Jardim principal da vila do Quitexe, frente à administração civil BATALHÃO DE CAVALARIA 8423. Os Cavaleiros do Norte!!! Um espaço para informalmente falar de pessoas e estórias de um tempo em que se fez história. Aqui contando, de forma avulsa, algumas histórias de grupo de militares que foi a Angola fazer Abril e semear solidariedade e companheirismo! A partir do Quitexe, por Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Ponte do Dange e Songo! E outras terras do Uíge angolano, pátria de que todos ficámos apaixonados!
sábado, 27 de março de 2010
O soldado que levou cassete com a gravação do jantar de despedida da família
Jardim principal da vila do Quitexe, frente à administração civil sexta-feira, 26 de março de 2010
O primeiro patrulhamento misto da cidade de Carmona

Estátua e rotunda Ricardo Matos Gaspar, fundador de RIMAGA, importante empresade Carmona, um dos sítios por onde passou o patrulhamento misto de faz hoje 35 anos.
Forças mistas no BC12, em cima, fazendo ordem unida
O dia 26 de Março de 1975 foi de rotina civil, até às 17/18 horas - correndo a cidade num jipe militar, para lhe conhecer alguns recantos. Não por acaso. Às 20, tínhamos de estar no BC12 para iniciar os chamados patrulhamentos mistos - com as forças do MPLA (FAPLA´s), UNITA (ELNA) e FNLA (FALA). Os primeiros! Havia alguma ansiedade da nossa parte, muito respeito e nervosismo - até alguns temores. Há dias que alguns angolanos (foto) estavam instalados no BC12, numa das casernas, e eram olhados com alguma desconfiança. Eram, afinal, os nossos «inimigos» de ontem! Ir fazer patrulhamentos conjuntos, que Deus nos acompanhasse!
quinta-feira, 25 de março de 2010
Os dias de Carmona...
Carmona deu-nos o sabor das coisas urbanas e o gosto de nos sentirmos (mais) civis. A cidade, relativamente ao Quitexe, tinha uma incomparável maior oferta de serviços, diversões e entretenimentos. De toda a espécie! Tirando os constrangimentos provocados pela hostilidade de uma parte da sociedade civil, Carmona era um paraíso para a guarnição que ficou na história como a última a lá hastear e arrear a bandeira de Portugal. A cidade deu-nos cosmopolitismo que engravidou muitos entusiasmos e devaneios. Foi pasto para os nossos gostos e gozos, até delírios! Carmona era uma malha urbana de vistas largas, rasgada em espaços amplos, de muitos verdes, atraente e quase volupiosa, por onde se andava e por todo o lado se achava resposta ao que precisávamos e queríamos.
quarta-feira, 24 de março de 2010
A operação miliar ao Vale da Sanda no ano de 1965

terça-feira, 23 de março de 2010
O Bairro Montanha Pinto, casa dos furriéis e sítio de sangue e morte
Capela católica do bairro da messe de sargentos, em Carmona, e Montanha Pinto
segunda-feira, 22 de março de 2010
A popular Casa Transmontana de Carmona...
Fala-se muito na popular Casa Transmontana, na Carmona de há 35 e mais anos, vá lá saber-se porquê. Cada um terá as suas razões, mas dizia-se que era uma espécie de estação de serviço, com exclusivo de «mudança de óleos». O que não explica nada à minha curiosidade. Ou pouco.
Lembro-me, todavia, de, uma vez ou outra, nos sentarmos na esplanada que ali se vê, para saborear alguma nocal frequinha com ginguba..., e vermos entrar e sair gente - sempre com passo apressado e sorrisos de boca larga. E de uma noite, por ali perto - que era perto da PSP, se me lembro bem... - ter havido zaragata da grossa, na rua e metendo gente de várias cores; e nomes que se chamavam em vozearia alta e que eu não entendia.
De ver uma mulher cor de ébano e a abanar a anca, sacudindo as missangas e a falar como se fosse para a lua, aos berros de uma euforia estranha, percebendo-se bem que era para uma madame branca, de cabelos alourados de água oxigenada. De esta chamar nomes feios ao que, suponho eu, seria o seu senhor marido. E que ela, a mulher cor de ébano, zaragateando para a oxigenada e sempre a abanar a anca, saracoteando-se, se fez de gazela a correr rua abaixo, fazendo batuque no peito e a gritar como se fugisse de trovoada.
Que nós, por ali aperaltados de manga curta e civil, nos fartámos de rir. E mudámos de «estação de serviço», para não apanharmos alguma gripalhada nos motores. E ficámos a saber o mesmo.
domingo, 21 de março de 2010
Porque hoje é domingo!... Um domingo quitexano!!
