domingo, 17 de outubro de 2010

Uma visita à 3ª. CCAV. 8423 de Santa Isabel

Belo, Cardoso e Reino, furriéis milicianos da 3ª. CCAV. 8423, à porta do bar de sargentos da Fazenda Santa Isabel

A 17 de Outubro de 1974, lá foi o PELREC, sempre atento e vigilante, a caminho da fazenda Santa Isabel, escoltando o Comandante de Sector do Uíge e o grupo de oficiais da CCS que lá foram em missão.
Santa Isabel era o espaço da 3ª. CCAV. 8423, comandada pelo capitão miliciano José Paulo Fernandes, e foi destino frequente dos pelotões operacionais da CCS - o PELREC, o de sapadores, o de morteiros e o destacado de outras Companhias.
Não era raro este tipo de contactos entre oficiais do Batalhão, muitas vezes com oficiais da cadeia de comando do Comando de Sector do Uíge (CSU) e da Zona Militar Norte (ZMN). E a escolta, valha a verdade, nem era muito difícil ou especialmente perigosa. Boa parte do percurso era feito em estrada de asfalto - a do café - e a picada era perfeitamente transitável, embora farta de pó e sempre com os seus medos!
A nós, furriéis e praças, o mais atraente deste tipo de visitas era o reencontro com companheiros de batalhão - a família dos Cavaleiros do Norte que se começara em Janeiro desse 1974 e que, hoje, é uma grande saudade. Em Santa Margarida.
A foto mostra três deles: o Belo, o Cardoso e o Reino.
- BELO: Agostinho Pires Belo, furriel miliciano de Alimentação, natural e residente no Retaxo (Castelo Branco). É aposentado da Administração Pública.
- CARDOSO. João Augusto Martins Cardoso, furriel miliciano de Transmissões, natural de Arganil e residente em Coimbra. Aposentado da Administração Pública.
- REINO. Armindo Martins Reino, furriel miliciano de Operações Especiais (Ranger), natural e residente no Sabugal. Aposentado da GNR.

sábado, 16 de outubro de 2010

O GE João, que deu a notícia do fim da guerra

Estrada de Carmona para Luanda, no Quitexe. A chamada Estrada do Café

RODOLFO TOMÁS
Texto

Não sei se foi neste dia - o 15 de Outubro de 1974 -, ou no dia a seguir, que, quando ia da casa dos rádio-montadores para tomar o pequeno almoço no rancho geral, na estrada Luanda  para Carmona, e junto à casa onde morava a "Dusol", apareceu-me, quase de repente, um GE alto e com um grande físico, que era comandante de grupo e chamava-se João, creio eu.
Deu-me um grande e forte abraço disse-me:«Acabou a guerra, nosso cabo!!!...».
Ouvi-o, mas, como ele estava muito alcoolizado, fiquei mais preocupado em verificar se eu próprio tinha ficado com os ossos todos inteiros. Só mais tarde ouvi as notícias do Rádio Clube do Uíge e era verdade.
O João, comandante do grupo GE, não mentira, mesmo estando embriagado, às 7 horas da manhã.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O cessar-fogo anunciado pela FNLA

A 15 de Outubro de 1974, a FNLA anunciou o cessar-fogo, ainda que não oficial. Estranhamente, não houve euforias e festejos. A guarnição soube do facto - que se previa há algum tempo -, mas não tenho memória de qualquer manifestação. Não sei mesmo se dele (do cessar fogo) soubemos mesmo no dia - que, ao tempo, as comunicações não eram tão rápidas quanto hoje.
A «rádio da caserna» era o melhor meio de comunicar e nós, os furriéis, tanto quanto sabíamos de algum sussurro da classe de oficiais, lá o interpretávamos à nossa maneira e dividíamos com os praças. Mas tudo muito à cautela e sem quaisquer euforias. Para mais, ainda na véspera dois civis europeus tinha sido assassinados numa emboscada entre as fazendas Alegria II e Ana Maria. Nunca fiando, em tal cessar-fogo!
Mas a verdade é que o acordo foi depois assinado em Kinshasa, entre uma delegação militar portuguesa e a FNLA e após duas reuniões com Holden Roberto, precedidas sempre por contactos com Mobutu. Mas isto sabemos nós agora.
- FNLA. Frente Nacional de Libertação de Angola, liderada por Holden Roberto.
- MOBUTU. Presidente do Zaire.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A emboscada e a morte de dois civis europeus...




