O Machado é rapaz de grande «rodagem», que já era bem visível no Quitexe, em lutas e discussões que eternizavam a sua coragem e esclarecimento para defender os interesses dos mais pequenos. E ele, que não é propriamente alto, foi sempre gigante na assumpção da solidariedade e da camaradagem, quando se tratou de defender os que menos podiam.
BATALHÃO DE CAVALARIA 8423. Os Cavaleiros do Norte!!! Um espaço para informalmente falar de pessoas e estórias de um tempo em que se fez história. Aqui contando, de forma avulsa, algumas histórias de grupo de militares que foi a Angola fazer Abril e semear solidariedade e companheirismo! A partir do Quitexe, por Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Ponte do Dange e Songo! E outras terras do Uíge angolano, pátria de que todos ficámos apaixonados!
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
O Machado «beduíno» que era... menino de coro!
O Machado é rapaz de grande «rodagem», que já era bem visível no Quitexe, em lutas e discussões que eternizavam a sua coragem e esclarecimento para defender os interesses dos mais pequenos. E ele, que não é propriamente alto, foi sempre gigante na assumpção da solidariedade e da camaradagem, quando se tratou de defender os que menos podiam.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
O alferes Cruz de oficial dia na madrugada da guerra....
Cruz é nome repetente na CCS do BCAV 8423! Há o Cruz alferes e o Cruz furriel. Este tem sido, por estes nossos 34 anos de civis, meu companheiro de muitas «jantas»! Cruz, o alferes, voltei a vê-lo agora: charmoso, hein!! E bem acompanhado pela doce Margarida dos seus amores! Tão amores, tão amores que a levou de mala aviada e filho no colo para o Quitexe de 1974. E para a Carmona de 75. Bate aqui o ponto!
Olharam-no alguns soldados, na parada! Os momentos eram de grande tensão! Bravos cavaleiros do norte, mesmo sem sequer serem atiradores da valente cavalaria portuguesa, deram-lhe a força solidária. «O meu alferes não vai sozinho... vamos consigo!!!».
terça-feira, 15 de setembro de 2009
Cada um de nós tem uma memória... do BCAV. 8423
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
: Um encontro que me deixou saudades...e muitas até às lágrimas !!!

domingo, 13 de setembro de 2009
O encontro da CCS do BCAV. 8423 em Águeda. Foi bonita a festa, pá!
O Almeida veio de Albufeira, no Algarve. O Pires, chegou de Bragança, no outro extremo de Portugal. Vejam lá como é este milagre de "cavalgar" amizades, as destes cavaleiros e amazonas que se enfeitiçaram pelo Quitexe e por Angola!!!...
Não se pediu um minuto de silêncio. Pediram-se palmas! Muitas palmas!!! Os Cavaleiros do Quitexe ovacionaram e emocionaram-se, de pé e em saudades regadas de lágrimas e nós de garganta, em homenagem aos amigos que partiram!
E houve discursos, discursos emocionados, orações empolgadas e sentidas!! Aqui viremos falar deles, nos próximos dias. Por hoje, recordamos a «continência» ao tenente (agora capitão) Luz, pedindo-lhe que acompanhasse a senhora sua esposa para que, «como nossa primeira dama...», fatiasse o bolo da festa! Palmas, muitas palmas...
sábado, 12 de setembro de 2009
Cavaleiros do Norte tiveram Encontro de Águeda
Os rapazes da CCS do BCAV 8423 juntaram-se hoje, no encontro da Pateira de Fermentelos, em Águeda. Alguns «galoparam» quilómetros que não lembraria ao diabo, para comer a sopa. O (alferes) Almeida fez mais de 2000, desde Marraquexe, em Marrocos, e parando em Albufeira - aonde voltou. O (furriel) Morais «picou as esporas» desde Elvas. "Saí às 6 e pouco da manhã...", contou ele feliz e de boca rasgada em sorriso. O Mosteias pôs toda a cavalagem do seu Audi a«voar» desde Sines. O mesmo fez o Zambujo. O Pires «montou-se" na sela do seu Vectra desde Bragança. Eu, que sou daqui a dez quilómetros, não fui o primeiro a chegar. Quase me senti envergonhado. Mas foi tudo uma festa, a que não faltou sequer o toque de clarim, para o rancho. Viremos com alguns história deste encontro nos próximos dias.
