segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A mobilização militar para Angola...

Cópia da Ordem de serviço do CIOE, com a mobilização dos (então) 1ºs. cabos
milicianos Monteiro, Viegas e Neto. Clicar na imagem, para a ampliar


O tempo faz-nos esquecer momentos relevantes da nossa vida, mesmo quando são marcantes - por qualquer razão. A minha mobilização para Angola foi publicada na Ordem de Serviço nº. 286 do Centro de Instrução de Operações Especiais (CIOE), em Lamego, a 7 de Dezembro de 1973. Já lá vão mais de 36 anos!
Sabia ter sido em Dezembro desse ano, não me lembrava o dia mas dele não esquecia o telefonema feito dos Correios de Lamego, para a minha vizinha de Ois da Ribeira (minha residência, perto de Águeda), com recado para minha mãe, ao tempo recentemente viúva: «Vou para Angola!...».
Ir para Angola, para o nosso ego (ainda) era a mobilização que melhor nos poderia acontecer. Haveria «menos porrada». Pior seria em Moçambique e Guiné! De modos que, entusiasmado, fiz saber à Cinda, a vizinha, dessa sorte que me calhara na mobilização e para dela dar a nova a minha mãe. «Já não vens a casa?...», perguntou-me ela. Claro que fui. Pela frente ainda tinha o RC4, em Santa Margarida. E a partida, a 29 de Maio de 1974.
Ontem, encontrei cópia da Ordem de Serviço, verifiquei o dia e aqui a deixo em imagem, na parte que me indica mobilizado para Angola - assim como o Neto e o Monteiro, os três de Operações Especiais. A mobilização propriamente dita já fôra publicada na Nota 47000 - Pº. 33.007, de 17 de Novembro de 1973, da RSP/DSP/ME.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Correio, política, guerra civil e as «adolescentes» noites de Luanda


Aerogramas e cartas eram, em tempo de comissão militar, um bálsamo e um incentivo permanentes. Fosse pelo meus lindos olhos, fosse lá pelo que fosse, era bem correspondido por terras do Quitexe e Carmona, depois em Luanda - neste caso, já por Agosto e Setembro fora de 1975. Os 15 meses que andei por Angola, «deram-me» mais de 900 epístolas.
Guardo-as religiosamente e na tarde de hoje, regada de frio que me prendeu em casa, dei-me no sotão a reler o que, por terras angolanas, me tonificou para uma comissão tranquila e..., digo eu, bem vivida! O aerograma da imagem foi escrito em Luanda e recebido faz hoje 35 anos! Um amigo meu, por lá em serviço na Força Aérea, vinha dar-me notícias dos nossos (meus e dele) romances da capital-Luanda e dar-me também novas da sua precupação sobre a evolução política portuguesa: «Parece-me que vai continuar barulho na metrópole e cheira-me a guerra civil, dentro de poucos tempos. Oxalá m´engane...».
Sobre romances, avocava-me as tardes e noites quentes e de cio, os sensuais encontros e ardentes desejos e actos de uma Luanda que cabalmente enchia muitas medidas do nosso fulgor jovem! Tardes e noites pelas quais espraiávamos o fogo da nossa juventude. «A (fulana) continua nas núvens. Na 5ª. feira fui ao cinema Restauração e estava a tirar o bilhete quando ela apareceu com a (beltrana) para o mesmo (..),. Só te digo que pareciam umas senhoras da alta sociedade, tal a forma como vestiam. A (fulana) piscou-me o olho, tivemos os cumprimentos de lei, falámos uns breves momentos, perguntou por ti, lá lhe dei a tanga que pude e reparei que anda à espera de algo teu. Vê lá no que te andas a meter, pá... Quando quis entrar em pormenores, desfez a coisa e eu lerpei! Está apanhadinha...».
Assim se ia por Angola, há 35 anos!
NOTA: O amigo deste aerograma já faleceu, vítima de doença. Fôra meu companheiro de escola e, regressado a Portugal, ingressou na função pública e licenciou-se em Economia. Foi quadro superior do Direcção Geral de Contribuição e Impostos e exerceu actividade política. Fulana e Beltrana eram duas adolescentes em tempo de sonhos. Os nomes foram intencionalmemte omitidos.

sábado, 9 de janeiro de 2010

A independência de Angola e a Cimeira de Mombaça

Fotos do tempo e retiradas da net

Ao Quitexe chegavam, por estes dias de Janeiro de 1975, notícias do Encontro de Mombaça, no Quénia, nos dias 3 a 5, que reuniu os representantes dos três movimentos emancipalistas de Angola. O objectivo era definir os termos da independência.