A 14 de Outubro de 1974, a expectativa de paz e sossego que fazia parte dos sonhos mais próximos dos Cavaleiros do Norte foi fortemente abalada: o IN fez uma emboscada a uma viatura e matou dois civis europeus.
O ataque ocorreu entre as Fazendas Alegria II e Ana Maria, mesmo no limite nordeste da área de acção do BCAV. 8423. A notícia foi uma «bomba de gelo» entre a guarnição. Se o cessar fogo estava iminente (seria, como foi, anunciado no dia seguinte...), o que pensar deste ataque, aparentemente inopinado mas que resultou na trágica morte de dois civis europeus?
A situação inquietou a guarnição, interrogada sobre o que poderia acontecer no amanhã. E foram tomadas medidas preventivas, reforçada a vigilância e atentados pormenores operacionais. «Terá sido uma acção esporádica, mas o facto é que foi mais uma acção, que veio pôr de sobreaviso para a possibilidade de desrespeito à ordem», lê-se no Livro da Unidade.
A razão do ataque e das mortes terá sido, porém, consequência de um ajuste de contas. Assim se admitiu, ao tempo. Dias depois.
- NOTA: A foto é de um (de dois) madeireiro(s) morto na zona de acção do BCAV. 8423. Não, de nenhum destes dois civis. Ver AQUI.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Remodelação do dispositivo militar do BCAV. 8423

Fazenda de Santa Isabel, onde esteve instalada a 3ª. Companhia de Cavalaria, do capitão  miliciano José Paulo Fernandes (foto de Agostinho Belo)

A remodelação do dispositivo militar do BCAV. 8423 era muito falada nos dias de Outubro de 1974. A nível de praças e sargentos milicianos eram muitos os murmúrios - que não passariam de resto, de mais que desejos. Por exemplo, o de regressar a Portugal. Obviamente, o maior!
Numa das visitas a Vista Alegre, um «segredo» se soube, da boca de um oficial dali e cujo nome não lembro, numa breve conversa de bar: a CCAç. 4145 iria abandonar a vila, passando para o Sector Luanda. Viria a ser substituída pela 1ª. CCAV., a de Zalada - comandada pelo capitão miliciano Castro Dias. Eram boas notícias, calculávamos nós: se estes vão embora, estes dias são vésperas de nós também irmos. Também se soube que a CCAÇ. 209, a do Liberato, também iria embora. Pelo Subsector do Uíge iria sobrar o BCAV. 8423!
Outra confidência, esta do alferes Garcia, tinha a ver com a 3ª. CCAV., a de Santa Isabel e confirmava o nosso prognóstico e desejo: iria para o Quitexe (o que aconteceu em Dezembro). Então, nós (CCS) iríamos para Carmona. E fomos, mas só a 2 de Março de 1975.
A remodelação do dispositivo militar, na prática, confirmava a saída definitiva da Fazendas Santa Isabel, Zalala e Liberato, militarmente ocupadas desde 1961/62. O cessar fogo anunciado por FNLA, MPLA e UNITA abriu portas para este dispositivo e os Cavaleiros do Norte iriam ficar ao longo da estrada de asfalto, a do café, que liga(va) Carmona a Luanda. No Quitexe, em Aldeia Viçosa e em Vista Alegre. Quanto ao regresso, é que a «coisa» não tinha maneira de ser anunciada. Viria a ser apenas dez meses depois, a 8 de Setembro de 1975. 

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Escolta ao comandante da ZMN na viagem a Luísa Maria

Furriel Viegas na Fazenda Luísa Maria (em cima) e brigadeiro
Altino Magalhães (foto no texto)

A 12 de Outubro de 1974, os sempre generosos «cavaleiros» atiradores do PELREC fizeram uma escolta muito especial, à fazenda Luísa Maria - onde jornadeava um pelotão da 2ª. Companhia, a de Almeida Viçosa. Fomos «dar segurança» ao então brigadeiro Altino Magalhães, que era o Comandante da Zona Militar Norte (ZMN) e Governador do Distrito do Uíge.
Os tempos, ao tempo, tinham das suas coisas menos boas e desconfiava-se abertamente do comportamento da FNLA - que persistia em actividades de pilhagem, que motivavam muitas queixas dos civis. «Procurou-se contrariar esta acção de banditismo com o lançamento de patrulhamentos inopinados, sem que, contudo, se preveja parar com elas já que, à aproximação das NT, o  FNLA se furta ao contacto e, consequentemente, não se evita a acção já realizada e a realizar, à posteriori, pois a presença das NT não é, e não pode ser, contínua», assim se lê no Livro da Unidade.
Ao tempo, murmurava-se como iminente a declaração oficial de cessar fogo, mas nunca... fiando. As hostilidades mantinham-se vivas, pese embora tivessem terminado as operações militares na mata. Bem mais perigosos pareciam ser os conflitos urbanos. E quantas vezes foram...
A 12 de Outubro, armados até aos dentes - incluindo metralhadoras pesadas e morteiros, se me lembro bem... - partiu manhã cedo o PELREC, pelas picadas de Santa Isabel fira, a proteger a importante caravana militar: o comandante da ZMN (e governador do Uíge), o brigadeiro Altino de Magalhães (a mais alta patente de toda a zona) e oficiais do BCAV. 8423.
Correu bem a viagem, para lá e para cá! Sem quaisquer problemas, embora todos nós de olhos bem abertos e o corpo molhado da lama feita de suor com o pó vermelho da terra de Angola. Há 36 anos, hoje se completam. 
NOTA: O registo de datas é feito a partir do Livro da Unidade (o BCAV. 8423) e de apontamentos e correio pessoal.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Os helicópteros de apoio à coluna de Carmona para Luanda


