quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A morte do furriel Capitão e os dias 5 de Janeiro de 1974, 1975 e 2010



A 5 de Janeiro de 2010, vítima de doença, faleceu Luís Ribeiro Capitão (foto), que, como furriel miliciano atirador de cavalaria, serviu Portugal, integrando a 3ª. Companhia do Batalhão de Cavalaria 8423.
O furriel Capitão - ironia honomática que brincalhava o apelido com o posto militar e se aprestava a vários trocadilhos... - era um bom companheiro e dele recordo a serenidade do comportamento e a graça de uma boa piada, quase sempre contada a corar de vergonha, tal era a simplicidade e humildsade deste nosso companheiro e amigo.
Fez a vida como maquinista da CP e, depois do nosso regresso de Setembro de 1975, com ele privei apenas  duas ou três vezes - sempre ele se  desmultiplicando em simpatia e cortesia.
Morreu faz hoje precisamente um ano. Até um dia, Capitão! Tu, que eras um homem e um militar, um furriel bom e generoso!
Outros acontecimentos deste dia:
- 1974: Chegada a Santa Margarida e ao Regimento de Cavalaria nº. 4 (RC4) de militares (praças) que iriam formar o Batalhão de Cavalaria 8423. A chegada vinha a processar-se desde o dia 2 (4ª. feira) e continuou até ao dia 7 (2º. feira) - quando se deu o primeiro encontro formal de oficiais, sargentos e praças.
- 1975: Visita do comandante Almeida e Brito à 1ª. Companhia, em Vista Alegre. Era comandada pelo capitão Castro Dias.
- CAPITÃO. Luís Ribeiro Capitão, furriel miliciano atirador de cavalaria, de Vila Nova de Ourém.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A saída do Pelotão de Morteiros e a independência d´Angola



A 4 de Janeiro de 1975, completou-se a rotação do Pelotão de Morteiros 4281 para Carmona - que começara a 20 de Dezembro anterior.
O pelotão, recordemos, era comandado pelo alferes Leite e foi companheiro dos Cavaleiros do Norte desde a nossa chegada, em Junho de 1974. «Morava» ao lado da messe bar de sargentos e a guarnição quitexana começava, assim, o processo de esvaziamento - no âmbito da mutação do dispositivo militar do Comando de Sector do Uíge.
A Cimeira de Mombaça, no Quénia, de 3 a 5 de Janeiro desse agora distante 1975, estabelecera um acordo entre a FNLA, o MPLA e a UNITA - reconciliando os movimentos angolanos e abrindo  perspectivas favoráveis ao encontro que se iria realizar no Alvor (Algarve) com o Governo português.
Estas questões, pelo Quitexe, passavam-nos à margem e deles pouco sabíamos para além do que se lia no jornal A Província de Angola, ou na Emissora Oficial de Angola. Ou da imprensa que nos  chegava da Europa. Não muita e, ao que sabemos hoje, muito pouco rigorosa.
A saída do Pelotão de Morteiros 4281, entretanto, era um sinal evidente do caminho que nos levaria a Carmona e a Portugal. Vão eles hoje, amanhã iremos nós! Era a nossa esperança, há 35 anos. E isso é que importava.
- LEITE. João Leite, alferes miliciano, natural dos Açores e residente em S. Francisco, na Califórnia (Estados Unidos).
Ver AQUI

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A saída para a cidade de Carmona...



Entrada da vila do Quitexe, em 2004 (net), na estrada
do café, do lado de Carmona (Uíge)


Reuniões foi coisa que  não faltou no Janeiro de 1975 da nossa jornada de África. Reuniões do comando com o Comando de Sector, em Carmona. E nas duas companhias destacadas: a 2ª. CCAV., do capitão José Manuel Cruz, em Aldeia Viçosa; a 1ª. CCAV., do capitão Castro Dias, em Vista Alegre.
A 3 do mês, hoje se fazem 35 anos, por exemplo, foi no Comando de Sector e lá foi o TC Almeida e Brito. E delas se esperava sempre a «novidade» da nossa ida para Carmona.
Murmurava-se muito, realmente, por este tempo e entre a guarnição, fermentando o desejo de passar para a cidade capital do Uíge, daqui para Luanda e, depois, ó ventura das venturas, para Lisboa e para casa.  Num «desenfianço» a Carmona, foi-me sussurrado por um oficial amigo  (primo dos Resendes), que não estaria demorada a  mudança, mas que convinha não falar muito nisso. Havia «muitos acertos a fazer...».
Assim fiz! Mas num desses dias, achando-me de conversa com o alferes Garcia, isso mesmo lhe perguntei  - sem que ele adiantasse grandes pormenores.
«Ficas a saber que estou informado!! Estamos por semanas...», disse-lhe eu, em ar de brincadeira, embora muito seguro da informação, mas sem denunciar a fonte.
«Sabes mais que eu?!!!...», interrogou-me ele, desconfiado, e «avisando-me» para «ter tento na língua», por, como me exclamou, «razões de segurança».
Assim fiz e apenas com o Neto «dividi» a informação. «Deve ser lá para os fins de Fevereiro..», disse-lhe eu. Seria a 2 de Março de 1975.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Passagem de ano com a G3 bem ao pé da mão...

A Casa das Trasmissões, na passagem de ano de 1972 para 1973. Foi um dos «santuários» da festa da noite. Ao fundo, com entradas em arcos, era a residência do Comandante Almeida e Brito (BCAV. 8423). Ao meio da rua, ficava a enfermaria militar.


