segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A epopeia que foi deixar Carmona, a solidariedade e a amizade...

Pioneiros, adolescentes armados. O chamado Poder Popular (foto da net)

ANTÓNIO ALBANO CRUZ
Texto (continuação)

Ao chegar ao Grafanil, recordo-me de ter falado com um reporter inglês e de sermos filmados com um “garboso” militar do MPLA, com menos de 14 anos de idade, de camuflado e Kalachnikov, que estava ali a fazer guarda.

Não se pense que a imagem deste soldado - e a de outros como ele - me causou qualquer estranheza, ou espanto, pois tive a oportunidade de apreciar outras, tanto ou mais bizarras e surreais.
Em Salazar, por exemplo, a de uma patrulha de 6 soldados num «burro do mato» (Unimog 411), um com uma vistosa gravata por cima do camuflado; outro, de sobretudo beje impecável, um outro com um véu de noiva e, ao lado do condutor, o comandante da força, o maior..., de chapéu de palha enfiado.
Imagine-se as pilhagens que por ali não houveram!
Naqueles dias, a azáfama e as emoções foram tantas que eu, que normalmente andava com o gravador e as máquinas de fotografar e filmar, quase nada tenho sobre esta coluna de militares e civis. Quanto ao resto, resta-me a esperança de um dia passar alguns filmes super 8 para DVD e recuperar algumas gravações e fotografias.
Penso que a adversidade de uns e as dificuldades de outros proporcionaram momentos de solidariedade e até amizade que noutras condições não eram possíveis. Ultrapassados os complexos, os constrangimentos, os ódios e ressentimentos gerados com a descolonização, começa a ver-se fazer a história das estórias de todos nós, Portugueses, que nasceram ou viveram ou lutaram nas províncias ultramarinas e estou convicto que a epopeia que foi deixar Carmona e trazer connosco milhares de retornados será, um dia, um bom pretexto para um livro e um filme.
A. A. CRUZ
Alferes miliciano
(continua)

domingo, 15 de agosto de 2010

A Scânia abandonada e os jeeps enterrados no Grafanil...

O pelotão do Parque-Auto, comandado pelo alferes Cruz (quarto, em cima, da esquerda para a direita, de bigode), seguiu na coluna de Carmona para Luanda. 1º. sargento Aires (o terceiro, de óculos) e furriel Morais (de óculos, quarto da 2º. fila, da direita para a esquerda). Entrada de Lucala (em baixo)


ANTÓNIO ALBANO CRUZ
Texto (continuação)

Já perto do Lucala, um camião Scânia, contratado a um civil e carregado com dois jeeps e o material e equipamentos de manutenção-auto, estava com problemas nos travões. Rapidamente os nossos mecânicos detectaram um tubo do circuito de travões inutilizado. Tentou-se tudo, mas não conseguimos resolver o problema. Colocado  ao nosso comandante, o tenente-coronel Almeida e Brito, via rádio, pois a coluna tinha vários quilómetros de comprimento, a ordem mais uma vez foi: «Salvem o que puderem e deixem ficar a viatura...».

O dono da Scânia estava desesperado e implorava por Deus que o deixássemos continuar, pois avançaria com todo o cuidado e, em Salazar (Dalatando), que já não estava longe, haveria de encontrar alguém que lhe resolvesse o problema. A Scânia era o bem mais precioso que lhe restava e ainda acalentava a esperança de, com ela, chegar à Africa do Sul. Permitimos que continuasse no fim da coluna, devagar e com muito cuidado mas, passados 5 ou 10 quilómetros não consegiu segurá-la e a Scânia caiu numa valeta. Aí, já não havia tempo a perder e tivemos que a deixar.
Ao chegar a Luanda (Grafanil), tivemos de fazer os autos de extravio dos jeeps e alguns equipamentos e como se isso não bastasse - só quem os fazia sabia o que custava... - passados alguns dias recebemos uma mensagem do batalhão de Salazar a dizer que tinham lá dois jeeps e que os fossemos buscar. Tentámos esquecer a mensagem pois os jeeps já não faziam parte do nosso inventário, mas passados uns dias lá estavam eles no Grafanil.
No meio de toda a confusão gerada com o aproximar da partida e da independência, o mais fácil era fazer desaparecer os jeeps - que acabaram por ser enterrados.
Recordo ainda que, a meio da viagem e sob tensão e muita expectativa, o nosso Comandante recorreu a Daniel Chipenda para podermos continuar em segurança. Recordo que fiz a viagem num Land Rover, que pertencia à PIDE/DGS de Carmona, e que nas duas noites de viagem, foi debaixo dele que descansei.
A. A. CRUZ
Alferes Miliciano
(continua)

