novembro de 1975, definindo como órgãos de poder, para o período de transição, um Alto-Comissário e um Governo de Transição, presidido por um Colégio Presidencial. Também previa uma Comissão Nacional de Defesa, para decisões no tocante à segurança.
Precupado com isto estava o Albano, menos interessado me parecendo o primo Paulo - como ao outro dia (já era sábado) concordámos ao almoço, no então recém-inaugurado Mutamba, muito perto do trabalho de outro irmão do Albano, o Manuel - que se juntou ao manjar da enorme esplanada interior do restaurante.
«O que é que achas disto?», perguntou-me o Albano.
Que preparassem as malas, que mandassem o que pudessem para Portugal, que, que e que...
Surpreendeu-se o Albano e trocámos fartas impressões sobre a situação que se vivia em Luanda. Nada simpática. Nada segura. Muito vulnerável, assim me parecia. Nessa noite, do nono ou décimo andar do Katekero, vi os céus de Luanda a «arderem» de fogo cruzado. Grupos isolados trocavam «mensagens» ao som das armas.
Ver AQUI.
AQUI.

domingo, 9 de janeiro de 2011

O primeiro dia de 1973 no Quitexe

Entrada do Quitexe, do lado de Luanda (foto de Jorge Oliveira, 2004).
À direita, o bar do Rocha



ANTÓNIO FONSECA
Texto

O primeiro dia do ano de 1973, logo às nove da manhã, tínha-me já no bar do Topete, de volta de uma bifana. Aliás, para ser mais verdadeiro, de duas, com o molho a impregnar o pão e acompanhadas de…”Missions”, que a hora era imprópria para outras bebidas.
A noite tinha sido longa, mal dormida e cheia de alertas, e, talvez por, isso acordei com fome, muita fome. Aproveitei para acertar melhor o almoço que eu mesmo organizei, com um grupo bem restrito e “certinho” e que seria (e foi) servido lá para as 13,30 horas. Cabrito assado, com aquele molho africano que só eles sabiam fazer, com o devido acompanhamento e iguarias. E com cerveja, claro está!
Voltei para a vivenda, onde alguns ainda estavam ferrados no sono, e dei de caras com um amigo, sub-chefe dos Voluntários do Quitexe e quase meu vizinho na então Metrópole. Logo percebi que me ia convidar para o almoço e não me enganei. Não me fiz rogado e nem me desculpei com o almoço que eu mesmo organizara no Topete. Que me perdoassem os amigos, mas eu teria de pedir dispensa e ir comer o cabrito para outro lado. Então, se o amigo Daniel até fizera a noite por troca com um colega para que me pudesse convidar, eu tinha lá coragem de lhe dizer que não?! Quis fazer-me essa surpresa, que muito me honrou.
Dispensado pelo grupo, apresentei-me na casa que me convidara. E lá estava, à minha espera, a D. Maria. No almoço, que ela adivinhava animado, iria falar-se da sua (nossa) terra, de costumes natalícios e de tantas coisas que ambos interiorizavam e que sempre aproveitavam a minha presença para despejar o que lhes ia na alma. E assim foi, durante as horas que durou o repasto, bem conversado e bem regado.
«Tudo isto está divinal!...», gabava eu a cozinheira que, sabia eu, beneficiara de uma mãozinha caseira na preparação daqueles molhos que tornavam a comida ainda mais suculenta.
«Foi tudo feito com muito gosto…», respondia com um sorriso de orelha a orelha e cúmplice com o marido, enquanto sacudia a mão da pequenita que se punha em bicos de pés para chegar às filhoses.
O vinho, um garrafão de cinco litros, foi do verde e oferecido pelo Sr. Morais, assim como uma garrafa de whisky já velhinho, com que nos brindou já ao fim da tarde.
Nem as duas bifanas da manhã no Topete me tiraram o apetite para o almoço, e ainda bem. E voltando ao Topete, por lá almoçou o grupo que eu mesmo convidei e agreguei e do qual fui dispensado, tendo tudo corrido de forma animada e sem quaisquer queixas da gastronomia. E nem deram pela minha falta, o que também não terá sido difícil. E ainda bem!
E tudo isto há 38 anos…, andava esta alminha por terras do Quitexe!
ANTÓNIO FONSECA

sábado, 8 de janeiro de 2011

O talhão militar do cemitério do Quitexe

Funeral do furriel Pinto e do soldado Malheiro, do
BART. 786, em Abril de 1966, no cemitério do Quitexe 