A épica coluna de Carmona para Luanda, aqui minimanente relatada entre 30 de Julho e 19 de Agosto - em sucessivas postagens - foi agora enriquecida com vários documentos fotográficos, disponibilizados pelo (ex-furriel de alimentação) Belo.
A imagem - belíssima, de resto... e dele - é a de um dos helicópteros que acompanharam (e protegeram) a coluna. Como AQUI (clicar) se conta, um deles foi atacado entre Lucala e Salazar. À distância de 35 anos, associar a beleza da foto ao drama  que então viveram os milhares de pessoas - militares e civis - que integraram a coluna parece quase umcontra-senso. E uma ofensa! Mas, inequivocamente, foi a verdade de dias armargos, de sofrimento e de coragem de toda aquela gente. Gente que se fez a caminho, enfrentando obstáculos e ameaças, para ser livre e não morrer.

domingo, 10 de outubro de 2010

Clube Recreativo do Quitexe, onde eram exibidos filmes - para
a tropa e também  para a população civil. Acção psicológica!

Outubro de 1974, entre os dias 10 e 23, foi tempo para a exibição de filmes, no âmbito das actividades de acção psicológica do BCAV. 8423. É desse tempo a célebre ida de um militar ao cinema, disfarçado de mulher - sendo «seduzido» por um outro militar, de patente mais alta. Ver AQUI e AQUI.
Os filmes eram projectados na sala do Clube Recreativo do Quitexe (foto), onde prestava serviços o rádio-montador Rodolfo Romás. Deles, particular, lembro o que fazia a história de Eusébio - que rodou por Zalala, Aldeia Viçosa e Santa Isabel, por onde jornadeavam as companhias dos capitães Castro Dias (1ª. CCAV.), José Manuel Cruz (2ª. CCAV.) e José Paulo Fernandes (3ª. CCAV.). E em Vista Alegre, onde estava a Companhia de Caçadores 4145.
A 10 de Outubro de 1974, hoje se completam, o BCAV. 8423 participou na reunião de comandantes do Comando de Sector do Uíge, em Carmona.

sábado, 9 de outubro de 2010

Batuques receberam a 3ª. Companhia em Santa Isabel




Fazenda Santa Isabel, onde se instalou a 3ª. Companhia do BCAV. 8423 (foto do Belo, registando o momento da chegada)


A 11 de Junho de 1974, galgados uns 300 quilómetros de asfalto e idos de Luanda em coluna que conheceu Cacuaco, Caxito, Vista Alegre e Aldeia Viçosa, os garbosos Cavaleiros do Norte da 3ª. CCAV. chegaram a Santa Isabel. Santa Isabel, a fazenda que iria ser regaço e colo a estes homens que a Angola foram jornadear uma comissão militar de honra.
Cortaram à esquerda, depois de Aldeia Viçosa, comeram os primeiros pós de picada e ouviram os gemidos da macacada que saltava nas árvores. Talvez lá de mais longe, até talvez o uivo de alguma fera!! A mata, que os olhos tinham visto grande e misteriosa na estrada de asfalto, desenhava-se-lhes agora de alguns medos, fronteirando-se na picada de pó quente e vermelho que chegava à fazenda.
Conta-me o Belo, que foram recebidos pela companhia que iam render, pelo gerente Carvalho (da fazenda) e com «os batuques dos negros». «Até parecia uma festa!!!....», acrescentou-me ele, recordando os momentos de 11 de Julho de 1974 e como que olhando, olhando em saudade nostálgica, o espaço e o tempo, o sítio, os rostos e os cheiros, o matar da toda a curiosidade do momento da chegada a Santa Isabel. «Então, é neste buraco que vamos ficar?!!!....». Era! E foi até Dezembro do mesmo 1974.
A 3ª. CCAV. do BCAV. 8423 rendeu a 3ª. CCAÇ. do BCAÇ. 4211, que rodou para Quiximba. O comando era do capitão miliciano Paulo Fernandes. Bom praça!! Digo eu: grande oficial miliciano. Com ele, por lá jornadearam os alferes milicianos Mário Simões, Pedrosa de Oliveira, Carlos Silva e Augusto Rodrigues, o 1º. sargento Francisco Marchã e os furriéis milicianos Delmiro Ribeiro, António Flora, António Fernandes, Alcides Ricardo, José Carvalho, José Lino, Graciano Silva, António Luís Gordo, José Avelino Lopes, Agostinho Belo, Ângelo Rabiça e Luís Capitão (já falecido), José Querido, João Cardoso, Armindo Reino e Vitor Guedes. E 104 cabos e soldados. Já lá vão mais de 36 anos!
- BELO. Agostinho Pires Belo, furriel miliciano de Alimentação (Vago-mestre). Natural e residente no Retaxo (Castelo Branco). Aposentado da Direcção Geral das Contribuições e Impostos.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O fazendeiro que fazia jogo duplo...

