
Hoje, há 35 anos, dia 26 de Outubro de 1974, realizou-se no Quitexe uma reunião dos comandos militares com todos os regedores da região - procurando sensibilizá-los para a necessidade do desarmamento das milícias.
BATALHÃO DE CAVALARIA 8423. Os Cavaleiros do Norte!!! Um espaço para informalmente falar de pessoas e estórias de um tempo em que se fez história. Aqui contando, de forma avulsa, algumas histórias de grupo de militares que foi a Angola fazer Abril e semear solidariedade e companheirismo! A partir do Quitexe, por Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Ponte do Dange e Songo! E outras terras do Uíge angolano, pátria de que todos ficámos apaixonados!

Neto e Viegas, dois furriéis do Quitexe, com a aldeia Canzenda ao fundo. 
Quitexe, edifício do comando da CCS do BCAV. 8423. Ali se decidia o que nós queríamos e não queríamos. Ali se afixavam as ordens de serviço - que muitas (in)justiças publicavam, a Bem da Nação. A porta da direita era a do gabinete do capitão Oliveira, comandante da companhia.
Ali fomos chamados a prestar contas, em dada altura, o Machado, o Neto e eu. Por razão de minudências persecutórias que sempre aconteciam na tropa, denunciadas por desfavor de alguém. Nenhum de nós era «boa peça», verdade seja dita..., tínhamos as nossas «coisas», mas éramos seguramente gente solidária e companheira de todas as horas.
Entre tanta gente, como eram os cerca de 200 homens que se aquartelavam por ali, sempre havia preferências e proximidades pessoais. Mas nunca deveria existir a perseguição avulsa e disfarçada. E foi isso que o Machado, com a sua sempre exuberante capacidade reivindicativa, expôs em conversa nua de preconceitos, em conversa de bar de sargentos mas que chegou aos sexagenários ouvidos do capitão Oliveira. E eu e o Neto a fazermos coro! Alguém lhos sussurrou!
Lá fomos nós chamados a contas e respondeu menos direito o Machado, à autoritária interpelação do oficial - no gabinete daquela porta que ali se vê. Respondeu de dedo no ar, em riste, explodindo nervos e revolta! Avantajou-se o Neto, sem poupar palavras! Aclimatizei eu o ambiente, coloquial mas corrosivo no verbo.
O «combate» foi duro, é verdade, mas fomos poupados à «ordem de serviço», que sempre apareceu em branco onde alguns desejaram ver os nossos nomes a vermelho, para «sujar» a caderneta militar. E lá o delator teve uma vez mais de pôr o rabinho entre as pernas...
O mapa do norte de Angola é dos anos 50 do século passado, mas dá para identificar parte das localidades por onde andou o BCAV. 8423. Faltando algumas bem relevantes: Zalala (1ª. CCAV.), Aldeia Viçosa (2ª CCAV.) e Santa Isabel (3ª. CCAV), ou ainda Vista Alegre, Liberato e Luísa Maria (onde estacionaram companhias independentes ou destacamentos).
- QUITEXE: Sede do Batalhão da CCS.
- CARMONA: Cidade do Uíge, onde o BCAV. 8423 esteve de 2 de Março a 4 de Agosto de 1975.
- ZALALA: Ali na zona de S. José de Encoge (à esquerda do sublinhado amarelo de Carmona).
- ALDEIA VIÇOSA: Entre Quitexe e Ponte do Dange, na estrada do café (Carmona-Luanda).
- VISTA ALEGRE: Entre Aldeia Viçosa e Ponte do Dange.
- QUIBAXE: Três ou quatro missões, entre Outubro e Dezembro de 1974.
- NEGAGE. Base aérea e hospital militar. O (furriel) Neto esteve lá internado alguns dias.
- NAMBUANGONGO: A mítica Nambuangongo. Quantas histórias de Nambuangongo se contam e cantam!
- CACUACO: Cidade passagem de Luanda para Quitexe e Carmona (Uíge), a estrada do café.
- LUANDA: A capital de Angola, cidade de chegada e partida e de mil uma histórias e aventuras, nem todas contáveis.
- CATETE: Arredores de Luanda, a caminho do Grafanil (campo militar) e Viana - cidade onde eu, o Neto e o Monteiro vivemos de 1 de Agosto a 8 de Setembro de 1975. O BCAV 8423 estava estacionado no Grafanil.
- SALAZAR: Estive lá duas vezes, movido pela curiosidade de conhecer uma cidade com o nome que tinha. Outra curiosidade minha: qual a razão de darem nomes de pessoas a cidades? Carmona, Silva Porto, Serpa Pinto, Sá da Bandeira e General Roçadas eram outros exemplos. Gostei da cidade. Foi um dos pontos de passagem e paragem da heróica coluna que, a 4 de Agosto, saiu de Carmona para Luanda. Depois da independência, passou a chamar-se N´Dalatando (o nome original).
- CAMABATELA: Ali tão perto e tão longe do Quitexe.
- DUQUE DE BRAGANÇA: As quedas foram atracção de muitos militares do batalhão.