sábado, 14 de agosto de 2010

Paiol a arder e rebentamentos contínuos em Carmona

Alferes Cruz (1º. plano) e furriéis milicianos Viegas e Machado


ANTÓNIO ALBANO CRUZ
Texto

A coluna militar saiu de Carmona para Luanda no dia 4 de Agosto de 1975, fez agora 35 anos.Os dois dias e meio da viagem e os que os antecederam foram dias que não esqueceremos fácilmente.
Ao pelotão-auto, que praticamente integrou na totalidade a coluna, requeria-se alguma responsabilidade quanto aos combustíveis e operacionalidade das viaturas que a integravam. Relativamente aos combustíveis e lubrificantes, era importante que não faltassem às viaturas militares mas havia que socorrer também as viaturas civis fretadas pelas nossas tropas e todas as civis ligeiras e pesadas que nos acompanhavam. Penso que fizemos tudo o que era possível para, até à ultima hora, satisfazer e consolar todos, não apenas relativamente aos combustíveis e transporte mas também a bens pessoais esquecidos - como o BI ou certificados de habilitações e outros documentos, ou umas simples fotografias de família, que os retornados não queriam nem por nada perder.
Era angustiante ver o desespero daqueles que, querendo salvar o mínimo imprescindível, se viam obrigados a deixar tudo, só porque lhes faltava segurança, transporte ou combustível.
Fui dos ultimos a sair de Carmona e recordo-me termos deixado a parada do quartel cheia de mobiliário e uma sala cheia de todo o tipo de armas empilhadas. Lembro-me ainda que quando já iamos a uns quilómetros de Carmona, ouvimos uns fortes estrondos e, olhando para trás, vimos o paiol de munições a arder e com rebentamentos contínuos.
Fiz a viagem praticamente na cauda da coluna, logo à frente da companhia de pára-quedistas que a fechava, e isso permitiu-me ver o que ficava para trás. E o que ficava para trás mexia connosco, a uns mais que outros, e recordo-me, por exemplo, de ver que, num acto de desespero e com granadas, se destruiu uma viatura e o que nela se encontrava.
“Se não podemos levar a Berliet, também não fica para eles …”, ouviu-se.
A. A. CRUZ
Alferes miliciano
(continua)

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Disparos e voos rasantes dos FIAT´s da Força Aérea

Helicanhão (em cima) e Fiat da Força Aérea Portuguesa apoiaram o movimento da coluna do BCAV. 8423, de Carmona para Luanda - de 4 a 6 de Agosto de 1975 (fotos da net)


MANUEL DEUS
Texto

Passado o episódio dos heli-canhões (ver ontem), recomeçámos a nossa viagem, agora com os ouvidos mais apurados, não fosse o diabo tecê-las.
Entretanto, a coluna não parava de aumentar. Por cada povoação que passávamos, por mais pequena que fosse, havia sempre quem se juntasse a nós. Fazia pena ver as famílias a separarem-se. Ficavam os homens e partiam as mulheres e crianças.
A viagem decorreu sem problemas, até que chegámos ao limite, digamos assim, do domínio da FNLA. Aí, eles jogaram a última cartada. Como é sabido por relatos anteriores, os FNLA queriam que lhes entregássemos os carros, armas, enfim tudo. Como isso não aconteceu, nem podia acontecer de forma alguma, tinham a última chance de nos experimentar.
Desta vez, foram os FIAT da Força Aérea, com os seus disparos e voos rasantes, bastante sonoros e eficazes, que puseram cobro à situação.
Foram duas situações com muito stresse, a juntar à outra do Quitexe,descrita noutro relato, que marcaram.
Como a viagem durou dois dias, tivemos uma noitada de completa vigia, em que cada um se tentou proteger o melhor possível do muito cacimbo, frio e ansiedade...
Recordo-me de me ter deitado debaixo do unimogue, sobre o alcatrão.
Manuel Deus
1º. cabo op. cripto da 3ª. CCAV. 8423

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Ataque da FNLA à coluna para Luanda

Militares da 3ª. CCAV. 8423 com alguns civis da coluna militar


MANUEL DEUS
Texto

As colunas militares que transportavam os caixotes com os haveres das tropas foram impedidas de avançar para Luanda. Já aqui se falou disso. E creio que esse transporte só foi conseguido à terceira tentativa.
Assim, e depois dos acontecimentos de Luanda (era dito pela FNLA que Rosa Coutinho tinha entregue armas, munições, carros, etc. ao MPLA) e das ameaças às tropas portuguesas feitas pelo FNLA, em Carmona, argumentando com os acontecimentos de Luanda, ninguém, mas mesmo ninguém, esperava qualquer tipo de facilidade na saída da coluna final.
A 3ª. Companhia do BCAV. 8423 já tinha experiência de «entregar as chaves», primeiro as da fazenda de Santa Isabel (pacífica...), depois as de Quitexe (em ambiente escaldante!!!) e tinha agora, com a 2ª. Companhia, uma Companhia de Comandos e outra de Pára-quedistas (muito "cacimbados", dizia-se, de comissões de serviço em Moçambique e na Guiné), tinha agora uma missão muito mais delicada. Não se tratava de entregar só as chaves, mas fazer todo um percurso de retirada.
Confesso que depois da tantos anos, só me lembro (se calhar felizmente) de passagens que marcam qualquer um para toda a vida. Por isso, desde já lanço o desafio a quem melhor se lembrar dos acontecimentos (estou seguro que haverá quem...), venha ao blogue dizer de sua justiça.
Feitos os preparos logísticos, as quatro companhias partiram no 4 de Agosto de 1975, bem cedo, de Carmona. Havia que avançar o mais possível.
À medida que o conta-quilómetros avançava, a coluna ia-se estendendo, com viaturas civis intercaladas com as militares.
Seguia à frente a Companhia de Comandos, depois as duas companhias do BCAV. 8423, civis e, a fechar, os Páras.
Com muitos quilómetros já feitos, passávamos num vale e tivemos "festa"! Colocados em pontos mais altos, os guerrilheiros da FNLA fizeram-se anunciar através das suas «kalaches». Imediatamente, a coluna abrandou, de forma a podermos ficar mais juntos e menos expostos. As nossas tropas responderam, mas foram dois héli-canhões que nos deram uma grande ajuda, espantando a «caça». Pelos vistos, eles nunca gostaram muito de «objectos voadores!»
Não acaba aqui...
MANUEL DEUS
1º. cabo da 3ª. CCAV. 8423
(continua)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Razões humanitárias na razão da coluna terrestre

Militares da 3ª. CCAV. do BCAV. 8423 na coluna de Carmona para Luanda


MANUEL DEUS
Texto
A coluna de Carmona para Luanda incluía a 2ª. e a 3ª. Companhias do Batalhão de Cavalaria 8423. A viagem por terra era absolutamente necessária, pois era impossível que todo o batalhão utilizasse o meio aéreo para regressar a Luanda. Por questões de logística, dado que seria impossível proceder ao transporte de toda a frota automóvel, as armas, munições e diverso material, utilizando o meio aéreo.
Por questões de segurança, dados que os últimos a sair seriam um alvo demasiado fácil de abater.
Por questões humanitárias, pois a retirada das tropas por terra era (e foi) a única forma de garantir protecção à população civil da região do Uíge e todo o corredor de Carmona a Luanda, via cidade de Salazar.
Os civis africanos, mas principalmente os europeus, queriam dirigir-se a tudo o custo para Luanda, dadas as ameaças de que eram alvo por parte dos movimentos de libertação, que lhes provocavam ansiedade e a certeza de que tinha chegado o momento de salvar os dedos e as vidas.

