terça-feira, 24 de novembro de 2009

A apanha do café e a arrogância de alguns civis de Angola...

Apanha de café na região do Quitexe. O Uíge
era a capital do café de Angola

RODOLFO TOMÁS
Texto

Angola não era só a tropa e o nosso serviço militar. Era também, por exemplo, terra do... café (!). E nós estavamos na zona que era considerada a capital do café.
Angola, segundo apontamentos pessoais, era em 1966 o segundo maior produtor de café do mundo. Mas nunca é demais lembrar que em Angola há outras fontes de riqueza, como por exemplo: os diamantes, o ouro, o algodão, o petróleo, madeiras diversas. E só citei o mais óbvio. Por estes motivos é que muitos jovens sacrificaram o melhor das suas vidas, e alguns sacrificaram a própria vida, para que outros pudessem viver com abundância e arrogância.
A história da unidade, e num escrito do comandante do Batalhão de Cavalaria 8423, Tenente-Coronel Carlos Almeida e Brito, já falecido, refere que, no momento da retirada de Carmona, a coluna de viaturas de civis atingiu cerca de 20 quilómetros. No entanto, todos nos lembramos de que os civis, com a arrogância que lhes era peculiar, diziam constantemente que não precisavam da tropa para nada. Alguns pagaram caro pela dita «arrogância».
RODOLFO TOMÁS

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O capitão miliciano José Manuel Cruz da 2ª. CCAV. do BCAV. 8423

O (ex)capitão miliciano Cruz no Encontro de Águeda, em 1995


José Manuel Romeira Pinto da Cruz é de Esmoriz, professor do ensino secundário e, há 35 anos, capitão miliciano de infantaria e comandante da 2ª. CCAV. 8423, instalada em Aldeia Viçosa. No período de rotação para Carmona, e já nesta cidade - área considerada preocupante do processo de descolonização - «cumpriu cabalmente as missões que lhe foram confiadas».
As palavras são retiradas do louvor que lhe foi concedido pelo Comando do BCAV. 8423, que sublinha o facto de «aquando da eclosão do grave conflito armado entre os movimentos de libertação, na cidade de Carmona», os militares da sua 2ª. CCAV. deram «exemplo de dedicação, desembaraço e espírito de sacrifício» - o que, naturalmente, só aconteceu pelas qualidades de comando do capitão miliciano Cruz.
Dele recordo um sábado, quando eu regressava de Luanda, à boleia de um MVL da 2ª. CCAV., e cheguei ao princípio da manhã a Aldeia Viçosa, tendo de estar dentro de hora, hora e meia no Quitexe - onde «sabia» que me esperava, de apetite afiado para me castigar, a bondade militar do nosso comandante da CCS. Sem transporte para chegar em tempo, foi o capitão Cruz quem mo disponibilizou - mandando um jeep, com a suficiente guarnição, para me fazer chegar ao Quitexe. E cheguei.
À porta da secretaria da CCS, nesse sábado, estava o capitão e comandante da CCS, a fazer contas de relógio e muito desiludido ficou por me ver chegar: já não me podia castigar, com tanto gostava. Fiquei a dever essa ao capitão Cruz - que, suponho, foi internacional de voleibol.

- CRUZ. José Manuel Romeira Pinto da Cruz, capitão miliciano de infantaria e comandante da 2ª. Companhia de Cavalaria 8423, estacionada em Vila Viçosa. É natural de Esmoriz (Ovar).

domingo, 22 de novembro de 2009

O Papélino que era engraxador do Quitexe...

Furriéis Farinhas, Neto e Viegas, com Papelino,
no Quitexe, em 1974

Hoje, numa breve passagem pelos papéis da “guerra”, dei de caras com uma foto, julgada perdida, tirada numa Sanzala do Quitexe. E lá estava eu, com dois miúdos a ladearem-me, meio envergonhados e parecendo receosos da objectiva!
Eram “clientes” diários do refeitório dos Praças e colegas do Papelino, de quem já aqui se falou em tempos, numa crónica que eu gostaria de reforçar! E digo clientes, não porque se sentassem à mesa, mas porque assistiam, ao longe, a praticamente todos os almoços, quase lhes caindo os olhos para o prato! Logo a seguir à Secretaria, lá estavam eles, cerca de uma vintena, quase pendurados no arame farpado, cada um com o seu saco de plástico! Os mais “finos” lá conseguiam um recipiente mais adequado, mas até isso era um pequeno luxo! Os encontrões permitiam aos mais possantes ganhar os lugares da frente, ficando assim em melhor posição para receber a comida por que tanto ansiavam! Não foram poucas as vezes em que fomos forçados a intervir, pondo um pouco de ordem na miudagem! Os mais pequenos, e porque a vida bem cedo lhes ensinara, por estratégia esperavam mais para o fim. Sabiam que era a única maneira de não serem espoliados da comida, pelos mais velhos e corpulentos!
Foi assim que eu conheci o Papélino, o tal miúdo a quem já foi feita referência, que tocava com uma mangueira e engraxava (?) o calçado ao pessoal. Franzino mas esperto, terá conseguido furar a barreira, o que, penso eu, terá causado a ira de alguns colegas!
A forma violenta com que estava a ser agredido por dois matulões, levou-me a interferir de forma enérgica! Nunca tinha assistido a uma cena de pancada protagonizada por crianças e não sabia muito bem por onde e como começar! Como nos dita o instinto, há que proteger o mais fraco!
Cara maltratada, coberto de pó, ar impotente e com a caixa de graxa na mão, foi o que registei na memória! Ah, e posteriormente outra: A olhar-me pelo canto do olho com ar desconfiado e a caminhar a meu lado com a caixa no ombro! Curiosamente, dele não saiu um único queixume, o que me admirou no momento. Com o passar dos dias, viria a perceber que tudo aquilo era rotineiro e ele mesmo já se habituara. Talvez os outros não lhe perdoassem o facto de ser mais astuto!
Só parámos no Topete onde, muito aflito a olhar para o proprietário e sentado apenas na ponta da cadeira, foi mastigando o “prego” empurrado por uma mission de maçã - servido, diga-se, de muito má vontade e com absurdas reticências, depressa debeladas e esclarecidas! Havia de voltar mais vezes, apesar de a minha atitude ser, por “pensadores” de dedo no sobrolho, considerada inconveniente e um tanto despropositada!
O Capitão, a quem o “lixívias” tinha enchido os ouvidos, não perdeu tempo e à primeira oportunidade quis colocar-me na ordem! Depois de algumas «recomendações» em tom ameaçador, lá me foi dizendo que a minha acção, embora inapropriada, até nem era criminosa… e longe disso! O problema, dizia ele já em Português claro, residia no facto de o miúdo se sentar à minha mesa!... Ficava mal, pronto!...
Perante tal pensamento e afim de evitar qualquer mal-estar, tomei uma atitude radical: A partir daquele dia, deixei de convidar o Papélino para se sentar à minha mesa! E passei eu a ter o prazer de sentar-me à dele, não sem antes pedir licença, como mandam as regras!
A. CASAL

sábado, 21 de novembro de 2009

O meu dia de 22 anos festejados no Quitexe...

Furriel Viegas a 21 de Novembro de 1974, dia dos seus 22 anos,
na avenida do Quitexe (ou Rua de Baixo). Atrás, vê-se o bar dos praças



Há 35 anos, faz hoje, eu era assim como se vê na foto. Estava de serviço como sargento de dia ao Batalhão de Cavalaria 8423, no Quitexe, e fazia a bonita idade de 22 anos. Como o tempo passa! Parece que ainda foi ontem e vejam lá o tempo que já voou!
O dia correu tranquilo, com as inerências que afectavam a função. Almocei no refeitório dos praças e os bravos soldados do garboso PELREC tiveram direito a uma cerveja - talvez uma Nocal, uma Cuca, uma N´Gola. Só dias depois souberam a que se devia a tal oferenda!
Vinguei-me a noite dentro, com a graça de um favor do Pinto - que era furriel miliciano Ranger, meu companheiro de Lamego e, ao tempo, deslocado de Zalala - onde cumpria comissão, na 1ª. CCAV. 8423. Por umas duas ou três horas, substituiu-me a braçadeira verde no braço esquerdo e eu fui ao Rocha «jantar fora» com alguns amigos. Lá para as 11 da noite, retomei a função e a noite correu de forma esplêndida! Foi o meu dia de anos em Angola. Os 22!! Irrepetível! Muito saudoso!