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Angolano agradece vidas que o BCAV 8423 salvou...

Eu sou angolano e fui acolhido de braços abertos no BC 12, em Junho de 1975, em Carmona (Uíge), quando acontecerem os incidentes da cidade. Gostei da maneira carinhosa como eu, minha família e várias outras famílias fomos recebidos, alojados e alimentados por vós, durante cerca de 10 dias, até que no dia 14 de Junho de 1975, a comitiva terrestre se preparara para a viagem a Luanda, bem escoltada por vós. Fica aí a minha consideração por esse vosso gesto carinhoso, pois livraram muitas vidas que se encontravam em perigo.
Atenciosamente,
Eugénio
O BCAV 8423 fez o
gesto, emociona-nos.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Saudades do alferes Garcia...
Pertenci ao pelotão-auto, uma parte de um todo coeso e disciplinado que era o nosso Batalhão de Cavalaria 8423. Honra seja feita ao Comandante Almeida e Brito, que nos soube incutir, com mais ou menos sacrifícios, a dignidade, a disciplina e o companheirismo que sempre nos guiaram e nos permitiram regressar de cabeça levantada e com o sentido do dever cumprido.
Fiz grandes amigos em Angola. Na força da juventude, na adversidade e isolamento, desenvolvem-se laços de amizade que noutras condições seriam muito difíceis. Eu e minha esposa Margarida, que sempre me acompanhou, fizemos amigos que nunca esqueceremos e com alguns dos quais mantivemos - e mantemos - uma grande e verdadeira amizade.
Vou hoje recordar um dos mais próximos, que infelizmente já não se encontra entre nós e com quem a nossa amizade e convívio se manteve para além do ultramar.
O António Garcia, o alferes Garcia!! Valente, corajoso, amigo com quem todos podíamos contar, bem disposto e atento a tudo e todos, recordo-o a brincar com o meu filho Ricardo e, com grande brio e coragem, à frente do seu pelotão, à porta da messe de oficiais, disposto a fazer frente aos sublevados da companhia do Liberato.
Recordo as nossas idas às companhias de Vila Viçosa, Zalala, Santa Isabel e fazenda Vamba. Eu e os meus homens com a missão do controle de armas e viaturas, ele com os seus «pelrec´s» a zelarem pela nossa segurança.
Encontrámo-nos cá várias vezes, ou sempre que podíamos, e era com tanta paixão que falávamos de África que as nossas esposas se repetiam: «Vocês não sabem falar de outra coisa?...».
Fui com o José Alberto Alegria (o alferes Almeida) ao seu casamento, a Carrazeda de Ansiães, onde fomos recebidos de braços abertos. Penso que houve foguetes. O Garcia era mesmo assim. Com ele, a amizade tinha de ser sentida e vivida.
Mais tarde, estando a Margarida, como médica, a fazer o serviço à periferia em Carrazeda e não havendo facilidade de hospedagem, o Garcia e a Olga, sua esposa, não descansaram enquanto não dispusemos da casa de um familiar em Pombal de Ansiães. Que terra, que gente, que comezainas e felizes momentos passamos com ele e seus familiares e amigos.
Jamais o esquecerei.
ANTÓNIO ALBANO CRUZ
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
O Quitexe católico no tempo dos Cavaleiros do Norte
A Igreja do Quitexe em 2008terça-feira, 8 de setembro de 2009
Faz hoje 34 anos!...