Os pormenores que nos chegavam eram naturalmente pouco esclarecedores e muito superficiais e, por nós, até havia alguma surpresa sobre o entendimento entre os três movimentos: FNLA, MPLA e UNITA tinham acordado numa plataforma comum para negociarem com Portugal a independência de Angola. Por exemplo, com um exército angolano constituído pelos movimentos.
A surpresa tinha a ver com o nosso conhecimento local, pois as forças nacionalistas estariam profundamente divididas: a FNLA, muito concentrada no norte (a nossa zona de acção) e dirigida por Holden Roberto; o MPLA chefiado por Agostinho Neto; e a UNITA presidida por Jonas Savimbi.
A mediação, na queniana Mombaça, foi do Presidente Jomo Kenyatta e os três movimentos de libertação de Angola organizaram uma “plataforma de entendimento», indo de seguida para Portugal negociar a independência do país - na Cimeira do Alvor, no Algarve.
Pelo Quitexe, pouco sabíamos nós do que se passava e, para falar verdade, da muita literatura lida sobre este histórico encontro, pouco consegui perceber - para alguém da evidência de cada um dos movimentos a si querer chamar importância mais decisiva no processo de independência. São contas de um rosário que eu não sei contar.
Em Dezembro de 2005, em duas longas horas de espera no aeroporto de Hong Kong (de uma viagem que nos trazia de Macau para Londres) calhou falar disso com o dr. Almeida Santos, ao tempo (1974 e 1975) Ministro da Inter-Coordenação Territorial, que me deu conta de pormenores que aqui poderia relatar mas que omito, com receio de não ser rigoroso.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O último dia do Pelotão de Morteiros 4281 no Quitexe

Alferes Leite, à direita, comandante do Pelotão de Morteiros 4281 - com
os também alferes Garcia (à esquerda, já falecido) e Ribeiro, ambos da CCS


A 4 de Janeiro de 1975 completou-se a transferência do Pelotão de Morteiros 4281, do Quitexe para a cidade de Carmona - iniciada a 20 de Dezembro de 1974. E pela vila do Quitexe começava a segredar-se a eventual instalação do BCAV. 8423 no BC12, na capital provincial do Uíge
O BC12 estava localizado na cidade desde 1961 e ia ser extinto. Nada melhor que ir para lá - o que para nós significava, também, ir para zona urbana mais qualificada e galgar mais uma etapa do nosso regresso a Portugal e às nossas casas. De Portugal, pelo Jornal de Notícias e Expresso, chegavam notícias sobre as negociações do Governo Português com os dirigentes do MPLA, FNLA e UNITA e as mensagens de familiares e amigos apontavam todos na mesma direcção: no continente cada vez mais se murmurava o iminente regresso das tropas das frentes ultramarinas.
A frente norte angolana, essa, registava por esta altura alguns incidentes entre militantes dos movimentos - até aí de combatentes e agora dirigentes políticos.
O Pelotão de Morteiros 4281 era comandado pelo alferes Leite, açoriano (à direita, na foto) e, no Quitexe, era um dos que reforçava a guarnição da CCS. Já lá estava, quando chegámos - a 6 de Junho de 1974.
Voltaríamos a encontrar-nos no BC12.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O(s) morto(s) entre os Cavaleiros do Norte