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O correio de saudades e a ordem de serviço em véspera de anos


A 20 de Novembro de 1974 recebi variada correspondência de Portugal e de Angola, em aerogamas. O final da tarde era sempre muito esperado por todos nós, cavaleiros de saudades em terras de Quitexe, porque era o tempo de chegada do correio.
Eram as palavras de família próxima que chegavam, dos amigos, das namoradas (quem as tinha...), das madrinhas de guerra (quem as desejava) e de outra gente próxima, que iam dobradas e escritas em tudo o que era espaço do aerograma, fazendo matar saudades dos cheiros e imagens das nossas terras e das nossas gentes.
A 20 de Novembro - e anteriores e posteriores - recebi muito correio porque a 21 fazia anos que tinha nascido, pelas 10 e tal da manhã desse dia de 1952. Ainda guardo, ali no sotão, a mala de correio que me chegou ao Quitexe, a Carmona e a Luanda nos 15 meses de comissão. Às vezes, por lá passo tempo a reler entusiasmos da juventude.
Mas venho aqui recordar o dia de hoje de há 35 anos porque, para além do correio trazido do SPM de Carmona, aconteceu o que (não) era previsível: estar de serviço ao outro dia. Sargento de dia! Toma lá Viegas, em véspera de anos, que é para aprenderes!
Havia coisas assim, por terras de Quitexe. Também! E eu, olhando a ordem de serviço na parede exterior da secretaria, ali assumi de corpo inteiro a obrigação: levantas-te, banhas-te e escanhoas-te (escanhoar, não... que eu usava barba por essa altura!), fardas-te e às 8 horas da manhã puxas pelo teu garbo e orgulho e apresentas-te a serviço.Sem uma queixa, uma reclamação, um ai, um dedo apontado! A formatura era ali mesmo ao lado do quarto, não custava nada e assim fiz!

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O camionista que empunhou uma arma contra os militares do PELREC...

Estrada Luanda-Carmona (Uíge) em 2008. Foto de Paulo Santos

A Companhia de Caçadores 4145/72 saiu de Vista Alegre e Ponte do Dange faz hoje 35 anos. Foi directamente para Luanda. Socorro-me do livro do BCAV. 8423 para lembrar que neste dia chegou a CCAÇ. 4145/74. Chegou aonde? Ao Quitexe? O livro não diz.
Não me lembro e confunde-me a informação do mesmo livro, de que a 1ª. Companhia do BCAV. 8423 rodou de Zalala para Vista Alegre e Ponte do Dange - entre 21 e 25 de Novembro, data em que, e cito, «assumiu a responsabilidade da nova zona de acção». E, na verdade, tenho noção de, por estes dias, eu mesmo ter estado em Vista Alegre e lá estar malta de Zalala: Nós, o PELREC, vínhamos no regresso de uma acção de patrulhamento que nos levou até bem perto do Quibaxe, em estrada de asfalto.
Lembro-me destes pormenores, pela sua proximidade temporal ao dia dos meus (então 22) anos e por mais uma birrice de escala que me «castigou» para esse serviço. Depois de fazer aniversário com braçadeira no braço!
Foi nesse dia (... dia 24, 25, 26, 27 de Novembro?), o do patrulhamento transportado, que tivemos um incidente de estrada. Um camionista transportava armas escondidas no carregamento de um camião de 30 toneladas e, ao nosso sinal de stop, não só nos pareceu querer atropelar alguns militares do PELREC (o Neves, que é de Sintra, escapou por muito pouco...) como nos exibiu uma arma empunhada, ao descer da cabine!
Verdadeiramente, nem talvez então nos tenhamos apercebido da gravidade do momento, muito tenso e perigoso e que implicou o uso de força física para deter o condutor. Era já o medo do futuro próximo que punha os civis nervosos e ansiosos. Contra os militares! Para muitos deles, não passávamos de uns traidores e nomes piores nos chamavam. Foi o caso deste camionista!

NOTA: A foto de Paulo Santos pode ser vista em www.psantos44.blogspot.com

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O clarim que tocou em Águeda no Encontro dos Cavaleiros do Quitexe

Cavaleiros do Norte (Quitexe) no Encontro de 12 de Setembro, em
Águeda. Clicar na imagem, para a ampliar

MANUEL MACHADO
Texto

A organização do Encontro dos Cavaleiros do Norte, em Águeda, esteve impecável. Viu-se que foi um trabalho de organização muito bem planeado e que, verdadeiramente, esteve à altura do acontecimento.
Não faltou sequer o clarim, para tocar para o almoço! Foi um momento muito bonito e fortemente emotivo! Embora o toque fosse familiar, já há muitos anos que não o ouvia.
Por razões profissionais já não estive presente em alguns encontros e foi bom rever tanta gente que consideramos nossos amigos e aos quais estaremos sempre ligados emocionalmente.
O local onde decorreu a recepção é muito bonito e o almoço esteve bem servido e bem regado. Foi óptimo. Os encontros como os antigos camaradas são sempre momentos muito especiais, pois lembram factos passados bons e maus, revivem o passado em situações bem difíceis, mas que felizmente correram bem.
A homenagem aos que já partiram deste mundo é um momento importante! Não morreram na guerra, mas foram vítimas de outras circunstâncias - a que todos nós estamos sujeitos. Lembrarmo-nos deles é reviver a memória daqueles que estavam prontos a dar a vida pelos outros, com uma generosidade difícil de encontrar. E nos orgulha!
Depois. tivemos os relatos na primeira pessoa, de situações difíceis e que desconhecíamos.
Pode dizer-se que foi um dia marcante e bem passado, que nos enche de orgulho e que, espero, todos possamos repetir seja onde for no futuro.

- MACHADO. Manuel Afonso Machado, furriel miliciano mecânico de armamento. Natural de Covelo do Gerez (Montalegre), reside em Braga - onde é quadro superior da EDP.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Ser «professor» de 4ª. classe do inimitável e grande amigo Cabrita

António Cabrita e a mulher, no Encontro de Águeda de 1994 (em cima).
Capa do livro da 4ª. classe, em Angola (1974). Clicar, para ampliar



Por algum tempo fui uma espécie de professor, no Quitexe, nas chamadas aulas regimentais. Podendo haver - e certamente havia... - gente dos Grupos Especiais (GE) que não tivessem a 4ª. classe, a verdade é que as aulas eram (quase) exclusivamente frequentadas por militares brancos (europeus) e deles recordo o nosso inimitável Cabrita, soldado básico algarvio, que agora ganha a vida com barco de pesca aportado em Cascais.
Queria o Cabrita, sem a 4ª. classe, ter tal habilitação! E queria-a principalmente porque, regressando à vida civil, era seu objectivo seguir carreira profissional na área da pesca e ser patrão de barco. E sem diploma não havia carteira profissional. Mais: ele queria ser capaz de escrever à namorada, «coisa» que não era capaz e em cuja função o substituí tantas vezes.
Voluntariou-se, aprendeu a ler e a escrever, arrecadou o diploma da 4ª. classe e, já em Portugal, tirou a carta de patrão de barco (julgo ser assim que se chama) e é profissional de pesca de sucesso!
Dele tenho esta história bonita: querendo reencontrar-me e não sabendo (por ter esquecido) de onde sou eu, quis ir a um programa da SIC - o «Ponto de Encontro»... - para me localizar. Mas quis o destino que fosse eu, em 1994, a descobri-lo em Cascais - quando ele era do Alvor e por lá o procurara eu já algumas vezes. Procurava-o para o nosso primeiro encontro de Cavaleiros do Norte, 20 anos depois da partida para Angola.
Esta escola regimental, se mais não me deu (e deu...), deu-me um amigo de uma vida.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Um louvor ao capitão Falcão