Antes de irmos para Carmona, era preciso mais aprumo e asseio militar. Afinal, íamos para a cidade. Ora uma "faxina" à roupa não ficava nada mal. E qual era o melhor dia? Claro, o domingo.
As traseiras do quarto dos rádio-montadores, no Quitexe, tinham, como se pode ver, uma torneira com água. A casa de banho ficava à direita. Estávamos muito bem acompanhados pelos furriéis Pires e Mosteias, ambos sapadores e da CCS, cujo quarto ficava mesmo por cima da minha cabeça.
Quantas conversas entre sapadores e rádio-montadores por aqui se tiveram! Quantos segredos até hoje e de então ficaram guardados!!! Quantos momentos de grande companheirismo e amizade, que só na tropa se conseguem viver!!!
Por tudo isso, todos nós estamos a aguardar pelo próximo convívio - que será lá para o fim do mês de Maio. A 29 - o dia em que partimos para Angola.
Todos gostam de pôr as memórias em dia.
RODOLFO TOMÁS
sábado, 20 de março de 2010
As danças étnicas que puseram os Cavaleiros do Norte em sentido
A foto faz-me recordar uma noite de sustos na messe de oficiais (que foi a dos sargentos da CCS do BCAV. 8423) do Bairro Montanha Pinto. O plantão nocturno começou a ouvir barulhos e gritos estranhos do lado de uma pequena sanzala, do mesmo de onde foi tirada esta foto. O da estrada que ia para o Quitexe e de um campo de futebol. Já a noite ia alta e bem alta.
Eu e o Neto éramos, digamos, os únicos operacionais por lá «estacionados» na messe, mas eu não estava. Foi ele de imediato chamado, pois sabia-se lá o que seria aquilo?! Poderia ser um qualquer ritual étnico, ou porventura um «ensaio» de ataque à tropa - já havia muitos antigos combatentes na cidade... - e havia avisos sobre a nossa maior atenção para tudo o que fosse anormal.
Aumentavam os barulhos, a batucada galgava o bréu da noite, pareciam guerreiros os gritos que silvavam pelo ar fora e começou a ver-se, ao longo, o clarão de uma fogueira enorme.
«Que m... é esta?!...», interrogou-se o Neto, com os companheiros do reforço.
A malta que dormia foi toda acordada e posta em guarda. Atacada, poderia ser a messe, mas teria defesa. Ai isso teria!
Resolveu o Neto tirar dúvidas e, com dois ou três militares e as precauções devidas, galgou um carreiro que por ali havia até, já na pequena sanzala, descobrir o que era: festejava-se qualquer coisa de famílias e a gritaria e a batucada não passava, afinal, de um qualquer samba tribal, ritmado pelas tradições da etnia e de homenagem a um qualquer Deus.
Muito nos rimos, eu e o Neto, quando cheguei da ronda de PU, sem saber de nada e já depois das 8 da manhã. «Tu sabes lá, pá!!! Tu sabes lá o qu´era aquilo!!!...», explicava-se o Neto. E notava-se no olhar um resto de esgar de ansiedade. «Era festa lá dos gajos, mas a gente sabia lá!... A gente sabia lá, pá...».
O melhor da noite do susto, está visto, foi mesmo ir ver as danças que desnudavam os seios das raparigas mais novas e puseram a tropa em sentido. Em sentido figurado!! E perceber, afinal, que não havia ataque nenhum. O Neto é que não pregou olho nesssa noite, mesmo depois de ter visto o que viu! Ou se calhar por isso mesmo!
sexta-feira, 19 de março de 2010
A malta que ia para a borga e os cinemas de Carmona
O Cinema Moreno, na cidade de Carmona, frente à Rádio Clube do Uíge (1974)A messe de Carmona semeou-nos de sonhos e de lazeres. A foto, mostra o Pires (de Bragança) montado na mini-mota que por lá foi de vários donos e certamente em saída para alguma comezaina na cidade, lá para o Escape, o Xenú ou os pica-paus do Bar do Eugénio. O «menino» vestido de branco é o «imaculado» Francisco Neto, o furriel-irmão de Águeda - que ao tempo andava perdido de amores pela sua Ni, sua mulher de hoje.
Ambos vestidos à civil e pelo ar da carruagem (ou da mota...), duvido que o dia não fosse de borga - quem sabe se alguma saída para o Transmontano, ou uma ida ao cinema - onde, numa qualquer data, vimos o impensável "O Último Tango em Paris», no Cine Moreno, frente ao Rádio Clube do Uíge.
O Pires era mais recatado, mas sempre ansioso por uma boa passeata na cidade, «a ver as grinas...». O Neto, sempre muito mais expressivo e exuberante, às vezes até quase volupioso, fazia-se de mestre-rua aos menos atrevidos nas noites carmonianas, noites que faziam medrar desejos nos olhos e alma dos rapazes da guarnição.
