sexta-feira, 12 de março de 2010

A messe de sargentos, que era de oficiais, do Bairro Montanha Pinto

Jardim do Bairro Montanha Pinto, frente a messe que fomos ocupar - que ficava de costas para o autor da foto (Quitexe). A casa da esquerda, com uma carrinha militar em frente, era uma outra messe de sargentos. Na foto de baixo, furriel Viegas sentado na frente da messe da CCS do BCVA. 8423



A rapaziada da classe de sargentos ficou magnificamente instalada na messe de oficiais de Carmona, no bairro Montanha Pinto. Furriéis com sargentos e uma pequeníssima «guarnição de praças», que ficou alojada no casa de madeira nas traseiras.

As instalações eram magníficas e nós estávamos ali mesmo no «meio» da cidade, sem necessidade de baldas para a conhecer - assim cumpridas fossem as nossas tarefas militares, no BC12: escala de serviços correntes e, no que me tocou, também a chamada PU que tantos amargos nocturnos traria. Por estes dias, foi a estreia e a coisa até nem correu mal. Mas era evidente, sentia-se, vivia-se, cheirava-se... um crescente ressentimento e mau-estar da comunidade europeia relativamente aos militares. Como ainda ontem aqui contámos.

Os meus apontamentos da época referem uma «reunião com o cmdt». Creio ter sido nesta altura que, numa conversa muito informal no seu gabinete do BC12, o comandante Almeida e Brito nos alertou para a iminência de problemas e da possibilidade de passarmos a fazer patrulhamentos mistos, com forças do ELNA, das FAPLA e das FALA.

O alferes Garcia, com a sua proverbial tranquilidade, lá nos disse que «não vai ser nada, andámos a ser preparados para isso...». Como ele gostava de repetir, sempre de sorriso largo e franco, que «foi para isso que nos andámos a preparar». Não nos ajudou em nada, é óbvio, esta serena e sapiente observação, mas consolou-nos. Fiquei a saber, por estes dias, que ia formar uma das três equipas de PU - no meu caso, com o Almeida e o Marcos, dois bravos do PELREC.

- ELNA. Exército de Libertação Nacional de Angola, da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA).

- FAPLA. Forças Armadas Populares de Libertação de Angola, do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).

- FALA. Forças Armadas de Libertação de Angola, da União Nacional para a Idependência Total de Angola (UNITA).

- PU. Polícia de Unidade, o mesmo que Polícia Militar.

Governador Mawete João Baptista sugere monumento na Baixa do Cassange


O governador da província do Uíge defendeu no Quitexe a necessidade de se construir um Monumento Histórico na Baixa de Kassange, em memória dos milhares de angolanos massacrados pela aviação portuguesa colonial a 4 de Janeiro.
Mawete João Baptista defendeu esta posição no acto provincial que marcou o dia dos Mártires da Repressão Colonial, assinalado em todo país, e sugeriu que, a exemplo dos monumentos históricos erguidos sobre a Batalha do Kuito Cuanavale (Kuando Kubango) e do rei Mandume (Cunene), deve ser também construído um memorial na Baixa de Kassange, (Malanje), para se dignificar os angolanos mortos pela aviação colonial portuguesa.
Notícia completa AQUI.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Cuspidelas aos militares do BCAV. 8423 de Carmona

A Escola de Condução do Uíge (imagem de net)

A 11 de Março de 1975 registou-se em Portugal uma tentativa falhada de golpe militar, organizada pelo general António Spínola, ex-Presidente da República, aliado à Força Aérea e ao chamado Exército de Libertação de Portugal (ELP), por oposição ao Comando Operacional do Continente (COPCON) e à Liga de Unidade e Acção Revolucionária (LUAR).

O objectivo, sabe-se agora, apontava na tentativa de pôr fim ao governo do 1º. Ministro Vasco Gonçalves, que, lembremo-nos, era defensor de um regime socialista avançado - coisa que nós nem sequer, ao tempo, conhecíamos bem. Lá sabíamos nós o que era isso!!! A missão foi abortada e o golpe foi dado como falhado.

Carmona, nesse dia e alheia às movimentações militares de Lisboa, recebia a restante 2ª. Companhia da Cavalaria - a de Aldeia Viçosa, comandada pelo capitão miliciano José Manuel Cruz. O primeiro Grupo de Combate (pelotão) chegara no dia 2, com toda a CCS, e já se movimentava na cidade - a «receber» desdéns e comentários bem desagradáveis da população civil europeia. Tal qual a malta da CCS...

