sábado, 19 de dezembro de 2009

As morenas do Liceu Salvador Correia de Sá na baixa de Luanda

Baía e baixa de Luanda em 1974


A 19 de Dezembro de 1974, «desenfiado» eu do Quitexe, pus-me aos sóis e prazeres de Luanda. Não por muito tempo, apenas uns diazinhos e mesmo estes sempre a correr. Estava o Natal a bater à porta e, «aproveitando» uma boleia num avião militar, lá voei eu o Negage para a capital - onde havia galinhas no choco!
Um amigo que a morte já levou, o Alberto, tinha sido meu companheiro de escola e estava ao tempo em serviço na Base Aérea de Luanda. Por lá, pela capital, acamaradava comigo noite adentro, depois de um bom frango de churrasco e uns pares de canhângulos no Floresta. Depois, era ver-nos como passarinhos fora do a gaiola, a libertinar-nos por lá, cultivando «amizades» temporárias. Não escapariam também umas mariscada no Amazonas, na Portugália, no Mutamba ou no Paris Versailles, ou até um saltinho ao Pólo Norte e à ilha - que eram verdadeiros «sacrários» para satisfazer os nossos prazeres de boca. Depois, eram os bares da baixa luandina... onde, feitos de irmãos gémeos, pingávamos paixões por duas morenas do Liceu Salvador Correia de Sá.
A «coisa» estava pegava e da história resta-nos o constrangimento de lembrar a mentirazinha com que iludíamos as cachopas: seriamos nós irmãos gémeos, filhos de um casal de fazendeiros do norte que tinham falecido num acidente. E tínhamos duas irmãs no princípio da adolescência, a estudar como internas no Colégio dos Salesianos, no Estoril.
A fazenda, inevitavelmente, era para os lados do Quitexe e era para a Caixa Postal 12 que ela(s) escrevia(m) - para mim e para o meu irmão gémeo, quando ele se libertava das tarefas militares na base aérea. Quando era correio dele, lá tinha eu de lho enviar para Luanda e ele mandar-me a resposta para o Quitexe, para eu reenviar para Luanda - para uma das morenas. Quando se encontrava com elas na capital, lá me desculpava da minha ausência na fazenda do norte. Tolices da idade..
Desgosto meu (e dele) foi eu ter chegado a Luanda em Agosto de 1974 e elas, por ordem dos pais, já terem regressado a Portugal - coisa decidida em poucos dias, viajando nas célebres pontes aéreas dos retornados. Delas, sei que uma é enfermeira de saúde pública e moradora na área de Lisboa. Da outra, nunca mais soube.
- ALBERTO. Alberto Fernando Dias Ferreira, 1º. cabo especialista da Força Aérea, natural de Fermentelos. Posteriormente licenciado em Economia, era quadro do Estado e (por duas vezes) foi vereador da Câmara Municipal de Águeda - numa delas sendo candidato a presidente Já faleceu.
- CANHÂNGULO. Copo grande de cerveja; uma caneca grande, por cá.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O comandante Almeida e Brito e o boato...


O Quitexe militar encheu-se, pelo Dezembro de 1974 fora, de um boato que dava o comandante Almeida e Brito como preso em Lisboa - para onde tinha ido (vindo) de férias. De onde choveu o boato, não sei. Nem como nasceu. Mas multiplicou-se como espuma.
Havia, por isso, alguma exectativa da parte da guarnição: Vem, não vem? Volta, não volta? Quem saberia responder? Pois, ninguém. Nem nós, os militares menos graduados da guarnição, nos atrevíamos a pôr a questão dessa forma. Fosse a quem fosse!
O absurdo foi que, para surpresa minha, alguém me indiciou como autor do «boato» e por ele tive de responder ao próprio tenente-coronel Almeida e Brito, dias depois do Natal - quando me chamou ao gabinete e me pôs a questão de forma directa. Respondi-lhe à minha maneira (não vou reproduzir a conversa...) e devo ter sido convincente.
Nesse dia, por razões que levariam tempo a explicar, confirmou-se uma interessante cumplicidade entre ambos - que foi gerida de forma fidalga até ao nosso último encontro, em Setembro de 1997, em Penafiel. Para trás, estavam alguns «conflitos»: os da diferença de pontos de vista de comandante e comandado, sentindo-se este por vezes injustiçado.
A vida civil levou-nos a vários encontros: por Coimbra (onde foi 2º. comandante da Região Militar Centro), por Lisboa (2º. comandante geral da GNR) e por Évora (comandante da Região Militar Sul). E nos encontros de confraternização da CCS e do BCAV. 8423. Era um senhor!

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Amores e infidelidades marcadas em relógios de papel...