Os anéis, esses estavam irremediavelmente perdidos.
Houve ainda vários chefes de família que mandavam as mulheres e as crianças, ficando eles numa última tentativa de poder salvar mais alguns bens, ou na esperança de que as coisas não fossem tão más como a realidade mostrava.

A coluna militar, ou melhor civil-militar (a certa altura eram mais civis do que militares), chegou a Luanda com quilómetros de comprimento.
MANUEL DEUS
1º. cabo da 3ª. CCAV. 8423

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Dever cumprido!

Entrada principal do Campo Militar do Grafanil, nos arredores de Luanda,
antes de Viana e na estrada de Catete


Os bravos Cavaleiros do Norte, chegados de Carmona por via terrestre, tiveram um curso período de repouso, nas instalações do Batalhão de Intendência do Grafanil - minimamente «higienizadas» pela CCS que chegara dias antes. Foi tempo de alguns «avisos» sobre como sobreviver em Luanda, reagir às provocações e às emoções.
A cidade ciactrizava as consequências dos combates que levaram ao MPLA a expulsar a FNLA e a UNITA e o ambiente era muito hostil à tropa. Mais ainda ao BCAV. 8423 que, por ser de formação pré-25 de Abril, era apontado como colonialista e, pior que isso, contra-revolucionário. Pelos próprios militares portugueses, que nos apontavam dedos e  acusações que nós não entendíamos. Chegaram a acontecer algumas confrontações, felizmente sem consequências especiais.
O batalhão ficou a cumprir missões de unidade de reserva da Região Militar de Angola e teve esporádicas intervenções na cidade. Nomeadamente, num grave incidente no Bairro do Saneamento - onde viviam vários membros do Governo Provisório de Angola - ali valendo a uma companhia de intervenção recém-chegada de Lisboa, muito revolucionária e ainda mais mal preparada, que se viu «emboscada» entre dois fogos. 
A necessidade de responder aos compromissos tomados com os movimentos de libertação, quando aos efectivos militares a estacionar em Angola, reduziu as comissões militares para 15 meses - o que nos antecipava a partida, para Setembro (como veio a acontecer).
«Sem pretender fazer doutrina sobre factos passados, mas ainda bem presentes, julga-se que bastará sentir-se que se parte com a consciência de haver cumprido o dever que nos solicitaram e que nem sempre foi fácil de cumprir», considerou, então, o comandante Almeida e Brito.
E havia a certeza dessa consciência? «Julga-se que sim», considerou o tenente-coronel que liderou os Cavaleiros do Norte, demasiadamente modesto na sua opinião, tendo em conta a odisseia que se tinha acabado de viver e que, pela frente, ainda tinha dias muito incertos. 

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A chegada ao Grafanil, com reportagem da BBC...

Dondo (em baixo) a Luanda, 174 quilómetros da última etapa da coluna do BCAV. 8423, de Carmona até ao Grafanil - assinalado no ponto pequeno, a vermelho. A chegada teve cobertura da BBC


Dondo, a 174 qulómetros de Luanda, foi a segunda e última noite de descanso e vigilância da coluna dos Cavaleiros do Norte. Noite de alvoroço e expectactiva. Para trás, ficavam já dois dias e duas noites de vários perigos, de viaturas abandonadas, barreiras armadas e agressivas, ameaças e dramas - principalmente vividos pela comunidade civil.
«Havia barreiras na estrada, com homens armados a impedir a passagem dos carros e alegando que quem fosse nascido em Angola não passava...», recorda-se Eugénia Duarte, ao tempo com dez anos e nossa contemporânea no Quitexe. Uma das civis que integrou a coluna.
A coluna arrancou do Dondo às 7 horas da manhã. Às 10, foi sobrevoada por dois aviões Fiat e um helicóptero, este com uma equipa de reportagem da BBC. Às 11, passou por Catete e o Grafanil recebeu-a a partir do meio dia, com um tempo de escoamento de 45 minutos. Terminava, assim, o movimento do Batalhão de Cavalaria 8423 de Carmona para Luanda, após 570 quilómetros e 58,45 horas, trazendo entre 700 a 800 viaturas. Sem uma morte!!! Sem um ferido!!!
Terminava também a odisseia de milhares de civis que, à chegada a Luanda, choravam por se sentirem salvos.
A missão, considerou na altura o comandante Almeida e Brito, «terá sido a mais difícil do batalhão, mas também a que bem demonstrou o seu «querer e saber querer», conduzindo uma operação que, forçosamente, terá de ser um pilar bem marcante da sua história».
Recordo-me da chegada ao Grafanil, ainda na estrada Catete, depois de Viana. Muitos de nós, armados quanto podíamos, fomos esperar a coluna. Foram momentos particularmente emocionantes, entre a alegria do reencontro com os nossos companheiros e o olhar dos dramas vivos dos civis - que choravam e riam, se abraçavam uns aos outros e aos militares e reencontravam com amigos e familiares de Luanda. Sentiam-se a salvo, depois das tragédias que cada qual viveu na província do Uíge e no decorrer da coluna.

domingo, 8 de agosto de 2010

O helicóptero alvejado entre Lucala e Salazar...

