sábado, 11 de setembro de 2010

Saída de Luanda, chegada a Lisboa e a casa...

Uma das entradas do Campo Militar do Grafanil, com a capela escavada
na árvore, nos arredores de Luanda (anos 70 do século XX)

RODOLFO TOMÁS
Texto

A noite de 7 para 8  de Setembro de 1975, há 35 anos, foi  uma das noites mais longas da minha vida. Estávamos no Campo Militar do Grafanil e a pensar: «Dentro de 24 horas, onde é que estaremos?». E este pensamento não nos saía da cabeça, até nos martirizava - a ponto de nem nos deixar dormir.
Num dos espaços abandonados, que tinham sido da (ainda) CCS do BCAV. 8423, dormimos no chão, deitados em cima de cartões: eu (Tomás), o Emanuel dos Santos, o António Silva (rádiomontador) e o (ex-1º. cabo radiomontador) António Pais. Também não admira, com granadas a rebentarem ali por perto, só para despacharem o que não era recebido.
Era grande a ânsia de largarmos a farda e, principalmente, o compromisso de proteger as populações. Estávamos todos fartos de ser mal tratados, espezinhados, caluniados, cuspidos, insultados..., enfim, creio que quase não há adjectivos para descrever tudo por quanto passámos, uns muito mais do que outros.
A noite foi andando e, finalmente e após apenas 3 horas de sono, acordámos para aquela que seria a grande manhã da nossa liberdade, que tanto ansiávamos. Tínhamos partido para Angola com a mensagem de que tinha havido uma revolução para devolver a liberdade ao povo, mas nós éramos soldados e usávamos uma farda que tinhamos de respeitar.
Embarcámos das 10 para as 11 horas da manhã e chegámos a Lisboa por volta das 18. Não tínhamos nenhum Ministro ou Secretário de Estado à nossa espera. Nem sequer fanfarra. E mais tristes ficaram, muitos de nós, ao procurarmos no «aquário» do Aeroporto de Figo Maduro por familiares ou algum amigo, mas nada, ninguém! Cada um terá a sua história, mas a nossa terminou assim.
Logo que nos foram entregues as guias de marcha, cada um foi para seu lado. Não havia dinheiro e do aeroporto para Santa Apolónia não era nada fácil. Por mim, tomei um táxi - com o Santos, de Vagos, e o Silva, de Oliveira do Douro -, e lá fomos para o norte. Ainda parámos para jantar, perto de Leiria, onde comemos o habitual bife com ovo a cavalo, e quem pagou foi o táxista. Depois fizemos contas, claro. Cheguei finalmente a casa, no Porto, eram já 3,30 horas da madrugada do dia 9 de Setembro de 1975 e só adormecí por volta das 6 horas da manhã. Mas que grande odisseia!
RODOLFO TOMÁS

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Os presos que vieram de Luanda e foram soltos em Lisboa

Aeroporto Internacional de Luanda, nos anos 70 do século XX.
Aqui embarcámos a 8 de Setembro de 1975, para Lisboa

Volto hoje a 8 de Setembro de 1975, e ao aeroporto de Luanda, para falar dos presos algemados que nos foram entregues e que «largámos» em Lisboa. Estávamos nós a «comer» minutos para o embarque, mortinhos por deixar a capital angolana, quando um grupo de militares portugueses nos procurou. Vinham com alguns presos das cadeias das forças armadas, que nós tínhamos de «escoltar» e entregar à Polícia Militar, em Lisboa.
Reagimos, não estávamos para aí virados, mas o que é isso?, mas lá assinámos a guia de entrega e recepção dos detidos, cada um deles algemado a um dos nossos braços.
O meu «escoltado», ao tempo com 27 ou 28 anos, vinha dos calores prisionais do deserto de Moçâmedes e o registo criminal incluía farto cadastro: várias prisões em celas militares, a última delas para «pagar» um assassínio. A tiro, teria abatido um sargento. Ele assim o disse!
Valha a verdade que não acreditei muito nas histórias do nosso  «herói» e fui-o contraditando com alguns gracejos e ironias. A gozar com a petulância e eventual exagero das suas bravatas - que me pareciam muito inconsequentes! Fiquei até com a ideia que ele me queria impressionar com essas suas histórias, fazendo-se forte e e herói fatal de «aventuras» que, a serem verdade, seriam razão para outros «mimos».
Chegados a Lisboa, e de novo «casados» d´algemas com os presos, começámos a ver todos os nossos companheiros a dar de frosques, a correr para as suas casas no seu «adues à tropa!». A pé, de comboio, de táxi! E nós ali pespegados, à espera da Polícia Militar - que nunca mais vinha. E não veio!
Resolveu-se a questão com a inesperada decisão do Mosteias: «Sabes onde é?!...», perguntou ele ao «seu»  preso, sobre o destino da guia de marcha. Sabia! «Então vai lá ter!!!...», disse ao detido, que espantou os olhos com a decisão. E, pegando na chave, desalgemou-o!
Eu e o Neto, e não me lembro de outros, ficámos não menos espantados mas seguimos-lhe a «ordem» e soltámos os nossos presos. E eles lá foram não sei para onde e nós ambos para Águeda. Soubemos mais tarde que os presos se apresentaram mesmo e foram soltos na mesma hora, por quem tinha essa competência, na unidade a que iam dirigidos. Eram os tempos da revolução!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O primeiro dia do regresso, 35 anos depois...

Viegas e Neto, em Águeda, na Festa do Leitão, a 9 de Setembro de
2010, 35 anos depois da chegada de Angola

