O Pais era 1º. cabo rádio-montador, originário de Viseu e senhor da sua boa e grande graça. Por ser de uma aldeia chamada Travassós de Cima e aqui ao lado da minha haver uma outra chamada Travassô, se calhar por isso..., sempre nos sentimos próximos e cúmplices.
BATALHÃO DE CAVALARIA 8423. Os Cavaleiros do Norte!!! Um espaço para informalmente falar de pessoas e estórias de um tempo em que se fez história. Aqui contando, de forma avulsa, algumas histórias de grupo de militares que foi a Angola fazer Abril e semear solidariedade e companheirismo! A partir do Quitexe, por Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Ponte do Dange e Songo! E outras terras do Uíge angolano, pátria de que todos ficámos apaixonados!
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
O 1º. cabo Pais que agora é o Toné de Viseu
O Pais era 1º. cabo rádio-montador, originário de Viseu e senhor da sua boa e grande graça. Por ser de uma aldeia chamada Travassós de Cima e aqui ao lado da minha haver uma outra chamada Travassô, se calhar por isso..., sempre nos sentimos próximos e cúmplices.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Deram-me sardinha assada e arroz branco...
«Sempre tive as portas abertas a todos, sem constrangimentos, era amigo dos militares e os militares eram meus amigos...», lembrou ele no Encontro de Águeda, depois de falar da nossa gente e da gente nativa, que ele ensinava nos caminhos da fé, com o entusiasmo jovem de quem se dá em partilha com os outros.
Albino Capela era o padre do Quitexe, onde ficou quando de lá saímos, em Fevereiro de 1975. Juntou-se-nos em Carmona, quando os incidentes da vila quitexana precipitaram a insegurança e a fuga. E, depois, não quis integrar a coluna militar que deixou Carmona para Luanda. «Tenho de fixar com a minha gente...», disse ele ao comandante Almeida e Brito, que insistia no seu (dele) abandono da cidade, integrando-se na (que seria) epopeica coluna militar para Luanda. Que tinha mais de 700 viaturas! E ficou.
No Encontro de Águeda, lembrou as 4,30 horas da manhã de 4 de Agosto de 1975: «Fui ver-vos partir...». Assim disse e parou as palavras, como que engolindo um ai de dor e amargura. Uma semana depois, em Agosto de 1975 e apressadamente, teve de ganhar boleia num avião para Luanda, para sair do inferno de Carmona.
Albino Capela, no altar das suas emoções do Encontro de Águeda, lembrou, de emoção puxada à voz e palavras pausadas, a fome que lhe matou o BCAV. 8423, quando fugiu do Quitexe e chegou a Carmona, com a irmã e outra gente: «Deram-nos sardinha assada e arroz branco! Nunca mais vou esquecer!...».
Adivinhava-se um ápice compulsivo no falar de Albino Capela, se calhar com alguma lágrima a escorrer-lhe a face. «Nunca mais vou esquecer, deram-nos sardinha assada com arroz branco!...».
- CAPELA. António Albino Vieira Martins Capela, sacerdote católico e padre do Quitexe. Actualmente, é professor e reside em Barcelos.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
O 1º. cabo Buraquinho, analista e depurador de águas
domingo, 20 de setembro de 2009
As emoções, as paixões e a fé do Monteiro...
O Monteiro é do Marco e passou as «passas de Lamego» no segundo turno de instrução dos Ranger´s de 1973. Ele e, com muitos outros, também eu e o Neto. E o alferes Garcia - comandante do PELREC que integrávamos no Quitexe.
O trio «furrielístico», ainda com o vermelho de cabos milicianos no ombro, galgou os campos de Santa Margarida, por onde tivemos o IAO do BCAV 8423. Desse tempo, recordo a nossa apresentação no RC4, em antevéspera do Natal de 1973, quando logo nos quiseram pôr de serviço É o punhas!. «De serviço? Nós?!... Nem pensar, o nosso castigo já é estarmos mobilizados...», gritou o Neto, fazendo vibrar a sua rebeldia. E nós fizemos coro!