O itinerário da coluna militar que saiu de Carmona para Luanda, assinalado a vermelho. O percurso mais curto, a verde, estava «impedido» no Caxito e Cacuaco (clicar na imagem, para a ampliar)



Samba Cajú ficou para trás às 6,30 horas de 5 de Agosto mas logo depois, no controlo à saída da vila, na estrada para o  Luanda, «surgiram novas dificuldades, novamente torneadas», mas que levaram a um atraso de mais de duas horas.
A marcha foi retomada às 8,30 e chegou-se a Vila Flor às 11 da manhã, debaixo de um calor tórrido e a mesma ansiedade e nervosismo. O que vai acontecer?! As dificuldades logísticas aumentavam e cada quilómetro galgado na estrada era sempre um tempo expectável para qualquer escaramuça. Essencialmente porque as forças locais que se cruzavam com a coluna não queriam deixar passar os civis. E apareciam gente de todo o tipo, adultos e adolescentes, armados e ameaçadores.
Mais viaturas de civis se juntaram em Vila Flor, casando as suas esperanças de «fuga» na protecção militar. Entrou-se, logo depois, em «terra de ninguém», nem da FNLA, nem do MPLA, e ordenou-se uma paragem, para reagrupamento das largas centenas de viaturas - numa coluna que, em alguns momentos, terá atingido os 20 quilómetros, entre a frente e a rectaguarda.
Os helicópteros estacionados em Salazar (actual Dalatando) continuavam às ordens da coluna e foram «requisitados», para reconhecimento do itinerário. Um deles foi alvejado. Confirmava-se a pior suspeita: o MPLA estava disposto a tudo, para evitar a passagem da coluna. Mais negociações. Recordo-me de o comandante Almeida e Brito me contar, em Coimbra (nos anos 80, era ele 2º. comandante da Região Militar Centro) que o segundo dia foi decisivo e dramático. A designação «terra de ninguém», na prática,  significava que tudo podia acontecer. E o ataque ao helicóptero foi um mau sintoma. Valeu a acção negocial terrestre, num contacto directo com o MPLA, por volta das 13,30 horas.
Há distância de 35 anos, feitos há três dias, podem imaginar-se os constrangimentos, os medos, as dores que se sentiram na dramática coluna de 700 para 800 viaturas que ia de Carmona para Luanda, depois do ataque a um meio aéreo.
Em Lucala, por volta das 14 horas, abandonou-se outra viatura e seguiu-se Salazar. A cidade demorou quatro horas a atravessar, entre as 16 e as 20, «dado terem de se resolver inúmeras avarias». Abandonou-se mais uma viatura e a coluna retomou a marcha, «incorporando na testa uma companhia de pára-quedistas que se encontrava de reserva», no Comando Territorial de Salazar.
Chegou-se ao Dondo às 23 horas, com nova interrupção de marcha e descanso.

sábado, 7 de agosto de 2010

A chegada da coluna a Samba Cajú

Samba Cajú, em 2006, foto de Jorge Cruz. Por aqui passou e estacionou
a coluna militar do BCAV. 8423, de 4 para 5 de Agosto de 1975

As dificuldades vividas no Negage «esgotaram os nervos» da coluna saída de Carmona para Luanda. Mas, cito o Livro da Unidade, «estavam vencidas das primeiras dificuldades».
A coluna, já reorganizada e agora com cerca de 700 viaturas -  entre militares e civis!... - arrancou da cidade às 18 horas de 4 de Agosto de 1975 e, uma hora depois,«sem problemas», passou o controlo de Camabatela - onde «recebeu» mais dezenas, talvez centenas de civis.
«Foi o renascer da esperança para essa gente, foi o acreditar na missão das NT», lê-se no Livro da Unidade, em referência aos civis «colados» à coluna militar.
Tiros, ameaças, deflagrar de bombas, mais perto ou mais distantemente da coluna militar, foi «hábito» de ouvir que rapidamente se criou, entre todos - militares e civis. Às 20,30 horas desse mesmo dia 4 de Agosto de 1975, estacionaram em Samba Cajú, para pernoitar, refazer estratégias, reparar viaturas, comer e descansar - sempre de vigilância atenta, pois não era bem-vinda a sua passagem, quer pela FNLA quer pelo MPLA.
O pelotão-auto da CCS, que na sua quase totalidade integrou a coluna, tinha a responsabilidade quanto aos combustíveis e operacionalidade das viaturas e aqui se apostou e ganhou na competência do alferes Cruz e dos seus homens.
«Era decisivo que não faltassem combustíveis e lubrificantes às viaturas militares mas havia também que socorrer as viaturas civis fretadas pelas nossas tropas e todas aquelas civis ligeiras e pesadas que nos acompanhavam», recordou, agora, o então alferes Cruz, que pouco descansou nesses dois dias e meio de viagem e debaixo do Land Rover que lhe serviu de transporte.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

As dificuldades na saída de civis em Negage

A cidade do Negage, por onde passou e teve problemas a coluna militar do BCAV.
8423, a 4 de Agosto de 1975. Mas os civis não foram abandonados

