quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O futebol como destressante na guarnição do Quitexe

Uma equipa da CCS. Em cima, Grácio, Gomes, Miguel (1º. cabo), Botelho, Miguel (furriel
miliciano paraquedista), NN e Soares (em cima). Miguel (condutor, ?), Mosteias, Lopes,
NN, Monteiro e Teixeira (estofador). Clicar a imagem, para a ampliar

A acção psicológica esteve em acção permanente (sempre esteve...) pelo mês de Dezembro de 1974 fora, por exemplo com a realização de partidas de futebol, melhor ou pior jogado no campo pelado do Quitexe. E que grandes peladas por lá se jogaram...
Os convencionais jogos entre equipas da CCS - e afamou-se a do parque-auto, a dos ferrugens!!! - deram lugar a «confrontos» inter-unidades e também partidas com formações civis, que se formavam para o efeito.
Não sei bem se por esta altura, foi exibido o filme «Eusébio», que encheu o salão do Clube do Quitexe, da plateia ao balcão, projectado pelo Tomás, que tal obra fez durante vários meses.
O futebol, com o seu poder de atracção, levava «multidões» ao pelado quitexano e funcionava, digamos, como que um escape milagroso para o algum tédio que esta fase menos operacional provocava na guarnição. Era uma espécie de calmante, um destressante... - agora se diria.
A magia do pontapé na bola também se viveu intensamente no Quitexe militar, entre a guarnição que foi a última do Exército Português em Angola. 
 Ver AQUI.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O abandono definitivo da Fazenda Santa Isabel


Flora, Belo, Fernandes e Ricardo, furriéis de Santa Isabel já no Quitetexe (1974)


A 10 de Dezembro de 1974, completou-se a rotação da 3ª. CCAV. 8423, de Santa Isabel para o Quitexe. Quitexe que, mal eu diga, era um paraíso para os nossos companheiros que tinham jornadeado pelos lados da serra do Quimbinda, desde Junho, e por lá sentiram as «passas» de uma comissão que, não sendo um drama, ou uma tragédia, teve os seus momentos menos bons.
Quase todos nos conhecíamos já, principalmente do período de formação do batalhão - de Janeiro a Maio desse ano, em Santa Margarida. E também da regular presença de um pelotão no Quitexe, reforçando a capacidade operacional do comando do batalhão. A comunhão de espaços e de tarefas, na vila quitexana foi, também por isso, assumida com total tranquilidade e muito, muito companheirismo.
O abandono de Santa Isabel, como o de Zalala e de Luísa Maria, significava, por outro lado e para nós, a abertura do caminho que nos traria ao cabeceiro do regresso a Lisboa. Era isso muito expectável, e desejado, embora o tempo e as delicadezas do processo de descolonização nos «obrigassem» a continuar por lá até Setembro de 1975. Foram repetidas as decepções, quanto a esse objectivo.
Ainda muitas águas iriam passar debaixo da ponte das nossas esperanças. 

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Destacamento de Luísa Maria foi extinto há 36 anos

Pose a partir para operação na área da Árvore Vaidosa (a 10 de Outubro de 1974,
em cima). Destacamento da Fazenda Luísa Maria, adido à 3ª. CAV. 8423 (Aldeia
Viçosa). Foto de Novembro de 1974 (em baixo)


A Fazenda Luísa Maria foi poiso de vários pelotões da 2ª. CCAV. 8423, que o capitão miliciano José Manuel Cruz comandava com proficiência e discrição - a partir de Aldeia Viçosa. Foi também fim ou ponto de passagem de algumas missões do PELREC - o pelotão de atiradores da CCS.  Foi desactivado faz hoje 36 anos.
A retracção do dispositivo militar a tal levou e dias antes (a 10!) já a 3ª. CCAV. 8423, a de Santa Isabel, de deslocara totalmente para o Quitexe.
Assim evoluía a nova disposição operacional do Subsector do Quitexe - que dependia directamente do Comando de Sector do Uíge, em Carmona.
O destacamento militar da Fazenda Luísa Maria foi, em data que não sei precisar, ponto de partida para várias operações militares  para a área da perigosa Árvore Vaidosa. Uma delas, talvez de dois dias e com retorno a banho retemperador nos chuveiros da  camarata militar.
Uma vez, a uma tarde de um domingo, no regresso ao Quitexe e em plena picada, fomos testemunhas de uma estranha correria - a de um homem a fugir, com quanto as pernas lhe davam, na frente de uma pacaça, que perigosamente o ameaçava. Salvou-se por se pôr à volta de uma árvore e porque, entretanto, tiro certeiro de G3 abateu o animal. 
Ver AQUI.
E AQUI.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A falta de aerogramas entre a rapaziada da tropa...