A última semana de 1972 foi de grande azáfama na preparação do fim de ano. Todos, ou quase todos, queriam ter uma noite diferente e não se pouparam a esforços para adquirir alguns pitéus, a maioria comprados aos comerciantes locais.
Alguns, como não podia deixar de ser, foram “fornecidos” pelas messes de sargentos e oficiais. Não que estes se dispusessem a tanta gentileza mas porque os “impedidos” foram hábeis em desviar o que, como se veio a verificar, havia em excesso.

E como se constou que nas horas que se seguiram à consoada se registaram alguns abusos gastronómicos, principalmente na messe de oficiais, talvez não fosse má ideia retirar algumas calorias a quem tanto abusou delas. Alguém pensará: mas, afinal, os oficiais não comeram do mesmo que os praças?! Comeram, sim senhor, os praças é que não comeram do mesmo que os oficias! A solidariedade não chegou a tanto, nem nós a esperávamos. Houve, portanto, duas consoadas distintas!
Assim sendo (e sabendo), houve que puxar pela imaginação e imitar um pouco o Robin dos Bosques – desviar para os pobres! Apenas uns quilitos de mariscos, vinho verde e umas garrafitas de whisky. Nada de especial!
A noite de 31 iria ser de arromba, com os grupinhos planeados nas casernas e quartos, onde só faltaria o fogo de artifício. Isto, se o comandante não se tivesse lembrado, horas antes, de proibir baldas e ordenar a toda a Companhia que ficasse de alerta nessa noite.
«Há fortes probabilidades de a vila ser atacada na passagem de ano!...», disse-nos ele, num discurso que nos enchia de cuidados e visava a obrigação de nos defendermos mas, acima de tudo, protegermos a vila do Quitexe. Claro que não iríamos ser atacados coisa nenhuma, mas o Comandante, com a sua vasta experiência,  sabia bem os exageros que a tropa seria capaz de cometer. Caímos que nem uns patos!
Comeu-se fartamente, bebeu-se até à última gota e não se estragou nada. Mas ficou estragada a noite, porque tudo foi feito quase em silêncio, com a G3 bem ao nosso lado e atentos a qualquer barulho anormal. Não foi uma noite de sonho, mas em contrapartida não fomos atacados, o que, embora ingenuamente, nos fez esquecer a parte mais eufórica da noite!
ANTÓNIO FONSECA

sábado, 1 de janeiro de 2011

Dia de Ano Novo de 1975 no Quitexe

Dia de Ano Novo de 1975. Em cima e da esquerda para a direita, furriéis Bento, Rocha, Viegas, Flora, Lopes (CCS), Capitão (já falecido) e Ribeiro. Em baixo, Carvalho, Belo, Lopes (3ª. CCAV.) e Reina. Em baixo, 1º. cabo Buraquinho. Ao fundo, o bar e messe da sargentos. Casa mais à direita: messe de oficiais (parcial). Clicar nas imagens, para as ampliar  




O Buraquinho telefonou-me em noite de Natal, consoando saudações num momento em que, aqui por casa, já tinham ido os manjares do mar e do curral e se aprontavam já as guloseimas feitas em forno e forma. Que ia (ele) consoar e não podia deixar de me ligar. Ligou.
Ligou e consoámos em largos minutos de conversa, consoadinha de saudades do Quitexe - conversa que depois ficou tema da minha noite familiar.
O Buraquinho é uma verdadeira resma de estórias - algumas já por aqui contadas. A mais relevante teve a ver com a minha participação disciplinar de um incidente de que fomos protagonistas no varandim que se vê na foto - que era o da entrada do bar e messe de sargentos e onde, indevidamente, o Buraquinho quis entrar à força.
Buraquinho, ponto e vírgula e dois pontos: Alfredo Rodrigo Ferreira Coelho, 1º. Cabo de Análise e Depuração de Águas! Parágrafo.
Pois o Buraquinho, convidado a não se meter em empreitada da qual poderia vir a ficar menos bem, assim não quis e, levedado no entusiasmo por vezes mais deslumbrado da idade (somos do mesmo ano!), resolveu enfrentar a autoridade que representava a braçadeira verde que eu ostentava no braço esquerdo. Isso aconteceu por um domingo à tarde de Outubro de 1974 e o bom que tem é que, 36 anos depois, somos amigos.
Ao dia 1 de Janeiro de 1975, no Quitexe, depois da noite de corrida de S. Silvestre, lá estava eu de serviço - o que não evitou o regarrofe da idade, como bem se vê na foto. Com a malta bem comida e melhor bebida! Ó guerra, para que te queríamos!
Ver AQUI
AQUI.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A passagem de ano de 1974 para 1975...