Leio aqui a minha nota deste dia de 1975, como hoje Dia do Pai: «Nasceu o Zé, há um ano». O Zé Fernando é meu sobrinho e ao tempo também já meu afilhado, baptizado semanas antes de eu embarcar para Luanda. Hoje, é também meu compadre e treina o Náutico de Viana, clube que o fez atleta campeão nacional de remo. E internacional. E quase olímpico. A graça é que nesta quarta-feira de Março de 1975, muito provavelmente em algum frágil momento de nostalagia, associei o cinema ao meu sobrinho e afilhado: eram ambos Moreno. Um de nome, o cinema; outro de apelido, o sobrinho. E passaram-se 35 anos!
quinta-feira, 18 de março de 2010
A faca de mato do Marcos num jogo de futebol de Carmona
«O cronista não é dos que fazem do rancor ao futebol - ou do amor... - um estandarte de intelectualidade e pseudo-progressivismo: joga a bola por brincadeira e vai aos campos de futebol, para se distrair. Ontem, porém, foi (fui) polícia num campo de futebol, em Carmona.
E sabe-se, eu sei, que por detrás do futebol é que as coisas são: são como são. Avisado estava eu e os meus companheiros Almeida a e Marcos para o que poderia acontecer no campo do Futebol Clube do Uíge: bocas, agressões verbais, chatices. Para estarmos atentos e seguros. Para não reagirmos a esse tipo de provocações.
Assim foi ontem, num domingo em que o tempo até ameaçou chuva, pelo final da amanhã. Mas desanuviou ao princípio da tarde desse dérbi, com o Sporting do Negage - o Benfica-Sporting do sítio. O jogo decorria no pelado, com as habituais dúvidas nas leis do jogo fora do campo e a PU a circular ao longo das linhas laterais, por onde se viam alguns militares, muito poucos..., mas muitas bocas do público, ofendendo os tropas. Curiosamente, ou talvez não, principalmente vindas de compatriotas europeus.
A sede levou-nos a um pequeno bar, por lá improvisado: três nocais. Não no-las quiseram servir. Afinal serviram, com desdém que nos ofendeu. «Olhe lá, tá a gozar connosco?...», perguntei eu. Se não estavam, parecia. Seguiu-se uma altercação pouco simpática, algumas palavras azedas, um nervosismo evidente. O Marcos era especialista em puxar da faca de mato e, quando reparei, tinha-a encostada a um outro europeu. A situação controlou-se, mas não sem uma posterior queixa no BC12. Contra nós, claro.
Hoje, já fui chamado e dei explicações ao capitão Oliveira, que me espetou um correctivo. Eu tinha, disse-me ele, que «honrar a farda... e não permitir abusos que pusessem em causa a tropa».
O que se lê acima tem data 18 de Março de 1975 e refere-se à tarde da véspera, de um jogo de futebol do campeonato provincial, durante o qual ouvimos as que não queríamos. Hoje, memoriando esse momento futebolístico, recordo umas trocas de piropos, uns empurrões e um maninho de bocas que nos provocavam, de cabr... e car... para cima. E recordo a protecção dada à arbitragem, no final do jogo. Jogo de que não lembro o resultado. E não posso deixar de sublinhar a atenção e agilidade do Marcos que, num ápice de lince, sem hesitar, puxou da faca de mato, neutralizou o fulano que nos ofendia e ameaçava e, com esse gesto, terá evitado uma turbulência de consequências imprevistas. Era assim, aos Marços de 1975, por Carmona... num domingo de ir ao futebol.
quarta-feira, 17 de março de 2010
A cidade onde nos (des)fazíamos em rolos de carne cor de ébano
A messe de oficiais do Bairro Montanha Pinto, a casa azul frente ao Carocha branco, passou para os sargentos e por lá se instalou a rapaziada do Quitexe. Estava a um pulinho do centro da cidade, até lá se ia e de lá se vinha a pé, e era nosso pouso certo de muitas horas de ócio e prazer.
O de escrever, por exemplo! Ou de uma boa partida de cartas ou de dominó e de largas conversas sobre tudo e nada; e fartas mesas de ementas que o Neto, o nosso «eterno» gerente da messe, aprimorava em melhorar a cada refeição. E de muitas leituras.
Reli(a) por esta altura de 1975 o 2º. volume da antologia «Contos Portugueses do Ultramar», de Amândio César, e actualizava diariamente a minha multiplicada correspondência. De Luanda, chegavam recados do Alberto a falar-me do pasto de saias que nos endrominava o juízo e o desejo. De Portugal, muitos recados de saudades! Ele eram aerogramas, ele eram cartas... que eu lia e relia, sôfrego e atento!!!
