quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O Machado «beduíno» que era... menino de coro!

Machado e o seu amor, Emília (a Mila do Gerez), que lhe deu um filho
médico e lhe multiplicou a alma de homem bom!
!

O Machado é rapaz de grande «rodagem», que já era bem visível no Quitexe, em lutas e discussões que eternizavam a sua coragem e esclarecimento para defender os interesses dos mais pequenos. E ele, que não é propriamente alto, foi sempre gigante na assumpção da solidariedade e da camaradagem, quando se tratou de defender os que menos podiam.
Um dia, ele, eu e o Neto, fomos chamados ao comando da CCS, que nos queria puxar as orelhas e fazer vítimas do RDM. É o fazias. olha aí! Disparou o Machado uma rajada de razões, juntou-se-lhe o Neto de metralhadora em riste e complementei eu, verbalizando o enterro das ameaças do capitão. Lá se foi a gineta do oficial! Com quem ele se metera!
O Machado, que se eternizou no Quitexe por todos apelidar de Beduíno... - e quantas piadas e sátiras se multiplicaram pelo uso banalizado desta graça!... - botou discurso no Encontro de Águeda. Falando de solidariedade, de amizade, de camaradagem, de sentimento. E eu, que sempre o vi forte, determinado, empolgado..., daqueles de antes quebrar que torcer, notei-lhe um embaraço na emoção. Um nó a embargar-lhe a garganta!
Que bonita foi, Machadinho, aquela tua saudação ao padre Albino Capela, que a vida fez nosso companheiro no Quitexe, entre as graças de Deus que ele por lá missionava e a nossa bondade de cristãos mais ou menos praticantes!!! Gostei!!! E gostei muito mais por saber que, afinal e naquele tempo, eras menino do coro paroquial quitexano! Eu não sabia, só descobri isso apenas agora, 34 anos e quatro dias depois de chegarmos de Angola. Valeu, que por mais outra razão não fosse, o Encontro de Águeda! E descobri também que a tua voz zangada, quando tínhamos de discutir com sargentos e oficiais, era afinal ensaiada no coro da Missão do Quitexe! Seu beduíno!...
- MACHADO. Manuel Afonso Machado, furriel miliciano mecânico de armamento, natural de Covelo do Gerez (Montalegre). Quadro superior de EDP, residente em Braga.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O alferes Cruz de oficial dia na madrugada da guerra....

Margarida e António Albano Cruz, amazona e cavaleiro
do Quitexe de 1974/75 (em cima). Em baixo, à esquerda, António Pais


Cruz é nome repetente na CCS do BCAV 8423! Há o Cruz alferes e o Cruz furriel. Este tem sido, por estes nossos 34 anos de civis, meu companheiro de muitas «jantas»! Cruz, o alferes, voltei a vê-lo agora: charmoso, hein!! E bem acompanhado pela doce Margarida dos seus amores! Tão amores, tão amores que a levou de mala aviada e filho no colo para o Quitexe de 1974. E para a Carmona de 75. Bate aqui o ponto!
O (alferes) Cruz, que é engenheiro de formação e vocação dada aos cantos corais, orou na convívio da pateira. Orou emocionado, de coração a pular de alegria e com a nostalgia das saudades dos tempos angolanos que nos fizeram mais homens! Falou com uma sílaba e outra a saltar por cima de outra e de nó entalado na garganta. Eu conto: estava ele de oficial de dia, no BC12 e na madrugada em que rebentaram as «macas» de Carmona. Sabe-se lá!!!! A metralha soltava-se na madrugada, sem escolher alvo ou inimigos; e sem se saber por quem era e para onde era atirada. E ele, alferes Cruz, de oficial de dia, com a mulher e o filho na cidade! Margarida e o bebé Ricardo em perigo e ele sem poder sair do quartel, sem o poder abandonar. Até que pôde: o comandante Almeida e Brito até lhe emprestou o carro, o «carocha» preto: «Vai lá, vai rápido...!».
Não arrancou o velho «carocha», com o motor a trabalhar..., e Cruz ficou ainda mais enervado e ansioso: «O meu filho, a minha mulher!...». E o «carocha» não andava. Com os nervos, Cruz não o tinha destravado.
Olharam-no alguns soldados, na parada! Os momentos eram de grande tensão! Bravos cavaleiros do norte, mesmo sem sequer serem atiradores da valente cavalaria portuguesa, deram-lhe a força solidária. «O meu alferes não vai sozinho... vamos consigo!!!».
Que não e que sim. Foram e vieram, em viatura militar, com Cruz de filho agarrado ao peito e a «música» negra dos silvos das balas e dos morteiros a estrelarem os céus de Carmona. As rajadas a comporem uma estranha sinfonia! Chegaram ao BC12!
«Quanto eu gostava de me lembrar dos nomes desses rapazes!! Quanto gostava, aqui!...». E quase uma lágrima se lhe soltou na barba grisalha, na tarde do Encontro de Águeda, com Margarida, a suave Margarida dos sonhos e da vida de Cruz, a dar-lhe a mão e a força. «Como eu gostava!! Desculpem, estou emocionado!!!...».
De trás, falou o António Pais, rádio-montador, de Viseu. «Um, fui eu!...».
Muitas lágrimas se soltaram e esconderam naquele momento, na sala Pato Real da Estalagem da Pateira. Os dedos indicadores, muito disfarçadamente, secaram a água de emoção que nos caiu dos olhos! Foram cúmplices com as memórias que casaram um mar de emoções, entre mordidelas de lábios e puxar de lenços!
- CRUZ. António Albano de Araújo Sousa Cruz. Alferes miliciano mecânico, natural de Santo Tirso. Fez a comissão acompanhado da esposa Margarida, médica, e do filho Ricardo, o bebé-mascote da CCS do BCAV. 8423.
- PAIS. António Correia Lourenço Pais, 1º. cabo rádio-montador, empresário do sector eléctrico em Viseu, de onde é natural.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Cada um de nós tem uma memória... do BCAV. 8423

Almeida e Ribeiro, alferes milicianos e Cavaleiros do Norte. Repare-se
no power point, mostrando a rua principal do Quitexe. Clicar na foto, para a ampliar

Almeida, o alferes dos reabastecimentos, fez oração de memórias no encontro dos Cavaleiros do Norte, os do Quitexe: «Hoje não estão 45, ou 45 ou 50 pessoas com uma memória; são memórias diferentes, filtradas pelo tempo, corrigidas e apagadas de coisas menos boas...».
José Alberto Alegria Martins de Almeida, arquitecto e economista, cônsul de Marrocos, homem da coisa e da causa públicas, o alferes que recebi, fazendo eu de sargento de dia, a descer do machimbombo do Quitexe em Julho de 1974, teve no encontro de Águeda a memória da sua história - 34 anos depois! «A nossa memória, com a idade, está mais requintada e refinada, são muitas memórias...».
Espreitava-se alguma emoção no mexer tremido do microfone, a desfiar as suas memórias e reacções e aprendizagens: «Sempre fui anti-militarista, até chegar ao Batalhão Cavalaria 8423. Bastou-me meia hora a falar com o nosso comandante, para ficar do lado da disciplina e da cavalaria!...».
O comandante era Almeida e Brito, tenente coronel - que a morte levou há três anos, já general aposentado. Era competente e disciplinador: «Sobrevivemos graças a essa disciplina, à cadeia de comando que aprendemos a respeitar, foi essa cadeia de comando que nos salvou. É essa hierarquia que estamos aqui a celebrar!...».
E festejámos! Festejámos todos! E com palmas, também no momento em que todos, de pé e de nó na garganta, ovacionámos aqueles que foram nossos companheiros no Quitexe e Carmona e já não estão connosco. Mas estão nas nossas memórias, todas diferentes e todas iguais no festejar do que nos levou e trouxe de Angola!
- ALMEIDA. José Alberto Alegria Martins de Almeida, alferes miliciano de reabastecimentos. Economista, arquitecto e empresário, cônsul de Marrocos no Algarve e residente em Albufeira. Reportamos a sua intervenção no Encontro de Águeda.
- RIBEIRO. Jaime Rodrigues Picão Ribeiro, alferes miliciano sapador. Engenheiro e formador, residente no Tramagal.
- FOTO. António Bastos, 933 330 333

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

: Um encontro que me deixou saudades...e muitas até às lágrimas !!!