«Nós vamos é passar o Natal a casa!!!...». E (des)enfiámo-nos os três, no SIMCA 1100 do Neto, «marchando» para Águeda, sem olhar para trás. Cá chegámos, mas a destempo do autocarro, eram já perto das nove horas da noite, e o Monteiro teve de apanhar boleia para o Porto, onde um irmão o iria buscar. Telefonámos do café Parreirinha e o sargento dia do RC4 ainda lá deve estar à nossa espera!
A vida, ainda em Santa Margarida e depois em Angola, de alguma maneira «desfez» o trio - que ficou mais duo, o Neto e eu ... - com o Monteiro de G3 mais instalada na secretaria e as nossas a viajarem mais pelas picadas e matas do Uíge. Do Quitexe, entre outras histórias, recordou-me agora uma monumental enfrascadela (dele, digo eu...) de brandy Macieira, num dia (noite) em que eu estava de serviço. Não me lembro!!!
O Monteiro falou no Encontro de Águeda: da graça de ser Cavaleiro do Norte e do Deus que nos acompanhou, da fé que alimentou almas e das aventuras a que, na verdejante idade desse tempo, sempre nos arriscávamos, sem cuidar algumas vezes de perigos. Da amizade que galgou 34 anos, das emoções e perigos dos dias mais graves e da honra de termos servido Portugal. Assim é que é falar!
Não disse ele, mas lembro eu as intermináveis gravações de cassetes, enviadas com recados e muitas juras de amor para a sua Nani! E lá estava ela, no Encontro de Águeda: «Era e é o meu amor, o meu amor de sempre, está mais linda que nunca!...». Vaidoso, o Monteiro! E lá tem as suas razões!
- RC4. Regimento de Cavalaria 4, em Santa Margarida. A unidade de mobilização do BCAV. 8423.
- IAO. Instrução Altamente Operacional, período de preparação militar que antecedia a partida para os cenários de guerra.
- MONTEIRO. José Augusto Guedes Monteiro, furriel miliciano de operações Especiais (Ranger´s). Aposentado dos Transportes Colectivos do Porto e empresário. Natural de Vila Boa de Quires (Marco de Canaveses) e residente em Paredes (Porto).
- NANI. Fernanda Queirós, professora primária, a namorada de então e hoje esposa de JAG Monteiro.
sábado, 19 de setembro de 2009
O Pires e o Caixarias fizeram anos de casados no Encontro dos Cavaleiros do Norte

Pires, com Licínia, a sua mulher de sempre, no Encontro de Águeda, no dia em que faziam 33 anos de casados!!! Houve beijos na boca!!! À esquerda, vê-s eo Monteiro (Gasolinas) e à direira, Ni e Nani, esposas de Neto e Monteiro (furriéis), na foto de cima. Na de baixo, Raúl Caxarias e mulher! sexta-feira, 18 de setembro de 2009
O Neto falou dele e por todos nós...
O Neto não é de floreados nas palavras, mas é de acção e emoções fortes e sentidas. Vibrantes e empolgadas! Furriel miliciano de Operações Especiais (os Ranger´s), foi meu companheiro de Junho de 1973 a Setembro de 1975, de Lamego a Luanda, passando por Quitexe e Carmona. Já fôra meu compincha na escola e é-o ainda na vida de hoje, em Águeda - de onde somos!
Alguém aqui já nos chamou furriéis-gémeos e isso fomos, desde o tempo que nos preparou para Angola, por Lamego e Santa Margarida. E nos sacramentou nos dias mais duros e aflitos do Quitexe e Carmona, por onde africanizámos a alma.
O Neto interveio no Encontro dos Cavaleiros do Norte, os da CCS do Quitexe, e falou das suas dores mais recentes, deixando-se emocionar pelos momentos deste ano que lhe enlutaram a alma e a vida pessoal. Olhava-o a mulher, a Ni - já seu amor desde esses tempos..., concentrada de ansiedade, roendo o dedo indicador, com a alma a abrir-se às emoções que engravidaram a tarde quitexana da pateira. «O que vais dizer, Xico?!...», calculo eu que ela se tenha interrogado.