Aos meados de Dezembro de 1974, rebentou uma inusitada crise no Quitexe! Era má a alimentação, fervia a indisciplina militar, havia incapacidade de comando, falta de cerveja ou bons wiskyes?! Ou gasóleo para as Berliets e unimogs, balas para as G3´s?  Nada disso: faltavam aerogramas! Os famosos bate-estradas.
O aerogramas eram meio de correspondência comum no mundo militar, voando de cá para lá e de lá para cá, com as boas e as más notícias, as saudades e as paixões que se faziam labaredas em cada um que se escrevia. Quantas lágrimas se choraram nas suas páginas amareladas ou azuis, quantas paixões de multiplicaram e azedaram, quantas orações de mãe se carrearam no silêncio que se dobrava e desdrobava, colando-se palavras até ao último vinco do papel - que ainda por lá levava mais um beijo e um adeus?!
Pois em meados de Dezembro de 1974, não havia aerogramas no Quitexe! O que era um drama, que nem podem imaginar. Socorri-me do amigo Alberto (foto, de 2002), que por Luanda jornadeava pela Base Militar.
«Não há aerogramas, pá!!! Isto está uma m... depois do 25 de Abril anda tudo desorganizado», escrevia-me ele, em carta de 12 de Dezembro, que agora reli, queixando-se de Lisboa, onde supostamente «anda tudo aos montes» e, quanto à correspondência, «só a mandam quando lhes apetece».
E os aerogramas? «Aqui na base, não há e já fui ao Depósito Base de Intendência. Também não há e ninguém sabe quando haverá», disse-me o Alberto, com uma facadinha no então muito recente 25 de Abril: «O glorioso 25 de Abril dá nisto e nem só..., pois isto nem é nada, a ver outras coisas que por aí se fazem».
- ALBERTO. Alberto Fernando Dias Ferreira, 1º. cabo especialista  da Força Aérea. Natural de Fermentelos (Águeda) e já falecido. Era quadro superior da administração fiscal e foi vereador e candidato a presidente da Câmara Municipal de Águeda.
Ver AQUI

domingo, 12 de dezembro de 2010

A verdadeira história dos beduínos do Quitexe...



MANUEL MACHADO
Texto

A história do beduíno é real e passou-se na minha recruta, quando frequentava o curso de sargentos milicianos nas Caldas da Raínha. É uma história curta, que se passou com um alferes miliciano contratado, que comandava o meu pelotão, bem secundado por dois cabos milicianos que, infelizmente, eram do mesmo tipo. Gabava-se de que todas as noites bebia uma garrafa de wiskye, pelo que é imaginável a sua disposição para lidar, na manhã seguinte, com um pelotão de recrutas, dada a ressaca com que acordava.
Tivemos uma instrução do pior, não havia ribeiro que tivesse muitas silvas por onde não passássemos, nem lagoa onde não metessemos o corpo. Numa dada noite, pôs-nos a pé às duas da manhã, alegando instrução nocturna, já bastante toldado pelo álcool, e fez-nos passar por dentro do tanque onde os prontos lavavam a roupa e pela vala onde eram vazados os dejectos dos porcos. Isto depois de darmos algumas voltas ao quartel. Realmente era o banho ideal. No final, tomamos banho vestidos para retirar alguma da porcaria de que vínhamos impregenados.

O alferes vertia as suas frustrações nos exercícios de aplicação militar que adaptava no sentido de os tornar mais difíceis para os instruendos. Para ele, não tínhamos nome, éramos todos beduínos pois não íamos ter sossego nem tenda certa durante três anos.
A verdade é que assim foi, sempre com a casa às costas até ao final. Este fulano, dizia algumas coisas que nunca mais esqueci, com a de «os cães vadios no interior da unidade são vossos superiores» e «quem os molestar será punido». Isto dá para ver a coação psicológica que nos era feita por essa gente. É claro que o melhor era não fazer ondas, mas dizia cá para com os meus botões - vai meter essa a outro.
E assim passei três meses de recruta no Regimento de Infantaria nº 13, nas Caldas da Raínha, no primeiro turno de 1973 - que se iniciou a 23 de Janeiro na quarta companhia de instrução.
Daí que nós enquanto militares eramos realmente como as tribos de beduínos do deserto, que não tem lugar certo para estar.
- MACHADO. Manuel Afonso Machado, furriel miliciano mecânico de armamento. Natural de Covelo do Gerez (Montalegre) e residente em Braga.
- BEDUÍNO. Nome que Machado vulgarmente atribuía aos militares do BVAV. 8423 e que muito se popularizou na guanição.

sábado, 11 de dezembro de 2010

As latas cheias de rojões e de enguias de escabeche

Clube Recreativo do Quitexe, nos antos 70. Grandes «filmes» por ali passaram...


O mês de Dezembro de 1974 foi mês de festas, futebol e cinema, no Quitexe. Para além da convencionais e já por aqui muito faladas acções militares. No dia 11, iniciou-se a actividade da Comissão Local de Coordenação Civil-Militar (CLCCM) da vila - que fôra constituída nos primeiros dias do mês e por objectivo tinha «impôr uma mudança radical dos hábitos dos longos anos de guerra» -como se lê no Livro da Unidade. Compreende-se: até aí eram comissões de contra-subversão, agora desenvolvia-se e acelerava-se o processo de descolonização.
O Clube Recreativo do Quitexe foi espaço para exibição de filmes, pela mão do operador Rodolfo Tomaz - se me lembro bem. As fitas eram vistas com grande entusiasmo pela comunidade militar e, na Zona de Acção (ZA) do BCAV. 8423, em todas as unidades e abertas à população civil.
Funcionavam como motivadoras de acção psicológica.
Por estes dias, chegou o Neto - de férias em Águeda e com a mala cheia de recordações de casa. De minha parte, a mãe Maria Dulce deu-se ao trabalho de encher uma lata de cinco quilos, daquelas redondas, onde se vendia unto (ou banha de porco, quem se lembra?), uma lata cheiínha de rojões. Ui, ui, ui, ui!!!!!.... rojões!!!!!.... Certamente de algum porco a que eu próprio ainda dera alguma lavagem. De certeza! E uma outra, mais pequena, com enguias em escabeche. Que delícias!!! Nem imaginam a gulodice com que devorámos os pitéus, reachando o paladar das cozinhas da mamã. Um luxo!!!

- Cinema no Quitexe. Ver AQUI.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Alvarito do Marinhense que futebolou pelo Quitexe


ANTÓNIO FONSECA
Texto

Por vezes, dou comigo a pensar no quotidiano por terras do Quitexe e nas mais pequenas coisas a que, ao tempo, não atribuímos grande valor, talvez fruto da nossa juventude. Como, por exemplo, nos azares de uns… e sorte de outros!