Águeda, 8 de Setembro de 2010, são pouco mais de 19 horas. O destino juntou-me à porta da Festa do Leitão de Águeda com o pai do Neto, a mãe, o irmão Albuquerque e a cunhada. «Olhe que está fazer 35 anos, precisamente neste momento, que eu e o Xico estávamos a chegar de Angola!!!...».
Sorriram-se os olhos do pai António Ribeiro Neto, gargalhando sobre mim; olhou-me de alegria a mãe, bateu-me nas costas o irmão Albuquerque e admirou-se a cunhada do meu preciosismo. Pouco mais de uma hora depois, estava eu a abraçar o Neto, na mesa da família que, na Festa do Leitão, saboreava o excelente pitéu gastronómico. «Amanhã, aqui! Ao meio dia e meio...». E assim foi!
O Neto e eu, hoje mesmo e a dois... - exactamente quando passaram 35 anos da nossa chegada de Angola... - fomos comungar essa recordação, na mesa do leitão assado à Bairrada que se comia nas festa de Águeda, bem regado com o excelente espumante bruto da zona, fresquinho e repetido (e lá foram duas garrafas!, pois não!...). E desfiámos recordações.
O Neto veio falar de uma cena, vivida a três (com o Monteiro), em Luanda  e que eu não lembrava, quando os Cavaleiros do Norte ficaram sem as G3. Sem elas, mas com granadas! Várias granadas! Defensivas, ofensivas e incendiárias...  E fomos «passeá-las» por Luanda, num autocarro, levando-as como defesa e mostrando a nossa força, nomeadamente quando tivemos de as «exibir», na passagem da avenida dos Combatentes para a D. João II - quando uns fedelhos armados e reconhecendo-nos como militares, nos insultaram e ameaçaram como quiseram.
«Não te lembras, pá?!... Rapámo-las do bolso, as incendiárias, e já íamos a pôr as mãos nas cavilhas?! Pusemos aquela garotada armada todinha em respeito...».
Assim foi, de verdade. E eu diria que eles, os jovens armados, nem teriam imaginado com quem se metiam, logo fugindo na noite e com o rabinho entre as pernas.
Recordando o incidente, saíramos nós para a cidade, numa das últimas noites de Angola, com a assumida consciência dos perigos de cada esquina, ou das ameaças de qualquer grupo armado - que podia, num ápice, roubar a vida a qualquer um. Já sem armas, que tivéramos de entregar em espólio, sobravam granadas que tinham vindo «camufladas» de Carmona, com milhares e milhares de munições - que estavam a ser queimadas no Grafanil, por ordem de quem em nós mandava.
Então, há granadas, andamos de granadas, levamos granadas!! E com elas, exibindo-as como ameaça e trunfo de guerra, lá nos livrámos de mais uma encrenca. «O pá, varríamo-los todos...», lembrou o Neto, 35 anos depois.
E, à conta desta e de outras, lá se foram duas garrafas de espumante bruto, o Baga das Caves Primavera! A acompanhar duas travessas de leitão! Ah guerreiros!!!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Adeus Angola, que vou para Portugal...

Aeroporto Internacional Craveiro Lopes, em Luanda (anos 70 do século XX)


Campo Militar do Grafanil, nos arredores de Luanda, 8 de Setembro de 1975. Poucos dos Cavaleiros do Norte, os da CCS, dormiram na noite mais longa dos 15 meses e alguns dias que fizeram a nossa comissão em Angola.
A luz rasgou o dia, num instante. Como sempre! A caserna vivera empolgamentos irrepetíveis! Comeu-se, bebeu-se e cantou-se até ao exagero! Houve até quem dançasse o merengue e abusasse um bocadinho do álcool. Nada de mais! Ainda não são seis horas da manhã e já toda a CCS, quase toda a CCS!..., está de mala aviada, sem sono e ansiosa, impecavelmente fardada, garbosa, esmeradamente escanhoada. Estão a chegar as berliets que nos vão levar ao aeroporto.
Ainda não são 8 horas e já lá estamos! Suando do calor e da emoção! E da espera na bicha que se faz para chegar ao avião. Por ali vamos todos fazendo e desfazendo sorrisos. Daí a dez/onze horas, não mais... já estaremos em Lisboa! Depois, cada qual galgará os caminhos que os levarão aos seus adros familiares, aos colos das suas casas  natais, as regaços das mães, mulheres e namoradas, aos cheiros das suas ruas de 15 meses antes.
Na hora do embarque, a mim, ao Neto e ao Mosteias, não me lembro se a mais algum imediatamente futuro ex-furriel, entregam-nos um preso! Um preso, a cada um! E lá fomos nós, de algemas dadas. Tínhamos de os entregar em Lisboa!
Acomodámo-nos no avião!!! O 707 levantou as asas e voou, voou, voou... até Lisboa - onde chegámos por volta das 6,30/7 horas da tarde. Ainda era bem de dia!
Lá nos esperava o Benício, motorista da fábrica do pai do Neto, que nos «carregou» para Águeda. Como é que está Portugal, como é que está Águeda?, este e aquele, isto e aquilo, enchemos o Benício de questões.
A estrada não era auto-estrada e as menos de duas horas de hoje, eram quatro ou cinco por aquele tempo! Parámos em Alcoentre, para comer bacalhau. Bacalhau com vinho branco, que saudades!
Já era mais de uma e meia, mais para as duas horas!, quando chegámos a casa do Neto, onde o esperava a família - o pai, a mãe, os irmãos, a namorada Eunice,  sua Ni ainda de hoje! Quanta alegria, quanta felicidade se espalhou na casa dos Neto´s!!! E eu para ali a um canto, meio esquecido, a deliciar-me de os ver tão felizes e tão exuberantes. Eu ali, a 8 quilómetros da casa onde, sem me saber tão perto, dormia minha mãe a serenidade e luto da sua viuvez.
Lá fui lembrado e veio o Benício trazer-me. Por cautela, fui bater à janela da casa de minha irmã. Truz, truz, truz, no vidro!!!... Já lá vão mais de duas horas de madrugada. Ouço meu cunhado Zé Pinheiro a acordar, sobressaltado. «Quem é?!...». Ora, quem é?, quem o acordaria àquela hora? «Sou eu!!!...«, lhe disse.
E, sem estar a ver, adivinhei a cotovelada na minha irmã. «Acorda, tá ali o teu irmão...».
Ninguém sabia que eu vinha e minha irmã levantou-se para ir acordar a nossa mãe. Isso lhe pedi. Já lá iam mais de três horas quando a senhora dona Maria Dulce abriu a porta da nossa modesta sala. «És tu, rapaz? Já vieste?!...».
Dormi com e como os anjos. Acordei com o toque das trindades da manhã, às seis e tal. Virei-me para o outro lado, mas pouco depois já estava a pé, no pátio, a abrir a porta do curral da vaca, os dos porcos, a contar as galinhas, a ouvir as badaladas das oito horas! Tam, tam, tam... Até que minha mãe chegou, já da horta, a chamar-me para o café de cevada com migas de broa. Estava em Ois da Ribeira, na minha casa! Já era 9 de Setembro de 1975, amanhã fará 35 anos!!! Um dia antes, estava em Luanda, em Angola!

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O último dia de Luanda, 7 de Setembro de 1975...

