sexta-feira, 19 de março de 2010

A malta que ia para a borga e os cinemas de Carmona

O Cinema Moreno, na cidade de Carmona, frente à Rádio Clube do Uíge (1974)
Furriéis Pires (de Bragança) e Neto, na saída da Messe de Oficiais do Bairro Montanha
Pinto, onde ficaram os sargentos da CCS do BCAV. 8433

A messe de Carmona semeou-nos de sonhos e de lazeres. A foto, mostra o Pires (de Bragança) montado na mini-mota que por lá foi de vários donos e certamente em saída para alguma comezaina na cidade, lá para o Escape, o Xenú ou os pica-paus do Bar do Eugénio. O «menino» vestido de branco é o «imaculado» Francisco Neto, o furriel-irmão de Águeda - que ao tempo andava perdido de amores pela sua Ni, sua mulher de hoje.

Ambos vestidos à civil e pelo ar da carruagem (ou da mota...), duvido que o dia não fosse de borga - quem sabe se alguma saída para o Transmontano, ou uma ida ao cinema - onde, numa qualquer data, vimos o impensável "O Último Tango em Paris», no Cine Moreno, frente ao Rádio Clube do Uíge.

O Pires era mais recatado, mas sempre ansioso por uma boa passeata na cidade, «a ver as grinas...». O Neto, sempre muito mais expressivo e exuberante, às vezes até quase volupioso, fazia-se de mestre-rua aos menos atrevidos nas noites carmonianas, noites que faziam medrar desejos nos olhos e alma dos rapazes da guarnição.

Leio aqui a minha nota deste dia de 1975, como hoje Dia do Pai: «Nasceu o Zé, há um ano». O Zé Fernando é meu sobrinho e ao tempo também já meu afilhado, baptizado semanas antes de eu embarcar para Luanda. Hoje, é também meu compadre e treina o Náutico de Viana, clube que o fez atleta campeão nacional de remo. E internacional. E quase olímpico. A graça é que nesta quarta-feira de Março de 1975, muito provavelmente em algum frágil momento de nostalagia, associei o cinema ao meu sobrinho e afilhado: eram ambos Moreno. Um de nome, o cinema; outro de apelido, o sobrinho. E passaram-se 35 anos!

quinta-feira, 18 de março de 2010

A faca de mato do Marcos num jogo de futebol de Carmona

Campo do Futebol Clube de Uíge, em Carmona (foto de Luís Fernando)

«O cronista não é dos que fazem do rancor ao futebol - ou do amor... - um estandarte de intelectualidade e pseudo-progressivismo: joga a bola por brincadeira e vai aos campos de futebol, para se distrair. Ontem, porém, foi (fui) polícia num campo de futebol, em Carmona.
E sabe-se, eu sei, que por detrás do futebol é que as coisas são: são como são. Avisado estava eu e os meus companheiros Almeida a e Marcos para o que poderia acontecer no campo do Futebol Clube do Uíge: bocas, agressões verbais, chatices. Para estarmos atentos e seguros. Para não reagirmos a esse tipo de provocações.
Assim foi ontem, num domingo em que o tempo até ameaçou chuva, pelo final da amanhã. Mas desanuviou ao princípio da tarde desse dérbi, com o Sporting do Negage - o Benfica-Sporting do sítio. O jogo decorria no pelado, com as habituais dúvidas nas leis do jogo fora do campo e a PU a circular ao longo das linhas laterais, por onde se viam alguns militares, muito poucos..., mas muitas bocas do público, ofendendo os tropas. Curiosamente, ou talvez não, principalmente vindas de compatriotas europeus.
A sede levou-nos a um pequeno bar, por lá improvisado: três nocais. Não no-las quiseram servir. Afinal serviram, com desdém que nos ofendeu. «Olhe lá, tá a gozar connosco?...», perguntei eu. Se não estavam, parecia. Seguiu-se uma altercação pouco simpática, algumas palavras azedas, um nervosismo evidente. O Marcos era especialista em puxar da faca de mato e, quando reparei, tinha-a encostada a um outro europeu. A situação controlou-se, mas não sem uma posterior queixa no BC12. Contra nós, claro.
Hoje, já fui chamado e dei explicações ao capitão Oliveira, que me espetou um correctivo. Eu tinha, disse-me ele, que «honrar a farda... e não permitir abusos que pusessem em causa a tropa».
O que se lê acima tem data 18 de Março de 1975 e refere-se à tarde da véspera, de um jogo de futebol do campeonato provincial, durante o qual ouvimos as que não queríamos. Hoje, memoriando esse momento futebolístico, recordo umas trocas de piropos, uns empurrões e um maninho de bocas que nos provocavam, de cabr... e car... para cima. E recordo a protecção dada à arbitragem, no final do jogo. Jogo de que não lembro o resultado. E não posso deixar de sublinhar a atenção e agilidade do Marcos que, num ápice de lince, sem hesitar, puxou da faca de mato, neutralizou o fulano que nos ofendia e ameaçava e, com esse gesto, terá evitado uma turbulência de consequências imprevistas. Era assim, aos Marços de 1975, por Carmona... num domingo de ir ao futebol.