O cemitério do Quitexe tinha o chamado Talhão Militar - onde foram sepultados elementos das forças armadas portuguesas que, pelo Uíge, faleceram em combate ou por acidente.
Lá fui algumas vezes, olhando as placas com os seus nomes, procurando (sem encontrar) algum que fosse da região de Águeda.
Quantas emoções se sentiram, quantas interrogações nos  constrangiam, quantas dúvidas nos assaltavam nesses momentos de reflexão!!
Estranhamente, ou talvez não, os momentos passados no cemitério (como na igreja de Santa Maria do Quitexe)m  davam-nos uma enorme tranquilidade espiritual - - diria até que mais força emocional e física..- - para enfrentarmos a dureza e incertezas da nossa comissão militar.
Há dias, aqui falei dos militares do Batalhão de Artilharia 786. Com foto de José Lapa. Hoje, também de José Lapa, aqui trazemos a foto dos funerais de dois militares mortos em acidente de viação, na estrada Quitexe-Aldeia Viçosa no mês de Abril de 1966: o furriel miliciano Luís Joaquim Pereira Pinto, de Torre de Moncorvo, e o soldado Alfredo Rebelo Amorim Malheiro, de Vila Nova de Cerveira, ambos da CART. 785 e falecidos a 24 de Abril de 1966.
- LAPA. José António Ferreira Lapa, 1º. cabo escriturário da CCS do BART 786. Comerciante reformado, natural de Santa Marinha e residente em Vilar de Andorinho (V. N. de Gaia).

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O baile nocturno que foi interrompido pela ronda

A Casa das Transmisões do BCAV. 8423 (e anteriores),
até à passagem para o edifício perto do cinema


RODOLFO TOMÁS
Texto

Os radiomontadores do BCAV. 8423 habitaram durante uns 3 a 4 meses na casa redonda, que se vê na foto. Depois, mudámos para uma casa quase em frente ao cinema, a poucos metros da casa da Dussol.
Já aqui contei uma história de se fazer nesta casa um bailarico com moças de uma sanzala, já não me lembro de onde eram. Estávamos a preparar tudo, com cervejas e sumos para as moças, quando de repente foi dado o alerta.
 «Vem aí a ronda!!!...».
Isto aconteceu mal a música tinha começado a tocar, mas desligou-se tudo, até a luz. Ai não!!!... E pusemos as moças a fugir pela janela do lado da enfermaria.
Nunca mais esqueci estas trapalhadas, que eram arquitectadas pelo Marques (o carpinteiro, na foto) e pelo Mendes (eletricista do parque-auto), que era do Casal Ventoso. Quem não se lembra destas duas figuras?!
Ao outro dia, o tenente Mora quis insinuar qualquer coisa mas faltavam-lhe provas. Que tempos...
RODOLFO TOMÁS

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Os mortos evocados no cemitério do Quitexe


A terra-mártir do Quitexe está no mapa dos sacrifícios humanos da guerra que se «fez» entre Portugal e os angolanos independentistas, entre 1961 e 1974. Militares e civis, de um e de outro lado, tombaram para sempre, na defesa dos seus ideais.
As Forças Armadas Portuguesas sempre honraram os seus heróis e os homenagearam em tempo próprio, recolhendo os seus cadáveres e dando-lhe as honras de funeral. Fosse nos cemitérios das suas terras natais, fosse em Angola - onde, para sempre, ficaram muitos companheiros de armas que antecederam os Cavaleiros do Norte, no Quitexe.
A 1 de Novembro de 1966, o comandante do Batalhão de Artilharia 786, tenente coronel  Dagoberto Graça, homenageou os mortos que pelo Uíge serviram Portugal e se enterraram no cemitério do Quitexe. A foto foi-nos enviada por José Lapa, que foi artilheiro na CCS deste batalhão e é companheiro permanente deste blogue.
O BART. 786 teve seis mortos:
- Furriel miliciano Luís Joaquim Pereira Pinto, de Torre de Moncorvo, falecido a 24 de Abril de 1966, da CAR. 785.
- 1º. cabo Júlio Monteiro Gomes, , de Mesão Frio, falecido a 8 de Maio de 1967 (CART. 784).
- 1º. cabo Armando Alberto Vaz de Jesus, de Vila Nova de Cerveira, a 7 de Fevereiro de 1967 (CART. 784).
- Soldado Margarido Augusto Aparício, do Mogadouro, falecido a 15 de Julho de 1967 (CCS).
- Soldado Alfredo Rebelo Amorim Malheiro, de Vila Nova de Cerveira, falecido a 24 de Abril de 1966 (CART. 785).
- Soldado António Teixeira Fernandes, de Braga, falecido a 28 de Março de 1967 (CART. 785). 
Não sei se os seus corpos foram enterrados no Quitexe ou nos cemitérios natais.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A morte do furriel Capitão e os dias 5 de Janeiro de 1974, 1975 e 2010



