segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Atritos graves, em Aldeia Viçosa, entre o MPLA e a FNLA

A estrada do Café, em Aldeia Viçosa (foto de Ivo Morgado)

As relações entre os militantes dos movimentos emancipalistas azedaram logo que se instalaram nas vilas e cidades de Angola. A zona de acção do BCAV. 8423, a norte, a partir da vila-mártir do Quitexe, estendia-se, por Janeiro de 1975, ao longo da chamada Estrada do Café, em asfalto - ligando Carmona (Uíge) a Luanda.
A presença dos Cavaleiros do Norte assentava guarnições em Vista Alegre, com a 1ª. Companhia, ida de Zalala, comandada pelo capitão Castro Dias. Por Aldeia Viçosa, onde continuava a 2ª. CCAV. do capitão José Manuel Cruz. E pelo Quitexe, onde estava a CCS, o comando de Batalhão e, agora, parte substantiva da 3ª. Companhia - a de Santa Isabel, comandada pelo capitão José Paulo Fernandes.
A 26 de Janeiro de 1975, faz hoje 35 anos, registaram-se acidentes com alguma gravidade em Aldeia Viçosa - onde a FNLA abria uma delegação, nesse dia. Os dois movimentos (FNLA e MPLA) não se entenderam quanto à realização de um comício conjunto - depois de nela acordarem - e houve mosquitos por cordas, dando aso a uma situação de atrito considerada grave pelas Forças Armadas Portuguesas. Que intervieram. Intervieram em situação apaziguadora, de risco, mas que foi alcançada.
O momento foi vivido com fundamentados temores e grávido de interrogações, entre a guarnição portuguesa: o que vai acontecer amanhã, se eles não se entenderem? Vai haver paz? As NT vão passar à guerra urbana, depois da guerrilha de mata? A descolonização vai correr bem? Perguntas para as quais não havia resposta e nos constrangia o dia-a-dia.
- MPLA. Movimento Popular de Libertação de Angola, liderado por Agostinho Neto.
- FNLA. Frente Nacional de Libertação de Angola, presidida por Holden Roberto.
- NT. Nossas Tropas, sigla convencionalmente atribuída às Forças Armadas Portuguesas.

domingo, 24 de janeiro de 2010

O (não) arame de tropeçar da instrução de Santa Margarida

A capela do Campo Militar de Santa Margarida


Uma coisa que nos palestraram em Santa Margarida, foi a forma e o objectivo de conhecermos (e praticarmos) os princípios e hábitos que teriam de nortear a vida do BCAV. 8423 - que se formava - durante o tempo em que, como unidade constituída, vivesse no RC4 e em Angola.
O princípio era básico: íamos todos para a guerra, pois que nos preparássemos para ela. Os exercícios repetiam-se, no Destacamento Militar e nas redondezas, com simulações de patrulhamentos, operações militares, emboscadas, ordem unida..., socorro, admionistração, essas coisas todas.
A 23 de Janeiro de 1974 registou-se uma inspecção do Coronel de Cavalaria Magalhães Corrêa, da DAC, e do dia recordo um acontecimento «singular»: ia o PELREC em progressão, num trilho da Mata do Soares (era este o nome?), quando eu e o Neto, com as petulâncias e exageros típicos da idade e a vantagem do conhecimento capitalizado em Lamego (nas Operações Especiais), resolvemos simular um arame de tropeçar, para dar a ideia da atenção com que a progressão devia ser feita.
Então, eu e ele, a certa altura - e num ponto que achámos melhor - galgámos o arame (que não existia) com todos os cuidados, não fosse que o tropeçássemos e rebentasse alguma bomba, muito cautelosamente e sempre em posição de defesa. Um a um, todos os «pelrec´s» o passaram, levantando o pé direito na frente e de olhos fixos no arame. Tudo certinho.
Ao fim do dia, no regresso ao Destacamento, felicitámos a rapaziada pelo êxito da missão - mas sem aparentemente enganarmos o Botelho, que passava por ser um bom guarda-redes de futebol e, se calhar por isso, por ser de olho vivo, desconfiara que não havia arame nenhum - embora também ele «o» passasse. Ao outro dia, explicámos à malta e foi uma risada. Mas desconfio que ainda hoje a maioria do pessoal acredita que o arame estava mesmo lá.

sábado, 23 de janeiro de 2010

O quejo comido na caserna no Destacamento de Santa Margarida

Entrada do Campo Militar de Santa Margarida (foto na net, recente) e Francisco
Miranda, vencedor da Volta a Portgal de 1980 e que foi soldado do PELREC

Santa Margarida, 7 para 8 de Janeiro de 1974. Os militares do BCAV. 8423 chegam ao Destacamento do RC4 desde a véspera e vão-se instalando numa das casernas. Havia a natural curiosidade de se conhecerem: de onde és, de onde não és, as habituais trocas de informação e a curiosidade (satisfeita) de se saber com quem se vai para uma missão que se adivinhava não ser fácil.
Estou de sargento dia e a minha insatisfeita curiosidade leva-me a ficar até tarde pela caserna, trocando impressões com a malta que estava e ia chegando. Uma das «atracções» da noite, que já ia longa, era o ciclista Francisco Miranda - que em 1970 fôra campeão nacional de rampa, pelo Sporting, título que repetiria pelo Bombarralense. E ganharia a Volta a Portugal em Bicicleta de 1980. Foi do PELREC, mas foi desmobilizado, por ser desportista. Era sobrinho de Leonel Miranda, outro vencedor da Volta e, se me lembro bem, fazia anos a 13 de Maio.
Volto tarde ao local de repouso e pouco depois fui chamado, para grande alarido na caserna. «Ó nosso cabo miliciano, vá lá...».
O que era, o que não era?! A malta, sem sono e de cerveja fartamente bebida, desfazia-se de «gozo» para cima de um militar que acabava de chegar, vindo a pé desde o apeadeiro ferroviário. A caserna era mais que uma feira, com travesseiros e botas pelo ar, atiradas para cima dele - ali baptizado com uma chusma de nomes, qual deles o mais caricatural.
O nosso homem, impecavelmente fardado, mas atrapalhado e constrangido, vinha de pau ao ombro e com várias sacas de pano penduradas, atrás e à frente. Era aquela figura de sátira, algo cómica, que despoletava a balbúrdia da caserna. Cheguei e, vá lá, amainou a barulhaça. Chamei o bom do nosso novo companheiro para o lado e lá me contou que trazia as sacas cheias de presuntos, paios, chouriços e queijos, broa e rojões - tudo feito em casa, preparadinho com amor de mãe. Estava temeroso, tremia, cheio de vergonha, e os olhos liam-se-lhe de angústias. A recepção da rapaziada amedrontou-lhe a humildade.
«Ó homem, então você vem-me para aqui nesta figura?!...». Que vinha, pois vinha, e o pai lhe dissera que todos os que tivessem «coisas» nos ombros eram superiores, para ele obedecer sempre.
«Você vai resolver isto bem, convida-se a malta e você dá um queijo...», disse-lhe eu, meio a brincar. Que sim, «se o senhor diz...». Gritei ao pessoal para irem desencantar cervejas e sumos, que logo apareceram. O cenário seguinte, podem imaginá-lo!
O novo amigo viria a ser militar aprumado e disciplinado, um corajoso companheiro do PELREC. Falei com ele em 1994, para que viesse ao nosso primeiro encontro. Não veio. Voltei a falar, para que estivesse no de Leiria. Disse que sim, mas telefonou nas vésperas. Tinha «um problemazito...», não podia ir. E lá me lembrou a história do queijo!
«Ó furriel, aquela eu nunca mais esqueço...», disse ele, adivinhando-se-lhe a largura do sorriso. Ele, que nunca soube chamar-me de outra maneira.
«Ó furriel, qué quer?!!!...».

