quarta-feira, 7 de julho de 2010

A guerra na província do Uíge

A província do Uíge era principalmente «ocupada» pelo ELNA (Exército de Libertação Nacional de Angola), a força armada da FNLA - que ficou praticamente só, após a «expulsão» das FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola), do MPLA, em Junho de 1975. Da UNITA e das suas Forças Armadas de Libertação de Angola (FALA) pouco se ouvia falar pelas bandas de Carmona - embora lá viessem a integrar as Forças Militares Mistas - que seriam o futuro Exército Angolano.
O ELNA terá chegado a ter 20 000 homens armados, em partes diversas do território. Ao tempo da nossa passagem por Angola, tinha uma uma orgânica militar que passava pelas chamadas Frentes (as antigas regiões militares), por sua vez divididas em Zonas (em vez de Sectores) e estas em quartéis (as anteriores guarnições). Cada quartel correspondia a um batalhão - por sua vez dividido em Comando, Companhia de Comando e Serviços (a nossa CCS), duas companhias operacionais, polícia militar e paiol.
Ao norte, por onde jornadeou o BCAV. 8423, bem se pode ver no mapa (pela cor rosa) que era onde se localizavam as suas principais actividades - apoiadas a partir das bases instaladas no Congo e no Zaire. Dispunha de bom armamento, em quantidade e qualidade, de origem russa.As setas indicam as suas habituais linhas de infiltração. Bem se pode dizer, pois, que os Cavaleiros do  Norte estavam bem rodeados. A zona norte foi sempre, aliás, a mais perigosa, desde 1961 a 1975. Com FNLA e MPLA, em proporções e fases diferentes.. 
- Mapa: Livro "Guerra Colonial», de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes. As indicações do mapa referem-se às forças dos três movimentos. 

terça-feira, 6 de julho de 2010

O capitão José Paulo Fernandes, comandante da 3ª. Companhia

José Paulo Oliveira Fernandes, capitão miliciano de infantaria, foi o comandante da 3ª. CCAV.  do BCAV. 8423, que jornadeou por Santa Isabel, foi contemporânea da CCS no Quitexe e, finalmente, assentou em Carmona - antes da Luanda que nos foi véspera do regresso a Portugal.
Retenho dele a imagem de homem sereno, discreto, garboso no cumprimento da difícil missão que lhe foi incumbida nos delicados tempos de 1974/75. Sem necessitar de imposições para assumir o estatuto de comando que lhe dava a sua patente militar. «Garantiu, com o seu procedimento, o verdadeiro cumprimento da missão que lhe foi determinada. Chamado a ocupar, ou actuar, em diversas áreas, no cumprimento do processo de descolonização, conseguiu sempre orientar a sua subunidade, de modo a garantir o cabal cumprimento das missões que lhe eram solicitadas», cito do Livro da Unidade (LU).
Não privei com ele de perto, apenas no curto espaço de formação do batalhão, em Santa Margarida; depois, de Dezembro de 1974 a Fevereiro de 1975, no Quitexe. Socorro-me, por isso, do LU para sublinhar a actuação da 3ª. CCAV.,«aquando de graves acontecimentos de confronto armado entre os movimentos de libertação na área do Quitexe».
Conclui o Livro da Unidade: «Dotado de boas qualidades cívicas e militares, soube adaptar-se e adaptar a sua companhia em todas as situações em que serviu, sendo assim o seu comando merecedor de público louvor».
Aqui fica o registo.
 

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Os primeiros dias de Julho em Carmona de 1975...


O ambiente de Carmona (foto) era de cortar à faca, por Julho de 1975 fora. As feridas físicas e emocionais dos incidentes dos primeiros dias de Junho estavam longo de cicatrizadas e as preocupações militares levedavam a cada dia que passava.
Os quadros operacionais recebiam instruções específicas todos os dias e as noites, principalmente as noites, eram tempos de farta tensão. Os olhos tinham de andar bem abertos, os sentidos bem aferidos, a emoção não podia trair a razão. 
A comunidade europeia, cada vez mais acordada para a realidade que a esperaria - sabia-se lá o futuro!!!... - repetia e lançava descréditos sobre a tropa, que era permanentemente alvo da sua crítica.
Aqui deixamos uma nota do capítulo II, página 26, do Livro da Unidade:
«As preocupações vividas do antecedente, continuaram a ser os factores dominantes em Carmona, onde diariamente se verificaram factos que contrariavam a chamada neutralidade activa, os quais retiravam toda e qualquer espécie de autoridade às NT, dando ainda azo a que se fosse permanente alvo da crítica das populações brancas».
A comunidade europeia levedava em dúvidas quanto ao futuro e o mais fácil parecia ser acusar a tropa. Sentiam-se (os europeus) marginalizados e desapoiados. Recordo-me de, num destes dias de Julho de 1975, vestido à civil e na compra de postais da cidade na Papelaria Académica, ter sido violentamente insultado e apelidado de traidor. Não reagi, deixei-me imperturbar até ao limite do meu controlo emocional. Nas vésperas, muito perto do local e fazendo de Polícia Militar, tinha intervido para evitar uma sova a um casal de civis brancos, atacado por um grupo de jovens civis de cor. E eu mesmo fôra pontapeado num tornozelo.
Não havia nada a fazer nestes casos. Nem a dizer!!! Apenas intervir de forma neutral, sóbria e consensualizadora. O que não era nada fácil.

domingo, 4 de julho de 2010

O abandono definitivo do Quitexe

Vista aérea do Quitexe (meados dos anos 60 do século passado). A capela em primeiro plano