- SANZA POMBO: Fui lá , em visita a Higino Reis, conterrâneo já falecido e que na altura era funcionário público ligado ao Ministério da Agricultura.
Picada para o Liberato (foto de Luís Patriarca)
Está a fazer anos, hoje mesmo: 19 de Outubro de 2009! 35 anos! O capitão Falcão, no seu jeito tranquilo de falar e com as precauções devidas, deu-nos indicação de um passo próximo: a desmantelação dos Grupos Especiais, os GE.
Aldeia de Talambanza, à saída do Quitexe, para Carmona. Foto de João Cláudio
Monumento aos Mortos na Fazenda do Liberato (foto de Luís Patriarca )
O futebol fazia parte do dia-a-dia do Quitexe, mesmo entre os militares - que tantas saudades matavam no norte de Angola a ouvir os relatos de Artur Agostinho, de Lança Moreira, Rui Romano, Amadeu José de Freitas e outros.
Ouvir estas vozes imortais da rádio portuguesa, mesmo no distante Uíge e a 8000 quilómetros de casa, era como se respirássemos um lenitivo e nos sentíssemos a viver as emoções dos estádios. Melhor ainda, como se estivessemos a sentir os cheiros das nossas aldeias. O destino dera-me o gosto de conhecer Rui Romano, num seu relato de um Beira Mar-CUF, aí por 1971, ou 1972..., e deliciava-me quando o ouvia a relatar os jogos do «puto», os benficas e os sportings, os portos, a Académica (por onde vagueei em râguebis clandestinos) e do beira-beira, o Beira Mar!
Pelo Quitexe, jogava-se a bola, pelotões contra pelotões, unidades contra unidades; ou contra equipas civis. Eu ainda fui fazer uns jogos ao Recreativo do Uíge, mas dei-me mal com o pó do «relvado».
A foto parece-me ser de uma «selecção» militar. Consigo identificar, de pé, o Lopes, o Gomes (?, enfermeiro), o Grácio (sapador) e o Mosteias e já não me lembro dos outros dois (nota: o Pagaimo, do Pelotão de Morteiros, disse-me, a 26 de Novembro de 2009, que o quinto, da esquerda para a direita, era o Alves, 1º. cabo maqueiro e de Espinho).
Em baixo, o primeiro parece-me ser o Monteiro (furriel), não me lembro do seguinte (diz o Pagaimo que seria um condutor, da Zona da Covilhã) e depois está o Teixeira (estofador); não reconheço o outro e o último, à direita, é o Botelho (atirador). Alguém será capaz de os identificar. Ficamos à espera!
Vendo que o problema da floresta das Talhadas e Águeda ainda continua por resolver a contento popular, não deixa de ser irónico recuar estes 35 anos.


Igreja do Quitexe e xitaca atrás da Casa dos Furriéis e secretaria da CCS Aqui está o Grácio, glorioso sapador de infantaria, que de Leiria - de uma terra chamada Amor, vejam lá!... - vou para o Quitexe, para uma missão que lhe estenderam ao depósito de géneros. Era lá que ele, sempre bonacheirão, cumpridor e sempre disponível, «aviava» as bebidas que o RDM permitia à tropa e a «gulodice» de outras patentes, mais altas, ia deixando passar.
O Grácio era boa gente! E é! Ainda agora, pelo telefone, me lembrou alguns exageros da malta furrielística, avidamente sedenta de mais avios e de alguns abusos. Se estes fossem possíveis! «Era eu que vos fornecia as bebidas...», lembrou-me o Grácio, como se eu não soubesse e adivinhando-lhe um sorriso do outro lado do telefone! E lá esteve ele, sempre discreto e presente, no Encontro de Águeda, acompanhado da sua (dele) «mais que tudo!», não sei se namorada daquele tempo!
A uma qualquer altura, cumprindo ordens - como bom militar que era... - negou vender bebidas à furrielada. Não podia, tinha ordens! Aqui d´el-rei, que «não podia ser...», gritava-lhe o Machado. «Veja lá no que se mete...», avisava-o o Neto. «Ainda levas uma porrada...», azucrinava-lhe o Mosteias - que era furriel sapador, a disfarçar o riso. Até o Pires (o do Montijo), também furriel sapador, meteu colherada na querela: «Ainda te f..., ó Grácio!».
O Grácio, e muito bem, manteve a ordem recebida - ordens são ordens... - e foram os furriéis em demanda dos mais patenteados, que lá libertaram a ordem de venda. Francamente, não tenho a certeza se uma velhíssima Monks, em garrafa de cerâmica e que ainda tenho ali no bar, não foi uma das que, nessa altura foram vendidas pelo Grácio no depósito de géneros e saíram dessa «escala negocial» de outras patentes! O certo, certíssimo, é que o Grácio, o discreto Grácio, o disciplinado sapador Grácio, não foi em cantigas e, sem hesitar, cumpriu o seu dever de honra. Assim eram os bons militares e se formam os homens grandes!
- GRÁCIO: Fernando Martinho Grácio, 1º. cabo sapador. Natural e residente em Amor (Leiria).