
O Pelotão de Sapadores da Companhia de Comando e Serviços (CCS) do Batalhão de Cavalaria 8423 era comandado pelo alferes miliciano Ribeiro e incluía três furriéis - todos eles bem diferentes, mas seguramente bons amigos. BATALHÃO DE CAVALARIA 8423. Os Cavaleiros do Norte!!! Um espaço para informalmente falar de pessoas e estórias de um tempo em que se fez história. Aqui contando, de forma avulsa, algumas histórias de grupo de militares que foi a Angola fazer Abril e semear solidariedade e companheirismo! A partir do Quitexe, por Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Ponte do Dange e Songo! E outras terras do Uíge angolano, pátria de que todos ficámos apaixonados!

O Pelotão de Sapadores da Companhia de Comando e Serviços (CCS) do Batalhão de Cavalaria 8423 era comandado pelo alferes miliciano Ribeiro e incluía três furriéis - todos eles bem diferentes, mas seguramente bons amigos. 
A guarnição da CCS do BCAV. 8423 tinha 15 furriéis milicianos. Hoje, apresentamos quatro deles.Dezembro, dia 30 de 1974, véspera da passagem de ano de 1974 para 1975. A ordem de serviço lá me aprontou para sargento de dia ao batalhão na noite dita especial. Era uma inevitabilidade! Esperadíssima.
Tornou-se demasiado previsível a nomeação, numa altura em que o relacionamento entre os pares da classe de sargentos andava esfriada. É desse tempo uma «revolta» dos milicianos, descontentes com alguns tratamentos recebidos e tornou-se famoso o grito de guerra do furriel Machado: «Beduínos!!!...». Um grito de raiva, contra a discriminação a que os milicianos se sentiam sujeitos, com a cumplicidade de alguns iguais.
Acreditam que a maioria dos furriéis se recusaram a comer ao mesmo tempo, na mesma mesa, com alguns comensais da messe de sargentos? Pois foi! E acusados ao capitão Oliveira, lá foi o trio de ferro: Neto, Viegas e Machado. Fazer a defesa da justiça!
A 31 de Dezembro de 1974, lá me apresentei a serviço para a noite de passagem de ano. Não sei porquê, ainda hoje penso que alguém acreditava, ao tempo, que eu iria infringir os regulamentos e faltar ao serviço. Só se eu fosse tolo!
Alferes milicianos da CCS do BCAV. 8423: Ribeiro, Cruz, Garcia e Hermida
Tenente Luz, alferes Ribeiro e Hermida, tenente Mora, alferes Cruz,
Comandante Almeida e Brito e capitão Falcão em 1995 (Encontro de Águeda)

Aldeia Viçosa em 1968 (foto de José Oliveira »César»)
Noite de Natal de 1974! Consoada no refeitório dos praças do Quitexe e toda gente encalorada do clima e da emoção. Juntas, a CCS e a 3ª. CCAV., dias antes chegada de Santa Isabel. E bacalhau...A 20 de Dezembro de 1974, iniciou-se a saída do Pelotão de Morteiros 4281, do Quitexe para Carmona. Era comandado por um alferes miliciano açoriano (Leite?) e dele, do pelotão, recordo uma evacuação feita a um dos Grupos de GE, depois de uma operação militar de três dias na Baixa do Mungage, que eu integrava.
A dificuldade de comunicações, na maior parte do tempo da operação, levou a que se levantassem suspeitas e medos quanto ao destino dos militares europeus. O que teria acontecido para deixarem de fazer os contactos de rádio? Teria sido algo de tão grave que o impedissem de os estabelecer? A operação era a nível de batalhão e o grupo GE, sem contactos com a «base», optou por, azimute a azimute, prosseguir ... com duas noites de selva que não deram para pregar olho. Os grunhidos de animais e o piar de algumas aves fizeram delas uma tormenta inenarrável e sofrida.
A falta de ligações, afinal devia-se apenas à densidade da mata e, ao abrir da manhã do terceiro dia e já muito perto do final da operação, lá conseguimos o contacto com a base. Chegados à fazenda do destino, foi de espanto a reacção do alferes do Pelotão de Morteiros, por ver tão poucos militares europeus (brancos) entre mais de 30 naturais.
Foi por Novembro de 1974 esta operação, que registou um incidente com um encarregado de uma fazenda - que ameaçava agredir contratados bailundos. Chegados ao Quitexe e depois de banho e jantar, caí na cama por horas que chegaram à manhã seguinte. Na verdade, há três noites que não pregava olho!