Pego nas palavras de Albino Capela, que sacerdotou pelo Quitexe no tempo em que por lá jornadeámos e nos veio dar uma lição de humildade, no encontro de Águeda - não pelo que disse do que foi o BCAV 8423 nos duros dias do Uíge, mas pela frase que dá nome a esta prosa: «Um encontro que me deixou saudades... e muitas, até às lágrimas !!!». Foi assim o encontro dos Cavaleiros do Quitexe!
Eu não sei se deva contar, mas conto: saí da sala, às tantas, do meio do almoço, por causa de um inesperado telefonema profissional. E dei, sem querer, com um garboso cavaleiro a choramingar, furtando-se por perto do balcão do bar. «Então?!...», perguntei eu. Senti-me agarrado pela força enorme de um homem da minha geração e do meu PELREC, que comigo (e outros) se deu, sem nada pedir de troco, em missões de risco que podiam sacrificar vidas.
Já se tinham vivido momentos de apaixonada emoção: o da leitura do mail do cidadão angolano agradecido pelo que fez o BCAV 8423 pelas vidas de muita gente nos sangrentos tempos de Junho de 1975; já tinham explodido as palmas de homenagem aos nossos mortos; já alguns de nós, em oração, tinham aberto o coração e a palavra para falar de nós - do companheirismo, da solidariedade, da saudade!
Voltei à sala e momentos depois lá estava o nosso bravo e quase sexagenário Cavaleiro do Quitexe, animado até ao limite, feliz, emocionado. «Já há muito tempo que não via o meu marido assim...», disse a mulher, na hora dos abraços do adeus. As lágrimas dele era de emoção e de alegria!
Volto a Albino Capela, para citar «as alegrias profundas» desta tarde de reencontro dos que, idos de Portugal para uma missão militar, voltaram quitexanos do coração: foi «um encontro que me deixou saudades... e muitas, até às lágrimas!!!...».

domingo, 13 de setembro de 2009

O encontro da CCS do BCAV. 8423 em Águeda. Foi bonita a festa, pá!

A esposa do capitão Luz fez o corte do golo do Emcontro de Cavaleiros do Quitexe

O power-point do Encontro dos Cavaleiros do Quitexe. E eu aqui estou,
com o crachá e o boné do dia. Clicar para ampliar as fotos.


O encontro dos Cavaleiros do Norte, os do Quitexe, ontem em Águeda, foi um mar cheio de saudades que se mataram e de lágrimas vivas de emoção e alegria. Foi bonito!!! Foi bonita a festa, pá!
Os aperitivos na piscina, já depois dos muitos abraços e reencontros da entrada da estalagem, foram tempo para consolar os olhos e os corações dos muitos que «cavalgaram» estradas de Portugal, de norte a sul - à procura dos amigos que a missão juntou em 1974 e 1975, que por Angola se multiplicaram de amizades, solidariedades e afectos mas que se tinham deixado de ver, de contactar, dalguns nem se sabendo se existiam.
O Almeida veio de Albufeira, no Algarve. O Pires, chegou de Bragança, no outro extremo de Portugal. Vejam lá como é este milagre de "cavalgar" amizades, as destes cavaleiros e amazonas que se enfeitiçaram pelo Quitexe e por Angola!!!...
Momento emotivo foi o da leitura do email de um cidadão angolano que, sem saber do nosso encontro, veio agradecer ao BCAV. 8423 a ajuda que salvou milhares de vidas, nos dramáticos momentos de Junho de 1975 - na cidade de Carmona (Uíge).
Outro momento de emoção - e forte!!, muito forte!!!... - foi quando foram recordados os nomes dos «cavaleiros» que morte já levou. «Aqueles amigos com quem partilhámos alegrias e tristezas, momentos de glória ou de tragédia, de coragem e de bravura, ou até de alguns medos que nos deixaram mais inseguros...», disse o (ex-furriel) Viegas, citando «os alguns dos nossos melhores, que já não estão connosco» .
Não se pediu um minuto de silêncio. Pediram-se palmas! Muitas palmas!!! Os Cavaleiros do Quitexe ovacionaram e emocionaram-se, de pé e em saudades regadas de lágrimas e nós de garganta, em homenagem aos amigos que partiram!
O comandante Almeida e Brito, de quem aprendemos a disciplina e o respeito; o capitão Oliveira e o tenente Mora, alguns sargentos!! O Garcia, o nosso querido Garcia, o garboso e bravo homem de todas as coragens e afectos, que a morte nos roubou ao serviço do país! Os nossos companheiros do PELREC - o Almeida, o Vicente, o Leal... Também o Medeiros, o Louro Farinhas, todos quantos a morte já levou!
E houve discursos, discursos emocionados, orações empolgadas e sentidas!! Aqui viremos falar deles, nos próximos dias. Por hoje, recordamos a «continência» ao tenente (agora capitão) Luz, pedindo-lhe que acompanhasse a senhora sua esposa para que, «como nossa primeira dama...», fatiasse o bolo da festa! Palmas, muitas palmas...
O power-point preparado para a festa, foi passando imagens do Quitexe de 1974 e 1975, com os nossos rostos juvenis que por lá cumpriram a sua campanha militar, assumindo a missão que o país lhes pediu e a que não fugiram. E imagens do Quitexe de hoje!
Foi bonita a festa, pá...

sábado, 12 de setembro de 2009

Cavaleiros do Norte tiveram Encontro de Águeda

O grupo de antigos militares da CCS do BCAV 8423 que reuniu a 12 de
Setembro de 2009, na Estalagem da Pateira, em Águeda. Clicar na foto, para a ampliar

Os rapazes da CCS do BCAV 8423 juntaram-se hoje, no encontro da Pateira de Fermentelos, em Águeda. Alguns «galoparam» quilómetros que não lembraria ao diabo, para comer a sopa. O (alferes) Almeida fez mais de 2000, desde Marraquexe, em Marrocos, e parando em Albufeira - aonde voltou. O (furriel) Morais «picou as esporas» desde Elvas. "Saí às 6 e pouco da manhã...", contou ele feliz e de boca rasgada em sorriso. O Mosteias pôs toda a cavalagem do seu Audi a«voar» desde Sines. O mesmo fez o Zambujo. O Pires «montou-se" na sela do seu Vectra desde Bragança. Eu, que sou daqui a dez quilómetros, não fui o primeiro a chegar. Quase me senti envergonhado. Mas foi tudo uma festa, a que não faltou sequer o toque de clarim, para o rancho. Viremos com alguns história deste encontro nos próximos dias.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Angolano agradece vidas que o BCAV 8423 salvou...


Parada do BC12, com berliets a recolher civis , nos dias dos dramáticos
acontecimentos de Junho de 1975. Clicar, para ampliar

Amanhã é da de encontro da CCS do BCAV. 8423. Vai ser um dia de festa e de emoções. Aqui falaremos delas. O que me traz hoje, aqui, é um mail que hoje mesmo recebi de um cidadão angolano, a quem pedi autorização para o editar. Fala de nós, com um agradecimento de 34 anos.
Ei-lo:

Olá Celestino:
Eu sou angolano e fui acolhido de braços abertos no BC 12, em Junho de 1975, em Carmona (Uíge), quando acontecerem os incidentes da cidade. Gostei da maneira carinhosa como eu, minha família e várias outras famílias fomos recebidos, alojados e alimentados por vós, durante cerca de 10 dias, até que no dia 14 de Junho de 1975, a comitiva terrestre se preparara para a viagem a Luanda, bem escoltada por vós. Fica aí a minha consideração por esse vosso gesto carinhoso, pois livraram muitas vidas que se encontravam em perigo.
Atenciosamente,
Eugénio

Amigo Eugénio:
O BCAV 8423 fez o
que devia. E o que pôde! O seu
gesto, emociona-nos.
Felicidades para Angola!
CV
- BC12. Batalhão de Caçadores, em Carmona (Uíge).
Onde o BCAV. 8423 esteve de Fevereiro a Agosto de 1975.
Milhares de cidadãos civis ali foram socorridos nos dramáticos
dias de Junho de 1975.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Saudades do alferes Garcia...

