quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Louvor ao Batalhão de Cavalaria 8423


A Região Militar de Angola louvou o Batalhão de Cavalaria 8423, evidenciando «o espírito humanitário que o guindou a posição de grande admiração e respeito, pela forma como conseguiu, em atitude de perfeita isenção, proteger todos os que às suas instalações se acolheram e, posteriarmente, manter a mesma atitude, para finalmente cumprir com brilhantismo uma das que certamente foi a sua mais delicada e difícil tarefa».
O louvor foi publicado na Ordem de Serviço nº. 68 da RMA, a 26 de Agosto de 1975, faz hoje 35 anos.Transcrevêmo-lo na íntegra, facilitando a leitura da imagem que o reproduz 


LOUVOR





Louvo o BCav 8423 porque durante o tempo em que prestou serviço no Norte de ANGOLA, nas áreas do QUITEXE e de CARMONÁ, manifestou sempre uma grande determinação, uma constante vontade de bem cumprir, um elevado espírito de disciplina e uma noção perfeita de como uma Unidade se deve adaptar às tarefas que haja que executar de perfeita harmonia com as determinações dos seus superiores hierárquicos.
Da sua acção muito beneficiaram as populações locais de todas as etnias pois pelo justo e equilibrado tratamento das missões que o BCav 8423 cumpriu ressaltaram, além das características já referidas, a aplicação de um espírito humanitário que o guindou a posição de grande admiração e respeito pela forma como conseguiu, em atitude de perfeita isenção, proteger todos os que às suas instalações se acolheram e posteriarmente manter a mesma atitude, para, finalmente, cumprir com brilhantismo uma das que certamente foi a sua mais delicada e difícil tarefa.
Da acção de todas as suas Praças, Sargentos e Oficiais se fica a dever, tanto na área do QUITEXE como na de CARMONA, o estabelecimento de um clima de segurança efectiva pelo que é com a maior justiça que em simples louvor se leva ao conhecimento de todos a forma como o BCav cumpriu a sua missão, dentro do maior espírito de disciplina, evidenciando qualidades hoje já muito raras, constituindo assim uma Unidade que mercê da acção do Comando e seus graduados nunca conheceu a chamada crise de disciplina, cumprindo exemplarmente todas as tarefas de que foi incumbido, grande parte delas em período muito sensível do processo de descolonização de ANGOLA.
OS/RMA n.° 68, de 26AG075

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Os detidos no quartel da DGS de Carmona

Fatima e José Bernardino Resende (com as filhas), o irmão Albano
Resende (sobrinha à frente), furriel Viegas e capitão Domingues, em Luanda

Os últimos dias de Luanda, e de Angola, foram vividos com bastante tensão. E intensidade. Não é excessivo recordar que a insegurança medrava na cidade, sentia-se, e todos os dias tínhamos notícia de macas. Algumas das quais quase nas nossas barbas. Por mim, feitos os serviços de ordem, passeava-me por Luanda e encontrando-me com amigos: o Alberto (que acabava a sua comissão no Força Aérea), o Nuno (furriel dos Comandos), os irmãos Resende, a Cândida e marido, o Mário e a Benedita, o Neca Taipeiro, o José Martinho. A um dia de finais de Agosto, reencontrei o capitão Domingues, primo de Fátima Resende, e recordámos uma história pouco agradável de Carmona - onde ele prestara serviço na ZMN.
Era domingo, eu estava de PM, e jantava na messe quando fui chamado pelo oficial de dia: tínhamos de ir ao antigo aquartelamento da DGS/Flechas, buscar três civis presos pela FNLA - pelas que seriam as Forças Integradas, sem MPLA. Um deles, amigo do capitão Domingues. Poupando palavras, lá fomos nós (eu, o Almeida e o Marcos), no jipe conduzido pelo Breda - que ficou à entrada do aquartelamento, com o motor em funcionamento.
O oficial de dia não estava (!!!!), o sargento de dia estava, mas semi-embriagado. E quanto a soltar os presos, está quieto!!! Nem sequer nós éramos portadores de qualquer mandato de soltura. Esgotei os meus argumentos e, já dentro do aquartelamento, convenci o sargento a deixar-nos ver os civis detidos. Que não, que não... Mas fomos! O sargento abriu a porta da cela e os três homens (ou eram quatro?) ficaram estupefactos. Mas sem uma palavra, suando frio.
«Vá lá, saiam!...». Mas eles não saíam, com medo de serem abatidos. Suponho! O sargento cambaleava e, moita-carrasco, nada de soltar os homens. O Marcos, então, puxou um dos detidos pelo braço e incentivou-o a sair. O sargento não reagiu e lá saímos todos.
O Breda mantinha o jipe trabalhar, atabalhoámo-nos todos por cima da viatura e ala que se faz tarde.
O capitão Domingues, nesse almoço de Agosto em casa dos irmãos Resende, lembrou-me o nome do amigo, mas não sabia o dos outros. E eu, 35 anos depois, não me lembro sequer da cara deles. Lembrando, porém, o espanto com que nos viram entrar na cela e os livrámos das garras da prisão!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O poder popular entre Catete e o Grafanil...

 de

Entrada do Campo Militar do Grafanil onde, no espaço do desactivado Batalhão de
Intendência, se instalou o BCAV. 8423, a 3 de Agosto de 1975

A nossa chegada ao Grafanil, ao fim da manhã de 3 de Agosto de 1975, resultou numa profunda decepção para os militares da CCS do BCAV. 8423. As instalações estavam imensamente degradadas, sujas, com móveis e camas partidas, com cheiros horríveis a empestar o ambiente - resultantes do lixo acumulado, de restos de comida e de sabe-se lá o que mais.
A prioridade da CCS foi promover a sua própria instalação e, no dia seguinte, limpar, desinfestar, pôr minimamente asseadas as instalações onde iriam ser colocados os nossos companheiros que, por terra, viajavam desde Carmona e que nós entretanto sabíamos com algum atraso e alguns problemas.
Comida, não havia - tivemos de nos socorrer de rações de combate. E cada qual, a não optar por elas, teve de se desenrascar nos aquartelamentos onde tivesse um amigo, ou no «mercado» civil. Foi o que aconteceu  a mim e ao Neto, com a sorte de termos encontrado o conterrâneo Gilberto Marques (civil), que nos levou a passear a Viana e, vejam lá..., nos pôs à disposição uma vivenda. Onde nos instalámos, com o Monteiro, até 7 de Setembro de 1975 - dia da nossa partida para Lisboa.
Logo nesse dia, «conhecemos» o «poder» do «poder popular»: fomos interpelados e ameaçados no posto da PSP entre o Grafanil e Catete. Apontaram-nos as armas, chamaram-nos os nomes que quiseram, impediam-nos de passar, gritavam slogans contra Portugal e os olhos desorbitavam-se-lhes. Queriam agredir-nos e prender-nos, sabe-se lá mais o quê.
Íamos na viatura do Gilberto e a «coisa» não foi nada fácil. O Neto chegou a perder a paciência, sentimos no corpo os arrepios do medo e fomos ajudados pela chegada de um grupo de militares adultos e dois PSP`s, que intervieram em boa hora.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O navio Niassa passou a avião...