A 4 de Agosto, dia primeiro de saída da épica coluna militar de Carmona para Luanda, duas viaturas foram abandonadas ainda antes de chegar a Negage. Uma outra, pesada, foi rebocada até à cidade e aqui mudada a carga e abandonada a viatura, já inoperacional. A ordem era avançar, todas ficariam para trás. Destruídas.
Negage estava «pejada de viaturas», que a FNLA proíbia sair. «A FNLA, em peso, proíbe a saída, à excepção das viaturas privadas da coluna militar», lê-se no Livro da Unidade. As conversações com a FNLA «foram improfíquas». E, por outro lado, «tentadas plataformas várias, bateu-se sempre em falso».
Os civis que seguiam «colados» à coluna militar e os que se juntaram no Negage, «sentiram-se abandonados e entregues à sorte do querer da FNLA», convencidos que as Forças Armadas Portuguesas os abandonariam. Assim não aconteceu e os Cavaleiros do Norte, comandados no terreno pelo tenente coronel Almeida e Brito, mantiveram a sua postura de defesa integral dos interesses civis. Custasse o que custasse.
Procurou-se uma outra solução para a sua saída e, efectivamente, às 16 horas de 4 de Agosto de 1975, reuniu-se Almeida e Brito com Daniel Chipenda e obteve-se  permissão para o trânsito da quase totalidade dos civis. Só uma pequena parte de camionistas «não conseguiu resolver o seu problema». Escapa-nos a razão para a não partida destes camionistas.
A CCS, então já com a 1ª. CCAV., preparava as instalações do Batalhão de Intendência do Campo Militar do Grafanil e arcava, em Luanda e sem reacções extemporâneas, a hostilidade cada vez mais evidente da maioria dos militares portugueses relativamente aos Cavaleiros do Norte.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A saída, o controlo da FNLA e os Fiat´s da Força Aérea



Os incidentes provocados pela FNLA, com os civis fugidos para o Negage, levou a um atraso de 8 horas na marcha da coluna - que passou no controlo da FNLA do Candombe com 210 viaturas e em cerca de meia hora de escoamento.
O problema era fácil de entender: opunha-se a FNLA à passagem da coluna, poque ia para uma área do MPLA; não queria deixar o MPLA, porque a tropa vinha de uma área da FNLA. «Houve que preparar o movimento com os cuidados que tal requeria, dado saber-se a oposição que a FNLA dizia ir fazer e dado saber-se também ir atravessar-se uma zona de conflito armado entre MPLA e FNLA, para depois prosseguir numa área de interesse do MPLA, dominado por este e pelo seu poder popular», refere o Livro da Unidade. 
Entrou na lenda desta movimentação o histórico «impedimento» provocado pela FNLA - entre Carmona e Negage, a 4 de Julho de 1975. Já farto da impertinência dos «fnla´s», o comandante Almeida e Brito terá ponderado o uso da força. E terão sido dadas instruções preparatórias nesse sentido, imediatamente antes de mais uma "ronda negocial". Imagine-se o constrangimento destes momentos, a dor que varre a alma dos que se vêem, de um momento para o outro, na iminência de um combate quase corpo a corpo. E que consequências teria!!!...
A situação foi resolvida com uma daquelas milagrosas sortes, que parecem anedota: pegou o alferes Garcia num AVP-1 (rádio conhecido por banana), de capacidade de comunicação terra/terra, nunca terra/ar, nunca com aviões e muito menos com os Fiat´s. Pois o alferes Garcia simulou um contactou com os pilotos dos aviões de caça, e soltou a ameaça imediata: «Ou param com isto, ou são esmagados pelos Fiat´s!!!...». Acreditaram os «fnla´s» e prosseguiu a coluna. Assim se poupando sabe-se lá quantas vidas.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

O êxodo de Carmona para Luanda. Saída da capital do Uíge!

Entrada/saída de Carmona para o Negage.Por aqui passou a coluna militar para Luanda, a 4 de Agosto de 1975, para uma viagem de de dois dias e meio e duas noites e que chegou a ter 700 viaturas

Amanheceu Carmona, a 4 de Agosto de 1975, com a última alvorada da guarnição do BCAV. 8423, para a épica coluna militar para Luanda. Nada e ninguém impediria o seu avanço - fortemente apoiada pela Companhia de Comandos, a que se juntou a de Páraquedistas, com a guarnição do Negage. E os helicanhões que a sobrevoavam. E os Fiat´s da Força Aérea, chamados de «já passou» pelos naturais.
A população civil, e cito o Livro da Unidade, «conhecedora do movimento das NT, insegura no seu dia a dia, descrente do seu futuro e receosa de quaisquer represálias, resolveu-se pelo êxodo e começou a sentir-se que iriam a companhar a nossa coluna centenas de viaturas, com o o consequente elevado número de pessoas».
Tal, não era propriamente uma novidade: as últimas semanas tinham sido, da parte da comunidade civil - e nem só a branca e europeia... - de permanente «namoro» à tropa, para tentarem salvar os seus bens e vidas.
A partida estava marcada para as 5 horas da madrugada, mas às duas já toda a máquina militar estava em movimento, pronta a arrancar no horário previsto. E assim foi.Toda ela se moveu, sob comando directo do Tenente Coronel Almeida e Brito, o comandante do BCAV.8423 - que não era homem de virar a cara à luta e ali estava, de peito aberto, para o que desse e viesse.
E vieram logo os primeiros problemas, com um alargado grupo de civis que se queria juntar à coluna e de tal era impedido pela FNLA. Sabe-se lá porquê e para quê? Foram bloqueados na cidade e impedidos de se juntar à coluna militar - valendo a intervenção das NT. «Às 5,15 horas, resolveu-se o primeiro incidente», anota o Livro da Unidade. Que antecedeu um segundo, já mais grave, no Negage, para onde muitos civis acabaram por fugir.
De Carmona, na ruas e das janelas das casas, via-se muita gente, num adeus carregado de dúvidas. Muita gente ficou e um deles foi o padre Albino Capela - que «fugira» da Paróquia do Quitexe, quando por lá as coisas se precipitaram, e, em Carmona, não quis integrar a coluna militar. «Tenho de ficar com a minha gente...», disse ele ao comandante Almeida e Brito, que insistia no seu (dele) abandono da cidade, integrando-se na coluna militar para Luanda.
«Vi-vos partir!! Fui ver-vos partir...», contou Albino capela, no encontro de Águeda, em Setembro de 2009. Contou e emocionou-se, interrompendo a narrativa como que para ganhar fôlego e apanhar as palavras que lhe faziam um nó na garganta.
Uma semana depois, em Agosto de 1975, teve de fugir para Luanda, na boleia num avião, para sair do inferno em que se trasformara Carmona.
A coluna avançou para o Negage!