Alferes Garcia, em cima, com Ricardo Cruz (filho do alferes Cruz) ao colo,
na varanda do edifício do comando do BC12, em Carmona

ANTÓNIO A. CRUZ *
Texto
Regressado de férias, ocupei-me a ler o site sobre o nosso passado de combatentes. E não posso, a quente, deixar de dizer aquilo que neste momento me vai na alma. Antes de mais, Viegas, as minhas mais sinceras felicitações e agradecimento pela excelente ideia e iniciativa.
Pertenci ao pelotão-auto, uma parte de um todo coeso e disciplinado que era o nosso Batalhão de Cavalaria 8423. Honra seja feita ao Comandante Almeida e Brito, que nos soube incutir, com mais ou menos sacrifícios, a dignidade, a disciplina e o companheirismo que sempre nos guiaram e nos permitiram regressar de cabeça levantada e com o sentido do dever cumprido.
Fiz grandes amigos em Angola. Na força da juventude, na adversidade e isolamento, desenvolvem-se laços de amizade que noutras condições seriam muito difíceis. Eu e minha esposa Margarida, que sempre me acompanhou, fizemos amigos que nunca esqueceremos e com alguns dos quais mantivemos - e mantemos - uma grande e verdadeira amizade.
Vou hoje recordar um dos mais próximos, que infelizmente já não se encontra entre nós e com quem a nossa amizade e convívio se manteve para além do ultramar.
O António Garcia, o alferes Garcia!! Valente, corajoso, amigo com quem todos podíamos contar, bem disposto e atento a tudo e todos, recordo-o a brincar com o meu filho Ricardo e, com grande brio e coragem, à frente do seu pelotão, à porta da messe de oficiais, disposto a fazer frente aos sublevados da companhia do Liberato.
Recordo as nossas idas às companhias de Vila Viçosa, Zalala, Santa Isabel e fazenda Vamba. Eu e os meus homens com a missão do controle de armas e viaturas, ele com os seus «pelrec´s» a zelarem pela nossa segurança.
Encontrámo-nos cá várias vezes, ou sempre que podíamos, e era com tanta paixão que falávamos de África que as nossas esposas se repetiam: «Vocês não sabem falar de outra coisa?...».
Fui com o José Alberto Alegria (o alferes Almeida) ao seu casamento, a Carrazeda de Ansiães, onde fomos recebidos de braços abertos. Penso que houve foguetes. O Garcia era mesmo assim. Com ele, a amizade tinha de ser sentida e vivida.
Mais tarde, estando a Margarida, como médica, a fazer o serviço à periferia em Carrazeda e não havendo facilidade de hospedagem, o Garcia e a Olga, sua esposa, não descansaram enquanto não dispusemos da casa de um familiar em Pombal de Ansiães. Que terra, que gente, que comezainas e felizes momentos passamos com ele e seus familiares e amigos.
De um momento para o outro, o jornal de todos os dias, friamente, trouxe a triste notícia da sua morte e fez-se o vazio. O Garcia morreu de acidente, em serviço - ao serviço dos outros como gostava de estar.
Jamais o esquecerei.
ANTÓNIO ALBANO CRUZ
- ANTÓNIO A. CRUZ. António Albano de Araújo Sousa Cruz, alferes miliciano mecânico. É engenheiro mecânico e é natural e reside em Santo Tirso.
- NOTA PESSOAL: Fui um dos homens que actuou sob o comando do Alferes Garcia. Já aqui, neste blogue, lhe prestei continência de saudade, de respeito e de homenagem! Fui um dos que, do PELREC, perfilou armas em frente à messe de oficiais do Quitexe para (irmos) fazer frente aos sublevados do Liberato! Foram momentos de grande tensão, de mil pensamentos a voar, de cá para lá, por todo o lado e para todos nomes e para toda a gente. Quero que se saiba que, debaixo do comando do alferes Garcia, nunca houve um passo atrás, um medo que nos fragilizasse, algo ou alguém que nos acobardasse. O PELREC sentia-se sempre maior, sob o comando do Garcia. Saudades, amigo!!! Sei que tenho procuração de todos nós, para te lembrar aqui!E sempre! - CV

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O Quitexe católico no tempo dos Cavaleiros do Norte

A Igreja do Quitexe em 2008

ALBINO CAPELA
Texto

Recordo bem os motivos que me levaram de Luanda para o Quitexe. Seria uma espécie de degredo, mas não o foi. Desde logo, fiquei encarregado da Missão Católica do Quitexe, que compreendia a área do Quitexe, Aldeia Viçosa e Vista Alegre.
Perante área tão grande, procurei organizar a minha actuação, do ponto de vista religioso. Celebraria sempre no Quitexe e depois iria a Aldeia Viçosa e Vista Alegre. Aqui começou o bom e o bonito. Para ir a Vista Alegre, era preciso escolta militar e eu desconhecia tal coisa. Cheguei ao controlo, em Aldeia Viçosa, e o soldado que estava de serviço disse-me que não podia passar e eu..., cheio de pena porque tinha trabalho em Vista Alegre, fui falar com o Comandante da Companhia e ele dispensou-me imediatamente um Unimog, ou dois, com muitos soldados. Ia no meu carro e pensava: "Sou uma pessoa importante, até vou com escolta"...
Depois aprendi a mentir (um padre a mentir!!!!...), como qualquer outro camionista, e lá passava livremente até Vista Alegre. Qual era a mentira? "Vou para a Fazenda Madeira e Marques...». Mas como todos os camionistas diziam que iam para lá, os soldados comentavam: "Madeira e Marques deve ser uma grande cidade".
Devo esclarecer que Madeira e Marques era (ainda é?) uma fazenda de café muito bem organizada e orientada pelo seu gerente, o Zé da Madeira e Marques. E agora as recordações vêm-me em atropelo: este Zé, grande amigo, bem como a família, veio a morrer em Luanda, em circunstâncias muito difíceis de esclarecer. Mais tarde, soube que a sua esposa estava em Alijó, funcionária dos CTT. Para ela, se me está a ler, um grande beijo do Padre Albino. Era assim que eu era conhecido.
Gostava imenso das pessoas do Quitexe e, quando digo Quitexe, quero dizer Quitexe, Aldeia Viçosa, Vista Alegre e Cambamba. Sempre fui muito bem recebido por toda a gente. Quando ia celebrar missa a uma sanzala, os nativos faziam uma festa: cantavam, dançavam, tocavam batuque. E nesse dia sabia-se que havia churrasco na casa do soba.
No Quitexe propriamente dito, na Vila do Quitexe, falava com toda a gente (era tão pouca!...) e mantenho ainda contactos com algumas pessoas que de lá vieram. Gostava imenso de receber na minha casa "os tropas" e lá falávamos de tudo. Era bons momentos, que não se podem esquecer. A todos estes momentos - contacto com as gentes, com os fazendeiros, como pessoal das fazendas, com os nativos das sanzalas, etc... - voltarei, se Deus quiser nos "próximos capítulos".
ALBINO CAPELA
ALBINO CAPELA. Padre do Quitexe
no tempo do BCAV 8423

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Faz hoje 34 anos!...