quarta-feira, 17 de março de 2010

A cidade onde nos (des)fazíamos em rolos de carne cor de ébano



A messe de oficiais do Bairro Montanha Pinto, a casa azul frente ao Carocha branco, passou para os sargentos e por lá se instalou a rapaziada do Quitexe. Estava a um pulinho do centro da cidade, até lá se ia e de lá se vinha a pé, e era nosso pouso certo de muitas horas de ócio e prazer.
O de escrever, por exemplo! Ou de uma boa partida de cartas ou de dominó e de largas conversas sobre tudo e nada; e fartas mesas de ementas que o Neto, o nosso «eterno» gerente da messe, aprimorava em melhorar a cada refeição. E de muitas leituras.
Reli(a) por esta altura de 1975 o 2º. volume da antologia «Contos Portugueses do Ultramar», de Amândio César, e actualizava diariamente a minha multiplicada correspondência. De Luanda, chegavam recados do Alberto a falar-me do pasto de saias que nos endrominava o juízo e o desejo. De Portugal, muitos recados de saudades! Ele eram aerogramas, ele eram cartas... que eu lia e relia, sôfrego e atento!!!
Aos fins de tarde de Carmona, galgavam-se as sombras que tingiam as casas das cores do pôr-do-sol e nós lá íamos piscar olhos para a Rua do Comércio, palmilhar a avenida Portugal a cheirar cios e encher as esplanadas da nossa sede. E a Transmontana, quem se lembra?!!!
Não era raro, devorararmos um bife com ovo a cavalo no Escape; ou darmos uma saltada ao Shop-shop, ao Chave d´Ouro, ao Safari ou a outro qualquer dos muitos bares e esplanadas da cidade que nos somavam vida! Ou ao Diamante Negro, ali pertinho do Café Arouca e do campo do Recreativo do Uíge, por onde nos (des)fazíamos em rolos de carne cor de ébano! E por hoje aqui me fico!

terça-feira, 16 de março de 2010

O 16 de Março de 1974

Capa do Diário de Notícias sobre o 16 de Março de 1974


Dia 16 de Março de 1974! Era um sábado e nós, os futuros Cavaleiros do Norte, gozávamos o primeiro dos dez dias da Licença de Normas - que anteciparia a viagem para Angola, ainda sem data marcada. Nessa madrugada, um grupo de militares saiu do RI5, nas Caldas da Rainha, e marchou sobre Lisboa, depois de prender o comandante, o segundo comandante e três majores.
Os revoltosos avançaram para derrubar o Governo, mas a subvelação não avançou noutras unidades e foram interceptados à entrada de Lisboa, pela Artilharia 1, pela Cavalaria 7 e pela GNR. Ao chegar perto do local, a coluna rebelde inverteu a marcha e regressou ao quartel das Caldas da Rainha, que foi imediatamente cercado por Unidades da Região Militar de Tomar.
Foi, digamos, o pré-25 de Abril! Que chegaria 40 dias depois!
Por mim, só soube de tal à noite, a ver o telejornal do café Império, aqui ao lado. E fiquei sem perceber grande coisa! Nem por aqui, na minha terra de Ois da Ribeira, alguém poderia ou saberia esclarecer algo que fosse.
Ao outro dia, domingo, apressei-me a ir a Águeda, de comboio, para comprar o jornal e lá vim a saber do que se passaram segundo a visão jornalística do tempo. O que, valha a verdade, não me deu qualquer esperança quanto ao futuro próximo: ir para Angola! Assim como fomos!
Foi há 36 anos!
Passado um ano, fazíamos em Carmona os primeiros «ensaios» para o que seria o (então futuro) exército de Angola. Que nunca chegou a ser!