Baía de Luanda nos anos 70 do século XX

A 7 de Setembro, hoje se completam 35 anos!!..., era domingo e a azáfama foi grande no aquartelamento do  Grafanil, onde se faziam vésperas da viagem da CCS dos Cavaleiros do Norte para Lisboa.
De malas feitas e apresentação sempre bem ataviada, todos contávamos as horas, os minutos e os segundos que não mais morriam, para o nosso momento do regresso a casa. Seria a partida às 11 horas do dia seguinte, do aeroporto de Luanda - onde devíamos estar entre as 7 e as 8!!!. E onde chegaríamos, de malas na mão e coração alvoraçado, com a alma cheia de ansiedade.
Não havia sorriso que não se pudesse medir a metro! Era de orelha a orelha, era grávido de alegria, enchia todo o imenso campo militar - por onde debutaram a guerra, dezenas e dezenas de jovens militares portugueses.
"Então malta, amanhã lá vamos...", disse o Neto, gritando como só ele gritava, entre a algaraviada de sons e gritos, e ais!!!, e saltos!!!, e as patetices dos momentos que se casam com a felicidade!!, gritando na caserna dos bravos Cavaleiros que se iam fazer aos ares do atlântico, de Luanda para Lisboa!
O dia começou com alvoroços, para mim e para o Neto, que disseramos adeus a Viana logo no bem cedo da manhã e viajávamos no Honda, em que carregávamos as últimas malas e adereços. Fomos de novo «apanhados» no posto de controle que fôra da PSP, na estrada de Catete - que ia de Luanda a Viana e por aí fora, para o sul da gigantesca Angola. Já por ali nos assustáramos, numa outra vez, com a malvadez de uns imberbes armados, que nos quiseram assaltar. Desta feita, queriam eles e de novo de arma em punho, sacar-os as garrafas de whisky que tínhamos em armazém de poupanças e carreávamos para Portugal. Ai, mas quais quê, exaltou-se o Neto.
"Vocês roubam-nos mas é o car....!!! Filhos da p...", gritou ele. E vigorosamente ameaçou os vários adolescentes armados, até que veio gente adulta, que repôs a calma e lá fomos nós para o Grafanil!
Galhofámos pelo campo militar até à hora do almoço, que fomos comensar a Luanda e combinados com o PELREC de estarmos todos juntos na nossa última de Angola. Mais ou menos o mesmo fizeram os outros pelotões.

O Albano Resende, o meu amigo civil (na foto, comigo, na ilha de Luanda, com o mar em fundo...), tinha descoberto sítio de bom camarão e gambas e foi de marisco a almoçarada. Farta!, bem apetitosa!, bem regada de cerveja!, e com o inevitável bife com ovo a cavalo na sobremesa.
Andámos pela tarde dentro em juvenil galderice pela cidade e, de pé, olhámos a baía - ali ao lado da marginal, vista da sombra do Banco de Portugal. Já com a alma cheia de saudades, já com a nostalgia a engravidar-nos emoções e sentidos. Adeus Albano!, adeus Luanda!, adeus cheiros e paladares de Angola!
E lá fomos nós para o Grafanil, já sem direito a jantar. Que não havia! Sorte nossa foi alguém do grupo ter sido achado por um conterrâneo com pastelaria na capital e que, já não sei em que condições, nos levou dúzias de pasteis e garrafas de vinho branco, com que nos fomos saciando e degustando pela noite dentro.
A última madrugada africana nasceu tranquila e com toda a gente a postos, prontinha para a última viagem. A do regresso! A noite foi passada em fartas memórias e estórias dos nossos15 meses de Angola!

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O soldado Neves e o familiar da Corimba...


Hotel Presidente, na marginal de Luanda (em cima) e a estrada de Luanda para o Grafanil

Os últimos dias de Luanda foram vividos em grande frenesim, entre a balbúrdia dos cada vez mais dramáticos e repetentes incidentes urbanos e a euforia entusiasmante de quem se via já no seu adro natal. Já por aqui contei de como os dividi, mas esqueci de falar da forma familiar e amiga como, no Campo Militar do Grafanil, nos comungávamos de entusiasmos e afectos com os nossos companheiros cabos, soldados, furriéis e alferes milicianos. Se há gosto que vale a pena recordar, na verdade, é o dessa partilha solidária que, em todos os momentos, se solidificou e multiplicou entre todos.
Num dos últimos dias de Luanda, o Neves, soldado do PELREC, andava triste e amuado. Que se passaria? Coisa simples, viemos a saber, mas para ele de enorme importância: tinha um familiar (ou um amigo?, não recordo) em Luanda, que ele queria visitar desde que chegara a Angola. Mas não tinha meios. Tinha a direcção, porém, num papel já debotado dos suores de 15 meses de Angola e que já mal se lia. 
O amigo (ou familiar?) vivia na Corimba.
A coisa, para mim e para o Neto, pôs-se muito fácil: «Ó homem, a gente leva-o lá...». E levámos, no carro do Neto, achando-lhe a casa que procurava.
Ficou lá pela manhã, com o nosso compromisso de o levarmos à noite, para o Grafanil! Mas atrasámo-nos, distraídos na sensualidade e cio das noites de Luanda, e atabalhoou-se o Neves, com medo de algum castigo. Soubemos que se precipitou, mesmo, a querer ir a pé até ao Grafanil, que era a uma porrada de quilómetros, uns 14 ou 15!, mas foi "travado" pelo familiar. E finalmente lá o pegámos.
O Neves estava branco na cara e medroso na alma! Que não, que não ia ser castigado, nada!, garantíamos-lhe nós! Que não se preocupasse! Que não tivesse medo! Mas o bom do Neves foi lívido e sem uma palavra até ao Grafanil, onde o alferes Garcia fazia de oficial de dia e lá o descomprometeu. E descansou! 
Para o desafligir, ficámos algum tempo com ele, num dos bares do campo militar, com ele e outros a despejar nocais, ou cucas, ou n´golas - cervejas angolanas, bem fresquinhas e que tantas vezes nos tinham matado dores de alma.
«Mas eu não vou levar uma porrada?!...», perguntava o Neves, repetidamente, aflitivamente, camuflando-se do grupo que parodiava no bar.
«Não, homem!!...», gritava-lhe o Neto, sempre mais expansivo que eu e a azucrinar o juízo do santo do Neves.
«Ele ainda está com medo?....», perguntou o Garcia, a quem fomos dar o «até amanhã». Como lhe dissemos que sim, foi buscá-lo e ficou a conversar com ele pela noite fora. Eram assim feitos, de pormenores e de partilha, diria que de amor!..., os nossos últimos dias de Angola.
- NEVES: José Coutinho das Neves, soldado atirador do PELREC. Mora na zona de Sintra.

domingo, 5 de setembro de 2010

Os retornados no aeroporto e o câmbio de dinheiro



Retornados de Angola (foto da net) em 1975


A ponte aérea de Luanda para Portugal, de Julho a Novembro de 1975, juntou milhares de famílias no aeroporto da capital angolana. Por lá procurei gente conhecida, por mais de uma vez e insistentemente, nos meus últimos dias de África.
Metia dó! A situação em que se encontravam aqueles portugueses, à espera de um avião que os transportasse para Lisboa, era constrangedora. Procurando este ou aquele, perguntava por eles, no meio daquela tanta gente - principalmente mulheres e crianças... -, recebendo respostas que iam da indiferença à raiva, ao insulto ou ao pedido de favor. Era gente traumatizada. lia-se-lhes nos olhos e sentia-se-lhes na alma.
«Negócio» que florescia era o do câmbio -  a troca de escudos angolanos (Angolares, como lhes chamávamos) por escudos de Portugal. A 100, 200, 500, até 1000%! Sempre me recusei a esse tipo de aproveitamento e tive, por isso, um incidente, junto ao Pólo Norte.

