sábado, 24 de abril de 2010

Incidentes no Negage e patrulhamentos mistos urbanos

Base Aérea do Negage, aspecto de 1970 (foto de Jorge Oliveira) e furriéis Cruz e
Viegas, em férias na zona de Nova Lisboa (em baixo)
Os dias de Carmona foram adensando problemas, por Abril de 1975 fora. A guarnição do BCAV. 8423, já reforçada com grupos de combate de companhias da ZMN, tinha «água pela barba», todos os dias. Os patrulhamentos mistos continuavam, principal ou exclusivamente na cidade.
«Não se podia deixar a cidade de Carmona inactiva», frisa o Livro da Unidade, de que me socorro.

A 20 de Abril, incidentes no Negage - cidade próxima, onde se situava a base aérea (foto), por isso localidade estratégica... - levaram à realização de uma reunião de emergência, com a FNLA, de modo a «obter-se uma mentalização do que deverá ser a missão das NT e dos Exércitos de Libertação, neste período que decorre até à independência».

A ideia, generalizada, todavia, era a de que se vivia uma situação da calma fictícia - ainda que, valha a verdade, «permita manter-se um dia-a-dia mais ou menos estável, quebrado por um ou outro incidentes...».

Por estes dias, ao sul, jornadeava eu e o Cruz, em férias (foto de baixo) - neste caso convivendo com familiares dele, que nos receberam principescamente em Benguela. A foto é da véspera da nossa saída de Nova Lisboa, no regresso de um passeio pela zona. Nas nossas costas, está a cidade - a uns 8/10 quilómetros.
- ZMN. Zona Militar Norte.
- NT. Nossas Tropas.
- FNLA. Frente Nacional de Libertação de Angola (a antiga UPA, de Holdem Roberto).

sexta-feira, 23 de abril de 2010

1º. dia de tropa

O regresso dos Cavaleiros do Norte a Santa Margarida

Neto e Viegas, 1º.s cabos milicianos da CCS, no RC4 (Santa Margarida, 1974)

Dia 22 de Abril de 1974, 2ª. feira. A formatura das 8 horas da manhã já incluiu a maior parte dos jovens que, mobilizados desde o princípio do ano (a maior parte) e outros já desde 1973 (Dezembro), integravam o Batalhão de Cavalaria 8423. Já se sabia o lema: «Perguntai ao Inimigo Que Somos». E já se tinham gozado os dez dias da licença de normas - a período que antecipava a partida para os teatros de guerra.
O BCAV. 8423, porém, por causa da Revolta das Caldas, teve dez dias que se fizeram por mais de um mês e foi nos quartos que os 1ºs. cabos milicianos que «dormiram» alguns dos oficiais de intentona. Assim nos disseram.
Fomos chamados (eu e o Neto), na tarde de 19 de Abril e por uma via inusual: através da então Escola Central de Sargentos, que por Águeda preparava futuros oficiais. E lá fomos nós, a 20 de Abril - um sábado, despedindo-me eu de minha mãe, que mercava na praça de Águeda, tendo o cuidado de ir vestido à civil, para não suscitar constrangimentos entre o povo. O SIMCA 1100 do Neto voou até Santa Margarida.
O tema das conversas, todas mais ou menos camufladas, tinha, evidentemente, a ver com o golpe das Caldas (a 16 de Março), que nós não entendíamos muito bem. Chegámos já depois do almoço, feito em Abrantes - o Neto era sempre adepto de chegar o mais tarde possível, ao meu contrário, que era amante de chegar sempre cedo - e lá ficámos a saber, já em Santa Margarida, que éramos os primeiros milicianos e que, entrando de serviço na manhã de domingo, iríamos passar a noite de domingo para segunda-feira a receber o pessoal que chegaria. Assim foi! E a satisfazer a maior curiosidade de todos: a partida da CCS para Angola seria a 27 de Maio. E iríamos fazer o IAO a partir de 3 de Maio!
- IAO: Instrução Altamente Operacional, período de preparação real.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O meu primeiro dia de tropa...




Há 37 anos, hoje se completam, era véspera de eu assentar praça. Não me lembro muito bem, mas certamente foi um dia a imaginar muitos cenários e a gerir expectativas. Prevenindo-me para factos e emoções.
Era Abril de 1973 e ia no oitavo mês de luto pela morte de meu pai, já trabalhava e essa minha partida gerava alguns constrangimentos familiares, pessoais e afectivos.
Mas não havia como escapar e eu não também quis, teimosamente, beneficiar de qualquer apoio que, em qualquer grau, m´evitasse ir à tropa. E à guerra!!! Gente próxima, bem se disponibilizou para isso. Mas teimoso e orgulhoso, aí me pus eu, faz hoje 37 anos, em traje de ir para a guerra.

Nunca me arrependi, nem nos duros tempos de Lamego (nas Operações Especiais que me fizeram Ranger), muito menos na recruta da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém. Ou sequer nos tempos de Santa Margarida - onde se fez a família dos Cavaleiros do Norte.
No bornal e fresquinhas como alface saída da horta, levava recomendações de família e amigos e a memória a rebobinar conversas de meu pai - que me falava de coisas de quando ele, nos anos 40, se fizera magala, chegando a 1º. cabo enfermeiro: "Cumpre sempre as ordens, discute-as só quando tiveres certezas e depois de as cumprires!». Assim julgo ter feito.
Hoje, 37 anos depois, se me perguntarem, direi que valeu à pena ir à tropa. Que gostei. Que, entre virtudes e defeitos, boas e más memórias, dramas e glórias, me fiz melhor. Melhor, com a solidariedade dos muitos companheiros que, de 23 de Abril de 1973 a 8 de Setembro de 1975, foram gente do meu dia-a-dia, dividindo-se e/ou multiplicando-se comigo.
Não tivesse ido e ainda hoje me sentiria um cidadão menor! Ainda hoje, melhores dos meus amigos, são amigos da tropa. De Portugal e de Angola!

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Oa rádios-montadores que faziam de tudo e mais alguma coisa...

Tomás e Pais (1º.s cabos) e Silva, rádio-montadores da CCS do BCAV. 8423

Texto
RODOLFO TOMÁS
O Almeida não foi o único a mudar de especialidade. Lembro que o António Silva, rádio-montador, também foi "convidado" a trabalhar na padaria. Convidado à força!, é bom dizer!
O capitão Oliveira que era, como todos nos recordamos, um grande defensor das NEP´s, nessa altura esqueceu-as totalmente e há que por todos a trabalhar, principalmente os rádio-montadores.
Vamos relembrar: Um fazia de escriturário, o Tomás..., «gramava» a escala dos reforços como cabo de dia e dava assistência técnica - e não só militar, como de âmbito civil; outro, o Pais, era foto-cine (ou seja, dava cinema), fazia reforços e cabo de dia e dava assistência técnica. Finalmente, o Silva fazia reforços, faxinas, assistência técnica e foi também padeiro.
Para quem aqui já disse que ser rádio-montador era uma maravilha..., que até tínhamos umas tainadas pela noite dentro com fados e etc.!!, até que nem era nada mau!
Bom..., apesar de tudo, quem nos dera tal escala e estarmos pelo Quitexe e Carmona!!! Afinal, sempre éramos mais novos só... 36 anos!!! E «aguentavam-se» todas as injustiças!
- TOMÁS. Rodolfo Hernâni Tavares Tomás, 1º. cabo rádio-montador, mora em Lousada.
- PAIS. António Correia Lourenço Pais, 1º cabo rádio-montador, residente em Viseu.
- SILVA. António Jorge Pereira da Silva, soldado rádio-montador, residente em Vila Nova de Gaia.
- ALMEIDA. Joaquim Figueiredo de Almeida, ver post de ontem.
- NEP. Normas de Execução Permanente, regulamento de uma unidade militar.

terça-feira, 20 de abril de 2010

O atirador de cavalaria Almeida que se fez padeiro...