As coisas do amor tem das suas... coisas! As paixões são criadoras, engenhosas, audazes... Não há por aí quem não já, por uma vez que seja, não tenha tido a sua aventura... ilegal e infiel! Aos tempos de jovens de 21 para 22 anos, quem não se deixou embriagar pelos apetites do cio, pelos ardores da paixão, pelo risco de desafiar o perigo?!
O Uíge de 1974 e 1975 fazia bulir as guarnições militares, mas não só: também fervia de calores, e não eram só físicos - os do sol que queimava a tez e fazia escorregar suores corpo abaixo. Também eram os da paixão e do pecado. Sei de quem (mas não digo...) se casamentava em noites e manhãs de histórias irrepetíveis e aqui incontáveis, transpiradas em vales de lençóis que, a falarem, desnudariam algumas virtudes.
O truque era simples, mas aparentemente genial: os «namorados», em pecado mortal pela situação marital de um deles, alugaram, cada qual, o seu apartado postal e, sem gastar sequer o selo, trocavam recados de amor e convites para desnovelarem os seus cios. Simples, como o mais simples. Acordasse ele ávido de desejos e levava carta ao apartado, simulando buscar correio. O preciosismo estava em não mostrar envelope, caso lá não houvesse. Para ninguém desconfiar. O mesmo faria o par do pecado, ambos lá deixando e buscando recados feitos em corações desenhados num relógio.
A seta apontava a hora da «visita»: uma, duas, três, dez... as que fossem. Passadas as 12, duplicava o ponteiro desenhado no papel - invariavelmente uma toalha de mesa, disfarçando um qualquer rabisco de eventual e casual conversa de amigos. O outro ponteiro, indicava o quarto (de hora), se fosse o caso. A meia hora, significava porta aberta à meia noite. Os três quartos de hora revelavam encontro em local certo da cidade!
O esquema era genial e sempre funcionou. Eram amores e cios, que fizeram mais feliz gente que trocava afectos e tórridas paixões, sob a graça do pecado! Mas quem nunca pecou?

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O PELREC na linha de fogo da picada de Isabel Maria

Fazenda Isabel Maria em 2009. Foto de Luís Fernando (net)

O dia 14 de Dezembro de 1974 foi o da conclusão da chegada e instalação da 3ª. Companhia no Quitexe. Oriunda da Fazenda de Santa Isabel e comandada pelo capitão miliciano José Paulo Fernandes, aí estava ela, no âmbito da mutação do dispositivo militar do BCAV. 8423.
A transferência vinha a ocorrer desde 10 de Dezembro e é bom recordar, 35 anos depois, a emoção que por esses dias se vivia no Quitexe - entre os militares. Emoção que todos rodeava, envolvia e unia, em abraços de camaradagem e sólida amizade que nos transfigurava e multiplicava a confiança no futuro próximo. A saída das companhias operacionais das suas zonas de acção, significava, para nós, a preparação do regresso a Portugal - embora ainda nos esperassem nove meses do dia do nosso regresso - que por essa altura todos sonhávamos estar muito mais próximo.
A vila já vinha a conhecer alguns combatentes, principalmente da FNLA - movimento predominante na zona do Uíge - e trocavam-se semelhanças de datas e operações. Ficámos a saber, por exemplo, que no mês de Agosto teríamos estado sob mira de um grupo, na picada para a fazenda Isabel Maria. O momento foi-nos comentado ao pormenor e, na verdade, bem sentíramos nós o «cheiro» do IN, na subida de uma picada que sempre nos atemorizava - rampeada para cima e para baixo, com zonas de onde, à pedrada, nos poderiam «abafar». O pormenor foi narrado infímamente, a ponto de nos descreverem pormenores da camisa do camuflado e da boina em vez de quico, que indevidamente um de nós usava.
Contou-nos um combatente da FNLA que o ataque só não aconteceu porque, reagindo a um qualquer «aviso», uma equipa do PELREC saltou de imediato do Unimog e os assustou com o apontar de dilagramas. Apontar para... ninguém!!! Verdade ou lenda, não teremos nunca a certeza. Mas bem «cheirámos» o perigo, nesse princípio de manhã de Agosto de um dia de 1974.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O D. Juan do Quitexe que foi do Cais do Sodré...