E disse o Neto que, nestes seus momentos de dor, se sentiu mais forte porque isso aprendera a ser nos Ranger´s. Mais forte, quando os dramas, as tragédias e os medos nos espreitam e enlutam a alma! Que essa força a multiplicou por Angola, onde - e agora digo eu... - semeou companheirismo, colheu empatias, dividiu afectos e foi um bravo e garboso militar! Um português de Águeda e sem medos, sem hesitações na hora de dar o passo em frente e assumir a verdade e a luta pela justiça; de segurar no colo a bondade de ser amigo e ter a generosidade de se dar, quando outros precisam, por mais precisados!
«Devo esta força interior, que me ajudou e ajuda a ser mais forte..., ao que aprendi nos Ranger´s e que a nossa missão em Angola fez melhor e maior...», disse o Neto, de voz quase a sumir-se e como que olhando o céu de imagens que se faziam em espelho nas caras religiosamente atentas dos Cavaleiros do Quitexe deste encontro de Águeda!
O Neto não é homem de floreados nas palavras! Não é!!! Mas mesmo a sumirem-se e a fazerem silêncios, disse tudo por nós, falando dele! Ranger, yaaaaaaa!!!
- NETO. José Francisco Rodrigues Neto, furriel miliciano de Operações Especiais (Ranger´s), do PELREC do BCAV 8423. É empresário, natural e residente em Águeda.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
O Machado «beduíno» que era... menino de coro!
O Machado é rapaz de grande «rodagem», que já era bem visível no Quitexe, em lutas e discussões que eternizavam a sua coragem e esclarecimento para defender os interesses dos mais pequenos. E ele, que não é propriamente alto, foi sempre gigante na assumpção da solidariedade e da camaradagem, quando se tratou de defender os que menos podiam.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
O alferes Cruz de oficial dia na madrugada da guerra....
Cruz é nome repetente na CCS do BCAV 8423! Há o Cruz alferes e o Cruz furriel. Este tem sido, por estes nossos 34 anos de civis, meu companheiro de muitas «jantas»! Cruz, o alferes, voltei a vê-lo agora: charmoso, hein!! E bem acompanhado pela doce Margarida dos seus amores! Tão amores, tão amores que a levou de mala aviada e filho no colo para o Quitexe de 1974. E para a Carmona de 75. Bate aqui o ponto!
Olharam-no alguns soldados, na parada! Os momentos eram de grande tensão! Bravos cavaleiros do norte, mesmo sem sequer serem atiradores da valente cavalaria portuguesa, deram-lhe a força solidária. «O meu alferes não vai sozinho... vamos consigo!!!».
terça-feira, 15 de setembro de 2009
Cada um de nós tem uma memória... do BCAV. 8423
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
: Um encontro que me deixou saudades...e muitas até às lágrimas !!!

domingo, 13 de setembro de 2009
O encontro da CCS do BCAV. 8423 em Águeda. Foi bonita a festa, pá!
O Almeida veio de Albufeira, no Algarve. O Pires, chegou de Bragança, no outro extremo de Portugal. Vejam lá como é este milagre de "cavalgar" amizades, as destes cavaleiros e amazonas que se enfeitiçaram pelo Quitexe e por Angola!!!...
Não se pediu um minuto de silêncio. Pediram-se palmas! Muitas palmas!!! Os Cavaleiros do Quitexe ovacionaram e emocionaram-se, de pé e em saudades regadas de lágrimas e nós de garganta, em homenagem aos amigos que partiram!