Miltares do PELREC. Em cima, da esquerda para a direita, Hipólito, Monteiro (furriel),
ALMEIDA e Vicente. Em baixo, Garcia (alferes), Leal, Neto (furriel) e Aurélio (barbeiro)


O 1º. cabo Almeida era atirador de Cavalaria e um ano mais velho que todos nós - os gloriosos «pelrec´s» da CCS dos Cavaleiros do Norte. Rezava a lenda de caserna que tinha ele fugido para França, a salto, e, por isso, teve incorporação militar um ano depois. Era de 72, nós 1973. Nunca ele, mesmo perguntado, confirmou se assim foi.
O 1º. cabo Almeida era a paz em pessoa! Quiçá, envergonhado da sua condição humilde, parido que foi lá pelas serranias da Estrela, nas abas de Penamacor. Nunca dele se teve um problema. Foi sempre zeloso, cumpridor e aprumado, humilde até parecer excesso. A equipa de combate que comandava era do PELREC e disciplinada, corajosa, sem medos... E ele, para além das missões que lhe competiam, como atirador de cavalaria - comendo o pó das picadas e vencendo o medos dos trilhos de perigos das matas... - , emprestava-se ainda às tarefas internas da guarnição, sem um ai de queixume e indo para além do curial - por exemplo, fazendo-se padeiro e coordenando as tarefas de ordenação do refeitório.
Ocorre-me isto, por ler um louvor do comando do BCAV. 8423, relevando «um militar muito disciplinado, correcto e sempre pronto a cumprir quaisquer serviços, mesmo voluntários, que se solicitassem». O documento dá especial ênfase ao período dramático de Junho de 1975, quando milhares de civis foram socorridos no BC12 e tinham de... comer. Pois o 1º. cabo Almeida, atirador de cavalaria que se fez padeiro, teve «esforço especialmente notório» nesse período de incidentes, «trabalhando dia e noite, para apoiar tão elevado número de pessoas».
O militar Almeida, evoco-o como sempre disponível, sempre cumpridor e sempre atento, sem uma qualquer exuberância ou algum deslumbramento, sempre consciente dos momentos que se viviam. E também o lembro pelo pão quentinho que barrávamos de manteiga, às vezes recheávamos de queijo ou goiabada, ou presunto em dia de festa. Era pelas noites dentro, quando estávamos de serviço, no Quitexe ou em Carmona.
E como era bom o casqueiro amassado e cozido pelo padeiro Almeida, no forno da CCS!
- ALMEIDA: Joaquim Figueiredo de Almeida, 1º. cabo atirador de cavalaria, natural de Pedrogão de S. Pedro, em Penamacor. Faleceu a 28 de Fevereiro de 2009.
- FALECIMENTOS. Garcia, Almeida, Vicente e Leal já faleceram

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A mensagem que foi forjada para a coluna terrestre passar para Luanda

Refugiados da cidade de Carmona (Uíge) no BC12, protegidos pelo BCAV. 8423

JOSÉ DIOGO THEMUDO
Texto

A dada altura, estava eu a comandar o Batalhão, pois o tenente-coronel Almeida e Brito tinha entrado de férias, começámos a entregar algumas infraestruturas aos três movimentos : MPLA, FNLA e UNITA.
Para isso, reuníamos no Comando de Sector com os responsáveis locais dos Movimentos e combinávamos o que cabia a cada um e como é que essas infrestruturas, nomeadamente quarteis, iriam ser entregues. Só que a ganância era tanta que não cumpriam o que se havia combinado e ocupavam clandestinamente tudo que lhes aparecia à mão.
Como era de esperar, e como já li numa das histórias deste blogue, a determinada altura, os Movimentos deixaram de se respeitar e de nos respeitar também a nós e envolveram-se em guerra. Na nossa Zona de Acção a "força"estava do lado da FNLA e assim , os "militares" da UNITA e principalmente os do MPLA , tiveram que fugir. Muitos deles refugiarando-se, com alguns familiares, no nosso Quartel.
Para tirarmos a salvo esses refugiados, organizamos um transporte aéreo e uma coluna com destino a Luanda. No transporte aéreo, seguiram os mais "perigosos", assim como alguns civis - nomeadamente mulheres e crianças. Do aeroporto, tinham-me dito que no avião só cabiam 100 pessoas incluindo nesses 100, algumas crianças. Só que, na hora de embarcar as pessoas nas viaturas de transporte para o aeroporto, foi completamente impossível controlar quem ia e quem ficava. Uns diziam que só queriam ir despedir-se dos seus familiares e outros, de facto, queriam era fugir. Assim embarcaram no avião mais de 150.
Os pilotos nem queriam acreditar no número que lhes foi apresentado. A porta do avião fechou-se a muito custo e, depois de "comer" quase toda a pista , lá conseguiu levantar e levar os "forçados passageiros" para Luanda.
A coluna terrestre "encalhou" no Negage, porque a FNLA não nos queria deixar passar
. Dizia que aquela gente ia para Luanda e que, depois de se armar, regressaria a Carmona para se vingar da derrota sofrida. Depois de termos informado o Comando de Sector da situação e para que não houvesse mais derramamento de sangue, este forjou uma mensagem assinada por Ngola Kabango, que era Ministro em Luanda e era dos quadros da FNLA , que autorizava a nossa passagem. E assim a coluna lá seguiu o seu destino sem mais quaisquer problemas. Que será feito dessa gente? Uns terão ficado sempre por Luanda, outros talvez tenham regressado mais tarde.
Pequenas histórias passadas há 35 anos.
Um abraço para todos
JOSÉ DIOGO THEMUDO
- THEMUDO. José Diogo da Mota e Silva Themudo, capitão de Cavalaria e 2º. comandante do BCV. 8423, entre Março e Setembro de 1975. Actualmente, é coronel na situação de reformado e reside em Lisboa.

domingo, 18 de abril de 2010

Palestras orentadoras para as primeira eleições depois de Abril

Férias em Nova Lisboa, capital do Huambo (Abril de 1975) e correio

com notícias (políticas) de Portugal (em baixo)






Portugal preparava-se para as primeiras eleições e, em Angola, os Cavaleiros do Norte «casavam» os momentos de alguns frissons de rua com sessões de esclarecimento político. Afinal, ia-se votar - o que, para todos, era uma grande novidade.
Não assisti a nenhuma, pois andava lá pelos suis angolanos, em gozo de férias e até pouco «sensibilizado» para a «coisa», mas chegaram comentários alarmantes de Portugal (imagem ao lado). «Depois da euforia, começa a temer-se coisas chatas, há muitas dúvidas entre o povo que não entende nada do que os políticos dizem e se diz enganado. Não sei onde isto irá parar...», escrevia-me pessoa amiga, em correio para Nova Lisboa, dando-me nota dos fervores revolucionários que por cá se viviam.
«Eu sei que nem devo estar a incomodar-te com estas coisas, pois precisas é de gente que te anime, mas eu acho que isto pode realmente dar em estardalhaço...», confidenciava-me o correio chegado de Portugal. Por sinal, de gente colocada na área de esquerda. E bem de esquerda. O pai era delegado sindical, entre UDP e PCP.
Carmona, essa continuava a «arder», com regulares escaramuças entre FNLA e MPLA. E preparavam-se as eleições de 25 de Abril de 1975. O BCAV. 8423 foi encarregado de distribuir as urnas de votos e, para esclarecer os «cavaleiros», realizaram-se as tais sessões de esclarecimento, a 16 e 23 de Abril.
O Livro da Unidade usa um preciosismo - eram, afinal, «palestras orientadoras» - para definir tais sessões, que mais tarde o Neto me veio dizer, respondendo a pergunta minha, que «foram uma confusão....». «Vieram para aí dizer umas coisas mas eu acho que ninguém entendeu nadinha...», disse ele, que até era dos mais esclarecidos.
Só por curiosidade, por conversas entre «cavaleiros», dir-se-ia que a maioria andava pela esquerda e pelo PPD, com franjas muito minoritárias do CDS. Mas, na verdade, ouso dizer que a malta, quase toda a alta, não entendia nada do assunto e as nossas «ideias» reflectiam muito do correio que nos chegava de Portugal.