As coisas do amor tem das suas... coisas! As paixões são criadoras, engenhosas, audazes... Não há por aí quem não já, por uma vez que seja, não tenha tido a sua aventura... ilegal e infiel! Aos tempos de jovens de 21 para 22 anos, quem não se deixou embriagar pelos apetites do cio, pelos ardores da paixão, pelo risco de desafiar o perigo?!
Aldeia Viçosa era logo depois do Quitexe, na estrada do café, para quem ia de Carmona (Uíge) para Luanda. Por lá estava estacionada a 2ª. CCAV. 8423, sob comando do capitão miliciano José Manuel Cruz. Faz hoje 35 anos, viu regressar a guarnição da Fazenda Luísa Maria - nessa data extinto.
Andei a escarafunchar os meus alfarrábios e cliquei na net, por me ter subido à memória a lembrança dos panfletos que eram distribuídos pela mata e nas aldeias de Angola, procurando sensibilizar as populações autóctones para as vantagens de se aproximarem da tropa. Que me lembre, os Cavaleiros do Norte poucos terão distribuído - talvez mesmo nenhum.
A vila do Quitexe em 2008, numa foto de Ivo Morgado (net)A expectativa dos militares do BCAV. 8423, por estes dias de Dezembro de 1974, mantinha-se em alta. A chegada da 3ª. CCAV., que operara na zona de acção da Fazenda Santa Isabel, fermentou esperanças. Na verdade, o reposicionamento do dispositivo militar era entendido como um caminho para... Lisboa.
O dobrar de acções dos militares europeus, resultante da passagem a licença registada dos grupos de mesclagem - acções em escoltas, patrulhamentos e «policiamentos»... - não foi causa de qualquer efeito negativo. Por mim, e pelo grupo de furriéis - que muito acaloradamente discutíamos o evoluir da situação, embora sem informações concretas - entendíamos esse esforço como necessário e assumido com serenidade. Até porque, ausentes os grupos mesclados, a verdade é que os entendimentos inter-militares eram muito maiores. E não havia o risco de atritos entre africanos e europeus.
Ao tempo, vivia-se em clima de paz e foram reestruturadas as Comissões de Contra-Subversão, consideradas desnecessárias. Procurava-se agora mais estreitamento das relações entre civis e militares e passaram a chamar-se Comissões Locais de Coordenação Civil-Militar, identificadas pela sigla CLCCM. A do Quitexe teve consequências a partir de 11 de Dezembro de 1974. Faz hoje 35 anos!
- VISTA ALEGRE. Foto de Ivo Morgado (net)
Placa militar de Santa Isabel, instalada pela CCAV. 1705
Rua do Comércio, em Carmona (agora cidade do Uíge), em 2004Hoje, o dia de hoje de há 35 anos, foi de reunião do MFA/Angola, no Comando de Sector do Uíge, em Carmona. A primeira de uma série quinzenal - que viria a ser interrompida (ou suspensa?) já nós estávamos instalados no BC12.
A primeira reunião - justamente por ser a primeira... - suscitou curiosidade e expectativa, mas esta pariu um ratinho dos pequeninos. Por ela falaram uns senhores coronéis e capitães, vindos do COPLAD e do MFA/Angola que, a perguntas das patentes mais baixas, moita carrasco... pouco disseram, para além dos slogans revolucionários dos tempos. E com uma intensidade, um deslumbramento, que quase nos pareciam insensatos. A nossa pergunta sacramental era a mesma: quando voltamos a Portugal? Mas ninguém nos sabia responder. Ou queria.
O almoço do dia foi no Escape, restaurante famoso da cidade, na Rua do Comércio - muito frequentado pela sociedade local (da classe média-alta) e por militares que detinham maior capacidade financeira. Era algum luxo, por lá refeiçoar, pois o cardápio não era para todos! Comia-se bem e aproveitava-se para pousar os olhos nas adolescentes que passavam na rua ou por lá se paravam, generosamente sugerindo apetites que não estavam ao nosso alcance.
Agora, ao olhar para a foto tirada do site Sanzalangola, reparo no fundo da rua, mesmo na curva para a esquerda - onde, por 4 ou 5 de Maio de 1975, estivemos sob mira de homens armados e por ali escondidos, quando patrulhávamos a cidade nos momentos mais quentes e dramáticos que por lá vivemos. O nosso poder de fogo esteve quase, quase a soltar-se. Que tragédia dali poderia nascer!!! Disso falaremos em tempo próprio!
O aceleramento do processo de descolonização levou, entre outras coisas (quase todas, para não dizer todas, obviamente passando à margem do nosso conhecimento), à instalação dos movimentos emancipalistas nas zonas urbanas.