Tomás e Pais (1º.s cabos) e Silva, rádio-montadores da CCS do BCAV. 8423
BATALHÃO DE CAVALARIA 8423. Os Cavaleiros do Norte!!! Um espaço para informalmente falar de pessoas e estórias de um tempo em que se fez história. Aqui contando, de forma avulsa, algumas histórias de grupo de militares que foi a Angola fazer Abril e semear solidariedade e companheirismo! A partir do Quitexe, por Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Ponte do Dange e Songo! E outras terras do Uíge angolano, pátria de que todos ficámos apaixonados!
Tomás e Pais (1º.s cabos) e Silva, rádio-montadores da CCS do BCAV. 8423
Vantagem de escrever anotações nas costas das fotografias é recordar histórias a elas ligadas. A de baixo, a preto e branco, fez memória da minha visita à barragem do Cuando, a 14 de Abril de 1975, com Cecília Neves e o marido, Rafael. Na de cima, a cores, estou eu com Rafael e os quatro filhos: Saudade, Fátima, Idalina e Valter. Num dos muitos jardim de Nova Lisboa, no dia 16. 

A minha estadia em Nova Lisboa deslumbrou-me. A cidade era moderna, apetecível, bem desenhada, cheia de espaços ajardinados e fluidez de trânsito, muito bem estruturada, ampla e de gente simpática e ordeira. Com muitas respostas para a nossa curiosidade jovem.
As transmissões eram essenciais, fossem lá elas falhar quando fosse necessária uma evacuação, um socorro, uma comunicação urgente. As saídas para operações, os patrulhamentos, ou para as mais vulgares escoltas, não dispensavam o homem da rádio.
A minha primeira operação na mata angolana, pela serra de Quimbinda adentro, foi de três dias - com dois grupos de GE´s. E bem sei e lembro as aflições de deixar de ter o Racal TR28 a comunicar com o Quitexe, a partir da manhã do segundo de três dias. E o medo, o constrangimento, a boca que se fazia roxa de morder os lábios enquanto se palmilhavam os trilhos da mata, carregando a mochila, de arma aperrada e olhos bem abertos, a querer ver o que não... queria. Entre a vida e o temor do sangue e da morte.
Ao terceiro dia, numa clareira já perto da fazenda Vamba, lá esticámos as antenas, tentando comunicar com o Quitexe. Qual quê?!!! Quando finalmente a comunicação foi conseguida, não havia acerto de senhas - não sei já porque coisa! Falei em linguagem claro, sem códigos, aflito! «Sou fulano, pá!...».
Não me percebia o operador, ou não reconheceu! Foi um drama! Havia legítima dúvida de identidade, há para aí 30 horas que não havia contactos, sabe-se lá o que teria acontecido, se não estaria prisioneiro!
Finalmente, lá nos entendemos. E fomos transportados pelo Pelotão de Morteiros, comandado pelo Alferes Leite, açoreano - que não me deu palavra até que chegámos ao aquartelamento. Eu e uns 40 e tantos GE´s. O Racal TR28 lá voara os éteres dos céus de Angola, com a mensagem que nos «evacuou». Estão a ver a importância das trasmissões. Aqui lhes presto a minha continência.

A 9 de Abril de 2009, Quinta-Feira Santa, cheguei a casa depois de mais um dia de trabalho e seroei a ver imagens fotográficas da tropa. Senti um mar de emoções e saudades!!! Comentei algumas peripécias que a memória m´ajudou e disse-me a senhora minha mulher, a provocar-me: «Olha, faz um blogue!!!...».
Ajudou-me ela na empreitada, por ser eu leigo absoluto na matéria blogueira, e gostei do que vi! E, de contente por não me doer um dente, fiz passar a mensagem a meia dúzia de companheiros da tropa, daqueles que ficam para toda a vida.
Hoje, passado um ano, com postagens diárias, mais de 81 000 visitas e um encontro de Cavaleiros do Norte pelo meio e outro já na soleira da porta, ainda por aqui andamos a contar histórias do que foi a nossa passagem pela Angola que todos aprendemos a amar.
Não vou pôr foguetes, não vou... Mas vou beber uma taça!!! Aos garbosos Cavaleiros do Norte!!! E a todos quantos comigo assinam esta «crónica» diária.
Quem quiser ir ver o primeiro post, pode ir aqui: http://cavaleirosdonorte.blogspot.com/2009/04/o-furroel-milicano-em-angola.html
Uíge, 8/Abril/2010: O governador provincial do Uíge elogiou hoje, quinta-feira, o processo de modernização e reedificação das Forças Armadas Angolanas e do Exército, em particular, em vários domínios, o que tem permitido cada vez mais o crescimento qualitativo e a prontidão combativa das tropas, visando a sua participação activa nas tarefas da reconstrução nacional.Os dias de Luanda eram vividos com grande enstusiasmo, até sofreguidão!!! O facto de podermos dispôr de uma viatura, facilitava a nossa mobilidade e era um «ver-se-te-avias» de galgar a cidade e a ilha, pulando para a restinga, pisar a areia quente da praia e... saltar à ilha do Mussúlo, olhando a cidade que como que se fazia despedir do nosso deslumbramento - num «até já» que nos escaldava as emoções e apetites.
A semana pós-páscoa de 1975 - a 30 de Março!!... - foi passada num corre-corre intenso, nem um dia sem encontrar um vizinho de Portugal ou um amigo, deixando para as noites quentes de Luanda o saciar das nossas fomes da idade. Um dia, ao cimo da avenida Álvaro Ferreira, perto do Palácio do Governo, dei de caras com o Carlos Sucena, aqui de Águeda e que por lá cumpria a sua comissão de serviço. Éramos amigos de escola e matámos saudades à volta de cerveja fersquinha, servida em copos de bazuca.
Carmona, a 340 quilómetros, ressacava dos incidentes de Luanda e outras cidades, acautelando-se em patrulhamentos cada vez mais regulares e intensos -na sua malha urbana. Disse tive eco por companheiros que, de passagem pela capital, rumavam em Lisboa, para férias.
A CCS do BCAV. 8423 recebeu o alferes miliciano João Carlos Lima Cabral, para substituir José Leonel Pinto de Aragão Hermida (ver AQUI). A 2ª. CCAV. passou a ter novo enfermeiro - o 2º. sargento miliciano Manuel Alcides da Costa Eira, que esteve no Encontro da CCS, a 12 de Setembro de 2009.
Em Luanda, faziam-se vésperas para o nosso voo aéreo para Nova Lisboa. Em férias com o Cruz!
Militares dos movimentos emancipalistas, no BC12, em 1975 (foto de Rodolfo Tomás)