sábado, 17 de abril de 2010

Férias em Nova Lisboa e as primeiras eleições em Portugal

Férias em Nova Lisboa, com família e amigos, e barragem do Cuando (em
baixo). Clicar, para ampliar as imagens
Vantagem de escrever anotações nas costas das fotografias é recordar histórias a elas ligadas. A de baixo, a preto e branco, fez memória da minha visita à barragem do Cuando, a 14 de Abril de 1975, com Cecília Neves e o marido, Rafael. Na de cima, a cores, estou eu com Rafael e os quatro filhos: Saudade, Fátima, Idalina e Valter. Num dos muitos jardim de Nova Lisboa, no dia 16.
Retratam alguns dos momentos da minha passagem de férias pela cidade e arredores - em tempos de paz e alegria que se testemunha no olhar sorridente e feliz de todos. Seguramente, foram tiradas pelo Cruz - meu companheiro dessa jornada que nos levou ao sul de Angola. Merendámos nesse dia 14 de Abril, na barragem, por cujo arredor se erguia ao tempo uma missão católica - a uns dez/quinze quilómetros de Nova Lisboa.
A memória mais viva que me ocorre da foto de cima tem a ver com o pequeno pescador, que à viva força nos queria vender (e vendeu...) o peixe que tinha tirado à linha da lagoa.
De Portugal chegavam notícias das primeiras eleições. «O largo do cruzeiro está transformado em cenário multicolor, está até mais vistoso. São vários os partidos propagandeados, mas o PS e o CDS são os que predominam», dizia-me, por correio recebido no Hotel Bimbe, minha irmã Maria Dulce, dando ainda nota que «foi à luz do dia que os partidos andaram a fazer a colagem dos cartazes e até se juntaram os simpatizantes dos partidos para fazerem pinturas».
Eram as primeiras eleições portuguesas, depois de Abril de 1974!

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O homem das transmissões aos berros no meio da emboscada...

Vista aérea da vila do Quitexe (foto cedida por José Lapa, do BART. 786).


ANTÓNIO CASAL
Texto
A propósito dos homens das transmissões, continência, sim senhor, muito bem. Aproveito para puxar dos meus galões, melhor dizendo, das minhas divisas. Ou não tivesse eu sido homem de transmissões!
Teria aqui pano para mangas muito compridas, mas vou resumir. Recordo-me de um dia almoçar com uns amigos, que faziam parte da escolta ao MVL. Dois tinham feito a recruta comigo e o alferes tinha sido meu colega de escola. Almoçámos os quatro e despedimo-nos cerca das duas da tarde. Ás 16 horas, recebemos uma comunicação via rádio, pedindo-nos ajuda. Não chegámos a sair do quartel, porque logo de seguida recebemos nova comunicação, a informar-nos que um PELREC já ia a caminho, proveniente de um destacamento mais próximo do local.
Partimos, sim, mas às seis da tarde, com uma tarefa bem mais dolorosa. Não vou entrar em detalhes, apenas quero salientar a atitude do homem das transmissões. Muito baixinho, metido apenas com ele mesmo e que quando falava, parecia que sussurrava. Contou-me o alferes, à noite, que o soldado de transmissões, ao saltar da viatura, foi protegido pelo rádio Racal TR 28, que foi atingido por uma das três Bredas montadas, ficando destruído e sem hipóteses de funcionamento. Abrigou-se atrás de a roda e aproveitou uma pequena pausa do tiroteio, para gritar a amplos pulmões, simulando que estava a falar com os camaradas e dando a entender que a ajuda estaria próxima. A atitude resultou e verificou-se uma reviravolta nos acontecimentos, que já tinham deixado as suas marcas.
O acto foi reconhecido e, já na vida civil, vim a saber que foi condecorado, ou que recebeu uma medalha pelo seu feito, não posso precisar. Creio que se chama(va) Mateus, o tal que se punha sózinho no seu canto e que era olhado como um "meia leca". E que, pelos vistos, até tinha boa voz, mas só dela fazia uso quando entendia ser necessário! Ele lá sabia. E lá soube!

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A chegada do capitão José Diogo Themudo a Carmona

O capitão Themudo (à direita), com o capitão Falcão (ao meio) e o alferes Garcia (à
esquerda), na varanda interior do edifício do comando do BC12


O BCAV. 8423 esteve sem 2º. Comandante até Março de 1975, quando chegou a Carmona o capitão José Diogo da Mota e Silva Themudo. Substituiu o major José Luís J. Ornelas Monteiro - que se apresentara em Santa Margarida, a 4 de Fevereiro de 1974, que nós mal conhecemos e que, nas vésperas do embarque da CCS para Luanda (a 29 de Maio), foi requisitado pelo MFA «por motivos imperiosos de serviço» e por cá ficou.
Reencontrámos, agora, o capitão José Diogo Themudo, já coronel e aposentado, que nos conta como foi parar a Carmona. Na primeira pessoa:
«Em Janeiro de 1975, fui mobilizado pela segunda vez para Angola. O meu destino era Silva Porto, para substituir um capitão que ia regressar à metrópole. Mas, quando cheguei a Luanda, fui informado que todas as tropas de Silva Porto já tinham regressado e que, portanto, já não ia substituir ninguém. Pedi, então, para regressar à metrópole, o que me foi negado, pois tinha sido o último oficial a chegar a Angola e podia fazer falta».
Continua o coronel Themudo, a contar a sua história angolana: «Instalei-me na messe de oficiais e de quando em vez passava pelo Quartel General, para saber se havia notícias. Estive na praia durante um mês. Por um feliz ou infeliz acaso, certo dia fui ao aeroporto despedir-me de um camarada de armas e encontrei também por lá o então Tenente-Coronel Almeida e Brito, que me convidou para 2º. Comandante do Batalhão».
O capitão José Diogo Themudo, que então se sentia «farto de nada fazer» em Luanda, resolveu aceitar o convite, «apesar das funções serem de major e eu ainda ser capitão». E, no dia seguinte, lá foi com Almeida e Brito ao QG/RMA e resolveram a situação.
Sem demora, estava em Carmona no Batalhão de Cavalaria 8423. Deixavam os Cavaleiros do Norte de estar órfãos do 2º. Comandante.
- QG/RMA. Quartel General da Região Militar de Angola.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Comunas do Qutexe com ajuda alimentar

Momento em que o governador provincial e o presidente da AJAPRZ
distribuíam bens alimentares, industriais e material didáctico. Fotografia: Eunice Suzana

A alegria estampada no rosto de Luís Alexandre Joaquim, um menino de sete anos, era contagiante. Recebeu, domingo último, da Associação de Jovens Angolanos Provenientes da República da Zâmbia (AJAPRZ), material didáctico e uma pasta escolar. Quem também saltou de alegria foi a pequena Mingota, que também recebeu material didáctico e uma pasta escolar.
Estamos muito alegres. Agora já não vamos mais levar os cadernos nas mãos”, disse Juliana André, aluna da escola primária da comuna de Cambamba, a cerca de 88 quilómetros do Quitexe.
Ver notícia completa AQUI.