O BCAV. 8423 teve a felicidade de não ter mortos em combate. Tenho ideia (que não consegui confirmar) de um companheiro de uma das companhias operacionais ter falecido vítima de um acidente à entrada da rotunda de Carmona, quando ia de motorizada.
Agora, o Buraquinho vem comentar o falecimento do companheiro que venceu a prova de S. Silvestre do Quitexe. E conta assim, por palavras dele:
«O Fernando, que era conhecido por Spínola e era da 2ª. companhia operacional, morreu junto de mim num acidente de viação, na curva a seguir à fazenda Pumbaloje, no sentido de Quitexe para Carmona. Íamos de boleia e o carro em que ele seguia (uma Renault 4L), conduzida pelo empreiteiro de estradas do Quitexe que se chamava Sidónio, foi contra a ambulância da delegacia do Quitexe que tinha sido roubada pelos combatentes da FNLA.
Além do militar português também morreu um guerrilheiro da FNLA e o Sidónio ficou gravemente ferido. Eu peguei no Spínola e no Sidónio (que era o empreiteiro) e meti-os na viatura em que eu ia (por casualidade, os carros eram da mesma marca).
O condutor era o empregado do restaurante Shop-Shop, de Carmona. Viemos para a delegacia do Quitexe e enquanto o enfermeiro José Maria Ferreira Lobo fazia os 1ºs. socorros, eu fui à procura do capitão Paulo Fernandes, comandante da 2ª. companhia, dizendo-lhe que o Spínola tinha morrido de acidente e ele disse que estava maluco, porque ele tinha saído há minutos da companhia. Perguntou-me pelo corpo e eu disse que estava na delegacia, com o Sidónio. Então, o capitão Paulo Fernandes pegou no Sidónio e conduziu-o ao hospital civil de Carmona, comigo e com o enfermeiro José Maria Lobo - lá ficando ele internado».
Texto de Alfredo Coelho
(Buraquinho), adaptado da
versão original

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Os garbosos soldados da CCS do Batalhão de Cavalaria 8423

Alguns militares do PELREC. Em cima, da esquerda para a direita: Cordeiro, Messejana, Pinto, Soares, António (?), Ezequiel, Marcos, Dionísio, Caixarias e Florindo (enfermeiro). Em baixo, pela mesma ordem, Vicente, Viegas, Francisco, Leal, Mendes (?, transmissões), Hipólito, Aurélio, Madaleno e Neto. A foto é de 16 de Outubro de 1974. Clicar na imagem, para a ampliar.


Aqui mostrámos, nos últimos dias, os rostos de oficiais e sargentos do Comando e da CCS do Batalhão de Cavalaria 8423. Gostaríamos de aqui editar todos os nossos amigos cabos e soldados que, garbosamente, integraram este grupo que, a África, foi fazer história num momento muito especial de Portugal e de Angola.
Tal é, porém, impossível.
Na verdade, não temos - antes longe, mas mesmo muito longe disso - espólio fotográfico que tal permitisse. Como gostaríamos. Alguns deles, todavia, aparecem neste espaço, na coluna da direita do blogue e, tanto quanto pudermos, por aqui os iremos identificando. Outros aparecem, também, nos muitos postes já publicados.
Simbolicamente, aqui editamos uma foto do Pelotão de Reconhecimento, Serviço e Informação - o PELREC - e nem este está completo, como homenagem a todos quantos, sendo Cavaleiros do Norte, foram homens que, sem fugir a responsabilidades mas antes com coragem, determinação e honra, ficaram na história que este blogue vem registando.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Ós três furriéis Ranger´s e Cavaleiros do Quitexe

Neto, Viegas e Monteiro, furriéis de Operações Especiais (Ranger´s)

Os furriéis milicianos da CCS eram 15 e... faltavam estes três, no rol de imagens fotográficas que aqui temos vindo a estender. O Neto, o Viegas e o Monteiro, três «Operações Especiais» formados no terceiro curso de Rangers de Lamego, de 1973. Há quase 36 anos.
Ora vejam:
- NETO. José Francisco Rodrigues Neto, empresário industrial. Natural e residente em Águeda. Apanhou alguns «sustos» por causa do apelido - o mesmo do então presidente do MPLA, estando o BCAV. 8423 instalado em zona maioritariamente da FNLA.
- VIEGAS. Celestino José Pinheiro Morais Viegas, jornalista e gestor. Natural e residente em Ois da Ribeira (Águeda).
- MONTEIRO. José Augusto Guedes Monteiro, aposentado dos STCP e empresário, natural de Vila Boa de Quires (Marco de Canaveses) e residente em Paredes (Porto).