O Pólo Norte e uma nota de 1000$00 de Angola (angolares),em baixo

O Pólo Norte (foto) era um local de culto da comunidade militar. Quando alguém se queria encontrar, ido do mato ou de outras cidades angolanas, encomendava o abraço para a esquina do Pólo Norte. E não falhava. Bebia-se por lá boa cerveja, consumiam-se bons gelados e uns bons bifes. E, bem ali por perto, estavam a Portugália, o Paris Versailes, o Baleizão, o Amazonas, os Florestas, a Mutamba..., outros pontos de referência dos militares.
Uma noite, um civil europeu reagiu muito mal à minha não receptividade ao negócio de câmbio que me propunha. Chegou a pôr uma mão no meu ombro e a abanar-me, num acto hostil a que respondi com alguma violência.
O homem, sabe-se lá a viver que drama!..., acabou por fugir entre a pequena multidão e eu, que estava com o Rocha e o Pires, fomos ao Pólo Norte comer gelados.

sábado, 4 de setembro de 2010

Avião, sim! Barco, não!!!...

Avião Boeing 707 dos TAM. Terá sido neste (ou no «gémeo») que voámos de Luada para Lisboa

 O Tomás veio agora lembrar as condições, inusitadas,  em que se processou a mudança da nossa viagem, de Luanda Para Lisboa, do navio Niassa, para o avião 707 dos Transportes Aéreos Militares - os TAM. 
O pormenor escapava-me mas, agora que ele o lembrou, assome-me à memória a visível irritação do comandante Almeida e Brito, na pequena parada do Batalhão de Intendência, no Grafanil, onde nos aquartelávamos.
Conta o (ex-1º. cabo rádio-montador Tomás:
«Afinal, porque é que viemos de avião? Alguém do pessoal de TRANSMISSÕES comunicou com o pessoal do QG e descobriu ou, melhor, veio a saber que os aviões chegavam a Luanda, descarregavam o pessoal que ia substituir-nos e voltavam vazios. Por este motivo - e só por este - o nosso Comandante, tenente-coronel Carlos Almeida e Brito, teve uma zanga séria, após uma reunião em parada, no Grafanil e connosco, no qual ele fez referência de que foi "o ultimo a saber". E foi assim o nosso último "gesto" de que, afinal, também sabemos o que queremos e como queremos. Avião, sim! Barco, não».
Contou o Tomás, está contado.
Por estes últimos dias de Luanda, de minha parte, fui fazendo despedidas do amigos civis: a família Resende, os casais Cândida/Ananias, Carlos Alberto Santiago/M. Rosário, Mário e Benedita e Neca Reis, ainda José Martinho e João Lopes Martins. Da Gabela, fui sabendo notícias das famílias do Mário Neves (irmão de Cecília), Clemente Pinheiro e Anacleto. De Nova Lisboa, falhavam as de Cecília e Rafael (que acabaram por viajar para Lisboa, via Gabão). E rareavam informações sobre os irmãos Manuel e José, primos de meu pai. Muito menos de Ivone, Sérgio e Tito, filhos de Joaquim Viegas, tio de meu pai. E nem sabia de Orlando Rino, ou dos irmãos Óscar e Nélson, assim como dos seus pais (Óscar e Zulmira).  Nunca soube, a esse tempo, de Higino Reis - que era funcionário público em Sanza Pombo. Antes ou depois de mim, todos chegaram a Portugal.
Os últimos dias de Angola foram semeados desses constrangimentos, intervalados no ambiente hostil e militarizado que se vivia em Luanda - onde, à boca cheia, se dizia que havia milhares de cubanos, disponíveis e armados para apoiar o MPLA. Nunca vi algum! 
  

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Algumas vezes tivemos a morte ao pé...


Baía de Luanda, vendo-se o porto, ao fundo (em cima). Campo Militar
do Grafanil (em baixo)

Os últimos dia de Angola foram vividos com a ansiedade natural de quem acumulava saudades e se queria ver livre dos graves problemas que se viviam em Luanda. Por exemplo, o alimentar - já não falando no dramático clima de guerra de todos os dias.
Os reabastecimentos eram difíceis - por vezes mesmo impossíveis!!!.. - e os militares das classes de sargentos e oficiais tinham de suportar os custos da sua alimentação. Se me lembro bem, recebíamos um pequeno subsídio.
Sendo já dispiciendo relatar os repetidos incidentes e o clima de perseguição e morte que se vivia na cidade, os dramas pessoais e familiares que nos eram narrados por amigos civis, a insegurança que nós mesmos (militares) sentíamos, fixemo-nos nas emoções da tropa «cavaleira» - honrada por méritos que a levaram a louvor da Região Militar de Angola.

Num dos meus últimos serviços no Grafanil - talvez o último, já não me recordo... -, fiquei acordado pela noite adentro e em fartas conversas, revivendo com alguns «pelrec´s» alguns dos momentos mais marcantes da nossa comisssão, começando pelos medos sentidos nos trilhos do Uíge - a partir de operações, patrulhamentos e escoltas do Quitexe... -, continuando pelas amarguras e tragédias (civis) vividas em Carmona e pelas incertezas de Luanda.
Retenho, de memória, um singular comentário do 1º. cabo Soares: «Algumas vezes tivemos a morte ao pé...».
Ele vivera connosco - com o pelotão de atiradores, que ele integrava... - muitas das situações mais delicadas na nossa comissão militar em Angola e esta observação tinha maior valor emocional por se tratar de um dos mais intervenientes militares do PELREC, nem sempre pelas melhores razões, um homem algo ríspido, quase insensível, habituado aos basfonds da Lisboa de então. Mas corajoso!
Passou o dedo indicador pelos olhos e adivinhou-se-lhe a convulsão que lhe fazia doer a alma, ao dizer isto. Como a nós! 
 - SOARES. Fernando Manuel Soares, 1º. cabo de Reconhecimento e Informação (PELREC). Ver AQUI uma narrativa sobre ele. Está na foto, em cima, com a arma na mão. Em baixo, o (furriel) Viegas.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A viagem que era de barco e passou a ser de avião...