A 1 de Julho de 1975, um grupo de combate da 3ª. CCAV. iniciou a rotação do BCAV. 8423 do Quitexe para Carmona. Que se completaria no dia 8. Foi o abandono definitivo, pela tropa portuguesa, da para nós histórica e mítica vila - onde os companheiros de Santa Isabel estavam desde Dezembro de 1974 e que a CCS deixara a 2 de Março de 1975.
O Quitexe ficou na alma de todos nós!
Viemos a saber pormenores de alguns (muitos) problemas por lá passados, desde a saída de CCS e que os comandados do capitão José Paulo Fernandes foram torneando sem desfalecimento, hostilizados pela população europeia e «atacados» pelas forças da FNLA - que acusavam as Forças Armadas Portuguesas de não neutralidade.
A instabilidade, aos primeiros dias de Julho de 1975, era permanente em toda a província e todo o dispositivo militar do Uíge foi reequacionado e principalmente concentrado em Carmona e Negage - onde estava instalada a base aérea. Esta, já em Junho, fôra reforçada com a desactivação do aquartelamento de Sanza Pombo.
A guarnição do BCAV. 8423 cada vez mais suspirava pelo regresso a Portugal. Sentia-se numa encruzilhada sem saída: hostilizada pela população civil e tendencialmente desacreditada e ameaçada pela FNLA - que sofrera pesadas derrotas militares em Luanda, Salazar e Malange e tinha em Carmona a sua grande capital estratégica. E a tropa portuguesa era-lhe um estorvo. Um outro «inimigo», agora urbano! Se bem que, por terras uígenses, não se tenham dúvidas que foi absolutamente neutral.

sábado, 3 de julho de 2010

Os nossos lutos! O Louro faleceu há dois anos!

O Batalhão de Cavalaria 8423 conheceu na carne e na alma a dor da guerrilha de mato e a urbana, mas sem,  felizmente, ter qualquer morto em combate. O Livro da Unidade regista dois falecimentos: a do soldado Joaquim M. D. Henriques, da 1ª. CCAV, a de Zalala, em Setembro de 1974 (por doença); e a de Jorge C. Grácio, da 3ª. CCAV. (a de Santa Isabel, mas já em Carmona), de acidente de viação - em Julho de 1975, faz agora 35 anos. Ainda da 3ª. CCAV., há um outro registo, a de Bernardo Oliveira, de um grupo de mesclagem (angolana), vítima de acidente de viação - em Julho de 1974. 
Outros partiram, depois do nosso regresso ao chão e ao afecto das nossas origens. Faz hoje dois anos, faleceu  José Adriano Nunes Louro (foto), que foi 1º. cabo do Pelotão de Sapadores, da CCS do BCAV. 8423 - do comando do alferes Ribeiro.
O Louro era natural de Casal do Pinheiro, em Tomar, e por lá fez vida, constituiu família e foi feliz, sofrendo em 2003 o desgosto e a dor da morte da mulher, que não resistiu a doença terminal. Continuou a vida, até que, em Maio/Junho de 2008, lhe foi diagnosticado um cancro no cólon e no recto, em fase avançada, e não quis que ninguém passasse por ele o sofrimento que teve por sua mulher. Pôs termo à vida faz hoje dois anos, a 3 de Julho de 2008.
«Era com muita saudade e nostalgia que ele falava do tempo que passara em Angola», contou-nos o filho Sérgio, há um ano - quando se preparava o Encontro dos Cavaleiros do Norte, em Águeda.
Aqui deixamos, hoje, a nossa continência de homenagem e saudade. E o nosso abraço solidário à família.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

As Forças Militares Mistas do final de Junho de 1975

Forças Militares Mistas, em Carmona, no BC12 - integrando
elementos da FNLA e da UNITA


Os últimos dias de Junho de 1975, em Carmona, foram de formalização da 1ª. Companhia das Forças Militares Mistas (CFMM), integrada por elementos da FNLA e da UNITA. O MPLA, na sequência dos incidentes do primeios dias do mês, "desaparecera» do Uíge.
Criaram-se também os Estados Maiores Unificados, quer do Comando Territoral de Carmona (CTC), quer do próprio Batalhão de Cavalaria. «Espera-se encontrar em tais elementos uma colaboração que permita levar a bom termo o processo em curso», lê-se no Livro da Unidade.
O processo era o de descolonização. Mas as coisas não foram bem assim. «O mês decorreu, no seu restante, sob forte tensão emocional, quer pelos algus atritos que voltaram a dar-se, quer também porque se estão vivendo momentos de carências logísticas, os quais são reflexo do latente conflito que continua e que dá azo a um desabar de esperanças em que se possa ver em bom e belo panorama o dia de amanhã», cito o Livro da Unidade.
A liberdade nos itnerários foi de novo posta em causa, obrigando à realização de repetidas escoltas. Que nos caíam em cima - dos militares operacionais. A guarnição da cidade fora enriquecida com a chegada da 1ª. Companhia - a de Zalala, que rodara para Vista Alegre e passara pelo Songo... -, agora instalada na extinta ZMN, desde 12 de Junho.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

A história do Buraquinho na primeira pessoa

Alfredo Coelho, o Buraquinho, em pose de combate, frente à enfermaria do
Quitexe, em 1974. Ao fundo, vê-se a messe de sargentos (edifício com varandim)


O 1º. cabo Alfredo Coelho, o Buraquinho, vem aqui contar a versão (actualizada) do que nos estoriou no Encontro de Ferreira do Zêzere.
Assim: 