Rua principal do Quitexe, que era a estrada Carmona-Luanda

Não sei bem por que carga d’água, em quase todas as Companhias havia um Don Juan altamente empenhado em deixar a sua marca. A minha não fugiu à regra, não sendo preciso esperar muitos dias para que os tiques de conquistador começassem a dar nas vistas!
Bastaram cinco minutos de conversa no Topete, para que o “pavão” exibisse as suas asas, disparando um palavreado cheio de filosóficos floreados de conquistador nato! As palavras saíam-lhe pelo canto da boca, tornando-se quase imperceptíveis, reforçando assim o seu tique de “malandreco”! O vocabulário, esse era repleto de palavras “estranhas” e com muitos estrangeirismos à mistura, para enfatizar ainda mais! E ainda estava na introdução, porque os feitos seriam bem explanados à medida que desenvolvia o seu monólogo! Sempre de cigarro em riste e pronto a disparar umas fumaradas, ali estava ele nas suas sete quintas, convencido de que todos se tinham rendido ao seu charme! Até dava um estalido com a boca a cada chupadela de cigarro! Mas que classe!...
Ao fim de quase uma hora de espectáculo, perguntei-lhe de que zona do país era oriundo, como se não estivesse já devidamente informado! A resposta saiu-lhe pausada, mascada e misturada com o fumo do cigarro, enquanto olhava para mim de soslaio: «Olha pá, nasci, fui criado e sempre vivi no Cais do Sodré – já ouviste falar?!...».
«Hum… com que então do Cais do Sodré… Faltava-me agora esta ave rara cheia de tiques – deve ser dos que põem o Tejo a correr para a nascente!...», resmunguei eu para dentro! Assustei-me só de pensar que tinha de o gramar todos os dias com as suas histórias, como se fosse um castigo. Curiosamente, o pessoal já se dispunha em U para ouvir as suas narrativas, fazendo fé em todas as suas palavras! Fazia lembrar as palestras da recruta, mas aí tudo o que ouvimos nos foi útil! Era um espectáculo, o homem até ficava inchado! Mas como costuma dizer-se, nem tudo o que parece é!
A realidade, afinal, tinha duas faces bem distintas, e toda aquela pose servia, também, para disfarçar muita angústia e alguma insegurança. Uma verdade, a mais negra, soube-o da sua boca, é que ele não tinha rigorosamente ninguém, apesar de uma vida muito e bem (?) preenchida até ao momento do embarque para terras de Angola! A outra verdade, a de Don Juan, soube-a pela boca de um colega, seu amigo na vida civil. Era mesmo um Don Juan e figura bem conhecida no Cais do Sodré!
No Quitexe, não deixou os seus créditos por “mãos” alheias e não tardaram a aparecer por ali quatro ou cinco imitadores mas, diga-se, desprovidos de pinta! Afinal, um profissional… é sempre um profissional! Libertinagens à parte, foi sempre um companheiro correctíssimo e exímio nas suas funções – Operador de Mensagens! Mas houve excessos que não estavam nas suas previsões e, à sua atribulada saída do Quitexe, seguir-se-ia o risco de não embarque para o “puto”! Foi difícil, mas conseguiu, com uma cunha que meteu alguns galões e que surgiu sabe-se lá de onde! Foi um êxito conseguido a ferros!
Com muito empenho e persistência, consegui “dar com ele”, ao fim de 37 anos! A minha ida ao Cais do Sodré, não tinha surtido efeito! Do lado de lá estava o meu amigo Martins, o já avô babado a perguntar uma boa meia dúzia de vezes se era mesmo eu! Ainda “senhor” dos seus tiques de voz, lembrou-me estes episódios Quitexanos que de imediato “ameacei” narrar, mas com as devidas omissões! Irá conferir na net, para salvaguardar o seu currículo – logo avisou! Os pormenores, iremos recordá-los num almoço prometido para breve e que terá o Quitexe como pano de fundo! Sempre o Quitexe!

ANTÓNIO CASAL

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O Matos e o Letras da Companhia de Aldeia Viçosa

Aldeia Viçosa, em foto de Ivo Morgado (2007, da net). Matos (de azul)
e Letras, dois furriéis da 2ª. CCAV, 8423



Aldeia Viçosa era logo depois do Quitexe, na estrada do café, para quem ia de Carmona (Uíge) para Luanda. Por lá estava estacionada a 2ª. CCAV. 8423, sob comando do capitão miliciano José Manuel Cruz. Faz hoje 35 anos, viu regressar a guarnição da Fazenda Luísa Maria - nessa data extinto.
Por lá fazia vida de secretaria o Mário Matos, que comigo jornadeou em terras de Lamego, fazendo-se ao curso de Operações Especiais (Rangers). Uma qualquer contingência do tempo, que não lembro, levou-o a atirador de cavalaria. É o Matos de Anadia, aqui ao lado - o homem que memorizou todos os números mecanográficos de todos os militares da Companhia. Ainda hoje entraria no Guiness Book.
A 2ª. CCAV. era também a do Letras, «ranger» que se fez em Lamego e Penude, no (também meu) segundo turno de instrução de 1973. Meão de altura, mas de fibra que sobrava, o Letras não voltava costas a um perigo que lhe aparecesse pela frente e dele lembro, nas breves conversas de quando eu passava por Aldeia Viçosa (mais eu por lá, que ele pelo Quitexe), sempre me dizer que «aquilo fez-no bem...». Aquilo, era o curso de especialização, os «rangers» - que nos preparam física, mental e tecnicamente para o que nos esperaria uma comissão como a que os levou a Angola.
E do salto do pau em Penude, no último dia do curso - quando, aos olhos da família e da namorada, não quis falhar um milímetro e quase me atropelou no salto. Outros tempos, ó Letras!! Os de Setembro de 1973!
- MATOS. Mário Augusto da Silva Matos, furriel miliciano atirador de cavalaria, fucnionário administrativo, natural e residente em Anadia.
- LETRAS. António Carlos Dias Letras, furriel miliciano de Operações Especiais (Rangers). Empresário comercial, residente em Setúbal.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Os panfletos da acção psicológica distribuídos na mata e sanzalas