Porto e baía de Luanda, vista do lado do porto. Bebidas de militares (em baixo)



A 2 (ou 3) de Setembro de 1975, os Cavaleiros do Norte tiveram uma inesperada e excelente surpresa: afinal, a nossa viagem para Lisboa seria de avião. No mesmo dia 8, a 2ª. feira seguinte.
A notícia foi recebida com euforia. Imagine-se!!! Dez dias de viagem passavam a ser meras 8 horas, mais próximos ficávamos do regresso ao colo das nossas famílias, aos cheiros das nossas terras, ao sabor da cozinha das nossas mães!!! Mais depressa saíamos da balbúrdia perigosa em que estava transformada a cidade de Luanda. E já lá iam 15 meses e alguns dias de Angola!
O encantamento da notícia provocou, porém, um pequeno constrangimento: como trazer os caixotes em que muitos de nós tinham embalado as imensas coisas que viriam no Niassa?! Não era o meu caso, pois a minha tarefa mais difícil era o transporte da «adega» de bebibas que tinha em stock. Lá resolvi a questão com a cumplicidade de amigos da Base Aérea de Luanda e com o sábio conselho do Alberto Ferreira, mandado já de Águeda: «Mete 100 ou 200$00 no bolso dos soldados que andam a carregar as malas e logo vês que te arranjam as etiquetas...». Assim foi!!!
Neste dia, baldámo-nos (eu e o Neto) do Grafanil, depois de,  ao fim da manhã e no porto de Luanda, nos terem confirmado, do «Niassa», que íamos de avião. Fomos para o Baleizão, matar as fomes do estômago e as sedes da garganta, de coração a saltar de alegria, e só de passagem estivemos no batalhão, ao fim da tarde!
Voltámos a Luanda, idos de Viana e à civil, mas com as nossas coisas mais importantes à guarda da pessoa amiga dos Correios. Não fosse assaltada a casa!
A cidade luminosa pareceu-nos diferente nessa noite. O seu bulício, os seus cheiros, os apetites que nos faziam nascer e crescer, tudo foi diverso. A jantar no Mutamba, com o Albano Resende, dei-lhe nota dessa diferença e de que já não era necessário que pusesse as cartas no correio, mas ele já tinha posto algumas. As cartas relativas ao tempo da viagem de barco!
De volta a casa, peguei na minha cassete preferida, a que me matava as saudades e gerava força moral, ouvindo-lhe os repeniques da igreja de aqui ao lado e sentindo-me como se estivesse no adro, a respirar os ares de Ois da Ribeira.
- «ADEGA». Chamei «adega» ao conjunto de garrafas de whiski. licores e bebidas brancas (foto) que, em bornal, trouxe de Angola. Ainda tenho algumas delas. 35 anos depois!!!
- CASSETE. Ver AQUI a história da cassete.
- CARTAS. Ver AQUI a história das cartas.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Os últimos dias de Luanda pareciam armadilhados...

Estação do caminho de ferro de Viana, arredores de Luanda (1975)

A meia noite e meia hora de 31 de Agosto para 1 de Setembro de 1975 foi tempo, numa rua de Viana, para uma espécie de perseguição, que me obrigou a acelerar o passo e, depois, com o Neto e o Monteiro, a ficarmos toda a noite de «prevenção».
Ao chegarmos à casa onde nos hospedávamos, idos da noite luandina (eram para aí umas 23 horas), tinha eu recado para ir a casa de pessoa amiga, que trabalhava nos Correios e morava perto. O que seria?! Certamente algum problema, o que me levou lá.
Ao regressar, com as cautelas próprias de quem caminhava numa noite mal iluminada, despistei alguns vultos armados, acelerados e a esconderem-se nas sombras das ruas. Perseguiam-me, parecia certo. Ao chegar a casa, ali bem perto, alertei os meus companheiros e pegámos em armas. Na verdade, tínhamos um pequeno arsenal em casa, levado do Grafanil e que incluía granadas ofensivas, defensivas e iluminantes, para além das clássicas G3.
O grupo rondou a nossa casa, passeando-se com os vagares de quem disfarçava alguma coisa, deixando-nos em pulgas, ansiosos e tementes. A casa, na frente, tinha um enorme descampado - de para aí uma centena de metros, até uma outra rua, paralela... - e os nossos olhos esgasearam-se pela noite fora, querendo ver o que não queríamos. Cada um de nós ficou de «sentinela», rotativamente, mas creio que nenhum dos três pregou olho. Tiros, em rajada ou isolados, rebentamento de bombas, repetiam-se regularmente.
Lá para as três/quatro horas, o mesmo grupo - supõe-se!!!... - passou pelo outro lado do descampado e ouviram-se mais alguns tiros. As G3 do trio de «rangers» que se aquartelavam na casa de Viana puseram-se em mira - uma delas com um dilagrama e granada ofensiva, para o que desse e viesse. Não deu, nem veio nada, felizmente! Mas não se ganhou para o susto. Soubemos ao outro dia que Viana tinha sido campo maninho para várias «ofensivas» de homens armados, no decorrer dessa noite.
Os últimos dias de Luanda pareciam armadilhados para os Cavaleiros do Norte. Que tinham conhecido os medos das picadas do Uíge, os perigos da guerra urbana de Carmona e agora, em Luanda (e Viana), sentiam as vésperas de regressar a Portugal semeadas de alguns medos. E muitos perigos!

terça-feira, 31 de agosto de 2010

A ida ao Niassa e os bilhetes de avião para os retornados

Bicas na baixa de Luanda, para comprar bilhetes de avião para Lisboa (net). Navio «Niassa», em baixo.


O medo de circular em Luanda medrava a cada dia que passava, disso se ressentindo principalmente a população civil. Que fugia para Lisboa, quanto podia.
O aeroporto estava pejado de pessoas, aos milhares..., e, pela cidade fora, não era raro tropeçarmos em enormes bichas de civis, à porta de agências de viagem, em busca de bilhetes de avião.
A vida na guarnição dos Cavaleiros do Norte, nas antigas instalações do Batalhão de Intendência (ao Grafanil), seguia minimamente tranquila, enquanto se riscavam os dias do calendário, até ... 8 de Setembro.
A 31 de Julho, um domingo, eu e o Neto - encarregados pelo capitão Oliveira (comandante da CCS) de fazermos a distribuição do pessoal nos beliches do «Niassa», fomos ao porto de Luanda. Para conhecimento do navio e reunião com os seus responsáveis. Não chegámos a entrar, por não estar quem tinha competência para dar luz verde à nossa missão - que ficou adiada para dia 2 de Setembro, a 3ª. feira seguinte.
Era o final da manhã e aproveitámos para flautear a vida na cosmopolita baixa de Luanda, almoçando na esplanada do Amazonas e indo comer gelados do Pólo Norte. Que luxo!...Como tinha combinado jantar com o Albano Resende, por ali andámos a cirandar - pelo 8, o 23 e o 24!!!, o Diamante Negro, a Mutamba, o Paris Versailes, a Portugália... Até que, chegado o Albano, fomos a um bar da meia alta da cidade, onde trabalhava o Neca - outro ribeirense vizinho e que eu já uma vez «achara» no Úcua, numa das minhas viagens pela estrada do café.
Já no regresso a Viana, aconteceu novo incidente no Largo Serpa Pinto, em frente ao Katekero: homens armados quiseram assaltar-nos e ameaçaram-nos. A noite «estrelava-se» de rajadas regulares e não era invulgar ouvir o estrondo de material de guerra pesado. Lá longe!!! Passámos, mas não sem mais uma vez o Neto ter de acelerar o pequeno Honda da FRAL!
«Filhos da p...!!!», gritou ele, com o pé a fundo, subindo Luanda, para a Estrada de Catete e já pelo Grafanil fora, até a Viana, onde morávamos.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O almoço para combinar correio e a ameaça de Catete