Bento, Rocha, Viegas, Flora, Lopes (enfermeiro da CCS), Capitão e Ribeiro (atrás), Carvalho, Flora, Lopes ( 3ª. CCAV.) e Reina, furriéis do BCAV. 8423 na noite de Ano Novo de 1974 para 1975, no Quitexe (Angola)


A 31 de Dezembro de 1974, por obra e magistério de quem mandava nas escalas de serviço, a minha modesta pessoa - furriel miliciano Viegas, nº. 06810773, cursado em Operações Especiais e medalhado Ranger da CCS do BCAV. 8423 - estava de serviço. Sargento de dia!! Só podia ser, por graça de quem, hierarquicamente superior, sempre me quis punir, embora sem o conseguir, ao longo de 15 meses da comissão angolana!
Isto para dizer que, na noite de passagem de ano de 1974 para 1975, o «menino» estava de serviço: sargento de dia à gloriosa Companhia de Comando e Serviços do Batalhão de Cavalaria 8423!!! Já, pela mesma razão, tinha estado na noite de Natal. E em outros dias especiais acontecera, ou viria a acontecer o mesmo! O dos anos, o de carnaval, o da Páscoa!
Passemos adiante!
Por essa altura, já os companheiros de Santa Isabel (a 3ª. CCAV.) acamaradavam connosco, no Quitexe! - na prossecução do calendário de mutação do dispositivo militar dos Cavaleiros do Norte! E que excelentes camaradas eram eles! Todos os furriéis, os que mais de perto se ligavam connosco!! O Flora, o Ribeiro, o Fernandes, o Ricardo, o Carvalho, o Lino, o Graciano e o Gordo, o Lopes, o Belo e o Rabiça, o Capitão e o Cardoso, o Reina e o Guedes!!! Quero crer que não me escapa nenhum.
A noite, comigo de serviço, foi de intensa camaradagem.
Passei pela caserna dos atiradores e, combinado com o Grácio, «ameacei-os» com uma saída operacional às 3,30 horas da manhã! Era mentira! Se eles raciocinassem bem, logo isso veriam, pois nunca as nossas saídas operacionais eram antecipadamente anunciadas.
«Esta noite, furriel?!..», compungiu-se o Soares, que era 1º. cabo e dos mais impertinentes militares do PELREC. Muito intrigado!
Assim seria!, disse eu, «ordens são ordens e estas noites mais sensíveis são sempre perigosas...».
Mas não foi!
Lá para as 11 e tal da noite, o Grácio fez transportar quatro ou cinco grades de cerveja - fresquíssima!!!, e da N´Gola, marca que se lançava por lá... - e logo as beberam os companheiros do PELREC, sabe-se lá com o que (ou quem) as comungando!!! Certamente lembrando folguedos de noites do mesmo dia, em anteriores anos, mas suas terras natais!
O Hipólito e o Dionísio vieram fazer-se passar em frente ao bar de sargentos, onde nós deglutíamos coisa acima da cerveja:  whiskys, licores do dito e os inevitáveis brandys Macieira e Vital - este de marca das Caves Primavera, de Águeda, que eu e o Neto fazíamos muita questão de propagandear.
- «Eh furriel, fixe!!!!...», bradou o Hipólito de longe, acenando de mão no ar e com sorriso largo, com,o que querendo dizer-nos obrigado pelas cervejas. E lá foram eles, supondo que teriam de se pôr a pé, lá para as três e tal da madrugada.
Não puseram! Nem o PELREC!
Os furriéis, na maior parte, deixaram-se ficar no bar pela noite dentro, nesta noite de passagem de ano!!!, até à hora da saída do pão, dos fornos da padaria militar, que ficava ao lado da nossa messe, pão quente, com manteiga!!! Que delícia!!! E quantos abusos alcoólicos se cometeram nessa noite!!! Olhem se o inimigo atacava!
Eu, da arma no coldre e granadas defensivas em guarda, lá me aguentei sem cervejas, sem álcool, sem brandys, sem whiskys. E a passar rondas de hora a hora. E cuidar da segurança que se fazia, à corrida de S. Silvestre do Quitexe!
«Ó furriel, então não há nada?!...», perguntou-me o Messejana, que fazia reforço no posto 5.  Houve. Houve  licor de whiskys e bagaceira, brandy Vital e Macieira. Tudo à medida!!! E pão quente com rojões feitos do porco roubado ao fazendeiro que nos recusou água!
Isto aconteceu faz hoje 36 anos!
Que saudades, oh malta!!

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O Mosteias não levava desaforo para casa...

Viegas e Mosteias no varandim térreo da Casa do
Furriéis, no Quitexe, Dezembro de 1974


O Mosteias não era homem que levasse desaforo para casa. Era, aliás, «o único homem» entre todos os furriéis - como nós dizíamos dele, fazendo graça com o seu estado de casado e pai de um filho, que nascera  já ele jornadeava por terras do Quitexe, como furriel sapador.
Era (e é...) até rapaz imponente, o Mosteias, para aí do seu metro e noventa de altura e com tanto de bondade na alma como de peso no corpo e força nos braços.
Fazia alteres com latas de cinco litros de tinta cheias de cimento e a sua generosidade muscular mostrava-se-lhe nos braços e na força das manápulas. Ai de quem se pegasse com ele!!! Levava uma surra e sorriríamo-nos nós do olhar de medo que medrava na cara do seu qualquer ocasional «inimigo».
Um dia, nos últimos de 1974, papaguéavamos nós conversa mole no varandim do bar de sargentos, a saborear a frescura de umas boas cervejas e à espera que o tempo passasse, quando um jovem civil meio estouvado e desajeitadamente peneirento, já muito nosso conhecido, se afirmou na frente das nossas trombas - a debitar rateres com o seu potente Ford Capri, carro de moda na altura e último modelo da marca.
Aqui para nós, era uma provocação habitual do miúdo, meio desbarbado e enciumado pela «letra» que algumas cachopas do tempo davam aos rapazes da guarnição militar. E não dariam a ele.
«Filho da p..., parto-lhe já o focinho!...!», disse o Mosteias, entre nós.
Que não ligasse, dissemos-lhe, pois «o gajo é parvo...». E o parvo lá continuava na avenida de terra do Quitexe a mandar rateres e a mangar com a malta.
O Mosteias levantou-se, não disse uma palavra, caminhou para o automóvel, abaixou-se e enfiou a mão para dentro. Se disse ou fez alguma coisa, não sei. O miúdo do Ford Capri é que pisou o acelerador e «picou» os cavalos todos para o lado da enfermaria, a caminho da rua principal, virando para Carmona.
«O gajo é parvo, pá...», disse o Mosteias, a sentar-se junto a nós e a pedir uma cerveja ao Lajes.
Bebemos todos, esquecendo o rapazola.
- MOSTEIAS. Luís João Ramalho Mosteias, furriel miliciano sapador, quadro superior de empresa, residente em Sines.
- LAGES: Carlos Alberto Aguiar Lajes, soldado atirador e em serviço no bar de sargentos. Natural e residente em Lisboa.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Mensagem de Natal do Comandante do Sector do Uíge