Andei a escarafunchar os meus alfarrábios e cliquei na net, por me ter subido à memória a lembrança dos panfletos que eram distribuídos pela mata e nas aldeias de Angola, procurando sensibilizar as populações autóctones para as vantagens de se aproximarem da tropa. Que me lembre, os Cavaleiros do Norte poucos terão distribuído - talvez mesmo nenhum.
O que me lembra - e bem... - é de uma vez (quero jurar que na sanzala do Quimucanda!) fui insistentemente abordado por um idoso, que por ali andava com uma molhada de papéis embrulhada num pano sujo, mal falava Português e insistentemente nos acenava com gestos tímidos.
O dr. Leal dava consultas e distribuía medicamentos pelo povo da sanzala, com aquela bondade e carinho, muito mais que sacerdócio, que tanto o caracterizava, sorrindo e dando palmadas nas crianças, e a insistência do idoso despertava-nos cada vez mais atenção. Por certro, devia querer que lhe desse a ração de combate - pois era isso habitual. Pensei eu... Mas eu já não tinha a minha, dada a alguém lá da sanzala.
A certa altura, dirigi-me a ele - mostrando-me interessado em meter conversa. Só que ele falava dialecto que eu não conhecia e acabámos por entender-nos apenas por linguagem gestual e com ajuda dos mais pequenitos lá da aldeia. O que ele queria mostrar, afinal, era uns panfletos da acção psicológica, dando-nos, com eles na mão, conta do gosto de ter abandonado a mata, algures e num qualquer tempo, para se enquadrar na vida comunitária.
«Os tropa, és boa...», disse ele, sorrindo de vergonha.
Valeu-lhe essa abertura e simpatia, sempre tímida e muito envergonhada, para uma consulta atenta do dr. Leal, que lá lhe deixou uma bolsa de medicamentos para «sarar os doença...».

sábado, 12 de dezembro de 2009

O encarregado que não distribuía o que devia pelos trabalhadores...

Uma picada para as fazendas de café da zona do Quitexe.
Foto de Luís Fernando, de 2007 (net)

O processo de descolonização vivia-se por esta altura de Dezembro de 1974 com nuances que envolviam alguns incidentes entre e com civis. Nomeadamente em fazendas, onde o relacionamento entre os trabalhadores e os encarregados (normalmente europeus) nem sempre era pacífico.
As envolventes reinvindicativas cresceram, com ou sem razão - e não a vamos nós ajuizar... - e não raras vezes eramos chamados a intervir. Como no caso que vou recordar, apontado para estes dias daquele ano.
Um trabalhador bailundo chegou à administração civil do Quitexe, fugido de uma fazenda e queixando-se de agressões e de roubos. Podendo a memória trair algum pormenor, a lei então vigente concedia direitos aos trabalhadores que não estariam a ser cumpridos. O que nem seria assim tão invulgar. A distribuição de géneros alimentícios, por exemplo, seria mal pesada e não era a favor dos trabalhadores.
Numa fazenda registou-se uma revolta e a reacção patronal foi dura. Por alguma razão fugiu o bailundo, galgando a mata e as picadas, ligeiramente ferido e trazendo a mensagem do arbítrio. Fomos mandados lá, na madrugada seguinte, e ainda demos conta desse tipo de «operação», que conferimos sob violenta contestação do encarregado e do pessoal branco - que também o havia, embora em pouco número.
Fôramos avisados do eventual ilícito, fomos portadores da legislação e, a dado momento, no fulgor quase juvenil do nosso sentido de justiça, exibimo-la ao encarregado. Que reagiu muito mal, com insultos e ameaças. Poupando pormenores, levámo-lo para o Quitexe e não foi da melhor maneira para ele. Entregue à administração civil, não soubemos o que lhe aconteceu - constando-se por lá que teria ido preso para Carmona e que lá o haviam soltado.
Nesse dia, porém, os trabalhadores bailundos receberam o que tinham a receber para o período de trabalho seguinte.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Comissões Locais de Coordenação Civil-Militar do Quitexe

A vila do Quitexe em 2008, numa foto de Ivo Morgado (net)


A expectativa dos militares do BCAV. 8423, por estes dias de Dezembro de 1974, mantinha-se em alta. A chegada da 3ª. CCAV., que operara na zona de acção da Fazenda Santa Isabel, fermentou esperanças. Na verdade, o reposicionamento do dispositivo militar era entendido como um caminho para... Lisboa.

O dobrar de acções dos militares europeus, resultante da passagem a licença registada dos grupos de mesclagem - acções em escoltas, patrulhamentos e «policiamentos»... - não foi causa de qualquer efeito negativo. Por mim, e pelo grupo de furriéis - que muito acaloradamente discutíamos o evoluir da situação, embora sem informações concretas - entendíamos esse esforço como necessário e assumido com serenidade. Até porque, ausentes os grupos mesclados, a verdade é que os entendimentos inter-militares eram muito maiores. E não havia o risco de atritos entre africanos e europeus.

Ao tempo, vivia-se em clima de paz e foram reestruturadas as Comissões de Contra-Subversão, consideradas desnecessárias. Procurava-se agora mais estreitamento das relações entre civis e militares e passaram a chamar-se Comissões Locais de Coordenação Civil-Militar, identificadas pela sigla CLCCM. A do Quitexe teve consequências a partir de 11 de Dezembro de 1974. Faz hoje 35 anos!




quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Vista Alegre na Zona de Acção dos Cavaleiros do Norte

Vista Alegre, entre Aldeia Viçosa e Ponte do Dange, Zona de Acção do BCAV. 8423

Vista Alegre, vila que se seguia(e) a Aldeia Viçosa - depois do Quitexe - na estrada para Luanda, de quem vai de Carmona (Uíge). A saída definitiva da CCAÇ. 4145/72 (para a capital angolana), que começou a processar-se a 21 de Novembro de 1974, levou a que para lá se mudasse a 1ª. CCAV. 8423, comandada pelo capitão Castro Dias.
A rotação da Companhia concluiu-se a 25 de Novembro, incluindo do a ocupação do Destacamento da Ponte do Dange. A Fazenda de Zalala ficou para trás na história da ocupação militar portuguesa - conforme estava previsto. Assim como a do Liberato.
Os meios auto do BCAV. 8423 eram reduzidos para as necessidades e, como refere o Livro da Unidade, «a rotação do dispositivo militar começou a ser efectivada à custa de verdadeiros sacrifícios». A concretização destes movimentos era devidamente planificada e implicava a extinção de aquartelamentos. Era feita com a responsabilidade e a alegria de quem se sabia fazer parte da história.