A 5 de Janeiro de 2010, vítima de doença, faleceu Luís Ribeiro Capitão (foto), que, como furriel miliciano atirador de cavalaria, serviu Portugal, integrando a 3ª. Companhia do Batalhão de Cavalaria 8423.
O furriel Capitão - ironia honomática que brincalhava o apelido com o posto militar e se aprestava a vários trocadilhos... - era um bom companheiro e dele recordo a serenidade do comportamento e a graça de uma boa piada, quase sempre contada a corar de vergonha, tal era a simplicidade e humildsade deste nosso companheiro e amigo.
Fez a vida como maquinista da CP e, depois do nosso regresso de Setembro de 1975, com ele privei apenas  duas ou três vezes - sempre ele se  desmultiplicando em simpatia e cortesia.
Morreu faz hoje precisamente um ano. Até um dia, Capitão! Tu, que eras um homem e um militar, um furriel bom e generoso!
Outros acontecimentos deste dia:
- 1974: Chegada a Santa Margarida e ao Regimento de Cavalaria nº. 4 (RC4) de militares (praças) que iriam formar o Batalhão de Cavalaria 8423. A chegada vinha a processar-se desde o dia 2 (4ª. feira) e continuou até ao dia 7 (2º. feira) - quando se deu o primeiro encontro formal de oficiais, sargentos e praças.
- 1975: Visita do comandante Almeida e Brito à 1ª. Companhia, em Vista Alegre. Era comandada pelo capitão Castro Dias.
- CAPITÃO. Luís Ribeiro Capitão, furriel miliciano atirador de cavalaria, de Vila Nova de Ourém.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A saída do Pelotão de Morteiros e a independência d´Angola



A 4 de Janeiro de 1975, completou-se a rotação do Pelotão de Morteiros 4281 para Carmona - que começara a 20 de Dezembro anterior.
O pelotão, recordemos, era comandado pelo alferes Leite e foi companheiro dos Cavaleiros do Norte desde a nossa chegada, em Junho de 1974. «Morava» ao lado da messe bar de sargentos e a guarnição quitexana começava, assim, o processo de esvaziamento - no âmbito da mutação do dispositivo militar do Comando de Sector do Uíge.
A Cimeira de Mombaça, no Quénia, de 3 a 5 de Janeiro desse agora distante 1975, estabelecera um acordo entre a FNLA, o MPLA e a UNITA - reconciliando os movimentos angolanos e abrindo  perspectivas favoráveis ao encontro que se iria realizar no Alvor (Algarve) com o Governo português.
Estas questões, pelo Quitexe, passavam-nos à margem e deles pouco sabíamos para além do que se lia no jornal A Província de Angola, ou na Emissora Oficial de Angola. Ou da imprensa que nos  chegava da Europa. Não muita e, ao que sabemos hoje, muito pouco rigorosa.
A saída do Pelotão de Morteiros 4281, entretanto, era um sinal evidente do caminho que nos levaria a Carmona e a Portugal. Vão eles hoje, amanhã iremos nós! Era a nossa esperança, há 35 anos. E isso é que importava.
- LEITE. João Leite, alferes miliciano, natural dos Açores e residente em S. Francisco, na Califórnia (Estados Unidos).
Ver AQUI

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A saída para a cidade de Carmona...