Comando Sector do Uíge (em cima) e o comandante,  
general Altino de Magalhães (em baixo)

«Festa de família, época em que é mais viva a saudade dos parentes e amigos, não é ainda para nós que nestes Natal de 1974 terminará a velada de armas iniciada há 14 anos.Fique-nos a consolação de encontrar no seio do Exército uma segunda família, a mesma camaradagem diária de combatente para combatente. 
Fique-nos a certeza de estar a cumprir uma alta missão, ajudando a construir, em paz, um novo país de expressão portuguesa.
Nesta quadra, em que em todo o mundo se deseja PAZ NA TERRA AOS HOMES DE BOA VONTADE, juntemos os nossos esforços para que, em ANGOLA, se consiga essa paz e, indiferentes a ofensas e calúnias, com a consciência tranquila, prossigamos confiantes e seremos até ao fim, para que possa os dizer, com satisfação e orgulho, MISSÃO CUMPRIDA!
Na impossibilidade de o fazer pessoalmente, com esta saudação a todos os oficiais, sargentos e praças do Sector, envio os meus votos de Boas Festas e Feliz Natal». 
ALTINO DE MAGALHÃES

Comandante do Sector do Uíge
Mensagem do Natal de 1974

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Estar longe e a matar saudades...

Vista aérea do Quitexe, nos anos 70. Messes de sargentos e oficiais (círculo cor de rosa), casa dos furriéis e secretaria da CCS (amarrelo), edifício do comando, parque-auto e parada (vermelho), igreja (verde) e administração civil (roxo) 




A vila do Quitexe era assim um conjunto de casas, distribuídas por duas ruas principais. A principal, em primeiro plano e depois de curvamento, correspondia (e corresponde) à chamada estrada do café - ligando Luanda a Carmona (hoje, Uíge). Paralelamente, na zona de círculos de cor, ficava a avenida e a zona militar.
Ainda na rua principal, ficavam um depósito de material de guerra (onde se registou um singular incêndio, a 17 de Janeiro de 1975 - ver AQUI) e a oficina e lar das transmissões. E restarurantes e a popular Geladinha do Quitexe, uma padaria, a administração civil e o jardim público, a estação dos Correios.
Eram ruas de grandes passeios e fartas conversas, normalmente já pela noite aberta, a desescaldar o calor africano que nos moía o corpo - indo ou saindo de restaurantes e bares. E por lá se espreitavam também a graciosidade das cachopas de cor mais clara, que nos enchiam os olhos de alegria e o corpo de desejos. Sem muita conversa, não fosse algum fortuito sonho de momento se transformar em drama emocional.
A rua de cima, assim a chamavamos, escondeu muitos segredos e foi percurso da corrida de S. Silvestre, na noite de passagem de ano. Por ela se declamaram promessas e fizeram juras de saudade, sempre que, noite adentro e por horas de lazer, os militares da guarnição «maquilhavam» a nostalgia e a distância de milhares de quilómetros das terras dos seus berços.
O período natalício, até aos Reis de 1975, foi tempo de muitas emoções. Faltava-nos o cheiro dos bilharacos, a verdura do musgo dos presépios, o repenique dos sinos, até as papas de abóbora. Mas estavamos longe, a matar saudades!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Outros Natais do Quitexe...


Outros Natais se celebraram no Quitexe, antes que por lá jornadeassem os Cavaleiros do Norte - fechando as portas da soberania portuguesa em terras do Uíge!
A foto mostra a festa que, em 1966, por lá juntou militares e civis em comunhão de emoções, certamente regadas de saudades pelo chão das suas terras natais - onde se amarrava o frio a pesadas samarras e meias grossas, enquanto por lá se mostravam os braços nus ao calor africano. Olhem para aquelas jovens europeias!
O Natal no Quitexe que reportamos, o do ano de 1966, mostra, em primeiro plano, o tenente coronel Dagoberto Graça, ao tempo comandante do Batalhão de Artilharia 786. A gentileza fotográfica é de José Lapa, que por lá jornadeou entre 1965 e 1967 - abrindo, com os artilheiros do BCART., os caminhos de missão que chegaram aos nossos dias.
Outros Natais, no Quitexe da nossa saudade!

domingo, 26 de dezembro de 2010

Guardados estavam os rojões para o dia de Natal...