Mulher com 9 filhos abandonada pelo marido


Uma mulher de 32 anos foi abandonada pelo marido com nove filhos, três dos quais trigémeos, nascidos em Agosto de 2009. O marido, nessa altura por razões de doença, deslocou-se a Benguela, sua terra natal, para fazer tratamento médico e não mais voltou.
Feliciana Nguinamau está desempregada, vive numa pequena casa feita de adobes, do bairro Calombo (Uíge, antiga Carmona), e tem muitas dificuldades para manter a prole e pagar as rendas.
27 Fevereiro de 2010

segunda-feira, 15 de março de 2010

Ir do Quitexe a Carmona, para ver como paravam as modas...

Rádio-montador Tomás na saída de Carmona para o Quitexe (1975)

Fevereiro de 1975. Ainda estávamos no Quitexe mas, aproveitando alguns dias de férias, fui conhecer melhor a cidade de Carmona. Uma das entradas tinha esta indicação, lembram-se?
A malta que tinha menos posses, como eu, aproveitava a boleia de uma Mercedes que ia buscar o Correio ao SPM e, assim, sempre passeávamos durante o dia, para conhecermos melhor os cantinhos à casa e ver como paravam as modas pela cidade!
Era muito vulgar vermos os nossos colegas chegar, ou melhor, passar nos Unimogues e Berliet com o taipal nas traseiras (para defesa) e a famosa metralhadora (Breda?). Apesar de não ser operacional, e talvez por isso mesmo, sentia muita pena de os ver passar pela cidade, muito empoeirados.
Valia-lhes a juventude!!!
RODOLFO TOMÁS

domingo, 14 de março de 2010

O dia da segurança mista na festa da FNLA em Carmona

Rua do Comércio nos anos 70 (em cima) e Tribunal de Carmona (foto de Serra)


A 14 de Março de 1975, fomos convocados para um serviço muito especial: fazer a segurança das festas do feriado da FNLA, no dia seguinte. Mais: seriam feita com as forças dos três movimentos emancipalistas. O que nos deixou algo preocupados.
A verdade, felizmente, é que os patrulhamentos feitos correram de forma tranquila, nos locais da cidade que o movimento de Holden Roberto escolhera para festejar. E não houve, contra o que se temia, qualquer animosidade entre os militantes (armados) dos três movimentos.
O comando dos grupos mistos era assegurado pelas forças armadas portuguesas, normalmente um furriel miliciano, por cada 15/20 homens - que se movimentavam em unimogs. A formação afigurava-se algo estranha aos olhos dos cidadãos de Carmona e nós, passando nas ruas da cidade, mais que nos sentirmos actores de um momento histórico (o que, na altura, como tal nem entenderíamos), vivíamos as interrogações do povo: o que se passa?! Disso, ainda ouvimos graçolas menos simpáticas junto ao Bar Xenú, muito perto do Tribunal.
Na verdade, o que estava a acontecer era que os inimigos de ontem estavam, agora, a dar passos objectivos no sentido de se formarem as forças armadas de um novo país. Assim se pensava!
Amanhã, fará 35 anos que isso pela prinmeira vez aconteceu em Carmona.

sábado, 13 de março de 2010

O PELREC QUE ERA "IN" E FOI VER FUTEBOL NA TELEVISÃO

Marco geodésico da Mata de Soares, em Santa Margarida. Os marcos
eram passagem obrigatória da instrução militar