Lembro aqui o bom camarada Alvarito, ex-jogador do Atlético Clube Marinhense (Marinha Grande), que nunca se conformou com a sua mobilização. O futebol era a sua vida e não imaginava este sonho enterrado em África. Conjecturava-se, na altura, que iria ingressar num “grande”, e até já estavam feitos alguns alinhavos nesse sentido, mas teria de escapar ao então Ultramar. Mas não escapou e rumou ao Quitexe!
E foi o furriel miliciano vagomestre da CCS, jogador do Caldas Sport Club, que o reconheceu dos campos – já tinham sido adversários -, e chegou à fala com os responsáveis do Recreativo de Carmona. Treinou, agradou e, logo debelada a burocracia, fez o que melhor sabia fazer!
Tornou-se, ou tornaram-no, na “coqueluche” da equipa e, vejam lá, o presidente do clube até disponibilizou a sua avioneta particular para que o fossem buscar, sempre que necessário, ao Quitexe, e levá-lo aonde a equipa se deslocasse! Andava vaidoso, como ele mesmo dizia, com todas as mordomias e privilégios com que o mimavam. E também esfregava as mãos a prémios generosos, mas bem mais modestos que os praticados nos dias de hoje! E nós, não menos vaidosos! Por ele! O único senão prendia-se com as viagens aéreas, que lhe causavam suores e medos que quase o aterrorizavam - não partia sem que o quarto testemunhasse as suas preces.
«Ó Casal, e se aquela m…da cai?!..., aquilo abana por todos os lados! Se eu for desta para melhor, ficas responsável por isto!...», dizia-me ele, apontando a mala, com um riso amarelo e os suores de aflição a ensoparem-lhe a camisa engomada! E a esperar de mim uma garantia que eu não lhe podia dar: a de que a avioneta não cairia! Mas garantir…eu “garantia”! E nunca caiu!!!
Estas e outras passagens do Quitexe foram lembradas em almoço recente, salientando eu a saudade com que de muitas delas se falou, e que algumas vezes levaram os dedos do meu “convidado” a estancar o que parecia ser uma lágrima teimosa! Principalmente quando lhe falei das minhas férias no “puto”, em Setembro de 1972, e do emotivo jantar com os pais e namorada, num restaurante em S. Pedro de Moel.
«Por tudo o que é sagrado, cuide do nosso menino!...», dizia-me a mãe de filho único, que ainda o mima, com a conivência das lágrimas do pai e da namorada, e apertando-me a mão,  tremulamente! E eu, ali, a engolir em seco, sem poder dizer que o “menino” viajava por cima de matas angolanas, atrás do seu sonho! Caramba, já lá vão 38 anos!..., e parece que foi ontem à noite!
E cuidei, o melhor que pude e soube, mas, porque nunca me senti exemplo para ninguém, tive que me esforçar em dobro, resfriando os meus (e os dele) ímpetos de saudável «galderice» que os 22 anos nos permitiam!
ANTÓNIO FONSECA
- FOTO. Equipa do Marinhense de  1970/71, que quase subiu à 1ª. divisão. Em cima, Pinto (treinador), Manuel Joaquim, Carlos Alberto, Vitor Manuel, Parada, José Morais, Ribeiro, Florival, Cardoso e Anacleto. Em baixo, Leitão, Jacinto, Cunha Velho, Naftal, Carapinha, Zeca e Alvarito.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Inventar para ir a Carmona e a carta de condução...

Entrada de Carmona, do lado do Quitexe (à esquerda) e do Negage


Ir a Carmona era boa razão para se inventar todo o tipo de desculpas, assim se tivesse uma folguinha no trabalho operacional. A cidade ficava relativamente perto, a escassos 40 kms. e em estrada de asfalto, facilmente se arranjavam boleias e todos os dias para lá ia (e vinha) a viatura do SPM, buscar o correio. E sobravam motivos para lá ir.
Carmona, por um lado, respondia aos cios do nosso desejo, oferecia respostas aos nossos deslumbramentos e apetites, redesenhava-nos o ar de civilização que o Quitexe, uma pequena e até bem interessante vila, não nos oferecia, porém. Ir a Carmona, era respirar o cosmopolitismo e carregar baterias para as tarefas operacionais que nos exigiam os Cavaleiros do Norte. Bons restaurantes, bares americanos e cinemas, escolas e liceu, livrarias, discotecas, tudo nos respondia às expectativas de quem, aos 21 para 22 anos, olhava para o mundo como que o querendo pôr no bolso.
E o que tem isto a ver com 9 de Dezembro, o dia de hoje? Pois bem, em 1974, a desculpa oficial para ir a Carmona foi contratar as aulas para a escola de condução. E lá viria a fazer exame a 4 de Abril de 1975. O tempo passa! 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A Comissão do MFA dos Cavaleiros do Norte

 Furriéis Cruz e Viegas na avenida do Quitexe. Atrás, vê-se o
bar dos soldados e o telheiro onde funcionou a escola regimental