Navio «Niassa», no qual o BCAV. 8423 chegou a ter viagem marcada. Acabámos por voltar a Lisboa de avião

A 23 de Agosto de 1975 fui, com o Neto, «nomeados» responsáveis pela carga e instalação dos praças no navio Niassa. Faltava esta!! Então e eu lá sabia alguma coisa disso? Ou o Neto?! Mas foi uma ordem do capitão Oliveira e não a discutimos. E, não a discutindo, também nos púnhamos a descoberto de qualquer perigo disciplinar.
E como é que se faria isso? Pois o barco estava em viagem de Lisboa, atracaria, descarregaria e teria de ser feita a distribuição do pessoal e bagagens, para os 10/12 dias que se previam de viagem pelo mar. Até Lisboa.
«Receberão a planta do barco, em tempo devido», disse-nos o capitão Oliveira.
Encarámos a ordem até com um certo interesse, pois poderíamos, eventualmente, aproveitar este nosso «comando» para, para com alguma facilidade, introduzir mais uns caixotes de pessoas amigas que, em Luanda, deseperadamente, nos pediam para as ajudar. Inclusivé, a minha cubicagem - que eu não iria usar.
Chegámos a estar no barco, mas, felizmente para nós, acabámos por viajar de avião, a 8 de Setembro de 1975.

domingo, 22 de agosto de 2010

Os dias bons de Luanda...

Carlos Sucena (militar), Gilberto Marques (civil), C. Viegas e J. Francisco Neto na casa de Viana

Aos 22 dias de Agosto de 1975, sabendo que o nosso regresso a Portugal seria a 8 de Setembro, já se afadigava a guarnição em antecipar as malas e alguns caixotes. Eu, o Neto e o Monteiro estávamos  nas nossas sete quintas - magníficamente instalados numa vivenda de Viana. Era de Manuel Cruz, da empresa MASCRUZ, de Águeda, que por lá instalava uma fábrica de ferragens, tal qual a FRAL, esta do pai do Neto.
A casa passou a ser poiso de largos convívios entre a malta de Águeda que por lá se achava - e era muitos os militares aguedenses que por Luanda, naquela altura, queimavam os últimos cartuchos da sua comissão. A que se juntavam muitas vezes os irmãos Resendes, todos civis mas meus amigos. Era o Albano, de resto, que nos franqueava tranportes - sempre que o Neto não podia usar o pequenino Honda da sede da FRAL, na Avenida D. João II.
A cidade tinha picos de insegurança, frequentemente se ouviam rajadas e o ribombar de morteiros, obuses e outras armas. Mas lá íamos passando nos intervalos do perigo.
A tropa do BCAV. 8423 andava toda aconselhada. Nunca andar na cidade em grupos de menos de 5/6 homens. Dizerem sempre para que zonas da cidade iam. Não reagir a provocações.
A 22 de Agosto de 1975, por uma razão da minha vida pessoal, anfitrionei os amigos da foto (mais o Monteiro, que a tirava) com cerveja e marisco. Também isto nos deixa saudades de Angola.

sábado, 21 de agosto de 2010

Medo de morte na estrada de Catete

Campo Militar do Grafanil (imagem retirada do Earth Google)

O Campo Militar do Grafanil situa(va)-se na Estrada de Catae, de Luanda para Viana. Dizia-se, ao tempo, que poderia ter cerca de 20 000 militares. Ali se instalou o BCAV. 8423, no espaço do desactivado Batalhão de Intendência.
Num dos primeiros dias de nossa estadia, saíamos em grupos para a cidade de Luanda e almoçávamos ou jantávamos no restaurante (enorme) de umas bombas de gasolina - ali perto. Ainda hoje todos desconfiamos que ali teremos comido muito cão e gato, tantas eram as refeições de coelho que se lá serviam. Centenas, em cada almoço ou jantar.
Numa das vezes em que para lá nos dirigíamos, fomos interpelados no posto de controlo da PSP por um grupo de adolescentes armados, que a todo o custo nos queriam revistar o pequeno Honda. O Neto, como sempre impulsivo, reagiu à intimação de forma violenta e rapou de um revólver que tinha comprado em Carmona. Eu, devo ter ficado branco, amarelo e de todas as cores, mas também não me dispunha a ceder.
«Somos militares!...», gritou o Neto, disposto a todas as consequências.
Oa adolescentes/crianças - os chamados pioneiros do poder popular - não se intimidaram e mantiveram a ameaça de revistar o carro. Estávamos neste impasse de medos e nervos quando de dentro do posto saíram dois ou três adultos, cada um com uma metralhadora em cada mão!!! Eu, molhava-me de suores frios, sem arma; o Neto, de revólver na mão!
Os homens disseram alguma coisa aos adolescentes/crianças armados, que se afastaram. E nós lá nos safámos. Foi a primeira vez que senti medo de morte. Era de morte o terror que se espalhava na cidade de Luanda! Todos os dias havia notícias de assaltos, raptos, buscas domiciliárias, violações e torturas,  mutilações, assassínios a sangue frio, vinganças e delacções que levaram muita gente para a prisão (e a morte?) na praça de touros, casas incendiadas e prisões, sabe-se lá o que mais.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O 1º. sargento atingido a tiro pelas costas

Junta Governativa de Angola. Da esquerda para a direita: capitão de mar e guerra Leonel Cardoso, brigadeiro Altino de Magalhães, Almirante Rosa Coutinho, coronel piloto aviador Silva Cardoso (Alto Comissário de 2 de Janeiro a 2 de Agosto de 1075) e Major Emílio Silva (foto «A Vertingem da Descolonização», do General Gonçalves Ribeiro)

RODOLFO TOMÁS
Texto

Vamos lá ver como estão essas memórias. Quem se lembra do ambiente que se vivia em Luanda, quando os primeiros homens do BCAV. 8423 chegaram lá chegaram? A CCS e da 1ª. Companhia!?
Muitos militares portugueses que lá encontrámos andavam nas ruas da cidade armados e mais pareciam "Rambos". Granadas à cintura, mais facas de mato, e alguns, vi eu, com Walther´s.
Tudo isto porque no dia 26 ou 27 (!) de Julho, um 1º. sargento português foi atingido a tiro, pelas costas, por homens do MPLA.
Depois de um comunicado na rádio, lançado pelo Alto Comissário, exigindo a entrega dos responsáveis por tão hediondo acto, tal não veio a acontecer. Resultado: foi numa manhã de domingo, alguns dias antes de nós chegarmos a Luanda, que a tropa portuguesa arrasou o aquartelamento de Vila Alice, junto ao cinema Império. A honra estava salvaguardada, desta forma mostrou-se que as FA ainda mandavam no território.
Quem se lembra deste acontecimento?
RODOLFO TOMÁS
1º. cabo rádio-montador

A situação abordada pelo Rodolfo Tomás vem descrita numa entrevista concedida pelo General da Força Aérea Silva Cardoso, que era o Alto Comissário naquela data e se demitiu logo depois. Foi recolhida pelo jornalista Rui Oliveira e pode ser lida AQUI.
Transcrevemos a parte respeitante:


A desafronta de Vila Alice


P: Pode descrever o sucedido naquele caso de Vila Alice, com o MPLA ?
R: Esse acontecimento, altamente lamentável, teve lugar em fins de Julho de 1975. Certo dia dia, já tarde, um jeep das nossas Forças Armadas, transportando um sargento e respectivo condutor, foi interceptado e mandado parar por uma patrulha do MPLA. Depois de identificados, foram autorizados a prosseguir mas, logo que a viatura se pôs em marcha, o sargento foi alvejado pelas costas, tendo ficado gravemente ferido.
P: Não houve mortos ?
R: Não. Tive conhecimento desta ocorrência, já bastante tarde, creio que depois da meia-noite. Reuni, de imediato, a Comissão Coordenadora e os Comandantes Militares. Perante a gravidade da situação, foi decidido exigir, ao MPLA, a entrega do autor do disparo cobarde e traiçoeiro, para ser julgado, de acordo com a legislação em vigor. Deixei bem claro que a entrega teria de se processar, a bem ou a mal, às primeiras horas da manhã seguinte.
P: A quem confiou a execução dessa missão ?
R: Ao Brigadeiro Heitor Almendra, Comandante do COPLAD, militar da minha inteira confiança e que gozava de grande prestígio, não só no seio das nossas Forças Armadas, como entre os militares dos movimentos. Foi-lhe conferida toda a liberdade de acção para o cumprimento da missão, usando os meios e as modalidades que julgasse mais adequadas.
P: A Comissão Coordenadora concordou com essa acção ?
R: Nem abriram a boca. Compreende-se, num caso destes, em que os nossos militares foram alvejados pelas costas ... Alguém tinha a coragem de tomar uma atitude contra uma ordem destas ?
P: Qual foi a reacção do MPLA, a essa operação ?
R: Na altura, compreenderam mas, depois, vieram explorar o sucedido, como algo criminoso da minha parte.
P: Acusaram-no de ter dado a ordem de atirar sobre a sede do MPLA, em Vila Alice ?
R: Sim. Através da Comunicação Social e não só....

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A insegurança nossa de cada dia...

Praça de Touros de Luanda, em foto aérea de 2004 (tirada da net)

Os dias de Agosto de 1975, na Luanda que fervia em vésperas de se tornar capital de um novo país, foram vividos entre a intranquilidade e receio de um incidente que poderia ocorrer a cada momento e a vida flautiada de quem, para além dos serviços de rotina, não tinha actividade operacional. A não ser alguma «urgência». Mas todos os dias eram dias de mais histórias e dramas pessoais e familiares. Principalmente entre a comunidade civil.
Os Cavaleiros do Norte eram especialmente recomendados no sentido de se movimentarem em grupos e sempre indicando (na unidade) para que zona da cidade se deslocariam. Lá seriam procurados, em caso de desaparecimento. O que felizmente nunca aconteceu.
Por estes dias, recebi um apelo de minha mãe: «Ninguém sabe da Cecília e da família. Vê lá se os descobres...». A Cecília morava em Nova Lisboa, a mais de 500 quilómetros, e minha mãe, seguramente, não tinha noção das distâncias. Tentei contactar Cecília pelo telefone do Hotel Bimbe (que era dela e do marido), mas nunca ninguém atendeu. Supus o pior e ocorreu-me a minha conversa com eles, em Abril (ver AQUI).
Procurei-os horas e dias seguidos, no aeroporto de Luanda - onde se juntava milhares e milhares de pessoas - os retornados... - na esperança de os localizar. Até anúncio de rádio fiz! Nunca tal consegui... e só vim a encontrá-los já na nossa terra natal, em Setembro de 1975.
Luanda fervilhava de boatos e falava-se em massacres permanentes, na praça de toiros. E não era rara a vez que os «stops» nos incomodavam entre a cidade e o Grafanil e este e Viana - onde eu, o Neto e o Monteiro estávamos domiciliados. Era sempre o Neto, mais afoito que eu, quem «enfrentava» a «turba» - às vezes com excessiva e perigosa generosidade.
Rajadas (principalmente de noite), rebentamento de granadas, morteiros e outro material militar tornaram-se parceiros do dia-a-dia. A pouco tempo antes segura e pacífica Luanda tornou-se uma espécie de lotaria de guerra. Insegura, crescentemente violenta e grávida de medos! A cada segundo, tudo poderia acontecer. 
- RÁDIO. A Emissora Oficial de Angola tinha, ao tempo, um programa diário (e repetido), no qual se procuravam pessoas de quem se tinha perdido o contacto.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O telegrama forjado, para os refugiados do MPLA passarem...

Alferes Garcia e capitães Falcão e Themudo na varanda do edifício do Comando do BC12

JOSÉ DIOGO THEMUDO
Capitão
Em data que não posso precisar, eu e o Coronel Ramiro Mourato, Chefe de Estado Maior do Comando de Sector de Carmona, fomos ao Negage - onde a coluna que seguia com alguns "refugiados" (famílias dos militares e simpatizantes do MPLA), com destino a Luanda, foi impedida por militares da FNLA de continuar a sua marcha.
Falando com os responsáveis locais da FNLA, estes diziam que toda aquela gente queria fugir para Luanda para depois se reorganizar e voltar, em força, à sua terra. As famílias e os simpatizantes do MPLA sabiam que, se ficassem e sem a protecção das nossas tropas, seriam mortos e por isso queriam fugir.
Para evitar mais derrame de sangue, o Coronel Mourato voltou para Carmona e, com o General Leão Correia, forjaram um telegrama que chegou às minhas mãos e às mãos dos responsáveis da FNLA, supostamente enviado pelo Ministro do Interior, Ngola Kabango, onde dava ordens às tropas da FNLA para deixarem passar a coluna. E assim, após algumas horas de conversações, a coluna partiu para Luanda -  onde chegou sem mais problemas.
JOSÉ DIOGO THEMUDO
Capitão
- THEMUDO: José Diogo da Mota e Silva Themudo, capitão de cavalaria, foi 2º. comandante do BCAV. 8423 de Março a Setembro de 1975. Residente em Lisboa, é aposentado, com a patente de coronel. 
- NOTA: O relato refere-se à evacuação de civis
e militantes do MPLA, depois da sua derrota militar de
Carmona, nos primeiros dias de Junho de 1975

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O BCAV. 8423 cumpriu a sua missão! Outros, não!!!

Antigo BC12, de onde saiu o BCAV.8423 a 4 de Agosto de 1955 (foto de 2004)


ANTÓNIO ALBANO CRUZ
Texto (fim)

A terminar, guardo na memória o discreto momento do arrear da bandeira Portuguesa no quartel de Carmona. Sei que devo ter algures uma fotografia, com o companheiro e amigo Alferes Garcia, desse acto emotivo e solene que decorreu com a maior simplicidade e longe dos olhares de praticamente toda a gente.
Não sei se o nosso tenente Luz saberá do que foi feito dessa e das outras bandeiras que fomos retirando dos lugares que deixamos para trás. Será que alguma ficou para a história do nosso Batalhão?

É já convicção de muitos, militares e civis, que, apesar de todo o tipo de dificuldades, o Batalhão de Cavalaria 8423, ao contrário de outros que na altura não se queriam comprometer ou se julgavam progressistas..., cumpriu heróica e patrioticamente o seu dever, respeitando e fazendo-se respeitar pelas populações em geral e, sobretudo, pelos três movimentos de libertação.
Parabens pelo blogue, que nos ajuda a não perdermos a memória e a mantermo-nos unidos na defesa dos princípios patrióticos que nos levaram àquela missão.
A. A. CRUZ
- CRUZ. António Albano Araújo de Sousa Cruz, alferes miliciano, comandante do Pelotão Mecânico-Auto. Engenheiro, natural e residente em Santo Tirso.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A epopeia que foi deixar Carmona, a solidariedade e a amizade...

Pioneiros, adolescentes armados. O chamado Poder Popular (foto da net)

ANTÓNIO ALBANO CRUZ
Texto (continuação)

Ao chegar ao Grafanil, recordo-me de ter falado com um reporter inglês e de sermos filmados com um “garboso” militar do MPLA, com menos de 14 anos de idade, de camuflado e Kalachnikov, que estava ali a fazer guarda.