- VISTA ALEGRE. Foto de Ivo Morgado (net)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

A chegada ao Quitexe da 3ª. Companhia, a de Santa Isabel

Placa militar de Santa Isabel, instalada pela CCAV. 1705

A 9 de Dezembro de 1974, era véspera da chegada da 3ª. Companhia a Quitexe. A retracção do dispositivo militar levou ao seu abandono do aquartelamento de Santa Isabel - ocupado pelas formas armadas portuguesas desde 1961/62.
Registava-se, por este tempo, alguma euforia entre a tropa. O abandono das posições na «mata», inspiráva-nos confiança num regresso breve a Portugal. A chegada dos companheiros de Santa Isabel e a anterior deslocação de parte da 1ª. CCAV, de Zalala para Vista Alegre e Ponte do Dange, favoreciam a nossa convicção: entrámos na fase decrescente da comissão. Mas, como por aqui já foi dito, não seria assim: ainda teríamos pela frente mais de oito meses.
A 9 de Dezembro de 1974, começava a chegar a 3ª. CCAV. e outro motivo nos incentivava: voltávamos a ter o convívio diário de amigos e companheiros que, de minha parte, tínhamos ganho em Lamego (nos Ranger´s) e em Santa Margarida (no período de formação do Batalhão, entre Janeiro e Maio de 1974).

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O outro capitão Oliveira da missão militar em Angola

Aquartelamento do BC12, em Carmona (Uíge), fachada principal vista
do lado da cidade. Foto dos anos 2000 (net)

Ir a Carmona e não conhecer o BC12, era um nosso pecadilho velho, mestiçado do permanente desejo de o visitar. As mais das vezes, quando «fugíamos» para a cidade, ora era para ir ao cinema ou (raramente) ao Comando de Sector.
O aquartelamento ficava fora da malha urbana, na saída para o Songo, e não era curial por lá passar. A passagem do Pelotão de Morteiros 4281 para lá, aguçou o apetite de o conhecer. O que aconteceu em data incerta de Dezembro de 1974.
A visita foi de «médico», mesmo muito breve, com entrada favorecida pela Casa da Guarda e espreitadela à parada, onde um grupo de militares fazia exercícios físicos e decorriam as actividades normais da guarnição. Demos a volta ao refeitório e, à saída, conhecemos um outro capitão Oliveira - que não o comandante da CCS do BCAV. 8423.
Ouvimos falar de Alquerubim e aguçou-se-nos a curiosidade. Alquerubim é freguesia de Albergaria-a-Velha, separada de Águeda pelo Rio Vouga. Aqui de casa a Alquerubim, em linha recta, não são mais de quatro quilómetros. Eramos quase vizinhos...
Claro que, dentro dos limites, meti conversa e vim a saber mais: o (novo) capitão Oliveira, na altura com os seus bons 50 e tal anos, era residente em Alquerubim mas nascido no Sobreiro de Valongo do Vouga - freguesia de Águeda. A boleia que nos levara do Quitexe não podia esperar muito e tivemos de abreviar a conversa, mas ficou o contacto - depois intensificado durante o período que coabitámos no BC12 - a partir de Fevereiro de 1975.
- BC12. Batalhão de Caçadores 12, unidade militar de Carmona (Uíge). A CCS e parte do BCAV. 8423 esteve no aquartelamente entre 2 de Março e 4 de Agosto de 1975, dia da saída para Luanda.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A ida a Carmona, o Escape e a confrontação militar...

Rua do Comércio, em Carmona (agora cidade do Uíge), em 2004

Hoje, o dia de hoje de há 35 anos, foi de reunião do MFA/Angola, no Comando de Sector do Uíge, em Carmona. A primeira de uma série quinzenal - que viria a ser interrompida (ou suspensa?) já nós estávamos instalados no BC12.

A primeira reunião - justamente por ser a primeira... - suscitou curiosidade e expectativa, mas esta pariu um ratinho dos pequeninos. Por ela falaram uns senhores coronéis e capitães, vindos do COPLAD e do MFA/Angola que, a perguntas das patentes mais baixas, moita carrasco... pouco disseram, para além dos slogans revolucionários dos tempos. E com uma intensidade, um deslumbramento, que quase nos pareciam insensatos. A nossa pergunta sacramental era a mesma: quando voltamos a Portugal? Mas ninguém nos sabia responder. Ou queria.

O almoço do dia foi no Escape, restaurante famoso da cidade, na Rua do Comércio - muito frequentado pela sociedade local (da classe média-alta) e por militares que detinham maior capacidade financeira. Era algum luxo, por lá refeiçoar, pois o cardápio não era para todos! Comia-se bem e aproveitava-se para pousar os olhos nas adolescentes que passavam na rua ou por lá se paravam, generosamente sugerindo apetites que não estavam ao nosso alcance.