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O primeiro dia de Luanda!...

Aeroporto de Carmona. Aqui embarcámos a 3 de Agosto de 1975. Para Luanda.

O primeiro domingo de Agosto, em 1975, foi domingo e o de partida da CCS do BCAV. 8423 para Luanda. Em duas levas, de um DC6 e de dois Noratlas.
Chegou a haver algum receio de uma qualquer acção da FNLA, mas nada se passou e o aeroporto estava, digamos, blindado. Uma hora depois, estávamos na base aérea de Luanda e, desta, galgámos a estrada de Catete, rumo ao Campo Militar do Grafanil - onde nos fomos instalar no aquartelamento do Batalhão de Intendência - já desactivado e em muito más condições. Pelo caminho e «ao vivo», vimos o chamado «poder popular»: grupos de crianças e pré-adolescentes armados com Kalashinikov´s.
Surpresa, surpresa foi a forma desconfiada, até hostil, com que fomos olhados por parte da guarnição militar do Grafanil. «Fascistas, colonialistas, tropa imperialista...», foram alguns dos mimos com que nos receberam. E que não entendíamos. Pior ainda quando na gigantesca messe de sargentos, na Avenida dos Combatentes, nos olharam com desconfiança e desprezo. «Ai são vocês o batalhão do Cavaleiro Branco?!!!...», escarnecia parte dos comensais da messe, em ar de gozo e mal-dizer. Demorámos a perceber tamanha hostilidade: éramos o último batalhão que, em Angola, tinha formação militar pré-25 de Abril. Logo, éramos fascistas! E contra-revolucionários!!! Pior: tínhamos, sem, saber, cometido a «proeza» de impedir represálias e ajustes de contas que se faziam sobre a comunidade civil europeia - os colonos!!! Um grupo convidou-nos a aderirmos aos SUV - organização que desconhecíamos. Não ligámos e ainda hoje acho que fizemos bem. Almoçámos já bem tarde e fomos à nossa vida! Em Carmona, ultimava-se a saída da coluna militar terrestre para Luanda.
- CAVALEIRO BRANCO. Como era conhecido o comandante Almeida e Brito. A expressão era usada como escárnio e desrespeito.
- SUV. Sigla de Soldados Unidos Vencerão, organização constituída em Agosto de 1975 pelo Partido Revolucionário do Proletariado (PRP). Os SUV foram grupos de militares que actuavam no interior dos quartéis com vista a promover a auto-organização política dos militares. Ver AQUI.



segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A véspera da saída de Carmona...


O BC12, onde se aquartelou o BCAV. 8423, de Março a Agosto de 1975

Sábado, 2 de Agosto de 1975. É véspera da saída da CCS, de Carmona para Luanda. E já se sabe que a partida de Luanda para Lisboa seria em Setembro. Há alívios e ansiedades na alma dos Cavaleiros do Norte.
O ambiente na guarnição está calmo. Faço a minha mala e dou conta que não tenho espaço para o correio. O meu estimado correio, cheio de aerogramas e cartas que, um a um, uma a uma, fui numerando e guardando na pequena mala preta que levara com artigos pessoais e livros. Um, dois, três,100 e mas aerogramas e cartas, deste e daquele, numeradas até ao infinito.
Neste dia, recebo correio do Alberto, que agora reli - dando «novas» das «velhas» escaramuças de Luanda. «Isto está fogo, não sei onde isto irá parar...», dizia-me ele. De Portugal, as perguntas eram as mesmas de sempre: «Quando vens, quando chegas?».
Resolvo o transporte do meu correio com uma velha mala cedida pelo Pires, o de Bragança! Enchia-a, tal como a tenho ali no sotão - a cheirar a pó e a saudades. Acamo os molhos de aerogramas e cartas e dou uma volta, nostálgica, pelo álbum de fotografias. A cada uma, associo um, dois, três... momentos. Sinto a dor funda de sofrimentos que passaram e revejo-os, ressinto-os, imaginando os peitos e corações que não rebentaram sob o fogo da metralha, nas picadas e trilhos que ficavam para trás. Dou-me por feliz!!!
Sentado na cama do bloco residencial ao lado do BC12, desfio memórias das mães negras que levavam crianças penduradas nas costas e pilavam a fuba de colheitas magras que lhes matavam a fome! Lembro a velha, de peitos caídos, a cachimbar na porta da palhota da aldeia do Talambanza e fazia fumaças, em núvens leves e rotinadas, esperando a noite de mais um dos seus dias! Recordo os meninos negros, sujos de ranho e de terra, de olhos grandes e a pedir-nos a lata da ração de combate que tantas vezes lhes matava a fome. «Vejo» as mulheres de peitos negros e firmes, que dançavam em corropio, ao som de batuques e mais batuques, enchendo as noites de luar e de cios que nos aguçavam apetites. Faço memória das noites de Angola, noites sensuais e ardentes!..., que nos engravidavam a alma de sonhos!  Revejo momentos de evolução operacional, que nos gretavam os pés no calor das botas e faziam os olhos cair-se em lágrimas furtivas e de muitos medos. Sem felizmente nos pôr lutos!
Desfio a memória visual de todos os soldados do PELREC, e todos os outros que foram a minha família de Angola, irmãos meus, meus primos, meus amigos, meus companheiros de todos os dias,  homens que carregaram mochilas e armas pela selva adentro, estremecendo - como eu!... - a cada barulho, a cada dor, a cada suspiro, a cada charco de lama feito com o nosso suor, a cada armadilha que se descobriu e não matou!, a cada incidente que nos encheu de medos e perigou os duros e dramáticos dias de Carmona. Homens iguais a mim, meus irmãos, com famílias, amigos, pais, namoradas, mulheres e filhos a rezarem por nós, pelo nosso regresso! Lembro-me das dores físicas, e das mentais!!!, que se cicatrizaram na alma nos 15 meses que se faziam da nossa comissão!
Eu e o Neto voltámos a cidade, com outros amigos, todos trajando a alma civil que se fardava numa comissão que nos honrava! A partida era amanhã, do aeroporto de Carmona. Às 10 horas. Viajámos pela cidade num adeus que se mantém até hoje. Regado de saudades!

domingo, 1 de agosto de 2010

O poder popular...