Grupo de contratados do sul (bailundos) para a colheita do café
(foto do blogue «Relembrando Terras do Quitexe»)

A Comissão Local de Contra-Subversão (C LCS) do Quitexe reuniu a 3, 16 e 23 de Outubro de 1974, não custando adivinhar que os principais problemas debatidos tinham a ver com a segurança e o anunciado exôdo dos trabalhadores das fazendas de café.
Tal facto, e cito o Livro da Unidade, «teve elevado incremento no período, provocando o fecho de algumas fazendas, nomeadamente nas cordas de Zalala e do Canzundo» e também «na zona de Vista Alegre e em muitas outras» - o que provocou a paragem da laboração e, consequentemente, elevados prejuízos económicos.
A altura era, digamos, a da maturação do café e o que mais se temia era que a paragem viesse a afectar a futura colheita, a partir de Janeiro de 1975 - o que lesaria, gravemente, o poderio económico da província, que estava muito concentrado naquele produto. Por alguma razão se dizia que o Uíge era a «capital do café».
Ao tempo, Outubro de 1974, a comunidade civil  europeia sentia medrar a instabilidade, a insegurança e os seus medos e as preocupações da maioria dos fazendeiros conduziram, segundo o Livro da Unidade, à «fuga do pessoal dirigente, por julgar que a sua presença não tem justificação e até não será aceite no futuro».
Era, ao tempo, dado como certo que a fuga dos trabalhadores (nomeadamente os bailundos) era forçada pela FNLA. Regista o Livro da Unidade, de resto, que havia «provas absolutas de que é a FNLA que impõe a saída dos trabalhadores rurais, sob coação de morte, se não o fizerem».  
É deste tempo, também, uma singular e não de todo inesperada informação do alferes Garcia: «Vamos à  fazenda de um gajo que joga duplo!! Olhos bem abertos, hein!!!».
«Como assim?!...», perguntei eu, que nem era inocente de todo.
«O gajo dá dinheiro e alimentação aos tipos. Joga nos dois campos! Está provado... Se calhar até lhes dá armas....», disse o Garcia.
Na verdade, nenhum dos trabalhadores daquela fazenda alguma vez foi ameaçado. Antes e depois! Por lá estacionámos umas horas, o capitão médico dr. Leal fez as consultas que tinha a fazer, distribuiu remédios e afectos, e os trabalhadores sempre por ali andaram muito descontraídos, tal qual o fazendeiro. Pudera!

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Os dias de Outubro de 1974 no Quitexe

A foto não tem a melhor qualidade mas mostra, à direita, a entrada da zona parqueada do quartel do Quitexe. Vê-se a guarita da guarda e bandeira nacional hasteada

A 4, 21, 25, 26 e 28 de Outubro de 1974, oficiais do BCAV. 8423 reuniram-se com oficiais de outras unidades  e o Comando de Sector do Uíge, em Carmona, seguramente para definirem estratégias militares, em função da evolução dos acontecimentos.
As hostilidades com e dos combatentes da FNLA (os únicos que operavam na zona) estavam tacitamente paradas - embora com desconfianças, pelo menos da parte portuguesa (e é desta que posso falar), em particular dos militares operacionais, os que ainda tinham de calcorrear trilhos e picadas, em missões que tanto podiam ser «simples» escoltas, visitas sanitárias às sanzalas e fazendas, ou patrulhamentos (apeados e motorizados).
Tinham cessado as operações no mato, mas cada saída do Quitexe sempre era um perigo para as colunas militares. 
A plataforma de entendimento que estava a ser negociada pelas duas partes (portuguesa e angolana), na verdade, em pouco mudou a vida operacional que se conduzia na zona de acção do BCAV. 8423 - caracterizando-se, principalmente, por intensa actividade de patrulhamentos, quase sempre com pequenos incidentes.
O objectivo, em função de repetidas acções de banditismo na zona, era criar condições de segurança ao tráfego rodoviário - especialmente entre o Quitexe e Aldeia Viçosa.
O Outubro de 1974 misturou dias de folguêdo (passe a expressão), com alguns outros mais doridos e estigmatizados pelos perigos de quem circulava em troços da terra angolana do Uíge.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Fomos soldados de corpo inteiro!