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Os furriéis de alimentação e informações e operações



A irmandade de furriéis quitexanos da Companhia de Comando e Serviços (CCS) do Batalhão de Cavalaria 8423 era vasta e muito heterogénea.
Dois deles, eram de «secretaria» - porque é preciso quem prepare as coisas, como deve ser e para que sejam bem feitas. E, em tempo de guerra, uma boa informação, um bom ordenamento operacional e uma mesa farta, apetitosa e de qualidade, valem por muito e para todos.
Aqui estão dois deles, dois bravos Cavaleiros do Quitexe:
- DIAS. Francisco José Brogueira Dias, furriel miliciano de Alimentação. Natural e residente na cidade do Porto, onde é funcionário bancário. A foto, a cores, é do dia 12 de Setembro de 2009 - durante o Encontro dos Cavaleiros do Quitexe, na Estalagem da Pateira, em Fermentelos (Águeda).
- BENTO. Francisco Manuel Gonçalves Bento, furriel miliciano de Informações e Operações. Natural do Barreiro, reside e trabalha em Portalegre. A foto é da noite de passagem de ano de 1974 para 1975.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Militar de Aldeia Viçosa e Vista Alegre procura companheiros do BART. 1854


António Maria Dias Lopes foi militar em Vista Alegre e Aldeia Viçosa e procura companheiros da Companhia de Artilharia 1410, do Batalhão de Artilharia 1854, que por aquelas bandas estacionou entre 1965 e 1967.
Aí está ele, na primeira pessoa:
Escrevo de França, onde passo longo e apreciado tempo consultanto tudo relacionado com Aldeia Viçosa e Vista Alegre. Também passava várias vezes a Quitexe, com destino à roça creio que Luísa Maria. Qual não foi o meu prazer, especialmente de ver as casas de Aldeia Viçosa, onde permaneci um ano como 1°. cabo auxiliar de enfermeiro. Depois, fomos para Noqui.
Gostava de contactar os meus companheiros desse tempo. A Companhia de Artilharia 1410 partiu de Vila Nova de Gaia, do Quartel da Artilharia Pesada n°2, em Setembro de 1965. Regressou nos fins de 1967.
Nasci e vivo, n período de verão, em Meia Via (Torres-Novas).
António Maria Dias Lopes
careca.diaslopes@gmail.com, telefones 964 186 136,
00 33 322 257 036 e 249821068

Furriéis de serviços da CCS do BCAV. 8423 do Quitexe

Machado e Cruz (em cima) e Fonseca (em baixo), furriéis da CCS do BCAV. 8423


Os furriéis milicianos da CCS do BCAV. 8423, no Quitexe, eram, com as excepções que fazem a regra, um grupo solidário e unido, nas suas diferenças. Diferenças culturais sociais, de formação cultural e profissional.
Hoje, lembramos os rostos de mais três.
- MACHADO. Manuel Afonso Machado, furriel mecânico de armamento, à esquerda, na foto. Natural de Covelo do Gerez (Montalegre) e residente em Braga, onde é quadro superior da EDP. É dele o célebre epíteto de «beduíno» - atribuído a alguém com quem não se engraçasse.
- CRUZ. António José Dias Cruz, furriel miliciano mecânico rádio-montador. Natural de Cardigos (município de Mação) e residente em Lisboa, onde é quadro da Câmara Municipal.
- FONSECA. José Carlos Pereira da Fonseca, amanuense. Natural de Lisboa. Veio de férias em Janeiro de 1975 e não regressou ao Quitexe.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Reencontro com Mário Matos, o memorizador de números mecanográficos

Viegas e Matos, em Março de 1974, no RC4 (Santa Margarida)