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Os primeiros dias do Batalhão de Cavalaria 8423


A história do Batalhão de Cavalaria 8423 está sumariamente descrita no Livro da Unidade - e a ele tenho recorrido regularmente, para confirmar datas, confrontando-as com as minhas anotações e correio da época. Ler o livro aviva memórias e tenho o cuidado de as confirmar, tanto quanto é possível.
A 7 de Janeiro de 1974, uma segunda-feira, foi dia da primeira apresentação formal dos quadros mobilizados, no Destacamento do Regimento de Cavalaria 4, em Santa Margarida - conhecendo-se a grande maioria dos oficiais e sargentos (do quadro e milicianos) e alguns praças (cabos e soldados). Mais informais, foram os contactos dos dias seguintes (8 e 9), no primeiro deles decorrendo uma palestra do tenente-coronel Almeida e Brito ( o comandante) - que bem nos «assustou». A palestra! Não havia de ser nada, comentámos, entre nós, eu e o Neto.
Apreciámos vivamente o ar decidido e garboso do então aspirante miliciano Garcia - que viria a ser o nosso comandante de pelotão. E que, vagamente, reconhecíamos de Lamego - do CIOE, onde todos tirámos o curso de Operações Especiais, os Rangers. O tempo confirmaria a sua coragem, solidariedade e lealdade.
A esse tempo, está a fazer 36 anos, formava-se o Batalhão de Cavalaria 8423! Já sabendo que Angola era o nosso destino. O destino que aqui andamos a recordar.
- GARCIA. António Manuel Garcia. Alferes miliciano de Operações Especiais, natural de Pombal (Carrazeda de Ansiães). Era agente da Polícia Judiciciária e faleceu num acidende de viação, em serviço, em 1977 (ou 78).
- LIVRO DA UNIDADE. Foi-me emprestado pelo José Santos Pires, de Bragança (ex-furriel miliciano de transmissões).
- CIOE. Centro de Instrução de Operações Especiais, em Penude (Lamego).

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Espectáculo do MFA no pavilhão de Carmona


A 21 de Janeiro de 1975 e no âmbito das actividades de acção psicológica do MFA, realizou-se em Carmona um espectáculo recreativo e cultural, participado por militares de todas as sub-unidades do BCAV. 8423.
Socorro-me do Livro da Unidade, não tenho grande memória do acontecimento e baralho-me, provavelmente, com um outro - realizado, salvo erro, no pavilhão do Futebol Clube do Uíge (foto), já os Cavaleiros do Norte estavam em Carmona, no BC12 - este com farta participação de militares do batalhão. Recordo-me de um conjunto musical que, se a memória não me falha, tinha alguma coisa a ver com a 3ª. CCAV. comandada pelo capitão José Paulo Fernandes - para além de várias participações avulsas.
O pavilhão estava cheio, com militares e civis, mas para não ferir a história, vou ficar-me por aqui. Alguém que por aqui nos lê consegue «recuperar» o que na verdade aconteceu a 21 de Janeiro de 1975? Digam alguma coisa, quem souber.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O dia de anos de minha mãe!...

A 20 de Janeiro de 1975, a senhora minha mãe fazia 54... anos. Hoje faz 89! Há 35 anos, com as vésperas necessárias, lá lhe mandei notícias do Quitexe, a condizer com a data - trazidas em mão pelo Monteiro. Reli agora o que então lhe escrevi e o correio que (dela) lá me chegou por estes dias e não deixei de ter uma emoçãozinha a varrer-me a alma, ao olhar o papel amarelado do aerograma assinado por «Tua Mãe»!
Contando a história, o Monteiro veio de férias e foi portador de carta - que poria no correio em data apropriada a que minha mãe a recebesse neste dia. Dela, tive resposta de luxo: no regresso ao Quitexe, o Monteiro foi portador de dinheiro - que lhe enviou ela em vale do correio, para Vila Boa de Quires (Marco de Canaveses), onde ele açucarava o seu descanso dos dias quitexanos, enovelando-se de amores pela sua mulher de hoje - a Fernanda Queirós (Nani). Dinheiro, em notas - tinha pedido eu... - e uma lata com chouriço em azeite e outra com rojões. As mães são assim!
O Quitexe de faz hoje 35 anos foi de patrulhamento na estrada do café e uma pequena escolta a uma fazenda das redondezas - já não sei porquê. E à noite houve janta no Pacheco, com alguns amigos - metendo uma entrada de camarões e bife no prato, como era convencional. Com cartas e aerogramas de «sobremesa». Foi um dia feliz e nostálgico! Como se vê na foto, que não é do dia.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Por onde anda(rá) o Emanuel do SPM?

Os 1º.s Cabos Pais e Emanuel, com o furriel Viegas ao centro, no Bar do Rocha

O Emanuel era um dos homens do Quitexe mais próximo de mim: 1º. cabo escriturário, natural da Gafanha da Nazaré (Ílhavo), discreto, eficiente, diplomata, bom companheiro, tinha o dom de saber ouvir e de ter sempre um sorriso para sossegar qualquer constrangimento.
As conversas com ele, num dos vários bares do Qitexe, eram intermináveis: sabiam à maresia da Barra e da Ria, tinham os cheiros das nossas terras (bem próximas), falava-se de Aveiro, dos ovos moles e do Tico-Tico, do Beira Mar e de Vale Guimarães - que pouco antes, como Governo Civil de Aveiro, autorizara a realização do 2º. Congresso Republicana (a 16, 16 e 17 de Maio de 1969) e depois o terceiro, em Abril de 1973 - que ainda «vi», em correria pela avenida acima, a fugir para estação do caminho de ferro.
Falar de Aveiro e de Águeda, pelo Quitexe, era um bálsamo e o Emanuel fazia parte dessa «receita». Bom tipo, foi louvado pelo comando do BCAV. 8423, que lhe exaltou «a maior dedicação pelo serviço, sempre pronto a cumprir quisquer tarefas».
Uma delas, era a coordenação do SPM e não era raro que ele mandasse recado pelo Cabrita, para nos juntarmos no Rocha, no Topete, no Pacheco... Era sinal de mão-cheia de aerogramas para eu ler.
O Emanuel, todavia, não vem aqui por isso: vem, porque não sei dele! Todas as minhas diligências, batem com o nariz na porta. A última vez que ouvi dele falar, foi há uns pares de anos. Alguém me disse que estaria para os Estados Unidos. Estará? Quem ajuda a encontrar o 1º. cabo escriturário 11217473?? Não se darão alvíssaras, mas dar-se-ão abraços!
- EMANUEL. Emanuel Miranda dos Santos, 1º. cabo escriturário, natural da Gafanha da Nazaré (Ílhavo). Trabalhava na Secção de Operações e Informações e foi encarregado do SPM.
- SPM. Serviço Postal Militar, assegurava o correio de (e para) militares em comissões de serviço nas então chamadas províncias ultramarinas. Angola, era uma delas. O SPM do Quitexe era o 1246.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

O incêndio na arrecadação e quartos dos alferes milicianos do Quitexe

Os bombeiros que acudiram ao fogo e a casa (em baixo) que
ardeu no Quitexe, fez ontem 35 anos