Aos primeiros dias de Dezembro de 1974, foi eleita a Comissão do MFA do BCVA. 8423, integrando um oficial, um sargento e um praça. Não sei da data exacta, mas lembro-me bem de o Cruz, o furriel mais velho de todos nós (é de 1951), ter sido eleito o representante da classe de sargentos. E eu, seu modesto e orgulhado suplente.
Houve algum burburinho na eleição pois, de forma subreptícia mas a pretender-se imperativa, fôra sugerido que o eleito da classe deveria ser um 1º. sargento. Mas assim não foi e o Cruz, que era rapaz de muito boa presença e culta conversa, meu amigo de peito, foi o delegado eleito - sendo para ele o meu voto.
Não me lembro dos eleitos dos oficiais e praças do batalhão, mas sei que objectivo dos delegados eleitos era participar nas reuniões do MFA, a nível do Comando do Sector do Uíge, e assim acontecia de 15 em 15 dias.
A primeira, foi a 7 de Dezembro, em Carmona - e eu também lá estive. De uma delas, recordo o comportamento exibicionista de um coronel ido de Luanda, todo cheio de nove horas e ideias para a nossa forma de actuação e relacionamento com os representantes dos movimentos de libertação. Que devia ser assim, devia ser assado. E eu, aldeão e irreverente como era, e se calhar até algo menos respeitador, a perguntar-lhe como podia ele ir de Luanda e dizer a quem estava - e bem conhecia o terreno e as pessoas... -, dizer como agir, como reagir, como decidir.
A questão valeu-me uma severa reprimenda verbal de um capitão, cujo nome não recordo mas ao qual ripostei com alguma animosidade, em conversa de bar, no Comando de Sector.
«Ó pá, deixavas lá o gajo falar... Ele vai ficar e nós ficamos cá...», disse-me o Cruz, já na petiscança do Escape - restaurante de ali perto e onde fazíamos horas para o regresso ao Quitexe. Creio que na viatura do SPM, com era costume.
- MFA. Movimento das Forças Armadas.
- CRUZ. António José Dias Cruz, furriel miliciano mecânico rádio-montador. Natural de Cardigos (Mação) e residente em Lisboa, onde é funcionário da Câmara Municipal.
- CRUZ + VIEGAS. Ver AQUI.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O dia da ordem de serviço com a mobilização para Angola

Cópias da Ordem de Serviço nº. 286, de 7 de Dezembro de 1974, do Centro de Instrução de Operações Especiais (CIOE), em Lamego, com a mobilização de Monteiro, Viegas e Neto para o BAT. CAV. 8423. Em baixo, Viegas de serviço no CIOE, por aquela altura



A ordem de serviço nº. 286, do Centro de Instruções de Operações Especiais (CIOE), em Lamego, de 7 de Dezembro de 1973, trazia chapada a mobilização dos três 1ºs. cabos milicianos que viriam a ser o furriéis da CCS do BCAV. 8423 - o Monteiro, o Viegas e o Neto.
A Nota nº. 4700 - Pº.33.007, de 17 de Novembro do mesmo ano e da Repartição do Serviço de Pessoal (RSP), da Direcção do Serviço de Pessoal (DSP), do Ministério do Exército, já fizera as nomeações, que nos só conhecemos faz hoje 37 anos.
Foram momentos felizes!! Isto que eu digo é uma caricatura, pois ninguém queria ir para a guerra. Mas no quadro de então, o de uma juventude que cresceu com esse estigma, ir para Angola era o melhor que nos poderia acontecer. Era o «teatro» de guerra mais pacífico - muito melhor que, como se dizia ao tempo, as dificuldades que se viviam na Guiné-Bissau e Moçambique.
No meu caso pessoal, acrescia a vantagem de em Angola ter família mais ou menos próxima e vários amigos.
O dia 7 de Dezembro de 1974 era uma 6ª.feira, véspera de feriado nacional, e o meu fim-de-semana seria passado em Lamego, por estar de escala, em serviço. Mas telefonei para a vizinha Celeste, dos Correios de Lamego, para que desse o recado à minha mãe.
«Já não vens a casa?», perguntou-me a filha Cinda, agora com 65 anos. Que não, lhe disse eu. E vim a casa por mais uns meses. Ainda passei mais duas semanas em Lamego, segui para Santa Margaridas (em vésperas de Natal), e, depois, voei para Angola - já na noite de 29 para 30 de Maio de 1974.
Ver AQUI.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

As férias do Neto e a troca de angolares por escudos

Nota de 100$00 do Banco de Angola (angolares) e aerograma recebido faz hoje 36 anos (clicar nas imagens, para as ampliar)


A 6 de Dezembro de 1974 recebi correio do «puto», do José Carlos Carvalho - que agora se reformou de professor... -, dando conta de novidades de Águeda e dos amigos (dele e meus) que por cá ficaram, uns mais à esquerda, outros mais à direita do país político que então saía do parto.
«Imagina lá que agora andam por aí camaradas aos pontapés, adornados com o estético emblema do PCP, de punho fechado e a maioria (barulhenta) já perfeitamente esquecida que, durante o obscurantismo fascista, não deram piu, para não terem chatices!», escrevia o desde há dias aposentado do ensino, no aerograma ali ao lado reproduzido.
Desfiou ele os seus comentários pessoais sobre amigos comuns - que, naturalmente, aqui não vou repetir... - e deu-me conta de por Águeda ter encontrado o Neto: «Tenho-o visto por cá».
«Tá com bom aspecto, pelo que pude apreciar, e não deve ter gostado nada de regressar a essas edénicas paragens», releio agora, no aerograma azul do Zé Carlos Carvalho, que guardo há 36 anos.
Outra questão sublinhava ele, a de um tio dele, a morar em Santo António do Zaire e que, «morto por se pirar...», precisava de «trocar angolares por escudos nacionais». «Ele anda aflito com essas m... que acontecem aí dia-a-dia», dizia-me o Zé Carlos, explorando a possibilidade de eu lhe cambiar moeda. Não lha troquei, pela  certa. Eu próprio não a tinha. Mas sublinhava ele: «Se isso te for possível, di-lo com urgência, que ele contactará contigo, por meu intermédio».
A troca de moeda, angolares por escudos, foi negócio próspero para muitos - nos  últimos tempos da soberania Portuguesa em Angola. Um escudo chegou a «valer» cinco, dez angolares. Era a necessidade de cambiar uma moeda que o Estado Português nunca reconheceu aos portugueses que vieram de Angola - muitos deles sem mais riqueza que o mão cheia de notas que esconderam nos bolsos.
- NETO. José Francisco Rodrigues Neto, furrel miliciano de Operações Especiais (Ranger´s), meu companheiro de escola e de tropa (durante 21 meses consecutivos). Natural e residente em Águeda, onde é empresário.
- PUTO. Designação angolana atribuída ao Portugal europeu.
- ANGOLARES. Escudos angolanos, emitidos pelo Banco de Angola (ver foto).
- CARVALHO. José Carlos de Oliveira Carvalho, professor do ensino secundário (aposentado) e técnico de contas, natural e residente em Águeda.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Os últimos dias de Santa Isabel