Conflitos entre o MPLA e a FNLA na cidade de Carmona


Rua do Comércio uma das principais da cidade de Carmona (Uíge), em 1975

Os dias de Abril de 1975, em Carmona, foram assombrados por repetidos incidentes entre militantes dos movimentos emancipalistas - a que a tropa portuguesa ia dando «resposta», procurando conciliar forças. Mas o destempero de alguns dos (ex)combatentes exorbitava-se muitas vezes e começou a não ser invulgar ter de intervir em «força».
Luanda multiplicava-se em incidentes inter-movimentos e Carmona sentia-se minimamente segura, mas a guarnição via, aos poucos, confirmarem-se as sábias e experientes palavras de «aviso» do comandante Almeida e Brito: «Os problemas vão cá chegar...».
À boca pequena, e normalmente nas noites de serviço, sussurravam-se «coisas» entre a tropa miliciana graduada, furriéis e alferes - estes, por ouvirem nas messes o que a parada desconhecia. Os patrulhamentos mistos, normalmente sem problemas, começaram a ser pasto de pequenas escaramuças e os Cavaleiros do Norte muitas vezes eram maltratados e ofendidos nas ruas da cidade, por europeus que nos apontavam dedos em riste e acusavam de traidores. Repetiam-se pequenos tumultos, cada vez mais graves e entre os movimentos!
Reporto o Livro da Unidade, sobre a intervenção das Forças Armadas Portuguesas: «Houve que fazer intervenção a conflitos diversos, o mais grave deles a 13 de Abril, na própria cidade, aquando uma acção de fogo entre o MPLA e a FNLA, através de elementos das duas forças militares». Fez ontem, 35 anos!
E de tal monta se foram repetindo os incidentes que a guarnição foi de imediato reforçada, para «obstar tais inconvenientes e para cumprir uma intensa actividade de patrulhamentos mistos». A 14 de Abril (faz hoje 35 anos), chegou um grupo de combate do BCAÇ. 5015 e, na noite de 15 para 16, um outro - este da 3ª. CCAV., ao tempo ainda no Quitexe.
A sul, eu e o Cruz vagabundeávamos por Nova Lisboa e cidades limítrofes, em gozo de férias que ainda hoje nos deixam adoçar a boca. Sempre atentos à Emissora Oficial de Angola, para saber notícias do país que estava a nascer em berço de alguns tumultos.
- BCAÇ. 5015. Batalhão de Caçadores 5015, cumpriu comissão em Angola entre 1974 e 1975, com instalações na Damba (CCS), Chimacongo (1ª. CCAÇ.), Mucaba (2ª. CCAÇ.) e Quivuenga (3ª. CCAÇ.). Desconheço a que companhia pertencia o grupo de combate.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Agência do Banco BIC na cidade de Uíge (antiga Carmona)


Uíge, 13/04/2010: Uma nova agência do Banco BIC foi ontem (segunda-feira) inaugurada na cidade do Uíge - antiga Carmona -, numa cerimónia presidida pelo governador provincial, Paulo Pombolo.
O presidente do Banco BIC, Fernando Teles, garantiu que, com a abertura do novo balcão, há a possibilidade do empresariado local obter crédito.
"O nosso objectivo é continuar apoiar os pequenos agricultores e outros ligados à pecuária, assim como os empresários e funcionários da província do Uíge", disse, pedindo, para o efeito, melhor colaboração entre empresários e o banco.
Notícia a partir da Angola Press, ver AQUI

Os meus dias de Nova Lisboa !!!...

Hospital Militar e jardim de Nova Lisboa, em Abril de 1975 (em cima). Porto do
Lobito, no dia 12 ou 13 do mesmo mês (em baixo). Repare-se nos slogans revolucionários
escritos no muro. Clicar, para ampliar as imagens
A minha estadia em Nova Lisboa deslumbrou-me. A cidade era moderna, apetecível, bem desenhada, cheia de espaços ajardinados e fluidez de trânsito, muito bem estruturada, ampla e de gente simpática e ordeira. Com muitas respostas para a nossa curiosidade jovem.
Por lá caminhei eu, em busca da soleira da porta de familiares: o Manuel e o Zé Mau (ambos Viegas), primos direitos de meu pai. Queria que eles me mostrassem a casa que um tio comum, irmão de minha avó paterna, tinha construído na cidade e seria, segundo a lenda familiar, a primeira de Nova Lisboa com dois andares - lá pelos anos de 40 e tal.
A casa, para minha alegria, ainda existia - embora habitada por outra gente. Era do tio Joaquim Viegas, que sempre me deliciava com latas de goiabada, era eu miúdo e quando ele vinha de férias a Portugal.
Por lá, em Nova Lisboa, moravam os irmãos Miranda, meus companheiros de escola primária - o Óscar (que a vida levou a combatente da UNITA e, depois, apanhado da justiça em Portugal) e o Nélson (que por cá também conheceu uns lados menos bons). Filhos de Zulmira e Óscar.
E o Orlando Rino, com bar no bairro de Santo António, junto ao campo militar - onde petisquei fartas panquecas, molhadas a jarros de vinho branco. Com ele, fui ao Lobito, numa epopaica viagem de automóvel que teve um stop "militar" de combatentes de um movimento, uns quilómetros adiante do Alto Hama, serra abaixo no caminho de serrania para a beira-mar. Ainda hoje estou para saber onde levava ela a arma com que enfrentou a "turba" que nos assaltava.
Com ele moravam a mulher Paula, já com dois dos três filhos; e os sogros Figueiredo e Leontina. Foi uma festa, na casa do bairro de Santo António!!! Leontina lembrava-se do que eu tinha esquecido: uma irmã dela, na nossa aldeia ribeirense, tinha dado uma queda com um carrego de erva à cabeça, partira uma perna e fôra eu, pelos meus 12/13 anos, quem a ajudara nessa aziaga tarde de inverno. E lá ia mais um copo de branco, a cada lembrança que se avivava.
O Cruz, bem mais contraído que eu, deliciava-se no viver destas parlengas adocidadas pelo sabor do chão da terra ois-da-ribeirense. E lá ia mais um copo de branco!
E as minhas férias militares, em Abril de 1975!!
- MANUEL E ZÉ «MAU». Primos de meu pai e ao tempo residentes em Nova Lisboa. Manuel já faleceu. Zé mora em Travassô e é avô de Edson Santos, chefe de gabinete do presidente da Câmara de Águeda.
- ORLANDO. Orlando Tavares Rio, conterrâneo de Ois da Ribeira, actualmente residente em Rio Grande (Brasil), onde já estive com ele por quatro vezes. Os sogros Leontina e Figueiredo já faleceram.
- MIRANDA. Irmãos Óscar Alberto (residente em Lisboa) e Nélson Manuel Marques Miranda (em Coimbra).
- JURA. Juventude Unida Revolucionária de Angola, movimento de jovens da UNITA.
- PUNA. Sigla do Partido para a União Nacional de Angola.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

As transmissões e a operação na mata da Serra do Quibinda

Um grupo de Transmissões da CCS do BCAV. 8423, no Quitexe, em 1974 (em cima, clicar
para a ampliar) e um operador do Racal TR28 (em baixo, foto tirada DAQUI)


As transmissões eram essenciais, fossem lá elas falhar quando fosse necessária uma evacuação, um socorro, uma comunicação urgente. As saídas para operações, os patrulhamentos, ou para as mais vulgares escoltas, não dispensavam o homem da rádio.
A minha primeira operação na mata angolana, pela serra de Quimbinda adentro, foi de três dias - com dois grupos de GE´s. E bem sei e lembro as aflições de deixar de ter o Racal TR28 a comunicar com o Quitexe, a partir da manhã do segundo de três dias. E o medo, o constrangimento, a boca que se fazia roxa de morder os lábios enquanto se palmilhavam os trilhos da mata, carregando a mochila, de arma aperrada e olhos bem abertos, a querer ver o que não... queria. Entre a vida e o temor do sangue e da morte.

Ao terceiro dia, numa clareira já perto da fazenda Vamba, lá esticámos as antenas, tentando comunicar com o Quitexe. Qual quê?!!! Quando finalmente a comunicação foi conseguida, não havia acerto de senhas - não sei já porque coisa! Falei em linguagem claro, sem códigos, aflito! «Sou fulano, pá!...».
Não me percebia o operador, ou não reconheceu! Foi um drama! Havia legítima dúvida de identidade, há para aí 30 horas que não havia contactos, sabe-se lá o que teria acontecido, se não estaria prisioneiro!