Eu não disse que fui 3 vezes preso. Única e simplesmente disse que apanhei 10 dias de prisão disciplinar, pela CCS do Batalhão de Cavalaria 8423, tendo o Comando de Sector (Carmona) aumentado a punição de 10 para 20 dias de prisão disciplinar agravada, o que deu origem à minha despromoção. Entretanto, na ZMN (Zona Militar do Norte) agravou de 20 para 30 dias de prisão disciplinar agravada. Não havia mais Sectores, senão ainda agravaria mais.
Talvez seja essa a confusão gerada.
Com respeito a ter fugido de avião, foi no dia 23 de Junho de 1974, num domingo, da Base Aérea nº. 3, do Negage, estando eu acompanhado pelo 1º. cabo enfermeiro José Gomes e o maqueiro Joaquim Moreira (Penafiel). Disse-lhes para se irem embora para o Quitexe, que eu já não voltava para lá, porque tinha outras coisas em vista. E eles ficaram preocupados comigo. Meti-me num avião Noratlas, conhecido por Barriga de Jinguba, e fui parar à Base Aérea nº. 9, de Luanda. E nunca mais me esqueço desse dia, porque foi pelo S. João e quando sobrevoava Luanda vi as fogueiras como tradição portuguesa.
Quando saí do avião, eram aproximadamente 23 horas e fiquei à deriva no aeroporto. Olhei para um avião dos TAM - um Boeing 727 que ia com militares para Lisboa - e entrei nele com ideias de fugir para Portugal. Porém, no momento em que foram retiradas as escadas, eu dei um berro para o cabo da Força Aérea, pois tinha de me ir embora, porque não pertencia a este avião, e, então, atirei-me da porta do avião para a pista. Quando cheguei ao meio da pista, o avião já ia no ar e as lágrimas correram-me pela cara abaixo, arrependido por não ter seguido viagem, conforme os velhinhos que iam no avião me diziam: “Deixa-te ir, que depois de estares em Portugal ninguém te procura!...”.
Ao fundo da pista, vi uns pirilampos que seriam de uma ambulância, aproximei-me e perguntei ao condutor para onde iam. Iam para o Hospital Militar de Luanda (HML). Eu disse: “Sou do serviço de saúde, vou-vos acompanhar”.
Ao chegar aos serviços de urgências encontrei-me com os colegas furriéis do meu curso de enfermagem e de analistas que estavam de serviço nas urgências, contei-lhes o que se passou e pedi-lhes apoio. Deram-me de comer e dormir e no dia seguinte fui tratar da minha situação na secretaria do HML, dizendo que tinha vindo  trazer um militar gravemente ferido do Negage a Luanda aos serviços de urgências, e queria que me dessem um documento para comprovar a minha presença ali e me enviassem para o Quitexe. Mandaram-me para o Quartel dos Adidos, para depois me transportarem para o Quitexe. Durante o tempo em que estive nos Adidos, à espera de transporte, fui dado como desaparecido da CCS durante 5 dias.
Quando cheguei à Companhia, fui direito para o meu quarto e só queria dormir. O médico dr.Leal, ao ter conhecimento da minha chegada, disse-me para no dia seguinte ir ter com ele, com o furriel enfermeiro Lopes, para me apresentar na secretaria do comando. Aqui, o tenente Luz disse-me que, pelo menos, ia apanhar 90 dias de prisão, mas eu disse-lhe que tinha um documento do HML e eles ficaram admirados.
Ao entregar esse documento, o tenente Luz disse que eu fui bastante desenrascado e, então, fizeram-me uma proposta, para eu ir explorar a sala do soldado, uma vez que era desenrascado, e eu então fui.
Aí ganhei quanto quis e nunca faltou cerveja e tabaco aos enfermeiros, enquanto lá estive. O sargento Luzia disse que nunca teve um militar a dar tanto lucro num bar como eu, tanto em Angola como em Moçambique das duas comissões que fez.
ALFREDO COELHO
(BURAQUINHO)

quarta-feira, 30 de junho de 2010

A revolta da Companhia do Liberato - 3

Parada e parque-auto do Quitexe. A primeira caserna, à esquerda, era a do Pelotão de Atiradores (PELREC). A seguir, a de sapadores, mecânicos e condutores. Ao fundo, na esquina da avenida, o edifício do comando do BCAV. 8423. A foto foi tirada do lado da capela


(fim)
O regresso ao Quitexe foi muito tranquilo e ainda hoje estou convencido que, na altura, nenhum de nós - então no melhor da nossa juventude, irreverência e generosidade... -, nenhum de nós se terá apercebido muito bem da gravidade da situação. Poderia ter sido uma mortandade.
Algures, perto da sanzala do Quimbinda (?), a coluna afrouxou a velocidade e foi nesse tempo que me lembro perguntar-me o Dionísio (?) se ainda ia «haver tiroteio...». Que «não, não vai haver...»,  lhe disse eu, pousando os olhos na serra do Quimbinda, como que a disfarçar alguma ansiedade e a querer vencer os meus constrangimentos da amarga e dramática hora que passávamos.
O Neto, sempre mais «acelerado» que eu, sempre mais generoso na sua partilha de emoções com os nossos companheiros de jornada, exibia a G3, deitando-a no ar com a mão direita. O Ezequiel segredou-me ao ouvido: «Já nos safámos...». O Botelho (o que será feito do Botelho?), que se fazia sempre herói da pequenas coisas de caserna e de conquistas lá por Lisboa, ia estranhamente de cabeça baixa. E eu a provocá-lo: «Então, herói?!!!!...». E ele,a  mastigar a saliva, sem uma palavra. Mais exuberante o Soares, tinha de ser... «Dávamos cabo deles!!!:.. Limpávamos-lhe o sebo...».
O Garcia, o nobre e valente alferes Garcia, sempre de olhar profundo, ia sei lá com que pensamentos.
Lá chegámos ao aquartelamento do Quitexe e estranhámos não ver soldados nas ruas da vila. Quase todos estavam na parada, ao parque-auto. Não porque ali fossem as casernas e o refeitório, que eram, mas porque nos esperavam.
«Fir-mee! Sentido! Om-broooooo arma!».
Garboso, ele mesmo puxando a G3 ao ombro direito, o alferes Garcia apresentou o PELREC ao comandante que saía do gabinete.
Os soldados destroçaram e foram às suas vidas. O sol vermelho de Angola punha-se acima da serra de lá longe e eu e o Neto caminhámos para a casa dos furriéis. Missão cumprida, sem feridos ou mortos a lamentar!
- DIONÍSIO. Dionísio Cândido Marques Baptista, soldado atirador de cavalaria. Mora no Seixal.
- BOTELHO. Jorge António Pinto Botelho, soldado atirador de cavalaria. Suponho que reside nos Açores.
- SOARES. Fernando Manuel Soares, 1º. cabo de reconhecimento e informação, integrado no PELREC. Mora no Laranjeiro.
- EZEQUIEL. Ezequiel Maria Silvestre, soldado de reconhecimento e informação, integrado no PELREC. Mora em Almada.