Agora, ao olhar para a foto tirada do site Sanzalangola, reparo no fundo da rua, mesmo na curva para a esquerda - onde, por 4 ou 5 de Maio de 1975, estivemos sob mira de homens armados e por ali escondidos, quando patrulhávamos a cidade nos momentos mais quentes e dramáticos que por lá vivemos. O nosso poder de fogo esteve quase, quase a soltar-se. Que tragédia dali poderia nascer!!! Disso falaremos em tempo próprio!

domingo, 6 de dezembro de 2009

A pacaça abatida pela guarnição da 3ª. CCAV. de Santa Isabel

Flora e Fernandes, furriéis da 3ª. CCAV, posam com o condutor, junto
de uma pacaça. Era, a caça..., uma das outras faces da «guerra»

Há dias, por aqui falei da nossa última visita à Fazenda Luísa Maria e da história, no regresso, da pacaça que foi abatida - quando perseguia um cidadão local. E de boa se safou o bom do homem, ainda jovem, que corria que nem um desalmado, até minimamente se proteger à volta de uma árvore - enquanto, enfurecido, o animal a corneava.
Agora, nem de propósito, o (furriel) Fernandes, da 3ª. CCAV. 8423 (em Santa Isabel), manda-nos uma fotografia, com o resultado de uma noite de caça - que alguns soldados (e não só...) faziam de quando em vez.
Conta o Fernandes, na primeira pessoa:
«Como se pode observar, trata-se de uma pacaça e eu e o outro camarada apenas tirámos uma fotografia para enviar para as famílias. Ou seja, não tivemos qualquer participação na caçada. Caçada que foi bastante difícil, porque os soldados faziam-se transportar em jeep e, quando atingiram o animal com tiros de G3, este investiu contra a viatura. E com toda a fúria.
Os soldados, ao aperceberem-se das intenções do animal, fugiram com toda a pressa para o aquartelamento. Só na manhã seguinte é que foram ao local onde dispararam e encontraram o animal já sem vida, transportando-o então para o quartel.
Depois de muito pessoal tirar fotografias, o animal foi cortado para bifes, transformando-se, assim, num óptimo repasto dos soldados».
Eu calculo, ó Fernandes!! Esta, era uma das outras e mais saborosas fases da «guerra» que nos levou a Angola. E não estou só a falar de bifes!

sábado, 5 de dezembro de 2009

As delegações da FNLA e MPLA instaladas no Quitexe

Bandeiras da FNLA (vermelha e amarela) e do MPLA (vermelha e preta), casa
de Abílio Guerra Garcia (à esquerda) e secretaria da CCS do BCAV. 8423
(à direita), no Quitexe de 1974




O aceleramento do processo de descolonização levou, entre outras coisas (quase todas, para não dizer todas, obviamente passando à margem do nosso conhecimento), à instalação dos movimentos emancipalistas nas zonas urbanas.
O Quitexe, por esta altura de 1974 e já depois de Carmona, recebeu uma Delegação da FNLA - que ali se instalou. E logo depois uma do MPLA - factos que, à nossa curiosidade, suscitaram grande interesse e expectativa. Afinal, não é todos os dias nas nossas vidas que, embora como actores menores - ou até como somente meros figurantes... - , se participa num acontecimento da envergadura e importância como é o nascimento de uma nova pátria, «parida» de uma luta armada com o país colonizador.
A presença das Delegações, então chamadas de Secretarias, era motivo da nossa curiosidade e naturalmente conversávamos com os seus elementos, depois de galgados alguns constrangimentos. Mas sem um qualquer problema com as forças armadas portuguesas - embora soubessemos de alguns que se passavam por outras localidades da gigantesca Angola.
O Quitexe, que fôra vila-mártir em 1961, amadurecia com serenidade o processo histórico da independência e, visto hoje (35 anos passados), estamos seguros ao dizer que o BCAV. 8423 esteve à altura das suas responsabilidades. Até Setembro de 1975, tempo do nosso regresso!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Comandos em Santa Isabel e dúvidas na guarnição militar


Instalações da Fazenda de Santa Isabel, onde estava a 3ª. CCAV. 8423


A 5 de Dezembro de 1974, o comandante interino do Batalhão de Cavalaria 8423 (capitão José Paulo Falcão) visitou a fazenda de Santa Isabel, em vésperas de de lá sair a 3ª. Companhia - comandada pelo capitão miliciano José Paulo Fernandes. O tenente coronel Almeida e Brito, comandante BCAV. 8423, estava de férias em Lisboa.
A constante evolução dos acontecimentos, narra o livro da Unidade, «tornava necessário, mais do que nunca, o estreitamento de contactos entre comandos», razão, de resto, que levara José Paulo Falcão a reuniões no Comando do Sector do Uíge, em Carmona - nos dias 2, 4, 7 e 9 de Dezembro.
O Quitexe respirava aparente tranquilidade e o dia 4 - faz hoje 35 anos - foi de nova projecção de um filme, para familiares e civis, no Clube da vila.
A guarnição militar vivia momentos de ansiedade e dúvidas. Dúvidas principalmente resultantes de notícias que chegavam de Portugal, devido aos fraccionamentos políticos da revolução que então se vivia e que a maior parte de nós - jovens com educação militar pré-25 de Abril - não entendíamos muito bem.
As mensagens trazidas do «puto» pelos nossos companheiros chegados de férias também não ajudavam ou explicavam grande coisa. Antes confundiam. Por estes dias, por estes dias regressado de Águeda - onde matou saudades da família e namoriscou a sua Ni... - chegava o Neto: «Ó pá, aquilo por lá é uma confusão....».
E quanto à grande notícia que todos sonhávamos ouvir, nada: ninguém dizia quando regressaríamos a Portugal. Ninguém, aliás, saberia tal coisa!
- FOTO. Fazenda Santa Isabel, onde estava instalada a 3ª. Companhia do Batalhão de Cavalaria 8423. A foto, de César Oliveira, mostra uma visita do Comandante do BCAV. 1917, tenente-coronel António Amaral, à Companhia 1705, a 30 de Março de 1968. À direita, está o então Major de Operações Almeida e Brito - que viria a ser o comandante do BCAV. 8423, já como tenente-coronel. O nosso comandante!