Finalmente, lá nos entendemos. E fomos transportados pelo Pelotão de Morteiros, comandado pelo Alferes Leite, açoreano - que não me deu palavra até que chegámos ao aquartelamento. Eu e uns 40 e tantos GE´s. O Racal TR28 lá voara os éteres dos céus de Angola, com a mensagem que nos «evacuou». Estão a ver a importância das trasmissões. Aqui lhes presto a minha continência.

domingo, 11 de abril de 2010

Os dias de Nova Lisboa e as preocupantes notícias de Carmona...

Viegas de férias em Nova Lisboa, Abril de 1975. Com a madrinha Isolina (em cima) e
na estátua de Norton de Matos, perto da estação dos CTT (em baixo)


Há 35 anos, não havia telemóveis. Oi, telemóveis!!! E telefonar dos fixos que havia não era coisa de todos os dias. No Quitexe, por exemplo, nem sei se havia telefones.
Havia em Carmona e na messe de sargentos - que fôra de oficiais, no bairro Montanha Pinto.
Por esta altura de 1975, estava eu por Nova Lisboa a ser mimado no Hotel Bimbe, que era da prima Cecília e marido Rafael - filha de meu padrinho de baptismo, Arménio (que tinha falecido na Gabela). Com eles,vivia a viúva Isolina, assim minha madrinha por afinidade. E os quatro filhos do casal. Telefonei de lá para Carmona e falei com o Neto. «Como é que vão as coisas ?!!!...».
Não iam muito bem, com algumas escaramuças na cidade e muita turbulência nas relações entre os militares dos movimentos. Havia nervosismo e expectativa, algumas ansiedades, alguns perigos, nervos à flor da pele. E as notícias que chegavam de outras cidades eram preocupantes. «Lembras-te do que nos disse o Garcia?!...», perguntou-me o Neto.
Eu lembrava-me bem e, por isso mesmo, conversei com o Cruz (que me acompanhava) sobre o que deveríamos dizer aos meus familiares. Acabei por os alertar para os perigos iminentes, para as escaramuças que se viviam no norte e às quais a população do sul não dava crédito. Por lá, andava tudo pacífico, era tudo rosas e cravos num mar de tranquilidade. Quais guerras, quais quês?!
«Acho que devem preparar-se para ir embora...», disse eu a Cecília e Rafael, numa viagem à Caala, em momento que achei oportuno. E insisti.
Não concordaram e até se admiraram com a sugestão! Nem quando, na noite da minha saída de Nova Lisboa, os voltei a tentar sensibilizar - dando-lhes o exemplo da greve do pessoal do hotel, de uns dias antes! Greve que foi em toda a cidade e gerou alguns conflitos - embora resolvidos pela polícia.
A saída deles para Portugal viria a ser bem difícil - numa «fuga» de avião que os trouxe pelo Gabão, já os filhos e a mãe (sogra) tinha, sido «evacuados». Foi em Agosto de 1975 e, sem disso saber - já não havia ligações telefónicas!!!... - andei eu alguns dias peoo aeroporto de Luanda, tentando localizá-los, entre os milhares de «retornados» que esperavam viagem para Lisboa - por não ter notícias deles. Cheguei a ir à Emissora Oficial de Angola, que para o efeito tinha um programa - no sentido de os localizar. Sem conseguir.
- CECÍLIA. Cecília Tavares das Neves, minha familiar e filha de meu padrinho de baptismo. Casada com Rafael Polido, tinham uma fazenda na Gabela e adquiriram o Hotel Bimbe, em Nova Lisboa. Vivem em Ois da Ribeira, Águeda.
- CAALA. Cidade também conhecida por Roberto Williams.
- GREVE. Trabalhadores negros da região de Nova Lisboa fizeram greve geral. Eu e o Cruz, sem grande habilidade minha, substituímos os do hotel, servindo os almoços e os jantares no restaurante. Ninguem ficou com fome!

sábado, 10 de abril de 2010

António Carlos Fernandes de Medeiros

Passam hoje 7 anos sobre a morte de António Carlos Fernandes de Medeiros, que foi 1º. cabo operador-cripto da CCS do Batalhão de Cavalaria 8423. Foi a 10 de Abril de 2003, aos 51 anos, de doença. Era do Porto e já não está connosco.
Foi lembrado no Encontro dos Cavaleiros do Norte, de 12 de Setembro de 2009, e o seu passamento faz-nos lembrar quanto de passageira é a nossa vida terrena, que quantas vezes nem saboreamos e valorizamos bem. Dele lembro, o ar sempre sereno, sempre sério e afável, sempre me parecendo cúmplice (por responsável) com a nobreza da missão que desempenhava.
A família, se nos lê, que receba o abraço solidário dos Cavaleiros do Norte - neste comentário de saudade que editamos constrangidos, por ser portador da dor e do luto da morte. Até, Medeiros! Até à ressureição
!

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Residências no Quitexe para antigos combatentes



A ministra da Família e Promoção da Mulher, Genoveva da Conceição Lino (foto), procedeu ontem (8 de Abril) no Quitexe, ao lançamento da primeira pedra para a construção de residências destinadas a antigos combatentes, veteranos de guerra e viúvas.
Aa acção enquadra-se no "Projecto Kussanguluka", em parceria com o Consórcio Comandante Loy, que prevê a construção de 3800 casas na província do Uíge e para este grupo alvo.
O presidente do Consórcio Comandante Loy, Domingos Barros, disse que o projecto inclui, na primeira fase, a construção de casas do tipo T2, T3 e T4, em três municípios da província. Na segunda, abrangerá os outros 16.
Domingos Barros considerou ser inoportuno revelar o orçamento global do projectoe referiu que vai comportar também áreas para actividades agrícolas e outras, por parte do grupo alvo.
Dados de Angola Press,
7 de Abril de 2010

O blogue tem um ano, vejam lá!!!...

O primeiro post do blogue, há precisamente um ano. Era o Cavaleiros do Quitexe,
agora Cavaleiros do Norte / Quitexe

A 9 de Abril de 2009, Quinta-Feira Santa, cheguei a casa depois de mais um dia de trabalho e seroei a ver imagens fotográficas da tropa. Senti um mar de emoções e saudades!!! Comentei algumas peripécias que a memória m´ajudou e disse-me a senhora minha mulher, a provocar-me: «Olha, faz um blogue!!!...».

Ajudou-me ela na empreitada, por ser eu leigo absoluto na matéria blogueira, e gostei do que vi! E, de contente por não me doer um dente, fiz passar a mensagem a meia dúzia de companheiros da tropa, daqueles que ficam para toda a vida.
Hoje, passado um ano, com postagens diárias, mais de 81 000 visitas e um encontro de Cavaleiros do Norte pelo meio e outro já na soleira da porta, ainda por aqui andamos a contar histórias do que foi a nossa passagem pela Angola que todos aprendemos a amar.

Não vou pôr foguetes, não vou... Mas vou beber uma taça!!! Aos garbosos Cavaleiros do Norte!!! E a todos quantos comigo assinam esta «crónica» diária.
Quem quiser ir ver o primeiro post, pode ir aqui: http://cavaleirosdonorte.blogspot.com/2009/04/o-furroel-milicano-em-angola.html

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Governador do Uíge elogia modernização das Forças Armadas

Uíge, 8/Abril/2010: O governador provincial do Uíge elogiou hoje, quinta-feira, o processo de modernização e reedificação das Forças Armadas Angolanas e do Exército, em particular, em vários domínios, o que tem permitido cada vez mais o crescimento qualitativo e a prontidão combativa das tropas, visando a sua participação activa nas tarefas da reconstrução nacional.
Paulo Pombolo fez este elogio durante a abertura da 16ª. reunião do Conselho Superior do Exército, no Quartel General da Região Militar Norte, sob orientação do Chefe do Estado Maior do Exército, general Jorge de Barros Nguto.
Ver AQUI. Uíge é a província a vermelho, no mapa.