terça-feira, 29 de junho de 2010

A revolta da Companhia do Liberato - 2




Estrada do Quitexe. A «espera» aos revoltosos da Companhia do Liberato
foi feita um troço parecido com este

O "pelrec" acomodou-se nos bancos duros e corridos dos Unimog ´s, esticando o pescoço por sobre a vila do Quitexe que ficava para trás. Soldados da guarnição levantaram-nos as mãos, como se dissessem adeus.
Ao passar pelo Posto 5, na saída da vila, o sentinela ergueu a arma e gritou uma qualquer coisa. Já fora da vila, galgadas as franjas dos aldeamentos, parou-se no asfalto por uns momentos. Tempo de confirmar bala na câmara, de sentir nas mãos o frio das granadas, de afinar miras, pontarias e ideias.
"É a nossa missão mais perigosa. Atenção, as ordens são para cumprir!!! Não queremos mortos...", disse o alferes Garcia, de voz segura, sem denotar o alvoroço e a ansiedade do momento, de arma virada ao céu, segura por cima do cinturão - em que apoiava a coronha. "Alguém tem medo?!!...".
Ninguém tinha medo!
Avançou a coluna até onde se esperaria o grupo de revoltosos - numa recta antes de se cortar para Santa Isabel. O silêncio da estrada de asfalto só era quebrado pelo barulho dos motores dos unimogs e nem os macacos que sempre nos divertiam a saltar de ramo em ramo, isso faziam. Como se estivessem de luto! Um deles, enorme, já adulto, pôs as mãos à cabeça à nossa passagem, como se adivinhasse alguma tragédia.
Parámos antes de Aldeia Viçosa, logo depois do Dambi Angola. Montou-se o sistema de segurança, os morteiros apontados, os obuses, e uma equipa de combate foi para o fundo da recta, a uns 150/200 metros. Tentaria convencer os revoltosos a não avançarem. Mas não abriria fogo. A abrir, seríamos nós!! 
O trânsito estava interrompido desde Aldeia Viçosa. E também não passava do Quitexe. Mas apareceu um camião carregado de café, talvez de alguma fazenda. Reagiu o motorista, que não queria parar. Tinha de fazer muitos quilómetros, para a descarga em Luanda. Teve de ser imobilizado.
A tensão entre o "pelrec" era visível, apalpava-se. Havia ansiedade, que mais levedou ao ver-se, ao longe, um movimento estranho. Afinal, era uma mulher negra que levava um molho de lenha à cabeça. 
"Cabrões, pá... Isto ainda vai dar merda... mas f...,-los todos!..", disse o Neto, com coronha da G3 pousada na bota direita e apalpando as granadas de mão. Eu, em pose muito igual, lembrei-lhe o nosso pacto de furriéis gémeos de Águeda: nunca um abandonar o outro. 
E ali estávamos, para o que desse e viesse! Sem querer amortalhar as nossas vidas!
Ouviu-se de longe, então, o roncar de viaturas a gasóleo. Seriam eles, os revoltosos!!!! - que viriam armados até aos dentes. E drogados, deles se dizia
"Calma, malta!!!...  Só há fogo à minha ordem!...", falou o alferes Garcia, calmo, de olhar sereno, com se nos estivesse a convidar para o rancho. Tal era a calma com que mentíamos ao medo e aos nervos que nos ansiavam a alma.
Foram dadas as últimas instruções à equipa avançada: "Nada de tiros...".
O som das viaturas, de longe, porém, deixou de se ouvir. 
O homem da rádio chamou o Garcia, havia mensagem. Para descanso de todos, e bem de todos!, e sossego de todos!!!, os revoltosos tinham decidido não avançar para Carmona. Livraram-se do nosso fogo e nós do luto da nossa alma! Quantos nós não iriam morrer!!! Quantos mataríamos?!
Regressámos ao Quitexe em ar de quase festa, mortos os estigmas que se nos tinham levedado nas últimas horas.
(continua) 

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A revolta da Companhia do Liberato - 1

Alferes Garcia (primeiro da esquerda, em pé), furriel Viegas (sexto, da esquerda para a direita, em pé), 1º. cabo Soares (segundo, em baixo, da esquerda para a direita) e furriel Neto (último, em baixo, à esquerda). Clicar na imagem, para a ampliar