Aeroporto Internacional de Luanda, nos anos 70 (foto de Rui Ribeiro)

Avião dos TAM. Terá sido neste, ou parecido, que regressámos a Lisboa, faz hoje 34 anos

Há 34 anos, faz hoje, voltámos a Lisboa - voando de Luanda! Foi um dia de festa, de alegria e de emoção. Eu, regressei à minha terra de Ois da Ribeira, perto de Águeda, e por cá me mantenho. Sempre a lembrar-me de Angola, dos seus cheiros e sons, das suas gentes que aprendemos a amar, dos seus momentos de festa, das glórias e (quase) tragédias dos 15 meses em que por lá suspirámos de saudades e crescemos mais amadurecidos para o mundo.
O dia 8 de Setembro, há 34 anos, era suspirado há muito: vínhamos para a nossa terra e a nossa gente. A noite de véspera foi mal dormida, como os ontens e os anteontens que nos fizeram por lá andar a despedir-nos de amigos que iam ficar. A última ceia foi de pastéis, muitos pastéis, cerveja e vinho branco, muito vinho branco, meio quente e meio fresco... - «ementa» que nos arranjou um civil cujo nome não recordo. E gostava de recordar. Os soldados, na sua irreverência generosa e meia transbelhada, fizeram das suas pela noite fora, no Destacamento que nos coube no Grafanil... - sujo à nossa chegada de Carmona, quase nauseabundo, e aceleradamente asseado ao abrir de Agosto, para a chegada dos cavaleiros que do Uíge vieram por terra em jornada de mil perigos.
As berliets, ainda era madrugada do hoje de 1975, encheram-se de malas e sacos, para o aeroporto internacional de Luanda. Voámos por menos de oito horas e chegámos a Lisboa ao fim da tarde. Faz hoje 34 anos!
Com o Neto, trazidos pelo Benício, que era condutor da fábrica do pai e a Lisboa nos foi buscar, parámos num restaurante de Alcoentre e comemos bacalhau assado, com vinho branco. Que saudades! Cheguei aqui a casa, perto da uma hora da madrugada - já com o Neto a enlaçar-se na família, na Bicha Moura (Águeda). Fui a casa de minha irmã, para que viesse a casa acordar a nossa mãe, ao tempo recém-viúva e doente!
Ninguém sabia que eu chegava. Foi um segredo que consegui guardar até ao fim. Quando me viu, olhou-me minha mãe, emocionada mas segura, como ainda hoje, aos 88 anos: «Então já vieste, rapaz?!!!!...».
Há momentos que nunca esquecem! Na manhã de 9 de Setembro, acordei e fui ver a vaca, os porcos, as galinhas, os coelhos. Ouvi o badalar do sino, dando as horas! Tinha saudades destes cheiros e destes sons!
- TAM. Transportes Aéreos Militares, que assegurava os transportes de militares entre Lisboa e as capitais das chamadas províncias ultramarinas.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A Ceia de Natal do Quitexe de 1974

Rocha, Fonseca, Viegas, Belo e Flora, da esquerda para a direita. Monteiro, Pires
(sapador), Machado (de cigarro na boca), Lages e ??? (a rir) da direita para a esquerda.
Noite de Natal do Quitexe, em 1974. Clicar na foto, para a ampliar


O Machado, o imitável Machado, que a todos nós, na suas fúrias de humor, nos tratava por Beduínos, pôs-se de cuidados e despachou-me algumas fotos dos tempos que, em Angola, nos fizeram amigos já por cá vão 35 anos e mais uns meses.
A foto é de um momento muito especial: o jantar de Natal no Quitexe. Natal de 1974! Como se vê, a boa disposição não faltava e para trás das costas e do coração estavam, de certeza e naquele momento, os tremeliques da saudade e o desgosto da separação daqueles de quem mais gostávamos!
Aquilo era tudo gente fixe! E que pena tenho eu de não conseguir identificar todos quantos aqui dividiam estes momentos, momentos que fermentavam amizades de uma vida e empatias que nos tornavam cúmplices!
Repare-se no pormenor de apenas eu estar de camuflado: estava de serviço! Estar de serviço era uma espécie de «fatalidade» pessoal nos dias mais significativos do ano. Ele foi no Natal, ele foi na passagen de ano de 1974, ele foi no carnaval de 1975 e francamente acho que só não foi na páscoa porque andava a cirandar por Angola, num precioso mês de férias que dividi, juntando-me e convivendo, com o Cruz - o furriel.
Volto à foto: foi tirada no refeitório do Quitexe, o sítio de honra da CCS - onde todos nós éramos mais iguais e sem patentes!

domingo, 6 de setembro de 2009

Setembro de férias e alguns incidentes militares no BCAV 8423

Vista parcial da cidade da Gabela, destacando-se a Igreja Matriz - que conheci faz agora 35 anos

Restauração da picada para a Fazenda do Liberato (foto de José Lapa)

O mês de Setembro, que ontem aqui falei calmo, no 1974 do Quitexe, não foi tanto assim na Zona de Acção do BCAV. 8423. Por exemplo, no aquartelamento de Vista Alegre - onde estava a CCAC. 209, essencialmente formada por militares do RI 20. Aos 27, e por causa de anteriores incidentes internos, aconteceram graves problemas disciplinares.
Quem mo lembrou, por telemóvel, foi um Cavaleiro do Norte - que esta tarde me veio dizer que tal foram os incidentes que, depois de controlados, passaram para a alçada disciplinar do Comando do Sector de Uíge, em Carmona. O que não era coisa pouca!
Assim avivada a memória, o Setembro de 1974 foi militarmente pouco activo (como já aqui foi dito), mas com algumas rotações. Parte da 3ª. CCAV, estacionada em Santa Isabel, passou para uma fazenda que o (furriel) Carvalho - o meu contacto de hoje - não soube identificar. Talvez a de Além-Lucunga! E, ao que me lembro, assim avivado na memória, a 1ª. CCAV. dispensou dois grupos de combate para o BC12, em Carmona.
Eu, vestido de civil em férias, parti de Luanda à boleia de um amigo do Albano Resende, num velocíssimo Toyota alta gama da época, e galguei para aí uns 400 quilómetros, por rectas de quilómetros e a cento e tais à hora de média, à procura do carinho amigo de familiares na Gabela: os irmãos Mário e Cecília, filhos da minha madrinha Isolina - que também por lá estava. Depois, também o Clemente, igualente parente próximo e en«m cuja fazenda dormi uma noite. Por lá conheci muitas coisas, por exemplo a grandiosidade da Fazenda CADA - que até tinha hospital e apeadeiro ferroviário próprioas. Foram das bonitos, que multiplicaram a cada vez mais inspirada minha paixão por Angola.
Estão ali a ver a igreja, na foto? Conhecia-a nesse tempo e mal imaginaria eu que, anos mais tarde, já neste século, fosse um conterrâneo de Águeda a dirigir a sua restauração. E que até na minha paróquia de Óis da Ribeira se colectassem oferendas para as obras que o padre Augusto Farias promoveu, em favor da comunidade católica gabelense! É o destino!

sábado, 5 de setembro de 2009

Tempos de Setembro, de serenidade e aplastamento de dúvidas...

Avenida principal do Quitexe (Rua de Baixo). Ao fundo, frente à palmeira, vê-se
o edifício de rés do chão onde funcionava a enfermaria militar

O Quitexe que deixei para férias, em Setembro de 1974, foi um Quitexe bem mais tranquilo que o que conhecemos em Junho, com actividade operacional bem mais reduzida e concentrada nas malhas urbanas.
As saídas em operações e patrulhamentos na chamada mata eram já bem mais raras, abundando no entanto as escoltas e operações de stop em zonas urbanas e semi-urbanas mais movimentadas.
Num que creio ter sido o único contacto que consegui para o Quitexe, por telefonema da Gabela combinado via postal com o Xico Neto (naquele tempo não havia telemóveis e até os telefones eram raros...), soube de algumas actividades operacionais de alguma tensão, nomeadamente com os camionistas da chamada estrada do café - de Luanda a Carmona. Porquê?! Havia muitas dúvidas instaladas e suspeitas de transporte e movimentações de armamento e munições. Já no Quitexe, vim a saber de alguns incidentes e o próprio PELREC (já em Maio ou Junho de 1975) viria a ter um muito desagradável e perigoso, por causa de um desses transportes, simulados num carregamento de café.
As fazendas, já por Agosto e Setembro, e depois..., instabilizaram-se de alguma maneira, devido aos aliciamentos feitos aos trabalhadores, no sentido de suspenderem os contratos - o que significaria a perda das colheitas. Algumas vezes, os militares foram chamados a intervir e nem sempre isso foi fácil.
Os tempos que se adivinhavam de mudança, eram ainda, todavia, carregados de incertezas e aplastados de dúvidas.
A tropa, ambicionando regressar a Lsboa, ainda teve que acorrer a alguns ataques na área florestal, a madeireiros, e a uma viatura da Junta Autónoma de Estradas de Angola (JAEA). E sabia-se que em outras áreas do Subsector Militar o chamado IN teve intervenção muito mais activa. Na zona de acção do BCAV 8423, começaram a conhecer-se grupo de activistas da FNLA, principalmente nas sanzalas. E alguns misturados com o povo negro e branco, nos cafés e bares da vila.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O homem branco que batia no homem negro...