O capitão Falcão, já tenente-coronel, no Encontro de Águeda de 1995


O capitão Falcão era o Oficial de Operações do BCAV. 8423 e dele já aqui falamos, em lisonja bem merecida e que, avaliada 34/35 anos depois dos contactos que a vida nos marcou, bem se pode dizer que não pecam por qualquer excesso. Por defeito, talvez!
O que o traz hoje e aqui é lembrar o louvor do Comandante da Região Militar Centro, agora extinta e ao tempo instalada em Coimbra, onde o capitão Falcão foi comandante de uma Companhia de Instrução de Condutores, no CICA 4 e com tal mérito que lhe valeu louvor. Curiosamente, a discrição que aqui lhe louvámos - ver AQUI, por exemplo - é razão citada no louvor: "Muito disciplina, discipklinador e muito discreto na sua acção de comando, muito leal e dedicado, foi preciosíssimo auxiliar do Comando, pelo muito mérito que revelou».
Era um dos bons Cavaleiros do Quitexe. As qualidades de comando foram sublinhadas no louvor do general comandante da RMC. E nós, hoje, 35 anos depois da ordem de serviço do BCAV. 8423 de Novembro, aqui lhe fazemos honra.
- FALCÃO. José Paulo Montenegro Mendonça Falcão, Capitão de Cavalaria e oficial adjunto do Comando do BCAV. 8423. Atingiu a patente de tenente-coronel. Reside em Coimbra.

domingo, 15 de novembro de 2009

A rotação do dispositivo militar do BCAV. 8423 em 1974

Vila do Quitexe, rua de baixo (avenida). Ao fundo, com o telhado mais
baixo, vê-se o edifício da enfermaria militar, em 1974/75


Novembro de 1974 foi mês de várias rotações no dispositivo militar do BCAV. 8423 - como já aqui foi dito. A 1ª. CCAV, por exemplo, abandonou a Fazenda de Zalala, onde estava desde o início da comissão - para Vista Alegre e Ponte do Dange, de onde saiu a CCAÇ. 4145/72, para Luanda.
Os abandonos dos espaços de soberania militar portuguesa eram vistos e sentidos com emoções diferentes: alegria, por um lado; alguma melancolia, por outro. Recordo a passagem de pelotões da 1ª. CCAV, em trânsito de Zalala para Vista Alegre e com breve paragem no Quitexe. Casavam a alegria de «sair de um buraco» para um espaço «civilizado». De irem estacionar numa povoação de alguma maneira já importante, localizada na estrada do café, asfaltada, ligando Luanda a Carmona (Uíge) - a principal (única) ligação entre as duas capitais provinciais e de Estado. E, por outro lado, de se sentir que ia ser um passo grande no caminho para o regresso a Portugal. Ainda iríamos esperar até Setembro, mais dez meses.
Ontem, fez 35 anos, reuniu-se no Quitexe a Comissão Local de Contra-Subversão. Voltaria e reunir no dia 29 - sem que nós, militares, sociais alguma soubessemos do que lá se falava. Por mim, estava a dias de fazer 22 anos.

sábado, 14 de novembro de 2009

Três minutos para estar na parada, em equipamento de combate!

O furriel Neto, em frente à Igreja do Quitexe. Do lado esquerdo, em
primeiro plano, está a caserna do PELREC, dentro da área
operacional da CCS do BCAV. 8423


O aquartelamento da CCS do BACV. 8423 estava «dividido» por vários edifícios civis - messes, enfermarias, transmissões, bar dos praças, depósito de géneros... - mas a zona operacional, digamos assim, estava concentrada no parque-auto, nas traseiras do edifício do comando. É o que vemos na foto.
O furriel da foto é o Neto e muito provavelmente terei sido eu a tirá-la. Daí, estar menos boa! A primeira caserna tem um particular significado para mim e o Neto: era a dos bravos soldados e cabos do PELREC. Quantos momentos de relevância e significados incomuns vivemos juntos e partilhámos em valentia e medos?!
Madrugada em que entrássemos, eu e o Neto, naquela caserna, era certeza segura de que íamos sair. Para operações militares, patrulhas apeadas ou motorizadas, para simples escoltas.
«Pelotão, três minutos para a parada, em equipamento de combate!», gritávamos nos, à Ranger, aos pontapés nas camas e sacudindo a pouca roupa que cobria os nossos companheiros.
Um de nós ficava por ali, a acabar de tirar o sono a toda a gente, enquanto o outro corria à cozinha, onde já se assegurava o mata-bicho da malta. Os condutores, os enfermeiros, os homens das transmissões já estavam a caminho da cozinha - eram, os primeiros a ser acordados - e o PELREC, impecávelmente rigoroso, logo saía em passo de corrida, da caserna para o mata-bicho, em menos dos tais três minutos!
Cumprir os três minutos, em menos tempo, era questão de honra para estes rapazes que nunca hesitaram um momento, quando alguns momentos os poderiam fazer hesitar. Tinham orgulho nisso!!! Tínhamos!

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

As injustiças das escalas de serviço...

Furriéis Viegas e Miguel, com o Posto 5 à direita
(identificado como Posto de Sentinela, na anotação inscrita)

As escalas de serviço nem sempre eram bem recebidas pelos Praças! E as dúvidas começavam logo ali, em frente ao placard, apontando A e B, como costumeiros beneficiados! Inúmeras vezes, houve lugar a desconfianças e mau estar, no que tocava à distribuição dos postos de vigilância.
«Outra vez aqui?!..Esta m… é só afilhados… Isto hoje não fica assim!...».
Não que não ficava… Era assim e ponto final!
A título de exemplo, dois serviços seguidos no Posto 5 já deixavam os nervos em franja! Ninguém gostava do sítio e com razão! Já tinha sido atacados e as marcas ficaram!
Não fazendo eu parte dessas escalas, e jogando por fora, sempre dava para perceber que por ali andava marosca! É evidente que quem se sentia injustiçado, por vezes não conseguia calar a revolta e demonstrava-o, muitas vezes com alguma veemência, embora não descurando o dever de aprumo! Mas era logo à partida uma causa perdida!
Uma ameaça de participação por indisciplina, era o último “argumento” para quem não tinha outro para esgrimir, o que logo denotava uma ausência de formação militar (e outras!...)! Estávamos em 1972/1973 e não havia espaço para grandes ou até pequenos protestos – e estamos a falar de Praças, a quem, por vezes, parecia querer ser imposto um tecto à inteligência! E que conveniente seria, em determinadas circunstâncias!
Para que estas situações não se repercutissem na camaradagem, abalando-a, havia sempre alguém de bom senso que palestrava e amaciava as hostes! O espírito de grupo estava bem alicerçado, muito se devendo ao Alferes Victor. Sempre atento, desdobrava-se a limar algumas arestas, para que ninguém saísse dos carris do companheirismo! E que inteligentes golpes de rins ele aplicava!...
Os tempos que se viviam na área militar do Quitexe eram muito difíceis, não sobrando tempo para as chamadas “coisas menores”, como ele dizia!
Honra seja feita a alguns comandantes de grupo que, arriscando quesílias, algumas vezes interferiram, exigindo mais respeito nas escalas! Mas até a tarefa destes se apresentava bem complicada, não sendo nada fácil aos milicianos “enfrentar” o pessoal do Quadro! Aquela máquina de retaguarda estava “bem” montada e coesa, com uma carcaça quase impenetrável! Felizmente, havia excepções, e elas eram de cinco estrelas! E ainda adianto: Que grandes saudades deixaram em todos nós!
Certo é que os operacionais, apesar de algumas injustiças e atropelos de que foram alvo, estiveram sempre disponíveis e sedentos de cumprir o seu dever! E cumpriram-no!

ANTÓNIO CASAL
1º. Cabo Rádio-telegrafista, da CCS do BCAV. 1917, no Quitexe em 1972/73
- NOTA: As injustiças não eram só com os Praças, caro Casal.
Eu mesmo me senti muitas vezes nesse papel de injustiçado. Eu e outros furriéis. Por exemplo, não havia dia especial do calendário (Natal, Ano Novo...) que não estivesse escalado. Até no dia dos meus jovens 22 anos! E valeria a pena discutir? Discutir, podíamos discutir, mas não valia de nada... - CV

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O capitão miliciano médico Manuel Leal

Alferes Garcia e Ribeiro, capitão Leal e tenente Luz na messe de oficiais do Quitexe

Um dos oficiais que «encheu as medidas» dos Cavaleiros do Quitexe, pelas empatias que gerou e cavalheirismo que assumia e partilhou, foi o capitão miliciano médico Leal. Competente no diagnóstico, virtuoso no receituário e de trato afável e permanente jovialidade, uma boa piada do dr. Leal valia por todos os comprimidos para qualquer maleita.