O dia, não o recordo. Seria por Outubro de 1974, no Quitexe!!! Numa das raras vezes em que o alferes Garcia foi ao nosso quarto, avisou-nos ele para nos prepararmos: eu e o Neto. 
«Vamos sair!!!...» E ficou meio  especado, de mãos nos quadris, à espera que matássemos a preguiça que nos deleitava o resto de tarde.
Tínhamos chegado poucas horas antes de mais uma escolta, o sol batia a pino e o que mais apetecia era ficar por ali, a sombrear o corpo na  quietude da casa dos furriéis, à espera da hora de jantar.
«Vamos sair!!!...», repetiu o alferes Garcia. Determinado, diria que solene. Seguramente de ar grave, firme.
Não era vulgar, por aquele tempo, que ele saísse connosco em operações, escoltas ou patrulhamentos, por se ocupar no gabinete de operações - onde substituía, ou ia substituir o capitão Falcão. A férias! Por isso, estranhámos. 
«Vamos sair?!...», perguntou o Neto, arengando algumas imprecações de momento.
E eu, de esguelha, a resmungar: «É sempre a mesma m..., pá!!! Mas o que é que se passa agora?».
Já eu apertava o cinturão e aprontava a G3 que repousava ao lado, quando ficámos a saber: a companhia de nativos de Liberato tinha-se revoltado, havia presos, talvez mortos, avançavam para o Comando de Sector, em Carmona, tínhamos de os ir «parar». 
O bravo PELREC rapidamente formou, armado até aos dentes, os 1ºs. cabos com dilagramas, armamento semi-pesado na garupa dos Unimogs, protecção o mais que se podia. Apresentei o grupo ao alferes Garcia, na parada, e fomos em passo formal até onde estava o comandante Almeida e Brito e outros oficiais.
A ordem foi tensa, silábica, letal:  impedir os revoltosos do Liberato de avançar para Carmona. A todo o custo.  Só por cima de nós. Seria por cima dos nosso cadáveres.
Formado ao lado de Garcia, ligeiramente atrás, como mandavam as regras, olhei-lhe de soslaio o rosto tenso. Mas sem uma tremura. Mas firme! Confiante! A mim, deu-me para deixar cair uma breve lágrima - que disfarcei no suor que nos caía em bica, pela cara abaixo.
O Neto, do outro lado, não deixou mexer um nervo.
O pelotão pôs-se em sentido, à ordem do alferes Garcia. Estava ali, garboso e sem um medo, para o que desse e viesse. Eram todos rapazes de coragem! Fez ombro-arma.
Subimos para os unimogs. «Lembras-te de Lamego?... A serra das Meadas?!!...».
Olhou-me o Garcia, despejando-me os olhos com espantosa serenidade. Sem responder, sem uma palavra, sem pestanejar, com a G3 apontada ao céu e as ancas carregadas de granadas, as cartucheiras como uma mulher grávida: cheias de munições!
O Soares, o sempre renitente e reivindicativo 1º. cabo Soares, olhou-nos com um sorriso amarelado de ironia. «É desta vez?!...», perguntou ele, enquanto se acomodava nos bancos corridos do unimog. Ia ele com um dilagrama, seria dos primeiros a disparar, se necessário fosse. O «esta vez...» do Soares seria um combate a sério, o deflagrar de metralha, o silvo das rajadas das metralhadoras, o cheiro da pólvora e a lama do pó vermelho de Angola feita de sangue!
«Vamos, vamos, vamos!!!...», gritou o alferes Garcia, com isso apressando as demoras de subir dos nossos bravos «pelrec´s», enquanto outros já aperravam armas, trocavam as munições para os dilagramas,  aprontavam miras e se engravidavam de dúvidas.Estes momentos podem não ser de medos, mas são de dúvidas, de ansiedade, de constrangimentos invisíveis.
O Neto, de outro unimog, fez-me um sinal de confiança. E era confiança que se sentia. E a coragem sentíamo-la nós a levedar na alma, naquela ordem recebida para a morte. Sentia-se determinação, bravura, generosidade e partilha solidária de um momento que poderia ser véspera de tragédia.

«Não te sentes na serra das Meadas?!!!...», ironizei eu de novo, para o Garcia. Eu tinha saltado para o chão vermelho da avenida do Quitexe e soltei-lhe a pergunta, como que a querer iludir os meus medos. Os nossos medos. Falar da serra das Meadas era recordar o tempo da nossa preparação militar em Lamego, preparação "para a guerra!...".  Aí a tínhamos!
Felizmente, não houve confrontação. Evitou-se uma tragédia.
(continua amanhã)

domingo, 27 de junho de 2010

A primeira grande operação militar dos Cavaleiros do Norte

Um «Ranger» pronto para uma operação militar: lenço verde a proteger a boca do pó das picadas e trilhos (em cima), a G3 pronta a disparar, com bala na câmara (ao meio, à direita), cinco cartucheiras de 20 munições (à esquerda) e granadas defensivas/ofensivas (à direita, em baixo)  


A 20 de Junho de 1974 - já lá vão 36 anos!!!... - realizou-se a primeira grande operação militar em que interveio o Batalhão de Cavalaria 8423. A Operação Castiço DIG, dividida em quatro fases e que só viria a concluída em Julho.
Mobilizou muitos meios humanos: todas as subunidades do BCAV. 8423, a 41ª. Companhia de Comandos e os Flechas de Carmona. «Não se viu grande compensação do esforço desenvolvido pelas NT pois que, salvo uma emboscada sem consequências, no Tabi, só teve por reacção IN a materialização de tiros de aviso», refere o Livro da Unidade.
Menos afortunado foi um soldado da 41ª. Companhia de Comandos, pois foi accionada uma mina AP na Central do Negage e um soldado sofreu a amputação de um pé - o que levou a 41ª. a abandonar a operação, ao fim de 18 horas, quando seria de oito dias a duração da Castiço DIG.
«Outros resultados não teve esta operação, que nao fossem o conhecimento da zona de acção, um primeiro contacto com a mata e um conhecimento das reacções humanas», historia o Livro da Unidade.

sábado, 26 de junho de 2010

O apoio aos fazendeiros do café...