Vista aérea do Quitexe, com a capela em primeiro plano. As instalações militares, logo a seguir, para a esquerda (parque-auto e comando) e direita (secretaria, casa dos furriéis, dep´psito de géneros, messe de oficiais padaria e messe de sargentos - por esta ordem, edifícios do lado de cá da avenida


MANUEL MACHADO
(texto)

Hoje mesmo naveguei pelo blogue e verifiquei que está aqui um excelente documento de memórias. As de reviver o passado de dignidade e humanidade destes homens que não fugiram, porque não tinham medo. A nossa história honra o nosso nome e o da nossa descendência, do qual devemos orgulhar-nos.
"FOMOS SOLDADOS" de corpo inteiro, cumprimos a nossa missão, sempre atentos a tudo e a todos. Estou lembrado de, no final de 1974, ser chamado ao Comando de Batalhão, com os furriéis Viegas e Neto, para dar explicações sobre a nossa conduta "política". Respondemos perfilados e sem hesitações às questões que nos foram colocadas e saímos do inquérito com o mesmo espírito com que entrámos. Fomos sempre militares disciplinados e disciplinadores, a quem não havia nada a apontar. Desde o Quitexe a Carmona estabelecemos sempre uma grande ponte de colaboração e diálogo com as populações civis, colaborando com todos fraternalmente.
Também quero deixar aqui expressa a minha gratidão ao (ex-furriel) Viegas, pela ideia de criar este espaço de partilha de lembranças, que está muito bem organizado e mantém viva a chama do lema com que estivemos nas terras de Angola: "Peguntai ao inimigo quem somos!».

- MACHADO. Manuel Afonso Machado, furriel miliciano mecânico de armamento. Natural de Covelo do Gerez (Montalegre) e quadro superior da EDP em Braga (onde reside).

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O furriel Reino era o miliciano mais novo de todos

Bento, Rocha, Viegas, Flora, Lopes, Costa (morteiros) e Ribeiro (em cima), Carvalho, Belo, Lopes (3ª. CCAV.) e Reino, em baixo. Passagem de ano de 1074/75, no Quitexe. Em baixo: Reino, ladeado pelo capitão Fernandes (à esquerda) e comandante Almeida e Brito, na ceia da Natal de 1974



O «mistério» do furriel Reino que não aparece na Ordem de Serviço do CIOE com as classificações dos Ranger´s do Batalhão de Cavalaria 8423 está desfeito: foi do turno de instrução a seguir.
Ele mesmo hoje, dia dos 100 anos da República, fez questão de nos lembrar que apenas chegou ao batalhão, a Santa Margarida, em Fevereiro de 1974. «Fui substituir um outro cabo miliciano, que conseguiu escapar à mobilização. Com alguma boa cunha!!...», disse-me ele, ao telefone, brincalhando com a situação. 
O Reino, portanto, «chapou» com alguns de nós como instrutores do terceiro (e último) curso de Operações Especiais de 1973, em Lamego. Por Angola, fez jornada na Fazenda de Santa Isabel, no Quitexe e em Carmona, antes de Luanda. Era o "caçula» dos furriéis milicianos, o que lhe dava honra de jantar de Natal ao lado dos comandantes. Bom companheiro!!! Fez carreira na GNR, de que está aposentado.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Os Ranger´s do Batalhão de Cavalaria 8423

Cópia da Ordem de Serviço nº. 234, de 4 de Outubro de 1973, do CIOE, com
as classificações de Monteiro, Viegas e Neto. Clicar na imagem, para a ampliar 


O que tem 4 de Outubro de 1973 a ver com o Batalhão de Cavalaria 8423?! Nada, ao dia. Alguma coisa, porém, a partir de 7 de Dezembro do mesmo ano, dia da Ordem de Serviço nº. 286, do Centro de Instrução de Operações Especiais (CIOE), em Lamego. Quando foram publicadas as mobilizações dos aspirantes a oficiais milicianos e os cabos milicianos Ranger´s que iriam integrar o batalhão.
A 4 de Outubro - faz hoje 36 anos - saíram, à ordem, as classificações do 2º. Turno de 1973 do Curso de Operações Especiais. O nosso. Recapitulo as dos cadetes e instruendos que viriam a ser Cavaleiros do Norte, com a posição e classificação final de cada um:

Oficiais Milicianos
(ao tempo, aspirantes a oficiais milicianos)

* 23º.lugar: Augusto RODRIGUES, da 3ª. Companhia de Cavalaria (em Santa Isabel), com 14,78 valores.
* 24º.lugar: João Francisco Pereira MACHADO, da 2ª. CCAV. (em Aldeia Viçosa), 14,75.
* 25º. lugar: Mário Jorge de Sousa Correia de SOUSA, da 1ª. CCAV. (em Zalala), 14,73.
* 26º. lugar: António Manuel GARCIA, da CCS (no Quitexe), 14,70.
Manuel Meneses Alves, em Fevereiro de  1975, foi transferido para a 2ª. CCAC. do BCAV. 8423. Tinha sido 45º. classificado do curso, com 13,40 valores. O curso tivera 57 cadetes.