A 25 de Dezembro de 1974, guardados estavam, no enlatado ido de Portugal, saborosos rojões mandados por minha mãe. Levados pelo Xico Neto, que viera de férias a Portugal. Uma lata de cinco quilos, daquelas redondas, da fábrica Tóbom, do Montijo - se me lembro bem.
Foi uma delícia!!!
A «coisa» foi combinada com o Almeida, 1º. cabo cozinheiro (da messe de sargentos), e meteu batata cozida com a pele, que pouco por lá se usava. Descascada à mão e engarfada com os suculentos rojões que daqui foram, deste sítio de onde agora escrevo. O prazer da lambeirice foi ao pormenor de se arranjar broa de milho, em Carmona e nesse dia levada pelo pessoal do SPM. Não era como a daqui, não era, mas que maravilha nos soube! Tudo regado a vinho tinto, outra raridade por lá. E arranjado como? Pois, sem contar os promenores, numa daquelas habilidades da tropa que hoje quase nos fazem corar.
-Ó Xico, logo ás....».,  avisei eu o Neto, marcando hora do surpreendente petisco. E mais três ou quatro amigos.  
Devorámos o pitéu, que, preparado pelo Almeida, com saberes que lhe desconhecíamos, os pôs como se estivessem a sair do tacho, aqui ao lume.
«Guardaste isto, pá!...», disse o Neto, a sorrir de alegria.
O Neto, aliás, nem queria crer no que lhe se punha na frente dos olhos e a afiar-lhe o apetite, tudo muito bem empratado - como sugere a foto. Faltavam os grelos, pois era, não havia por lá. Mas arranjaram-se umas alfaces, em salada, bem azeitada - num cozinhado divinal. E que, por horas, nos matou as saudades todas das nossas terras e nossas gentes. E das nossas cozinhas!

sábado, 25 de dezembro de 2010

A noite da consoada natalícia quitexana...


Noite de Natal no Quitexe de 1974. De  pé, 1º. cabo Soares 
e dois militares. Quem serão? Sentados: capitão
Fernandes, furriel Reino, comandante Almeida e Brito,
alferes Pedrosa (?) e capitão Falcão


RODOLFO TOMÁS
Texto


Lembro-me bem de toda a azáfama das senhoras, durante aquele dia 24 de Dezembro de 1974, no rancho geral.
Para todos os soldados, era algo de fascinante vermos que as mesas estavam nesse dia muito limpas. E bem recheadas.
Toda a gente trabalhava, as senhoras principalmente, claro. A partir do princípio da tarde, havia colegas que propositadamente passavam junto (ou perto) do refeitório, só para deliciarem-se com os odores, ou melhor, os cheirinhos a doces, canela, limão, açúcar torrado enfim, todos os cheiros que nos eram familiares e que já à muito tempo não os sentíamos.
Foi uma noite inesquecível, principalmente depois do "chá" com que o nosso Comandante nos brindou .depois da sua chegada: «Ah, vocês julgavam que eu não regressava; como vêem cá estou e muito bem».
Foi desta forma que "festejámos" a noite de Natal de 24-12-74. Para todos os colegas do BCAV. 8423 um Santo e Feliz Natal, com muita saúde, grande abraço a todos.
RODOLFO TOMAZ

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A Noite de Consoada de Natal no Quitexe de 1974

Furriéis Rocha, Fonseca, Viegas, Belo e Flora, um soldado, outro soldado e 1º. cabo Vicente, de bigode e caneca na mão (à esquerda), Monteiro, Pires (Montijo), Costa (Morteiros, a rir), Machado (a fumar), soldado Lajes

Tenente Luz sentado de costas), alferes Hermida (bigode) e Cruz (bigode e óculos), de frente, rodeando as respectivas esposas, capitão Fernandes (sentado na mesa principal, de frente), NN, comandante Almeida e Brito, furriel Reina e capitães Falcão (encoberto) e Oliveira (óculos), tenente Mora (1º. da direita, encoberto, com a esposa. À esquerda,

 
Noite de Natal no Quitexe. Já por aqui falámos muito dela. Ainda ontem, o alferes Cruz aqui deixou um bonito retrato, da comunhão de afectos que juntou a família militar do Quitexe, a 24 de Dezembro de 1974.
As duas fotos mostram parte da que foi a noite de consoada, «misturando» a guarnição num momento muito especial da comissão que nos levou a Angola. Repare-se que lá estão as mulheres dos militares (oficiais e sargentos) da CCS. E garanto que nessa noite não faltou alegria e saudade a todos nós.
Estava de serviço e coube-me (com outros) distribuir consoadas pelo postos de vigilância. Foram momentos emotivos, que só cada um pode retratar bem. Por mim, foram também felizes - entre os quatro dedos de conversa que se trocaram nesses pequenos tempos de partilha da mesa de consoada, no alto dos postos.
Foi há 36 anos! Vejam lá como o tempo passa!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

As várias festas de Natal no Quitexe de 1974...