 Albano Resende e C. Viegas na Ilha de Luanda (na restinga, em cima),
o cemitério de Catete e o Hipermercado Jumbo

Sábado, dia 30 de Agosto de 1975, faz hoje 35 anos. Tenho almoço marcado com o Albano Resende, meu amigo (civil) e vizinho de aqui a 30 metros (de casa) mas que, ao tempo, está localizado em Luanda. Naturalmente, a gravíssima situação político-militar é tema de conversa na farta refeição em restaurante da ilha de Luanda, na Restinga. Meteu muitos canhângulos e pratos de camarão, antes de um recheado bife com batatas fritas e ovo a cavalo. A partida da CCS do BCAV. 8423 está marcada para 8 de Setembro, no navio «Niassa», e quero combinar com ele um esquema de correio.
O que eu queria era chegar a casa de... surpresa!
Para tal, precisava de «iludir» os dez dias de viagem marítima e de maneira a que a família e amigos não dessem por falta de correio meu, correio desse período. Para o efeito, escreveria várias cartas, dirigidas a minha mãe e pessoas mais próximas. O Albano se encarregaria de, nos dias combinados, as colocar no correio. Enquanto eu viajasse no Niassa, ninguém desconfiaria que eu já galgava os mares, para chegar a Lisboa a Águeda, a Ois da Ribeira (a minha terra).
Dei-lhe logo algumas e outras lhe entregaria nos dias 2 ou 3, lhas daria. E assim seria - até que soubemos que a viagem, afinal iria ser de avião. E no que deu isto? Em que gente houve a receber correio meu, de Angola, e eu já em casa.
Nesse dia, passei pelo cemitério de Catete - onde está sepultado José Tavares (pai do hoje meu compadre José, oficial militar francês). À saída, junto ao Jumbo - enorme hipermercado que, ao tempo, era grande atracção comercial em Luanda - e sou «espiado»por um grupo de pioneiros do chamado poder popular. Que me seguem até ao Jumbo. Estou à civil, o que complica a situação, mas ganho confiança no passo seguro, até chegar à viatura militar que me esperava. Lá passou o «perigo». A pouco mais de uma semana da viagem para Lisboa, o pior que me poderia acontecer era ter um problema. Felizmente, não o houve, mas ainda hoje sinto o frio do suor que me molhava o corpo, naquele fim de tarde bem quente, como eram as tardes de Luanda.
- JUMBO. Enorme espaço comercial na estrada da Catete, à saída de Luanda. Como são, actualmente, os grandes hipermercados de Portugal.
- CANHÂNGULO: Caneca grande de cerveja.

domingo, 29 de agosto de 2010

Embarcar com as armas apontadas para a pista...


Entrada do Campo Militar do Grafanil (em cima) e carta de Alberto Ferreira

 
«Isto não está grande coisa, mas parece-me que sempre é melhor que aí...». Era assim que Alberto Ferreira, cabo especialista da Força Aérea, me dava novas do Portugal de Agosto de 1975, a que ele chegara, de Luanda. Em carta do dia 27, dizia-me que fizera de pé na maior parte da viagem, no avião de Luanda para Lisboa. Mas «...o que me interessava era sair daí!».
Por Angola, também o BCAV. 84123 dava as últimas e o Alberto falava-me da «má informação» que circulava em Portugal sobre a situação de Angola. «Ó pá, eu nem posso falar do que sei e vi, que até parece que me querem comer...», dizia-me ela. 
Por este altura, chegou ao Grafanil um Batalhão de Intervenção e, naturalmente, procurámos gente das nossas terras. No meu caso, não achei ninguém da zona de Águeda. Mas tive uma violenta discussão com alguns militares da primeira companhia a chegar. Perguntávamos nós por novidades de Lisboa e queriam eles saber as de Luanda. Quando os avisávamos dos perigos da cidade, sugerindo-lhe as precauções que melhor entendíamos - por causa da insegurança e insuficiências da cidade... -, chamavam-nos de tropa fascista e colonialista, contra-revolucionária, sei lá que mais.
A discussão atingiu proporções muito desagradáveis, nomeadamente quando um grupo de militares do PELREC se aproximou de mim, dizendo-me que iam para a cidade e para que zona. Que não podia ser, que os praças não tinham que dar-nos satisfações, que podiam ir para onde quisessem e quando bem entendessem, sem terem que dar cavaco às hierarquias. Bom, isto, para nós, era anarquia! Para eles, era revolução!!! E bem os avisámos.
«Nós vamos embora a 8 de Setembro. Deus queira que vocês não sejam comidos e não tenham de embarcar com as armas apontadas para a pista...», alertei eu, engrossando o tom de voz, na discussão directa com um jovem alferes miliciano. Afinal, nós eramos os veteranos!
«Fascistas, colonialistas, reacionários, imperialistas !!!...», pregavam os nossos recém-chegados companheiros - a quem, em Lisboa, tinham dito que apenas precisavam de levar cremes da barba e dos dentes - que o resto, havia em Luanda. O que não era verdade. A cidade tinha problemas de abastecimentos, nomeadamente resultante da crescente fuga dos europeus.
Viriam a ter dramática estreia de fogo, no bairro do Saneamento. De tal modo, que ainda nem todo o batalhão estava em Luanda e já exigiam o regresso a Lisboa. O que nos rimos nós, de gozo..., quando fomos assistir ao plenário destes militares.
Plenário, «coisa» que não existia no nosso vocabulário. E eles queriam já voltar a Lisboa?!!! Pois, pois...
- FERREIRA. Alberto Fernando Dias Ferreira, 1º. cabo especialista da Força Aérea e meu companheiro de escola, em Águeda. Mais tarde, licenciou-se em Economia e foi quadro superior da administração fiscal. Já falecido, foi candidato a presidente e por duas vezes vereador da Câmara Municipal de Águeda.
- SANEAMENTO. Bairro onde se localizavam as residências dos governantes de Angola. O Batalhão de Intervenção teve estreia de fogo no local, que (se me lembro bem) envolveu várias mortes.

sábado, 28 de agosto de 2010

O desaparecimento do Mário e da Benedita

Portugália, na baixa de Luanda, local de grande concentação de militares. É
o edifício azul. Ao seu lado direito, ficava o jornal A Província de Angola