Quartel do BC12, em Carmona (Uíge). A cidade, ficava na estrada para a
direita. Para a esquerda, o Songo. os dois pavilhões do meio, eram a cozinha (esquerda) e o refeitório. Atrás, ao fundo da imagem, eram as oficinas. O edifício do comando era o da frente (o do telhado mais avermelhado). os pavilhões laterais eram os das casernas e dos serviços


Os últimos dias de Carmona foram vividos com ansiedade: nunca mais chegava o da partida para Luanda. A Companhia de Comandos instalou-se no BC12 e tive a boa surpresa de nela reencontrar o agora alferes miliciano Infante, furriel no meu tempo de Operações Especiais - os Ranger´s - em Penude, Lamego.Os camiões que iriam na coluna para Luanda já se enchiam de caixotes e malas, ocupando uma boa parte da parada. Mas se se suporia que havia relaixamento nas posições de segurança, nem pensar! Mantinham-se todos os procedimentos.
A azáfama do fecho de malas e caixotes acelerava-se e era o 1º. cabo carpinteiro Marques quem mais lidava com tábuas, prumos e pregos. Destes dias, guardo a quase anedótica memória de uma urna que se encaixotou, cheia de sacos de arroz e açúcar, bebidas, máquinas, artigos de escritório, moto-serras, uma pequena mota Honda, um barco pneumático, eu sei lá já que coisas mais. Sei de quem era, sei! Reservo o nome, por já não pertencer a este lado do mundo.
Não indo o alferes Garcia connosco, no avião para Luanda - ia na coluna militar terrestre... - fomos eu e o Neto chamados ao Gabinete de Operações, para receber instruções sobre as tarefas do PELREC em Luanda, até que se recompusesse o Batalhão. «Cuidado nas ruas, com so putos do poder popular...», fomos avisados.
A 1 de Agosto de 1975, dia de anos da minha irmã Ana Maria, tive uma gentileza comn o Neto e fomos jantar ao Escape - restaurante da cidade, onde encontrámos o alferes Infante, que nos narrou algumas das violências que se praticavam em Luanda.
«E o tal poder popular, pá!? O que é isso?!...».
O alferes Infante, que por ser corajoso tinha galgado patentes militares e agora era oficial, avisou-nos. «Sssssããããõooo uuuuuunnns pu-pu-pu-pu-pu-puuuuu-tos, pá, aaaaaandam armados e maaaaaaa-tam, pá!....». Infante, que julgo ter chegado a coronel, era gago e pensámos nós que brincava connsco. Mas, não! Como viríamos a confirmar em Luanda.

sábado, 31 de julho de 2010

O mercado negro de escudos

O mercado negro cambial floresceu nos últimos meses de Portugal em Angola. Mil escudos do Banco de Portugal poderiam «valer» 1500, 2000, 3000 escudos de Angola - os angolares


A 31 de Julho e 1 de Agosto de 1975 chegou a Carmona uma Companhia de Comandos. Outra, mas de Pára-quedistas, ficou na Base Aérea do Negage. O objectivo era escoltar a 2ª. e a 3ª. CCAV´s do BCAV. 8423 e todos os seus equipamentos. Para o efeito, chegou também uma frota de viaturas militares. Aproximava-se a nossa saída para Luanda e já se sabia que a CCS e a 1ª. CCAV. viajariam de avião.
O cada vez mais iminente êxodo da comunidade civil europeia tormou-se mais evidente por estes dias: à romaria dos caixotes, seguiu-se outra: a da compra de escudos de Lisboa, do «puto». A razão era fácil de ver: os escudos angolanos (os angolares, na foto) não tinham cotação e cambiavam-se a elavadas percentagens cambiais, em mercados «negros» - com lucros para os vendedores. Mil escudos do Banco de Portugal poderiam «valer» 1500, 2000, 3000 angolares, muito fácilmente. Ganhava quem tinha dinheiro de Lisboa. Ganhava quem, no dito mercado negro, o comprava - pelo troco dos angolares, que nada valeriam na Europa. Como se veio a confirmar. Por mim, como já aqui disse, nunca fiz «negócio» desse.
A nível militar, reinava confiança. O reforço que chegava e as regras impostas pelo Comando na reunião de 30 de Julho, com o Estado Maior do Comando Unificado, digamos que puseram os combatentes/militares da FNLA em sentido. Nada impediria a saída da coluna militar. A tiro que tivesse de ser. 

sexta-feira, 30 de julho de 2010

A operação de retirada para Luanda...

Parada do BC12, em Carmona (anos 70 do século XX)

A 30 de Julho de 1975 começou, na prática, toda a movimentação de meios que iriam dar corpo à grande operação de retirada do BCAV. 8423, de Carmona para Luanda. Poupando pormenores, sempre diremos que o entusiasmo e a animação dos  militares eram grandes, preparavam-se malas e afinavam-se missões.
A comunidade europeia, ao tempo já definitivamente convencida do que seria o futuro imediato, aproximava-se cada vez mais da tropa, procurando apoio e protecção. Que não era negada, mas que tinha implicações operacionais delicadas. E, valha a verdade, havia alguns constrangimentos a ultrapassar. Não era de modo barato que nós, nós todos!!!, que tantas vezes tínhamos sido ofendidos - quase humilhados!!!... - pela generalidade da comunidade europeia, nos víamos agora no continuado dever de apoiar.
Era esse, de resto, o desígnio assumido pelos Cavaleiros do Norte, sob o comando firme e competente do (então) tenente-coronel Almeida e Brito. Dissesse-se o que se dissesse, sentíssemos o que sentíssemos, a verdade é que tínhamos confiança ilimitada no comandante e nunca regatearíamos uma ordem dele.
Um comerciante da Rua do Comércio, meu conmhecido das minhas passagens pela loja, achou-se de coragem para me perguntar se íamos abandonar os civis. Era um dos que cuspia à passagem dos militares. Não me lembro do que respondi, mas não deve ter sido coisa boa.
Mas era conhecido o movimento de civis, junto dos comandos militares, para que pudessem integrar a coluna. A FNLA, senhora da guerra do Uíge, continuava a fazer das suas e a cidade engordava, com refugiados das fazendas de café da província.
A tropa vivia os seus dias mais calmos do mês de Julho de 1975. Que chegava ao fim!