Não se pense que a imagem deste soldado - e a de outros como ele - me causou qualquer estranheza, ou espanto, pois tive a oportunidade de apreciar outras, tanto ou mais bizarras e surreais.
Em Salazar, por exemplo, a de uma patrulha de 6 soldados num «burro do mato» (Unimog 411), um com uma vistosa gravata por cima do camuflado; outro, de sobretudo beje impecável, um outro com um véu de noiva e, ao lado do condutor, o comandante da força, o maior..., de chapéu de palha enfiado.
Imagine-se as pilhagens que por ali não houveram!
Naqueles dias, a azáfama e as emoções foram tantas que eu, que normalmente andava com o gravador e as máquinas de fotografar e filmar, quase nada tenho sobre esta coluna de militares e civis. Quanto ao resto, resta-me a esperança de um dia passar alguns filmes super 8 para DVD e recuperar algumas gravações e fotografias.
Penso que a adversidade de uns e as dificuldades de outros proporcionaram momentos de solidariedade e até amizade que noutras condições não eram possíveis. Ultrapassados os complexos, os constrangimentos, os ódios e ressentimentos gerados com a descolonização, começa a ver-se fazer a história das estórias de todos nós, Portugueses, que nasceram ou viveram ou lutaram nas províncias ultramarinas e estou convicto que a epopeia que foi deixar Carmona e trazer connosco milhares de retornados será, um dia, um bom pretexto para um livro e um filme.
A. A. CRUZ
Alferes miliciano
(continua)

domingo, 15 de agosto de 2010

A Scânia abandonada e os jeeps enterrados no Grafanil...

O pelotão do Parque-Auto, comandado pelo alferes Cruz (quarto, em cima, da esquerda para a direita, de bigode), seguiu na coluna de Carmona para Luanda. 1º. sargento Aires (o terceiro, de óculos) e furriel Morais (de óculos, quarto da 2º. fila, da direita para a esquerda). Entrada de Lucala (em baixo)


ANTÓNIO ALBANO CRUZ
Texto (continuação)

Já perto do Lucala, um camião Scânia, contratado a um civil e carregado com dois jeeps e o material e equipamentos de manutenção-auto, estava com problemas nos travões. Rapidamente os nossos mecânicos detectaram um tubo do circuito de travões inutilizado. Tentou-se tudo, mas não conseguimos resolver o problema. Colocado  ao nosso comandante, o tenente-coronel Almeida e Brito, via rádio, pois a coluna tinha vários quilómetros de comprimento, a ordem mais uma vez foi: «Salvem o que puderem e deixem ficar a viatura...».

O dono da Scânia estava desesperado e implorava por Deus que o deixássemos continuar, pois avançaria com todo o cuidado e, em Salazar (Dalatando), que já não estava longe, haveria de encontrar alguém que lhe resolvesse o problema. A Scânia era o bem mais precioso que lhe restava e ainda acalentava a esperança de, com ela, chegar à Africa do Sul. Permitimos que continuasse no fim da coluna, devagar e com muito cuidado mas, passados 5 ou 10 quilómetros não consegiu segurá-la e a Scânia caiu numa valeta. Aí, já não havia tempo a perder e tivemos que a deixar.
Ao chegar a Luanda (Grafanil), tivemos de fazer os autos de extravio dos jeeps e alguns equipamentos e como se isso não bastasse - só quem os fazia sabia o que custava... - passados alguns dias recebemos uma mensagem do batalhão de Salazar a dizer que tinham lá dois jeeps e que os fossemos buscar. Tentámos esquecer a mensagem pois os jeeps já não faziam parte do nosso inventário, mas passados uns dias lá estavam eles no Grafanil.
No meio de toda a confusão gerada com o aproximar da partida e da independência, o mais fácil era fazer desaparecer os jeeps - que acabaram por ser enterrados.
Recordo ainda que, a meio da viagem e sob tensão e muita expectativa, o nosso Comandante recorreu a Daniel Chipenda para podermos continuar em segurança. Recordo que fiz a viagem num Land Rover, que pertencia à PIDE/DGS de Carmona, e que nas duas noites de viagem, foi debaixo dele que descansei.
A. A. CRUZ
Alferes Miliciano
(continua)

sábado, 14 de agosto de 2010

Paiol a arder e rebentamentos contínuos em Carmona

Alferes Cruz (1º. plano) e furriéis milicianos Viegas e Machado


ANTÓNIO ALBANO CRUZ
Texto

A coluna militar saiu de Carmona para Luanda no dia 4 de Agosto de 1975, fez agora 35 anos.Os dois dias e meio da viagem e os que os antecederam foram dias que não esqueceremos fácilmente.
Ao pelotão-auto, que praticamente integrou na totalidade a coluna, requeria-se alguma responsabilidade quanto aos combustíveis e operacionalidade das viaturas que a integravam. Relativamente aos combustíveis e lubrificantes, era importante que não faltassem às viaturas militares mas havia que socorrer também as viaturas civis fretadas pelas nossas tropas e todas as civis ligeiras e pesadas que nos acompanhavam. Penso que fizemos tudo o que era possível para, até à ultima hora, satisfazer e consolar todos, não apenas relativamente aos combustíveis e transporte mas também a bens pessoais esquecidos - como o BI ou certificados de habilitações e outros documentos, ou umas simples fotografias de família, que os retornados não queriam nem por nada perder.
Era angustiante ver o desespero daqueles que, querendo salvar o mínimo imprescindível, se viam obrigados a deixar tudo, só porque lhes faltava segurança, transporte ou combustível.
Fui dos ultimos a sair de Carmona e recordo-me termos deixado a parada do quartel cheia de mobiliário e uma sala cheia de todo o tipo de armas empilhadas. Lembro-me ainda que quando já iamos a uns quilómetros de Carmona, ouvimos uns fortes estrondos e, olhando para trás, vimos o paiol de munições a arder e com rebentamentos contínuos.
Fiz a viagem praticamente na cauda da coluna, logo à frente da companhia de pára-quedistas que a fechava, e isso permitiu-me ver o que ficava para trás. E o que ficava para trás mexia connosco, a uns mais que outros, e recordo-me, por exemplo, de ver que, num acto de desespero e com granadas, se destruiu uma viatura e o que nela se encontrava.
“Se não podemos levar a Berliet, também não fica para eles …”, ouviu-se.
A. A. CRUZ
Alferes miliciano
(continua)

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Disparos e voos rasantes dos FIAT´s da Força Aérea

Helicanhão (em cima) e Fiat da Força Aérea Portuguesa apoiaram o movimento da coluna do BCAV. 8423, de Carmona para Luanda - de 4 a 6 de Agosto de 1975 (fotos da net)


MANUEL DEUS
Texto

Passado o episódio dos heli-canhões (ver ontem), recomeçámos a nossa viagem, agora com os ouvidos mais apurados, não fosse o diabo tecê-las.
Entretanto, a coluna não parava de aumentar. Por cada povoação que passávamos, por mais pequena que fosse, havia sempre quem se juntasse a nós. Fazia pena ver as famílias a separarem-se. Ficavam os homens e partiam as mulheres e crianças.
A viagem decorreu sem problemas, até que chegámos ao limite, digamos assim, do domínio da FNLA. Aí, eles jogaram a última cartada. Como é sabido por relatos anteriores, os FNLA queriam que lhes entregássemos os carros, armas, enfim tudo. Como isso não aconteceu, nem podia acontecer de forma alguma, tinham a última chance de nos experimentar.
Desta vez, foram os FIAT da Força Aérea, com os seus disparos e voos rasantes, bastante sonoros e eficazes, que puseram cobro à situação.
Foram duas situações com muito stresse, a juntar à outra do Quitexe,descrita noutro relato, que marcaram.
Como a viagem durou dois dias, tivemos uma noitada de completa vigia, em que cada um se tentou proteger o melhor possível do muito cacimbo, frio e ansiedade...
Recordo-me de me ter deitado debaixo do unimogue, sobre o alcatrão.
Manuel Deus
1º. cabo op. cripto da 3ª. CCAV. 8423