A 17 de Janeiro de 1975 deflagrou um incêndio numa das casas (foto) onde o Batalhão de Cavalaria 8423, no Quitexe, tinha quartos dos oficiais milicianos e, noutra parte, a arrecadação do material de aquartelamento da CCS. Era de noite e todos apanhámos um valente susto.
Pensou-se, inicialmente, que fosse um qualquer ataque: as balas estouravam às centenas, simultâneamente; as labaredas cresciam e o pânico rapidamente galgou adentro das nossas almas. Já aqui falámos disso, mas chegaram-nos mais pormenores - que a memória foi apagando. E fotos, do (furriel) Neto.
O Livro da Unidade, por exemplo, refere que a origem terá estado num curto-circuito, que se registaram avultados prejuízos materiais e que «embora com a maior dedicação por parte do pessoal militar, não houve possibilidade de evitar a destruição total do imóvel, por falta de meios adequados para apagar o incêndio, inclusivé a própria água».
Recordo, por exemplo, a deficientíssima capacidade de combate, da parte dos Bombeiros de Carmona: um carro «artesanal», com bomba manual e três homens, e uma ridícula capacidade de transporte de água e que foi, de resto, motivo de grande chacota do pessoal militar. E repare-se na foto: um dos bombeiros está de gravata. Há distância de 35 anos, ontem feitos, até dá vontade de rir!
Ver AQUI.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Banco BIC com delegação no Quitexe


O Quitexe tem uma agência do Banco BIC desde Julho de 2009, segundo agora lemos na edição electrónica do Jornal de Angola. O objectivo da instituição financeira foi (é) «responder aos anseios da população, classe empresarial e autoridades administrativas locais».
A agência do Banco BIC, para além dos serviços de depósitos à ordem, pagamento de salários e multicaixa, proporciona serviços como o crédito pessoal, habitacional, automóvel e a projectos ligados à agricultura, pecuária e indústria.
Um banco no Quitexe, há 34 para 35 anos, seria impensável. Pelo que batemos palmas ao desenvolvimento que lá chega.
Notícia DAQUI.

Vice-Governador visitou obras das residências dos administradores

Uíge - O vice-governador provincial do Uíge para a organização e serviços técnicos, Pedro Vilhena Nazário Bomba, visitou as obras de reabilitação da administração municipal, assim como as residências dos administradores municipal e adjunto do Quitexe.
Notícia da ANGOP, de 16 de Janeiro.
Foto de arquivo.

Vce-Goverador do Uíge exige cumprimento da lei aos madeireiros


16-01-2010 12:23

Uíge - O vice-governador provincial do Uíge para a organização e serviços técnicos, Pedro Vilhena Nazario Bomba, exigiu sexta-feira, no município de Quitexe, aos exploradores de madeira a respeitar a lei vigente no país.
O governante disse ainda que o governo espera que os exploradores de madeira desempenhem um papel que visa o desenvolvimento das comunidades das áreas onde este recurso é explorado.
Para Pedro Vilhena Bomba, a exploração deste recurso deve trazer benefício para as comunidades onde a madeira é explorada, no quadro das obrigações sociais.

O bacalhau do Natal de 1974 em Aldeia Viçosa


Íamos pelas semanas de vésperas do Natal de 1974 e pelas terras de calor do norte de Angola suspirava-se pela consoada. E pelo bacalhau. A movimentação de MVL era grande, com cargas que galgavam as centenas e centenas de quilómetros de Luanda para os locais de destino.
Aldeia Viçosa, por onde cumpria missão a cavalaria da 2ª. do BCAV. 8423, foi uma manhã acordada com a notícia de um acidente na estrada do café: virara-se um camião do MVL. Havia que lá ir acudir. E foram! A viatura estava de rodas para o ar e não foi difícil descortinar o inevitável: a população civil roubou o que pôde, até que a tropa chegou. Lá se foram dezenas de grades de cerveja e outras bebidas, centenas de quilos de arroz, massa, farinha, tudo o que conseguiram carregar naquela hora despoliciada.
A tropa cumpriu o seu «mandato» e lá operou a recuperação da viatura e do que restou da carga. O condutor, felizmente, não tinha ferimentos de maior e a viagem foi retomada, apoiada nos meios entretanto disponibilizados. E voltou a tropa a Aldeia Viçosa, mas de marosca escondida.
O que foi e o que não foi, foi que os viçosos cavaleiros também eles carregaram os alforges de bacalhau e foram escondê-lo no tecto falso da enfermaria. Para a noite de Natal, diziam eles.
Aconteceu foi que algum rabo ficou de fora (e não foi o do bacalhau...), pois a história foi descoberta e, entre risos e sarcasmos mas com alguns medos do poder disciplinar, tiveram os cavaleiros da bacalhauzada de prestar contas. Cada um deles, ao tempo, teve de pagar 100 angolares para se calar a coisa e o produto reverteu em favor da cozinha para a consoada natalícia de 1974. Abençoada consoada, em que toda a gente comeu do bacalhau roubado no camião acidentado da estrada do café.
- HISTÓRIA. A história do bacalhau de Aldeia Viçosa foi recuperada em depoimentos do Matos (ex-furriel miliciano) e Ferreira (ex-1º. cabo enfermeiro), recolhidos a 16 de Janeiro de 2010.
- ANGOLARES. Moeda angolana (escudo).
- MVL: Movimento de Viaturas Logísticas, ou serviço de transportes, em viaturas pesadas, que asseguravam o reabastecimento das unidades militares. A foto é daqui.

sábado, 16 de janeiro de 2010

A malta da 2ª.Companhia de Cavalaria



Letras (à esquerda) e Matos,
furriéis de Aldeia Viçosa

Hoje, com a facilidade que as novas tecnologias permitem, a família dos Cavaleiros do do Norte ficou mais enriquecida: juntou-se o blog com o Matos e o Ferreira, da 2ª. CCAV. 84223, a de Aldeia Viçosa. E o telefone «casou-nos» com o Letras, o Ramalho e o Mourato. E com o Brejo!
Há duas semanas, reencontrando eu o Matos - que mora aqui bem perto, em Anadia, mas de quem a vida me separado, andando cada um pelo seu lado e a tratar da sua - combinámos fazer gastronomia regional no dia de hoje. Ele iria chamar o Ferreira, que foi 1º. cabo enfermeiro em Aldeia Viçosa e faz pela vida em Anadia, na Pavigrés. Assim foi!
Assim foi e foram horas deliciosas, revivendo histórias e emoções, nomes, companheiros e momentos que nios fizeram maiores para a vida ! Fiquei com tema para alguns dias, nesta «aventura» de, aos poucos, ir fazendo a memória do BCAV. 8423. E há coisas bonitas a contar!
Hoje, as novas tecnologias levaram-nos, também e em segundos, à fala com o Ramalho (alentejano de Évora), o Mourato (de Vila Viçosa) e o Letras (que faz vida por Palmela). E como a memória não falha, podendo escapar um rosto, diluído no tempo, estávamos a falar com eles e a recodar as suas caras de há 35 anos, jovens e frescas, cheias de sonhos.
A mim, já de casa, sobrou-me o Brejo, para o princípio da noite. Uma beleza falar com ele!!! O Brejo continua uma máquina infernal, uma maravilha de camarada. Que bom é ter esta malta como amigos!

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Sinal da televisão pública no Quitexe e arredores

O sinal da Televisão Pública de Angola chegou ao Quitexe a 9 de Outubro de 2009, inaugurado pelo ministro da Comunicação Social, Manuel Rabelais, no quadro da política do Governo de Angola de expansão e modernização dos órgãos públicos em todo o território nacional.
Além de Quitexe, também os vizinhos municípios da Damba, Púri, Bungo e Bembe receberam igualmente o sinal da TPA (Televisão Pública de Angola). Como aquela gente se deve agora colar aos ecrãs, para ver os jogos da selecção de Angola, no CAN 10!!!