As escaramuças da estival Luanda de 1975 explodiam todos os dias e a vida civil continuava, com milhares de portugueses a tentarem viajar para Lisboa, fugindo da guerra que se multiplicava na capital.
Amontoavam-se no aeroporto, à espera de um voo para Lisboa e por lá andei, nesse tempo, em busca da família Neves Polido (Cecília, marido e quatro filhos, mais a mãe de Cecília - minha madrinha Isolina - como já aqui falei).
A ponte aérea começara a 17 de Julho e viria a terminar a 3 de Novembro, envolvendo milhares de voos da Luanda para Lisboa, evacuando qualquer coisa parecida com meio milhão de pessoas - muitas delas já (ou) sem raízes em Portugal.
A situação política e militar evoluía: a 22 de Agosto de 1975 e através do Decreto-Lei nº 458/A-75, Portugal suspendeu o Acordo do Alvor e, a 25, foi criada a Junta Militar, que passou a assegurar a governação em Angola. A 30 de Agosto, o almirante Leonel Cardoso tomou posse do cargo de alto-comissário.
Leio agora um aerograma de minha mãe, de Agosto desse ano mas do qual, infelizmente, não consigo despistar o dia: «Fala-se aqui que o Mário e a Benedita terão desaparecido, ou que até terão sido mortos e que também não se sabe da filha, lembrei-me que como outro dia disseste que tinhas estado em casa deles, para ires ver se sabes deles». O alarme pôs-me a caminho, para o Bairro da Cuca - onde eles moravam.
Ao passar o bairro de S. Paulo, de táxi, sentimos de novo a ameaça do chamado poder popular. Lá passámos, com a minha esperança a levedar: se os encontrar, vamos comer bacalhau ao Vilela. Mas rapidamente faleceu a ideia: a casa deles, e outras do mesmo bairro da Cuca, estavam parcialmente destruídas. Por lá perguntei por eles e por eles procurei nos escombros das casas, que ainda pareciam fumegar. Nada vi, ou ouvi sobre eles.
Pensei o pior e regressei à baixa, com a ideia de falar com Rebelo Carvalheira, jornalista de A Província de Angola -, talvez ele me pudesse ajudar!!... - e qual não foi o meu espanto quando vejo, na primeira página e em primeiro plano, os rostos de Mário e de Benedita, na frente da manifestação que, na véspera, a população branca, aos milhares!..., fizera frente ao Palácio do Governo Geral. Estavam vivos!!! Faltava descobri-los! E foi o que aconteceu, com uma dica de alguém, na frente da Portugália, ao lado do Província de Angola. «A Sacor recolheu os seus empregados e famílias, pode ser que lá estejam...». E estavam! Hoje, fui ali a casa deles (a 400 metros da minha) para reviver estes dias de Luanda.
- MÁRIO E BENEDITA. Mário Tavares Coelho e Maria Benedita Pires dos Santos, ele mecânico da Sacor, ela doméstica. Conterrâneos meus, que residiam no bairro da Cuca, em Luanda.
- REBELO CARVALHEIRA. Jornalista de A Província de Angola e, mais tarde, de A Bola. Já faleceu.
- FAMÍLIA NEVES POLIDO. Ver AQUI, AQUI.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Notícias de Portugal e o Documento dos 9...

Messe de Sargentos na Avenida dos Combatentes, em Luanda, e o Coronel Melo Antunes

Agosto de 1975 foi grávido de emoções na Luanda cosmopolita que virara «cenário de guerra», de luta pelo poder, com as forças armadas portuguesas a assumirem posições controversas, no mínimo.
Um dia, na entrada da messe de sargentos - na avenida dos Combatentes (foto) - um grupo de furriéis do BCAV. 8423 foi alvo de um confrontação formal, da parte de militares portugueses, porque, minutos antes, na avenida D. João II, tínhamos intervido no sentido de sanar uma «maca» entre militares e civis - perseguidos a tiro, estes.
Já se perdiam de conta os epítetos com que éramos «baptizados» e a eles já pouco ou nada ligávamos.
De Portugal chegavam notícias da instabilidade política, com a revolução em extremos que ainda hoje não se entenderão muito bem. Vasco Gonçalves dava os últimos suspiros dos seus sucessivos governos e os Cavaleiros do Norte suspiravam pelo regresso às suas terras, aos seus seus cheiros e famílias.
Ao Grafanil, chegou o Documento dos Nove. Que me suscitou elevada e inesperada curiosidade. Mas por o seu principal subscritor ser Melo Antunes - de quem o BCAV. 8423 recordava afirmação recente - a de que as Forças Armadas impediriam a entradas da FNLA e da UNITA na capital Luanda, depois de expulsos pelo MPLA. Todos tínhamos consciência que boa parte da irrascibilidade da FNLA relativamente a nós (Cavaleiros do Norte) se devia à posição oficial portuguesa, ouvida na Emissora Oficial de Angola, ainda estávamos nós em Carmona e anunciada por aquele Conselheiro da Revolução e membro do Movimento das Forças Armadas (MFA).
Li o documento nos primeiros dias de Agosto e interpretei-o com amigos do PELREC (e outros), num dia em que estava de serviço. Assinámo-lo.
Documento dos Nove, ver AQUI.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Louvor ao Batalhão de Cavalaria 8423


A Região Militar de Angola louvou o Batalhão de Cavalaria 8423, evidenciando «o espírito humanitário que o guindou a posição de grande admiração e respeito, pela forma como conseguiu, em atitude de perfeita isenção, proteger todos os que às suas instalações se acolheram e, posteriarmente, manter a mesma atitude, para finalmente cumprir com brilhantismo uma das que certamente foi a sua mais delicada e difícil tarefa».
O louvor foi publicado na Ordem de Serviço nº. 68 da RMA, a 26 de Agosto de 1975, faz hoje 35 anos.Transcrevêmo-lo na íntegra, facilitando a leitura da imagem que o reproduz 


LOUVOR





Louvo o BCav 8423 porque durante o tempo em que prestou serviço no Norte de ANGOLA, nas áreas do QUITEXE e de CARMONÁ, manifestou sempre uma grande determinação, uma constante vontade de bem cumprir, um elevado espírito de disciplina e uma noção perfeita de como uma Unidade se deve adaptar às tarefas que haja que executar de perfeita harmonia com as determinações dos seus superiores hierárquicos.
Da sua acção muito beneficiaram as populações locais de todas as etnias pois pelo justo e equilibrado tratamento das missões que o BCav 8423 cumpriu ressaltaram, além das características já referidas, a aplicação de um espírito humanitário que o guindou a posição de grande admiração e respeito pela forma como conseguiu, em atitude de perfeita isenção, proteger todos os que às suas instalações se acolheram e posteriarmente manter a mesma atitude, para, finalmente, cumprir com brilhantismo uma das que certamente foi a sua mais delicada e difícil tarefa.
Da acção de todas as suas Praças, Sargentos e Oficiais se fica a dever, tanto na área do QUITEXE como na de CARMONA, o estabelecimento de um clima de segurança efectiva pelo que é com a maior justiça que em simples louvor se leva ao conhecimento de todos a forma como o BCav cumpriu a sua missão, dentro do maior espírito de disciplina, evidenciando qualidades hoje já muito raras, constituindo assim uma Unidade que mercê da acção do Comando e seus graduados nunca conheceu a chamada crise de disciplina, cumprindo exemplarmente todas as tarefas de que foi incumbido, grande parte delas em período muito sensível do processo de descolonização de ANGOLA.
OS/RMA n.° 68, de 26AG075