E houve discursos, discursos emocionados, orações empolgadas e sentidas!! Aqui viremos falar deles, nos próximos dias. Por hoje, recordamos a «continência» ao tenente (agora capitão) Luz, pedindo-lhe que acompanhasse a senhora sua esposa para que, «como nossa primeira dama...», fatiasse o bolo da festa! Palmas, muitas palmas...
sábado, 12 de setembro de 2009
Cavaleiros do Norte tiveram Encontro de Águeda
Os rapazes da CCS do BCAV 8423 juntaram-se hoje, no encontro da Pateira de Fermentelos, em Águeda. Alguns «galoparam» quilómetros que não lembraria ao diabo, para comer a sopa. O (alferes) Almeida fez mais de 2000, desde Marraquexe, em Marrocos, e parando em Albufeira - aonde voltou. O (furriel) Morais «picou as esporas» desde Elvas. "Saí às 6 e pouco da manhã...", contou ele feliz e de boca rasgada em sorriso. O Mosteias pôs toda a cavalagem do seu Audi a«voar» desde Sines. O mesmo fez o Zambujo. O Pires «montou-se" na sela do seu Vectra desde Bragança. Eu, que sou daqui a dez quilómetros, não fui o primeiro a chegar. Quase me senti envergonhado. Mas foi tudo uma festa, a que não faltou sequer o toque de clarim, para o rancho. Viremos com alguns história deste encontro nos próximos dias.
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Angolano agradece vidas que o BCAV 8423 salvou...

Eu sou angolano e fui acolhido de braços abertos no BC 12, em Junho de 1975, em Carmona (Uíge), quando acontecerem os incidentes da cidade. Gostei da maneira carinhosa como eu, minha família e várias outras famílias fomos recebidos, alojados e alimentados por vós, durante cerca de 10 dias, até que no dia 14 de Junho de 1975, a comitiva terrestre se preparara para a viagem a Luanda, bem escoltada por vós. Fica aí a minha consideração por esse vosso gesto carinhoso, pois livraram muitas vidas que se encontravam em perigo.
Atenciosamente,
Eugénio
O BCAV 8423 fez o
gesto, emociona-nos.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Saudades do alferes Garcia...
Pertenci ao pelotão-auto, uma parte de um todo coeso e disciplinado que era o nosso Batalhão de Cavalaria 8423. Honra seja feita ao Comandante Almeida e Brito, que nos soube incutir, com mais ou menos sacrifícios, a dignidade, a disciplina e o companheirismo que sempre nos guiaram e nos permitiram regressar de cabeça levantada e com o sentido do dever cumprido.
Fiz grandes amigos em Angola. Na força da juventude, na adversidade e isolamento, desenvolvem-se laços de amizade que noutras condições seriam muito difíceis. Eu e minha esposa Margarida, que sempre me acompanhou, fizemos amigos que nunca esqueceremos e com alguns dos quais mantivemos - e mantemos - uma grande e verdadeira amizade.
Vou hoje recordar um dos mais próximos, que infelizmente já não se encontra entre nós e com quem a nossa amizade e convívio se manteve para além do ultramar.
O António Garcia, o alferes Garcia!! Valente, corajoso, amigo com quem todos podíamos contar, bem disposto e atento a tudo e todos, recordo-o a brincar com o meu filho Ricardo e, com grande brio e coragem, à frente do seu pelotão, à porta da messe de oficiais, disposto a fazer frente aos sublevados da companhia do Liberato.
Recordo as nossas idas às companhias de Vila Viçosa, Zalala, Santa Isabel e fazenda Vamba. Eu e os meus homens com a missão do controle de armas e viaturas, ele com os seus «pelrec´s» a zelarem pela nossa segurança.
Encontrámo-nos cá várias vezes, ou sempre que podíamos, e era com tanta paixão que falávamos de África que as nossas esposas se repetiam: «Vocês não sabem falar de outra coisa?...».
Fui com o José Alberto Alegria (o alferes Almeida) ao seu casamento, a Carrazeda de Ansiães, onde fomos recebidos de braços abertos. Penso que houve foguetes. O Garcia era mesmo assim. Com ele, a amizade tinha de ser sentida e vivida.