Hoje «achei» o Matos, furriel da 2ª. Companhia de Cavalaria do BCAV. 8423, instalada em Aldeia Viçosa. Furriel miliciano atirador de cavalaria, fez comissão na secretaria - depois de umas semanas de mato... - e já aqui falei dele para fazer história da sua extraordinária memória: capaz de decorar todos os números mecanográficos da companhia.
Houvesse dúvidas e hoje as teria desfeito: lá me citou ele, de cor e salteado e sem lhe perguntar, o nome completo do capitão Cruz e... o número mecanográfico. Sem tirar ou pôr algarismo. Ou letra. José Manuel Romeira Pinto da Cruz, nº. ... tal!
Eu vinha de Coimbra, onde a vida me levou por algumas horas, e, no regresso, nem é tarde nem é cedo, aí fui eu à cata do Matos, em Anadia. Podem imaginar o desfiar de recordações feito ali no correr da memória - desde quando nos batemos nas operações especiais, em Lamego, nos reencontrámos em Santa Margarida (já mobilizados) e fazíamos as longas horas de viagens de ida e volta, no «velho» SIMCA 1100 do Neto. Até ao Uíge angolano!
Fiquei a saber que a 2ª. Companhia se reúne todos os últimos sábados de Setembro - foi em Évora, em 2009; e Gaia, em 2008 - e que este ano será em Penafiel. A CCS é que andou a perder, estes anos todos, desde 1997 até 2009!
O Matos prometeu histórias e fotos para o blogue e com ele e o Ferreira (que era enfermeiro da 2ª. CCAV.) irei palrear de hoje a duas semanas.
Ver mais do Matos em http://cavaleirosdonorte.blogspot.com/2009/06/matos-o-furriel-memorizador-de-numeros.html e ainda em http://cavaleirosdonorte.blogspot.com/2009/12/o-matos-e-o-letras-da-companhia-de.html

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

A noite de passagem de ano da 1974 para 1975

Noite de passagen de ano no Quitexe de 1974 para 1975. Em cima, da esquerda
para a direita, os furriéis Bento, Rocha, Viegas, Flora, Lopes, Capitão e
Ribeiro. Em baixo, Carvalho, Belo, Grenha Lopes e Reino.

A passagem de ano de 1974 para 1975, lá porque eu estava de serviço, não me inibiu de a festejar à... maneira!!! As formalidades de sargento de dia, com as habituais formaturas e rancho melhorado ao almoço e jantar, passaram-se e viveram-se serenamente, na paz dos anjos!

Por mim, combinado com o Neto e suportanto ambos os custos, tínhamos arranjado umas grades de cerveja no Grácio e, postas no frio da cozinha, foram para o PELREC. Fresquinhas, ao almoço e ao jantar. E, nessa noite, «exigimos» do capitão Oliveira (comandante da CCS) que cumprisse as NEP que sempre nos atirava à cara. Na prática, teve de nos arranjar bagaço e as minudências a que tinha direito o pessoal de reforço, nos postos de sentinela, durante a noite, e que distribuímos nas rondas. Já o mesmo tinha acontecido na noite de Natal, então a «benesse» entendida como por ser nessa noite especial. Bem sabemos que o capitão comandante da CCS não gostou nada da história, mas lá teve de ser. Tanto nos ameaçava com as NEP, que teve de as... cumprir!

O meu dia passei-o assim, entre a parada, o quarto e o bar de sargentos. Já por lá estava aquartelada a 3ª. CCAV (Santa Isabel) e não faltava gente para um bom par de conversas. O ritual de correspondência foi cumprido: era quase sempre depois do almoço, a hora da escrita; era a da leitura antes do jantar, quando chegava o Correio, de Carmona...

A foto dessa noite mostra um grupo naturalmente bem disposto, aquartelando as suas saudades da terra, mas naufragando-as em bebidas bem bebidas pela noite adentro. Dessa noite e sem conseguir recordar o nome, lembro-me de encontrar, perto do Topete, um soldado já bem entrado e a cair das pernas. Coisa que imediatamente teria de ser «remediada», pois a tropa não podia andar a fazer aquelas (tristes) figuras na rua. Foi o António, soldado do PELREC e meu companheiro nessa noite de rondas, quem o carrregou às costas, para a caserna.