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O clone de Madalena Iglésias na Avenida de Baixo do Quitexe


As duas da tarde daquele domingo começaram com grandes folguedos, na Avenida de Baixo - com um movimento de gente que não era muito habitual. A concentração era mais ali para os lados do Bar do Pacheco mas, curiosamente, não eram muitos os que dele se aproximavam! Ficavam por aqui e por ali, formando pequenos grupos que sorriam e sussurravam, o que aguçava ainda mais a curiosidade!
Não tardou muito a saber-se a novidade, pela qual os olhos caíam e tantos se babavam! Embora apenas de passagem, o Quitexe “presenteava-nos” com quatro beldades brancas, sem pejo em, com simples olhar, desafiar de forma descarada os mais curiosos e fazer corar os mais ingénuos! Ficou tudo de olhos esbugalhados, a fazer uma figura de que hoje se envergonhariam, certamente – e eu também!
O Alferes Serpa (Lixívias), era o mais inconformado e logo se mostrou muito crítico! «Isto é uma pouca vergonha, onde estão as autoridades?...».
Ninguém lhe dava ouvidos, o que o punha num estado ainda mais colérico! Foi uma hora de pandemónio, com o pessoal a fazer contas de cabeça, a usar e abusar da imaginação, até o sangue fervilhar no cérebro!
Estava eu a olhar (como os outros!...) para as moçoilas e senti uma pancada na minha memória! Lembrei-me então de uma ex-colega minha da então Escola Comercial, que em 1971 tinha partido para Angola onde, acompanhada de outras voluntárias, iria servir nas Missões Católicas! Quem a conhecia, não disfarçou a estupefacção - era bonita demais! Afinal, podíamos muito bem estar perante quatro dessas voluntárias, que pelas Áfricas - neste caso pelo Quitexe -, distribuíam amores e ternuras!
Havia até uns calendários onde apareciam com crianças ao colo, no interior das Sanzalas em acções Missionárias! Era de louvar, a sua dedicação! Por instantes, pareceu-me reconhecer uma delas e até ia caindo no pecado de afirmar a mim mesmo que se tratava da minha ex-colega! Senti um ligeiro desconforto e até abandonei o local! E voltei a senti-lo em Maio deste ano, e 37 anosdepois, quando, no almoço de antigos alunos, me cumprimentou!
As voltas que o mundo dá! Passados todos estes anos, com muito ênfase, tentámos, como se fosse possível, recuperar a nossa irrequieta adolescência! Ainda e sempre bonita, lembrou-me a alcunha que lhe deu “fama” no meio escolar - Madalena Iglésias!
Apesar de revelar boa memória, não me falou do Quitexe ou de Missões Católicas! Claro, também não nos podemos lembrar de tudo!
A. CASAL

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Os reencontros dos Cavaleiros do Norte do BCAV. 8423

Nossa Senhora de Fátima de Zalala (em cima) e (ex-capitão) Castro Dias (em baixo)



Amigos da comissão em Angola foram vários os que por estes dias contactaram directamente o blogue: Pinto, o Queirós e o Dias (furriéis da 1ª. Companhia, de Zalala), o Carvalho e o Letras (alferes e furriel da 2ª. CCAV., de Aldeia Viçosa), o Carvalho, o Flora, o Gordo e o Fernandes (furriéis da 3ª. CCAV., de Santa Isabel).
Hoje, a conversa foi «gorda» com o (ex-capitão miliciano) professsor Castro Dias, que foi comandante da 1ª. CCAV., a de Zalala. Mantém, já aposentado do ensino mas activo na luta sindical, a mesma gargalhada fresca e solta, divertindo-se com os acasos do dia-a-dia, como por acaso foi o nosso (re)encontro.