Aos fins de tarde de Carmona, galgavam-se as sombras que tingiam as casas das cores do pôr-do-sol e nós lá íamos piscar olhos para a Rua do Comércio, palmilhar a avenida Portugal a cheirar cios e encher as esplanadas da nossa sede. E a Transmontana, quem se lembra?!!!
Não era raro, devorararmos um bife com ovo a cavalo no Escape; ou darmos uma saltada ao Shop-shop, ao Chave d´Ouro, ao Safari ou a outro qualquer dos muitos bares e esplanadas da cidade que nos somavam vida! Ou ao Diamante Negro, ali pertinho do Café Arouca e do campo do Recreativo do Uíge, por onde nos (des)fazíamos em rolos de carne cor de ébano! E por hoje aqui me fico!
terça-feira, 16 de março de 2010
O 16 de Março de 1974
Dia 16 de Março de 1974! Era um sábado e nós, os futuros Cavaleiros do Norte, gozávamos o primeiro dos dez dias da Licença de Normas - que anteciparia a viagem para Angola, ainda sem data marcada. Nessa madrugada, um grupo de militares saiu do RI5, nas Caldas da Rainha, e marchou sobre Lisboa, depois de prender o comandante, o segundo comandante e três majores.
Os revoltosos avançaram para derrubar o Governo, mas a subvelação não avançou noutras unidades e foram interceptados à entrada de Lisboa, pela Artilharia 1, pela Cavalaria 7 e pela GNR. Ao chegar perto do local, a coluna rebelde inverteu a marcha e regressou ao quartel das Caldas da Rainha, que foi imediatamente cercado por Unidades da Região Militar de Tomar.
Foi, digamos, o pré-25 de Abril! Que chegaria 40 dias depois!
Por mim, só soube de tal à noite, a ver o telejornal do café Império, aqui ao lado. E fiquei sem perceber grande coisa! Nem por aqui, na minha terra de Ois da Ribeira, alguém poderia ou saberia esclarecer algo que fosse.
Ao outro dia, domingo, apressei-me a ir a Águeda, de comboio, para comprar o jornal e lá vim a saber do que se passaram segundo a visão jornalística do tempo. O que, valha a verdade, não me deu qualquer esperança quanto ao futuro próximo: ir para Angola! Assim como fomos!
Foi há 36 anos!
Passado um ano, fazíamos em Carmona os primeiros «ensaios» para o que seria o (então futuro) exército de Angola. Que nunca chegou a ser!
Mulher com 9 filhos abandonada pelo marido

segunda-feira, 15 de março de 2010
Ir do Quitexe a Carmona, para ver como paravam as modas...
A malta que tinha menos posses, como eu, aproveitava a boleia de uma Mercedes que ia buscar o Correio ao SPM e, assim, sempre passeávamos durante o dia, para conhecermos melhor os cantinhos à casa e ver como paravam as modas pela cidade!
Era muito vulgar vermos os nossos colegas chegar, ou melhor, passar nos Unimogues e Berliet com o taipal nas traseiras (para defesa) e a famosa metralhadora (Breda?). Apesar de não ser operacional, e talvez por isso mesmo, sentia muita pena de os ver passar pela cidade, muito empoeirados.
Valia-lhes a juventude!!!
RODOLFO TOMÁS
domingo, 14 de março de 2010
O dia da segurança mista na festa da FNLA em Carmona
A 14 de Março de 1975, fomos convocados para um serviço muito especial: fazer a segurança das festas do feriado da FNLA, no dia seguinte. Mais: seriam feita com as forças dos três movimentos emancipalistas. O que nos deixou algo preocupados. sábado, 13 de março de 2010
O PELREC QUE ERA "IN" E FOI VER FUTEBOL NA TELEVISÃO
sexta-feira, 12 de março de 2010
A messe de sargentos, que era de oficiais, do Bairro Montanha Pinto
Jardim do Bairro Montanha Pinto, frente a messe que fomos ocupar - que ficava de costas para o autor da foto (Quitexe). A casa da esquerda, com uma carrinha militar em frente, era uma outra messe de sargentos. Na foto de baixo, furriel Viegas sentado na frente da messe da CCS do BCVA. 8423 
A rapaziada da classe de sargentos ficou magnificamente instalada na messe de oficiais de Carmona, no bairro Montanha Pinto. Furriéis com sargentos e uma pequeníssima «guarnição de praças», que ficou alojada no casa de madeira nas traseiras.
As instalações eram magníficas e nós estávamos ali mesmo no «meio» da cidade, sem necessidade de baldas para a conhecer - assim cumpridas fossem as nossas tarefas militares, no BC12: escala de serviços correntes e, no que me tocou, também a chamada PU que tantos amargos nocturnos traria. Por estes dias, foi a estreia e a coisa até nem correu mal. Mas era evidente, sentia-se, vivia-se, cheirava-se... um crescente ressentimento e mau-estar da comunidade europeia relativamente aos militares. Como ainda ontem aqui contámos.