Alferes Cruz e dra. Margarida Cruz, com o filho Ricardo ao colo. Repare-se na árvore de Natal e no bolo-rei (em cima). Representação de Natal  ao vivo, na sanzala Aldeia, do Quitexe (em baixo)



ANTÓNIO ALBANO CRUZ
Texto

Apesar de não termos o frio e a neve a lembrar o Natal no Quitexe de 1974, cedo começámos a prepará-lo. Recordo a árvore em casa, os enfeites nas oficinas-auto e messe de oficiais e as dificuldades e imaginação que houve na preparação daquela que,  para todos nós, seria a mais marcante e mais festiva quadra do ano, fora do recato familiar.
Recordo a minha esposa Margarida e o nosso amigo Albino Capela, na sanzala Aldeia, no Quitexe, onde davam aulas e, empenhadamente e com muito carinho, encenaram um presépio ao vivo, com coro e muitas canções de Natal.
Recordo ainda a Margarida e as restantes senhoras, esposa e filha do capitão Oliveira, as esposas do tenente Mora, alferes Hermida e sargento-ajudante Machado e, se não me engano, a Irmã Augusta, todas empenhadas a ajudar a preparar os doces e ceia para toda a CCS.
A ceia foi no refeitório.
Penso que estando representados todos os cantos do país, desde o Algarve a Trás-os-Montes, todos se empenharam para que não deixasse de haver referências a cada um dos nossos hábitos e costumes natalícios. Claro que o bacalhau foi rei, mas também não faltou o polvo e outros pratos típicos. Dos doces e para além da aletria, rabanadas, mexidos e sopas secas, ainda veio o queijo, o arroz-doce, o leite creme e outros.
Quanto a bebidas, havia para todos os gostos.
Em conversa com o alferes Ribeiro, recordou-me ele que, nessa noite, a quantidade e variedade era tanta que alguns de nós entraram de gatas nas suas casernas e quartos.
Acho que tudo isto nos ajudou a criar a nossa personalidade, a nossa maneira de ser e estar e a força que agora, nos momentos difíceis que atravessamos, tanto jeito ou falta nos faz.
A todos os companheiros do BCAV. 8423 e em especial da CCS, desejo um BOM NATAL e um FELIZ e PRÓSPERO ANO de 2011.
ANTÓNIO ALBANO CRUZ
Alferes miliciano da CCS do CCAV. 8423

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Adeus Lamego, que vou para Santa Margarida!

Neto, Viegas e Monteiro, furriéis milicianos no Quitexe, idos de Lamego e Sana Margarida


O ultimo dia de Lamego, foi 21 Dezembro de 1973. Já lá voltei algumas vezes e por lá (res)senti o cheiro do chão que no segundo curso de Operações Especiais de 1973 por lá pisámos, galgando do quartel de Penude, pelas  serras e vales das suas fronteiras mais próximas.
Ao dia, já de malas no carro do Neto, comemos na messe de Almacave, bacalhau à Gomes de Sá (comia-se bem, por lá...), dissemos adeus à malta mais próxima e ala para Águeda, com a guia de marcha na mão e uma mobilização para Angola.
Para trás, ficavam cinco meses de instrução (recebida e dada ), um mar de emoções e de dores sofridas, de muitas angústias, também!, e de um enorme orgulho por termos conseguido acabar o curso, bem classificados, sem mácula e preparadíssimos para o que desse e viesse.
A mim e ao Neto, consolava-nos saber que os anos de Angola (para onde íamos) seriam vividos em comum. E assim viria a ser.
Ao tempo, a nossa juventude era medrada no estigma de ir à guerra e para ela nos instruíram: sabíamos ao que íamos.
A viajar no SIMCA 1100 do Neto, de Lamego para Águeda, enquanto o Monteiro seguia para Marco de Canaveses (à vida dele...), lembrámos muitas coisas: a prova do cemitério, a Dureza 11, as 24 Horas de Lamego, os treinos de combate, as aulas e ensaios de minas e armadilhas, os saltos de helicóptero, os rastejamentos nos charcos e sob o arame farpado, as provas nocturnas e a morte do nosso companheiro soldado-cadete - alvejado por tiro de metralhadora, quando, de noite, rastejava no chão de Penude.
«Estamos bem preparados, pá....», dizia o Chico, de mãos no volante do SIMCA 1100 e a acelerar pelas saudades da sua namorada Ni. Até Águeda. 
Assim nos sentíamos. Sem medos. E assim fomos para Angola. E voltámos!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Natal no Quitexe foi ser... pai de meninos!

Igreja da Mãe de Deus do Quitexe, no tempo do BVCAV. 8423.
 Por lá também se «fazia» Natal!


Por estes dias de Dezembro de 1972, multiplicavam-se os aerogramas e cartas que levavam e traziam saudades da família e dos amigos. Com a época natalícia a bater à porta, era ver o pessoal sentado nas camaratas e quartos a entregar-se à escrita. Retenho a imagem do Nunes, sempre muito recatado e de quem nunca se ouviu uma palavra menos própria, sentado na cama a escrever com ar nostálgico. Era uma carta para a filha de ano e meio, o seu ai Jesus do dia a dia - não a via há oito meses!

«Já deve estar bem crescida, já era uma mulherzinha…», dizia ele, sorrindo para a foto já me mostrada umas dez vezes, mas como se fosse a primeira! Carregou o pesado fardo da saudade por mais 18 longos meses. Outros havia, que não tinham ainda mimado o filho que nascera depois da nossa partida para Angola! Como o Dias, que gritou aos sete ventos «já sou paaaaai…, já sou paaaaai…», quando recebeu um telegrama a comunicar-lhe o nascimento da filha! Pulou, dançou, bebeu…e chorou como uma criança! Uma grande mistura de sentimentos deve ter-lhe assaltado os seus frescos vinte e um anos! Parecia um “miúdo”! Era um “miúdo”, claro que era, como os outros!
Mas as obrigações não se compadeciam com sentimentos, e a vida continuava como se nada de extraordinário tivesse acontecido. Mas Natal… era Natal, e as hostes andavam carregadas de emoções! Quase cheirava a filhoses, carregadas de açúcar e acompanhadas de uma caneca de café de cevada! Cheirar…cheirava, ou parecia que cheirava!...
Quem não tinha mãos a medir era o 1º Cabo do SPM, que aproveitava a ansiedade de alguns para lhes esconder as cartas, desesperando-os! Pura brincadeira, entregava-as minutos depois para lhes ver o sorriso de orelha a orelha! E rara era a carta que neste período não trouxesse uma notita para ajudar a colorir um pouco o dia de Natal. Algumas bem pequenas, mas enviadas sabe-se lá com que dificuldade! Com muita, certamente!
ANTÓNIO FONSECA