Fazenda de Santa Isabel, onde esteve instalada a 3ª. CCAV. 8423 (clicar na imagem, para a ampliar)

A 5 de Dezembro de 1974, o capitão José Paulo Falcão visitou a 3ª. CCAV. 8423, estacionada em Santa Isabel - de onde iria sair dentro de dias (completou a transferência a 10, para o Quitexe).
O PELREC fez a escolta e foi, naturalmente, a última vez que por lá estivemos. Santa Isabel estava militarmente ocupada desde 1961 e por lá passaram milhares de militares, de muitas companhias operacionais, por aquelas bandas palmilhando milhares de quilómetros em trilhos, picadas e matas.
Havia, ao tempo, grande confiança dos militares portugueses - não porque fosse fácil de gerir a relação com os futuros senhores da guerra (mal nós sabíamos...), mas porque todo o batalhão estava muito disciplinado e muito bem preparado. Uma escolta do Quitexe a Santa Isabel, por mais segurança e atenção que exigisse (e exigia), era sempre feita com tranquilidade, embora com todos os cuidados. Para mais no caso, fazendo guarda de honra ao comandante de batalhão em exercício.
Do dia, guardo a emoção das últimas cervejas por lá bebidas, no bar dos sargentos, comemorando a saída próxima dos nossos companheiros de Santa Isabel. Com o Ricardo, o Fernandes, o Flora, o Lino, o Capitão, o Lopes, o Graciano, talvez com outros mais. O que por então se expectava era o regresso a Portugal - que tanto tempo iria ainda demorar... - e, na imberbidade dos nossos entusiasmos, não deixávamos de os adubar com esperanças.
«Esta m... vai acabar rápido!!!», ocorre-me ouvir da boca do Ricardo.
Só voltaríamos a Lisboa a 8 de Setembro de 1975!

sábado, 4 de dezembro de 2010

Andamos a fazer história...


Comando de Sector do Uíge (CSU), em Carmona (1974)


A 4 de Dezembro de 1974, o capitão José Paulo Falcão, comandante interino do Batalhão de Cavalaria 8423, esteve reunido no Comando de Sector do Uíge, em Carmona - com os comandantes das várias unidades. O objectivo era «estreitar contactos entre comandos, necessários mais do que nunca, dada a constante evolução dos acontecimentos».
Já a 2 de Dezembro, e depois a 7 e 9, se realizaram idênticas reuniões. E não admira, aos olhos de então e mais aos de hoje - que mais coisas se sabem.
A tensão era grande, entre os movimentos, que se tinham batido na mata e agora se encontravam em processo de descolonização - cada qual puxando galões para uma supremacia que lhes desse autoridade política. E embora não se registassem incidentes especiais, por estes dias de Dezembro de 1974, a verdade é que eram latentes as reservas relacionais entre os seus responsáveis.
A isto tudo, com sentido e assumpção plena de responsabilidades, olhava e actuava o BCAV. 8423! Disso não há quaisquer dúvidas!
A 36 anos de distância, é interessante observar o papel pacificador e construtor que os Cavaleiro do Norte tiveram  o processo de descolonização de Angola. Na parte que lhe tocou.
«Andamos a fazer história!!!...», dizia o alferes Garcia, repetidas vezes - para nos dar conforto e força.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Comissões Locais de Contra-Subversão reestruturadas


Administração Civil do Quitexe (anos 70), onde se realizaram muitas reuniões da
Comissão Local de Contra-Subversão (CLCS)


As Comissões Locais de Contra-Subversão (CLCS) agiam directamente junto das populações, através de acção psicológica e visando influenciar o seu comportamento, no sentido de uma maior fixação no território e de negar o apoio a elementos infiltrados do exterior. Era uma espécie de braço civil não armado (com militares) de apoio às Forças Armadas.

O topo da estrutura era o Conselho Provincial de Contra‑Subversão - o CPCS, composto pelo Governador‑Geral, Comandante‑Chefe, Secretário Geral, Secretários Provinciais, Comandantes dos três Ramos das Forças Armadas - e que era apoiado por um Gabinete de Estudos e Coordenação da Contra‑Subversão (o GECSV, chefiado pelo Chefe de Estado‑Maior do Comando‑Chefe).
A nível dos distritos, instituíram‑se os Conselhos Distritais de Contra‑Subversão (o CDCS, com o Governador, Comandante de Sector, Intendente, Chefe do Estado‑Maior do Sector) e nos concelhos, circunscrições administrativas, nas freguesias e nos postos administrativos organizaram‑se Comissões Locais de Contra‑Subversão (a CLCS, integrando a autoridade administrativa e comandante militar locais). Assim era no Quitexe.
Assim era, mas foi reestruturada em Dezembro de 1974, atendendo à evolução do processo de descolonização que, segundo o Livro da Unidade, «impôs uma mudança radical dos hábitos dos longos anos de guerra».
As CLCS, por outras palavras, «deixaram de ter razão de ser» e, em função do necessário estreitamento das relações civil-militar e procurando outra feição de actuação» foram reestruturadas e denominadas Comissões de Coordenação Civil-Militar. No caso do Quitexe, passou a designar-se pela sigla CLCMM. Assim foi decidido a 2 de Dezembro de 1974. Para efectividade a partir do dia 11.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A desactivação dos Grupos de Mesclagem