Há 35 anos, era impensável ver televisão no Quitexe e, em Portugal, ainda era a preto e branco. O nosso consolo era ouvir, através da rádio, os relatos de futebol dos benficas, dos sporting´s e dos portos. E como sabiam tão bem!!!
Notícia recolhida DAQUI.

Os desenfianços para os prazeres e desafios da cidade...

Entrada da cidade de Carmona (Uíge), do lado do Quitexe e Luanda


Texto
António Casal

Sendo o Quitexe uma Vila pequena, qualquer boa oportunidade era aproveitada para uma “fuga” até Carmona. Não era muito fácil, diga-se, principalmente porque o capitão tentava controlar todas as saídas não autorizadas! A verdade seja dita, teve o cuidado de nos avisar logo à chegada, dando mesmo a entender que, por parte dele, não haveria espaço para manobras habilidosas ou espertezas saloias!
Porque alguém me lembrou estas fugas para a cidade, resolvi consultar os meus “catrapázios” ! E lá estava escarrapachado o dia 27 Outubro de 1972!
Era uma sexta-feira, dia ideal para uma “fuga” que, segundo os meus planos, se prolongaria até à noite do dia seguinte. Por lá me esperava um amigo dos bons tempos de escola que, semanas antes, comigo se tinha cruzado em férias no “puto”! Era o alferes Cravo, companheiro de muitas noitadas e que tranquilamente passeava o seu “galão” por Carmona!
Por volta das três da tarde, lá arranquei com um civil, o Pimenta. Tendo este que regressar no mesmo dia com um familiar, ficou a promessa de que me traria de volta no seguinte, ao fim da tarde! O negócio do pai obrigava-o a essa deslocação, o que vinha a calhar, porque eu só entrava de serviço no domingo de manhã! Sempre dava para matar algumas saudades da cidade! E também de um pequeno restaurante, muito bom e que, apesar de discreto, tinha um atendimento cinco estrelas e também muito “personalizado!”
Então, e não é que o amigo Pimenta me pregou a partida?! Qual sábado, qual quê!..., deixou-me pendurado, o que me surpreendeu, e lá voltei à pensão para passar mais uma noite! Os negócios do pai tinham-no, inesperadamente, retido na vila. Perdido por cem, perdido por mil, havia era que aproveitar o tempo e todo o resto… antes que azedasse!
Apareceu só no domingo, à hora do almoço e desenfiado do talho, onde o pai não lhe dava tréguas nem ao fim de semana! E fê-lo por mim, preocupado com a minha ausência do Quitexe e possíveis consequências! Parece que estou a vê-lo, a correr para a porta da pensão, de pernas arqueadas, que suportavam o seu metro e sessenta mal medido!
Com o meu serviço, confesso, não estava minimamente preocupado! Tinha já um pacto com um companheiro, de modo a que nenhum ficasse descalço. Desenfiávamo-nos à vez, cada um para seu lado!
Confiei na sorte e lá nos enterrámos de novo na noite carmoniana, já com camisa emprestada. O asseio é a porta de entrada da elegância – dizia-se!
O regresso, esse foi só às seis da madrugada de segunda-feira! A viagem foi atribulada, com o Pimenta a jurar, e eu a confirmar, que viu três negros armados a descer para a estrada, o que o levou a carregar no acelerador do velho Peugeot 404, até avistarmos o quartel do Voluntários! Foi ali que se dissipou o meu medo, e foi também ali que o Pimenta recuperou a voz - tinha-a perdido 20 quilómetros antes!
«Tiveste medo!..., estava tudo controlado, pá!...» - , dizia ele, com o suor a correr-lhe pela cara!
Estava, estava..., pensava eu ainda não refeito do susto e a pensar por que raio me metia eu naquelas alhadas! Os 22 anos levavam-nos a actos que, lembrados à distância de 37, eram completamente absurdos!
Às oito entrei de serviço e tive de aguentar uma directa, para não pedir ajuda a quem não queria, ou a quem não confiava! E lá me caiu o capitão no posto de rádio, castigando-me com um interrogatório, ao qual escapava como podia, simulando uma transmissão para Zalala!
«Por acaso, você é alérgico ao colchão da tropa?!...», perguntava-me, quase a espumar-se por não me ter apanhado em flagrante! Justiça lhe seja feita, só recorria a punições, em situações flagrantes, o que sempre dava para respirar um pouco, ou montar alguma estratégia.
Na noite que terminara, ainda de oficial dia, tinha passado todos os quartos e camaratas a pente fino, às três da manhã! Á entrada do Quitexe, na estrada para Carmona, ficou de “castigo” o sargento dia, mais de duas horas! Contam, ainda hoje, porque eu não vi, que foi uma noite de doidos! Falam até em noite de “vingança” e de tentativa de ajuste de contas, por um episódio que terá ocorrido uns dias antes, e que teve como protagonista a Joana, de quem falei no texto de 17/7/2009! (ver AQUI) Verdade ou não, não sei, mas era o boato que corria lá para os lados do Comando! Mas acredito!...
Com alguma razão, ele dizia saber dos “desenfianços”, mas em circunstâncias normais não fazia muito alarido e chegava mesmo a ser discreto! No fundo, talvez tivesse a noção de que nós também estávamos a par das suas “fugas”, por vezes recambolescas! A vila do Quitexe era muito pequena!...

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Assim se vão reencontrando os Cavaleiros do Norte




Achei o Fonseca na manhã de domingo. Ao telefone. O Fonseca, já aqui falei várias vezes dele, era furriel miliciano amanuense. Bom tipo, culto e senhor do seu nariz. Na 2ª. feira, falei com o capitão Cruz, o comandante da 2ª. Companhia de Cavalaria - a de Aldeia Viçosa (foto a cores).
Também já aqui foi feita memória da sua valentia e coragem, nomeadamente no decorrer dos graves incidentes da cidade de Carmona, em Junho de 1975 - o que lhe valeu louvor do Comando do Batalhão.
O Fonseca não se lembrava - pudera!... - dos 200$00 que há precisamente 35 anos emprestou ao Monteiro, quando ambos chegaram a Lisboa, de férias. «Nunca mais o vi, nunca lhe paguei...», recordou o Monteiro, com graça, durante o Encontro de Cavaleiros do Norte/Quitexe, a 12 de Setembro de 2009.
«Não me lembro de nada disso...», brinc(alh)ou o Fonseca, na nossa conversa de domingo. Dias antes, ligara-me ele para casa, sem me encontrar. Disse a minha mulher o meu nome completo (o que não é fácil...). «É fulano assim, assim?!», interrogou ele, soletrar o nome. Completíssimo.
Assim se vai reconstituindo o garboso Batalhão de Cavalaria 8423, com a paixão e o gosto dos vivos, na saudade dos que já partiram.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A cassete, os repeniques e os toques de finados da torre da igreja...