Havia necessidade de uma graça para o momento, aí estava a irreverência amadurecida do dr. Leal. Era preciso acudir a um civil adoentado, lá estava o dr. Leal - de auscultadores operacionais e maleta na mão, sempre disponível para testar qualquer febre ou suspeita que adoentasse o cidadão.

Era preciso ir às fazendas e aldeias de mata afora, lá íamos nós de arma entre os joelhos, de olhos bem abertos e a espreitar para os adiantes das picadas, sentados nos burros de mato, a comer pó e a temer perigos, mas sempre com a enorme alegria de servir e por escoltarmos o dr. Leal, para que acudisse ao povo sofrido.

O comando do BCAV. 8423 fez-lhe memória e elogio da sua competência profissional, porquanto, e citamos o louvor oficial de Setembro de 1974, «servindo no Subsector do Quitexe há cerca de dois anos, sempre demonstrou a maior competência profissional na resolução de todos os casos clínicos que he surgiram, com elevado espírito de servir, no que evidenciou perfeita identidade com a missão que lhe foi solicitada, nunca se poupando a sacifícios, nem olhando a horas de descanso, apoiando permanentemente as populações civis, africanas e europeias».

O dr. Leal, e disso eu sou testemunha (como se fosse preciso), não poupava a sua generosidade para servir, custasse-lhe isso centenas de quilómetros de picada, ou apenas as centenas de metros que o separavam da enfermaria militar e da Delegação de Saúde do Quitexe, de que era responsável.

Foi condecorado com a Medalha Militar Comemorativa das Campanhas do Exército Português, com a legenda ANGOLA 1972-1973-1974. Deixou o Quitexe, com missão cumprida, em Outubro de 1974.

- LEAL. Manuel Soares Cipriano Leal, capitão miliciano médico. Reside em Santo Tirso.

- BURROS MATO. Os Unimogs, viaturas de transporte operacional de militares.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Os enfermeiros que ajudaram grávidas a dar novas vidas ao mundo...

O Silva e o Santos, com crianças refugiadas no BC12, em Carmona (Uíge)

A foto assinala um dos momentos mais marcantes da comissão dos Cavaleiros do Norte em Angola. Estávamos nos primeiros dias de Junho de 1974 e os refugiados de guerra entraram porta adentro no BC12. Homens, mulheres, crianças, novos e velhos, todos fugindo da «lei da bala».
Não esqueço o que passaram os colegas enfermeiros, ao terem de acudir a mulheres grávidas. Era impensável tal vir a acontecer no princípio da sua especialidade, mas souberam salvar vidas e dar novas vidas ao mundo!
Sem dúvida, era muito agradável podermos ser úteis para quem mais precisava: as crianças. Nesta foto, podemos ver o Silva, rádio-montador, e o Santos, escriturário, com as crianças à porta da oficina dos rádio-montadores do BC12, em Carmona.
Mesmo em frente, era o parque-auto - onde, como na parada, foi montado um autêntico dormitório, com colchões de espuma. E no chão, é evidente!
RODOLFO TOMÁS

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O furriel que veio de férias e não voltou ao Quitexe...

Monteiro, Machado, NN (não lembro o nome) e Lages, na primeira fila.
De frente, Rocha, Fonseca, Bento, Viegas, Belo e Flora

A foto não tem a melhor qualidade, mas reflecte o espírito de camaradagem que se vivia na CCS do BCA. 8423, que missionou militarmente pelo Quitexe e Carmona. Tem quase 35 anos e refere-se à noite da ceia de Natal de 1974. O tempo passa.
Aqui à direita, em primeiro plano, está o Lages - que era atirador, portanto do PELREC, mas que foi «mobilizado» para o bar de sargentos e por lá jornadeou enquanto estivemos pelo Quitexe. De bigode e a fumar, à minha direita, a seguir ao Bento, está o Fonseca - que era furriel amanuense (do bem bom!...) e que, sendo lisboeta e tipo de alguma intelectualidade, gostava de isso mostrar, de forma que nos parecia algo petulante - e que descobrimos, afinal, ser mera forma de ser. Era bom um bom companheiro...
Dele recordo o passo aligeirado e miúdo, a caminhar sempre apressado e atrasado para o edifício da secretaria do comando, o ar franzino que nos olhava do alto do seu metro e noventa e tal, a genica que o parecia fazer tremelicar - como se estivesse sempre nervoso... - e a promessa que fez a todos nós.
«Quando for de férias, não volto...».
Nós ríamos, ríamos... e não demos por boa conta a jura do Fonseca. A verdade é que, em Janeiro de 1975, veio de férias até Lisboa e por cá se deixou prender. No Quitexe é que não apareceu mais...
Dele, contou o Monteiro uma pequena e curiosa história, no Encontro de Águeda, a 12 de Setembro de 2009: «Emprestou-me 200$00 em Lisboa, quando chegámos ao aeroporto, para eu fazer a viagem para o Marco de Canaveses, e nunca mais o vi».
Moral da história: ainda não lhe pagou! «Bom gajo!...», disse o Monteiro, Monteiro que, quase 35 anos depois, não esqueceu a dívida. «Quero pagar, pá... mas como?!».

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Os tiros e os homens perseguidos na estrada para Camabatela

Hospital do Quitexe, em 2008, sem a platibanda que tinha em 1974

Uma das tarefas que nos couberam por Novembro fora, de 1974, foi fazer a segurança aos homens da Junta Autónoma de Estradas de Angola (JAEA), que trabalhavam na estrada asfaltada de Aldeia Viçosa à Ponte do Dange e, em terra batida, na ligação para Camabatela.
Um dia, nesta e ao princípio de uma tarde de muito sol - como era hábito nas terras africanas... - estavamos por ali a deixar passar o tempo, cuidando que nada acontecesse a quem trabalhava, quando vimos dois homens a fugir pelo capinzal fora. Aos gritos! E tiros!! Espaçados!
Rapidamente soubemos o que se passava: eram perseguidos por um grupo de homens armados que lhe exigiam qualquer tributo. A situação foi sanada com a rapidez possível e o último cuidado foi levar os feridos para o Hospital do Quitexe, fazendo o respectivo relatório de serviço. Estou em crer que nada terá acontecido aos homens que, de arma em mão, corriam atrás dos outros dois, aos gritos de «bandido, bandido!...». Ou eram os perseguidos que gritavam? Já não sei!

domingo, 8 de novembro de 2009

O último patrulhamento do PELREC com um Grupo Especial (GE)

Vista aérea do Quitexe, em Março 1967. Foto cedida por José Lapa, do BART 786.
Carregar, para ampliar. Em baixo, o símbolo dos Grupos Especiais (GE)

Por estes dias de 1974, fizemos um patrulhamento com um dos Grupos Especiais (GE). Viria a ser o último. Recebemos instruções e vagabundeámos com eles pelas redondezas do Quitexe, até estacionarmos num pequeno aldeamento que se construía ao tempo - e se destinava precisamente aos seus elementos.
Vale a pena dizer que boa parte dos GE´s eram mais velhos que nós - nós, milicianos do Exército Português - e a maior parte deles chefes de famílias bem fartas, de quatro, cinco ou sete filhos. Cá para nós que ninguém nos ouve, havia a convicção generalizada (para não dizer certeza...) que boa parte deles fazia jogo duplo, colaborando com o chamado IN, compatriotas deles na luta pela independência!
Certeza havia era quanto à sua (in)eficiência - o que levou os comandos militares a, definitivamente, decidirem-se pela sua desactivação. Já andavam a ser preparados para isso -e disso já aqui falámos... - e para 30 de Novembro foi marcada a data. Muitos deles enfileiraram de imediato as forças da FNLA e do MPLA. Um deles, o João, vim eu a encontrar em Luanda, já em Agosto de 1975, salvo erro como capitão. E como ele me mostrou, orgulhoso, os galões a brilharem-lhe nos ombros, na avenida D. João II!!!
Por estes dias, no tal aldeamento em construção, todos falámos do futuro; o nosso, passando pelo regresso a Portugal; o deles, sobre o que iria acontecer a Angola. Mas não passámos as óbvias generalidades!

sábado, 7 de novembro de 2009

A reunião do MFA que não anunciou o regresso a Porugal

Edfício do Comando de Sector do Uíge, em Carmona (1974)

A 7 de Novembro de 1974 participei numa reunião do MFA/Angola, no Comando de Sector do Uíge (em Carmona), para a qual tinha sido eleito. Tudo aquilo era novo para mim, que sempre fui curioso de coisas novas mas ali me senti quase a mais. Vieram de Luanda uns senhores oficiais, que falaram, falaram, sem eu entender grande coisa.