Há 36 anos, por estes dias, as várias sub-unidades do BCAV. 8423 palmilharam os arredores do Campo Militar de Santa Margarida, continuando a sua preparação para o teatro de operações em chão de Angola.
Os grupos de combate (pelotões da atiradores) mais ou menos repetiram o que já haviam feito entre 18 e 22 de Fevereiro, mas desta feita em cenários, digamos, ainda mais reais. Os dez dias de férias - as chamadas Licenças de Norma... - que antecipavam a partida já estavam marcados (entre 18 e 28 de Março) e por Santa Margarida vivia-se um clima de «guerra», com operações pela nossa já conhecida Mata do Soares. Recordo alguns nomes de localidadespor onde passámos, avulsamente: Malpique, Casais (era mais de um...), Vale do Mestre, Pocariça...
A paisagem era algo agreste, mas sobrava a simpatia das populações - que facilmente se empatizavam com a tropa. Numa dessas noites, deu-se parte do PELREC, que servia de IN a pelotões das companhias operacionais, a ver um jogo de futebol na televisão - coisa muito rara por esse tempo... - num café de aldeia, onde (quase) foi surpreendido por um grupo de oficiais, que incluía o comandante Almeida e Brito. Em missão inspectiva.. Lá nos safámos a "fugir" pelas traseiras, até porque o grupo parou mesmo no café, pela mesma razão: ver a bola!
Ao outro dia, no Destacamento e na formatura da manhã, perguntou o então aspirante a oficial miliciano Garcia, o comandante do PELREC e que integrava o grupo: «Então, quanto ficou o jogo?...». Afinal, tínhamos sido detectados.

sexta-feira, 12 de março de 2010

A messe de sargentos, que era de oficiais, do Bairro Montanha Pinto

Jardim do Bairro Montanha Pinto, frente a messe que fomos ocupar - que ficava de costas para o autor da foto (Quitexe). A casa da esquerda, com uma carrinha militar em frente, era uma outra messe de sargentos. Na foto de baixo, furriel Viegas sentado na frente da messe da CCS do BCVA. 8423



A rapaziada da classe de sargentos ficou magnificamente instalada na messe de oficiais de Carmona, no bairro Montanha Pinto. Furriéis com sargentos e uma pequeníssima «guarnição de praças», que ficou alojada no casa de madeira nas traseiras.

As instalações eram magníficas e nós estávamos ali mesmo no «meio» da cidade, sem necessidade de baldas para a conhecer - assim cumpridas fossem as nossas tarefas militares, no BC12: escala de serviços correntes e, no que me tocou, também a chamada PU que tantos amargos nocturnos traria. Por estes dias, foi a estreia e a coisa até nem correu mal. Mas era evidente, sentia-se, vivia-se, cheirava-se... um crescente ressentimento e mau-estar da comunidade europeia relativamente aos militares. Como ainda ontem aqui contámos.

Os meus apontamentos da época referem uma «reunião com o cmdt». Creio ter sido nesta altura que, numa conversa muito informal no seu gabinete do BC12, o comandante Almeida e Brito nos alertou para a iminência de problemas e da possibilidade de passarmos a fazer patrulhamentos mistos, com forças do ELNA, das FAPLA e das FALA.

O alferes Garcia, com a sua proverbial tranquilidade, lá nos disse que «não vai ser nada, andámos a ser preparados para isso...». Como ele gostava de repetir, sempre de sorriso largo e franco, que «foi para isso que nos andámos a preparar». Não nos ajudou em nada, é óbvio, esta serena e sapiente observação, mas consolou-nos. Fiquei a saber, por estes dias, que ia formar uma das três equipas de PU - no meu caso, com o Almeida e o Marcos, dois bravos do PELREC.

- ELNA. Exército de Libertação Nacional de Angola, da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA).

- FAPLA. Forças Armadas Populares de Libertação de Angola, do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).

- FALA. Forças Armadas de Libertação de Angola, da União Nacional para a Idependência Total de Angola (UNITA).

- PU. Polícia de Unidade, o mesmo que Polícia Militar.

Governador Mawete João Baptista sugere monumento na Baixa do Cassange


O governador da província do Uíge defendeu no Quitexe a necessidade de se construir um Monumento Histórico na Baixa de Kassange, em memória dos milhares de angolanos massacrados pela aviação portuguesa colonial a 4 de Janeiro.
Mawete João Baptista defendeu esta posição no acto provincial que marcou o dia dos Mártires da Repressão Colonial, assinalado em todo país, e sugeriu que, a exemplo dos monumentos históricos erguidos sobre a Batalha do Kuito Cuanavale (Kuando Kubango) e do rei Mandume (Cunene), deve ser também construído um memorial na Baixa de Kassange, (Malanje), para se dignificar os angolanos mortos pela aviação colonial portuguesa.
Notícia completa AQUI.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Cuspidelas aos militares do BCAV. 8423 de Carmona

A Escola de Condução do Uíge (imagem de net)

A 11 de Março de 1975 registou-se em Portugal uma tentativa falhada de golpe militar, organizada pelo general António Spínola, ex-Presidente da República, aliado à Força Aérea e ao chamado Exército de Libertação de Portugal (ELP), por oposição ao Comando Operacional do Continente (COPCON) e à Liga de Unidade e Acção Revolucionária (LUAR).