Entrada da vila do Quitexe, em 2004 (net), na estrada
do café, do lado de Carmona (Uíge)


Reuniões foi coisa que  não faltou no Janeiro de 1975 da nossa jornada de África. Reuniões do comando com o Comando de Sector, em Carmona. E nas duas companhias destacadas: a 2ª. CCAV., do capitão José Manuel Cruz, em Aldeia Viçosa; a 1ª. CCAV., do capitão Castro Dias, em Vista Alegre.
A 3 do mês, hoje se fazem 35 anos, por exemplo, foi no Comando de Sector e lá foi o TC Almeida e Brito. E delas se esperava sempre a «novidade» da nossa ida para Carmona.
Murmurava-se muito, realmente, por este tempo e entre a guarnição, fermentando o desejo de passar para a cidade capital do Uíge, daqui para Luanda e, depois, ó ventura das venturas, para Lisboa e para casa.  Num «desenfianço» a Carmona, foi-me sussurrado por um oficial amigo  (primo dos Resendes), que não estaria demorada a  mudança, mas que convinha não falar muito nisso. Havia «muitos acertos a fazer...».
Assim fiz! Mas num desses dias, achando-me de conversa com o alferes Garcia, isso mesmo lhe perguntei  - sem que ele adiantasse grandes pormenores.
«Ficas a saber que estou informado!! Estamos por semanas...», disse-lhe eu, em ar de brincadeira, embora muito seguro da informação, mas sem denunciar a fonte.
«Sabes mais que eu?!!!...», interrogou-me ele, desconfiado, e «avisando-me» para «ter tento na língua», por, como me exclamou, «razões de segurança».
Assim fiz e apenas com o Neto «dividi» a informação. «Deve ser lá para os fins de Fevereiro..», disse-lhe eu. Seria a 2 de Março de 1975.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Passagem de ano com a G3 bem ao pé da mão...

A Casa das Trasmissões, na passagem de ano de 1972 para 1973. Foi um dos «santuários» da festa da noite. Ao fundo, com entradas em arcos, era a residência do Comandante Almeida e Brito (BCAV. 8423). Ao meio da rua, ficava a enfermaria militar.


A última semana de 1972 foi de grande azáfama na preparação do fim de ano. Todos, ou quase todos, queriam ter uma noite diferente e não se pouparam a esforços para adquirir alguns pitéus, a maioria comprados aos comerciantes locais.
Alguns, como não podia deixar de ser, foram “fornecidos” pelas messes de sargentos e oficiais. Não que estes se dispusessem a tanta gentileza mas porque os “impedidos” foram hábeis em desviar o que, como se veio a verificar, havia em excesso.

E como se constou que nas horas que se seguiram à consoada se registaram alguns abusos gastronómicos, principalmente na messe de oficiais, talvez não fosse má ideia retirar algumas calorias a quem tanto abusou delas. Alguém pensará: mas, afinal, os oficiais não comeram do mesmo que os praças?! Comeram, sim senhor, os praças é que não comeram do mesmo que os oficias! A solidariedade não chegou a tanto, nem nós a esperávamos. Houve, portanto, duas consoadas distintas!
Assim sendo (e sabendo), houve que puxar pela imaginação e imitar um pouco o Robin dos Bosques – desviar para os pobres! Apenas uns quilitos de mariscos, vinho verde e umas garrafitas de whisky. Nada de especial!
A noite de 31 iria ser de arromba, com os grupinhos planeados nas casernas e quartos, onde só faltaria o fogo de artifício. Isto, se o comandante não se tivesse lembrado, horas antes, de proibir baldas e ordenar a toda a Companhia que ficasse de alerta nessa noite.
«Há fortes probabilidades de a vila ser atacada na passagem de ano!...», disse-nos ele, num discurso que nos enchia de cuidados e visava a obrigação de nos defendermos mas, acima de tudo, protegermos a vila do Quitexe. Claro que não iríamos ser atacados coisa nenhuma, mas o Comandante, com a sua vasta experiência,  sabia bem os exageros que a tropa seria capaz de cometer. Caímos que nem uns patos!
Comeu-se fartamente, bebeu-se até à última gota e não se estragou nada. Mas ficou estragada a noite, porque tudo foi feito quase em silêncio, com a G3 bem ao nosso lado e atentos a qualquer barulho anormal. Não foi uma noite de sonho, mas em contrapartida não fomos atacados, o que, embora ingenuamente, nos fez esquecer a parte mais eufórica da noite!
ANTÓNIO FONSECA

sábado, 1 de janeiro de 2011

Dia de Ano Novo de 1975 no Quitexe

Dia de Ano Novo de 1975. Em cima e da esquerda para a direita, furriéis Bento, Rocha, Viegas, Flora, Lopes (CCS), Capitão (já falecido) e Ribeiro. Em baixo, Carvalho, Belo, Lopes (3ª. CCAV.) e Reina. Em baixo, 1º. cabo Buraquinho. Ao fundo, o bar e messe da sargentos. Casa mais à direita: messe de oficiais (parcial). Clicar nas imagens, para as ampliar  