Furriéis Neto e Viegas, nas traseiras da igreja do Quitexe (1974)

Angola foi tempo de multiplicação de camaradagens e solidariedades. Quando se diz que a tropa nos fez mais homens, diz-se uma verdade. Mas incompleta! A tropa formou-nos, ampliou-nos o conhecimento e a experiência, sacramentou cumplicidades e semeou amizades que levedaram e se aumentaram nos tempos, até hoje!
Eu e o Chico Neto, ambos de Águeda, embora de formações bem diferentes, celebrámos «casamento» em altar que ainda dura. Julgo poder dizer, sem exagero, que até eramos «invejados», tal era a afinidade, a cumplicidade, o «estou por ti» que se revelava em todos os momentos do nosso dia-a-dia. Completávamos-nos!
Um dia, em operação que nos fez galgar imensos quilómetros pela mata afora, com ponto de chegada a uma fazenda algo distante do Quitexe, ouvimos gritos aflitivos, cada vez mais prolongados e angustiados, como que a definharem-se. Caminhávamos já dentro do cafezal, no silêncio e cautelas que urgiam, quando demos com um cenário de agressão a um trabalhador negro. O pobre do homem, ripava café (com muitos outros, talvez uma centena...), para uma espécie de saco pendurado do pescoço e pela cinta abaixo, um trabalho violentíssiomo..., e agredia-o o capataz.
Insurgiu-se o Neto, correndo em defesa do homem negro e gritando para o encarregado: «Eu mato-o....». E apontava-lhe a G3.
Os breves segundos que se seguiram foram de dramática tensão. «Calma, Neto!...», disse-lhe eu, procurando convencê-lo. Olhou-me ele, de olhos esgaziados. Ver um homem a ser agredido daquela maneira, é que não podia ser, para o Neto, de formação cristã muito forte e ali, por instinto, a defender os mais fracos! O homem da fazenda atemorizou-se, estava em desvantagem, rodeado de tropas. «Se repetir a tentativa, vai preso...», gritou-lhe o Neto.
Lembro-me que o caso foi comunicado às autoridades militqres, em relatório da operação, e que transitou para a administração civil. Mas não sei o que aconteceu depois... Ou não me lembro.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

As cumplicidades de uma cidade grande como Luanda...


A noite de Luanda, em 1974 (foto de Henrique Oliveira) e Residencial
Katekero, no Largo Serpa Pinto (em cima)

Luanda era verdadeiramemte uma surpresa e um feitiço para todos nós, jovens idos do Portugal europeu, a maioria sem qualquer vivência urbana. Tinha resposta para tudo o que desejássemos - desde as praias, a bons restaurantes, dias e noites de sabor e cheiro verdadeiramenmte tropical que nos enchiam de entusiasmos e fôlegos para o que desse, viesse e quiséssemos.
Amigo de longa data e da escola de Águeda, era o Alberto Ferreira - que viria a ser quadro superior da administração fiscal portuguesa, candidato a presidente e vereador da Câmara Municipal em dois mandatos. Faleceu há quatro anos.
Ao tempo, entre os nossos 21 e 22 anos, aceitávamos todas as provocações da cidade grande, pelas noites fora, quando procurávamos diversão. O programa era certo; ficava eu pelo Katekero, chegava-me à Base Aéra, no aeroporto de Luanda - onde ele era cabo-especialista da Força Aérea - e era certo: um frango de churrasco no Floresta e uns pares da canecas de cerveja na baixa de Luanda e uma volta pelo mundo nocturno da cidade - onde fizemos muitas cumplicidades.
Há uma razão particular para aqui chamar esta estória de tropa: nas nossas deambulações, fazíamos-nos passar por irmãos gémeos, filhos de casal fazendeiro do norte. Eu, garboso furriel miliciano de Operações Especiais, os Ranger´s, em missão no Quitexe; ele, na Força Aérea, em Luanda, onde cuidava das nossas irmãs mais novas, que lá estudavam.
Vocês podem imaginar as conquistas que esta mentirazinha gerou, entre um copo bem bebido e as longas conversas e intimidades que as noites de Luanda provocavam. Uma delas, quis vir connosco para Portugal.
Quando em Outubro voltei ao Quitexe, tinha o apartado dos Correios cheios de manifestações de desejos e disponibilidades para «bem servir»! Guerra, mas qual guerra?!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

(Re)Descobrir Luanda com amor!

A noite e baía da cidade de Luanda nos anos 70 do século XX (fotos da net)

Redescobrir Luanda, está agora a fazer 35 anos, foi um momento de prazer e empolgamento pessoal. De amor que crescia e levedava! A mesma cidade que nos recebeu grávida de calor a 30 de Maio de 1974, idos de Lisboa, abriu-me os braços em Setembro, logo a seguir..., mimou-me no colo e deixou-me esquecer as minhas origens rurais, nada cosmopolitas.
Entrei de férias, que ostensivamente e em muito boa hora, decidi gozar em Angola, espraiando emoções do Uíge a Luanda, ao Huambo, Gabela, Lobito e Benguela, por aí fora, em milhares de estradas e paisagens que enchiam os olhos e a alma.
A Luanda que (re)descobri, luminosa e bonita, de noites e cheiros sensuais e ardentes, não deixou de me enxaguar a alma e os apetites, fazendo-me cúmplice de quantos gostos, de tantos manjares e prazeres. E etc, etc, etc...
Que bom foi reencontrar gente aqui do meu sítio ribeirinho de Águeda: os irmãos Resende - o Albano, o Zé Bernardino, o Manuel e família... - a Cândida, o Custódio, o Zé Martinho e a Emília, o Mário e a Benedita, o Neca do Zé Taipeiro. E amigos aqui do lado da eira - o Alberto Ferreira, que já nos vê lá de cima e nas noites de Luanda passava por meu irmão gémeo; o Nuno, o Gilberto, o Carlos Sucena...
Por aqui se vê como, (re)descobrindo Luanda e as suas restingas de cio, nos fizemos maiores e mais felizes, levedando esta paixão que todos nó sentimos por Angola! Paixão de uma vida!

terça-feira, 1 de setembro de 2009

O «patrulhamento» da CCS às Quedas do Duque de Bragança...