Os meus apontamentos da época referem uma «reunião com o cmdt». Creio ter sido nesta altura que, numa conversa muito informal no seu gabinete do BC12, o comandante Almeida e Brito nos alertou para a iminência de problemas e da possibilidade de passarmos a fazer patrulhamentos mistos, com forças do ELNA, das FAPLA e das FALA.
O alferes Garcia, com a sua proverbial tranquilidade, lá nos disse que «não vai ser nada, andámos a ser preparados para isso...». Como ele gostava de repetir, sempre de sorriso largo e franco, que «foi para isso que nos andámos a preparar». Não nos ajudou em nada, é óbvio, esta serena e sapiente observação, mas consolou-nos. Fiquei a saber, por estes dias, que ia formar uma das três equipas de PU - no meu caso, com o Almeida e o Marcos, dois bravos do PELREC.
- ELNA. Exército de Libertação Nacional de Angola, da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA).
- FAPLA. Forças Armadas Populares de Libertação de Angola, do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).
- FALA. Forças Armadas de Libertação de Angola, da União Nacional para a Idependência Total de Angola (UNITA).
- PU. Polícia de Unidade, o mesmo que Polícia Militar.
Governador Mawete João Baptista sugere monumento na Baixa do Cassange

quinta-feira, 11 de março de 2010
Cuspidelas aos militares do BCAV. 8423 de Carmona
A Escola de Condução do Uíge (imagem de net)A 11 de Março de 1975 registou-se em Portugal uma tentativa falhada de golpe militar, organizada pelo general António Spínola, ex-Presidente da República, aliado à Força Aérea e ao chamado Exército de Libertação de Portugal (ELP), por oposição ao Comando Operacional do Continente (COPCON) e à Liga de Unidade e Acção Revolucionária (LUAR).
O objectivo, sabe-se agora, apontava na tentativa de pôr fim ao governo do 1º. Ministro Vasco Gonçalves, que, lembremo-nos, era defensor de um regime socialista avançado - coisa que nós nem sequer, ao tempo, conhecíamos bem. Lá sabíamos nós o que era isso!!! A missão foi abortada e o golpe foi dado como falhado.
Carmona, nesse dia e alheia às movimentações militares de Lisboa, recebia a restante 2ª. Companhia da Cavalaria - a de Aldeia Viçosa, comandada pelo capitão miliciano José Manuel Cruz. O primeiro Grupo de Combate (pelotão) chegara no dia 2, com toda a CCS, e já se movimentava na cidade - a «receber» desdéns e comentários bem desagradáveis da população civil europeia. Tal qual a malta da CCS...
É "histórica", para nós e por um destes dias, a reacção de uma mãe de família, com filhos e sobrinhos, que se passeava na Rua do Comércio e escarrou ostensivamente para o chão, como se fosse para cima de nós, militares... - um episódio que, ao conhecimento de hoje, seria emblemático da menos boa relação entre a sociedade civil e os militares do BCAV. 8423 - todos os dias industriados para não reagir a provocações.
«Traidores, filhos da p..., cab...», foi o mínimo que nos chamou, ante a raiva do Marcos e do Madaleno, que comigo seguiam para a aula de condução, na Escola de Condução do Uíge - onde eu próprio viria a tirar a minha carta. No mesmo sítio e por ali perto, no cruzamento que dava para a praça da ZMN, viríamos nós a recolher alguns civis a fugir da guerra que lavrava na cidade nos dramáticos dias de Maio e Junho. E, entre eles, vejam lá... a tal família. A vida tem destas coisas!...
quarta-feira, 10 de março de 2010
A inauguração da Missão Católica do Quitexe
Imagem da Missão do Quitexe, no dia da inauguração. Clicar, para ampliarterça-feira, 9 de março de 2010
A apresentação de especialistas em Santa Margarida
A 4 de Março de 1974, começaram a apresentar-se em Santa Margarida a maior parte dos especialistas que iriam formar o BCAV. 8423 - completando o seu quadro de efectivos. Ele, eram os escriturários, os enfermeiros, os homens das transmissões e das oficinas, os condutores, os sapadores (estes, não estou certo..). Era a família que se formava.
O nosso poiso do Destacamentou mudou, soubemo-lo logo nessa 2ª.feira (dia 4), e continuava a instrução e a azáfama de quem se preparava para uma guerra de guerrilha e tinha de estar fisica e mentalmente bem preparado.