Mercado de café em Carmona e alferes Garcia e Cruz na
Fazenda Vamba (1974). Atrás, vêem-se montes de café. para secar
A orientação do BCAV. 8423, assim substituiu no terreno o BCAÇ. 4211 - o antecessor da zona de acção do comando do Quitexe - foi principalmente orientada sobre os vários aquartelamentos do IN, localizados nas chamadas Centrais do Mungage, Negage, Aldeia, Tabi, Quiculungo e  Nova Caipemba. Talvez outras, também.
O batalhão tinha as companhias sediadas no Quitexe (CCS), Zalala (1ª.), Aldeia Viçosa (2ª.) e Santa Isabel (3ª.). E Destacamentos em Ponte do Dange, Vista Alegre e Luísa Maria. «Adidas» à força militar do BCAV. 8423 estiveram (por tempo que não conseguimos datar) as Companhias de Caçadores 209 e 5145, para além do Pelotão de Morteiros 4281 - instalado no Quitexe, de onde saiu para Carmona entre finais de Dezembro de 1974 e 4 de Janeiro de 1975.  E quatro Grupos Especiais (GE) - o 208, o 217, o 222 e o 223.
A acção foi orientada para os aquartelamentos IN, como era óbvio, mas uma outra tarefa não menos relevante foi, desde sempre, o apoio aos fazendeiros e à cobertura das actividades económicas da região - que, pelo mês de Junho de 1974 fora, se empenhava na apanha do café. O ouro da província do Uíge. O seu petróleo, se quisermos.
Os Cavaleiros do Norte fizeram milhares e milhares de quilómetros a proteger colunas civis - que das fazendas iam a Carmona, para vender as suas produções.  
A foto de baixo mostra uma das deslocações a uma fazenda. Neste caso à da Vamba, com os alferes Garcia (atiradores) e Cruz (mecânico).

sexta-feira, 25 de junho de 2010

As Forças Militares Mistas (FMM) de Angola

O quartel do Batalhão de Caçadores 12, onde estava aquartelado o BCAV. 8423

Os finais de Junho de 1975 levaram a Carmona (e a toda a Angola) uma novidade militar: a constituição das chamadas Forças Militares Mistas (FMM) - o que seria (e não foi) o futuro Exército Nacional de Angola, unificando as forças da FNLA e do MPLA. Da UNITA não se falava pelo norte. Não existia por lá.
A coisa não foi fácil!
Muitas das diferenças entre os movimentos foram transportadas para as FMM, agravadas pelas consequências dos (in)êxitos militares das «macas» de Carmona. «O mês decorreu sob forte tensão emocional, quer pelos alguns atritos que voltaram a dar-se, quer também porque se estão vivendo momentos de carências logísticas, os quais são reflexo do estado latente de conflito, que continua e que dá azo a um desabar de esperanças que se possa ver em bom e pelo o panorama da manhã», escrevia o autor do Livro da Unidade, referindo-se a estes tempos.
A prática trazia-nos quezílias permanentes, entre o elementos das FMM - que as FAP procuravam normalizar consoante podiam e gerindo conflitos que diariamente nos pregavam sustos. Muitos sustos!!!  Nunca se sabia o que poderia acontecer quando, no BC12 ou nos espaços exteriores de instrução, se confontavam os «inimigos» da mesma pátria, alinhando no mesmo pelotão, sentados na mesma sala, comendo na mesma mesa, com as mesmas armas na mão, aprendendo a mesma recruta militar.
Às vezes, quando ouço alguns senhores a falar do processo de descolonização, ocorre-me dizer que não sabem o que dizem, falam de cor, pois não estiveram no terreno. Nem os senhores que, de galões nos ombros e leis na ponta da caneta, à civil ou à  militar, «subscreveram» no papel o que viria a ser a Angola desse 1975!

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Os dias da rádio em Carmona


Lá por Abril ou Maio de 1975, no fim de um serviço de reforço, estava eu a aproveitar o silêncio da casa da guarda para dormir mais um pouco, quando alguém entrou e perguntou: »Quem é este gajo que está aqui a dormir?«
Claro que fingi não estar a ouvir."É pá, acorda... Ah, és tu!? Ainda bem, está aqui á porta uma pessoa que te quer falar», disse quem me chamava.
Mas quem será que me iria procurar no BC12?. Bom, chamava-se Júlio (?), era director da Rádio Clube do Uíge (RCU) e lamentou-se que naquela manhã não tinha tido a habitual emissão de rádio, pois o emissor tinha "pifado".
A rádio era muito importante para todos nós, pois, não tínhamos mais nada quase nada. Nessa altura a rádio trabalhava das 7 às 10, das12 às 14 e das 17 ás 24. Foi nessa ocasião que tive o prazer de trabalhar num emissor de rádio oficial e, logo a seguir, nos estúdios da mesma estação, prestando assistência técnica a quase tudo respeitante à emissão de um programa de rádio (daquele tempo, hoje é bem diferente).
Creio não estar errado, mas nesse tempo quem fazia um programa, era o Medeiros (cripto), já falecido, e o ex-alferes Ribeiro ou o Garcia (também já falecido). Desculpem as minhas incertezas, mas 36 anos é muito tempo.
No fim do mês de Maio (agora, sim, tenho a certeza) decorreram neste edifício os ensaios para um espectáculo, que nunca chegou a acontecer - o do aniversário do nosso BCAV. 8423. Faríamos o aniversário no dia 1 de Junho de 1975, data aceite por unanimidade (?!) para celebrarmos. Mas já se sabe o que aconteceu messe dia.
Para mim, a RCU que se vê na foto e todo o espaço interior e exterior é muito marcante. O Cinema Moreno ficava mesmo em frente.
RODOLFO TOMÁS

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O Encontro de Ferreira do Zêzere na imprensa



O Encontro da CCS do Batalhão de
 Cavalaria 8423 em Ferreira do Zêzere
suscitou o interesse da imprensa local - 
no caso, do jornal Despertar do Zêzere.
O Aurélio (Barbeiro), elemento
da organização, fez chegar
ao blogue a
cópia da notícia e
aqui a reproduzimos
com todo o gosto.
Clicar na imagem,
para a ampliar

terça-feira, 22 de junho de 2010

O furriel «infante» num batalhão de cavalaria...