O Buraquinho telefonou-me em noite de Natal, consoando saudações num momento em que, aqui por casa, já tinham ido os manjares do mar e do curral e se aprontavam já as guloseimas feitas em forno e forma. Que ia (ele) consoar e não podia deixar de me ligar. Ligou.
Ligou e consoámos em largos minutos de conversa, consoadinha de saudades do Quitexe - conversa que depois ficou tema da minha noite familiar.
O Buraquinho é uma verdadeira resma de estórias - algumas já por aqui contadas. A mais relevante teve a ver com a minha participação disciplinar de um incidente de que fomos protagonistas no varandim que se vê na foto - que era o da entrada do bar e messe de sargentos e onde, indevidamente, o Buraquinho quis entrar à força.
Buraquinho, ponto e vírgula e dois pontos: Alfredo Rodrigo Ferreira Coelho, 1º. Cabo de Análise e Depuração de Águas! Parágrafo.
Pois o Buraquinho, convidado a não se meter em empreitada da qual poderia vir a ficar menos bem, assim não quis e, levedado no entusiasmo por vezes mais deslumbrado da idade (somos do mesmo ano!), resolveu enfrentar a autoridade que representava a braçadeira verde que eu ostentava no braço esquerdo. Isso aconteceu por um domingo à tarde de Outubro de 1974 e o bom que tem é que, 36 anos depois, somos amigos.
Ao dia 1 de Janeiro de 1975, no Quitexe, depois da noite de corrida de S. Silvestre, lá estava eu de serviço - o que não evitou o regarrofe da idade, como bem se vê na foto. Com a malta bem comida e melhor bebida! Ó guerra, para que te queríamos!
Ver AQUI
AQUI.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A passagem de ano de 1974 para 1975...

Bento, Rocha, Viegas, Flora, Lopes (enfermeiro da CCS), Capitão e Ribeiro (atrás), Carvalho, Flora, Lopes ( 3ª. CCAV.) e Reina, furriéis do BCAV. 8423 na noite de Ano Novo de 1974 para 1975, no Quitexe (Angola)


A 31 de Dezembro de 1974, por obra e magistério de quem mandava nas escalas de serviço, a minha modesta pessoa - furriel miliciano Viegas, nº. 06810773, cursado em Operações Especiais e medalhado Ranger da CCS do BCAV. 8423 - estava de serviço. Sargento de dia!! Só podia ser, por graça de quem, hierarquicamente superior, sempre me quis punir, embora sem o conseguir, ao longo de 15 meses da comissão angolana!
Isto para dizer que, na noite de passagem de ano de 1974 para 1975, o «menino» estava de serviço: sargento de dia à gloriosa Companhia de Comando e Serviços do Batalhão de Cavalaria 8423!!! Já, pela mesma razão, tinha estado na noite de Natal. E em outros dias especiais acontecera, ou viria a acontecer o mesmo! O dos anos, o de carnaval, o da Páscoa!
Passemos adiante!
Por essa altura, já os companheiros de Santa Isabel (a 3ª. CCAV.) acamaradavam connosco, no Quitexe! - na prossecução do calendário de mutação do dispositivo militar dos Cavaleiros do Norte! E que excelentes camaradas eram eles! Todos os furriéis, os que mais de perto se ligavam connosco!! O Flora, o Ribeiro, o Fernandes, o Ricardo, o Carvalho, o Lino, o Graciano e o Gordo, o Lopes, o Belo e o Rabiça, o Capitão e o Cardoso, o Reina e o Guedes!!! Quero crer que não me escapa nenhum.
A noite, comigo de serviço, foi de intensa camaradagem.
Passei pela caserna dos atiradores e, combinado com o Grácio, «ameacei-os» com uma saída operacional às 3,30 horas da manhã! Era mentira! Se eles raciocinassem bem, logo isso veriam, pois nunca as nossas saídas operacionais eram antecipadamente anunciadas.
«Esta noite, furriel?!..», compungiu-se o Soares, que era 1º. cabo e dos mais impertinentes militares do PELREC. Muito intrigado!
Assim seria!, disse eu, «ordens são ordens e estas noites mais sensíveis são sempre perigosas...».
Mas não foi!
Lá para as 11 e tal da noite, o Grácio fez transportar quatro ou cinco grades de cerveja - fresquíssima!!!, e da N´Gola, marca que se lançava por lá... - e logo as beberam os companheiros do PELREC, sabe-se lá com o que (ou quem) as comungando!!! Certamente lembrando folguedos de noites do mesmo dia, em anteriores anos, mas suas terras natais!
O Hipólito e o Dionísio vieram fazer-se passar em frente ao bar de sargentos, onde nós deglutíamos coisa acima da cerveja:  whiskys, licores do dito e os inevitáveis brandys Macieira e Vital - este de marca das Caves Primavera, de Águeda, que eu e o Neto fazíamos muita questão de propagandear.
- «Eh furriel, fixe!!!!...», bradou o Hipólito de longe, acenando de mão no ar e com sorriso largo, com,o que querendo dizer-nos obrigado pelas cervejas. E lá foram eles, supondo que teriam de se pôr a pé, lá para as três e tal da madrugada.
Não puseram! Nem o PELREC!
Os furriéis, na maior parte, deixaram-se ficar no bar pela noite dentro, nesta noite de passagem de ano!!!, até à hora da saída do pão, dos fornos da padaria militar, que ficava ao lado da nossa messe, pão quente, com manteiga!!! Que delícia!!! E quantos abusos alcoólicos se cometeram nessa noite!!! Olhem se o inimigo atacava!
Eu, da arma no coldre e granadas defensivas em guarda, lá me aguentei sem cervejas, sem álcool, sem brandys, sem whiskys. E a passar rondas de hora a hora. E cuidar da segurança que se fazia, à corrida de S. Silvestre do Quitexe!
«Ó furriel, então não há nada?!...», perguntou-me o Messejana, que fazia reforço no posto 5.  Houve. Houve  licor de whiskys e bagaceira, brandy Vital e Macieira. Tudo à medida!!! E pão quente com rojões feitos do porco roubado ao fazendeiro que nos recusou água!
Isto aconteceu faz hoje 36 anos!
Que saudades, oh malta!!