Quedas do Duque de Bragança, em passeio da CCS do BCAV 8423, 1974

JOSÉ S. PIRES*
Texto


A Angola que conhecemos em 1974 e 1975 era terra de enormes potencialidades e todos nós tínhamos um enorme desejo de a conhecer, para além das fronteiras do Quitexe - onde se concentrava o nosso dia-a-dia, quantas vezes ouvindo as peripécias e «aventuras» dos nossos companheiros que, pela sua especialização e obrigações militares, mais vezes saíam do aquartelamento.
Um dia, foi preparado um «passeio» às Quedas do Duque de Bragança, que ao tempo era grande atracção turística angolana. E principalmente para aqueles que, na verdade, menos saíam do quartel. Chamámos-lhe o Passeio dos Aramistas e ainda hoje me parece ser esse o nome nome mais apropriado para a viagem (que em jeito de um patrulhamento) foi oferecida pelo Comando aos que menos saíam do Quitexe e que tão poucos conhecimentos tinham das terras angolanas. Fui um dos contemplados e deixo aqui um pequeno relato desse dia (cuja data não recordo), para avivar mais um pouco a memória da nossa passagem por aquelas ditosas terras.
Saímos de madrugada, numa Berliet e num «gasolinas», e visitámos as cataratas do rio Cuanza, na parte superior e inferior, onde fomos submetidos à enorme nuvem de vapor resultante da grande queda de água, a uma altura bastante considerável É, sem dúvida, uma das mais extraordinárias maravilhas da natureza que eu conheça e que muito prazer tive em visitar. Impressionante!!!
No regresso, visitámos a cidade de Malange, onde tive a alegria e oportunidade de visitar um familiar, que lá estava em comissão de serviço na PSP.
Durante o percurso, na ida e volta do Quitexe, apenas apanhámos pó vermelho na picada, até Camabatela, até à estrada asfaltada.
Rolando ao longo de uma imensa planície, vimos ainda as deslumbrantes Pedras do Cacuso, que, parecendo enormes montanhas, se destacavam no horizonte. São impressas em postais ilustrados e fazem parte do roteiro turístico de Angola.
O regresso ocorreu já ao fim do dia, sem problemas, com algum cansaço mas satisfeitos pelo dia que passamos. Um grande, bonito e saudoso dia de Angola!
JOSÉ S. PIRES
- PIRES. José dos Santos Pires, furriel miliciano de transmissões, natural e residente em Bragança, aposentado da GNR. É o militar que se vê na foto das Quedas.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O alferes miliciano Ribeiro e o Pelotão de Sapadores...

Soldados sapadores de infantaria da CCS do BCAB 8423, em Carmona (1975)

O Pelotão de Sapadores era comandado pelo alferes miliciano Ribeiro (foto ao lado), engenheiro de formação académica e gente do alto! Os «adjuntos» eram os furriéis milicianos Mosteias, Cruz (Montijo) e Farinhas (já falecido) e o grupo era formado por um punhado de excelentes soldados - que se deram em trabalho permanente para melhor servirem os companheiros da CCS e a população civil.
Do alferes Ribeiro retenho, visivelmente, a capacidade de mobilização e organização com que, na parada do BC12, em Carmona e em Maio de 1975, assumiu a gestão do «exôdo» (para dentro) da população civil que fugia do sangue que avulsamente se derramava na cidade, devido aos incidentes urbanos entre a FNLA e o MPLA, e no aquartelamento procurava (e tinha) protecção. Foram dias dos piores da nossa passagem por Angola.
Não faltou paciência, coragem e garbo ao alferes Ribeiro, e a competência!, para coordenar o que parecia incoordenável, sem uma falha, sem um «espera aí» nascido de um qualquer temor, gerindo sempre serenamente o fulgor e as emoções dos soldados que comandava e os «trocos» nem sempre agradáveis e justos dos civis que se acampavam e protegiam na parada (e menos boa opinião tinham sobre a tropa).
Os bons e generosos soldados sapadores de infantaria da CCS, comandava-os sem um exagero de autoridade. Tudo para que, tanto quanto se pudesse - e pôde... -, os civis se sentissem e fossem protegidos.
Quantas vidas terão sido poupadas nesses dias que adivinhavam tragédias e que os soldados de Portugal impediram com a coragem de heróis abnegados?! Dos que se dão, para salvar vidas, sem pedirem troco ou louvores!
Vivam os bravos sapadores da CCS do BCAV 8423!
- RIBEIRO. Jaime Rodrigues Picão Ribeiro, alferes miliciano sapador de infantaria, engenheiro mecânico, natural de Constância e residente no Tramagal.

domingo, 30 de agosto de 2009

O interrogatório do capitão Oliveira a três furriéis inocentes...

Furriéis Machado e Neto, já em 1996, no encontro de Leiria
Questões em que estivessem metidos o Neto e o Viegas, era sempre coisa delicada, nos entrementes da CCS do BCAV 8423. Se a eles se juntasse o Machado, a coisa já levava cheiro que esturrasse. Haveria moiro na costa.
Um belo princípio de tarde, lá por Janeiro de 1975, um a um e sem que nenhum soubesse um dos outros, fomos chamados ao comando. Achámo-nos no comum, à porta de entrada do gabinete. «O que é fazes qui, pá...?», foi a pergunta entre pares. Chamou-nos de imediato, o imediato do 1º. sargento Luzia: o capitão Oliveira queria falar connosco. Pronto, «há m...». Havia.
O bom do capitão Oliveira, que a vida já levou, não era propriamente o melhor amigo dos dois furriéis de Águeda ( o Neto e eu), por contas de outro rosário. Juntar ao interrogatório o Machado, era uma surpresa.
Fomos os três interpelados, de dedo em riste, como se estivéssemos na ponta da baioneta. «Vocês isto e vocês aquilo, o RDM, as NEP´s...», blá-blá-blá, acusou-nos o capitão. E líamos-lhe nos olhos que nos esperava o degredo, dias de detenção, prisão, eu sei lá..., tudo ali na frente dos nossos olhos e emoções. Abrimos a boca de espanto. Nós éramos bons rapazes, o que queriria o nosso comandante de Companhia, a gloriosa CCS do BCAV 8423?!
Irrompeu o Machado, nervoso, impulsivo, respondão: «O meu capitão não nos pode acusar de nada...». E acusados éramos de desrespeitar as regras militares e termos sugerido reacções colectivas, perigosas, anti-regualmentares, penalizáveis. Estou a ver Machado: 1,60 de altura, de dedo no ar, empolgado e revoltado, em esgares de nervosismo (in)controlado. «Não nos pode acusar de nada... O meu capitão está a desrespeitar-nos....».
Soltou-se o Neto, não menos respondão que o Machado: «O meu capitão não tem razão. Há muito tempo que anda a querer pegar-se comigo e com o Viegas...». E atirou uma mão-cheia de argumentos que desestabilizaram as razões que o capitão Oliveira assumia ter contra nós, influenciado por alguém e para nos julgar e castigar.
«Não lhe admito, desculpe...», sustentava o Machado. «O meu capitão está mal informado...», sublinhava. E ninguém o segurava, de tanto impulso e por se sentir injustiçado, gesticulando e gritando. Injustiçados todos nós. E estava eu ali para entrar na conversa, no minúsculo gabinete do comandante da companhia, um acimentado desconfortável, onde muita coisa da CCS se decidia.
O Neto, vigoroso e interveniente, nada boca-calada, soltou mais argumentos e falei eu, meio filho da mãe, refilão e contestatário...: «É inacreditável, meu capitão....».
E ressoltou o capitão Oliveira as NEP´s, de olhar fulminante, acusando-nos de desestabilizadores. «Nós somos os mesmos que todos os dias estamos dispostos a sacrificar a vida pela segurança de toda esta gente. Pela sua segurança, pela sua vida... pela vida de toda a gente da CCS», recalcitrei-lhe eu, da forma mais ordinária e emotiva que pude.
O capitão chamou-nos um nome, que não repito aqui. E morreram muitos ódios naquele momento. E nem conto os nomes que, os três, chamámos logo depois aos que pusemos no nosso tabuleiro acusatório - os culpados desde dedo em riste do capitão Oliveira. Há coisas que não esquecem! Estávamos inocentes!

sábado, 29 de agosto de 2009

Melhor conhecer e mais amar Angola!!!...