O objectivo, sabe-se agora, apontava na tentativa de pôr fim ao governo do 1º. Ministro Vasco Gonçalves, que, lembremo-nos, era defensor de um regime socialista avançado - coisa que nós nem sequer, ao tempo, conhecíamos bem. Lá sabíamos nós o que era isso!!! A missão foi abortada e o golpe foi dado como falhado.

Carmona, nesse dia e alheia às movimentações militares de Lisboa, recebia a restante 2ª. Companhia da Cavalaria - a de Aldeia Viçosa, comandada pelo capitão miliciano José Manuel Cruz. O primeiro Grupo de Combate (pelotão) chegara no dia 2, com toda a CCS, e já se movimentava na cidade - a «receber» desdéns e comentários bem desagradáveis da população civil europeia. Tal qual a malta da CCS...

É "histórica", para nós e por um destes dias, a reacção de uma mãe de família, com filhos e sobrinhos, que se passeava na Rua do Comércio e escarrou ostensivamente para o chão, como se fosse para cima de nós, militares... - um episódio que, ao conhecimento de hoje, seria emblemático da menos boa relação entre a sociedade civil e os militares do BCAV. 8423 - todos os dias industriados para não reagir a provocações.

«Traidores, filhos da p..., cab...», foi o mínimo que nos chamou, ante a raiva do Marcos e do Madaleno, que comigo seguiam para a aula de condução, na Escola de Condução do Uíge - onde eu próprio viria a tirar a minha carta. No mesmo sítio e por ali perto, no cruzamento que dava para a praça da ZMN, viríamos nós a recolher alguns civis a fugir da guerra que lavrava na cidade nos dramáticos dias de Maio e Junho. E, entre eles, vejam lá... a tal família. A vida tem destas coisas!...

quarta-feira, 10 de março de 2010

A inauguração da Missão Católica do Quitexe

Imagem da Missão do Quitexe, no dia da inauguração. Clicar, para ampliar



Dia 12 de Setembro de 2009, no encontro da Pateira, tive uma simpática conversa com o (ex-padre) dr. Albino Capela (foto á esquerda, desse dia). Depois de recordarmos muitas coisas - uma delas já aqui citada, a de alguns de nós termos sido convidados a fazer parte do coro da igreja.
Recordámos tantas coisas boas, falámos do potencial da zona do Quitexe e das suas produções do café. A meio de tanta conversa - que, diga-se, estava atrasada mais de 30 anos... - disse-lhe que tinha imagem que se via a Missão do Quitexe e o (ex-padre) dr. Capela.
Ora, o prometido é devido: aqui está a imagem de que lhe falei.
Grande abraço ao GRANDE amigo dr. Albino Capela!
RODOLFO TOMÁS

terça-feira, 9 de março de 2010

A apresentação de especialistas em Santa Margarida

Os 1º.s cabos milicianos Neto, Viegas, Matos (2ª. CCAV.) e Monteiro, num carro
de combate do RC4, em Santa Margarida (1974). Clicar na imagem, para a ampliar


A 4 de Março de 1974, começaram a apresentar-se em Santa Margarida a maior parte dos especialistas que iriam formar o BCAV. 8423 - completando o seu quadro de efectivos. Ele, eram os escriturários, os enfermeiros, os homens das transmissões e das oficinas, os condutores, os sapadores (estes, não estou certo..). Era a família que se formava.
O nosso poiso do Destacamentou mudou, soubemo-lo logo nessa 2ª.feira (dia 4), e continuava a instrução e a azáfama de quem se preparava para uma guerra de guerrilha e tinha de estar fisica e mentalmente bem preparado.
Surpreendiam-se alguns (novos) amigos cabos milicianos pela dinâmica e tranquilidade com que evoluía o PELREC - todo ufano e garboso, sempre que desfilava em marcha de treino ou se mostrava aos novos companheiros bem preparado, «à ranger», sem falhar um acerto de passo ou recuar a qualquer exercício mais difícil.
O PELREC evoluía noite e dia - mais de dia... - pela Mata do Soares, preparando golpes de mão e emboscadas, como reagir activa ou passivamente; como enfrentar um perigo, uma surpresa, o deflagrar de uma granada, o rebentar de um petardo, o som estridente e ameaçador de uma rajada de G3. A nada fugiam os pelrec´s, embora com um ou outro desenfianços daqueles dois ou três, ou quatro!, que sempre trocam o passo e se fazem diferentes, pela mais vulgar chico-espertice. Mas era coisa que não nos escapava e a que o Neto puxava orelhas e eu sermões, com a cumplicidade (e ordens) do então aspirante Garcia.
O PELREC crescia como uma família!