A grande expectativa da tropa era, inevitavelmente, saber quando regressávamos a Portugal. Já havia o cessar-fogo, a guerra era coisa que não nos interessava nada, o que queríamos era vir embora. Que viessse lá a descolonização e o avião para Lisboa.

A esse nível, a tal reunião foi uma grande decepção. E eu evidenciei-me não pelo tom empolgado de muitos companheiros milicianos, que como eu não entenderiam as palavas bonitas e revolucionárias dos oficiais vindos de Luanda que para nós falavam, mas precisamente porque fui dos poucos (para não dizer o único) que não botei palavra. Na verdade, estava decepcionado.

Seguiu-se um breve «scotch com gelo», aproveitado para algumas trocas de impressões - e eu por ali a cirandar meio misantropo. Perguntou-me qualquer coisa, a dada altura, um dos oficiais de Luanda. A que respondi como pude. E perguntei-lhe se conheciam, lá em Luanda onde Rosa Coutinho fazia o que queria, se por acaso sabiam o que se passava na área do Quitexe. E pintei-lhe a manta com os dramas dos anos 61, 62, 63 que eu conhecia bem, de muitas leituras - acrescentando-lhe o sal dramático dos nossos dias. Pintei a dita manta como pude! Foi razão para, ainda nesse mês de Novembro, ser chamado a razões que um destes dias narrarei. E que voltaram a chapar-me na cara escritos meus sobre o drama dos produtores florestais do Préstimo, na serrania de Águeda e «coisa» que nada tinha a ver com o meu papel no MFA. Aliás, irrelevante!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O furriel de Vilarandelo que, afinal, não meteu o «chico»...

A Igreja da Mãe de Deus do Quitexe, nos anos 70 do Século XX

ANTONIO CASAL
Texto

O dia 23 de Julho de 1972, começou sereno e com a habitual Missa de Domingo. Não sei muito bem o que me levava à celebração, mas que me sentia bem, lá isso sentia!
Não primei pela assiduidade, mas sempre que marquei presença, fi-lo de corpo e alma. "Ouvir Missa...", fazia-me regressar um pouco à aldeia, à família e aos amigos. E porque do outro lado alguém estava doente, no caso a minha mãe, devo confessar que aquela hora não era isenta de algum sofrimento (se calhar muito...)!
Preces de cá e de lá e que certamente se cruzavam, sabe lá Deus onde!...A meu lado assistia à Missa o furriel Teixeira, muito compenetrado, sempre com a mão nos olhos! Traíu-o um pequeno soluço, de imediato disfarçado com algumas tossidelas, mas que deixava transparecer o seu estado de alma! Olhou para mim um pouco atrapalhado e, com o dedo nos lábios, fez um o sinal para que eu não abrisse a boca.
Finda a Missa, e para que se sentisse mais à vontade, afastei-me dele. Parecia-me demasiado perturbado! Não conseguindo lidar sozinho com a pressão, lá me procurou para aliviar um pouco as mágoas. Na varanda da vivenda, em cavaqueira mais franca que amena, abriu-se e contou o que o assaltava! Ao início, a muito custo, até que se foi "soltando"!
Já com olhos vermelhos e voz que pouco a pouco se embargava, falava da família e das preocupações que lhe tiravam a alegria e o sono. Chorou "baba e ranho" e sem nunca deixar de me olhar nos olhos. Nas suas palavras, não havia quaisquer sinais de azedume ou mal-estar! Gaita, por aquela não esperava eu!... Confiou-me partes da vida familiar que me deixaram um pouco atordoado e até incomodado!
«Nunca contes estas coisas a ninguém...é só o que te peço!...», dizia quase em tom de súplica, afim de salvaguardar a sua vida privada!
Depois de um monólogo de quase uma hora, lá consegui iniciar um diálogo que apaziguasse um pouco aquela aflição. Foi até ás duas da mdrugada, hora a que fomos interrompidos por um colega, que queria descansar e se queixava de sono leve!
Depois daquela conversa, passei a entender atitudes que não me tinham passado despercebidas nos primeiros três meses de comissão! Eu já tinha jurado a mim mesmo que tinha visto o furriel chorar, pelo menos uma vez! Não me tinha enganado!
Nunca quebrarei o sigilo que me pediu, mas adianto o que posso: o furriel Teixeira era oriundo de família extremamente pobre e que vivia da pequena agricultura, em terras de Vilarandelo! Foi para o seminário, mas viu-se forçado a abandonar para financeiramente ajudar a família - sendo o mais velho de oito irmãos, dele muito dependia o agregado familiar.
Fazia questão de que chegasse à família quase tudo o que ganhava, ficando apenas com uns trocos para umas cervejas, de vez em quando. Na consoada de 1972, confessou-me mal ter tocado no bacalhau - não conseguia! Não tinha muita certeza se havia fartura, ou falta, na mesa dos irmãos, o que o deixava em grande ansiedade e tristeza! Mas ele era assim mesmo! Pequenino e com um coração enorme! Não querendo partilhar as suas agruras com mais ninguém, muitas vezes sofreu pelo seu modo de estar.
Dizia não se poder abrir porque tinha chegado à conclusão que andava ali muito "filho da mãe"! Dizia-o com o ar mais ingénuo do mundo, como se estivesse a contar uma grande novidade!...
A escassos meses de terminar a comissão, fez-me uma pergunta muito directa e que me deixou de boca aberta: «Ó Casal, estou a pensar meter o "chico"!...».
Com ar incrédulo, olhei-o e perguntei: «Meter o quê?!... O chico?!...».
respondeu-me com voz segura: «Apesar de não gostar nada disto, tenho mesa garantida e posso ajudar melhor os meus irmãos!».
Engoli em seco e não respondi! Optou por não o fazer e diz que fez bem! Valha isso! Ainda hoje penso nas muitas coisas que preocupavam cada um de nós, sem que soubéssemos uns dos outros! E tanto tempo partilhado!...
- ANTÓNIO CASAL. Militar do BCAC. 3879, no Quitexe entre 1972 e 1973.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O Bispo da Diocese de Carmona (Uíge) em visita ao Quitexe

Tenente-Coronel Almeida e Brito, comandante do BCAV. 8423 e Capitão
Falcão (em cima) e D. Francisco Mata Mourisca (em baixo)

O Bispo de Carmona, D. Francisco de Mata Mourisca, esteve no Quitexe a 2 de Novembro de 1974, em visita repartida entre a comunidade católica e com contactos com a administração civil e os comandos militares.
O apostolado pastoral do bispo uígense em terras do Quitexe, não direi que passou despercebida na guarnição militar - não passou... - mas foi, digamos, discreta. Militares houve que da visita souberam apenas dias depois. Como foi o meu caso.
A 4 de Novembro, ausentou-se o comandante Almeida e Brito, que veio de férias para Lisboa - sendo interinamente substituído pelo capitão Falcão, oficial adjunto e de operações, que desempenhou o cargo com a sua convencional discrição e segura eficiência. Nesse mesmo dia, participou numa reunião de comandos que se realizou em Carmona, no BC12 - ele que, na véspera, nos entregara a ordem de operações para o encontro da aldeia do Dambi Angola.
A 6 de Novembro, no Quitexe, realizou-se a a reunião de comandos do subsector.
Os primeiro dias do mês foram tranquilos (comparados com Outubro) e preparava-se a rotação do dispositivo militar e a extinção de alguns aquartelamentos.
Ver texto sobre D. Francisco Mata Mourisca: http://209.85.229.132/search?q=cache:4f4wlINWM5YJ:quitexe-noticias.blogs.sapo.pt/2007/07/+D.+Francisco+Mata+Mourisca+no+Quitexe&cd=2&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

As metralhadoras Kalashnikov dos combatentes da FNLA

Viegas a experimentar e mostrar uma Kalashnikov a
Pires (de Bragança). Era do combatente que está à frente.