Mais tarde, estando a Margarida, como médica, a fazer o serviço à periferia em Carrazeda e não havendo facilidade de hospedagem, o Garcia e a Olga, sua esposa, não descansaram enquanto não dispusemos da casa de um familiar em Pombal de Ansiães. Que terra, que gente, que comezainas e felizes momentos passamos com ele e seus familiares e amigos.
Jamais o esquecerei.
ANTÓNIO ALBANO CRUZ
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
O Quitexe católico no tempo dos Cavaleiros do Norte
A Igreja do Quitexe em 2008terça-feira, 8 de setembro de 2009
Faz hoje 34 anos!...
Aeroporto Internacional de Luanda, nos anos 70 (foto de Rui Ribeiro)Com o Neto, trazidos pelo Benício, que era condutor da fábrica do pai e a Lisboa nos foi buscar, parámos num restaurante de Alcoentre e comemos bacalhau assado, com vinho branco. Que saudades! Cheguei aqui a casa, perto da uma hora da madrugada - já com o Neto a enlaçar-se na família, na Bicha Moura (Águeda). Fui a casa de minha irmã, para que viesse a casa acordar a nossa mãe, ao tempo recém-viúva e doente!
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
A Ceia de Natal do Quitexe de 1974
domingo, 6 de setembro de 2009
Setembro de férias e alguns incidentes militares no BCAV 8423
Vista parcial da cidade da Gabela, destacando-se a Igreja Matriz - que conheci faz agora 35 anos
Restauração da picada para a Fazenda do Liberato (foto de José Lapa)sábado, 5 de setembro de 2009
Tempos de Setembro, de serenidade e aplastamento de dúvidas...
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
O homem branco que batia no homem negro...
Angola foi tempo de multiplicação de camaradagens e solidariedades. Quando se diz que a tropa nos fez mais homens, diz-se uma verdade. Mas incompleta! A tropa formou-nos, ampliou-nos o conhecimento e a experiência, sacramentou cumplicidades e semeou amizades que levedaram e se aumentaram nos tempos, até hoje!
Eu e o Chico Neto, ambos de Águeda, embora de formações bem diferentes, celebrámos «casamento» em altar que ainda dura. Julgo poder dizer, sem exagero, que até eramos «invejados», tal era a afinidade, a cumplicidade, o «estou por ti» que se revelava em todos os momentos do nosso dia-a-dia. Completávamos-nos!
Um dia, em operação que nos fez galgar imensos quilómetros pela mata afora, com ponto de chegada a uma fazenda algo distante do Quitexe, ouvimos gritos aflitivos, cada vez mais prolongados e angustiados, como que a definharem-se. Caminhávamos já dentro do cafezal, no silêncio e cautelas que urgiam, quando demos com um cenário de agressão a um trabalhador negro. O pobre do homem, ripava café (com muitos outros, talvez uma centena...), para uma espécie de saco pendurado do pescoço e pela cinta abaixo, um trabalho violentíssiomo..., e agredia-o o capataz.
Insurgiu-se o Neto, correndo em defesa do homem negro e gritando para o encarregado: «Eu mato-o....». E apontava-lhe a G3.
Os breves segundos que se seguiram foram de dramática tensão. «Calma, Neto!...», disse-lhe eu, procurando convencê-lo. Olhou-me ele, de olhos esgaziados. Ver um homem a ser agredido daquela maneira, é que não podia ser, para o Neto, de formação cristã muito forte e ali, por instinto, a defender os mais fracos! O homem da fazenda atemorizou-se, estava em desvantagem, rodeado de tropas. «Se repetir a tentativa, vai preso...», gritou-lhe o Neto.
Lembro-me que o caso foi comunicado às autoridades militqres, em relatório da operação, e que transitou para a administração civil. Mas não sei o que aconteceu depois... Ou não me lembro.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
As cumplicidades de uma cidade grande como Luanda...

quarta-feira, 2 de setembro de 2009
(Re)Descobrir Luanda com amor!