Província do Uíge. Carmona é a cidade de Uíge, Quitexe é Dange

Agosto de 1974 foi tempo de se acabar com as acções militares ofensivas e ampliar o apoio do BCAV 8423 aos povos e fazendas da área operacional, seguindo directivas hierárquicas.
Muitas vezes assegurámos o transporte (de ida e volta) a pessoas e mercadorias, que a população ia mercar ao Quitexe e principalmente a Carmona. Eram dias sempre muito «pesados», pelas distâncias que tínhamos de percorrer, sempre envoltos pelo pó quente e vermelho das picadas que se colava no corpo alagado de suor e pela tensão e «medo» que sempre se vivia, de uma qualquer acção ofensiva do chamado IN, alguma mina, alguma emboscada, algum acidente. Às vezes mais de 400 quilómetos, muitas horas de viagens, uma brutalidade para a marcha sempre algo lenta dos unimogs - viatura miitares a que chamávamos burros de mato.
Muitos populares, para além de beneficiarem de apoio médico local, nos seus próprios povos, eram muitas vezes levados ao Quitexe, para tratar de assuntos na administração ou no hospital civil - além de actividades comerciais correntes, para sustentarem a sua magreza económica doméstica. Havia uma grande empatia, sentia-se bem!!..., entre militares e civis - o que nos empolgava para a execução das nossas obrigações militares com um espírito profundamente cristão e partilhante. Que se vivia não só no contacto humano directo, como na partilha de bens pessoais, que vulgarmente os soldados faziam com a população - remédios, artigos de higiene pessoal, rações de combate, roupas, calçado. livros, canetas, lápis, cadernos...
Por mim, Agosto de 1974 foi véspera de mês de férias. Tinha decidido não vir a Portugal e esperava-me um circuito «turístico» que me levou a Luanda, à Gabela e a Nova Lisboa, onde abracei familiares e vivi felizes dias com amigos e conterrâneos civis. Ainda hoje me dou graças pela oportunidade de, nestas e nas férias de Abril de 1975, melhor ter conhecido Angola. Mais a fiquei a amar...

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A propósito dos aerogramas...

Tipo de aerograma usado pelas Forças Armadas Portuguesas (net)

JOSÉ ALBERTO ALEGRIA*
Texto

Ao ser trazido para estas conversas o tema dos aerogramas, gostaria de enquadrá-lo no tema mais vasto do que era a correspondência com as nossas famílias e amigos naqueles tempos longínquos da nossa comissão de serviço em Angola, em 1974/75.
Será assaz difícil para um jovem de hoje compreender que, há apenas 35 anos, a comunicação entre duas parcelas do território nacional (se bem que localizadas em dois continentes diferentes) se fazia apenas por meios e por ritmos que parecem ser muito mais afastados no tempo. Mas a realidade era essa: quando estávamos no norte de Angola, a comunicação mais corrente com os nossos era por aerogramas e cartas, que demoravam longos dias a chegar ao seu destino.
Ao longo destes anos, quando me perguntam qual a lembrança mais forte que guardo desses tempos da guerra, acabo sempre por falar da memória que tenho da chegada quotidiana da correspondência ao Quitexe. O ritual processava-se em frente da Messe de Oficiais, do outro lado da rua, junto ao bar dos Soldados, quando o responsável pela vinda do saco do correio, desde Carmona, subia para um muro e começava a distribuição das tão ansiadas notícias. A essa hora, normalmente eu estava na varanda da Messe e observava como, de imediato, se formava um maciço compacto de Soldados que esperavam ouvir o seu nome dito do alto do muro. Cada um que recebia um aerograma, ou carta, afastava-se e tranquilamente ia pela rua fora, saboreando avidamente as últimas palavras doces chegadas de casa. E assim o grupo ia fiando mais reduzido, até que aos últimos nada mais restava do que a desilusão da falta de notícias…
É desses de que me recordo muitas vezes, porque a tristeza daquela ausência de umas palavras de conforto era a verdadeira imagem da desilusão e da solidão humana. O ritmo lento com que se afastavam daquele ponto que, momentaneamente, lhes tinha dada a esperança das palavras da mãe, da namorada, do irmão ou do amigo, traduzia bem o sentido da palavra saudade…
Mas se a saudade é este nosso “fado” de termos nostalgia de tudo o que amamos e que está longe, numa mistura de ternas memórias e amargos sentimentos de afastamento, também observei na nossa vida colectiva do BCAV 8423 uma outra característica que nos define como portugueses: esta nossa capacidade de improvisação e adaptação às novas situações.
Creio que todos nos lembramos que quando uma Companhia tinha de mudar de “pouso”, ou o Batalhão também mudava de cidade, mesmo que as condições encontradas à chegada fossem incrivelmente decepcionantes, passado um dia ou dois cada homem já tinha “construído” o seu pequeno recanto, já tinha colado a foto da sua querida (ou, na falta, uma folha de calendário insinuante …) e já estava de novo “em casa”, mesmo nas condições mais adversas.
E talvez tenha sido assim, neste misto de capacidades de improvisação e gestão de saudades imensas, que o nosso povo português se expandiu pelos diversos continentes, criando raízes, deixando marcas e afirmando-se como um povo com uma peculiar identidade nacional.
JOSÉ ALBERTO ALEGRIA
(ex-alferes ALMEIDA)
Em Agadir, a 23 de Agosto 2009

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Soldados de corpo inteiro e que nunca tiveram medo...

Xitaca nas traseiras das instalações militares do Quitexe, vista da capela


MANUEL MACHADO*
TEXTO


Hoje mesmo naveguei pelo blogue e verifiquei que está aqui um excelente documento de memórias e no qual vou também colaborar. Revivendo o passado de dignidade e humanismo destes homens que não fugiram, porque não tinham medo. A nossa hitória Honra o nosso nome e o da nossa descendência, do qual devemos orgulhar-nos.
"FOMOS SOLDADOS" de corpo inteiro, cumprimos a nossa missão, sempre atentos a tudo e a todos. Estou lembrado de, no final de 1974, ser chamado ao Comando de Batalhão, juntamente com os Furriéis Viegas e Neto, para dar explicações sobre a nossa conduta "politica". Respondemos, perfilados, às questões que nos foram colocadas e saímos do inquérito com o mesmo espírito com que entrámos. Fomos sempre militares disciplinados e disciplinadores, a quem não havia nada a apontar.
Desde o Quitexe a Carmona estabelecemos sempre uma grande ponte de colaboração e diálogo com as populações civis, colaborando com todos, fraternalmente. Também quero deixar aqui expresso, a minha gratidão ao (ex-furriel) Celestino Viegas pela ideia de criar este espaço de partilha de lembranças, que está muito bem organizado e mantém viva a chama do lema com que estivemos nas terras de Angola "Perguntai ao inimigo quem somos".
MANUEL MACHADO
Ex-furriel miliciano da
CCS do BCAV 8423

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

As rajadas obtusas do Beira Baixa na picada do Fazenda do Liberato...

Fazenda do Liberato, ao lado do Quitexe (no mapa)
PESTANA BASTOS*

Batida no Sanda, por três dias. Pedi para ir. Já tinha ido a várias e nunca tinha havido tiros. Cheguei a convencer-me que era de propósito: se eu ia, não havia; se não ia, eles choviam.
Depois de muita mata e muito capim, atravessámos o Calambinga por cima de um tronco encalhado entre pedras, num sítio em que o rio formava rápidos, apertado entre ravinas. Sítio idílico para um picnic. Então, para uma emboscada do IN, nem de propósito se arranjava melhor. Lá atravessei o tronco, com o credo na boca. Mas nada de desagradável aconteceu: nem um banho forçado.
Ao cair da noite, chegámos a uma mata perto do sítio onde calculávamos que estivesse o acampamento «turra», o que se confirmou no dia seguinte. No máximo silêncio, aninhámo-nos para passar a noite. Silêncio nosso, entenda-se. A mata deu o habitual «concerto» de gritos, pios e outros ruídos mais ou menos sinistros, com que os vários passarocos da fauna local animam as noites do soldado operacional. Dormi como um justo, que o aspecto musical do meio ambiente já me era conhecido de anteriores experiências.
Aos primeiros alvores da madrugada, lá fomos nós em busca da sanzala «turra«. Encontrámo-la, grande, bem limpa e ordenada e, não longe dali, um quartel, com paliçada e porta de armas. Tudo com o aspecto de ter sido abandonado há minutos. Ainda vimos um cãozito e lume mal apagado. Dadas as conhecidas qualidades combustíveis do capim seco, reduzimos tudo a cinzas e cacos. E retirámos, na convicção plausível de que o pessoal «turra» devia andar perto. Quase lhes sentíamos ainda o hálito, flutuando na frescura da manhã.
Tomámos o rumo do Liberato e fomos andando. Cheguei a convencer-me de que nada aconteceria. Porém, quando vínhamos pelo capim, em bicha-de-pirilau, ao pessarmos em frente de um promontório de mata que avançava como um dedo apontado na nossa direcção, rebentou nutrida fuzilaria. Íamos três grupos de combate, que ainda davam considerável extensão.
Eu ia aproximadamente na união dos dois terços iniciais com o terço. E os tiros só começaram quando eu ia a passar na direcção do promotório. Ninguém me tira da convicção que a emboscada foi feita a mim, aos meus bigodes "à princípio de século", ao meu ar mais velho de «pai-da-malta». Até porque as ouvi assobiar por perto.
A reacção foi imediata. À minha frente, um soldado, João dos Santos Antunes, o Beira Baixa, despejava repetidas rajadas de metralhadora, segundo um ângulo que se me afigurava perigosamente obtuso. Claro que tive medo. O medo é como as cartas de amor: "quem as não tem?".
O inimigo retirou para melhores paragens, com um problema habitacional a resolver. Eu mantive os bigodes. Mas experimentei uma forte senção de desconforto, que só aumentou nas primeiras horas e dias.
* PESTANA BASTOS
Médico do BART. 786 / Quitexe 1965/67