Dias de Luanda e vésperas de voar para Nova Lisboa...

Dias de Luanda, com o carro do Albano Resende, na ilha - pouso
habitual das férias de Abril de 1975

Os dias de Luanda eram vividos com grande enstusiasmo, até sofreguidão!!! O facto de podermos dispôr de uma viatura, facilitava a nossa mobilidade e era um «ver-se-te-avias» de galgar a cidade e a ilha, pulando para a restinga, pisar a areia quente da praia e... saltar à ilha do Mussúlo, olhando a cidade que como que se fazia despedir do nosso deslumbramento - num «até já» que nos escaldava as emoções e apetites.

A semana pós-páscoa de 1975 - a 30 de Março!!... - foi passada num corre-corre intenso, nem um dia sem encontrar um vizinho de Portugal ou um amigo, deixando para as noites quentes de Luanda o saciar das nossas fomes da idade. Um dia, ao cimo da avenida Álvaro Ferreira, perto do Palácio do Governo, dei de caras com o Carlos Sucena, aqui de Águeda e que por lá cumpria a sua comissão de serviço. Éramos amigos de escola e matámos saudades à volta de cerveja fersquinha, servida em copos de bazuca.

Carmona, a 340 quilómetros, ressacava dos incidentes de Luanda e outras cidades, acautelando-se em patrulhamentos cada vez mais regulares e intensos -na sua malha urbana. Disse tive eco por companheiros que, de passagem pela capital, rumavam em Lisboa, para férias.

A CCS do BCAV. 8423 recebeu o alferes miliciano João Carlos Lima Cabral, para substituir José Leonel Pinto de Aragão Hermida (ver AQUI). A 2ª. CCAV. passou a ter novo enfermeiro - o 2º. sargento miliciano Manuel Alcides da Costa Eira, que esteve no Encontro da CCS, a 12 de Setembro de 2009.

Em Luanda, faziam-se vésperas para o nosso voo aéreo para Nova Lisboa. Em férias com o Cruz!

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Palavras para quê? Aí está o convite para o encontro de 2010!!!...

O convite para o Encontro da CCS do BCAV. 8423 em 2010 (clicar, para ampliar)

O correio trouxe-me hoje a «novidade» que eu já sabia: a 29 de Maio a cavalaria do Quitexe e de Carmona (e Luanda) vai juntar-se em Ferreira do Zêzere, precisamente no dia em que, em 1974, partimos para Angola. Há 36 anos!!! O calendário não podia, realmente, ser mais justo para esta gente amiga que por Angola fez companheirismo multiplicado por todos estes anos: no mesmo dia do mês em que partimos, lá estaremos nós a confraternizar, a partilhar camaradagens, a dividir afectos e a somar paixões!
Dito isto desta maneira, até parece que é bonito. E é!!!... Só quem vive estes momentos os pode entender. Que não falte a malta!!!
O desafio é, então, que cada Cavaleiro do Norte - da CCS!!! - chame mais um amigo, para que sejamos mais que em 2009!
Os contactos de organização são com o (ex-alferes) Ribeiro, pelos telefones 912670944, 241897377 e email jaimeroribeiro@gmail.com. E com o Aurélio (o Barbeiro), pelos 917299792 e 249391337, e o Vicente Alves (condutor), pelos 968555090 e 274898456.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Incidentes...

Militares dos movimentos emancipalistas, no BC12, em 1975 (foto de Rodolfo Tomás)


A presença de militares dos movimentos emancipalistas na guarnição do BC12, em Carmona, não direi que nos criou constrangimentos - nem me lembro, sequer, de qualquer caso de indisciplina ou mau relacionamento com as FAP - mas sempre gerava algum desconforto, nomeadamente nos primeiros contactos.
A verdade, porém, é que, principalmente entre eles, vivia-se um clima de «desconfiança». Afinal, eram três movimentos que tinham combatido o exército português, mas antipatizavam-se em notórias diferenças. Os incidentes de Luanda e Salazar apressaram alguns outros na província do Uíge - onde o BCAV. 8423 era praticamente a única força militar portuguesa. E a FNLA a força emancipalista mais dominante, muito protestada pelo MPLA. Com homens em armas.
Hoje, 36 anos depois, é provavelmente mais visível, para nós, o fosso que se então se cavava entre os movimentos, alimentado em constantes incidentes - principalmente entre o MPLA e a FNLA.
O Livro da Unidade refere que «os incidentes de Luanda vieram em ressaca até Carmona, dando origem a que houvesse que fazer intervenção a conflitos diversos».
Recordo, de Luanda e dos primeiros dias de Fevereiro de 1975, incidentes que levaram à morte de um capitão e de um alferes miliciano portugueses, perto do mercado do Bairro de S. Paulo. O capitão miliciano era andebolista do Sporting (de Lisboa) e ambos foram abatidos quando tentavam uma conciliação. Rapidamente a notícia se espalhou e as FAP quiseram retaliar, mas foram impedidas pelos comandos militares.
Eu estava em Luanda nesse dia, tinha passado no local (à civil) pouco tempo antes e fui interpelado por homens armados e aparentemente drogados, que me saíram na frente, sob um edifício que passava por cima da rua. Queriam deter-me, ia eu para o bairro da Cuca, visitar a Benedita e o Mário. Conhecia bem o local, onde praticamente ia sempre quando estava em Luanda - não só para visitar Benedita e Mário, como o (PSP) José Martinho e, nos primeiros meses, também o conterrâneo Custódio, soldado sapador. E, inevitavelmente, ir ao bacalhau do Vilela.
Lá me safei... mas na altura sempre a supor que levaria um tiro pelas costas, enquanto galgava a estrada no Toyota do Albano Resende. Ainda agora, ao lembrar-me deste momento, sinto um arrepio pelas costas acima.
- NOTA: Já depois de elaborado este post, socorri-me da net para (tentar) melhor caracterizar o lamentável incidente de que resultou a norte do capitão Ramiro Pinheiro e do alferes miliciano Santos, AQUI. De lá retirei os nomes e a foto e para lá remeto os leitores.
- FAP. Forças Armadas Portuguesas.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Os rádio-montadores da CCS do Quitexe em pose de domingo....

A equipa de rádio-montadores da CCS do BCAV. 8423. O furriel Cruz (em baixo),
os 1ºs. cabos Tomás e Pais e o soldado Silva (em cima)


A vida do BCAV. 8423, no Quitexe, «andou» para além da CCS - que de lá saiu a 2 de Março de 1975. Ficou a 3ª. Companhia, que fizera comissão por Santa Isabel.
O Tomás, em correio para o blogue, veio «matar recordações» da equipa de rádio-montadores - que ele próprio integrava.
«Não podíamos deixar o Quitexe sem percorrer os lugares mais marcantes para todos os Cavaleiros do Norte...», reportou ele na nota enviada e, como exemplo, citando o jardim (que ficava mesmo de frente à administração da vila).
A foto que aqui se vê (e ele mandou) é de um domingo, precisamente no jardim do Quitexe, e, recorda o Tomás, «enquanto uns assistiam à missa, outros estavam de serviço ou a faxinar». O trio foi deixar-se fotografar.
O domingo, para muitos, era o dia ideal para fazer pequenas coisas, como por exemplo escrever para a família e amigos, ou ainda tratar das roupas. «Eu tambem não escapei a isso...», lembra o Tomás. Ver AQUI.
Era assim os dias do Quitexe! Dias que pariam a saudade que todos hoje temos da terra angolana e este bloge aqui vai recontando o melhor que pode e sabe, com os registos e a memória que fazem a história viva da nossa passagem por lá.
- CRUZ. António José Dias Cruz, furriel miliciano rádio-montador, natural de Cardigos (Mação), é quadro da Câmara Municipal de Lisboa.
- SILVA. António Jesus Pereira da Silva, soldado-rádio montador, de Vila Nova de Gaia.
- PAIS: António Correia Lourenço Pais, 1º. cabo rádio-montador, natural e residente em Viseu.
- TOMÁS. Rodolfo Hernâni Tavares Tomás, 1º. cabo rádio-montador, natural e residente em Lousada.