segunda-feira, 8 de março de 2010

Outros Cavaleiros do Norte, do Quitexe a Carmona e a Luanda

Um grupo de Cavaleiros do Norte, da CCS do BCAV.8423, no Quitexe (1974)

Não foram esquecidos os companheiros que, não sendo atiradores, enfermeiros, sapadores, mecânicos, gente das transmissões, escriturários, condutores, também - e muito bem.. - faziam parte da família dos Cavaleiros do Norte instalados no Quitexe.
Aqui vão eles, com a nossa continência ao companheirismo que todos multiplicaram na enorme família quitexana, depois carmoniana e luandina.
- 1º.s CABOS: Manuel da Costa Vieira (clarim), Manuel Augusto da Silva Marques (carpinteiro) e Vitor Manuel da Cunha Vieira (auxiliar de serviços religiosos, sacristão).
- SOLDADOS: José António Cardoso Caetano e Gracindo da Purificação Queijo (clarins), António Santana Cabrita (básico) e Júlio S. Plácido (caixeiro),
Outros companheiros poderão ter passado pela CCS do BCAV. 8423, em regime de substituição temporária. Deles, não temos registo.

O Quitexe de hoje visto pelo Jornal de Angola

O Quitexe nos dias de hoje, em foto de José Bule

O município do Dange-Quitexe, a principal “porta de entrada”, por terra, para quem vai ao Uíge, passando pela província do Bengo, já foi das localidades que mais contribuiu para o desenvolvimento da região.
Quitexe também é famoso por dispor de dois locais turísticos, a Lagoa do Feitiço e o rio Tsamba, cujas histórias arrepiantes, contadas pelos mais velhos, obrigam qualquer pessoa a respeitá-los e a cumprir rituais impostos.
Dange-Quitexe, com 3.872 quilómetros quadrados e mais de 33 mil habitantes, tem três comunas, Aldeia Viçosa (24 quilómetros), Vista Alegre (a 60) e Cambamba (86). Acabado o conflito armado, que afectou o desenvolvimento da região, a administradora municipal procura soluções para a localidade voltar a ser o que já foi. Maria Cavungo disse ao Jornal de Angola estar preocupada com o estado das vias de acesso às demais localidades do município, defendendo que a maioria das infra-estruturas deve ser reabilitada e devidamente apetrechada.
Aposta também na construção de mais empreendimentos sociais, como escolas, postos e centros de saúde e no fornecimento de energia eléctrica e de água.
Foto e texto José Bule. Ver completo, DAQUI.

domingo, 7 de março de 2010

Os primeiros dias de Carmona...

A piscina de Carmona (foto de Quitexe) e vista da cidade (de Rui Ribeiro)

A cidade e os seus desafios foram uma «aventura» bem interessante para todos os jovens Cavaleiros do Norte. Julgo poder dizer, sem exagero, que todos ganharam alma nova, desestigmatizando alguns constrangimentos e receios. A cidade de Carmona, na verdade, oferecia muitas respostas à gulodice social da guarnição: cinemas, bons restaurantes, belas esplanadas, a piscina, por aí fora.
O Escape, restaurante já desde há muito conhecido dos «desenfianços» do Quitexe, passou a ser paradeiro usual da tropa financeiramente mais abonada - que pelos arredores aproveitava para espreitar as belezas que enchiam os olhos - as belezas que por ali se passeavam, bem decotadas e de pernas ao leú, ou as que mercavam nas várias lojas da rua do Comércio, na avenida de Portugal, nas principais áreas comerciais e nas muitas esplanadas e bares da cidade. E lá surgiam os pecados do desejo, os consolos de vista que nos enfeitiçavam, sempre que nos dávamos a olhar para as meninas do liceu. Ou outras quaisquer!