Quartel do Regimento de Infantaria 20 (RI 20), em Luanda, anos 70 (foto de Henrique Oliveira)

As companhias operacionais do BCAV. 8423 eram complementadas com militares de origem local (angolanos), formando um pelotão operacional. Eram os chamados Grupos de Mesclagem, que também incluíam militares europeus - na falta de quadros angolanos de comando.
A sua formação militar era administrada no Regimento de Infantaria 20 (RI 20), em Luanda e depois distrinuídos pelas unidades operacionais espalhadas pelo território - principalmente no norte de Angola.
A 1ª. CCAV., a de Zalala, tinha um grupo de 37 elementos; a 2ª. CCAV. (Aldeia Viçosa) e a 3ª. CCAV. (Santa Isabel), cada uam com 36. Começaram a ser desactivados a 2 de Dezembro de 1974, faz hoje 36 anos. «Foi possível dispensar os seus serviços, embora com algum esforço das tropaas metropolitanas», lê-se no Livro da Unidade.
A retracção do dispositivo militar do BCAV. 8423, com abandono de algumas posições militares - por exemplo, as guarnições do Liberato e de Luísa Maria, a que se juntariam Santa Isabel e Zalala - tornou possível esta decisão militar. Assim, e citamos o Livro da Unidade, «foi determinado superiormente que os grupos de mesclagem entrassem de licença registada, a partir de 1 de Dezembro, o aque rapidamente se realizou com o decorrer do mês».
A desativação decorreu um sem quaisquer problemas. O que proventura não aocnteceria se, em face do processo de descolonização que crescia, continuassem em serviço. De muitos se contou, ao tempo, que ingressaram na FNLA e no MPLA.
Ver AQUI e AQUI.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O falso ataque ao quartel do Liberato

Mapa da Zona de Acção das unidades militares de CCS no Quitexe (verde). Aquartelamentos em Zalala (verde), Santa Isabel (amarelo), Fazenda Liberato e Santa Isabel. Falta Vista Alegre, a sul de Aldeia Viçosa.  


LUÍS PATRIARCA
(texto)

Estávamos nos últimos dias de Novembro de 1967.Já era quase noite e os sentinelas foram-se aproximando dos locais de vigia. Uma vala à volta do acampamento, com uns postos toscos,  que mais não tinham do que uma parte coberta para evitar o cacimbo da noite. Era assim a defesa do Liberato.
Cerca das 22 horas, fomos assustados por uma rajada de espingarda FN - as nossas armas. Corremos imediatamente para a vala. O sentinela informou que ouviu ruídos estranhos, mesmo em frente na mata, a 300 metros. Não teve dúvidas em disparar.
Na realidade, com muita atenção, ouviam-se ruídos bastante esquisitos. Um estalido aqui, um som mais abafado além, era tudo muito esquisito. O que pensámos foi que o IN estaria preparando um ataque ao acampamento, o que poderia acontecer a qualquer momento - o mais provável para já perto da manhã. Vivemos um sufoco tremendo causado pela situação.
Ninguém arredou pé da vala, toda a noite, e chegou a manhã. Nada. Passaram as horas e, por volta das 9, o capitão Medeiros,  comandante da companhia, mandou sair das valas e nada aconteceu.
Começou a rotina habitual e era preciso água que vinha do rio Kalambinga, ali a 250 metros do acampamento.
Tínhamos um velhíssimo gerador a gasolina que, coitado, não chegou ao fim da campanha. Produzia electricidade à noite, para o jantar e o deitar. E fornecia corrente a uma bomba que estava no rio e enchia os bidons de água para as nossas necessidades diárias.
Não havia água e foi preciso colocar o gerador em funcionamento. Assim foi feito, mas a água não chegava aos bidons.
Começámos a desconfiar do que estaria na origem e era necessário deslocarmo-nos ao local onde estava a bomba. Podia ser uma emboscada. Vai daí, formou-se um pelotão inteiro, armado, como se fosse para uma operação. Fomos andando, andando. A distância era curta e sem problemas chegámos ao local da bomba.
Estupefacção total, tudo estava arrasado, a bomba partida, um laranjal e um bananal que lá havia todo deitado abaixo, era só lama por todo o lado.
Resultado: uma noite em aflição e em claro só porque uma manada de elefantes aproveitou-se da nossa inexperiência dos ruídos da noite e se lembrou de passar por ali e decidiu partir aquilo tudo.
LUÍS PATRIARCA
Ex-2º. sargento miliciano do
Batalhão de Cavalaria 1917,
Companhia 1707 no Liberato

terça-feira, 30 de novembro de 2010

A primeira operação militar em Angola...