domingo, 4 de abril de 2010

Vice-ministro da Comunicação Social visitou Uige, a antiga Carmona

Mapa da Província do Uíge. Quitexe é agora denominado Dange

O vice-ministro de Comunicação Social, Manuel Miguel de Carvalho "Wadijimbi", iniciou ontem uma visita de trabalho de dois dias, à província do Uíge, no quadro do programa de verificação do funcionamento do sector.
O programa da visita incluiu a realização de um encontro de cortesia com o governador da província e reuniões com os membros das direcções dos órgãos públicos da Comunicação Social - RNA, TPA, Edições Novembro e Angop - e com os correspondentes da imprensa privada. No último dia da visita, o vice-ministro tem um encontro com a Direcção Provincial da Comunicação
Social.
in Jornal de Angola, 27 de Março de 2010

A 2ª. feira de Páscoa de 1975...

A cidade de Luanda, a noite e vista da fortaleza (foto de Henrique Oliveira, em 1974)


Hoje, que é dia de Páscoa de 2010, olhava eu ali o adro da igreja quando me lembrei da 2ª. feira de Páscoa de 1975. Estava eu em Luanda, no bem-bom que a cidade proporcionava, quando, próximo do almoço e ao passar pela estação dos Correios, não resisti à tentação de telefonar para Portugal. Para minha mãe.
Seria uma surpresa mas não se julgue que era coisa fácil, como hoje - que, com um telemóvel na mão, se fala com o fim do mundo no mesmo momento. Não era, era até um atrevimento. Mas correu mal. Supus eu que ligando para a vizinha Celeste - naquele tempo havia cinco telefones na minha aldeia!!!, vejam lá... - ela a chamaria. Só que, a vizinha mo disse, minha mãe tinha saído para beijar o Senhor em casa de familiares. Lá se foi o gosto!
O dia foi quente e almoçámos na ilha, onde nos levou o conterrâneo Albano Resende - que por aqueles dias fez de nosso taxista. À tarde, fui de missão ao cemitério de Catete e, reencontrado com o Alberto Ferreira, conheci o agora advogado Nuno Neves, de Fermentelos. Ao tempo, era furriel de Comandos e tinha sido atingio a tiro no braço esquerdo, numa escaramuça da cidade - na zona de Vila Alice. Passei na avenida D. João II, onde estava a delegação das Ferragens Reunidas de Águeda (FRAL), com recado do Neto. A FRAL era do pai e instalava uma fábrica na Zona Industrial de Viana.
A cidade de Luanda era um desafio, cheia de atracções e segura. Ninguém diria que Angola vivia uma guerra, desde 1961. A noite ia satisfazer os nossos desejos e aventuras!

sábado, 3 de abril de 2010

Os primeiros dias de Abril de 1975, em Carmona, Vista Alegre e Quitexe

Quartel do BC12, visto da estrada que vai de Carmona. O pavilhão à sua direita, foi dormitório dos furriéis nos últimos dias do Uíge, em Agosto de 1975 - clicar, para ampliar. Comandante Almeida e Brito (em baixo)


A vida da guarnição de Carmona continuou por Abril de 1975, mas com a remodelação do dispositivo militar suspensa, logo no início do mês - quando se planeava a desactivação de Vista Alegre e Ponte do Dange, onde continuaram grupos de combate da 3ª. Companhia.
Socorro-me do Livro da Unidade, para lembrar que «as indicações dadas pelos movimentos emancipalistas, resultantes do abandono de determinadas instalações militares, levou-nos a ter que aguardar que se resolvessem a alto nível as questões pendentes e inerentes a esse abandono». Não são precisas tais indicações, mas a memória leva-nos às dificuldades de relacionamento entre os militares dos três movimentos, principalmente resultantes do seu (deles) desejo de se apoderarem das instalações militares, em detrimento das forças «rivais» e para melhor controlo da zona.
O tenente-coronel Almeida e Brito (foto de 1997) regressou do seu interinato na ZMN e reassumiu o comando do BCAV. 8423, a 4 de Abril. A 6, visitou 1ª. Companhia - instalada em Vista Alegre e Ponte do Dange -, acompanhado do 2º. Comandante (capitão Silva Themudo) e do oficial adjunto (capitão José Paulo Falcão). Lá voltaria a 18 de Abril, neste caso parando no Quitexe, por onde necessariamente fazia trânsito e onde estava estacionada a 3ª. Companhia.
Luanda, para nós e nestes primeiros dias de férias, era terra de promissões e desejos levados a factos. Gozava-se a vida, fartamente. Como só se vive quando se tem 22 para 23 anos!




sexta-feira, 2 de abril de 2010

Um dia de Páscoa em Luanda...


Hotel Katekero, no Largo Sepa Pinto (foto Os Nossos Kimbos)

Dia de Páscoa de 1975 foi a 30 de Março, já eu e o Cruz acordámos em Luanda, na altura de um 7º./8º. andar do Katekero, à Serpa Pinto - em pouso de onde, mesmo apeados, nos púnhamos num instante a buliçar na noite ou no dia do coração da cidade.
Por lá nos banhámos, depois de noite bem dormida e antes do mata-bicho que fomos tomar nos gigantescos balcões da Paris Versailles: pregos no pão e uma garrafa de vinho verde. Uma delícia! Por lá combinara eu encontrar-me com Rebelo Carvalheira, do jornal A Província de Angola (mesmo ao lado) e que habitualmente por lá ia ao mesmo mata-bico, depois dos fechos do jornal.
Lá também tive a informação de que o Alberto Ferreira não viria. O recado, deixado a um empregado conhecido (Oliveira?), dava conta de um almoço de páscoa, em casa da prima. Por ali andámos, depois e na baixa, a espreitar a baía e o mar, olhando as montras e catrapiscando os olhos a quem a malícia nos fazia medrar desejos, enquando se fechava a manhã para irmos - eu e o Cruz...- almoçar ao Baleizão: o trivial bife com ovo a cavalo e umas quantas bazucas, depois de entrarmos a camarão. Mordomias de furriéis em férias.

A tarde foi para visitas aos Resendes (ao tempo, a morar perto da praça de touros) e a Benedita e Mário (no bairro da Cuca), com brevíssima passagem pela casa de Cândida - que já se fazia tarde para a hora de estar com o conterrâneo Custódio, na Portugália. Dali fomos à PSP, muito pertinho - onde reencontrei o graduado José Martinho, casado com Maria Emília, outra conterrânea ribeirense (agora, aqui vizinhos).
A noite, depois da janta - que foi de frango de churrasco, à fartazana e no restaurante onde trabalhava Neca Taipeiro (outro conterrâneo) - estendeu-se adentro dela, com «stops» ao Diamante Negro e no Scorpius. Tiveram o Custódio e o Ferreira (entretanto chegado para a frangalhada...) de voltar às suas «bases» militares e continuámos nós a «espreitar» pelos neons que suscitavam apetites e prazeres - até quando quisemos e até voltarmos ao Katekero.
Foi assim o dia de Páscoa de 1975!
- BAZUCAS. Canecas de cerveja.
- CUSTÓDIO. Custódio Alves Ferreira, soldado de engenharia, meu conterrâneo. Reside nos Estados Unidos.
- ALBERTO. Alberto Fernando Dias Ferreira, 1º. cabo especialista da Força Aérea, de Fermentelos (Águeda), já falecido.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Férias de Angola...