Furriéis Milicianos
(ao tempo, 1ºs. cabos milicianos)

* 5º. José Augusto Guedes MONTEIRO, da CCS (Quitexe), com 16,05 valores.
* 16º.- Celestino José Pinheiro Morais VIEGAS, da CCS (Quitexe), 15,33.
* 26º.- José Francisco Rodrigues NETO, da CCS (Quitexe), 14,68.
* 40º.- Manuel Moreira PINTO, da 1ª. CCAV. (Zalala), 14,23.
* 60º.- António Carlos Dias LETRAS, da 2ª. CCAV. (Aldeia Viçosa), 13,25.
Armindo Henriques REINO era o furriel miliciano OE da 3ª. CCAV., mas não consta desta lista da OS do CIOE. Provavelmente, será de curso anterior.
- CIOE. Agradeço ao sargento-chefe Monteiro Duarte, o favor de me enviar cópia de Ordem de Serviço.

domingo, 3 de outubro de 2010

Uns canecos e umas cervejas, enquanto se vai sendo livre...

O Presidente da República Costa Gomes a discursar a posse do 1º. Ministro 
Vasco Gonçalves (à sua direita), a 30 de Setembro de 1974

A 3 de Outubro de 1974, de Luanda para o Quitexe, escrevia-me o Alberto Ferreira - que pela Base Aérea 9 fazia a sua comissão militar, na Esquadrilha de Abastecimento. Dava-me conta de, no terminal de embarque, ter encontrado o Carlos Sucena, que estava em trânsito de Lisboa para Nambuangongo.
«Perguntou por ti e pelo Neto e disse-lhe o que sabia das vossas aventuras no Quitexe...», escreveu o Alberto - que nós, na escola de Águeda, chamávamos de Pimpão, por ser de Fermentelos, a vila da pateira, em cuja Estalagem os Cavaleiros já se encontraram por três vezes.
Preocupado estava ele, e muito!..., com o governo de Lisboa: «Novo governo. Que me dizes a tudo isto? Agora é que estou convencido que vamos ter um regime comunista, oxalá me engane. Mas por outro lado, parece-me que vai dar bastante barulho na metrópole. Cheira-me a guerra civil, dentro de poucos tempos! O que te parece?», escrevia o Alberto, que se informara junto do Sucena da realidade do Portugal Europeu.
O que me parecia??! A mim não parecia nada. O Governo Provisório era já o terceiro e chefiado por Vasco Gonçalves - que já liderara o segundo, entre 18 de Julho e 30 de Setembro de 1974. Retomou posse neste 30 de Setembro e terminou esta governação a 26 de Março de 1975. E, e não se sabia então, nem se adivinhava..., ainda viria a chefiar o quarto e o quinto governos, fechando a sua liderança revolucionária a 19 de Setembro de 1975.
O que eu sabia de Lisboa era muito pouco, principalmente lido no Expresso que me chegava todas as semanas e no qual não confiava muito (ver AQUI). As edições de fim de semana do Jornal de Notícias também lá chegavam mas aquela mistura de notícias, golpes e contra-golpes, se nos metiam aflição (talvez, alguma!..), verdade seja dita que acabavam por não nos preocupar nada. O melhor era não ligar. E era isso que a generalidade da guarnição fazia.
O Machado, sempre mais esclarecido que nós, lá mandava os seus bitaites sobre a revolução, o socialismo e essas coisas, mas a nossa preocupação maior era salvar a pele, lá pelo distante Uíge - que era o chão da nossa jornada angolana.
«Olha, estou em dizer que nem vale a pena pensar no caso. Bebem-se ums canecos e umas cervejas, enquanto se vai sendo livre...», rematou o Alberto Ferreira - que era, por Luanda, um dos meus companheiros de «vadiagem».
E assim fizemos nós por lá, pelo Quitexe. Comemos e bebemos e não pensámos nada, ou muito pouco, no que governava (ou não governava) o «companheiro» Vasco Gonçalves. 
- CARLOS SUCENA. Carlos José Sucena Miranda, natural da Borralha (Águeda) e companheiro e amigo da antiga Escola Industrial e Comercial de Águeda. Prestou serviço militar, como 1º. cabo escriturário, em Nambuangongo e Luanda.
- ALBERTO FERREIRA. Alberto Fernando Dias Ferreira, que foi de Fermentelos, já falecido. Foi cabo especialista da Força Aérea, em Luanda. Depois, licenciou-se em Economia, foi quadro superior da Direcção de Finanças e candidato a presidente da Câmara Municipal de Águeda, de que foi vereador por duas vezes.
- EXPRESSO. A minha leitura do jornal, no varandim da casa dos furriéis, no Quitexe (foto, acima).

sábado, 2 de outubro de 2010

Manuel Quaresma da Silva, apontador de morteiros de Santa Isabel

Manuel Quaresma da Silva foi 1º. cabo apontador de morteiros da 3ª. Companhia do BCAV. 8423, a de Santa Isabel. Faleceu a 6 de Abril de 2004, em Cacia (Aveiro), terra de naturalidade e residência. Vítima de letal doença, no estômago.
Quase vizinho, não o conheci nem dele soube nos 15 meses que comungámos em Angola. Antes e depois do serviço militar, morámos em localidades separadas por menos de 20 quilómetros, mas nunca os nossos destinos se cruzaram. Partiu para Angola a 5 de Junho de 1974 e de lá regressou a 11 de Setembro de 1975.  
O Quaresma foi mais um Cavaleiro de Norte que resistiu à guerra e dela regressou são e salvo, mas foi impotente para a doença que lhe minou o corpo. Faleceu com 52 anos, deixando viúva e filhos.
Um abraço!! Até um dia que nos encontremos e conheçamos!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O êxodo dos trabalhadores da colheita do café...