É "histórica", para nós e por um destes dias, a reacção de uma mãe de família, com filhos e sobrinhos, que se passeava na Rua do Comércio e escarrou ostensivamente para o chão, como se fosse para cima de nós, militares... - um episódio que, ao conhecimento de hoje, seria emblemático da menos boa relação entre a sociedade civil e os militares do BCAV. 8423 - todos os dias industriados para não reagir a provocações.

«Traidores, filhos da p..., cab...», foi o mínimo que nos chamou, ante a raiva do Marcos e do Madaleno, que comigo seguiam para a aula de condução, na Escola de Condução do Uíge - onde eu próprio viria a tirar a minha carta. No mesmo sítio e por ali perto, no cruzamento que dava para a praça da ZMN, viríamos nós a recolher alguns civis a fugir da guerra que lavrava na cidade nos dramáticos dias de Maio e Junho. E, entre eles, vejam lá... a tal família. A vida tem destas coisas!...

quarta-feira, 10 de março de 2010

A inauguração da Missão Católica do Quitexe

Imagem da Missão do Quitexe, no dia da inauguração. Clicar, para ampliar



Dia 12 de Setembro de 2009, no encontro da Pateira, tive uma simpática conversa com o (ex-padre) dr. Albino Capela (foto á esquerda, desse dia). Depois de recordarmos muitas coisas - uma delas já aqui citada, a de alguns de nós termos sido convidados a fazer parte do coro da igreja.
Recordámos tantas coisas boas, falámos do potencial da zona do Quitexe e das suas produções do café. A meio de tanta conversa - que, diga-se, estava atrasada mais de 30 anos... - disse-lhe que tinha imagem que se via a Missão do Quitexe e o (ex-padre) dr. Capela.
Ora, o prometido é devido: aqui está a imagem de que lhe falei.
Grande abraço ao GRANDE amigo dr. Albino Capela!
RODOLFO TOMÁS

terça-feira, 9 de março de 2010

A apresentação de especialistas em Santa Margarida

Os 1º.s cabos milicianos Neto, Viegas, Matos (2ª. CCAV.) e Monteiro, num carro
de combate do RC4, em Santa Margarida (1974). Clicar na imagem, para a ampliar


A 4 de Março de 1974, começaram a apresentar-se em Santa Margarida a maior parte dos especialistas que iriam formar o BCAV. 8423 - completando o seu quadro de efectivos. Ele, eram os escriturários, os enfermeiros, os homens das transmissões e das oficinas, os condutores, os sapadores (estes, não estou certo..). Era a família que se formava.
O nosso poiso do Destacamentou mudou, soubemo-lo logo nessa 2ª.feira (dia 4), e continuava a instrução e a azáfama de quem se preparava para uma guerra de guerrilha e tinha de estar fisica e mentalmente bem preparado.
Surpreendiam-se alguns (novos) amigos cabos milicianos pela dinâmica e tranquilidade com que evoluía o PELREC - todo ufano e garboso, sempre que desfilava em marcha de treino ou se mostrava aos novos companheiros bem preparado, «à ranger», sem falhar um acerto de passo ou recuar a qualquer exercício mais difícil.
O PELREC evoluía noite e dia - mais de dia... - pela Mata do Soares, preparando golpes de mão e emboscadas, como reagir activa ou passivamente; como enfrentar um perigo, uma surpresa, o deflagrar de uma granada, o rebentar de um petardo, o som estridente e ameaçador de uma rajada de G3. A nada fugiam os pelrec´s, embora com um ou outro desenfianços daqueles dois ou três, ou quatro!, que sempre trocam o passo e se fazem diferentes, pela mais vulgar chico-espertice. Mas era coisa que não nos escapava e a que o Neto puxava orelhas e eu sermões, com a cumplicidade (e ordens) do então aspirante Garcia.
O PELREC crescia como uma família!

segunda-feira, 8 de março de 2010

Outros Cavaleiros do Norte, do Quitexe a Carmona e a Luanda

Um grupo de Cavaleiros do Norte, da CCS do BCAV.8423, no Quitexe (1974)

Não foram esquecidos os companheiros que, não sendo atiradores, enfermeiros, sapadores, mecânicos, gente das transmissões, escriturários, condutores, também - e muito bem.. - faziam parte da família dos Cavaleiros do Norte instalados no Quitexe.
Aqui vão eles, com a nossa continência ao companheirismo que todos multiplicaram na enorme família quitexana, depois carmoniana e luandina.
- 1º.s CABOS: Manuel da Costa Vieira (clarim), Manuel Augusto da Silva Marques (carpinteiro) e Vitor Manuel da Cunha Vieira (auxiliar de serviços religiosos, sacristão).
- SOLDADOS: José António Cardoso Caetano e Gracindo da Purificação Queijo (clarins), António Santana Cabrita (básico) e Júlio S. Plácido (caixeiro),
Outros companheiros poderão ter passado pela CCS do BCAV. 8423, em regime de substituição temporária. Deles, não temos registo.