A baía de Luanda (em cima) e os furriéis Cruz e Viegas, no Quitexe

Há 35 anos, dia 1 de Abril e das mentiras, não era inverdade e eu já entrara de férias. Amarrei de serviço toda a noite de 28 para 29 de Março, lá fiz a entrega na formatura das 8 horas, mata-bichei (assim se dizia por lá o tomar o pequeno almoço; ou almoçar, se fosse na minha terra...), atirei-me para debaixo de um banho de chuveiro fresco para limpar pó e suores e aí fiquei eu civilzinho desempoeirado, prontinho a sair para Carmona e, daí, para Luanda! Assim foi em sábado da aleluia de 1975!
O Cruz ia ser (foi) o companheiro de férias e iríamos «estagiar» na capital, para espreitar e sentir o lúdico mais vivo da noite e saborear a companhia da amigos que por lá faziam pela vida: os Resendes, o Custódio, a Cândida, a Benedita e o Mário, a Fernanda, o Neca, o Alberto... E o que e quem por lá nos servia de pastos aos sonhos e aos desejos.
Estava tudo combinadinho: os dias de Luanda, os de Nova Lisboa (onde iria fazer surpresa à Cecília e ao Rafael, ao tempo por lá donos do Hotel Bimbe, e partilhar-me com Isolina, a senhora viúva de meu padrinho Arménio...). Depois, a gosto do Cruz, viajaríamos para Lobito e Benguela, por caminho de ferro, onde iríamos bater à porta de familiares dele e, se me lembro bem, de uma namorada dele, de outros tempos!
E lá fomos nós, faz amanhã um ano, na GMC do SPM, em boleia matinal para o aeroporto de Carmona - de onde voámos para Luanda.
Angola estava a nossos pés e ia matar os nossos desejos de lhe olhar o ventre de paisagens esmagadoras, a cultura dos seus povos mais a sul - e que eu já tinha espreitado por Setembro de 1974. Na altura, saltei-me para Gabela e de lá para Nova Lisboa, indo aos prazeres do marisco do mar do Lobito com o Orlando Rino, conterrâneo que comerciava no Bairro de Santo António (de Huambo) e agora é riograndino no imenso Brasil, na ponta que, lá para baixo do mapa, faz fronteira com a Argentina.
Eram as segundas férias de Angola que iam começar!
Ver crónica AQUI.
- CRUZ. António José Dias Cruz, furriel miliciano mecánio rádio-montador. Natural de Cardigos e residente em Lisoba, onde é funcionário camarário.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Montanha Pinto foi presidente da Câmara Municipal de Carmona

A 23 de Março, falei aqui da minha pessoal (há 35 anos) sobre Montanha Pinto - figura pública de Carmona, que deu o nome ao bairro onde se situava uma antiga messe de oficiais, mas que, entre Março e finais de Julho de 1975, foi «casa do repouso doas guerreiros-sargentos» do BCAV. 8423.
Recordei-me que Montanha Pinto ainda era vivo ao tempo, que fôra presidente da Câmara Municipal de Carmona e fizera notável obra de qualificação urbanística da cidade. E que, além de deputado na Assembleia Nacional, da Ala Liberal, fôra funcionário público e empresário agrícola e tinha mais uma mão-cheia de dados curriculares que na altura me espantaram e agora não recordo.
Agora, o António Casal - que tirocinou transmissões pelo Quitexe antes dos Cavaleiros do Norte, fez-me chegar recortes do jornal O Século - edição de 22 de Junho de 1954. Há quase 56 anos!!
Título da 1ª. página: «Portugal Ultramarino - Angola. Número especial dedicado à província de Angola, aquando da visita do Presidente Craveiro Lopes».
A reportagem, bem recheada de fotos, abrange toda a ex-colónia e fala, até, da construção do novo Clube Recreativo do Uíje, da construção do Grande Hotel do Uíje (com fotos) e outras curiosidades. E, principalmente, de toda a economia, riqueza e o visível progresso da província que nós viríamos a conhecer 19 anos depois.
Obrigado, ó Casal!
Se clicarem na imagem, ela aumenta
e podem ler o que está escrito.

Chuvas deixaram 2 511 pessoas do Uíge sem abrigo

16/02/2010: As chuvas deixaram 2511 pessoas ficaram sem abrigo e destruíram 624 residências de Janeiro a 15 de Fevereiro, na província do Uíge, informou o oficial da Protecção Civil, Eduardo André Pereira.
Os municípios do Uíge, Songo, Púri, Negage e Quitexe foram os mais afectados. Também foram danificadas 13 escolas, nove igrejas e a ponte do rio Zadi, entre a capital da província e Ambuíla.

Notícia da TPA, AQUI.

terça-feira, 30 de março de 2010

Uíge precisa de ampliar serviços penitenciários

Os serviços penitenciários na província do Uíge pretendem a sua ampliação, tendo em conta o elevado número de reclusos que alberga. A preocupação foi manifestada ao governador provincial, Paulo Pombolo (na foto), no final de uma visita de trabalho.
Os responsáveis do Ministério do Interior referiram também a necessidade de um centro de acolhimento de estrangeiros que entram e permanecem ilegalmente na província (através do posto fronteiriço) e preocupações com a rede de marcação, equipamento e meios técnicos operativos de apoio e socorrismo. E a necessidade de uma escola do 1º. e 2º. ciclo do ensino secundário, para facilitar a formação académica dos polícias e dos seus familiares.

Notícia de 18 de Março, DAQUI.

Os patrulhamentos mistos em Carmona e as guarnições da ZMN

Miltares do PELREC, alguns dos que integraram os patrulhamentos mistos. Em cima, Messejana, Dionísio, Soares (1º. cabo), António (?) e Florêncio. Em baixo, Vicente (1º. cabo), Viegas (furriel), Francisco e Leal. Vicente e Leal já faleceram.


A 28 de Março de 1975, a guarnição do BCAV. 8423 foi reforçada com um Grupo de Combate da 3ª. CCAV., que continuava no Quitexe. A extinção da ZMN e a consequente saída dos quadros que asseguravam os seus serviços, obrigou a reenquadramentos - numa altura em que, para além dos Cavaleiros do Norte, apenas havia tropa em Sanza Pombo (a 1ª. Companhia do BCAÇ. 4911) e no Negage (a CCAÇ. 4741). Aqui, para além da base aérea.
A experiência que por então vivíamos nos patrulhamentos mistos à cidade e pontos-chave, decorria sem problemas de maior - graças, principalmente, à receptividade dos militantes dos três movimentos e à postura dos militares portugueses. Que, nas ruas de Carmona, resistiam à tentação de ceder na resposta aos insultos gratuitos de alguns cidadãos.
Ocorre-me uma cena, na Rua do Comércio, por volta da meia-noite de um desses patrulhamentos, quando duas senhoras «vomitaram» impropérios contra a tropa portuguesa.
«Traidores, bandidos, canalhas...», foram alguns do epítetos que tivemos de ouvir. Sem reagir! Castrando a emoção! Menos o Marcos, que saltou do Unimog, num momento reactivo que só foi dominado pela agilidade com que foi agarrado. Em frente das senhoras, que batiam com as costas nas palmas das mãos, gritando e protestando injúrias. Um dia aqui contarei o que, no mesmo local, aconteceu com uma delas, filhos e sobrinhos - nos dramáticos primeiros dias de Junho de 1975. Todos socorridos no BC12.

- ZMN. Zona Militar Norte.

-Vicente. Jorge Luís Domingues Vicente, 1º. cabo atirador de cavalaria. Natural de Vila Moreira. Faleceu em meados dos anos 90.

- LEAL. Manuel Leal da Silva, soldado atirador de cavalaria, de Caxarias (Pombal). Faleceu subitamente, a 18 de Junho de 2007.