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Ataque da FNLA à coluna para Luanda

Militares da 3ª. CCAV. 8423 com alguns civis da coluna militar


MANUEL DEUS
Texto

As colunas militares que transportavam os caixotes com os haveres das tropas foram impedidas de avançar para Luanda. Já aqui se falou disso. E creio que esse transporte só foi conseguido à terceira tentativa.
Assim, e depois dos acontecimentos de Luanda (era dito pela FNLA que Rosa Coutinho tinha entregue armas, munições, carros, etc. ao MPLA) e das ameaças às tropas portuguesas feitas pelo FNLA, em Carmona, argumentando com os acontecimentos de Luanda, ninguém, mas mesmo ninguém, esperava qualquer tipo de facilidade na saída da coluna final.
A 3ª. Companhia do BCAV. 8423 já tinha experiência de «entregar as chaves», primeiro as da fazenda de Santa Isabel (pacífica...), depois as de Quitexe (em ambiente escaldante!!!) e tinha agora, com a 2ª. Companhia, uma Companhia de Comandos e outra de Pára-quedistas (muito "cacimbados", dizia-se, de comissões de serviço em Moçambique e na Guiné), tinha agora uma missão muito mais delicada. Não se tratava de entregar só as chaves, mas fazer todo um percurso de retirada.
Confesso que depois da tantos anos, só me lembro (se calhar felizmente) de passagens que marcam qualquer um para toda a vida. Por isso, desde já lanço o desafio a quem melhor se lembrar dos acontecimentos (estou seguro que haverá quem...), venha ao blogue dizer de sua justiça.
Feitos os preparos logísticos, as quatro companhias partiram no 4 de Agosto de 1975, bem cedo, de Carmona. Havia que avançar o mais possível.
À medida que o conta-quilómetros avançava, a coluna ia-se estendendo, com viaturas civis intercaladas com as militares.
Seguia à frente a Companhia de Comandos, depois as duas companhias do BCAV. 8423, civis e, a fechar, os Páras.
Com muitos quilómetros já feitos, passávamos num vale e tivemos "festa"! Colocados em pontos mais altos, os guerrilheiros da FNLA fizeram-se anunciar através das suas «kalaches». Imediatamente, a coluna abrandou, de forma a podermos ficar mais juntos e menos expostos. As nossas tropas responderam, mas foram dois héli-canhões que nos deram uma grande ajuda, espantando a «caça». Pelos vistos, eles nunca gostaram muito de «objectos voadores!»
Não acaba aqui...
MANUEL DEUS
1º. cabo da 3ª. CCAV. 8423
(continua)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Razões humanitárias na razão da coluna terrestre

Militares da 3ª. CCAV. do BCAV. 8423 na coluna de Carmona para Luanda


MANUEL DEUS
Texto
A coluna de Carmona para Luanda incluía a 2ª. e a 3ª. Companhias do Batalhão de Cavalaria 8423. A viagem por terra era absolutamente necessária, pois era impossível que todo o batalhão utilizasse o meio aéreo para regressar a Luanda. Por questões de logística, dado que seria impossível proceder ao transporte de toda a frota automóvel, as armas, munições e diverso material, utilizando o meio aéreo.
Por questões de segurança, dados que os últimos a sair seriam um alvo demasiado fácil de abater.
Por questões humanitárias, pois a retirada das tropas por terra era (e foi) a única forma de garantir protecção à população civil da região do Uíge e todo o corredor de Carmona a Luanda, via cidade de Salazar.
Os civis africanos, mas principalmente os europeus, queriam dirigir-se a tudo o custo para Luanda, dadas as ameaças de que eram alvo por parte dos movimentos de libertação, que lhes provocavam ansiedade e a certeza de que tinha chegado o momento de salvar os dedos e as vidas.

Os anéis, esses estavam irremediavelmente perdidos.
Houve ainda vários chefes de família que mandavam as mulheres e as crianças, ficando eles numa última tentativa de poder salvar mais alguns bens, ou na esperança de que as coisas não fossem tão más como a realidade mostrava.

A coluna militar, ou melhor civil-militar (a certa altura eram mais civis do que militares), chegou a Luanda com quilómetros de comprimento.
MANUEL DEUS
1º. cabo da 3ª. CCAV. 8423

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Dever cumprido!

Entrada principal do Campo Militar do Grafanil, nos arredores de Luanda,
antes de Viana e na estrada de Catete


Os bravos Cavaleiros do Norte, chegados de Carmona por via terrestre, tiveram um curso período de repouso, nas instalações do Batalhão de Intendência do Grafanil - minimamente «higienizadas» pela CCS que chegara dias antes. Foi tempo de alguns «avisos» sobre como sobreviver em Luanda, reagir às provocações e às emoções.
A cidade ciactrizava as consequências dos combates que levaram ao MPLA a expulsar a FNLA e a UNITA e o ambiente era muito hostil à tropa. Mais ainda ao BCAV. 8423 que, por ser de formação pré-25 de Abril, era apontado como colonialista e, pior que isso, contra-revolucionário. Pelos próprios militares portugueses, que nos apontavam dedos e  acusações que nós não entendíamos. Chegaram a acontecer algumas confrontações, felizmente sem consequências especiais.
O batalhão ficou a cumprir missões de unidade de reserva da Região Militar de Angola e teve esporádicas intervenções na cidade. Nomeadamente, num grave incidente no Bairro do Saneamento - onde viviam vários membros do Governo Provisório de Angola - ali valendo a uma companhia de intervenção recém-chegada de Lisboa, muito revolucionária e ainda mais mal preparada, que se viu «emboscada» entre dois fogos. 
A necessidade de responder aos compromissos tomados com os movimentos de libertação, quando aos efectivos militares a estacionar em Angola, reduziu as comissões militares para 15 meses - o que nos antecipava a partida, para Setembro (como veio a acontecer).
«Sem pretender fazer doutrina sobre factos passados, mas ainda bem presentes, julga-se que bastará sentir-se que se parte com a consciência de haver cumprido o dever que nos solicitaram e que nem sempre foi fácil de cumprir», considerou, então, o comandante Almeida e Brito.
E havia a certeza dessa consciência? «Julga-se que sim», considerou o tenente-coronel que liderou os Cavaleiros do Norte, demasiadamente modesto na sua opinião, tendo em conta a odisseia que se tinha acabado de viver e que, pela frente, ainda tinha dias muito incertos. 

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A chegada ao Grafanil, com reportagem da BBC...