O Quitexe de hoje visto pelo Jornal de Angola

O Quitexe nos dias de hoje, em foto de José Bule

O município do Dange-Quitexe, a principal “porta de entrada”, por terra, para quem vai ao Uíge, passando pela província do Bengo, já foi das localidades que mais contribuiu para o desenvolvimento da região.
Quitexe também é famoso por dispor de dois locais turísticos, a Lagoa do Feitiço e o rio Tsamba, cujas histórias arrepiantes, contadas pelos mais velhos, obrigam qualquer pessoa a respeitá-los e a cumprir rituais impostos.
Dange-Quitexe, com 3.872 quilómetros quadrados e mais de 33 mil habitantes, tem três comunas, Aldeia Viçosa (24 quilómetros), Vista Alegre (a 60) e Cambamba (86). Acabado o conflito armado, que afectou o desenvolvimento da região, a administradora municipal procura soluções para a localidade voltar a ser o que já foi. Maria Cavungo disse ao Jornal de Angola estar preocupada com o estado das vias de acesso às demais localidades do município, defendendo que a maioria das infra-estruturas deve ser reabilitada e devidamente apetrechada.
Aposta também na construção de mais empreendimentos sociais, como escolas, postos e centros de saúde e no fornecimento de energia eléctrica e de água.
Foto e texto José Bule. Ver completo, DAQUI.

domingo, 7 de março de 2010

Os primeiros dias de Carmona...

A piscina de Carmona (foto de Quitexe) e vista da cidade (de Rui Ribeiro)

A cidade e os seus desafios foram uma «aventura» bem interessante para todos os jovens Cavaleiros do Norte. Julgo poder dizer, sem exagero, que todos ganharam alma nova, desestigmatizando alguns constrangimentos e receios. A cidade de Carmona, na verdade, oferecia muitas respostas à gulodice social da guarnição: cinemas, bons restaurantes, belas esplanadas, a piscina, por aí fora.
O Escape, restaurante já desde há muito conhecido dos «desenfianços» do Quitexe, passou a ser paradeiro usual da tropa financeiramente mais abonada - que pelos arredores aproveitava para espreitar as belezas que enchiam os olhos - as belezas que por ali se passeavam, bem decotadas e de pernas ao leú, ou as que mercavam nas várias lojas da rua do Comércio, na avenida de Portugal, nas principais áreas comerciais e nas muitas esplanadas e bares da cidade. E lá surgiam os pecados do desejo, os consolos de vista que nos enfeitiçavam, sempre que nos dávamos a olhar para as meninas do liceu. Ou outras quaisquer!

A outro nível, o comandante Almeida e Brito - com a guarnição bem instalada no BC12 e mas messes da cidade - foi cumprir protocolo e dinamizar empatias: a 5 de Março de 1975 visitou o Governador do Distrito, o Bispo da Diocese e os Juízes do Tribunal de Carmona.

sábado, 6 de março de 2010

As mágoas e saudades que se afogavam no bar dos soldados

Foto frente ao bar dos soldados, no Quitexe. Clicar, para a ampliar. Conhecem-se, em cima, Miguel (secretaria), Messejana (atirador) e Rocha (furriel). A seguir, Ferreira (atirador e depósito de géneros), Tomás, encoberto (?), de boina (?), Hipólito e Madaleno (atiradores) e Calçada (sapador), etc.. Sentados: Cabrita e Frangãos (o Cuba, de óculos). Quem ajuda a identicar os outros. Lembramos as caras, as esquecemlos os nomes.