Viegas na janela do quarto do Quitexe e uma cassete idêntica à levada para Angola


Quando fui de Portugal para Angola, levei muito pouca bagagem: uma mala com a roupa militar e alguma civil, artigos de higiene pessoal (muito poucos), livros e uma cassete. E uns embrulhos de amigos de cá, para familiares civis de lá!
A cassete, vejam lá, levava uma singular gravação: repeniques festivos e toques de finados dos sinos da igreja daqui ao lado. Parece uma infantilidade, se calhar uma patetice, mas a verdade é que não havia conforto que não me desse quando a ouvia, nos momentos mais nostálgicos. Estou a imaginar-me, estendido na cama, de mãos cruzadas na nuca e a deliciar-me com a audição. De olhos cerrados, imaginava-me na torre sineira a tocar o repenique, fosse ele de um baptizado, ou de um casamento, de dia de festa ou simplesmente o toque das trindades, do meio-dia ou do momento de Santos, na missa! Mais raramente, ouvia o toque de finados - os sinais!!!... - e sentia-me sempre muito, muito confortado. Parecia-me, assim e mesmo tão longe, como se aqui estivesse no adro, a conversar com os amigos e a sentir os cheiros da minha terra.
Uma vez - e era aqui que queria chegar... - como que acordei a um bater apressado e quase aflitivo na porta do quarto.
Era o tenente Mora: «O que é isso»!...».
Isso, eram os repeniques que eu mesmo badalara e que ouvia repetidamente na cassette. Lá expliquei.
«Ora venha aqui fora...», chamou-me ele.
Fui: meia dúzia de soldados, religiosamente em silêncio, escutavam o toque dos repeniques que saíam do rádio-gravador do meu quarto. Ainda hoje os «estou a ver», cheios de emoção,concentrados, de braços cruzados e pernas traçadas, de pé e ao sol de África que lhe fazia escorrer suor pelo corpo abaixo, a ouvir a gravação, como se estivessem na missa.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Incidente com um camionista europeu perto de Dambi Angola

Estrada Carmona (Uíge)-Luanda nas imediações do Quitexe (2004).


A actividade operacional por estes dias de Janeiro de 1975 era muito reduzida, na área do Quitexe. Estava praticamente limitada a patrulhamentos em estradas de asfalto, embora com alguns incidentes. O mais grave, aconteceu com um camionista que levava armamento escondido na carga da viatura.
As Forças Armadas Portuguesas faziam repetidos patrulhamentos, apeados e transportados, em troços que iam de meio caminho de Carmona (Uíge) até à Ponte do Dange - procurando e garantindo a liberdade de tráfego do itinerário. Montavam-se uma espécie de postos de controle, do tipo policial, e agíamos aleatoriamente, ou quando se suscitava alguma suspeita.
Um dia, por esta altura e ao final de uma manhã, na zona próxima do Dambi Angola, ao aproximar-se um camião entendemos fazer stop. Mas reagiu mal o camionista, insultando "a tropa fandanga", como ele chamava, e, de forma (in)consciente, até a ameaçar-nos com arma. Chegou a haver contacto físico entre ele e um militar e a situação não foi nada agradável.
Acusava-nos de «proteger os pretos» e abandonar os colonos europeus - o que não era verdade. O malote com as armas ficou às nossas ordens e ele seguiu viagem, depois de, via rádio, termos consultado o aquartelamento. Nunca mais soubemos dele. Já por volta de Maio e à entrada de Carmona, outro incidente idêntico aconteceu. Até mais grave e complicado. Na verdade, boa parte da população branca europeia não «via» a tropa com bons olhos. Antes pelo contrário.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A mobilização militar para Angola...

Cópia da Ordem de serviço do CIOE, com a mobilização dos (então) 1ºs. cabos
milicianos Monteiro, Viegas e Neto. Clicar na imagem, para a ampliar


O tempo faz-nos esquecer momentos relevantes da nossa vida, mesmo quando são marcantes - por qualquer razão. A minha mobilização para Angola foi publicada na Ordem de Serviço nº. 286 do Centro de Instrução de Operações Especiais (CIOE), em Lamego, a 7 de Dezembro de 1973. Já lá vão mais de 36 anos!
Sabia ter sido em Dezembro desse ano, não me lembrava o dia mas dele não esquecia o telefonema feito dos Correios de Lamego, para a minha vizinha de Ois da Ribeira (minha residência, perto de Águeda), com recado para minha mãe, ao tempo recentemente viúva: «Vou para Angola!...».
Ir para Angola, para o nosso ego (ainda) era a mobilização que melhor nos poderia acontecer. Haveria «menos porrada». Pior seria em Moçambique e Guiné! De modos que, entusiasmado, fiz saber à Cinda, a vizinha, dessa sorte que me calhara na mobilização e para dela dar a nova a minha mãe. «Já não vens a casa?...», perguntou-me ela. Claro que fui. Pela frente ainda tinha o RC4, em Santa Margarida. E a partida, a 29 de Maio de 1974.
Ontem, encontrei cópia da Ordem de Serviço, verifiquei o dia e aqui a deixo em imagem, na parte que me indica mobilizado para Angola - assim como o Neto e o Monteiro, os três de Operações Especiais. A mobilização propriamente dita já fôra publicada na Nota 47000 - Pº. 33.007, de 17 de Novembro de 1973, da RSP/DSP/ME.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Correio, política, guerra civil e as «adolescentes» noites de Luanda


Aerogramas e cartas eram, em tempo de comissão militar, um bálsamo e um incentivo permanentes. Fosse pelo meus lindos olhos, fosse lá pelo que fosse, era bem correspondido por terras do Quitexe e Carmona, depois em Luanda - neste caso, já por Agosto e Setembro fora de 1975. Os 15 meses que andei por Angola, «deram-me» mais de 900 epístolas.
Guardo-as religiosamente e na tarde de hoje, regada de frio que me prendeu em casa, dei-me no sotão a reler o que, por terras angolanas, me tonificou para uma comissão tranquila e..., digo eu, bem vivida! O aerograma da imagem foi escrito em Luanda e recebido faz hoje 35 anos! Um amigo meu, por lá em serviço na Força Aérea, vinha dar-me notícias dos nossos (meus e dele) romances da capital-Luanda e dar-me também novas da sua precupação sobre a evolução política portuguesa: «Parece-me que vai continuar barulho na metrópole e cheira-me a guerra civil, dentro de poucos tempos. Oxalá m´engane...».
Sobre romances, avocava-me as tardes e noites quentes e de cio, os sensuais encontros e ardentes desejos e actos de uma Luanda que cabalmente enchia muitas medidas do nosso fulgor jovem! Tardes e noites pelas quais espraiávamos o fogo da nossa juventude. «A (fulana) continua nas núvens. Na 5ª. feira fui ao cinema Restauração e estava a tirar o bilhete quando ela apareceu com a (beltrana) para o mesmo (..),. Só te digo que pareciam umas senhoras da alta sociedade, tal a forma como vestiam. A (fulana) piscou-me o olho, tivemos os cumprimentos de lei, falámos uns breves momentos, perguntou por ti, lá lhe dei a tanga que pude e reparei que anda à espera de algo teu. Vê lá no que te andas a meter, pá... Quando quis entrar em pormenores, desfez a coisa e eu lerpei! Está apanhadinha...».
Assim se ia por Angola, há 35 anos!
NOTA: O amigo deste aerograma já faleceu, vítima de doença. Fôra meu companheiro de escola e, regressado a Portugal, ingressou na função pública e licenciou-se em Economia. Foi quadro superior do Direcção Geral de Contribuição e Impostos e exerceu actividade política. Fulana e Beltrana eram duas adolescentes em tempo de sonhos. Os nomes foram intencionalmemte omitidos.

sábado, 9 de janeiro de 2010

A independência de Angola e a Cimeira de Mombaça

Fotos do tempo e retiradas da net

Ao Quitexe chegavam, por estes dias de Janeiro de 1975, notícias do Encontro de Mombaça, no Quénia, nos dias 3 a 5, que reuniu os representantes dos três movimentos emancipalistas de Angola. O objectivo era definir os termos da independência.