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Um «diferendo» com o alferes Garcia


O PELREC. Almeida, Albino, Messejana, Florêncio, António, Viegas, Francisco, Dionísio, Caixarias e Garcia (em cima), Vicente, Soares, Marcos, Leal, Moreira (?, transmissões), Hipólito, Cordeiro e Neto

A euforia da próxima viagem para Luanda, mesmo sabendo-se que por lá os cheiros eram mais de pólvora que dos habituais aromas africanos, foi quebrada por uma informação do alferes Garcia: o PELREC também iria na coluna terrestre. E não era para ir, destinado que estava a seguir com a CCS para Luanda, de avião. Tal qual a 1ª. Companhia!
Gerou-se farta e grossa discussão com ele, empertigado o Neto e bem irado eu! Não entendíamos como queria o alferes Garcia sacrificar o PELREC, sabendo-se, como já se sabia, que a coluna teria farto e diversificado apoio - de uma Companhia de Comandos e outra de Pára-quedistas. E da Força Aérea! E nós iríamos de avião.
A generosidade de Garcia, porém, não tinha limites - queria que o pelotão fosse na coluna. Mas sujeitar homens com 14 meses de sujeições e privações a mais esse sacrifício - que não era nevessário... - isso passava todas as nossas fronteiras do compreensão.
Marcámos passo, os três, com vigor e alguma raiva na voz e na alma, entre a parada e o refeitório, procurando esconder a nossa exaltação da curiosidade dos companheiros que por ali passavam o seu dia. «O pelotão deve ir!!!...», insistia o Garcia. Mas porquê a para quê?!
O Garcia não era homem de muitas palavras e às vezes não as escolhia muito. Falou-nos dos valores militares, da honra e da camaradagem, provocando-nos e procurando impor-nos a sua autoridade. Não a regateámos, é verdade, mas discutimos a opção que nos sugeria.
«Deveis ir...», disse-nos, já impaciente. E foi assertivo. Virou as costas mas não nos convenceu. «Olha lá, pá... isso é uma ordem, ou és tu que queres que a gente vá?!...», perguntou-lhe o Neto.
Era, afinal, Garcia que gostava que o PELREC fosse, mas vingou a ordem de operação: o PELREC foi de avião. Garcia, porém, ficou na história da coluna militar para Luanda - pondo-se como oficial às ordens do Comandante Almeida e Brito. E por lá fez história!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Os últimos dias de Carmona...

O BC12, visto do lado de Carmona. À direita, vê-se o bloco residencial militar
que foi nossa «casa» nos últimos dias da capital do Uíge

A 28 e 29 de Julho de 1975 continuaram, em Carmona, as reuniões de trabalho entre os comandos do BCAV. 8423 e a delegação do QG/RMA, para preparar a rotação do batalhão para Luanda. E já se sabia o dia de saída da CCS, de avião: 3 de Agosto, um domingo.
O regresso tranquilo, a 26, da coluna que no dia 25 partira para Salazar - aqui se juntando ao grupo que vinha de Luanda  - inspirou grande confiança nas hostes. O trânsito não tivera impedimentos - ora da FNLA, ora do MPLA - e parecia seguro que a grande coluna de rotação para a capital não iria ter problemas de maior. E, a aparecerem, a tropa responderia «à letra». O COPLAD, com ou sem vontade de tal aceitar, já não punha «impedimentos» regulamentares ao BCAV. 8423 e a guarnição multiplicou a sua confiança no comando de Almeida e Brito (1º.) e José Diogo Themudo (2º.).
«O que parece isto?!...», perguntei várias vezes ao Neto e ao Garcia. «Vai haver porrada!...?».
Escusado será dizer que, um e outro, não tinham dúvidas sobre o êxito da operação. «Eles nem se atrevem!!!...», exultava o Neto. «Está a ser preparada uma grande operação...», garantia o Garcia - que, no dia a dia, contactava directamente com os oficiais e, no Gabinete de Operações, com o capitão Falcão. Por isso, sempre bem informado.
Semelhante confiança era, naturalmente, passada para os praças. E era o nosso PELREC o que mais emotivamente vivia estes dias. Dias de muitas ansiedades! Tinha sido (era!!!), sem dúvidas, o pelotão mais sacrificado da CCS e a alvorada da saída entusiasmava-os intensamente.
«Eh furriel, nunca mais conheço a minha menina!!!...», comentou-me uma vez, o saudoso Leal - que foi dos mais bravos do PELREC e já era pai pela segunda vez. Sorri-lhe e, em ar de brincadeira, perguntei-lhe se o pai da criança não seria o padre.
Por esta altura, já estávamos no bloco residencial ao lado do BC12 e, nessa noite, eu e o Neto fomos chamados ao quartel, por um ordenança da casa da guarda.
«Já há m...», disse para o Neto. Afinal, eram os «pelrec´s» que tinham panqueca preparada, com a conivência da cozinha e da padaria. Tivemos de arranjar um garrafão de vinho. Tinto do Cartaxo!!