Há dias vi que o Viegas editou uma foto onde se via o bar dos soldados - que se (re)vê aqui à esquerda. Parece mais bonito do que de perto.
Mas é bom relembrar caras de companheiros de quem nos lembramos ma que nunca mais vimos - passados que já lá vão quase 35 anos.
Aqui, no bar, se afogavam muitas mágoas e as muitas e tantas saudades que se tinham de casa, da família, dos amigos.
Também me lembro que não eram só os soldados que frequentavam o bar. Ás vezes, muitas vezes, também apareciam alguns furriéis. Sim, porque era preciso procurar a cervejinha mais fresca. E lá estava o bar dos soldados, na rua principal do Quitexe, para sarisfazer esses desejos.
RODOLFO TOMÁS

sexta-feira, 5 de março de 2010

O descanso do guerreiro Machado e o tenente que era «fascista»

A Casa dos Furriéis, no Quitexe (foto dos anos 2000) e Viegas e Mosteias na frente do edifício
(1974). A janela da direita era a do quarto de Machado e Dias



MANUEL MACHADO
TEXTO

Depois de um dia de trabalho quente e sem ar condicionado, no Quitexe, aí por Outubro/Novembro de 1974, esgueirei-me e fui para o quarto (dormitório dos furriéis milicianos).
A habitação tinha 4 ou 5 quartos e ficava junto à avenida principal, ao lado da secção de material de guerra. A intenção era «bater uma soneca» antes do jantar. Deitei-me em cima da cama, vestido, e adormeci. Acordei com o tenente Mora a tentar instalar mais um furriel no quarto - um furriel que tinha vindo de algures, com punição, pois não fazia parte da dotação do BCAV8423.
Os quartos eram de reduzidas dimensões e todos os dias de manhã acordávamos com a atmosfera interior saturada. Então, levantei-me mal disposto e meio zangado, dizendo ao tenente Mora que naquele quarto não instalava mais ninguém, enquanto houvessem quartos só com duas camas. Quando ia a sair, fui instado a indicar-lhe quais os quartos que só tinham duas camas. Respondi-lhe que era só entrar nos seguintes, como fez no meu. E saí.
Passada cerca de meia hora, encontrei-me com o tenente Luz, na avenida principal, junto ao comando de batalhão, que me informou que o tenente Mora tinha entrado na Secretaria do Batalhão dizendo que era fascista, que se queria ir embora e queixando-se que eu o tinha tratado mal. E que o tinha aconselhado a falar com o capitão Oliveira, que comandava a CCS.
Fiquei estupefacto com a dimensão que o caso tomou e desloquei-me para a secção de material de guerra, que ficava ao lado da secretaria e do gabinete do capitão. Como havia comunicação de portas entre a secção, a secretaria e o gabinete do capitão Oliveira, foi-me possível ouvir parte da conversa dele com o Tenente Mora.
«Tu participas dele, ele vai ser punido e vai-se embora e eu nomeio-te para tomar conta da secção de material de guerra».
- «Ó meu capitão - dizia o tenente Mora - eu não estou por dentro do serviço…». - «Faz como quiseres… Se o furriel Machado sair daqui, ficas com o trabalho dele…. ´
- «Ó meu capitão, acho melhor então o assunto ficar por aqui…», disse o tenente Mora.
«Tu é que sabes, Mora...», respondeu-lhe o capitão Oliveira.
- «Não meu capitão… Não vou participar...», concluiu o tenente.
No dia seguinte, fui chamado ao gabinete do capitão Oliveira, que me pediu para lhe dizer o que se tinha passado. No final, disse-me para ter cuidado, que desta vez o caso ficava assim, que o tenente Mora era muito sensível e que poderia ficar prejudicado. Agradeci e saí.
A partir daí, achei que não devia permanecer nas instalações militares mais do que o estritamente necessário e com o colega (vago-mestre) furriel Francisco Dias, alugámos um quarto no outro lado da rua, em instalações civis, onde passámos a residir e onde não era possível colocar mais ninguém no quarto, sem o nosso acordo.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Cavaleiros «à solta» na cidade... e insultos e ameaças aos militares


O quartel do BC12, onde o BCAV. 8423 esteve instalado de 2 de Março a
Agosto de 1975 (foto de baixo) e Rua do Comércio (em cima)