Surpreendiam-se alguns (novos) amigos cabos milicianos pela dinâmica e tranquilidade com que evoluía o PELREC - todo ufano e garboso, sempre que desfilava em marcha de treino ou se mostrava aos novos companheiros bem preparado, «à ranger», sem falhar um acerto de passo ou recuar a qualquer exercício mais difícil.
O PELREC evoluía noite e dia - mais de dia... - pela Mata do Soares, preparando golpes de mão e emboscadas, como reagir activa ou passivamente; como enfrentar um perigo, uma surpresa, o deflagrar de uma granada, o rebentar de um petardo, o som estridente e ameaçador de uma rajada de G3. A nada fugiam os pelrec´s, embora com um ou outro desenfianços daqueles dois ou três, ou quatro!, que sempre trocam o passo e se fazem diferentes, pela mais vulgar chico-espertice. Mas era coisa que não nos escapava e a que o Neto puxava orelhas e eu sermões, com a cumplicidade (e ordens) do então aspirante Garcia.
O PELREC crescia como uma família!
segunda-feira, 8 de março de 2010
Outros Cavaleiros do Norte, do Quitexe a Carmona e a Luanda
Não foram esquecidos os companheiros que, não sendo atiradores, enfermeiros, sapadores, mecânicos, gente das transmissões, escriturários, condutores, também - e muito bem.. - faziam parte da família dos Cavaleiros do Norte instalados no Quitexe.
Aqui vão eles, com a nossa continência ao companheirismo que todos multiplicaram na enorme família quitexana, depois carmoniana e luandina.
- 1º.s CABOS: Manuel da Costa Vieira (clarim), Manuel Augusto da Silva Marques (carpinteiro) e Vitor Manuel da Cunha Vieira (auxiliar de serviços religiosos, sacristão).
- SOLDADOS: José António Cardoso Caetano e Gracindo da Purificação Queijo (clarins), António Santana Cabrita (básico) e Júlio S. Plácido (caixeiro),
Outros companheiros poderão ter passado pela CCS do BCAV. 8423, em regime de substituição temporária. Deles, não temos registo.
O Quitexe de hoje visto pelo Jornal de Angola
O município do Dange-Quitexe, a principal “porta de entrada”, por terra, para quem vai ao Uíge, passando pela província do Bengo, já foi das localidades que mais contribuiu para o desenvolvimento da região.
Quitexe também é famoso por dispor de dois locais turísticos, a Lagoa do Feitiço e o rio Tsamba, cujas histórias arrepiantes, contadas pelos mais velhos, obrigam qualquer pessoa a respeitá-los e a cumprir rituais impostos.
Dange-Quitexe, com 3.872 quilómetros quadrados e mais de 33 mil habitantes, tem três comunas, Aldeia Viçosa (24 quilómetros), Vista Alegre (a 60) e Cambamba (86). Acabado o conflito armado, que afectou o desenvolvimento da região, a administradora municipal procura soluções para a localidade voltar a ser o que já foi. Maria Cavungo disse ao Jornal de Angola estar preocupada com o estado das vias de acesso às demais localidades do município, defendendo que a maioria das infra-estruturas deve ser reabilitada e devidamente apetrechada.
Aposta também na construção de mais empreendimentos sociais, como escolas, postos e centros de saúde e no fornecimento de energia eléctrica e de água.
Foto e texto José Bule. Ver completo, DAQUI.
domingo, 7 de março de 2010
Os primeiros dias de Carmona...
A cidade e os seus desafios foram uma «aventura» bem interessante para todos os jovens Cavaleiros do Norte. Julgo poder dizer, sem exagero, que todos ganharam alma nova, desestigmatizando alguns constrangimentos e receios. A cidade de Carmona, na verdade, oferecia muitas respostas à gulodice social da guarnição: cinemas, bons restaurantes, belas esplanadas, a piscina, por aí fora.O Escape, restaurante já desde há muito conhecido dos «desenfianços» do Quitexe, passou a ser paradeiro usual da tropa financeiramente mais abonada - que pelos arredores aproveitava para espreitar as belezas que enchiam os olhos - as belezas que por ali se passeavam, bem decotadas e de pernas ao leú, ou as que mercavam nas várias lojas da rua do Comércio, na avenida de Portugal, nas principais áreas comerciais e nas muitas esplanadas e bares da cidade. E lá surgiam os pecados do desejo, os consolos de vista que nos enfeitiçavam, sempre que nos dávamos a olhar para as meninas do liceu. Ou outras quaisquer!