O histórico encontro com combatentes da FNLA, de faz hoje 35 anos, teve várias emoções. E medos! E dúvidas, nervosismo e ansiedade. É que tudo podia acontecer!

Não vale a pena, realmente, vir, aqui e agora, fazer evocações épicas de quaisquer heroísmos, ou deslumbramentos por, anonimamente, termos sido contributo activo para a história que se fazia. Ou da (não) importância de um momento que, confundindo-nos, nos amedrontou e simultaneamente galvanizou. E acabou em franca confraternização - que até deu, para além da cerveja e do tabaco distribuídos, para nos juntarmos em retratos para a posteridade. O de ontem, o de hoje e outros! Até, como se vê, para se experientarem as metralhadoras Kalashnikov dos combatentes. Bem mais leves e não menos eficientes que as nossas G3.

Ver em http://cavaleirosdonorte.blogspot.com/2009/04/o-encontro-com-guerrilheiros-da-fnla.html e ainda em http://cavaleirosdonorte.blogspot.com/2009/11/ordem-de-operao-para-aldeia-do-dambi.html

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A ordem de operação para a aldeia do Dambi Angola...

Aurélio e Viegas (em baixo) e Mendes das transmissões (?), condutor e Pires
A 3 de Novembro de 1974, há 35 anos!, o PELREC recebeu a talvez mais delicada ordem de operações de toda a comissão em Angola: uma saída na madrugada do dia seguinte, que nos levaria à sanzala do Dambi Angola, onde nos encontrámos com elementos da FNLA.
A história já aqui foi contada - ver em http://cavaleirosdonorte.blogspot.com/2009/04/o-encontro-com-guerrilheiros-da-fnla.html.
Aqui fazemos referência hoje, quando se passam 35 anos, talvez meramente como evocação sentimental - pois todos nós somos feitos da mesma massa que emociona e sofre, se dá e se partilha, massa irmã de todas as raças e credos.
Deixo aqui hoje uma surpresa desse dia: os combatentes da FNLA não sabiam, ainda, que tinha acontecido o 25 de Abril em Lisboa. Isso nos disseram. E algum espanto sobre a sua falta de atavio. Beberam cerveja connosco, depois de nós bebermos! E aceitaram os maços de cigarros CT!
Hoje, vejam lá..., soube (ou teria esquecido?!) que outro encontro houve com companheiros da CCAV. 8423 instalada na Fazenda de Santa Isabel.
Pela zona de acção dos Cavaleiros do Norte, na sequência do cessar fogo de Outubro, viveu-se por estes primeiros dias de Novembro uma acalmia muito sossegadora. Falava-se de «uma acalmia não encontrada ha longos anos».

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O cinema para os militares e civis do Quitexe e arredores....

O Clube Recreativo era o Cinema do Quitexe (foto de António Rei, tirada em 2005)

O salão do Clube Recreativo do Quitexe era a casa dos sonhos, onde acontecia o encanto, a beleza, a arte e todos os demais predicados que se podem atribuir ao cinema.
Três vezes por semana havia cinema. O filme vinha de Luanda e quando chegava, vários «Cavaleiros do Norte» se prontificavam a espalhar os cartazes de anúncio. Perguntarão alguns amigos: «Como é que ele sabe isto?
Pois! Durante cerca de sete meses ajudei a projectar os filmes que por lá passaram, e foram muitos. Foram muitas e muitas horas de filme e cuidados técnicos para que todos os «cavaleiros» e civis pudessem, dentro dos possíveis, usufruir de uma noite de cinema em tão precárias condições.
Tudo começou com o Mendes (?). eletricista-auto, do Casal Ventoso. Um dia convidou-me para ir falar com o responsável do cinema (o pai da Dussol) porque o som era "foleiro". Mas a realidade era outra, estava tudo tão velho e deficiente que havia a necessidade de assistência técnica permanente, devido à falta de acessórios no meio de África.
Já aqui foi dito mas vou repetir, quem projectava o filme era um «velhote» chamado Filipe e que o que ele queria era beber umas Nokais e dormir uma soneca. Era injusto a rapaziada pagar bilhete e ouvir-se mal, a imagem era péssima pois falhava a luz na projecção, etc. Hoje só lamento ter feito tanto sem nunca ter... mas se muitas vezes o fiz foi por amizade à grande maioria dos companheiros, que mereciam o melhor, principalmente aos que chegavam do mato.
RODOLFO TOMÁS
Texto

domingo, 1 de novembro de 2009

O alferes que queria pôr o encarregado civil em sentido...

Rua que ligava a estrada principal à avenida. Ao fundo, vê-se
a residência do comandante do BCAV. 8423. À esquerda, ficava a enfermaria militar


As chuvas torrenciais do fim-de-semana, além de terem transformado a avenida de baixo num autêntico lamaçal, tinham também causado alguns estragos na vila do Quitexe. Destas, apenas tirou proveito a garotada, fazendo uma festa na rua de cima, para gáudio dos adultos “entrincheirados” em casa e dos resguardados junto aos estabelecimentos!
Estávamos a 12 de Março de 1973, segunda-feira! As altas temperaturas que cedo se fizeram sentir, já indiciavam um dia abrasador! Mas a “certeza” disso viria da boca dum civil, na altura funcionário duma serração! «Vai escaldar, amigo…vai escaldar…», dizia ele, mas sem me olhar!
À rua da enfermaria chegara uma equipa de trabalhadores da Administração. Munidos de utensílios para escavações, bem cedo deram início aos trabalhos de abertura de uma vala para melhoramento da rede de águas A saturação era evidente e impunham-se medidas nesse sentido!
A habitual cavaqueira da hora de almoço foi interrompida, ao avistar-mos o alferes Serpa (oficial de Transmissões). Reteve-se junto à vala e pela sua cara (beiço descaído...), nada de bom iria sair dali! Só uma razão muito forte o obrigaria a apanhar aquele calor intenso e a abdicar da sua sesta diária! Flor de estufa, provocação debitada pelos seus companheiros “mais iguais”, como fazia questão de frisar, deixavam-no visivelmente indisposto! Todos sabíamos que tinha o péssimo hábito de se imiscuir em todas as áreas, ignorando as sucessivas chamadas de atenção!
Acabava sempre a levar para “tabaco”, mas no célebre dia em que se envolveu com o pessoal do ELREC levou para “charuto”… cubano…e grande! É que depois de um dia de pó pelas picadas, não houve mesmo a menor paciência para o aturar!...
Ao passar pelos trabalhadores negros, proferiu, em tom bem alto, algumas frases que não agradaram ao encarregado! Não as reproduzo por serem demasiado “pesadas”, mas que deram origem a troca de palavras nada amistosas… lá isso deram!
Nada habituado a que lhe respondessem à letra, direi que deverá ter sentido o chão fugir-lhe! Totalmente descontrolado e transpirando insegurança, virou-se altivamente para o capataz e ordenou-lhe que se pusesse em sentido!!!
«Em sentido o c…….!», respondeu este praguejando a pulmão cheio e com uma enorme ânsia de lhe pôr as mãos em cima! Não pôs, mas ainda tirou da cabeça o chapéu castanho de abas largas, em jeito agressivo!
“Querem ver que ainda lhe dá ordem de prisão!...”, comentámos! Mas não e ainda bem – sempre que o fez, deu-se mal! Era bem notório o rancor com que se olhavam, não deixando margem para dúvidas que por ali andava coisa que ultrapassava a obra e os artistas!
Casmurrices com muitos meses e que, de vez em quando, originavam algumas trocas de mimos, desnecessários e despropositados, dizia-se! Cenas que teimavam em fazer parte do dia-a-dia do Quitexe e que às vezes a nossa memória, “ingenuamente”, deixa escapar!
O aquartelamento não apenas cheirava a rosas! Por lá se misturavam odores que a Pátria bem dispensava! E nós também!