Dondo (em baixo) a Luanda, 174 quilómetros da última etapa da coluna do BCAV. 8423, de Carmona até ao Grafanil - assinalado no ponto pequeno, a vermelho. A chegada teve cobertura da BBC


Dondo, a 174 qulómetros de Luanda, foi a segunda e última noite de descanso e vigilância da coluna dos Cavaleiros do Norte. Noite de alvoroço e expectactiva. Para trás, ficavam já dois dias e duas noites de vários perigos, de viaturas abandonadas, barreiras armadas e agressivas, ameaças e dramas - principalmente vividos pela comunidade civil.
«Havia barreiras na estrada, com homens armados a impedir a passagem dos carros e alegando que quem fosse nascido em Angola não passava...», recorda-se Eugénia Duarte, ao tempo com dez anos e nossa contemporânea no Quitexe. Uma das civis que integrou a coluna.
A coluna arrancou do Dondo às 7 horas da manhã. Às 10, foi sobrevoada por dois aviões Fiat e um helicóptero, este com uma equipa de reportagem da BBC. Às 11, passou por Catete e o Grafanil recebeu-a a partir do meio dia, com um tempo de escoamento de 45 minutos. Terminava, assim, o movimento do Batalhão de Cavalaria 8423 de Carmona para Luanda, após 570 quilómetros e 58,45 horas, trazendo entre 700 a 800 viaturas. Sem uma morte!!! Sem um ferido!!!
Terminava também a odisseia de milhares de civis que, à chegada a Luanda, choravam por se sentirem salvos.
A missão, considerou na altura o comandante Almeida e Brito, «terá sido a mais difícil do batalhão, mas também a que bem demonstrou o seu «querer e saber querer», conduzindo uma operação que, forçosamente, terá de ser um pilar bem marcante da sua história».
Recordo-me da chegada ao Grafanil, ainda na estrada Catete, depois de Viana. Muitos de nós, armados quanto podíamos, fomos esperar a coluna. Foram momentos particularmente emocionantes, entre a alegria do reencontro com os nossos companheiros e o olhar dos dramas vivos dos civis - que choravam e riam, se abraçavam uns aos outros e aos militares e reencontravam com amigos e familiares de Luanda. Sentiam-se a salvo, depois das tragédias que cada qual viveu na província do Uíge e no decorrer da coluna.

domingo, 8 de agosto de 2010

O helicóptero alvejado entre Lucala e Salazar...

O itinerário da coluna militar que saiu de Carmona para Luanda, assinalado a vermelho. O percurso mais curto, a verde, estava «impedido» no Caxito e Cacuaco (clicar na imagem, para a ampliar)



Samba Cajú ficou para trás às 6,30 horas de 5 de Agosto mas logo depois, no controlo à saída da vila, na estrada para o  Luanda, «surgiram novas dificuldades, novamente torneadas», mas que levaram a um atraso de mais de duas horas.
A marcha foi retomada às 8,30 e chegou-se a Vila Flor às 11 da manhã, debaixo de um calor tórrido e a mesma ansiedade e nervosismo. O que vai acontecer?! As dificuldades logísticas aumentavam e cada quilómetro galgado na estrada era sempre um tempo expectável para qualquer escaramuça. Essencialmente porque as forças locais que se cruzavam com a coluna não queriam deixar passar os civis. E apareciam gente de todo o tipo, adultos e adolescentes, armados e ameaçadores.
Mais viaturas de civis se juntaram em Vila Flor, casando as suas esperanças de «fuga» na protecção militar. Entrou-se, logo depois, em «terra de ninguém», nem da FNLA, nem do MPLA, e ordenou-se uma paragem, para reagrupamento das largas centenas de viaturas - numa coluna que, em alguns momentos, terá atingido os 20 quilómetros, entre a frente e a rectaguarda.
Os helicópteros estacionados em Salazar (actual Dalatando) continuavam às ordens da coluna e foram «requisitados», para reconhecimento do itinerário. Um deles foi alvejado. Confirmava-se a pior suspeita: o MPLA estava disposto a tudo, para evitar a passagem da coluna. Mais negociações. Recordo-me de o comandante Almeida e Brito me contar, em Coimbra (nos anos 80, era ele 2º. comandante da Região Militar Centro) que o segundo dia foi decisivo e dramático. A designação «terra de ninguém», na prática,  significava que tudo podia acontecer. E o ataque ao helicóptero foi um mau sintoma. Valeu a acção negocial terrestre, num contacto directo com o MPLA, por volta das 13,30 horas.
Há distância de 35 anos, feitos há três dias, podem imaginar-se os constrangimentos, os medos, as dores que se sentiram na dramática coluna de 700 para 800 viaturas que ia de Carmona para Luanda, depois do ataque a um meio aéreo.
Em Lucala, por volta das 14 horas, abandonou-se outra viatura e seguiu-se Salazar. A cidade demorou quatro horas a atravessar, entre as 16 e as 20, «dado terem de se resolver inúmeras avarias». Abandonou-se mais uma viatura e a coluna retomou a marcha, «incorporando na testa uma companhia de pára-quedistas que se encontrava de reserva», no Comando Territorial de Salazar.
Chegou-se ao Dondo às 23 horas, com nova interrupção de marcha e descanso.

sábado, 7 de agosto de 2010

A chegada da coluna a Samba Cajú

Samba Cajú, em 2006, foto de Jorge Cruz. Por aqui passou e estacionou
a coluna militar do BCAV. 8423, de 4 para 5 de Agosto de 1975

As dificuldades vividas no Negage «esgotaram os nervos» da coluna saída de Carmona para Luanda. Mas, cito o Livro da Unidade, «estavam vencidas das primeiras dificuldades».
A coluna, já reorganizada e agora com cerca de 700 viaturas -  entre militares e civis!... - arrancou da cidade às 18 horas de 4 de Agosto de 1975 e, uma hora depois,«sem problemas», passou o controlo de Camabatela - onde «recebeu» mais dezenas, talvez centenas de civis.
«Foi o renascer da esperança para essa gente, foi o acreditar na missão das NT», lê-se no Livro da Unidade, em referência aos civis «colados» à coluna militar.
Tiros, ameaças, deflagrar de bombas, mais perto ou mais distantemente da coluna militar, foi «hábito» de ouvir que rapidamente se criou, entre todos - militares e civis. Às 20,30 horas desse mesmo dia 4 de Agosto de 1975, estacionaram em Samba Cajú, para pernoitar, refazer estratégias, reparar viaturas, comer e descansar - sempre de vigilância atenta, pois não era bem-vinda a sua passagem, quer pela FNLA quer pelo MPLA.
O pelotão-auto da CCS, que na sua quase totalidade integrou a coluna, tinha a responsabilidade quanto aos combustíveis e operacionalidade das viaturas e aqui se apostou e ganhou na competência do alferes Cruz e dos seus homens.
«Era decisivo que não faltassem combustíveis e lubrificantes às viaturas militares mas havia também que socorrer as viaturas civis fretadas pelas nossas tropas e todas aquelas civis ligeiras e pesadas que nos acompanhavam», recordou, agora, o então alferes Cruz, que pouco descansou nesses dois dias e meio de viagem e debaixo do Land Rover que lhe serviu de transporte.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

As dificuldades na saída de civis em Negage

A cidade do Negage, por onde passou e teve problemas a coluna militar do BCAV.
8423, a 4 de Agosto de 1975. Mas os civis não foram abandonados