A outro nível, o comandante Almeida e Brito - com a guarnição bem instalada no BC12 e mas messes da cidade - foi cumprir protocolo e dinamizar empatias: a 5 de Março de 1975 visitou o Governador do Distrito, o Bispo da Diocese e os Juízes do Tribunal de Carmona.
sábado, 6 de março de 2010
As mágoas e saudades que se afogavam no bar dos soldados
Foto frente ao bar dos soldados, no Quitexe. Clicar, para a ampliar. Conhecem-se, em cima, Miguel (secretaria), Messejana (atirador) e Rocha (furriel). A seguir, Ferreira (atirador e depósito de géneros), Tomás, encoberto (?), de boina (?), Hipólito e Madaleno (atiradores) e Calçada (sapador), etc.. Sentados: Cabrita e Frangãos (o Cuba, de óculos). Quem ajuda a identicar os outros. Lembramos as caras, as esquecemlos os nomes.
Também me lembro que não eram só os soldados que frequentavam o bar. Ás vezes, muitas vezes, também apareciam alguns furriéis. Sim, porque era preciso procurar a cervejinha mais fresca. E lá estava o bar dos soldados, na rua principal do Quitexe, para sarisfazer esses desejos.
sexta-feira, 5 de março de 2010
O descanso do guerreiro Machado e o tenente que era «fascista»

Depois de um dia de trabalho quente e sem ar condicionado, no Quitexe, aí por Outubro/Novembro de 1974, esgueirei-me e fui para o quarto (dormitório dos furriéis milicianos).
Fiquei estupefacto com a dimensão que o caso tomou e desloquei-me para a secção de material de guerra, que ficava ao lado da secretaria e do gabinete do capitão. Como havia comunicação de portas entre a secção, a secretaria e o gabinete do capitão Oliveira, foi-me possível ouvir parte da conversa dele com o Tenente Mora.
quinta-feira, 4 de março de 2010
Cavaleiros «à solta» na cidade... e insultos e ameaças aos militares

quarta-feira, 3 de março de 2010
Os Cavaleiros do Norte no BC12 de Carmona
Carmona! Aí estava a cidade do nosso caminho para Luanda e Lisboa. Ao tempo da chegada, mal imaginaríamos nós as dores que iríamos sentir na capital provincial. Mas vivemos estes dias com grande intensidade e maiores expectativas. Quebradas num destes dias pelo gelo das palavras do alferes Garcia: «Isto, nunca se sabe, mas pode haver m....».terça-feira, 2 de março de 2010
Adeus ao Quitexe...
A 2 de Março de 1975, toda a CCS (do Quitexe) e um Grupo de Combate da 2ª. CCAV. 8423 (a de Aldeia Viçosa) rodaram para Carmona. Para trás, ficou uma terra que nos recebera em Junho anterior e da qual levavámos um coração já cheio de saudades. Até hoje!
A azáfama começara nas vésperas: preparação da coluna militar, carregamento de haveres, mobilização de tarefas para que a rotação fosse feita tranquilamente. Tudo como devia ser. Por lá ainda iria ficar a 3ª. CCAV., que mais tarde rodaria para o Songo.
Recordo-me de, em cima de uma berliet a e na avenida principal do Quitexe, olhar a vila, da igreja ao parque-auto, ao posto 5 que se via à entrada da vila, aos bares, à administração civil e às casas «militarizadas», os bares e restaurantes, do olhar do Papélino, de quem ainda ontem aqui falei - o adolescente engraxador que fazia as nossas delícias e tanto queria vir para Portugal. Escondeu-se de nós, atrás de uma enorme bananeira da xitaca, espreitando de olhos grandes por entre as folhas gigantes que tapavam os cachos.
Alguns civis, olhvavam-nos com alguma ironia, até com desdém, e rodavam outros avenida acima, avenida abaixo, buzinando e como que escarnecendo de nós. Ainda hoje penso que nem sonhavam o que seria o seu futuro próximo. A hora de marcha chegou e nesse momento senti que um dia voltaria ao Quitexe. E hei-de voltar!
História de Papélino, AQUI.
segunda-feira, 1 de março de 2010
1 de Março de 1975, a véspera do adeus ao Quitexe

O dia 1 de Março de 1975 foi de emoções, no Quitexe! E também de afectos. Era véspera de adeus e havia despedidas e sentimentos que se viveram e se (des)multiplicaram em abraços que foram definitivos, para muitos de nós.
Por mim, não esqueço a persistência de Agostinho Papélino, que por todos os santinhos da sua pagã adoração, queria vir connosco - comigo ou com o Neto. Nem os soluços de um europeu, que se quis perdoar de algumas maldades e intrigas mal-dizentes da gloriosa tropa do BCAV. 8423. Ou do rosto de olhos grandes e boca grossa da mulher que, do Canzenza, fez de lavadeira das nossas roupas brancas e, sendo mãe negra, carregava nas costas o bebé já nascido na nosso tempo do Quitexe.
«Qui vai ser di nós, esfurrié?!...».