Alferes Garcia e furriel Viegas, no Quitexe, momentos antes da partida para mais uma operação
militar (em cima). Em baixo, o crachat dos Grupos Especiais (GE)

Os Grupos Especiais (GE) eram pequenas unidades especiais de assalto, constituídas em Angola por despacho do Comando-Chefe, de 25 de Agosto de 1971. No caso do Quitexe, eram dois: o nº. 217 e o nº. 223 - que alternavam quinzenalmente a sua prestação do serviço do BCAV. 8423. O GE 222 estava adido à 2ª. Companhia, em Aldeia Viçosa; o 208, à CCAÇ. 4145/72, de Vista Alegre.
Se querem saber, a minha primeira grande operação militar, nas matas da serra da Quimbinda - em data próxima dos finais de Junho de 1974 - foi exactamente com 62 elementos GE´s, os dos Grupos 217 e 223.
Os sustos e as aflições daquelas duas noites e três dias, davam para  um livro. À memória, vem-me os momentos de terror - os da primeira!!!... -, os murmúrios e os silêncios da noite branca de Angola, que senti em terreno inóspito e desconhecido, rodeado de árvores gigantes a mexerem vento quente e de selva quase impenetrável. Por lá fui conduzido pelos dois Grupos, após uma safra de mais de 16 horas de caminhada por trilhos semeados de perigos, apenas interrompida pela rápida hora da ração de combate que eu próprio não comi.
Não comi e não dormi, nessa primeira noite. Não preguei olho!
Não mo deixaram os urros de feras que se ouviam de longe, algo sinistros; as gargalhadas da macacada que se divertia em serão, ou o barulho assustador que me contaram ser de pacaças em movimento apressado. E as sombras que se desenhavam na minha frente, como se fossem lobisomens na noite. 
E eu,hirto e medroso, a limpar a cara do cacimbo que caía, por ali me deixei ficar a  noite inteira, em alerta e ansioso, de olho vivo naquela selva que era imensa e a que não via o fim. Eu, com o corpo a pedir descanso, pois tinha sido um esgalgar doido de quilómetros naquele dia todo, que me maçaram os pés e a alma!!
E a sei lá a que horas, deu-me para estender o corpo no chão. Corpo moído e com fome de bons tratos! Ao olhar o céu azul e brilhante de Angola, imaginei os anjos do céu e transportei-me para a minha aldeia, correndo casa a casa, todas ruas e portas e nomes da gente que me fazia saudades.
Alvoreceu, num instante. «Daqui fala o 14 do 217, escuto!!!...». Escutou-me, noutra ponta da serra da Quimbinda, o soldado de transmissões do PELREC, comandado pelo alferes Garcia. Estava tudo a correr bem. Mataram-se-me alguns medos e lá se foi para o segundo e o terceiro dias de operação, a palmilhar trilhos e mata, mas ficando nós sem comunicações - que só conseguimos já passava do meio da manhã do último.
«Pensámos o pior!!!...», disse-me o Garcia, entre duas garfadas de bife com batatas fritas e ovo a cavalo, no refeitório dos praças, já a noite se cerrava sobre o Quitexe. Consolava-me das minhas angústias daqueles três dias de selva.
Os GE´s do Quitexe foram desactivados a 30 de Novembro de 1974. Faz hoje 36 anos! Sem quaisquer problemas!
- VER AQUI.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O soldado Branquinho que chegou a major e às mãos da PM...



ANTÓNIO CASAL (texto)


Sempre que volto ao “baú” que me avivam as memórias de África, dou com alguma coisa que já estava esquecida, ou quase. Desta vez foi uma foto tirada em Carmona, num dia de Páscoa de 1973. E lá está o Branquinho, o homem da secretaria, que era dado a cometer proezas inéditas. Não tivesse ele sido, no espaço de um ano, soldado recruta, furriel, quase 1º. cabo, soldado, major e de novo soldado!

Sempre ouvi dizer que a presunção incontrolável impele a que se dêem passos maiores que as pernas. Logo, não é defeito mas doença para a qual não há tratamento! Apenas por esta razão, ao Branquinho eram “admitidas” determinadas atitudes, desde que não prejudicasse terceiros ou não ultrapassasse em muito as mais elementares regras militares!
Como todos, ele teve direito ao seu mês de férias e lá foi até Luanda dar as suas passeatas e ver o que no Quitexe não havia, nem em qualidade e nem em quantidade, como ele gostava de frisar.
Na grande capital, e já com pouco dinheiro na algibeira, sentiu que as morenas sensuais lhe escapavam por entre os dedos. Se trajado à civil a coisa estava feia, fardado também não iria a lado nenhum! Então e não é que o Branquinho optou pela farda?! Pois optou, mas nos ombros colocou galões! E de major!!! Ainda pensou em “ser” alferes, mas lá viu que já eram muitos a fazer-lhe concorrência!..., e atirou-se para o tudo ou nada!
Dizem que chegou a ter sucesso com uma beldade influente na sociedade luandense, mas foi na companhia da segunda conquista que descobriram o logro! E quem haveria de ser?!... A Polícia Militar, pois claro!
Passeavam-se que nem namorados e a beleza dela, mais do que os galões dele, chamaram a atenção! Conta quem viu, que na hora da identificação, ficou vermelho até às orelhas e que ainda esboçou um gesto para a fuga!
Ora, o Branquinho com 22 anos, baixinho e ainda isento de penugem que lhe enraizasse a barba, como se fosse depilado, não deixou dúvidas à PM!
Atirado para o jeep, pela PM, que se esteve nas tintas para a donzela, lá andou em bolandas e a puxar, não dos galões, mas das cunhas. E voltou ao Quitexe, com o seu ar imaculado, e a agarrar-se a um oficial influente que acalmou as hostes em Luanda e que conseguiu o milagre de tudo ficar como nada tivesse acontecido. E ele sabia bem o que o destinava! Mesmo assim, continuou os seus desmandos que, não nos prejudicando, sempre nos serviam para animar os nossos serões mais lúdicos!
ANTÓNIO CASAL
FOTO. António Casal e Branquinho,
num jardim de Carmona

domingo, 28 de novembro de 2010

Uma fugidinha a Luanda...