ANTÓNIO CASAL
Foto e texto

sábado, 31 de outubro de 2009

Cinema no Batalhão, a rodar os golos de Eusébio....

O O Clube do Quitexe, onde decorriam as sessões de cinema do BCAV. 8423,
em finais de Outubro de 1974. Eusébio, na foto de baixo

Eusébio?! O que terá Eusébio a ver com os Cavaleiros do Norte? Bom, Eusébio marcava muitos golos e, na altura já no pré-ocaso da brilhantíssima carreira, passava nos cinemas o filme «Pantera Negra», já com algum atraso de estreia. Um filme que lhe endeusava os feitos futebolísticos e nos apaixonava a nós - benfiquistas, ou não. Mas portugueses.
É dessa altura o já aqui falado travestismo do (furriel) Viegas, que se deixou em apalpar nos joelhos por um jovem oficial armado em galã, no escuro do cinema - o Clube do Quitexe (foto de cima).
O filme rodou por toda a área de acção do BCAV. 8423, depois de passar no Quitexe, destinando-se primeiramente aos tropas e depois também à população civil. Era, no fundo, uma actividade de acção psicológica pura e lembro, dessa altura, o entusiasmo com que um filme de cow-boys foi visto no aquartelamento de Zalala - no refeitório. Foi a única vez que lá dormi e, depois de longas horas de cervejas, pão e manteiga, pós-filme, dormitámos umas duas horas até ao regresso ao Quitexe. Arrancámos logo ao alvorecer, com os cuidados do costume mas apanhando um susto perto da Fazenda Alegria.
Ouviram-se tiros mas eram de caçadores... menos cuidados! Lá rebolámos nós, a ganhar posições nas laterais da picada, afinal para e por.. nada!
Soube este verão que, por aquelas bandas, nos duros primeiros anos de 60, o agora PSP reformado José Martinho, aqui vizinho, por lá sentiu os agravos de matança... - Era ele soldado de uma companhia de caçadores.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Apresentação de 6 elementos da FNLA às autoridades portuguesas

O PELREC, a 16 de Outubro de 1974. Em cima, da esquerda para a direita: Cordeiro,
Messejana, Florêncio, Soares, António (?), Ezequiel, Marcos, Dionísio, Caixarias
e Florindo (enfermeiro). Em baixo: Vicente (já falecido), Viegas, Francisco, Leal (falecido),
Mendes (?, transmissões), Hipólito, Aurélio (Barbeiro), Madaleno e Neto.
Clicar na foto, para a ampliar

Os primeiros elementos armados da FNLA apresentaram-se voluntariamente no Quitexe fez ontem 35 anos - a 29 de Outubro de 1974. Às autoridades militares e civis.
Disseram-se pertencer ao «quartel» de Aldeia e eram comandados pelo sub-comandante João Alves - julgo ser esta a designação hierárquica do responsável do grupo. Por nós, não demos por eles... e, naturalmente, o comando do BCAV 8423 nada nos disse sobre tal. Só dias depois, ante a nossa estupefacção, tivemos - os militares do PELREC (foto) - uma sumária explicação do oficial de operações, o capitão Falcão - precisamente a 3 de Novembro de 1974, dia em que, ao fim da tarde recebemos uma ordem de operação que (ante)previa um encontro do combatentes da FNLA - que veio a acontecer.
Ver em «O encontro com guerrilheiros da FNLA na mata do Quipemba», AQUI: http://cavaleirosdonorte.blogspot.com/2009/04/o-encontro-com-guerrilheiros-da-fnla.html.
Também soubemos depois que a razão da sua apresentação tinha principalmente a ver com o esclarecimento de actividades na serra de Quibinda, alegadamente atribuídas às forças armadas portuguesas, o que não correspondia à verdade. Eram grupos armados, que roubavam e pilhavam, ameaçavam e não sei se matavam. Facilmente se concluiu ser acção de elementos estranhos - que procuravam criar clima de desconfiança local, entre as nossas tropas e os combatentes da FNLA, num, período, recordemos, em que já estava estabelecido o cessar-fogo.
A alguns deles, tinham ocorrido o PELREC e o pelotão de sapadores, sem que alguém fosse denunciado. O mês de Outubro fechava com (des)confianças e esperanças. Principalmente a de um rápido regresso a Portugal.
Bem esperámos... Até 8 de Setembro de 1975.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O condutort Breda a apanhar ananases pela raíz...

Condutor Joaquim Breda, com a família, num Encontro de Cavaleiros do Norte



RODOLFO TOMÁS
Texto

Ao ver o plantio de ananases (ou abacaxis?) do post de ontem, veio-me à memória um caso muito engraçado e que aconteceu em Carmona - já estavamos nós no BC12.
Quem se lembra do condutor da secretaria do Comando? O seu nome era Breda (também nome de metralhadora...). Bom moço, muito calmo, de quase dois metros de altura, às vezes até era pena não usar a sua estatura. Pode dizer-se, e ele não leva a mal, que era tímido. Mas vamos à história: um belo dia, estávamos nós a queimar muita papelada, do lado de fora - por onde saiam as viaturas, junto ao depósito da água - quando eu, o Santos (cabo escriturário) e o Breda reparámos num bonito terreno cheio de abacaxis(!).
Pedimos ao Breda: "É pá, podias fazer um favor...».
«E o que é?», perguntou ele.
«Como és mais forte, podias ir ali aquele terreno e trazias alguns abacaxis», dissemos nós, respondendo ele que «está bem».
Eu e o cabo Santos estávamos atarefados para não perdermos nenhum documento, visto serem de procedências diversas: confidencial, secretos ultra-secretos, etc., essas coisas,. e continuámos na nossa tarefa,
A dada altura, lembrámo-nos: «O Breda?».
Olhámos para o terreno e vimos que, afinal, fizeramos mal. Ao fim de um ano de comissão, o nosso amigo Breda ainda não sabia que este tipo de fruta nasce em cima da planta e era vê-lo cheio de garra, com aquele físico todo, a arrancar as plantas.

«Ora aqui, esta não tem, esta também não....», contava ele.
Para o Breda, um enorme abraço.
RODOLFO TOMÁS
- BREDA. Joquim Rama Breda. 1º. cabo condutor, natural e residente ma Barosa (Leiria).
- SANTOS. Emanuel Miranda dos Santos, 1º. cabo escriturário, natural da Gafanha da Encarnação (Ólhavo) e residente nos Estados Unidos.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O jornal da 1º. aniversário dos Cavaleiros do Norte em Angola


A página 1 do boletim (ou jornal) que assinalou o primeiro (e único) aniversário do Batalhão de Cavalaria 8423, em Angola. Pela altura, em Junho de 1975, estávamos estacionados na cidade de Carmona, agora chamada Uíge - no BC12.
As ilustrações, como já por aqui informámos, foram de Humberto Zambujo e a página mostra o que se poderia chamar editorial - aqui denominado Abertura, com as duas espadas de Cavalaria a enobrecer o texto do Tenente-Coronel Almeida e Brito - o comandante do BCAV. 8423.
Clicar na imagem,
para a ampliar e ler.

O golpe de mão que não chegou a ser... porque não era!