Os pormenores que nos chegavam eram naturalmente pouco esclarecedores e muito superficiais e, por nós, até havia alguma surpresa sobre o entendimento entre os três movimentos: FNLA, MPLA e UNITA tinham acordado numa plataforma comum para negociarem com Portugal a independência de Angola. Por exemplo, com um exército angolano constituído pelos movimentos.
A surpresa tinha a ver com o nosso conhecimento local, pois as forças nacionalistas estariam profundamente divididas: a FNLA, muito concentrada no norte (a nossa zona de acção) e dirigida por Holden Roberto; o MPLA chefiado por Agostinho Neto; e a UNITA presidida por Jonas Savimbi.
A mediação, na queniana Mombaça, foi do Presidente Jomo Kenyatta e os três movimentos de libertação de Angola organizaram uma “plataforma de entendimento», indo de seguida para Portugal negociar a independência do país - na Cimeira do Alvor, no Algarve.
Pelo Quitexe, pouco sabíamos nós do que se passava e, para falar verdade, da muita literatura lida sobre este histórico encontro, pouco consegui perceber - para alguém da evidência de cada um dos movimentos a si querer chamar importância mais decisiva no processo de independência. São contas de um rosário que eu não sei contar.
Em Dezembro de 2005, em duas longas horas de espera no aeroporto de Hong Kong (de uma viagem que nos trazia de Macau para Londres) calhou falar disso com o dr. Almeida Santos, ao tempo (1974 e 1975) Ministro da Inter-Coordenação Territorial, que me deu conta de pormenores que aqui poderia relatar mas que omito, com receio de não ser rigoroso.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O último dia do Pelotão de Morteiros 4281 no Quitexe

Alferes Leite, à direita, comandante do Pelotão de Morteiros 4281 - com
os também alferes Garcia (à esquerda, já falecido) e Ribeiro, ambos da CCS


A 4 de Janeiro de 1975 completou-se a transferência do Pelotão de Morteiros 4281, do Quitexe para a cidade de Carmona - iniciada a 20 de Dezembro de 1974. E pela vila do Quitexe começava a segredar-se a eventual instalação do BCAV. 8423 no BC12, na capital provincial do Uíge
O BC12 estava localizado na cidade desde 1961 e ia ser extinto. Nada melhor que ir para lá - o que para nós significava, também, ir para zona urbana mais qualificada e galgar mais uma etapa do nosso regresso a Portugal e às nossas casas. De Portugal, pelo Jornal de Notícias e Expresso, chegavam notícias sobre as negociações do Governo Português com os dirigentes do MPLA, FNLA e UNITA e as mensagens de familiares e amigos apontavam todos na mesma direcção: no continente cada vez mais se murmurava o iminente regresso das tropas das frentes ultramarinas.
A frente norte angolana, essa, registava por esta altura alguns incidentes entre militantes dos movimentos - até aí de combatentes e agora dirigentes políticos.
O Pelotão de Morteiros 4281 era comandado pelo alferes Leite, açoriano (à direita, na foto) e, no Quitexe, era um dos que reforçava a guarnição da CCS. Já lá estava, quando chegámos - a 6 de Junho de 1974.
Voltaríamos a encontrar-nos no BC12.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O(s) morto(s) entre os Cavaleiros do Norte


O BCAV. 8423 teve a felicidade de não ter mortos em combate. Tenho ideia (que não consegui confirmar) de um companheiro de uma das companhias operacionais ter falecido vítima de um acidente à entrada da rotunda de Carmona, quando ia de motorizada.
Agora, o Buraquinho vem comentar o falecimento do companheiro que venceu a prova de S. Silvestre do Quitexe. E conta assim, por palavras dele:
«O Fernando, que era conhecido por Spínola e era da 2ª. companhia operacional, morreu junto de mim num acidente de viação, na curva a seguir à fazenda Pumbaloje, no sentido de Quitexe para Carmona. Íamos de boleia e o carro em que ele seguia (uma Renault 4L), conduzida pelo empreiteiro de estradas do Quitexe que se chamava Sidónio, foi contra a ambulância da delegacia do Quitexe que tinha sido roubada pelos combatentes da FNLA.
Além do militar português também morreu um guerrilheiro da FNLA e o Sidónio ficou gravemente ferido. Eu peguei no Spínola e no Sidónio (que era o empreiteiro) e meti-os na viatura em que eu ia (por casualidade, os carros eram da mesma marca).
O condutor era o empregado do restaurante Shop-Shop, de Carmona. Viemos para a delegacia do Quitexe e enquanto o enfermeiro José Maria Ferreira Lobo fazia os 1ºs. socorros, eu fui à procura do capitão Paulo Fernandes, comandante da 2ª. companhia, dizendo-lhe que o Spínola tinha morrido de acidente e ele disse que estava maluco, porque ele tinha saído há minutos da companhia. Perguntou-me pelo corpo e eu disse que estava na delegacia, com o Sidónio. Então, o capitão Paulo Fernandes pegou no Sidónio e conduziu-o ao hospital civil de Carmona, comigo e com o enfermeiro José Maria Lobo - lá ficando ele internado».
Texto de Alfredo Coelho
(Buraquinho), adaptado da
versão original

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Os garbosos soldados da CCS do Batalhão de Cavalaria 8423

Alguns militares do PELREC. Em cima, da esquerda para a direita: Cordeiro, Messejana, Pinto, Soares, António (?), Ezequiel, Marcos, Dionísio, Caixarias e Florindo (enfermeiro). Em baixo, pela mesma ordem, Vicente, Viegas, Francisco, Leal, Mendes (?, transmissões), Hipólito, Aurélio, Madaleno e Neto. A foto é de 16 de Outubro de 1974. Clicar na imagem, para a ampliar.


Aqui mostrámos, nos últimos dias, os rostos de oficiais e sargentos do Comando e da CCS do Batalhão de Cavalaria 8423. Gostaríamos de aqui editar todos os nossos amigos cabos e soldados que, garbosamente, integraram este grupo que, a África, foi fazer história num momento muito especial de Portugal e de Angola.
Tal é, porém, impossível.
Na verdade, não temos - antes longe, mas mesmo muito longe disso - espólio fotográfico que tal permitisse. Como gostaríamos. Alguns deles, todavia, aparecem neste espaço, na coluna da direita do blogue e, tanto quanto pudermos, por aqui os iremos identificando. Outros aparecem, também, nos muitos postes já publicados.
Simbolicamente, aqui editamos uma foto do Pelotão de Reconhecimento, Serviço e Informação - o PELREC - e nem este está completo, como homenagem a todos quantos, sendo Cavaleiros do Norte, foram homens que, sem fugir a responsabilidades mas antes com coragem, determinação e honra, ficaram na história que este blogue vem registando.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Ós três furriéis Ranger´s e Cavaleiros do Quitexe

Neto, Viegas e Monteiro, furriéis de Operações Especiais (Ranger´s)

Os furriéis milicianos da CCS eram 15 e... faltavam estes três, no rol de imagens fotográficas que aqui temos vindo a estender. O Neto, o Viegas e o Monteiro, três «Operações Especiais» formados no terceiro curso de Rangers de Lamego, de 1973. Há quase 36 anos.
Ora vejam:
- NETO. José Francisco Rodrigues Neto, empresário industrial. Natural e residente em Águeda. Apanhou alguns «sustos» por causa do apelido - o mesmo do então presidente do MPLA, estando o BCAV. 8423 instalado em zona maioritariamente da FNLA.
- VIEGAS. Celestino José Pinheiro Morais Viegas, jornalista e gestor. Natural e residente em Ois da Ribeira (Águeda).
- MONTEIRO. José Augusto Guedes Monteiro, aposentado dos STCP e empresário, natural de Vila Boa de Quires (Marco de Canaveses) e residente em Paredes (Porto).