A chegada a Carmona, depois das primeiras curiosidades satisfeitas, foi da óbvia integração da guarnição ao ambiente urbano. Mais exigente, por exemplo, quanto ao atavio militar.
O pessoal acomodou-se o melhor que pôde - e muito melhor se acomodou que no Quitexe... - e fomos entrando na escala de serviços. Fora isso, galgava-se a cidade em procura de novidades e não havia restaurante ou bar a que não fizessemos reconhecimento. Sempre com evidente animosidade de parte da população europeia. Não toda, é evidente. O Livro da Unidade regista, neste mês de Março de 1975, «muitas quezílias entre a população civil e as NT, devido à animosidade que aquela tem a estas».
Uma noite, num café cujo nome não lembro, o Mosteias - numa mesa onde estava eu, ele, o Neto, o Pires do Montijo e outros (lembro-me destes...) - teve de mostrar as suas «habilidades» karatecas para evitar uma confrontação física. Comigo e com o Neto em posição de «combate». Foi um dos muitos momentos de tensão que por lá se viveram e sabia-se lá o que poderia acontecer. As «bocas» aos militares eram pão nosso de todos os dias, em provocações e hostilidades que foram formatando marcas difíceis de sarar.
Por alguma razão, foi criada a PM, com três equipas em rotação de serviços! E imaginem quem fazia parte de uma delas? Eu, pois claro! E muitas vezes tive de ouvir o que não queria. E aguentar! E deter pessoas, que é «coisa» pouco agradável, como uma vez aconteceu na Rua do Comércio (foto), perto da vedação que se vê na imagem: três jovens filhos de europeus ameaçaram, insultaram os e cuspiram na viatura miltar. Foram detidos e dormiram no BC12.
- NT. Nossas Tropas.
- PM. Polícia Militar, em Carmona designada de PU (Polícia de Unidade). Ainda guardo a braçadeira e o cassetete que usei na cidade nesse serviço nada fácil, feito em 24 horas, de três em três dias.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Os Cavaleiros do Norte no BC12 de Carmona

Aquartelamemto do BC12, à saída de Carmona, na estrada para o Songo e
vista deste lado, em cima. Em baixo, uma vista parcial da parada

Carmona! Aí estava a cidade do nosso caminho para Luanda e Lisboa. Ao tempo da chegada, mal imaginaríamos nós as dores que iríamos sentir na capital provincial. Mas vivemos estes dias com grande intensidade e maiores expectativas. Quebradas num destes dias pelo gelo das palavras do alferes Garcia: «Isto, nunca se sabe, mas pode haver m....».
O aquartalemento era muito bom, em espaço concentrado, de construção relativamente recente, nada tendo a ver - e para muito melhor... - que as divididas instalações do Quitexe. As acomodações dos soldados, não sendo muito diferentes em termos de camas, eram em edifícios de construção civil, bem divididos, com cozinha, refeitórios e bares de qualidade.
A enorme parada (foto) separava (e aproximava) arrecadações, casernas, secretarias, oficinas, depósitos de géneros e de material, a padaria - com o edifício do comando e casa da guarda no bloco da frente. Já por lá tínhamos passado, mas ao vivo todos nos sentíamos melhor instalados e muito mais seguros. Oficiais e sargentos tinham messes próprias na cidade. Nós (furriéis) ficámos numa antiga messe de oficiais, no bairro Montanha Pinto. A cidade de que passámos a ser moradores ia matar muitas as nossas sedes e desejos. E acarretar-nos muitas dores da guerra, lá mais para Maio e Junho.

terça-feira, 2 de março de 2010

Adeus ao Quitexe...

Furriéis Cruz e Viegas na avenida principal do Quitexe, frente à messe
de oficiais e casa dos furriéis. Atrás, vê-se o edifício do bar dos soldados


A 2 de Março de 1975, toda a CCS (do Quitexe) e um Grupo de Combate da 2ª. CCAV. 8423 (a de Aldeia Viçosa) rodaram para Carmona. Para trás, ficou uma terra que nos recebera em Junho anterior e da qual levavámos um coração já cheio de saudades. Até hoje!
A azáfama começara nas vésperas: preparação da coluna militar, carregamento de haveres, mobilização de tarefas para que a rotação fosse feita tranquilamente. Tudo como devia ser. Por lá ainda iria ficar a 3ª. CCAV., que mais tarde rodaria para o Songo.
Recordo-me de, em cima de uma berliet a e na avenida principal do Quitexe, olhar a vila, da igreja ao parque-auto, ao posto 5 que se via à entrada da vila, aos bares, à administração civil e às casas «militarizadas», os bares e restaurantes, do olhar do Papélino, de quem ainda ontem aqui falei - o adolescente engraxador que fazia as nossas delícias e tanto queria vir para Portugal. Escondeu-se de nós, atrás de uma enorme bananeira da xitaca, espreitando de olhos grandes por entre as folhas gigantes que tapavam os cachos.