A outro nível, o comandante Almeida e Brito - com a guarnição bem instalada no BC12 e mas messes da cidade - foi cumprir protocolo e dinamizar empatias: a 5 de Março de 1975 visitou o Governador do Distrito, o Bispo da Diocese e os Juízes do Tribunal de Carmona.

sábado, 6 de março de 2010

As mágoas e saudades que se afogavam no bar dos soldados

Foto frente ao bar dos soldados, no Quitexe. Clicar, para a ampliar. Conhecem-se, em cima, Miguel (secretaria), Messejana (atirador) e Rocha (furriel). A seguir, Ferreira (atirador e depósito de géneros), Tomás, encoberto (?), de boina (?), Hipólito e Madaleno (atiradores) e Calçada (sapador), etc.. Sentados: Cabrita e Frangãos (o Cuba, de óculos). Quem ajuda a identicar os outros. Lembramos as caras, as esquecemlos os nomes.



Há dias vi que o Viegas editou uma foto onde se via o bar dos soldados - que se (re)vê aqui à esquerda. Parece mais bonito do que de perto.
Mas é bom relembrar caras de companheiros de quem nos lembramos ma que nunca mais vimos - passados que já lá vão quase 35 anos.
Aqui, no bar, se afogavam muitas mágoas e as muitas e tantas saudades que se tinham de casa, da família, dos amigos.
Também me lembro que não eram só os soldados que frequentavam o bar. Ás vezes, muitas vezes, também apareciam alguns furriéis. Sim, porque era preciso procurar a cervejinha mais fresca. E lá estava o bar dos soldados, na rua principal do Quitexe, para sarisfazer esses desejos.
RODOLFO TOMÁS

sexta-feira, 5 de março de 2010

O descanso do guerreiro Machado e o tenente que era «fascista»

A Casa dos Furriéis, no Quitexe (foto dos anos 2000) e Viegas e Mosteias na frente do edifício
(1974). A janela da direita era a do quarto de Machado e Dias



MANUEL MACHADO
TEXTO

Depois de um dia de trabalho quente e sem ar condicionado, no Quitexe, aí por Outubro/Novembro de 1974, esgueirei-me e fui para o quarto (dormitório dos furriéis milicianos).
A habitação tinha 4 ou 5 quartos e ficava junto à avenida principal, ao lado da secção de material de guerra. A intenção era «bater uma soneca» antes do jantar. Deitei-me em cima da cama, vestido, e adormeci. Acordei com o tenente Mora a tentar instalar mais um furriel no quarto - um furriel que tinha vindo de algures, com punição, pois não fazia parte da dotação do BCAV8423.
Os quartos eram de reduzidas dimensões e todos os dias de manhã acordávamos com a atmosfera interior saturada. Então, levantei-me mal disposto e meio zangado, dizendo ao tenente Mora que naquele quarto não instalava mais ninguém, enquanto houvessem quartos só com duas camas. Quando ia a sair, fui instado a indicar-lhe quais os quartos que só tinham duas camas. Respondi-lhe que era só entrar nos seguintes, como fez no meu. E saí.
Passada cerca de meia hora, encontrei-me com o tenente Luz, na avenida principal, junto ao comando de batalhão, que me informou que o tenente Mora tinha entrado na Secretaria do Batalhão dizendo que era fascista, que se queria ir embora e queixando-se que eu o tinha tratado mal. E que o tinha aconselhado a falar com o capitão Oliveira, que comandava a CCS.
Fiquei estupefacto com a dimensão que o caso tomou e desloquei-me para a secção de material de guerra, que ficava ao lado da secretaria e do gabinete do capitão. Como havia comunicação de portas entre a secção, a secretaria e o gabinete do capitão Oliveira, foi-me possível ouvir parte da conversa dele com o Tenente Mora.
«Tu participas dele, ele vai ser punido e vai-se embora e eu nomeio-te para tomar conta da secção de material de guerra».
- «Ó meu capitão - dizia o tenente Mora - eu não estou por dentro do serviço…». - «Faz como quiseres… Se o furriel Machado sair daqui, ficas com o trabalho dele…. ´
- «Ó meu capitão, acho melhor então o assunto ficar por aqui…», disse o tenente Mora.
«Tu é que sabes, Mora...», respondeu-lhe o capitão Oliveira.
- «Não meu capitão… Não vou participar...», concluiu o tenente.
No dia seguinte, fui chamado ao gabinete do capitão Oliveira, que me pediu para lhe dizer o que se tinha passado. No final, disse-me para ter cuidado, que desta vez o caso ficava assim, que o tenente Mora era muito sensível e que poderia ficar prejudicado. Agradeci e saí.
A partir daí, achei que não devia permanecer nas instalações militares mais do que o estritamente necessário e com o colega (vago-mestre) furriel Francisco Dias, alugámos um quarto no outro lado da rua, em instalações civis, onde passámos a residir e onde não era possível colocar mais ninguém no quarto, sem o nosso acordo.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Cavaleiros «à solta» na cidade... e insultos e ameaças aos militares