Os serviços nocturnos não eram pêra doce, no Quitexe. Os postos de vigilância ficavam à volta da vila, a várias centenas de metros - que nos obrigavam a longas e prudentes caminhadas! A sanzala, cujo nome não lembro, ficava nas traseiras da administração civil e por ali tinha um dos postos de vigia dos mais temidos da noite.
Descia-se e subia-se um caminho de terra, com uma subida íngreme à chegada de enormes campos da ananás. E lá ficava, em cima, o posto, de três pisos, com as respectivas vigias. Muitas vezes, por ser distante, ia-se de jeep. Como na noite a que reporto.
O grupo da ronda, para se assegurar da forma como era feita a vigilância, resolveu ir sem luz, a partir de certa altura, e parou a uns 100 metros, talvez 150..., do posto. E progredimos, com toda a técnica aprendida na serra de Penude, no duro curso de Operações Especiais - os Rangers, de Lamego.
A noite era soprada de uma brisa quente que nos goticulava a testa, a cara e escorria por todo o corpo abaixo. Estranhamente, não havia sinais que se vissem do posto de vigia. E devia haver! Continuámos, até rastejámos e... nada! Já era preocupante! O que estaria a acontecer? Chegámos junto ao posto e... nada. E apanhámos um susto: ao olhar uma plantação de ananás, a brisa quente fazia ondear as folhas, parecia um mar! Um mar que nos amedrontava! O posto de vigia tinha a porta aberta, o que também era estranho! Teria havido um golpe de mão?!
Entrar, não foi fácil, estávamos com medo! Sem saber o que nos esperaria! Mas entrámos, em silêncio sepulcral, a transpirar de medos. Subimos ao primeiro piso, pela escada de madeira, a chiar! E... nada. Vimos dois vultos estendidos, como se dormisssem. Supusemos o pior. Um de nós, pisou uma G3 e confirmámos que estavam vivos! Dormiam!!! Pronto, golpe de mão não havia! Mas... e o militar que deveria estar de vigia?! Sabíamos quem ele era e sussurrámos o nome, sem qualquer eco de resposta. Subimos ao piso de cima e lá estava ele, de mira apontada para o lado do Quitexe, para a caminho que nos trouxera.
Poupemos palavras: ele ouviu o barulho e a luz do jeep, mas deixou de o ouvir e de a ver, sem identificar o que quer que fosse. Fixou-se, à distância de uns 150 metros, no que ele próprio não queria ver: um potencial perigo. E não via. Nós tínhamos progredido, no silêncio da noite quebrado pela brisa, já fora do ângulo de visão dele. No piso de cima, chamámo-lo e ele confundiu-nos com os dois companheiros de vigia.
«Estou a vê-los! Acolá....». E apontava para de onde nós vínhamos!
Demorámos tempo até que o conseguimos tranquilizar. Foi uma noite de medos! A de um golpe de mão que não chegou a ser... porque não era?

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O cessar-desarmamento dos milícias da região do Quitexe

A rotação do dispositivo militar do Batalhão de Cavalaria 8423 projectou-se em
Outubro, para Novembro de 1974. Há 35 anos. O Comandante Almeida e
Brito, Tenente-Coronel, em baixo, à esquerda



Hoje, há 35 anos, dia 26 de Outubro de 1974, realizou-se no Quitexe uma reunião dos comandos militares com todos os regedores da região - procurando sensibilizá-los para a necessidade do desarmamento das milícias.
Havia naturais constrangimentos de muita e boa gente, em face do pré-anunciado cessar-fogo e do seu futuro próximo, e sabia-se da indisponibilidade, ou pouca/nenhuma vontade de muitos, quanto ao largar de armas. Ja por aqui falámos disso.
A reunião procurou fazer ver a necessidade de entregarem o armamento e, com ou sem vontade, a verdade é que a capacidade negocial do Comandante Almeida e Brito levou os regedores e milícias a iniciaram a deposição voluntária das armas a partir de 28 de Outubro - fará 35 anos na próxima quarta-feira. Como o tempo passa! E vale a pena lembrar que tudo correu muito bem - lembrando-nos nós de algumas lágrimas a cair cara abaixo de alguns velhos servidores do Estado Português! Choravam para dentro!
Acontecimento relevante para o BACV. 8423 vinha noticiado de véspera: iniciou-se a rotação do dispositivo militar liderado pelo BCAV. A Companhia de Caçadores 209 iria sair a 8 de Novembro, abandonando o Sub-Sector. E a CACÇ. 4145 iria para Luanda - igualmente no decorrer de Novembro. A 1ª. CAAV. 8423 iria instalar-se em Vista Alegre. Iniciava-se a rotação que, em Março de 1975, nos levaria para o BC12, em Carmona.

domingo, 25 de outubro de 2009

O Boletim do 1º. aniversário dos Cavaleiros do Norte em Angola

Capa do Boletim do Batalhão de Cavalaria 8423


O BCAV. 8423 editou um boletim policopiado a comemorar o aniversário da chegada a Angola. Escreveu o comandante Almeida e Brito que «a evolução do nosso conhecimento, desde a fase de instrução até ao actual cumprimento do processo de descolonização, passando por um período transitório de acções militares, permite-nos poder afirmar que todos souberam interpretar a afirmação de "QUERER E SABER VENCER» que tantas vezes foi usado nas nossas conversas».
Concluía a sua «abertua» considerando que «QUERER E SABER VENCER», lema que nos orientou e que nos vai acompanhar no resto da comissão, como nisso imperativo de vida, é a melhor lembrança para o futuro, com a certeza plena de que, vivendo-o, nos restará a consciência plena de dever cumprido».
Passados 34 anos, não há que ter dúvidas da plena assumpção de responsabilidades do BCAV. 8423, num processo de que, porventura, ainda não foi feito o balanço. Mas todos os Cavaleiros do Norte sabem, e sentem orgulho, de terem sido parte da história, num momento nuclear da vida das nações irmãs. - B. CAV 8423. O boletim, de 16 páginas, teve ilustrações de Humberto Zambujo e variada colaboração, da qual falaremos um destes dias.

sábado, 24 de outubro de 2009

Os homens que gritavam pelo Neto e com armas na mão

Neto e Viegas, dois furriéis do Quitexe, com a aldeia Canzenda ao fundo.
O apelido Neto foi vulgarmente «confundido», por quem o supunha familiar
do presidente do MPLA (Agostinho Neto)



Os últimos dias de Outubro foram de algumas tensões na zona de acção do BCAV. 8423. Em particular, na zona administrativa do Quitexe.
Algumas vezes se tem discutido sobre qual a actividade mais perigosa: se a da guerrilha que se desenvolvia na mata, se a urbana. O BCAV. 8423 viveu as duas! A de mato com graus de intensidade que não se compararão aos dramáticos primeiros anos da guerra colonial, mas, como se costuma dizer, cada um sente as suas dores.
Nós sentimos as nossas e os últimos dias de Outubro de 1974 foram disso exemplo. Foram os de complicados patrulhamentos no asfalto e o desarmamento das milícias, como já aqui foi dito. Desarmamento muito mal aceite pelos povos, nomeadamente os das jurisdições administrativas do Quitexe e Aldeia Viçosa - que viam nos milícias a sua defesa a eventuais ataques. Não que se acreditasse muito na sua eficácia, bem pelo contrário - havia até a ideia de uma certa promisquidade com o chamado IN. Mas havia sensibilidades muito específicas pelo meio, medos de vinganças e de algumas delas se soube. E a tropa, valha a verdade, não chegava a todo o lado. E onde chegava, nem tudo corria bem!
Por esta altura, o PELREC foi várias vezes chamado a intervir e quase sempre acontecia um problema: confundia-se o apelido Neto, o furriel, com Agostinho Neto, o líder do MPLA. E a zona era da FNLA. Valia-lhe, e valia-nos, a cor do Neto furriel para desfazer dúvidas. Como a de um destes dias finais de Outubro de 1974, no Tabi (ou no Caunda?), quando a meio da tarde regressávamos de uma missão na Quimucanda, com paragem na fazenda Pumbassai. Fomos intimidados por um grupo armado, que se aprestava a roubar as armas aos milícias da aldeia - antecipando-se ao desarmamento. Digo-vos que não foi fácil!!
«Esnéeeneto, Esnéeeneto, Esnéeeeto!!!...», gritavam.
O que supôs, inicialmente, ser uma exultação pacífica, rapidamente se percebeu ser inamistosa e recordo a prontidão do cabo Vicente, a encostar a G3 a um dito IN. E nem vou narrar a escaramuça, que foi tão rápida quanto perigosa.
«Nunca mais é Novembro!...», disse-me o Neto, nessa noite, enquanto devorávamos um bife com ovo a cavalo, no restaurante do Pacheco.
O Neto vinha de férias dias depois...
- PELREC. Pelotão de Reconhecimento, Serviço e Informação, da CCS. É aqui muitas vezes referido, por eu próprio o integrar e, naturalmente, o conhecer melhor que qualquer outro. As sucessivas referências não diminuem, em nada, a capacidade operacional, a aptidão e o garbo militar de qualquer outro pelotão do BCAV. 8423. Todos iguais, porventura melhores que o PELREC.