Alguns civis, olhvavam-nos com alguma ironia, até com desdém, e rodavam outros avenida acima, avenida abaixo, buzinando e como que escarnecendo de nós. Ainda hoje penso que nem sonhavam o que seria o seu futuro próximo. A hora de marcha chegou e nesse momento senti que um dia voltaria ao Quitexe. E hei-de voltar!

História de Papélino, AQUI.

segunda-feira, 1 de março de 2010

1 de Março de 1975, a véspera do adeus ao Quitexe

Alferes Ribeiro com alguns militares na caserna do PELREC no Quitexe (em cima)
e furriéis Viegas e Neto no jardum público, em 1974


O dia 1 de Março de 1975 foi de emoções, no Quitexe! E também de afectos. Era véspera de adeus e havia despedidas e sentimentos que se viveram e se (des)multiplicaram em abraços que foram definitivos, para muitos de nós.
Por mim, não esqueço a persistência de Agostinho Papélino, que por todos os santinhos da sua pagã adoração, queria vir connosco - comigo ou com o Neto. Nem os soluços de um europeu, que se quis perdoar de algumas maldades e intrigas mal-dizentes da gloriosa tropa do BCAV. 8423. Ou do rosto de olhos grandes e boca grossa da mulher que, do Canzenza, fez de lavadeira das nossas roupas brancas e, sendo mãe negra, carregava nas costas o bebé já nascido na nosso tempo do Quitexe.
«Qui vai ser di nós, esfurrié?!...».
Eu nada sabia responder àquela mulher bonita e sensual, que levedava cios e era desprendida de vaidades, leal ao pais de seus filhos e nos olhava de lenço de cabeça caído em cores pelo corpo de pau-preto, como que a afagar os aneis dos cabelos da criança que se lhe pendurava nas costas. A olhar para sempre..., de olhos tristes!
O Garcia, nosso garboso comandante de pelotão, passeou-se de tira de seda verde e envelhecida enrolada no pescoço, dando instruções ao nosso «pelrec», na frente da caserna.
«Tudo afinadinho, hein?!!! Tudo como deve ser!...», sorria-se ele, de boca rasgada de felicidade. O seu, o nosso, «pelrec» ia sair de zona perigosa, do Quitexe-mártir de 1961 e anos seguintes! Sem uma baixa!
A caserna engravidou-se de balbúrdias, de festa e de gritos de aleluias, enchendo-se malas e malotes com o «enxoval» que cada cavaleiro do norte fizera desde Junho de 74. E embriagou-se de entusiasmos e excessos!
Era a véspera da nossa saída do Quitexe! Íamos para Carmona! Os cheiros e os sons dos nossos chãos natais iam ficar mais próximos! Íamos dizer adeus a uma terra que nos encheu a alma. O Quitexe!

domingo, 28 de fevereiro de 2010

1º. cabo Joaquim Figueiredo de Almeida morreu há um ano

Hipólito, Monteiro, Almeida e Vicente (em cima), Garcia, Leal, Neto e Aurélio
«Barbeiro» em baixo. Almeida, Vicente, Garcia e Leal já faleceram


Joaquim Figueiredo de Almeida, 1º. cabo atirador de cavalaria, faleceu a 28 de Fevereiro de 2009, faz hoje um ano.
Era o mais velho de todos os do PELREC, nascido a 5 de Dezembro de 1950 - sendo nós de 1952. Era de Pedrogão, freguesia de Pedrogão de S. Pedro (município de Penamacor), e dele se dizia que tinha ido «a salto» para França, tendo de regressar vir para cumprir o serviço militar. Nunca tal lhe perguntei, nem ele, que eu saiba, isso explicou a quem lhe perguntou.
Fez a escola de recrutas em Santa Margarida e foi promovido a 1ª. cabo. Era, em zona operacional e já em Angola, homem que não virava a cara aos perigos. Com ele - e o Marcos - fizemos dezenas de PU na cidade de Carmona e recordo bem uma noite de um domingo, quando, num bar americano, tivemos de intervir numa situação bem adversa. Pois não olhou para trás o Almeida, nem o Marcos, quando tivemos de enfrentar a turba revoltosa, de cassetetes no ar e a mão na Walter, não fosse termos de intervir (ainda mais) pela força.
Era um homem generoso, sempre disponível para qualquer serviço, sempre cumpridor, leal, discreto, corajoso e amigo. Faleceu faz hoje um ano e aqui lhe prestamos a nossa continência de respeito e saudade.
- PU. Polícia de Unidade, equivalente a Polícia Militar.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Saudades do Quitexe que íamos deixar...