O 1975 nasceu comigo a conversar, na frente da messe de oficiais - quero crer que com o alferes Pedrosa, nesse dia/noite de oficial de dia. Era da 3ª. CCAV., a de Santa Isabel. Logo a seguir, tínhamos de ir ligar o gerador. A noite foi calmíssima.

- NEP: Normas de Execução Permanente.

Os furriéis sapadores da CCS dos Cavaleiros do Norte


O Pelotão de Sapadores da Companhia de Comando e Serviços (CCS) do Batalhão de Cavalaria 8423 era comandado pelo alferes miliciano Ribeiro e incluía três furriéis - todos eles bem diferentes, mas seguramente bons amigos.
- PIRES. Cândido Eduardo Lopes Pires, natural do Montijo e actualmente residente em Niza, onde é funcionário da Câmara Municipal - o da esquerda, na foto de cima.
- MOSTEIAS. Luís João Ramalho Mosteias, natural de Lisboa e residente em Sines, onde é funcionário de uma empresa do parque industrial. Era o único furriel miliciano casado da CCS. O do lado direito, na foto.
- FARINHAS. Joaquim Augusto Loio Farinhas, natural de Amarante - o da foto em baixo. Esteve emigrado nos Estados Unidos e já faleceu.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Os furriéis milicianos da CCS dos Cavaleiros do Norte (1)


A guarnição da CCS do BCAV. 8423 tinha 15 furriéis milicianos. Hoje, apresentamos quatro deles.
- PIRES: José dos Santos Pires, furriel miliciano de Transmissões - do lado esquerdo, na foto de cima. Natural e residente em Bragança. Aposentado da GNR.
- ROCHA. Nélson dos Remédios da Silva Rocha, furriel miliciano de Transmissões. Natural e residente em Valadares (Vila Nova de Gaia). Técnico de Vendas.
- MORAIS. Norberto António Ribeirinho Carita de Morais, mecânico-auto - à esquerda, na foto de baixo. Natural de Niza e residente em Elvas, onde é quadro superior da Estação Nacional de Plantas.
- LOPES. António Maria Verdelho da Silva Lopes, enfermeiro, natural e residente em Vendas Novas, onde é funcionário de Finanças.

A (não) vitória do Buraquinho na S. Silvestre do Quitexe....

Estrada principal do Quitexe, por onde passou a S. Silvestre de 1974

Andava eu totalmente varrido de ideia sobre a prova de S. Silvestre do Quitexe e eis que, providenciais, apareceram o Tomás e o Buraquinho a refrescar-me a memória. E como, ao lê-los, estou a ver aquela noite da (não) vitória do Buraquinho.
Eis a divinal narrativa, na primeira pessoa:
«Eu, Alfredo Coelho (Buraquinho), vou contar a história da corrida de S. Silvestre, na noite de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro de 1975, de uma terça para a quarta-feira, às 00,00 horas. A corrida começou na entrada da picada de Zalala até à messe dos oficiais, no Quitexe.
Eu também participei e tinha que fazer das minhas, para ser o vencedor. E, então, o que é que eu fiz? Como os enfermeiros tinham que acompanhar a corrida, na ambulância, combinei com o 1º. cabo enfermeiro Gomes e o soldado maqueiro Moreira (o Penafiel) que quando a corrida começasse, eu isolar-me-ia e entrarria na ambulância, sem que fosse detectado pelo resto dos atletas.
A ambulância vinha à frente, com outras viaturas militares a fazer escolta e a iluminar a estrada até ao Quitexe, porque não havia luz eléctrica. Ao chegar próximo da casa do administrador, onde estavam oficiais e o administrador a ver a corrida, eu então saltei da ambulância e comecei a correr, e quem me via só dizia «força Buraquinho, és o primeiro!!!...».
O problema é que cometi um erro, que foi virar na segunda rua do Quitexe quando deveria virar na terceira, onde ficava o bar do Rocha. Mas cheguei à meta em primeiro lugar e o capitão Oliveira começou logo a bater palmas e a gritar: “É o Buraquinho, é da CCS!...».
Só que tudo ficou em águas de bacalhau, após a chegada do segundo que, naturalmente, denunciou a minha chegada forjada e o capitão Oliveira ficou desanimado por ser um militar da 2ª. companhia e não da CCS, como ele pensava.
Sabem quem foi o 1º. classificado? Foi o Fernando, conhecido por Spínola, que era da 2ª. Companhia de Cavalaria».