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Os furriéis de alimentação e informações e operações



A irmandade de furriéis quitexanos da Companhia de Comando e Serviços (CCS) do Batalhão de Cavalaria 8423 era vasta e muito heterogénea.
Dois deles, eram de «secretaria» - porque é preciso quem prepare as coisas, como deve ser e para que sejam bem feitas. E, em tempo de guerra, uma boa informação, um bom ordenamento operacional e uma mesa farta, apetitosa e de qualidade, valem por muito e para todos.
Aqui estão dois deles, dois bravos Cavaleiros do Quitexe:
- DIAS. Francisco José Brogueira Dias, furriel miliciano de Alimentação. Natural e residente na cidade do Porto, onde é funcionário bancário. A foto, a cores, é do dia 12 de Setembro de 2009 - durante o Encontro dos Cavaleiros do Quitexe, na Estalagem da Pateira, em Fermentelos (Águeda).
- BENTO. Francisco Manuel Gonçalves Bento, furriel miliciano de Informações e Operações. Natural do Barreiro, reside e trabalha em Portalegre. A foto é da noite de passagem de ano de 1974 para 1975.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Militar de Aldeia Viçosa e Vista Alegre procura companheiros do BART. 1854


António Maria Dias Lopes foi militar em Vista Alegre e Aldeia Viçosa e procura companheiros da Companhia de Artilharia 1410, do Batalhão de Artilharia 1854, que por aquelas bandas estacionou entre 1965 e 1967.
Aí está ele, na primeira pessoa:
Escrevo de França, onde passo longo e apreciado tempo consultanto tudo relacionado com Aldeia Viçosa e Vista Alegre. Também passava várias vezes a Quitexe, com destino à roça creio que Luísa Maria. Qual não foi o meu prazer, especialmente de ver as casas de Aldeia Viçosa, onde permaneci um ano como 1°. cabo auxiliar de enfermeiro. Depois, fomos para Noqui.
Gostava de contactar os meus companheiros desse tempo. A Companhia de Artilharia 1410 partiu de Vila Nova de Gaia, do Quartel da Artilharia Pesada n°2, em Setembro de 1965. Regressou nos fins de 1967.
Nasci e vivo, n período de verão, em Meia Via (Torres-Novas).
António Maria Dias Lopes
careca.diaslopes@gmail.com, telefones 964 186 136,
00 33 322 257 036 e 249821068

Furriéis de serviços da CCS do BCAV. 8423 do Quitexe

Machado e Cruz (em cima) e Fonseca (em baixo), furriéis da CCS do BCAV. 8423


Os furriéis milicianos da CCS do BCAV. 8423, no Quitexe, eram, com as excepções que fazem a regra, um grupo solidário e unido, nas suas diferenças. Diferenças culturais sociais, de formação cultural e profissional.
Hoje, lembramos os rostos de mais três.
- MACHADO. Manuel Afonso Machado, furriel mecânico de armamento, à esquerda, na foto. Natural de Covelo do Gerez (Montalegre) e residente em Braga, onde é quadro superior da EDP. É dele o célebre epíteto de «beduíno» - atribuído a alguém com quem não se engraçasse.
- CRUZ. António José Dias Cruz, furriel miliciano mecânico rádio-montador. Natural de Cardigos (município de Mação) e residente em Lisboa, onde é quadro da Câmara Municipal.
- FONSECA. José Carlos Pereira da Fonseca, amanuense. Natural de Lisboa. Veio de férias em Janeiro de 1975 e não regressou ao Quitexe.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Reencontro com Mário Matos, o memorizador de números mecanográficos

Viegas e Matos, em Março de 1974, no RC4 (Santa Margarida)

Hoje «achei» o Matos, furriel da 2ª. Companhia de Cavalaria do BCAV. 8423, instalada em Aldeia Viçosa. Furriel miliciano atirador de cavalaria, fez comissão na secretaria - depois de umas semanas de mato... - e já aqui falei dele para fazer história da sua extraordinária memória: capaz de decorar todos os números mecanográficos da companhia.
Houvesse dúvidas e hoje as teria desfeito: lá me citou ele, de cor e salteado e sem lhe perguntar, o nome completo do capitão Cruz e... o número mecanográfico. Sem tirar ou pôr algarismo. Ou letra. José Manuel Romeira Pinto da Cruz, nº. ... tal!
Eu vinha de Coimbra, onde a vida me levou por algumas horas, e, no regresso, nem é tarde nem é cedo, aí fui eu à cata do Matos, em Anadia. Podem imaginar o desfiar de recordações feito ali no correr da memória - desde quando nos batemos nas operações especiais, em Lamego, nos reencontrámos em Santa Margarida (já mobilizados) e fazíamos as longas horas de viagens de ida e volta, no «velho» SIMCA 1100 do Neto. Até ao Uíge angolano!
Fiquei a saber que a 2ª. Companhia se reúne todos os últimos sábados de Setembro - foi em Évora, em 2009; e Gaia, em 2008 - e que este ano será em Penafiel. A CCS é que andou a perder, estes anos todos, desde 1997 até 2009!
O Matos prometeu histórias e fotos para o blogue e com ele e o Ferreira (que era enfermeiro da 2ª. CCAV.) irei palrear de hoje a duas semanas.
Ver mais do Matos em http://cavaleirosdonorte.blogspot.com/2009/06/matos-o-furriel-memorizador-de-numeros.html e ainda em http://cavaleirosdonorte.blogspot.com/2009/12/o-matos-e-o-letras-da-companhia-de.html

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

A noite de passagem de ano da 1974 para 1975

Noite de passagen de ano no Quitexe de 1974 para 1975. Em cima, da esquerda
para a direita, os furriéis Bento, Rocha, Viegas, Flora, Lopes, Capitão e
Ribeiro. Em baixo, Carvalho, Belo, Grenha Lopes e Reino.

A passagem de ano de 1974 para 1975, lá porque eu estava de serviço, não me inibiu de a festejar à... maneira!!! As formalidades de sargento de dia, com as habituais formaturas e rancho melhorado ao almoço e jantar, passaram-se e viveram-se serenamente, na paz dos anjos!

Por mim, combinado com o Neto e suportanto ambos os custos, tínhamos arranjado umas grades de cerveja no Grácio e, postas no frio da cozinha, foram para o PELREC. Fresquinhas, ao almoço e ao jantar. E, nessa noite, «exigimos» do capitão Oliveira (comandante da CCS) que cumprisse as NEP que sempre nos atirava à cara. Na prática, teve de nos arranjar bagaço e as minudências a que tinha direito o pessoal de reforço, nos postos de sentinela, durante a noite, e que distribuímos nas rondas. Já o mesmo tinha acontecido na noite de Natal, então a «benesse» entendida como por ser nessa noite especial. Bem sabemos que o capitão comandante da CCS não gostou nada da história, mas lá teve de ser. Tanto nos ameaçava com as NEP, que teve de as... cumprir!

O meu dia passei-o assim, entre a parada, o quarto e o bar de sargentos. Já por lá estava aquartelada a 3ª. CCAV (Santa Isabel) e não faltava gente para um bom par de conversas. O ritual de correspondência foi cumprido: era quase sempre depois do almoço, a hora da escrita; era a da leitura antes do jantar, quando chegava o Correio, de Carmona...

A foto dessa noite mostra um grupo naturalmente bem disposto, aquartelando as suas saudades da terra, mas naufragando-as em bebidas bem bebidas pela noite adentro. Dessa noite e sem conseguir recordar o nome, lembro-me de encontrar, perto do Topete, um soldado já bem entrado e a cair das pernas. Coisa que imediatamente teria de ser «remediada», pois a tropa não podia andar a fazer aquelas (tristes) figuras na rua. Foi o António, soldado do PELREC e meu companheiro nessa noite de rondas, quem o carrregou às costas, para a caserna.