Eu nada sabia responder àquela mulher bonita e sensual, que levedava cios e era desprendida de vaidades, leal ao pais de seus filhos e nos olhava de lenço de cabeça caído em cores pelo corpo de pau-preto, como que a afagar os aneis dos cabelos da criança que se lhe pendurava nas costas. A olhar para sempre..., de olhos tristes!
O Garcia, nosso garboso comandante de pelotão, passeou-se de tira de seda verde e envelhecida enrolada no pescoço, dando instruções ao nosso «pelrec», na frente da caserna.
A caserna engravidou-se de balbúrdias, de festa e de gritos de aleluias, enchendo-se malas e malotes com o «enxoval» que cada cavaleiro do norte fizera desde Junho de 74. E embriagou-se de entusiasmos e excessos!
Era a véspera da nossa saída do Quitexe! Íamos para Carmona! Os cheiros e os sons dos nossos chãos natais iam ficar mais próximos! Íamos dizer adeus a uma terra que nos encheu a alma. O Quitexe!
domingo, 28 de fevereiro de 2010
1º. cabo Joaquim Figueiredo de Almeida morreu há um ano
Joaquim Figueiredo de Almeida, 1º. cabo atirador de cavalaria, faleceu a 28 de Fevereiro de 2009, faz hoje um ano.
Era o mais velho de todos os do PELREC, nascido a 5 de Dezembro de 1950 - sendo nós de 1952. Era de Pedrogão, freguesia de Pedrogão de S. Pedro (município de Penamacor), e dele se dizia que tinha ido «a salto» para França, tendo de regressar vir para cumprir o serviço militar. Nunca tal lhe perguntei, nem ele, que eu saiba, isso explicou a quem lhe perguntou.
Fez a escola de recrutas em Santa Margarida e foi promovido a 1ª. cabo. Era, em zona operacional e já em Angola, homem que não virava a cara aos perigos. Com ele - e o Marcos - fizemos dezenas de PU na cidade de Carmona e recordo bem uma noite de um domingo, quando, num bar americano, tivemos de intervir numa situação bem adversa. Pois não olhou para trás o Almeida, nem o Marcos, quando tivemos de enfrentar a turba revoltosa, de cassetetes no ar e a mão na Walter, não fosse termos de intervir (ainda mais) pela força.
Era um homem generoso, sempre disponível para qualquer serviço, sempre cumpridor, leal, discreto, corajoso e amigo. Faleceu faz hoje um ano e aqui lhe prestamos a nossa continência de respeito e saudade.
- PU. Polícia de Unidade, equivalente a Polícia Militar.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Saudades do Quitexe que íamos deixar...
A 26 de Fevereiro de 1975 desfizeram-se todas as dúvidas: íamos para o BC12, em Carmona. Soubemo-lo ao fim da tarde, depois de mais uma das reuniões do comando na ZMN - que já vinham de dias anteriores e continuaram a 27 e 28. sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Pequenos incidentes numa das últimas noites do Quitexe...
Hoje, no dia de hoje de 1975, era 4ª. feira e jantei no bar do Rocha, com o Neto e outros amigos na mesma mesa. E muitos militares, em outras. Comemos os convencionais bifes com ovo a cavalo e cerveja, muita cerveja, depois de uns pratos de camarões.
A partida para Carmona estava por dias e eu já aprontara as duas malas com as minhas quitangas. O Neto, nestas coisas deixava-se sempre mais para o fim e iria fazê-las mesmo de véspera. No dia, tínhamos ido a Vista Alegre e Aldeia Viçosa, escoltando o capitão Falcão - que lá foi diligenciar a rotação do BCAV. Iria a 2ª. Companhia para Carmona (connosco), iria a 1ª. CCAV. 8423 para o Songo (se me lembro bem).
O ambiente do restaurante era inamistoso para os tropas e sucediam-se trocadilhos ofensivos - que já não eram novidade para nós, mas que tínhamos de «engolir», sem retorquir - o que não era nada fácil. Às tantas, um ex-GE, já entrado nos copos, picou-se de razões com um civil europeu. Houve «escaramuças» com alguma violência, ainda que rapidamente resolvidas e embora estendidas à rua.
A ordem geral era evitar conflitos. Era cada vez mais latente a influência dos movimentos emancipalistas na sociedade civil. Com alguns exageros e vinganças pelo meio.
Passeámos longamente pelas ruas da vila , noite adentro, memoriando os meses que nos traziam desde Junho e da nossa chegada ao Quitexe. Havia a consciência de que se «escrevia» um momento histórico para o mundo, África e Angola. E que nós éramos pequenos actores dessa memória que ainda hoje por aqui nos traz. Eram os nossos últimos dias do Quitexe!