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A apresentação dos Rangers em Santa Margarida


Monteiro, Neto e Viegas no messe dos cabos 
milicianos do RC4, em Santa Margarida

A 20 de Dezembro de 1973, eu, o Neto e o Monteiro recebemos ordem de marcha para Santa Margarida - onde, no RC4, nos teríamos de apresentar no dia 24, em vésperas de Natal. Idos de Lamego, do Centro de Instrução de Operações Especiais (CIOE), onde nos fizemos Ranger´s e de que nos despedimos a 21, uma 6ª. feira.
Pelo meio, punha-se um fim de semana, passado em casa e, na manhã de 24, lá nos pusemos nós a caminho de Santa Margarida e com a firme certeza de que nos apresentaríamos e logo nos dispensariam para as festas natalícias em casa. Não viria a ser bem assim.
A 24, ao fim manhã, lá estávamos nós - eu e o Neto -, galgando quilómetros no seu (dele) SIMCA 1100, que tantas histórias teria para contar, se falasse. O Monteiro não sei como foi, mas lá apareceu também. E apresentados fomos, a um oficial de dia com apelido de ex-Presidente da República e que nos deu baile no gabinete. Ora porque nos apresentávamos de costas para a bandeira nacional, ora para as fotos do então PR(Américo Tomaz) e Presidente do Conselho (Marcelo Caetano.
O pior estava para vir: iríamos ficar de serviço.
Que não, que não podia ser, que estávamos mobilizados, tínhamos de ir passar o Natal a casa. Mas, impertinente e admoestador, o oficial de dia teorizou sobre os regulamentos e chamou o sargento de dia, para que nos orientasse no serviço.
«Meu capitão, desculpe lá!!! Está a dizer-nos que vamos os três ficar de serviço?», perguntei eu. Pois que era mesmo assim e assim teria de ser.
Irritou-se o Neto, sempre mais impulsivo que eu: «Eu fico é o caraças. Pior castigo que ir para Angola já não vamos ter.... Vamos é embora!!!!...». E aprontou-se a passar a porta de armas.
Olhei eu para o Monteiro e, de saco TAP ao ombro e sem olhar para trás, abandonámos o RC4, entrámos no SIMCA 1100 e... ala que se faz tarde. Se querem saber, não fomos castigados. O oficial de dia tinha estado a dar-nos tanga!

domingo, 19 de dezembro de 2010

O Pagaimo do Pelotão de Morteiros 4281

Valdemar e Pagaimo, militares do Pelotão de 
Morteiros 4281 (em cima). Alferes Leite, à direita, 
em baixo, com os também alferes Garcia e Ribeiro, 
da CCS do BCAV. 8423

O dia 19 de Dezembro de 1974 fez de véspera da saída do Pelotão de Morteiros 4281 do Quitexe, por onde acamaradou sete meses com a CCS dos Cavaleiros do Quitexe. Tenho particular afecto pelo grupo, em memória da minha primeira operação militar em terras do Uíge.  
Olho o Livro da Unidade e recordo a data: 20 de Junho de 1974, Operação Castiço DIH, dividida em quatro fases, que se prolongaram até 7 de Julho e envolveram todas as subunidades orgânicas do batalhão. Ainda em sobreposição com o BCAC. 4211, que nós substituíamos. Foi o Pelotão de Morteiros que nos foi buscar à fazenda que foi objectivo final da operação, comandado pelo alferes Leite.
O pelotão estava instalado ao lado da padaria, entre as messes da sargentos e oficiais, e dele (do PM) lembro o impagável furriel Costa. Impagável - ele que me perdõe... - pelas teorias que desenvolvia sobre qualquer assunto (fosse qual fosse...) e porque vivia na suspeição de que o álcool fazia mal. E, por isso, só  dussóis, missions, coca-colas e, vá lá, ousava até beber água. Até que lhe começámos, à socapa, a meter álcool nos sumos e lá os bebia ele, como se estivessem no estado original. Era um bom companheiro, de quem não sei paradeiro.
A vida civil tornou-me encontrado, poucos anos depois, pelo 1º. cabo Pagaimo, que por lá também fez missão e por cá, nas Brigadas de Trânsito, me fez stop na estrada de Águeda para Aveiro, aí pelos anos 80, fartando-se de brincalhar comigo - que não o reconheci. Pedia-me ele os documentos, olhava os pneus e os faróis, se eu tinha tirado a carta em Angola, a intoxicar-me de questões e a irritar-me.
«Ouça lá, se quer multar-me, multe...», disse-lhe eu, já com a paciência no limite e a contar as horas para um compromisso.
E ele, nas calmas, a bater com a biqueira da bota nos pneus e a dar voltas ao carro. «Então não me conhece?». Que não, respondi eu. E veio a velha questão: se o gajo me conhece, só pode ser da tropa. Era ele, o Pagaimo - que eu conheci de camuflado, no Quitexe, e ali me inspectava na estrada, com a farda da BT vestida. Como é que eu o havia de conhecer?
Ah e não me multou. Também não tinha ponta pode onde me pegar.
- PAGAIMO. Celestino de Jesus Pagaimo, 1º. cabo do Pelotão de Morteiros 4281, aposentado da GNR. Natural e residente em Cantanhede.
 Ver AQUI.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Natal sem frio, sem chuva, sem papas de abóbora menina...