Não faltaram recados do ontem, que já vai em 34/35 anos - quando jornadeávamos por Angola os últimos tempos da soberania portuguesa
Trocámos novidades e mais duras falaram de amigos que já partiram. Por exemplo do comandante Almeida e Brito, que a morte surprendeu em Espanha, a 20 de Junho de 2003 - quando fazia turismo de grupo. Do capitão Oliveira, comandante da CCS. De outros! A vida traz-nos destas surpresas. Como a que dele recebi: a viuvez recente do Barreto, que foi furriel enfermeiro de Zalala. Dele, lembro bem as suas rápidas passagens pelo Quitexe, connosco confraternizando emoções e saudades - todos sonhando o sempre apressado e desejado regresso a Portugal.
Assim se vai reencontrando a família do Batalhão de Cavalaria 8423! Em 2009 para 2010!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A última passagem do PELREC pelo Destacamento de Luísa Maria


Instalações do Destacamento Militar da Fazenda Luísa Maria,
em Novembro de 1974

Os tempos de Dezembro de 1974 foram de grandes movimentações no BCAV. 8423, com várias alterações no seu dispositivo militar. Delas iremos falando, por estes dias mais próximos.
Os Cavaleiro do Norte tinham a CCS em Quitexe, mas as companhias operacionais estavam noutros locais: Zalala (1ª. CCAV), Aldeia Viçosa (2ª. CCAV.) e Santa Isabel (3ª. CCAV.). Eram, digamos, as unidades orgânicas do batalhão, que também tinha associadas a Companhia de Caçadores 209, do RI21 (na Fazenda do Liberato), a CCAÇ. 4145 (Vista Alegre), o Pelotão de Morteiros 4281 (Quitexe), para além dos Grupos Especiais. Nalgumas circunstâncias, eram destacados pelotões para outras fazendas da zona de acção, funcionando como destacamentos militares.
A 1 de Dezembro, fomos à fazenda Luísa Maria - onde estava um pelotão da 2ª. CCAV. (Aldeia Viçosa), que de lá viria a sair dias depois. Havia alguma ansiedade da parte dos militares ali estacionados, no fundo distantes da suas unidades-sede, isolados dos centros urbanos mais próximos e sedentos de notícias. E delas queriam saber. O Ramalho, por exemplo, furriel alentejano, era o mais inconformado. A ele se juntava a expectativa conformada mas ansiosa do Brejo, outro furriel alentejano: «Estamos pr´aqui, pá... tamos pr´aqui....!», comentava ele, desolado.
O PELREC já lá tinha estado noutras vezes, com outra gente por lá instalada, mas também num domingo recente de Novembro, ainda fresco neste regresso da última visita - a 1 de Dezembro de 1974. Sussurava-se a saída de lá, mas ninguém confirmava e muito menos sabíamos nós, os furriéis. Nesse domingo, jogámos as cartas e, no regresso, abatemos uam pacaça que perigosamente atacava um civil - que dela fugia a sete pés, pela picada, resguardando-se depois no tronco de uma árvore gigante.
O pelotão da 2ª. CCAV. viria a sair de Luísa Maria a 14 de Dezembro de 1974. A missão de faz hoje 35 anos foi a última passagem de PELREC por lá.
- RI 21. Regimento de Infantaria 1, de Luanda.
- RAMALHO. Rafael António Pimenta Ramalho, furriel miliciano atirador de cavalaria, da 2ª. CCAV. 8423. Funcionário público aposentado, reside em S. Bartolomeu (Vila Viçosa).
- BREJO. João António Piteira Brejo, furriel miliciano atirador de cavalaria, da 2ª. CAV. 8423. Mora na zona de Setúbal.
Ver mais sobre Luísa Maria, aqui: http://209.85.229.132/search?q=cache:8HdBofFbSPUJ:cavaleirosdonorte.blogspot.com/2009_04_01_archive.html+%C2%ABDestacamento+Militar+da+Fazenda+Luisa+Maria%C2%BB&cd=9&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O furriel angolano que esteve na CCS do BCAV. 8423 no Quitexe

Furriéis Carvalho, Viegas e companheiro angolano, na frente do
bar de sargentos do Quitexe

O dia 30 de Novembro correu bem, pelas terras do Quitexe: nada de especial se passou com a desactivação dos GE (como ontem aqui dissemos) e ficámos a saber que os chamados Grupos de Mesclagem iam passar à situação de licença registada - forma meio semântica de dizer que entravam na disponibilidade ns "peluda".
A grosso modo, os Grupos de Mesclagem era constituídos por militares de origem africana, integrados e sob comando das companhias europeias. A preparação militar era feita no RI20, em Luanda (e certamente em outras unidades), e eram depois gradualmente integrados nos Batalhões. O BCAV. 8423 tinha três grupos, um em cada um das Companhias Operacionais, em Zalala (1ª.), Aldeia Viçosa (2ª.) e Santa Isabel (3ª.) - todos eles atiradores de infantaria e raramente passando de soldados, rarissimamente de cabos.
Curiosamente, foi nosso companheiro por algum tempo um furriel miliciano - cujo nome esqueci - que era angolano e por alguma razão que desconheço (ou já não lembro) esteve na CCS durante algum tempo. Sendo bom camarada, teve, porém, um qualquer problema - que o levou ao Posto 5 por alguns dias, cabendo-me a rifa de ter de o acompanhar ao local, levar-lhe a primeira refeição e, furtivamente, tabaco durante a noite.
Foi para Carmona uns dias depois, nunca mais o vimos - constando-se na altura que teria ido para Nova Lisboa, de onde seria originário. Ou pelo menos por lá tirou o curso de sargento miliciano. É o da direita, na foto - datada de 10 de Novembro de 1974. Alguém saberá dele?
Tivemos discussões muito acesas, sobre a situação política angolana - que ele vivia de uma forma muito particular. Era um homem esclarecido, mas muito circunspecto, porventura algo introvertido!