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O mês de Agosto de 1974 em terras do Quitexe

Avenida do Quitexe (rua de Baixo).
Foto do alferes Jaime Ribeiro. Clicar, para a ampliar

O Quitexe de 1974 era assim, tranquilo, em desenvolvimento, essencialmente vivendo da produção de café, nas dezenas e dezenas de fazendas que se estendiam a perder de vista, pelos municípios vizinhos.
Alguns pelotões e companhias ficavam mesmo o instaladas em fazendas, delas partindo em operações e patrulhamentos que garantiam a segurança na região. A tropa, para além disso, ocupava-se da protecção às brigadas da Junta Autónoma de Estradas de Angola (JAEA). Por estes dias de Agosto de 1974, andámos, os da CCS, «ocupados» com o arranho das «estradas» para Camabatela e Fazenda Luísa Maria e outras companhias para Zalala e Liberato, enquanto se prosseguia o arranjo da chamada estrada do café, em asfalto - que ligava Carmona a Luanda, na zona da Ponte do Dange.
Outro objectivo essencial era assegurar a segurança dos centros urbanos e a liberdade de tráfego. As informações não nos chegavam com p pormenor que nós gostaríamos (os menos graduados...) mas era visível a preocupação das chefias militares, por causa da transição que se «operava» com alguns «trambolhões» pelo meio. Havia desconfianças. Já iam quatro meses depois de Abril em Lisboa, mas havia a nossa convicção de que, pelas matas dos Dembos e do Uíge, se ignoravam as novas orientações políticas do governo português e, portanto, poderiam continuar acções militares.
Precavidamente, reuniu várias vezes a Comissão Local de Contra-Subversão (suponho ser este o nome) e multiplicaram-se as visitas a fazendas e povos da zona de acção. Principalmente, para assegurar o funcionamento das actividades económicas da região e o apoio médico e sanitário. O café, as fazendas, as pessoas e a saúde eram prioridades em Agosto de 1974. Sem esquecer as regras militares operacionaos e de segurança.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Saudades do (1º. cabo sapador) José Gomes Coelho


JOSÉ GOMES COELHO, 1º. cabo sapador da Companhia de Comando e Serviço (CCS) do Batalhão de Cavalaria 8423, faleceu há dois anos, em Maio de 2007.
É mais um dos bravos cavaleiros do Quitexe que partiu, deixando em dor a sua família de Penafiel. E em saudade todos quantos os que, por Santa Margarida e Angola - no Quitexe e em Carmona... -, desfrutaram do seu companheirismo. Foi a viúva quem esta noite nos comunicou o seu luto e dor de família e amigos.
O José Gomes Coelho faleceu vítima de doença.
Era de Galegos (Penafiel) e participou no último encontro da CCS.
Até ao nosso próximo encontro, amigo!

O dia 24 de Agosto na vida de um cavaleiro do norte


Momento de relaxe na messe de sargentos do bairro Montanha Pinto

A foto em que me mostro, feito jogador de bola, é de Maio de 1975 e tirada nas traseiras da messe de sargentos (anteriormente de oficiais) em Carmona, no Bairro Montanha Pinto. Mas tem a ver com o dia de hoje, do ano de 1974.
O dia 24 de Agosto é, de resto, três vezes muito marcante na minha vida: o da morte de meu pai (em 1972), o do meu casamento e o da história que vou contar.
Era madrugada alta e de cacimbo forte e frio e, nesse dia de 1975, estávamos nós na pista de aviação do Quitexe - muito perto da vila. Iria chegar uma aeronave, lá para o meio da manhã e com um qualquer carregamento (suponho que de géneros alimentícios). Importava montar a segurança, em tempo e a horas, e para lá foi o PELREC, pouco depois da meia noite.

Nunca passei tanto frio em Angola e, disso avisados, levámos os ponches militares, que nos pouparam os rigores da cacimbada mas tiraram alguma mobilidade. Às tantas, um soldado desatou a fumar e fui, tapado pelas sombras do capim, o mais camuflado possível, avisá-lo para o apagar. Até a ameaçá-lo.
"Está triste, furriel...", disse-me ele, para se aliviar da pressão que eu lhe impusera e já com pirisca apagada. Algo terá notado ele no meu rosto. Não respondia mas por ali fiquei alguns momentos, debitando conversa sobre a vida, enquanto a noite gelava e de longe se ouviam alguns uivos e grunhidos que de alguma maneira nos arrepiavam.
Chamou-me o Vicente, sempre atento e de olho desperto. «Ouvi pr´ ali um barulho estranho...». Era para lá do capim e fomos ver..., evoluindo cautelosamente, depois ambos a rastejar!

Poupando pormenores, soou um tiro e senti uma picada na coxa direita: estava ferido. O bom do Florindo, cabo enfermeiro com quem agora acabei de falar (ao telefone, para refrescar a memória deste momento), logo bem se esforçou por tirar a bala, esfacelando-me a coxa, de pinça a tremer de nervos e ansiedade.
Lá foi tirada... tão à «superfície» estava e felizmente sem consequências graves para mim. Veio sumariamente a apurar-se que tinha sido alvo de um ricochete e... e não me peçam mais pormenores deste momento de escaramuça (digo eu...) que poderia ter sido trágico e confirmou as razões porque estava montada a segurança à pista. Ainda hoje guardo as calças do camuflado que foram furadas e a bala que as furou.
O momento porém, gerou, alguma natural tensão entre o grupo do PELREC mais próximo de mim e foi avisado o Garcia - que estava a umas dezenas de metros, em outro ponto de guarda.
"O alferes diz que o Viegas s´aguenta...", foi dizer-me o Hipólito, a sorrir-se para mim, dobrando a coluna e apoiando-se na G3, como que a genuflectir-se, e fazendo-se corar nas sardas que lhe pintalgavam a cara. Deu o "recado" em falas baixas, quase sussurradas, não fosse quebrar o silêncio de medos da madrugada.
A foto aparece aqui porque mostra o local da coxa direita onde fui atingido: é aquele sinal escuro mesmo junto à bola, que ainda hoje se nota, 35 anos depois... embora o tempo o tenha disfarçado!
- VICENTE. Jorge Luís Domingos Vicente, 1º. cabo atirador de cavalaria, de Vila Moreira (Alcanede), já falecido.
- FLORINDO. Vitor Manuel Nogueira Florindo, 1º. cabo enfermeiro, do Cartaxo, onde tem a Adega da Caxarrada.
- HIPÓLITO. Augusto de Sousa Hipólito, soldado atirador de cavalaria, natural de Vinhais e emigrante em França, mas com residência em Lisboa.