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Os detidos no quartel da DGS de Carmona

Fatima e José Bernardino Resende (com as filhas), o irmão Albano
Resende (sobrinha à frente), furriel Viegas e capitão Domingues, em Luanda

Os últimos dias de Luanda, e de Angola, foram vividos com bastante tensão. E intensidade. Não é excessivo recordar que a insegurança medrava na cidade, sentia-se, e todos os dias tínhamos notícia de macas. Algumas das quais quase nas nossas barbas. Por mim, feitos os serviços de ordem, passeava-me por Luanda e encontrando-me com amigos: o Alberto (que acabava a sua comissão no Força Aérea), o Nuno (furriel dos Comandos), os irmãos Resende, a Cândida e marido, o Mário e a Benedita, o Neca Taipeiro, o José Martinho. A um dia de finais de Agosto, reencontrei o capitão Domingues, primo de Fátima Resende, e recordámos uma história pouco agradável de Carmona - onde ele prestara serviço na ZMN.
Era domingo, eu estava de PM, e jantava na messe quando fui chamado pelo oficial de dia: tínhamos de ir ao antigo aquartelamento da DGS/Flechas, buscar três civis presos pela FNLA - pelas que seriam as Forças Integradas, sem MPLA. Um deles, amigo do capitão Domingues. Poupando palavras, lá fomos nós (eu, o Almeida e o Marcos), no jipe conduzido pelo Breda - que ficou à entrada do aquartelamento, com o motor em funcionamento.
O oficial de dia não estava (!!!!), o sargento de dia estava, mas semi-embriagado. E quanto a soltar os presos, está quieto!!! Nem sequer nós éramos portadores de qualquer mandato de soltura. Esgotei os meus argumentos e, já dentro do aquartelamento, convenci o sargento a deixar-nos ver os civis detidos. Que não, que não... Mas fomos! O sargento abriu a porta da cela e os três homens (ou eram quatro?) ficaram estupefactos. Mas sem uma palavra, suando frio.
«Vá lá, saiam!...». Mas eles não saíam, com medo de serem abatidos. Suponho! O sargento cambaleava e, moita-carrasco, nada de soltar os homens. O Marcos, então, puxou um dos detidos pelo braço e incentivou-o a sair. O sargento não reagiu e lá saímos todos.
O Breda mantinha o jipe trabalhar, atabalhoámo-nos todos por cima da viatura e ala que se faz tarde.
O capitão Domingues, nesse almoço de Agosto em casa dos irmãos Resende, lembrou-me o nome do amigo, mas não sabia o dos outros. E eu, 35 anos depois, não me lembro sequer da cara deles. Lembrando, porém, o espanto com que nos viram entrar na cela e os livrámos das garras da prisão!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O poder popular entre Catete e o Grafanil...

 de

Entrada do Campo Militar do Grafanil onde, no espaço do desactivado Batalhão de
Intendência, se instalou o BCAV. 8423, a 3 de Agosto de 1975

A nossa chegada ao Grafanil, ao fim da manhã de 3 de Agosto de 1975, resultou numa profunda decepção para os militares da CCS do BCAV. 8423. As instalações estavam imensamente degradadas, sujas, com móveis e camas partidas, com cheiros horríveis a empestar o ambiente - resultantes do lixo acumulado, de restos de comida e de sabe-se lá o que mais.
A prioridade da CCS foi promover a sua própria instalação e, no dia seguinte, limpar, desinfestar, pôr minimamente asseadas as instalações onde iriam ser colocados os nossos companheiros que, por terra, viajavam desde Carmona e que nós entretanto sabíamos com algum atraso e alguns problemas.
Comida, não havia - tivemos de nos socorrer de rações de combate. E cada qual, a não optar por elas, teve de se desenrascar nos aquartelamentos onde tivesse um amigo, ou no «mercado» civil. Foi o que aconteceu  a mim e ao Neto, com a sorte de termos encontrado o conterrâneo Gilberto Marques (civil), que nos levou a passear a Viana e, vejam lá..., nos pôs à disposição uma vivenda. Onde nos instalámos, com o Monteiro, até 7 de Setembro de 1975 - dia da nossa partida para Lisboa.
Logo nesse dia, «conhecemos» o «poder» do «poder popular»: fomos interpelados e ameaçados no posto da PSP entre o Grafanil e Catete. Apontaram-nos as armas, chamaram-nos os nomes que quiseram, impediam-nos de passar, gritavam slogans contra Portugal e os olhos desorbitavam-se-lhes. Queriam agredir-nos e prender-nos, sabe-se lá mais o quê.
Íamos na viatura do Gilberto e a «coisa» não foi nada fácil. O Neto chegou a perder a paciência, sentimos no corpo os arrepios do medo e fomos ajudados pela chegada de um grupo de militares adultos e dois PSP`s, que intervieram em boa hora.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O navio Niassa passou a avião...

Navio «Niassa», no qual o BCAV. 8423 chegou a ter viagem marcada. Acabámos por voltar a Lisboa de avião

A 23 de Agosto de 1975 fui, com o Neto, «nomeados» responsáveis pela carga e instalação dos praças no navio Niassa. Faltava esta!! Então e eu lá sabia alguma coisa disso? Ou o Neto?! Mas foi uma ordem do capitão Oliveira e não a discutimos. E, não a discutindo, também nos púnhamos a descoberto de qualquer perigo disciplinar.
E como é que se faria isso? Pois o barco estava em viagem de Lisboa, atracaria, descarregaria e teria de ser feita a distribuição do pessoal e bagagens, para os 10/12 dias que se previam de viagem pelo mar. Até Lisboa.
«Receberão a planta do barco, em tempo devido», disse-nos o capitão Oliveira.
Encarámos a ordem até com um certo interesse, pois poderíamos, eventualmente, aproveitar este nosso «comando» para, para com alguma facilidade, introduzir mais uns caixotes de pessoas amigas que, em Luanda, deseperadamente, nos pediam para as ajudar. Inclusivé, a minha cubicagem - que eu não iria usar.
Chegámos a estar no barco, mas, felizmente para nós, acabámos por viajar de avião, a 8 de Setembro de 1975.