Café de Angola, uma das maiores riquezas dos últimos anos portugueses


Os últimos dias de Setembro de 1974 não foram de bom pronúncio para a estabilidade social e segurança da província do Uíge - a capital do café. Não foram melhores os primeiros de Outubro!!!
A 4 e 18 de Setembro, nas reuniões da Comissão Local de Contra-Subversão (CLSB), o tema já dominara as atenções e causara apreensões, misturadas de alguns medos: o problema dos trabalhadores que ameaçavam abandonar as fazendas e, assim, comprometiam a campanha da apanha do café. A isso eram induzidos, principalmente, pelos dirigentes dos movimentos emancipalistas. A bem e a mal!
Principalmente oriundos do Huambo (de que era capital Nova Lisboa), de raça bailunda e muito trabalhadores, eram contratados para a colheita do café e valha a verdade que nem sempre bem tratados pelos fazendeiros e encarregados. Que lhes batiam e os roubavam nos direitos que lhes eram consagrados pela chamada Lei do Indigenato, de Adriano Moreira - quando, no princípio da década de 60, foi Ministro do Ultramar.
Por estes dias de Outubro de 1974, não lembro qual, graves incidentes numa fazenda dos arredores de Quitexe, levaram à intervenção da tropa e lá foi o PELREC - em missão nada simpática. Os bailundos andavam a ser enganados no peso da fuba e na quantidade do peixe seco. Reagiram e um deles terá sido morto. Outro, fugiu e  fez queixa na admnistração civil.
Procurámos ser justos na decisão do momento e assistimos a toda a pesagem. A fazenda teria mais de uma centena de empregados, alguns com as famílias a viver com eles. Cem gramas, 200 gramas que se roubassem a cada um, por dia, davam toneladas por mês. Assim enriqueciam alguns!
De regresso ao Quitexe, aí para um quilómetro fora do eirado da fazenda, um homem negro «parou-nos» na picada: «Os capataz és informador dos bandoleiro...», disse ele, deconfiado e hesitante.
Ficámos estupefactos? Não! Nós sabíamos da duplicidade com que muitos deles actuavam. Muitos deles não eram confiáveis!
Ver «O homem branco que batia no homem preto». AQUI.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O futebol no Quitexe, em Setembro e Outubro de 1974

Equipa da CCS. Em cima, Grácio, Gomes, Miguel (1º. cabo), Botelho, Miguel (furriel miliciano paraquedista), NN e Soares (em cima). Miguel (condutor, ?), Mosteias, Lopes, NN, Monteiro e Teixeira (estofador)

Setembro de 1974 foi tempo de futebol, no Quitexe e por todo o Batalhão de Cavalaria 8423. Jogos entre Companhias e com equipas civis. Alguns deles, no campo do Quitexe, ficaram memoráveis, pela evidência técnica de alguns «cavaleiros» e pela arte de "cacetar" de outros. Por mim, não foi longa a experiência, nomeadamente depois de um jogo com civis do Quitexe - no qual, para «vencer»..., tive de usar as minhas «habilidades» físicas para não me deixar driblar pelos adversários. E, alto lá, que eu não era propriamente «analfabeto» na arte de impor «disciplina física».
Usei, para esta «internacionalização» - afinal, sempre estava a jogar fora do continente europeu... - umas botas emprestadas pelo Alípio Canhoto Pereira, que era condutor - um dos que habitualmente ia com o PELREC - e que, por sua vez, as tinha pedido ao irmão José, que estava na 3ª. CCAV., em Santa Isabel. Ele mesmo mo lembrou quando, há um ano, o contactei para o Encontro de Águeda.
O futebol, no Quitexe, era uma das «armas» da Acção Psicológica, usada no combate ao isolamento dos militares e também como estratégia para nos aproximarmos da população civil. Uma bola, como se sabe, faz milagres que a diplomacia não nunca atinge. Ainda hoje é assim.
Faltam dois nomes na foto deste post. Conhecem-se as caras mas esquecem-se os nomes. Alguém ajuda?

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O meu curso de Operações Especiais, os Rangers!!!!!