A 4 de Agosto, dia primeiro de saída da épica coluna militar de Carmona para Luanda, duas viaturas foram abandonadas ainda antes de chegar a Negage. Uma outra, pesada, foi rebocada até à cidade e aqui mudada a carga e abandonada a viatura, já inoperacional. A ordem era avançar, todas ficariam para trás. Destruídas.
Negage estava «pejada de viaturas», que a FNLA proíbia sair. «A FNLA, em peso, proíbe a saída, à excepção das viaturas privadas da coluna militar», lê-se no Livro da Unidade. As conversações com a FNLA «foram improfíquas». E, por outro lado, «tentadas plataformas várias, bateu-se sempre em falso».
Os civis que seguiam «colados» à coluna militar e os que se juntaram no Negage, «sentiram-se abandonados e entregues à sorte do querer da FNLA», convencidos que as Forças Armadas Portuguesas os abandonariam. Assim não aconteceu e os Cavaleiros do Norte, comandados no terreno pelo tenente coronel Almeida e Brito, mantiveram a sua postura de defesa integral dos interesses civis. Custasse o que custasse.
Procurou-se uma outra solução para a sua saída e, efectivamente, às 16 horas de 4 de Agosto de 1975, reuniu-se Almeida e Brito com Daniel Chipenda e obteve-se  permissão para o trânsito da quase totalidade dos civis. Só uma pequena parte de camionistas «não conseguiu resolver o seu problema». Escapa-nos a razão para a não partida destes camionistas.
A CCS, então já com a 1ª. CCAV., preparava as instalações do Batalhão de Intendência do Campo Militar do Grafanil e arcava, em Luanda e sem reacções extemporâneas, a hostilidade cada vez mais evidente da maioria dos militares portugueses relativamente aos Cavaleiros do Norte.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A saída, o controlo da FNLA e os Fiat´s da Força Aérea



Os incidentes provocados pela FNLA, com os civis fugidos para o Negage, levou a um atraso de 8 horas na marcha da coluna - que passou no controlo da FNLA do Candombe com 210 viaturas e em cerca de meia hora de escoamento.
O problema era fácil de entender: opunha-se a FNLA à passagem da coluna, poque ia para uma área do MPLA; não queria deixar o MPLA, porque a tropa vinha de uma área da FNLA. «Houve que preparar o movimento com os cuidados que tal requeria, dado saber-se a oposição que a FNLA dizia ir fazer e dado saber-se também ir atravessar-se uma zona de conflito armado entre MPLA e FNLA, para depois prosseguir numa área de interesse do MPLA, dominado por este e pelo seu poder popular», refere o Livro da Unidade. 
Entrou na lenda desta movimentação o histórico «impedimento» provocado pela FNLA - entre Carmona e Negage, a 4 de Julho de 1975. Já farto da impertinência dos «fnla´s», o comandante Almeida e Brito terá ponderado o uso da força. E terão sido dadas instruções preparatórias nesse sentido, imediatamente antes de mais uma "ronda negocial". Imagine-se o constrangimento destes momentos, a dor que varre a alma dos que se vêem, de um momento para o outro, na iminência de um combate quase corpo a corpo. E que consequências teria!!!...
A situação foi resolvida com uma daquelas milagrosas sortes, que parecem anedota: pegou o alferes Garcia num AVP-1 (rádio conhecido por banana), de capacidade de comunicação terra/terra, nunca terra/ar, nunca com aviões e muito menos com os Fiat´s. Pois o alferes Garcia simulou um contactou com os pilotos dos aviões de caça, e soltou a ameaça imediata: «Ou param com isto, ou são esmagados pelos Fiat´s!!!...». Acreditaram os «fnla´s» e prosseguiu a coluna. Assim se poupando sabe-se lá quantas vidas.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

O êxodo de Carmona para Luanda. Saída da capital do Uíge!

Entrada/saída de Carmona para o Negage.Por aqui passou a coluna militar para Luanda, a 4 de Agosto de 1975, para uma viagem de de dois dias e meio e duas noites e que chegou a ter 700 viaturas

Amanheceu Carmona, a 4 de Agosto de 1975, com a última alvorada da guarnição do BCAV. 8423, para a épica coluna militar para Luanda. Nada e ninguém impediria o seu avanço - fortemente apoiada pela Companhia de Comandos, a que se juntou a de Páraquedistas, com a guarnição do Negage. E os helicanhões que a sobrevoavam. E os Fiat´s da Força Aérea, chamados de «já passou» pelos naturais.
A população civil, e cito o Livro da Unidade, «conhecedora do movimento das NT, insegura no seu dia a dia, descrente do seu futuro e receosa de quaisquer represálias, resolveu-se pelo êxodo e começou a sentir-se que iriam a companhar a nossa coluna centenas de viaturas, com o o consequente elevado número de pessoas».
Tal, não era propriamente uma novidade: as últimas semanas tinham sido, da parte da comunidade civil - e nem só a branca e europeia... - de permanente «namoro» à tropa, para tentarem salvar os seus bens e vidas.
A partida estava marcada para as 5 horas da madrugada, mas às duas já toda a máquina militar estava em movimento, pronta a arrancar no horário previsto. E assim foi.Toda ela se moveu, sob comando directo do Tenente Coronel Almeida e Brito, o comandante do BCAV.8423 - que não era homem de virar a cara à luta e ali estava, de peito aberto, para o que desse e viesse.
E vieram logo os primeiros problemas, com um alargado grupo de civis que se queria juntar à coluna e de tal era impedido pela FNLA. Sabe-se lá porquê e para quê? Foram bloqueados na cidade e impedidos de se juntar à coluna militar - valendo a intervenção das NT. «Às 5,15 horas, resolveu-se o primeiro incidente», anota o Livro da Unidade. Que antecedeu um segundo, já mais grave, no Negage, para onde muitos civis acabaram por fugir.
De Carmona, na ruas e das janelas das casas, via-se muita gente, num adeus carregado de dúvidas. Muita gente ficou e um deles foi o padre Albino Capela - que «fugira» da Paróquia do Quitexe, quando por lá as coisas se precipitaram, e, em Carmona, não quis integrar a coluna militar. «Tenho de ficar com a minha gente...», disse ele ao comandante Almeida e Brito, que insistia no seu (dele) abandono da cidade, integrando-se na coluna militar para Luanda.
«Vi-vos partir!! Fui ver-vos partir...», contou Albino capela, no encontro de Águeda, em Setembro de 2009. Contou e emocionou-se, interrompendo a narrativa como que para ganhar fôlego e apanhar as palavras que lhe faziam um nó na garganta.
Uma semana depois, em Agosto de 1975, teve de fugir para Luanda, na boleia num avião, para sair do inferno em que se trasformara Carmona.
A coluna avançou para o Negage!

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O primeiro dia de Luanda!...

Aeroporto de Carmona. Aqui embarcámos a 3 de Agosto de 1975. Para Luanda.