Aspecto do Quitexe, em 2004 (foto da net), vendo-se a casa que foi secretaria da CCS.
Em baixo, o furriel Neto de frente para a capela e com a caserna do PELREC e,
1º. plano, no aquartelamento (1974)
A 26 de Fevereiro de 1975 desfizeram-se todas as dúvidas: íamos para o BC12, em Carmona. Soubemo-lo ao fim da tarde, depois de mais uma das reuniões do comando na ZMN - que já vinham de dias anteriores e continuaram a 27 e 28.
Só mais tarde nos foi dito que esteve iminente a nossa rotação para Luanda, onde éramos reclamados pela RMA, mas a extinção do BC12 «justificou» a transferência para a capital do Uíge.
A mudança, como já por aqui foi dito, foi recebida com muito agrado pelos militares, mas acrescentou-lhe mais e maiores responsabilidadeas. Isso nos disse o TC Almeida e Brito, em «discurso à nação militar» quitexana, sublinhando-nos a intensa politização dos movimentos emancipalistas na área do Uíge. Como bem iríamos sentir na pele.
As responsabilidades viriam, na verdade, a revelar-se extremamente difíceis e complexas. Delas já aqui fizemos alguns relatos e delas voltaremos a falar, em tempo próprio.
A 27 de Fevereiro de 1975, os habituais comensais das noites quitexanas sentaram-ae à mesa do Pacheco, mesmo na frente da CCS e da casa dos furriéis. Já com saudades do Quitexe que íamos deixar.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Pequenos incidentes numa das últimas noites do Quitexe...

Bar do Rocha (Quitexe), na estrada de Luanda para Carmona (em frente)

Hoje, no dia de hoje de 1975, era 4ª. feira e jantei no bar do Rocha, com o Neto e outros amigos na mesma mesa. E muitos militares, em outras. Comemos os convencionais bifes com ovo a cavalo e cerveja, muita cerveja, depois de uns pratos de camarões.
A partida para Carmona estava por dias e eu já aprontara as duas malas com as minhas quitangas. O Neto, nestas coisas deixava-se sempre mais para o fim e iria fazê-las mesmo de véspera. No dia, tínhamos ido a Vista Alegre e Aldeia Viçosa, escoltando o capitão Falcão - que lá foi diligenciar a rotação do BCAV. Iria a 2ª. Companhia para Carmona (connosco), iria a 1ª. CCAV. 8423 para o Songo (se me lembro bem).

O ambiente do restaurante era inamistoso para os tropas e sucediam-se trocadilhos ofensivos - que já não eram novidade para nós, mas que tínhamos de «engolir», sem retorquir - o que não era nada fácil. Às tantas, um ex-GE, já entrado nos copos, picou-se de razões com um civil europeu. Houve «escaramuças» com alguma violência, ainda que rapidamente resolvidas e embora estendidas à rua.
A ordem geral era evitar conflitos. Era cada vez mais latente a influência dos movimentos emancipalistas na sociedade civil. Com alguns exageros e vinganças pelo meio.
Passeámos longamente pelas ruas da vila , noite adentro, memoriando os meses que nos traziam desde Junho e da nossa chegada ao Quitexe. Havia a consciência de que se «escrevia» um momento histórico para o mundo, África e Angola. E que nós éramos pequenos actores dessa memória que ainda hoje por aqui nos traz. Eram os nossos últimos dias do Quitexe!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Os últimos dias do dos dos Cavaleiros do Norte no Quitexe...


O BC12 recebeu a CCS do BCAV. 8423 a 2 de Março de 1975.
A foto de cima mostra a parada do Quitexe (princípios da década de 70).