Há 37 anos, faz precisamente hoje, concluí o curso de Operações Especiais, em Lamego. Os Ranger´s!!! Eu e mais 150 militares. Não fui brilhante, fui o que fui: 16º. classificado, com 15,33 valores finais. O Cristovão, com 16,58, foi o melhor de todos nós.
O curso foi extremamente difícil e nem vale a pena lembrar os épicos desafios físicos e psicológicos a que fomos submetidos na instrução e se fizeram lendas nas nossas carreiras militares. Na prova da Dureza 11, tive um acidente e fui obrigado a recolher às «boxes», por dois dias/três, embrulhado em lençóis e a ser massajado e injectado na enfermaria do CIOE. Ainda hoje sofro deste meu desgraçado joelho direito. Porém, quando fui avisado da realização da «diabólica» Pista Ranger, logo me aprontei para a «alta médica» e fui fazê-la a pé coxinho. Ou a fazia, ou perdia o curso... - à nona ou décima semana de onze. Não podia ser!
A minha melhor prova individual foi a do crosse, de 20 e tantos quilómetros, a 22 de Setembro de 1973, desde Colo de Pito (na estrada para Castro Daire e passando pela ponte de Reconcos) a Penude: terceiro classificado, depois do Cristovão, que era do Barreiro (o vencedor), e do Gonçalves, de Chaves e do meu grupo de combate e que tinha ido para Lamego comigo, da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém. Foi depois da «baixa», a dois dias do final do curso, e aprontava-me para me deixar andar ali pelo meio do pelotão de 150 homens, quando o alferes Fontes me afoitou: «Vai ganhar, pá!!!! És d´Águeda!!!....».
Corri como doido, com o Cristovão, o Gonçalves, o Praxedes, o Pinto e o Grilo e mais meia dúzia de companheiros - que foram ficando para trás. A seis/sete quilómetros de Penude, estávamos quatro ou cinco na frente e decidimos, os fugitivos: cada qual faz o que quiser, a partir de agora. O Cristovão, como um gamo!!!..., galgou o asfalto a pé ligeiríssimo, de passada larga e agigantando-se - ele, que era um «puto» de para aí metro e 60. Eu e o Gonçalves, puxámos-lhe a rédea. Apanhámo-lo...
O alferes Fontes comandava o nosso grupo de combate, estava a ver ali a consagração dos seus instruendos - incentivado, incentivando.... Um de nós ia seguramente ganhar.
Já estávamos em Penude e, na recta que antecede o corte para o quartel, senti-me forte. Eu tinha sido campeão distrital de corta-mato do desporto escolar e era forte em provas de resistência. 
«Vou ganhar!!...», pensei eu.
Ia «meter» a primeira velocidade e dava o safanão final. Só que quis refrescar-me antes e puxei do cantil, com o azar de partir a corrente que segurava a tampa. Foi mesmo azar!!!! Caiu a tampa, coisa muito pouco usual. E galgou a valeta da estrada, para um baixio. Tive de a ir buscar, descendo a rampa de metro e tal, com mochila e arma a estorvar, até que o descobri entre os ouriços das castanhas...
O Gonçalves, que era camarada dos bons, quis ajudar mas mandei-o embora: «Vai ganhar tu!!....». Mas os segundos perdidos foram preciosos para o Cristóvão, o vencedor.
Depois, ao subir a rampa para o quartel, antes do cemitério, foram-se-me abaixo as pernas. Mas ainda fui terceiro! Era grande a nossa vantagem sobre os mais próximos.
Colectivamente, a minha melhor prova foi a das 24 horas de Lamego. Segundo lugar!!! Com o Pinto, o Couto, o Gonçalves e Arcelino - o Açoreano. O que será feito dele?
- FOTO: O meu primeiro serviço de 1º. cabo miliciano, em Lamego, como sargento de dia ao CIOE (Centro de Instrução de Operações especiais).

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Os últimos dias de Luanda...

Manuel Deus (3ª.CCAV.), Abel e Lourenço (1ª. CCAV.). Foto
de Estrela (CCS), todos operadores-criptos do BCAV. 8423

MANUEL R. DEUS (texto)

Regressei de férias e estive a ler os vários relatos do Viegas, referentes aos últimos dias passados em Luanda. Relatam bem o ambiente tenso, mas no que me diz respeito, não tive qualquer problema. Comparativamente com os últimos dias do Quitexe e a viagem de Carmona para Luanda, direi que foram muito tranquilos.
Recordo-me que à noite, quando saíamos para ir jantar ao restaurante, o fazíamos sempre em grupo. Alguns de nós, levavam as facas de mato por baixo das calças, como forma de precaução e segurança. Felizmente, nunca foram necessárias.
Tirando uma noitada, passada a fazer “vigilância” no interior de uma vivenda, com vários companheiros e na qual me ofereci como voluntário, digamos que foram férias os dias que antecederam o nosso regresso a Lisboa.
Não era nada fácil jantar fora, dada a pouca oferta e muita procura. Normalmente, tínhamos que esperar mais de uma hora até que conseguíssemos arranjar mesa ou um banquinho no balcão. Isto é, para além dos que estavam sentados, havia outra rodada de pessoal à espera, à nossa frente.
Lembro-me de alguns almoços na ilha, em ambiente mais desafogado e tranquilo, mas o custo da refeição duplicava ou triplicava. Digamos que era só para ocasiões especiais.
MANUEL R. DEUS
(ex-operador-cripto da 3ª. CCAV.)