Furriéis Viegas e Neto no jardim da vila do Quitexe (1974)


Almocei hoje com o Neto e, inevitavelmente, veio a tropa à baila!! O Quitexe, Carmona, Angola..., as  mil e uma histórias que nos fazem deuses de nós mesmos, enfabulando um tempo maior das nossas vidas.  «Conta lá no blogue aquela das armas...». sugeriu ele.
Os tempos eram os primeiros do Quitexe e estava o Neto de serviço, «passeando-se» de pistola no coldre e braçadeira verde, a mostrar autoridade e ordem. E não era dos que facilitassem, embora sempre contemporizasse com algum pequeno ou grande abuso - daqueles pecadilhos que sempre se cometem nas guarnições.
«Ó nosso furriel, de que especialidade é?!», perguntou-lhe o comandante Almeida Brito, que de supetão lhe apareceu, sei lá se desconfiado da arma que lhe via na boina castanha. E que era de infantaria, num batalhão de cavalaria.
«Não tenho especialidade, meu comandante!!..», respondeu-lhe o Neto, batendo continência, aprumado e seguro.
«Ora essa, não tem especialidade!! Então, como assim?!», ter-se-á interrogado Almeida e Brito. E desconfiou-se, como que a pensar se «este gajo não está a gozar comigo!».
«Qual é a especialidade, nosso furriel!!!?...», interrogou de novo o comandante, já meio afinado com o, digo eu, o «soberbo garbo» do jovem furriel. E logo ele, o comandante, que não era nada dado a brincadeiras e desrespeitos. E desrespeito era o que lhe parecia a atitude persistente do Neto, a merecer-lhe já talhada pesada do RDM.
«Não tenho especialidade, meu comandante!!!...», reinsistiu o Neto.
- «Não tens?!!!...», reperguntou o oficial, surpreendido com tal afirmativa e certamente a julgar menos bem da capacidade intelectual do furriel.
«Não tenho especialidade, tenho um curso de operações especiais, sou dos ranger's...», lhe respondeu o Neto, a  explicar a sua arma militar.
O comandante Almeida e Brito, que não era para brincadeiras, bateu o pingalim na bota e virou-lhe as costas. Ficara a perceber porque a boina do Neto não era de cavalaria. Como estava um infante no reino dos cavaleiros!

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Cavaleiros do Norte em Ferreira do Zêzere

Os Cavaleiros do Norte - os do Quitexe!!!... - reuniram-se em Ferreira do Zêzere e tiraram a foto oficial. Aqui está ela, com três semanas de atraso mas com muito boa vontade. Também só agora a recebemos e a da minha digital, deu o... berro!
Ali à direita, de pé, o nosso «mais velho», o agora capitão Luz - que pelo Quitexe de Carmona foi tenente e chefe da secretaria do BCAV. 8423. Ao lado dele, de barbas, o então alferes Cruz, agora engenheiro mecânico em Santo Tirso e que por lá comandou o sempre operacional parque-auto. Na outra ponta, de escuro, o engº. Ribeiro, alferes miliciano sapador. À frente, de cócoras, o dr. Albino Capela - ao tempo missionário do Quitexe. Atrás dele, de óculos, o outro Cruz, o furriel rádio-montador - entre o atirador Caixarias (à esquerda) e o analista Alfredo Coelho (o Buraquinho). E, depois, a malta toda!!! E não fez falta quem não apareceu!!!

domingo, 20 de junho de 2010

Os dias que se sucederam aos incidentes de Carmona


A parada do BC12, em Carmona, recebeu  mais de um milhar de refugiados


A protecção dada aos populares de Carmona, recebendo-os no aquartelamento, foi muito mal entendida pela FNLA - a «vitoriosa» da guerra da cidade, frente ao MPLA.
O que concluíram os seus dirigentes é que as Forças Armadas Portuguesas protegiam o MPLA, acusando-nos disso e até ameaçando com represálias, nalguns casos. Tenho na memória o momento dramático de quando, estando eu de sargento de dia e a descansar na casa da guarda, um grupo de «fnla´s», com uma metralhadora instalada num Toyota amarelo, queria forçar a entrada no BC12.
O alarme foi dado pelo sentinela, o Dionísio..., amedrontado (pudera!!!...) na guarita em frente à porta d´armas, e imediatamente foi accionado o sistema de defesa, para evitar o pior. E o pior seria coisa simples como o resultado de um tiro ser dado, uma ordem mal dada, ou mal interpretada. Não se sabe o que aconteceria... Poderia ser uma chacina.
A protecção foi dada no quartel «a um milhar de refugiados», assim se lê no Livro da Unidade. Mas esta atitude solidária e humana, não teve entendimento da FNLA - que, cito o LU, a considerou «discricionária e partidária», disso resultando «um período seriamente preocupante para o BCAV».
A memória traz os dias de tensão que se seguiram após a violência dos combates na cidade. E as dúvidas que um grupo de furriéis milicianos foi pôr ao comandante Almeida e Brito, sobre como agir em caso de ataque directo às NT.  Os furriéis milicianos, nomeadamente os dos pelotões operacionais, eram a primeira «carne para canhão« que evoluía na cidade e no patrulhamento dos itinerários. E se alguém nos apontasse uma arma, nos atirasse uma granada, nos ameaçasse e quisesse amortalhar o corpo? Descansou-nos Almeida e Brito, valendo a verdade que não tanto como gostaríamos. Mas também é verdade que nos sentíamos mais fortes e menos desassossegados quando descemos as escadas do  gabinete do 1º. andar. Ainda bem que nada foi preciso fazer, para evitar mais mortes. Não foi preciso chegar a limites!!! Embora dias de difíceis se adivinhassem!
- DIONÍSIO. Dionísio Cândido Marques Baptista, soldado atirador de cavalaria, mora no Seixal.