O 1975 nasceu comigo a conversar, na frente da messe de oficiais - quero crer que com o alferes Pedrosa, nesse dia/noite de oficial de dia. Era da 3ª. CCAV., a de Santa Isabel. Logo a seguir, tínhamos de ir ligar o gerador. A noite foi calmíssima.

- NEP: Normas de Execução Permanente.

Os furriéis sapadores da CCS dos Cavaleiros do Norte


O Pelotão de Sapadores da Companhia de Comando e Serviços (CCS) do Batalhão de Cavalaria 8423 era comandado pelo alferes miliciano Ribeiro e incluía três furriéis - todos eles bem diferentes, mas seguramente bons amigos.
- PIRES. Cândido Eduardo Lopes Pires, natural do Montijo e actualmente residente em Niza, onde é funcionário da Câmara Municipal - o da esquerda, na foto de cima.
- MOSTEIAS. Luís João Ramalho Mosteias, natural de Lisboa e residente em Sines, onde é funcionário de uma empresa do parque industrial. Era o único furriel miliciano casado da CCS. O do lado direito, na foto.
- FARINHAS. Joaquim Augusto Loio Farinhas, natural de Amarante - o da foto em baixo. Esteve emigrado nos Estados Unidos e já faleceu.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Os furriéis milicianos da CCS dos Cavaleiros do Norte (1)


A guarnição da CCS do BCAV. 8423 tinha 15 furriéis milicianos. Hoje, apresentamos quatro deles.
- PIRES: José dos Santos Pires, furriel miliciano de Transmissões - do lado esquerdo, na foto de cima. Natural e residente em Bragança. Aposentado da GNR.
- ROCHA. Nélson dos Remédios da Silva Rocha, furriel miliciano de Transmissões. Natural e residente em Valadares (Vila Nova de Gaia). Técnico de Vendas.
- MORAIS. Norberto António Ribeirinho Carita de Morais, mecânico-auto - à esquerda, na foto de baixo. Natural de Niza e residente em Elvas, onde é quadro superior da Estação Nacional de Plantas.
- LOPES. António Maria Verdelho da Silva Lopes, enfermeiro, natural e residente em Vendas Novas, onde é funcionário de Finanças.

A (não) vitória do Buraquinho na S. Silvestre do Quitexe....

Estrada principal do Quitexe, por onde passou a S. Silvestre de 1974

Andava eu totalmente varrido de ideia sobre a prova de S. Silvestre do Quitexe e eis que, providenciais, apareceram o Tomás e o Buraquinho a refrescar-me a memória. E como, ao lê-los, estou a ver aquela noite da (não) vitória do Buraquinho.
Eis a divinal narrativa, na primeira pessoa:
«Eu, Alfredo Coelho (Buraquinho), vou contar a história da corrida de S. Silvestre, na noite de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro de 1975, de uma terça para a quarta-feira, às 00,00 horas. A corrida começou na entrada da picada de Zalala até à messe dos oficiais, no Quitexe.
Eu também participei e tinha que fazer das minhas, para ser o vencedor. E, então, o que é que eu fiz? Como os enfermeiros tinham que acompanhar a corrida, na ambulância, combinei com o 1º. cabo enfermeiro Gomes e o soldado maqueiro Moreira (o Penafiel) que quando a corrida começasse, eu isolar-me-ia e entrarria na ambulância, sem que fosse detectado pelo resto dos atletas.
A ambulância vinha à frente, com outras viaturas militares a fazer escolta e a iluminar a estrada até ao Quitexe, porque não havia luz eléctrica. Ao chegar próximo da casa do administrador, onde estavam oficiais e o administrador a ver a corrida, eu então saltei da ambulância e comecei a correr, e quem me via só dizia «força Buraquinho, és o primeiro!!!...».
O problema é que cometi um erro, que foi virar na segunda rua do Quitexe quando deveria virar na terceira, onde ficava o bar do Rocha. Mas cheguei à meta em primeiro lugar e o capitão Oliveira começou logo a bater palmas e a gritar: “É o Buraquinho, é da CCS!...».
Só que tudo ficou em águas de bacalhau, após a chegada do segundo que, naturalmente, denunciou a minha chegada forjada e o capitão Oliveira ficou desanimado por ser um militar da 2ª. companhia e não da CCS, como ele pensava.
Sabem quem foi o 1º. classificado? Foi o Fernando, conhecido por Spínola, que era da 2ª. Companhia de Cavalaria».

O Buraquinho contou, está contado. Ele era assim e agora, ao lê-lo, senti-me voado na ampulheta do tempo e estou a «ouvir» os comentários feitos à pitoresca bravata desportiva do inimitável Buraquinho!!! Só mesmo ele! E a cara zombeteira do Buraquinho, a passear-se no final da (não) corrida.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Antevéspera da passagem de ano de 1974 para 1975

Noite de passagem de ano de 1974 para 1975. Da esquerda para a direita,
Lopes, Viegas, Ribeiro (com a garrafa na mão), Bento e Flora.
Rocha (à esquerda de Lopes), Carvalho, Grenha Lopes e NN. À frente, de cócoras,Reino. Atrás, ao balcão, Guedes (civil) e 1º. sargento Aires


Dezembro, dia 30 de 1974, véspera da passagem de ano de 1974 para 1975. A ordem de serviço lá me aprontou para sargento de dia ao batalhão na noite dita especial. Era uma inevitabilidade! Esperadíssima.

Tornou-se demasiado previsível a nomeação, numa altura em que o relacionamento entre os pares da classe de sargentos andava esfriada. É desse tempo uma «revolta» dos milicianos, descontentes com alguns tratamentos recebidos e tornou-se famoso o grito de guerra do furriel Machado: «Beduínos!!!...». Um grito de raiva, contra a discriminação a que os milicianos se sentiam sujeitos, com a cumplicidade de alguns iguais.

Acreditam que a maioria dos furriéis se recusaram a comer ao mesmo tempo, na mesma mesa, com alguns comensais da messe de sargentos? Pois foi! E acusados ao capitão Oliveira, lá foi o trio de ferro: Neto, Viegas e Machado. Fazer a defesa da justiça!

A 31 de Dezembro de 1974, lá me apresentei a serviço para a noite de passagem de ano. Não sei porquê, ainda hoje penso que alguém acreditava, ao tempo, que eu iria infringir os regulamentos e faltar ao serviço. Só se eu fosse tolo!

A classe de sargentos da CCS dos Cavaleiros do Norte















O grupo de sargentos do quadro da CCS do BCAV. 8423 era formado por quatro profissionais. A relação dos furriéis milicianos com eles era de respeito, mas às vezes menos ortodoxas. Até tumultuosas. Tivemos as nossas coisas e algumas não foram boas de assoar. Talvez uma questão de filosofias de vida, de formação militar, de diferença de idades, sei lá!
Os quatro eram estes:
- MACHADO: Luís Ferreira Leite Machado, 1º. sargento ajudante, trabalhava na secretaria do Comando do Batalhão. É o da foto da direita. Falamos dele em http://cavaleirosdonorte.blogspot.com/2009/11/o-sargento-ajudante-luis-machado.html.
- AIRES, Joaquim António de Aires, 1º. sargento mecânico-auto. É o da foto do meio. Ver em http://cavaleirosdonorte.blogspot.com/2009/05/boa-vida-do-quitexe.html.
- LUZIA: José Claudino Fernandes Luzia, 1º. sargento, chefe da secretaria da CCS. É o da foto a cores.
- BARATA. João da Conceição Unas Barata, 1º. sargento, trabalhava o Gabinete de Operações. Não consegui foto dele.