A 26, 27 e 28 de Fevereiro de 1975, o comandante Almeida e Brito (foto, ao lado) ultimou em Carmona (actual Uíge) a transferência dos Cavaleiros do Norte (CCS do Quitexe, e 2ª. CCAV. 8423, de Aldeia Viçosa) para o BC12. As reuniões de trabalho decorreram na ZMN.
A ansiada transferência estava cada vez mais iminente e reinava na guarnição um enorme entusiasmo, ninguém se poupando a esforços para «arrumar as malas», que nos levariam para mais uma etapa da comissão de serviço que, para o bem e para o mal, ficou na história como a última da presença militar portuguesa no Quitexe.
Anotei, por estes dias, alguns ácidos comentários de civis, uma no restaurante Pacheco - em conversa despeitadora que, de dedos apontados e olhar de algum ódio, fazia dos tropas os culpados da evolução política que levava Angola à independência. Traição, era o mínimo que chamavam, em acto e verbo de claríssima provocação aos militares. Nas ruas, havia quem escarrasse à nossa passagem. E não faltavam ostensivas provocações à nossa moral e sentido ético. «Filhos da p..., filhos de cabra», eram expressões vulgarmente ouvidas.
As recomendações superiores sugeriam que não respondêssemos a provocações. E assim era feito, embora lamentavelmente com alguns pequenos incidentes pelo caminho.
- BC12. Batalhão Caçadores nº. 12, em Carmona.
ZMN. Zona Militar Norte.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

«Portugal e o Futuro», de António Spínola, publicado há 36 anos

Capa do livro «Portugal e o Futuro» (em cima) e António Spínola (em baixo)


Há 36 anos, António de Spínola estava no topo das atenções nacionais, com a publicação do livro «Portugal e o Futuro» - que eu, nos meus habituais comentários de capa, então assinalei como «um livro de fluência e transparência de conceitos, sem cair no emaranhado do conceito doutrinário (...), de intervenção política importante, que não pode nem deve ser mais um título para mostrar nas prateleiras ou passear em conversa descomprometidas». Vejam lá este analista que eu era.
O livro custou uma fortuna para a época e foi-me guardado por um livreiro amigo (já falecido, o sr. João Lemos, da Livraria Rino), que mo «deu» na manhã de sábado de 23 de Fevereiro de 1974. Li parte dele pela noite dentro - e dias seguintes... (estava de férias militares) - e considerei-o polémico e susceptível de provocar desencontro de opiniões. Mas não passei daí, deste minúsculo tipo de consideração. Na verdade, política era coisa que pouco me interessava e o mais próximo que andara tinha sido no período do Congresso Republicano de Aveiro, chamado da Oposição Democrática, em 1973 - de 4 a 8 de Abril, quando houve a intervenção policial na avenida (poucos dias antes de assentar praça). E das eleições de 1972 - que levaram Mário Rodrigues a Caxias.
«Portugal e o Futuro» foi, no entanto e depois do nosso regresso a Santa Margarida, motivo de alargadas conversas, com uma esperança semeada na malta: se calhar, a guerra do ultramar vai mesmo acabar. Nós é que já não escaparíamos a ela. Lembro-me de o «passear» entre os cabos milicianos e de ser »avisado» por um oficial para ter cuidado na sua «exibição».
Mal imaginávamos nós o que se preparava para dias depois, o 16 de Março. E o 25 de Abril, depois.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Quem são vocês? Quem somos nós, homens do PELREC do BCAV. 9423?

A capela do Campo Militar de Santa Margarida


Ontem, há 36 anos, foi dia último dos exercícios finais da escola de recrutas dos atiradores de cavalaria do BCAV. 8423. O PELREC jornadeou pela Mata do Soares e aprontou-se para uns dias de férias. Uma semana. Eu e o Neto, cabos milicianos do pelotão, resolvemos fazer uma espécie de inquérito: quem são vocês, os soldados? Quem somos nós, o PELREC?
A ideia, parecendo peregrina, tinha um obectivo nuclear: conhecer as debilidades emocionais de homens que, aos 21 para 22 anos, iam abandonar as suas famílias, amigos e namoradas, alguns deles até as mulheres, e partiam para uma guerra a milhares de quilómetros. Como reagir à solidão e à saudade? Às virtuais tragédias, aos medos, à psicose dos combates, aos arrepios dos trilhos das matas?
Lembro-me bem da cara de espanto com que nos ouviram? Afinal, o que acontecia é que parecíamos estar a querer entrar na vida deles, nas suas intimidades, nos seus segredos. Algum deles perguntou o que tinham a fazer. Peçam às vossas mães, irmãos, namoradas, amigos, para que escrevam no papel o que nós podemos fazer para que vos possamos ajudar?
Poucos isso fizeram, é verdade. Mas ainda guardo a carta, cheia de erros gramaticais, de medos e de fé que me entregou um deles, escrita pela mãe. E como, mais tarde, no Quitexe, eu vim a perceber a solidão e o isolamento, a dor e amargura daquele filho, em alguns momentos que o faziam nostálgico e infeliz!