O primeiro domingo de Agosto, em 1975, foi domingo e o de partida da CCS do BCAV. 8423 para Luanda. Em duas levas, de um DC6 e de dois Noratlas.
Chegou a haver algum receio de uma qualquer acção da FNLA, mas nada se passou e o aeroporto estava, digamos, blindado. Uma hora depois, estávamos na base aérea de Luanda e, desta, galgámos a estrada de Catete, rumo ao Campo Militar do Grafanil - onde nos fomos instalar no aquartelamento do Batalhão de Intendência - já desactivado e em muito más condições. Pelo caminho e «ao vivo», vimos o chamado «poder popular»: grupos de crianças e pré-adolescentes armados com Kalashinikov´s.
Surpresa, surpresa foi a forma desconfiada, até hostil, com que fomos olhados por parte da guarnição militar do Grafanil. «Fascistas, colonialistas, tropa imperialista...», foram alguns dos mimos com que nos receberam. E que não entendíamos. Pior ainda quando na gigantesca messe de sargentos, na Avenida dos Combatentes, nos olharam com desconfiança e desprezo. «Ai são vocês o batalhão do Cavaleiro Branco?!!!...», escarnecia parte dos comensais da messe, em ar de gozo e mal-dizer. Demorámos a perceber tamanha hostilidade: éramos o último batalhão que, em Angola, tinha formação militar pré-25 de Abril. Logo, éramos fascistas! E contra-revolucionários!!! Pior: tínhamos, sem, saber, cometido a «proeza» de impedir represálias e ajustes de contas que se faziam sobre a comunidade civil europeia - os colonos!!! Um grupo convidou-nos a aderirmos aos SUV - organização que desconhecíamos. Não ligámos e ainda hoje acho que fizemos bem. Almoçámos já bem tarde e fomos à nossa vida! Em Carmona, ultimava-se a saída da coluna militar terrestre para Luanda.
- CAVALEIRO BRANCO. Como era conhecido o comandante Almeida e Brito. A expressão era usada como escárnio e desrespeito.
- SUV. Sigla de Soldados Unidos Vencerão, organização constituída em Agosto de 1975 pelo Partido Revolucionário do Proletariado (PRP). Os SUV foram grupos de militares que actuavam no interior dos quartéis com vista a promover a auto-organização política dos militares. Ver AQUI.



segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A véspera da saída de Carmona...


O BC12, onde se aquartelou o BCAV. 8423, de Março a Agosto de 1975

Sábado, 2 de Agosto de 1975. É véspera da saída da CCS, de Carmona para Luanda. E já se sabe que a partida de Luanda para Lisboa seria em Setembro. Há alívios e ansiedades na alma dos Cavaleiros do Norte.
O ambiente na guarnição está calmo. Faço a minha mala e dou conta que não tenho espaço para o correio. O meu estimado correio, cheio de aerogramas e cartas que, um a um, uma a uma, fui numerando e guardando na pequena mala preta que levara com artigos pessoais e livros. Um, dois, três,100 e mas aerogramas e cartas, deste e daquele, numeradas até ao infinito.
Neste dia, recebo correio do Alberto, que agora reli - dando «novas» das «velhas» escaramuças de Luanda. «Isto está fogo, não sei onde isto irá parar...», dizia-me ele. De Portugal, as perguntas eram as mesmas de sempre: «Quando vens, quando chegas?».
Resolvo o transporte do meu correio com uma velha mala cedida pelo Pires, o de Bragança! Enchia-a, tal como a tenho ali no sotão - a cheirar a pó e a saudades. Acamo os molhos de aerogramas e cartas e dou uma volta, nostálgica, pelo álbum de fotografias. A cada uma, associo um, dois, três... momentos. Sinto a dor funda de sofrimentos que passaram e revejo-os, ressinto-os, imaginando os peitos e corações que não rebentaram sob o fogo da metralha, nas picadas e trilhos que ficavam para trás. Dou-me por feliz!!!
Sentado na cama do bloco residencial ao lado do BC12, desfio memórias das mães negras que levavam crianças penduradas nas costas e pilavam a fuba de colheitas magras que lhes matavam a fome! Lembro a velha, de peitos caídos, a cachimbar na porta da palhota da aldeia do Talambanza e fazia fumaças, em núvens leves e rotinadas, esperando a noite de mais um dos seus dias! Recordo os meninos negros, sujos de ranho e de terra, de olhos grandes e a pedir-nos a lata da ração de combate que tantas vezes lhes matava a fome. «Vejo» as mulheres de peitos negros e firmes, que dançavam em corropio, ao som de batuques e mais batuques, enchendo as noites de luar e de cios que nos aguçavam apetites. Faço memória das noites de Angola, noites sensuais e ardentes!..., que nos engravidavam a alma de sonhos!  Revejo momentos de evolução operacional, que nos gretavam os pés no calor das botas e faziam os olhos cair-se em lágrimas furtivas e de muitos medos. Sem felizmente nos pôr lutos!
Desfio a memória visual de todos os soldados do PELREC, e todos os outros que foram a minha família de Angola, irmãos meus, meus primos, meus amigos, meus companheiros de todos os dias,  homens que carregaram mochilas e armas pela selva adentro, estremecendo - como eu!... - a cada barulho, a cada dor, a cada suspiro, a cada charco de lama feito com o nosso suor, a cada armadilha que se descobriu e não matou!, a cada incidente que nos encheu de medos e perigou os duros e dramáticos dias de Carmona. Homens iguais a mim, meus irmãos, com famílias, amigos, pais, namoradas, mulheres e filhos a rezarem por nós, pelo nosso regresso! Lembro-me das dores físicas, e das mentais!!!, que se cicatrizaram na alma nos 15 meses que se faziam da nossa comissão!
Eu e o Neto voltámos a cidade, com outros amigos, todos trajando a alma civil que se fardava numa comissão que nos honrava! A partida era amanhã, do aeroporto de Carmona. Às 10 horas. Viajámos pela cidade num adeus que se mantém até hoje. Regado de saudades!

domingo, 1 de agosto de 2010

O poder popular...

Quartel do BC12, em Carmona (Uíge). A cidade, ficava na estrada para a
direita. Para a esquerda, o Songo. os dois pavilhões do meio, eram a cozinha (esquerda) e o refeitório. Atrás, ao fundo da imagem, eram as oficinas. O edifício do comando era o da frente (o do telhado mais avermelhado). os pavilhões laterais eram os das casernas e dos serviços


Os últimos dias de Carmona foram vividos com ansiedade: nunca mais chegava o da partida para Luanda. A Companhia de Comandos instalou-se no BC12 e tive a boa surpresa de nela reencontrar o agora alferes miliciano Infante, furriel no meu tempo de Operações Especiais - os Ranger´s - em Penude, Lamego.Os camiões que iriam na coluna para Luanda já se enchiam de caixotes e malas, ocupando uma boa parte da parada. Mas se se suporia que havia relaixamento nas posições de segurança, nem pensar! Mantinham-se todos os procedimentos.
A azáfama do fecho de malas e caixotes acelerava-se e era o 1º. cabo carpinteiro Marques quem mais lidava com tábuas, prumos e pregos. Destes dias, guardo a quase anedótica memória de uma urna que se encaixotou, cheia de sacos de arroz e açúcar, bebidas, máquinas, artigos de escritório, moto-serras, uma pequena mota Honda, um barco pneumático, eu sei lá já que coisas mais. Sei de quem era, sei! Reservo o nome, por já não pertencer a este lado do mundo.
Não indo o alferes Garcia connosco, no avião para Luanda - ia na coluna militar terrestre... - fomos eu e o Neto chamados ao Gabinete de Operações, para receber instruções sobre as tarefas do PELREC em Luanda, até que se recompusesse o Batalhão. «Cuidado nas ruas, com so putos do poder popular...», fomos avisados.
A 1 de Agosto de 1975, dia de anos da minha irmã Ana Maria, tive uma gentileza comn o Neto e fomos jantar ao Escape - restaurante da cidade, onde encontrámos o alferes Infante, que nos narrou algumas das violências que se praticavam em Luanda.
«E o tal poder popular, pá!? O que é isso?!...».
O alferes Infante, que por ser corajoso tinha galgado patentes militares e agora era oficial, avisou-nos. «Sssssããããõooo uuuuuunnns pu-pu-pu-pu-pu-puuuuu-tos, pá, aaaaaandam armados e maaaaaaa-tam, pá!....». Infante, que julgo ter chegado a coronel, era gago e pensámos nós que brincava connsco. Mas, não! Como viríamos a confirmar em Luanda.