O quartel do BC12, onde o BCAV. 8423 esteve instalado de 2 de Março a
Agosto de 1975 (foto de baixo) e Rua do Comércio (em cima)

A chegada a Carmona, depois das primeiras curiosidades satisfeitas, foi da óbvia integração da guarnição ao ambiente urbano. Mais exigente, por exemplo, quanto ao atavio militar.
O pessoal acomodou-se o melhor que pôde - e muito melhor se acomodou que no Quitexe... - e fomos entrando na escala de serviços. Fora isso, galgava-se a cidade em procura de novidades e não havia restaurante ou bar a que não fizessemos reconhecimento. Sempre com evidente animosidade de parte da população europeia. Não toda, é evidente. O Livro da Unidade regista, neste mês de Março de 1975, «muitas quezílias entre a população civil e as NT, devido à animosidade que aquela tem a estas».
Uma noite, num café cujo nome não lembro, o Mosteias - numa mesa onde estava eu, ele, o Neto, o Pires do Montijo e outros (lembro-me destes...) - teve de mostrar as suas «habilidades» karatecas para evitar uma confrontação física. Comigo e com o Neto em posição de «combate». Foi um dos muitos momentos de tensão que por lá se viveram e sabia-se lá o que poderia acontecer. As «bocas» aos militares eram pão nosso de todos os dias, em provocações e hostilidades que foram formatando marcas difíceis de sarar.
Por alguma razão, foi criada a PM, com três equipas em rotação de serviços! E imaginem quem fazia parte de uma delas? Eu, pois claro! E muitas vezes tive de ouvir o que não queria. E aguentar! E deter pessoas, que é «coisa» pouco agradável, como uma vez aconteceu na Rua do Comércio (foto), perto da vedação que se vê na imagem: três jovens filhos de europeus ameaçaram, insultaram os e cuspiram na viatura miltar. Foram detidos e dormiram no BC12.
- NT. Nossas Tropas.
- PM. Polícia Militar, em Carmona designada de PU (Polícia de Unidade). Ainda guardo a braçadeira e o cassetete que usei na cidade nesse serviço nada fácil, feito em 24 horas, de três em três dias.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Os Cavaleiros do Norte no BC12 de Carmona

Aquartelamemto do BC12, à saída de Carmona, na estrada para o Songo e
vista deste lado, em cima. Em baixo, uma vista parcial da parada

Carmona! Aí estava a cidade do nosso caminho para Luanda e Lisboa. Ao tempo da chegada, mal imaginaríamos nós as dores que iríamos sentir na capital provincial. Mas vivemos estes dias com grande intensidade e maiores expectativas. Quebradas num destes dias pelo gelo das palavras do alferes Garcia: «Isto, nunca se sabe, mas pode haver m....».
O aquartalemento era muito bom, em espaço concentrado, de construção relativamente recente, nada tendo a ver - e para muito melhor... - que as divididas instalações do Quitexe. As acomodações dos soldados, não sendo muito diferentes em termos de camas, eram em edifícios de construção civil, bem divididos, com cozinha, refeitórios e bares de qualidade.
A enorme parada (foto) separava (e aproximava) arrecadações, casernas, secretarias, oficinas, depósitos de géneros e de material, a padaria - com o edifício do comando e casa da guarda no bloco da frente. Já por lá tínhamos passado, mas ao vivo todos nos sentíamos melhor instalados e muito mais seguros. Oficiais e sargentos tinham messes próprias na cidade. Nós (furriéis) ficámos numa antiga messe de oficiais, no bairro Montanha Pinto. A cidade de que passámos a ser moradores ia matar muitas as nossas sedes e desejos. E acarretar-nos muitas dores da guerra, lá mais para Maio e Junho.