Rocha, Fonseca, Viegas e Belo na Ceia de Natal de 1974, no Quitexe

(...)
Não está chuva nem frio, que por aqui se fazem em sol, neste Natal de 1974. Não posso ir ao musgo à Gocha e nem há árvore de Natal para enfeitar na igreja, com o ti Gil e a garatoda mais nova. Ou, se há árvore aqui pelo Quitexe, será para os brancos da vila adornarem, se calhar com algum gentio na ajuda a tarefa mais pesada. E eu, mais que pela certa, vou estar de serviço.
Os bilharacos da mãe Dulce, não vou ter. Nem o pão de ló a sair do forno da lenha, depois da broa cozida. Em trigamilha. Nem as formas dos bolos para eu rapar, de lambareiro. Nem o beijar do Menino e o leilão de pés de porco no adro da igreja, ao fim da missa.
O Natal de 1974 não vai ter frio, nem chuvas rijas, nem as nortadas que sopram do Valbom, fazendo a neve em fiapos. a atapetar as ruas, ou a fazer-se em filigranas nas árvores.
(...)
Meu Natal de 74 será por estas terras quentes de África, na Angola. Se eu pudesse, pedia que me arranjassem uma couve troucha, mais batatas e bacalhau do grosso, do alto, daquele a saber a sal, e mandava cozer tudo, ali na cozinha, regava-o com um fio de azeite, dois fios de azeite, três, quatro..., e lambia este sabor, limpando os beiços ao guardanapo. Mandava pôr a mesa, com toalha branca - e nem precisava de ser de linho... - e uma  pucheira de vinho, as filhós e as papas de abóbora menina, os sonhos, sem querer rabanadas, de que não gosto, tudo nos melhores pratos e com os melhores talheres.E servia-me, com esta minha nova grande família.
Estou bem, amigos, até ao Natal do ano que vem. Não vou dispensar-me, então, da missa do galo e da fogueira no adro da Igreja.
Extracto da carta, policopiada em papel de cera,
escrita e enviada a amigos e familiares, pelo Natal de 1974 -
mais ou menos por esta altura do mês.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A Joana e os cinco mortos de Santa Isabel


Fazenda Santa Isabel

ANTÓNIO FONSECA
Texto

A Joana era uma negra muito bonita e, tal como relata o texto de 17/7/2009, andava apaixonada por um soldado rádio-montador. Dava nas vistas pela beleza, mas também pela simpatia que irradiava. Com ela terei falado apenas duas ou três vezes e apenas por mera casualidade. Não fazia parte do meu “carnaval”, mas do daqueles que arranjavam os rádios emissores e receptores, como os TR 28 e os… Banana!

Mas lembro também, infelizmente, o seu corpo muito retalhado e as faces desfiguradas por cicatrizes que a deixaram quase irreconhecível! A emboscada a uma pequena coluna, em plena picada, tinha deixado marcas irreparáveis! Enlutou-nos a todos!
Cruzei-me com ela em frente à escola primária do Quitexe, quando me dirigia ao bar Camabatela para tomar o café, mas não lhe dirigi a palavra.
«Sou eu, a Joana!..., não me conhece?!...,» disse-me ela, ainda com dificuldade em articular as palavras e mostrando-me, sem qualquer pejo, quase todo o seu corpo, antes perfeito, agora coberto de cicatrizes profundas, muitas ainda por sarar. Os ainda bem visíveis golpes de catana, testemunhavam bem a violência de que tinha sido alvo.
Fiquei impressionado, não pelo que vi, porque já tinha visto muito pior, mas pelo facto de ela ter resistido! Outros tiveram um destino muito diferente! Apesar de muito debilitada, não escapou ao olhar de desprezo e acompanhado de comentário jocoso, de um civil que trabalhava na serração, e que não ficou sem resposta. Bem feia, por sinal, mas merecida!
Na longa conversa que com ela tive, fiquei a saber o que mais tarde viria a ser confirmado: a Joana não morreu no ataque porque… fingiu estar morta! Salva pelo natural instinto de sobrevivência, assistiu à morte de amigos e familiares. E também de militares que faziam escolta às viaturas civis, mas deles falarei um dia. Foi testemunha importante no relatório que o Comando de Batalhão e a Companhia de Santa Isabel elaboraram.
Da Joana, ainda lembro o sorriso na nossa despedida do Quitexe, ao lado da inseparável amiga Maria, ambas sentadas no degrau do bar do Pacheco, na avenida de baixo. Um sorriso que, embora triste, ainda conseguiu vencer as cicatrizes do rosto! E nem as marcas profundas das pernas lhe impediam que usasse a sua famosa mini saia de vinte centímetros! Apesar de tudo, continuava esbelta e bonita, a Joana!!! Quanto às baixas militares dessa operação, foram cinco - entre a guarnição de Santa Isabel.
ANTÓNIO FONSECA
CCS do BCAC. 3879