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O Mosteias não levava desaforo para casa...

Viegas e Mosteias no varandim térreo da Casa do
Furriéis, no Quitexe, Dezembro de 1974


O Mosteias não era homem que levasse desaforo para casa. Era, aliás, «o único homem» entre todos os furriéis - como nós dizíamos dele, fazendo graça com o seu estado de casado e pai de um filho, que nascera  já ele jornadeava por terras do Quitexe, como furriel sapador.
Era (e é...) até rapaz imponente, o Mosteias, para aí do seu metro e noventa de altura e com tanto de bondade na alma como de peso no corpo e força nos braços.
Fazia alteres com latas de cinco litros de tinta cheias de cimento e a sua generosidade muscular mostrava-se-lhe nos braços e na força das manápulas. Ai de quem se pegasse com ele!!! Levava uma surra e sorriríamo-nos nós do olhar de medo que medrava na cara do seu qualquer ocasional «inimigo».
Um dia, nos últimos de 1974, papaguéavamos nós conversa mole no varandim do bar de sargentos, a saborear a frescura de umas boas cervejas e à espera que o tempo passasse, quando um jovem civil meio estouvado e desajeitadamente peneirento, já muito nosso conhecido, se afirmou na frente das nossas trombas - a debitar rateres com o seu potente Ford Capri, carro de moda na altura e último modelo da marca.
Aqui para nós, era uma provocação habitual do miúdo, meio desbarbado e enciumado pela «letra» que algumas cachopas do tempo davam aos rapazes da guarnição militar. E não dariam a ele.
«Filho da p..., parto-lhe já o focinho!...!», disse o Mosteias, entre nós.
Que não ligasse, dissemos-lhe, pois «o gajo é parvo...». E o parvo lá continuava na avenida de terra do Quitexe a mandar rateres e a mangar com a malta.
O Mosteias levantou-se, não disse uma palavra, caminhou para o automóvel, abaixou-se e enfiou a mão para dentro. Se disse ou fez alguma coisa, não sei. O miúdo do Ford Capri é que pisou o acelerador e «picou» os cavalos todos para o lado da enfermaria, a caminho da rua principal, virando para Carmona.
«O gajo é parvo, pá...», disse o Mosteias, a sentar-se junto a nós e a pedir uma cerveja ao Lajes.
Bebemos todos, esquecendo o rapazola.
- MOSTEIAS. Luís João Ramalho Mosteias, furriel miliciano sapador, quadro superior de empresa, residente em Sines.
- LAGES: Carlos Alberto Aguiar Lajes, soldado atirador e em serviço no bar de sargentos. Natural e residente em Lisboa.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Mensagem de Natal do Comandante do Sector do Uíge

