
Está a fazer anos, hoje mesmo: 19 de Outubro de 2009! 35 anos! O capitão Falcão, no seu jeito tranquilo de falar e com as precauções devidas, deu-nos indicação de um passo próximo: a desmantelação dos Grupos Especiais, os GE. BATALHÃO DE CAVALARIA 8423. Os Cavaleiros do Norte!!! Um espaço para informalmente falar de pessoas e estórias de um tempo em que se fez história. Aqui contando, de forma avulsa, algumas histórias de grupo de militares que foi a Angola fazer Abril e semear solidariedade e companheirismo! A partir do Quitexe, por Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Ponte do Dange e Songo! E outras terras do Uíge angolano, pátria de que todos ficámos apaixonados!

Está a fazer anos, hoje mesmo: 19 de Outubro de 2009! 35 anos! O capitão Falcão, no seu jeito tranquilo de falar e com as precauções devidas, deu-nos indicação de um passo próximo: a desmantelação dos Grupos Especiais, os GE.
Aldeia de Talambanza, à saída do Quitexe, para Carmona. Foto de João Cláudio
Monumento aos Mortos na Fazenda do Liberato (foto de Luís Patriarca )
O futebol fazia parte do dia-a-dia do Quitexe, mesmo entre os militares - que tantas saudades matavam no norte de Angola a ouvir os relatos de Artur Agostinho, de Lança Moreira, Rui Romano, Amadeu José de Freitas e outros.
Ouvir estas vozes imortais da rádio portuguesa, mesmo no distante Uíge e a 8000 quilómetros de casa, era como se respirássemos um lenitivo e nos sentíssemos a viver as emoções dos estádios. Melhor ainda, como se estivessemos a sentir os cheiros das nossas aldeias. O destino dera-me o gosto de conhecer Rui Romano, num seu relato de um Beira Mar-CUF, aí por 1971, ou 1972..., e deliciava-me quando o ouvia a relatar os jogos do «puto», os benficas e os sportings, os portos, a Académica (por onde vagueei em râguebis clandestinos) e do beira-beira, o Beira Mar!
Pelo Quitexe, jogava-se a bola, pelotões contra pelotões, unidades contra unidades; ou contra equipas civis. Eu ainda fui fazer uns jogos ao Recreativo do Uíge, mas dei-me mal com o pó do «relvado».
A foto parece-me ser de uma «selecção» militar. Consigo identificar, de pé, o Lopes, o Gomes (?, enfermeiro), o Grácio (sapador) e o Mosteias e já não me lembro dos outros dois (nota: o Pagaimo, do Pelotão de Morteiros, disse-me, a 26 de Novembro de 2009, que o quinto, da esquerda para a direita, era o Alves, 1º. cabo maqueiro e de Espinho).
Em baixo, o primeiro parece-me ser o Monteiro (furriel), não me lembro do seguinte (diz o Pagaimo que seria um condutor, da Zona da Covilhã) e depois está o Teixeira (estofador); não reconheço o outro e o último, à direita, é o Botelho (atirador). Alguém será capaz de os identificar. Ficamos à espera!
Vendo que o problema da floresta das Talhadas e Águeda ainda continua por resolver a contento popular, não deixa de ser irónico recuar estes 35 anos.


Igreja do Quitexe e xitaca atrás da Casa dos Furriéis e secretaria da CCS Aqui está o Grácio, glorioso sapador de infantaria, que de Leiria - de uma terra chamada Amor, vejam lá!... - vou para o Quitexe, para uma missão que lhe estenderam ao depósito de géneros. Era lá que ele, sempre bonacheirão, cumpridor e sempre disponível, «aviava» as bebidas que o RDM permitia à tropa e a «gulodice» de outras patentes, mais altas, ia deixando passar.
O Grácio era boa gente! E é! Ainda agora, pelo telefone, me lembrou alguns exageros da malta furrielística, avidamente sedenta de mais avios e de alguns abusos. Se estes fossem possíveis! «Era eu que vos fornecia as bebidas...», lembrou-me o Grácio, como se eu não soubesse e adivinhando-lhe um sorriso do outro lado do telefone! E lá esteve ele, sempre discreto e presente, no Encontro de Águeda, acompanhado da sua (dele) «mais que tudo!», não sei se namorada daquele tempo!
A uma qualquer altura, cumprindo ordens - como bom militar que era... - negou vender bebidas à furrielada. Não podia, tinha ordens! Aqui d´el-rei, que «não podia ser...», gritava-lhe o Machado. «Veja lá no que se mete...», avisava-o o Neto. «Ainda levas uma porrada...», azucrinava-lhe o Mosteias - que era furriel sapador, a disfarçar o riso. Até o Pires (o do Montijo), também furriel sapador, meteu colherada na querela: «Ainda te f..., ó Grácio!».
O Grácio, e muito bem, manteve a ordem recebida - ordens são ordens... - e foram os furriéis em demanda dos mais patenteados, que lá libertaram a ordem de venda. Francamente, não tenho a certeza se uma velhíssima Monks, em garrafa de cerâmica e que ainda tenho ali no bar, não foi uma das que, nessa altura foram vendidas pelo Grácio no depósito de géneros e saíram dessa «escala negocial» de outras patentes! O certo, certíssimo, é que o Grácio, o discreto Grácio, o disciplinado sapador Grácio, não foi em cantigas e, sem hesitar, cumpriu o seu dever de honra. Assim eram os bons militares e se formam os homens grandes!
- GRÁCIO: Fernando Martinho Grácio, 1º. cabo sapador. Natural e residente em Amor (Leiria).
O Aurélio, aqui do lado esquerdo, era atirador de cavalaria mas «atirava-se» também aos cabelos da malta, como gato a marmelada: aparava, cortava, mondava a penugem das orelhas e, de repente, era uma rajada de pente e tesoura. Modo semântico de dizer, uma carecada!... Era o barbeiro da CCS e bom praça, sempre de gargalhada na ponta da beiça!
O Vicente, o Gomes e o Serra eram condutores e não falhavam uma curva, com o volante dos «burros de mato» na mão. Ou berliet que fosse!! Cada curva, convém lembrar, era um perigo a espreitar e os condutores-auto um alvo fácil de abater. Louve-se a coragem de todos eles, estes aqui na foto e todos os outros.
Falei de curvas, mas posso lembrar as rectas e as picadas turtuosas e poeirentas, os lamaçais e buracos que atrasavam a marcha de qualquer coluna, os pisos por onde não passou Cristo e amarguravam as angústias dos militares, as subidas íngremes de troços onde à pedrada podíamos ser emboscados e mortos, os percursos de meter medo a Deus e ao diabo! Foi toda a gente gente brava e sem medos!
Nem uma vez alguém hesitou a arrancar da parada do quartel, quantas vezes comendo o pó das madrugadas e o frio que cacimbava as nossas saídas para escoltas, patrulhamentos ou operações. A arma era o volante e não tinham granada no cinturão com que se pudessem defender. Missões arriscadas, as dos condutores! Gente de coragem!