Baía de Luanda (foto retirada da net)

E que tal um finalzinho de semana de boémia em Luanda? Que luxo!!! E que desafio, ante a cada vez mais apertada malha persecutória de uns senhores de divisas ligeiramente acima, que muito gostavam de ralar a vida dos furriéis. O risco valia sempre a pena, pela beleza que era a capital, pelos apetites que nos oferecia, pelas noites e pelos amigos que por lá nos aumentavam saudades. E, depois, sempre era um fugidinha ao ambiente de tropa, por muito bom que fosse.
A 28 de Novembro de 1974, uma 5ª.-feira e chegado de uma missão de escolta às brigadas da JAEA que trabalhavam na reabilitação da estrada (picada) para Camabatela, ao fim da tarde, confirmei que estaria de serviço apenas na 2ª.-feira e não foi tarde, nem cedo, aí pensei eu em me aventurar para Luanda, em boleia de um amigo civil que lá ia a um baptizado e voltaria no domingo. Era irrestível!!!Já andava com esta fisgada, há semanas!
Sobrava um problema: como escapar à malha disciplinar? À acção participativa que me tornaria alvo fácil?? Pus o caso ao tenente Mora, que não atou nem desatou. Ao capitão Oliveira, nem valeria a pena - embora tivesse ele de assinar a dispensa - o passaporte. Então?
«Tem alguém que de Luanda possa mandar uma mensagem?», perguntou-me o capitão Falcão, que estava a comandante da Unidade e com quem tinha relações próximas, pela afinidade dele com o alferes Garcia, o meu comandante de pelotão.
Ter, talvez tivesse!! Só que...
A questão resolveu-se com uma simpatia do capitão Falcão, que, de forma oral, disse para o comandante da CCS, à porta do seu gabinete: «Capitão Oliveira, preciso deste homem até 2ª. feira. É preciso algum papel?...». Que não, que não era. E não foi. E lá fui eu, na madrugada de 29 de Novembro de 1974, num Toyota Corolla que nosdemrou umas três horas e tal até Luanda. Pelo caminho, no Úcua, parámos no bar onde trabalhava o Neca Taipeiro, meu vizinho de aqui a 100 metros e que por lá fazia vida - depois de, em 1961, por lá ter sido combatente. E lá foram uma cucas, que fazia calor naquele verão angolano de 1974.
«Tens de estar na formatura das 8...», disse-me o capitão Falcão. E isso sabia eu e lá estive, a 2 de Dezembro desse ano. Chegara meia dúzia de horas antes, depois de jantar em Luanda com o Albano Resende e ter sido apanhado pela boleia do mesmo civil do Quitexe. Quem era ele? Estou a ver-lhe a cara mas não me sai o nome de debaixo da língua.  
Ver AQUI.

sábado, 27 de novembro de 2010

O capitão Falcão como comandante interino do Batalhão

Tenente Coronel Almeida e Brito e capitão Falcão (foto de 1994), no Encontro de Águeda.
Estandarde da CCAC. 4145/72, de Vista Alegre (em baixo)


A Companhia de Caçadores 4145/72 foi de malas aviadas para Luanda e deu vaga à 1ª. CCAV.8423 em Vista Alegre, ida de Zalala. E a temporada de acalmia operacional continuou  nos últimos dias de Novembro de 1974.
O Comando do Batalhão de Cavalaria 8423, instalado no Quitexe, estava assegurado desde 4 de Novembro, interinamente, pelo capitão José Paulo Falcão - oficial adjunto (e responsável pelo Gabinete de Operações) que substituiu o tenente-coronel Almeida e Brito, que a Lisboa veio de férias. O BCAV. 8423, recorde-se, não tinha 2º. comandante - dado que o major de cavalaria José Luís J. Ornelas Monteiro, fora «desviado» em vésperas de embarque, para o Comando Chefe das Forças Armadas em Angola (CCFAG), por instruções (suponho) do Movimento das Forças Armadas (MFA).
O comandante interino teve «intensa actividade», nomeadamente em sucessivas reuniões no Comando de Sector, em Carmona - embora realizadas no BC12. Por exemplo, nos dias 8, 13, 18 e 22 de Novembro. E 27 de Novembro, hoje se completam 36 anos. A 21 de Novembro, esteve em Vista Alegre, despedindo-se da CCAC. 4145/72. A 25, em Aldeia Viçosa, onde cumpria missão a 2ª. CCAV. 8423, comandada pelo capitão miliciano Cruz. Daqui e desse tempo, há notícias do Matos, sobre pequenas escaramuças entre elementos da FNLA e alguns comerciantes e fazendeiros, mas coisa sem importância de maior.
O medo, porém, era o de que ódios velhos, ressacados de muitos anos de luta armada e sabe-se lá quantos de injustiças, dessem em vinganças pessoais, nesta fase de transição - que, principalmente, carecia de moderação e temperança. Nem sempre tal aconteceu. 
Em Santa Isabel, ultimava-se a rotação para o Quitexe.
- BRITO. Carlos José Saraiva de Lima Almeida e Brito, tenente coronel e comandante do BCAv. 8423. Faleceu a 20 de Junho de 2003, já aposentado e com a patente de general. Ver AQUI.
- FALCÃO. José Paulo Montenegro Mendonça de Falcão, capitão de cavalaria e oficial adjunto (de operações). Actualmente, tenente coronel aposentado, residente em Coimbra. Ver AQUI.
- CRUZ. José Manuel Romeira Pinto da Cruz, capitão miliciano, comandante da 2ª. CCAV. 8423. É professor, em Esmoriz, onde reside. Ver AQUI.
- MATOS. Mário Augusto da Silva Matos, furriel miliciano atirador de cavalaria, em serviço na secretaria da 2ª. CCAV. 8423. Colaborador de uma empresa de Anadia, onde reside. Ver AQUI.