Comando Sector do Uíge (em cima) e o comandante,  
general Altino de Magalhães (em baixo)

«Festa de família, época em que é mais viva a saudade dos parentes e amigos, não é ainda para nós que nestes Natal de 1974 terminará a velada de armas iniciada há 14 anos.Fique-nos a consolação de encontrar no seio do Exército uma segunda família, a mesma camaradagem diária de combatente para combatente. 
Fique-nos a certeza de estar a cumprir uma alta missão, ajudando a construir, em paz, um novo país de expressão portuguesa.
Nesta quadra, em que em todo o mundo se deseja PAZ NA TERRA AOS HOMES DE BOA VONTADE, juntemos os nossos esforços para que, em ANGOLA, se consiga essa paz e, indiferentes a ofensas e calúnias, com a consciência tranquila, prossigamos confiantes e seremos até ao fim, para que possa os dizer, com satisfação e orgulho, MISSÃO CUMPRIDA!
Na impossibilidade de o fazer pessoalmente, com esta saudação a todos os oficiais, sargentos e praças do Sector, envio os meus votos de Boas Festas e Feliz Natal». 
ALTINO DE MAGALHÃES

Comandante do Sector do Uíge
Mensagem do Natal de 1974

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Estar longe e a matar saudades...

Vista aérea do Quitexe, nos anos 70. Messes de sargentos e oficiais (círculo cor de rosa), casa dos furriéis e secretaria da CCS (amarrelo), edifício do comando, parque-auto e parada (vermelho), igreja (verde) e administração civil (roxo) 




A vila do Quitexe era assim um conjunto de casas, distribuídas por duas ruas principais. A principal, em primeiro plano e depois de curvamento, correspondia (e corresponde) à chamada estrada do café - ligando Luanda a Carmona (hoje, Uíge). Paralelamente, na zona de círculos de cor, ficava a avenida e a zona militar.
Ainda na rua principal, ficavam um depósito de material de guerra (onde se registou um singular incêndio, a 17 de Janeiro de 1975 - ver AQUI) e a oficina e lar das transmissões. E restarurantes e a popular Geladinha do Quitexe, uma padaria, a administração civil e o jardim público, a estação dos Correios.
Eram ruas de grandes passeios e fartas conversas, normalmente já pela noite aberta, a desescaldar o calor africano que nos moía o corpo - indo ou saindo de restaurantes e bares. E por lá se espreitavam também a graciosidade das cachopas de cor mais clara, que nos enchiam os olhos de alegria e o corpo de desejos. Sem muita conversa, não fosse algum fortuito sonho de momento se transformar em drama emocional.
A rua de cima, assim a chamavamos, escondeu muitos segredos e foi percurso da corrida de S. Silvestre, na noite de passagem de ano. Por ela se declamaram promessas e fizeram juras de saudade, sempre que, noite adentro e por horas de lazer, os militares da guarnição «maquilhavam» a nostalgia e a distância de milhares de quilómetros das terras dos seus berços.
O período natalício, até aos Reis de 1975, foi tempo de muitas emoções. Faltava-nos o cheiro dos bilharacos, a verdura do musgo dos presépios, o repenique dos sinos, até as papas de abóbora. Mas estavamos longe, a matar saudades!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Outros Natais do Quitexe...


Outros Natais se celebraram no Quitexe, antes que por lá jornadeassem os Cavaleiros do Norte - fechando as portas da soberania portuguesa em terras do Uíge!
A foto mostra a festa que, em 1966, por lá juntou militares e civis em comunhão de emoções, certamente regadas de saudades pelo chão das suas terras natais - onde se amarrava o frio a pesadas samarras e meias grossas, enquanto por lá se mostravam os braços nus ao calor africano. Olhem para aquelas jovens europeias!
O Natal no Quitexe que reportamos, o do ano de 1966, mostra, em primeiro plano, o tenente coronel Dagoberto Graça, ao tempo comandante do Batalhão de Artilharia 786. A gentileza fotográfica é de José Lapa, que por lá jornadeou entre 1965 e 1967 - abrindo, com os artilheiros do BCART., os caminhos de missão que chegaram aos nossos dias.
Outros Natais, no Quitexe da nossa saudade!