A noite e baía da cidade de Luanda nos anos 70 do século XX (fotos da net)
Entrei de férias, que ostensivamente e em muito boa hora, decidi gozar em Angola, espraiando emoções do Uíge a Luanda, ao Huambo, Gabela, Lobito e Benguela, por aí fora, em milhares de estradas e paisagens que enchiam os olhos e a alma.
A Luanda que (re)descobri, luminosa e bonita, de noites e cheiros sensuais e ardentes, não deixou de me enxaguar a alma e os apetites, fazendo-me cúmplice de quantos gostos, de tantos manjares e prazeres. E etc, etc, etc...
terça-feira, 1 de setembro de 2009
O «patrulhamento» da CCS às Quedas do Duque de Bragança...
Quedas do Duque de Bragança, em passeio da CCS do BCAV 8423, 1974A Angola que conhecemos em 1974 e 1975 era terra de enormes potencialidades e todos nós tínhamos um enorme desejo de a conhecer, para além das fronteiras do Quitexe - onde se concentrava o nosso dia-a-dia, quantas vezes ouvindo as peripécias e «aventuras» dos nossos companheiros que, pela sua especialização e obrigações militares, mais vezes saíam do aquartelamento.
Saímos de madrugada, numa Berliet e num «gasolinas», e visitámos as cataratas do rio Cuanza, na parte superior e inferior, onde fomos submetidos à enorme nuvem de vapor resultante da grande queda de água, a uma altura bastante considerável É, sem dúvida, uma das mais extraordinárias maravilhas da natureza que eu conheça e que muito prazer tive em visitar. Impressionante!!!
No regresso, visitámos a cidade de Malange, onde tive a alegria e oportunidade de visitar um familiar, que lá estava em comissão de serviço na PSP.
Durante o percurso, na ida e volta do Quitexe, apenas apanhámos pó vermelho na picada, até Camabatela, até à estrada asfaltada.
Rolando ao longo de uma imensa planície, vimos ainda as deslumbrantes Pedras do Cacuso, que, parecendo enormes montanhas, se destacavam no horizonte. São impressas em postais ilustrados e fazem parte do roteiro turístico de Angola.
O regresso ocorreu já ao fim do dia, sem problemas, com algum cansaço mas satisfeitos pelo dia que passamos. Um grande, bonito e saudoso dia de Angola!
JOSÉ S. PIRES
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
O alferes miliciano Ribeiro e o Pelotão de Sapadores...
Soldados sapadores de infantaria da CCS do BCAB 8423, em Carmona (1975)
domingo, 30 de agosto de 2009
O interrogatório do capitão Oliveira a três furriéis inocentes...
Um belo princípio de tarde, lá por Janeiro de 1975, um a um e sem que nenhum soubesse um dos outros, fomos chamados ao comando. Achámo-nos no comum, à porta de entrada do gabinete. «O que é fazes qui, pá...?», foi a pergunta entre pares. Chamou-nos de imediato, o imediato do 1º. sargento Luzia: o capitão Oliveira queria falar connosco. Pronto, «há m...». Havia.
O bom do capitão Oliveira, que a vida já levou, não era propriamente o melhor amigo dos dois furriéis de Águeda ( o Neto e eu), por contas de outro rosário. Juntar ao interrogatório o Machado, era uma surpresa.
Fomos os três interpelados, de dedo em riste, como se estivéssemos na ponta da baioneta. «Vocês isto e vocês aquilo, o RDM, as NEP´s...», blá-blá-blá, acusou-nos o capitão. E líamos-lhe nos olhos que nos esperava o degredo, dias de detenção, prisão, eu sei lá..., tudo ali na frente dos nossos olhos e emoções. Abrimos a boca de espanto. Nós éramos bons rapazes, o que queriria o nosso comandante de Companhia, a gloriosa CCS do BCAV 8423?!
Irrompeu o Machado, nervoso, impulsivo, respondão: «O meu capitão não nos pode acusar de nada...». E acusados éramos de desrespeitar as regras militares e termos sugerido reacções colectivas, perigosas, anti-regualmentares, penalizáveis. Estou a ver Machado: 1,60 de altura, de dedo no ar, empolgado e revoltado, em esgares de nervosismo (in)controlado. «Não nos pode acusar de nada... O meu capitão está a desrespeitar-nos....».