sábado, 19 de junho de 2010

A mensagem de Marta Garcia


Alferes Garcia e Ribeiro, capitão Leal e Tenente Luz no Quitexe (1974)


A mensagem de Marta Garcia sensibilizou-me profundamente, como, concerteza, a todos aqueles que a ouviram, ou leram. Mas fiquei contente, ao mesmo tempo, por saber a vida do Garcia prolongada neste mundo, deixando a honrá-lo, tanto quanto merecia, esta descendência que rogo a Deus seja muito feliz.
Privei com o alferes Garcia no Quitexe e em Carmona, integrados na mesma Unidade. Era um rapaz alegre, divertido, generoso, sincero e disciplinado. Um “camaradão”.
Recordo o Garcia, quando nos deslocávamos, no centro da cidade de Carmona, numa viatura militar de caixa aberta (éramos para aí uma dúzia), a cantar, para exibição de voz, a “Grândola Vila Morena” (parece que o Comandante não terá gostado muito da brincadeira,  quando veio a saber...) e o Garcia cantava “umas” da sua terra, que nos faziam rir muito, a todos.
Recordo o Garcia à frente do seu grupo de combate a receber, com todo o aprumo, a “ordem de guerra” dada pelo Comandante, quando foi a revolta da Companhia de nativos da Fazenda Liberato.
Recordo o Garcia quando nos dizia, a mim e aos alferes de CCS, que esperava que provássemos o Vinho do Porto de Carrazeda, mesmo do pipo, em Pombal, a sua aldeia. Não quis o destino que tal viesse a acontecer.
Recordo o Garcia, com saudade, de todos os dias, no Quitexe e em Carmona.
Recordo ainda o Garcia, com gratidão, quando num domingo, já ele na Polícia Judiciária, passou pela Marinha Grande e foi à PSP local perguntar onde me poderia encontrar. Disseram-lhe que àquela hora, 11 horas e tal da manhã, eu deveria estar na missa das 11 (de facto os polícias conheciam-me todos bem).
Então, o Garcia pediu para me dizerem que ele havia passado por lá (Marinha Grande), em missão de serviço, e que deixava um abraço ao capitão Luz e que desculpasse porque o serviço não lhe permitia estar mais tempo. Já agora conto o resto: ainda nessa mesma missa, já no final, um polícia fardado entrou na Igreja, tocou-me nas costas e fez-me sinal para ir lá fora (naquele momento até pensei se tinha feito algum pecado…). E transmitiu-me a mensagem do Garcia.
Era mesmo assim o Garcia. De resto, todos os da CCS o conheceram bem.
Peço desculpa de me ter alongado mais um pouco, mas ao falar do Garcia não o sabia fazer doutro modo.
Que o Criador o tenha em bom lugar.
Um abraço à sua filha e neto.
Um abraço a todos.
ACÁCIO LUZ

- LUZ. Acácio Carreira da Luz, tenente do SGE e chefe de secretaria do BCAV. 8423, agora capitão, na situação de aposentado e residente na Marinha Grande. 
- MARTA. Marta Garcia Pracana, filha do (falecido ex-alferes) Garcia, professora universitária e residente em Vila Nova de Gaia. Ler a mensagem em http://cavaleirosdonorte.blogspot.com/2010/06/mensagem-de-marta-garcia.html
- NOTA: Da «ordem de guerra» aos revoltosos do Liberato, aqui virei falar um dia. Ainda sinto os cabelos em pé, de quando, na formatura, ouvimos a ordem do comandante Almeida e Brito. Ordem para não os deixar passar. E a espantosa serenidade do Garcia, na frente do pelotão. «Vamos...» disse ele, enquanto os nossos bravos «pelrec´s» subiam para as viaturas, a aperrar armas, a colocar dilagramas, a aprontar miras. E sentia-se confiança e coragem naquela ordem. Sentia-se determinação, bravura, generosidade, partilha solidária de um momento que poderia ser véspera de tragédia.  
«Não te sentes na serra das Meadas?!!!», ironizei-lhe eu, ainda no chão vermelho da avenida do Quitexe, referindo-me ao Centro de Instrução de Operações Especiais (CIOE), de Lamego. Disse aquilo para iludir os meus medos. Os nossos medos. Felizmente, não houve confrontação. Evitou-se uma tragédia.

A evacuação de crianças e refugiados para Luanda

Refugiados na parada do BC12, com o Emanuel Miranda dos Santos


Não posso afirmar ao certo o dia em que foi feita a evacuação de todos os civis do BC12, mas creio que terá sido no dia 14 de Junho. Sei, isso sim, que foi num sábado que tudo aconteceu.
Homens, mulheres e crianças foram evacuados em coluna militar até ao aeroporto de Carmona, onde embarcaram no "barriga de ginguba",  o famoso Nord`atlas. Mais de 100 pessoas encheram por completo o aparelho, no primeiro voo, o que era normal acontecer - ultrapassando a sua lotação.
Depois!... bem, foi arregaçar as mangas e toda a gente colaborou, sem excepção, a fazer uma das maiores faxinas que eu já vi na minha vida. Lembro que, nessa manhã, esgotámos a água e eu fui com o Mendes (electricista), do parque-auto e do "Casal Ventoso", até às bombas de água - que ficavam fora do BC12 - de G3 nas mãos, não fosse o diabo tecê-las, para fazer quase o impossível.
Uma correia de transmissão, tipo automóvel, tinha rebentado. Já naquele tempo havia "Mac Gyver`s" e assim, o homem do Casal Ventoso usou o que tinha à mão: sacou de um cinto que trazia e, ali mesmo, fez a emenda com um cordel, do tipo fio do norte. Durou pouco mas serviu para o "desenrasque".
De todos os refugiados de guerra os que mais davam pena eram, sem dúvida, as crianças. O Emanuel dos Santos (foto) era muito sensível com a sua fome e carências.
RODOLFO TOMÁS