O Buraquinho contou, está contado. Ele era assim e agora, ao lê-lo, senti-me voado na ampulheta do tempo e estou a «ouvir» os comentários feitos à pitoresca bravata desportiva do inimitável Buraquinho!!! Só mesmo ele! E a cara zombeteira do Buraquinho, a passear-se no final da (não) corrida.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Antevéspera da passagem de ano de 1974 para 1975

Noite de passagem de ano de 1974 para 1975. Da esquerda para a direita,
Lopes, Viegas, Ribeiro (com a garrafa na mão), Bento e Flora.
Rocha (à esquerda de Lopes), Carvalho, Grenha Lopes e NN. À frente, de cócoras,Reino. Atrás, ao balcão, Guedes (civil) e 1º. sargento Aires


Dezembro, dia 30 de 1974, véspera da passagem de ano de 1974 para 1975. A ordem de serviço lá me aprontou para sargento de dia ao batalhão na noite dita especial. Era uma inevitabilidade! Esperadíssima.

Tornou-se demasiado previsível a nomeação, numa altura em que o relacionamento entre os pares da classe de sargentos andava esfriada. É desse tempo uma «revolta» dos milicianos, descontentes com alguns tratamentos recebidos e tornou-se famoso o grito de guerra do furriel Machado: «Beduínos!!!...». Um grito de raiva, contra a discriminação a que os milicianos se sentiam sujeitos, com a cumplicidade de alguns iguais.

Acreditam que a maioria dos furriéis se recusaram a comer ao mesmo tempo, na mesma mesa, com alguns comensais da messe de sargentos? Pois foi! E acusados ao capitão Oliveira, lá foi o trio de ferro: Neto, Viegas e Machado. Fazer a defesa da justiça!

A 31 de Dezembro de 1974, lá me apresentei a serviço para a noite de passagem de ano. Não sei porquê, ainda hoje penso que alguém acreditava, ao tempo, que eu iria infringir os regulamentos e faltar ao serviço. Só se eu fosse tolo!

A classe de sargentos da CCS dos Cavaleiros do Norte















O grupo de sargentos do quadro da CCS do BCAV. 8423 era formado por quatro profissionais. A relação dos furriéis milicianos com eles era de respeito, mas às vezes menos ortodoxas. Até tumultuosas. Tivemos as nossas coisas e algumas não foram boas de assoar. Talvez uma questão de filosofias de vida, de formação militar, de diferença de idades, sei lá!
Os quatro eram estes:
- MACHADO: Luís Ferreira Leite Machado, 1º. sargento ajudante, trabalhava na secretaria do Comando do Batalhão. É o da foto da direita. Falamos dele em http://cavaleirosdonorte.blogspot.com/2009/11/o-sargento-ajudante-luis-machado.html.
- AIRES, Joaquim António de Aires, 1º. sargento mecânico-auto. É o da foto do meio. Ver em http://cavaleirosdonorte.blogspot.com/2009/05/boa-vida-do-quitexe.html.
- LUZIA: José Claudino Fernandes Luzia, 1º. sargento, chefe da secretaria da CCS. É o da foto a cores.
- BARATA. João da Conceição Unas Barata, 1º. sargento, trabalhava o Gabinete de Operações. Não consegui foto dele.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Os oficiais milicianos da CCS do BCAV. 8423