Soltou-se o Neto, não menos respondão que o Machado: «O meu capitão não tem razão. Há muito tempo que anda a querer pegar-se comigo e com o Viegas...». E atirou uma mão-cheia de argumentos que desestabilizaram as razões que o capitão Oliveira assumia ter contra nós, influenciado por alguém e para nos julgar e castigar.
«Não lhe admito, desculpe...», sustentava o Machado. «O meu capitão está mal informado...», sublinhava. E ninguém o segurava, de tanto impulso e por se sentir injustiçado, gesticulando e gritando. Injustiçados todos nós. E estava eu ali para entrar na conversa, no minúsculo gabinete do comandante da companhia, um acimentado desconfortável, onde muita coisa da CCS se decidia.
O Neto, vigoroso e interveniente, nada boca-calada, soltou mais argumentos e falei eu, meio filho da mãe, refilão e contestatário...: «É inacreditável, meu capitão....».
E ressoltou o capitão Oliveira as NEP´s, de olhar fulminante, acusando-nos de desestabilizadores. «Nós somos os mesmos que todos os dias estamos dispostos a sacrificar a vida pela segurança de toda esta gente. Pela sua segurança, pela sua vida... pela vida de toda a gente da CCS», recalcitrei-lhe eu, da forma mais ordinária e emotiva que pude.
O capitão chamou-nos um nome, que não repito aqui. E morreram muitos ódios naquele momento. E nem conto os nomes que, os três, chamámos logo depois aos que pusemos no nosso tabuleiro acusatório - os culpados desde dedo em riste do capitão Oliveira. Há coisas que não esquecem! Estávamos inocentes!
sábado, 29 de agosto de 2009
Melhor conhecer e mais amar Angola!!!...
Agosto de 1974 foi tempo de se acabar com as acções militares ofensivas e ampliar o apoio do BCAV 8423 aos povos e fazendas da área operacional, seguindo directivas hierárquicas.
Muitas vezes assegurámos o transporte (de ida e volta) a pessoas e mercadorias, que a população ia mercar ao Quitexe e principalmente a Carmona. Eram dias sempre muito «pesados», pelas distâncias que tínhamos de percorrer, sempre envoltos pelo pó quente e vermelho das picadas que se colava no corpo alagado de suor e pela tensão e «medo» que sempre se vivia, de uma qualquer acção ofensiva do chamado IN, alguma mina, alguma emboscada, algum acidente. Às vezes mais de 400 quilómetos, muitas horas de viagens, uma brutalidade para a marcha sempre algo lenta dos unimogs - viatura miitares a que chamávamos burros de mato.
Muitos populares, para além de beneficiarem de apoio médico local, nos seus próprios povos, eram muitas vezes levados ao Quitexe, para tratar de assuntos na administração ou no hospital civil - além de actividades comerciais correntes, para sustentarem a sua magreza económica doméstica. Havia uma grande empatia, sentia-se bem!!..., entre militares e civis - o que nos empolgava para a execução das nossas obrigações militares com um espírito profundamente cristão e partilhante. Que se vivia não só no contacto humano directo, como na partilha de bens pessoais, que vulgarmente os soldados faziam com a população - remédios, artigos de higiene pessoal, rações de combate, roupas, calçado. livros, canetas, lápis, cadernos...
Por mim, Agosto de 1974 foi véspera de mês de férias. Tinha decidido não vir a Portugal e esperava-me um circuito «turístico» que me levou a Luanda, à Gabela e a Nova Lisboa, onde abracei familiares e vivi felizes dias com amigos e conterrâneos civis. Ainda hoje me dou graças pela oportunidade de, nestas e nas férias de Abril de 1975, melhor ter conhecido Angola. Mais a fiquei a amar...