Alferes milicianos da CCS do BCAV. 8423: Ribeiro, Cruz, Garcia e Hermida
Tenente Luz, alferes Ribeiro e Hermida, tenente Mora, alferes Cruz,
capitão Oliveira, alferes-médico Campos e capitão-médico Leal


Os oficiais da CCS do Batalhão de Cavalaria 8423 dividiam espaços, no Quitexe, com os do Comando do Batalhão, cada qual nas suas tarefas e obrigações. Eram quem mais de perto lidava connosco, quem mais de nos tinha de ouvir e aturar. E nós obedecer.
Os oficiais da CCS eram os seguintes:
- Comandante: Capitão António Martins Oliveira. Foi depois major e comandante do DRM de Aveiro. Já faleceu.
- Adjunto do Comandante: Tenente José Eloy Borges da Cunha Mora. Já faleceu.
- Comandante do PELREC: Alferes miliciano António Manuel Garcia, de Operações Especiais (Ranger´s). Já faleceu, em 1979/80, era inspector da Polícia Judiciária.
- Comandante do Pelotão de Transmissões: José Leonel Pinto de Aragão Hermida. Reside na Figueira da Foz.
- Comandante do Pelotão de Sapadores: Jaime Rodrigues Picão Ribeiro, engenheiro. Residente no Tramagal.
- Comandante do Pelotão de Mecânicos-Auto: José Albano de Araújo Sousa Cruz, engenheiro mecânico, residente em Santo Tirso.

A vida de um soldado vista pelo José Frangãos


O José Frangãos numa das entradas do Quitexe, em 1974, junto à placa

O Frangãos, bom alentejano de Cuba - e por Cuba era popularmente conhecido no Quitexe... - era 1º. cabo mecânico da CCS do BCAV. 8423 e mandou um poema para o blogue e várias fotos de Carmona.
Aqui fica o poema, que ele nos disse ter sido «feito algures em terras angolanas».

A VIDA DE SOLDADO

A vida de soldado que levei / Lá por terras de Angola / Pequei, sofri e chorei / Ao chegar àquela hora
Picadas esburacadas / Moscas mosquitos foi chato / Unimogs e espingardas / E ao redor tudo era mato
Farda e rosto coberto / De pó chuva ou lama / O meu coração aberto / Sonhava em quem me ama
Sempre com o corpo cansado / Pensava como é triste / Esta vida de soldado / Mas que em todo o mundo existe

O Frangãos - o famoso e simpático Cuba da "ferrugem"... - termina com desejos de "um Santo Natal e Próspero Ano Novo de 2010" para todos os Cavaleiros do Norte. Aqui ficam eles.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O alferes capelão do Quitexe...

Igreja da Mãe de Deus do Quitexe nos anos 70 do século XX


O Batalhão de Cavalaria 8423 tinha um alferes capelão, o padre José Ferreira de Almeida. Ele me absolvirá, mas não tenho especiais recordações dele - além de o saber recatado, relativamente novo e de o ver, muitas vezes, em conversas de pé de orelha com soldados. Não ganhei intimidade com ele, vá lá saber-se porquê.
O alferes capelão missionaria em outras localidades, além do Quitexe, e certamente deveria ir às outras companhias do BCAV. 8423, onde provavelmente se demoraria dias seguidos, e as suas permanências na vila seriam espaçadas e curtas - talvez muitas vezes coincidentes com as nossas saídas, em operações, escoltas, patrulhas, fiscalização rodoviária, férias. A nossa principal referência religiosa - a minha, pelo menos... - eram a missão e a paróquia. E os momentos de maior reflexão eram na Igreja da vila, a da Mãe de Deus do Quitexe, onde ao tempo paroquiava o Padre Albino Capela.
O alferes capelão Almeida seria o conforto psicológico de muitos rapazes, que na fé encontravam resposta às suas dúvidas e aos seus desassossegos. Na Palavra que espalhava, achariam o milagre da sua paz espiritual. Sempre que o via, estava ele em pé de conversa com militares - principalmente praças.
Acabou a comissão no Quitexe em Dezembro de 1974 e dele agora não consegui saber nada. Um abraço para ele, se nos ler.