Aeroporto Internacional de Luanda, nos anos 70 (foto de Rui Ribeiro)Com o Neto, trazidos pelo Benício, que era condutor da fábrica do pai e a Lisboa nos foi buscar, parámos num restaurante de Alcoentre e comemos bacalhau assado, com vinho branco. Que saudades! Cheguei aqui a casa, perto da uma hora da madrugada - já com o Neto a enlaçar-se na família, na Bicha Moura (Águeda). Fui a casa de minha irmã, para que viesse a casa acordar a nossa mãe, ao tempo recém-viúva e doente!
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
A Ceia de Natal do Quitexe de 1974
domingo, 6 de setembro de 2009
Setembro de férias e alguns incidentes militares no BCAV 8423
Vista parcial da cidade da Gabela, destacando-se a Igreja Matriz - que conheci faz agora 35 anos
Restauração da picada para a Fazenda do Liberato (foto de José Lapa)sábado, 5 de setembro de 2009
Tempos de Setembro, de serenidade e aplastamento de dúvidas...
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
O homem branco que batia no homem negro...
Angola foi tempo de multiplicação de camaradagens e solidariedades. Quando se diz que a tropa nos fez mais homens, diz-se uma verdade. Mas incompleta! A tropa formou-nos, ampliou-nos o conhecimento e a experiência, sacramentou cumplicidades e semeou amizades que levedaram e se aumentaram nos tempos, até hoje!
Eu e o Chico Neto, ambos de Águeda, embora de formações bem diferentes, celebrámos «casamento» em altar que ainda dura. Julgo poder dizer, sem exagero, que até eramos «invejados», tal era a afinidade, a cumplicidade, o «estou por ti» que se revelava em todos os momentos do nosso dia-a-dia. Completávamos-nos!
Um dia, em operação que nos fez galgar imensos quilómetros pela mata afora, com ponto de chegada a uma fazenda algo distante do Quitexe, ouvimos gritos aflitivos, cada vez mais prolongados e angustiados, como que a definharem-se. Caminhávamos já dentro do cafezal, no silêncio e cautelas que urgiam, quando demos com um cenário de agressão a um trabalhador negro. O pobre do homem, ripava café (com muitos outros, talvez uma centena...), para uma espécie de saco pendurado do pescoço e pela cinta abaixo, um trabalho violentíssiomo..., e agredia-o o capataz.
Insurgiu-se o Neto, correndo em defesa do homem negro e gritando para o encarregado: «Eu mato-o....». E apontava-lhe a G3.
Os breves segundos que se seguiram foram de dramática tensão. «Calma, Neto!...», disse-lhe eu, procurando convencê-lo. Olhou-me ele, de olhos esgaziados. Ver um homem a ser agredido daquela maneira, é que não podia ser, para o Neto, de formação cristã muito forte e ali, por instinto, a defender os mais fracos! O homem da fazenda atemorizou-se, estava em desvantagem, rodeado de tropas. «Se repetir a tentativa, vai preso...», gritou-lhe o Neto.
Lembro-me que o caso foi comunicado às autoridades militqres, em relatório da operação, e que transitou para a administração civil. Mas não sei o que aconteceu depois... Ou não me lembro.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
As cumplicidades de uma cidade grande como Luanda...

quarta-feira, 2 de setembro de 2009
(Re)Descobrir Luanda com amor!
A noite e baía da cidade de Luanda nos anos 70 do século XX (fotos da net)
Entrei de férias, que ostensivamente e em muito boa hora, decidi gozar em Angola, espraiando emoções do Uíge a Luanda, ao Huambo, Gabela, Lobito e Benguela, por aí fora, em milhares de estradas e paisagens que enchiam os olhos e a alma.
A Luanda que (re)descobri, luminosa e bonita, de noites e cheiros sensuais e ardentes, não deixou de me enxaguar a alma e os apetites, fazendo-me cúmplice de quantos gostos, de tantos manjares e prazeres. E etc, etc, etc...
terça-feira, 1 de setembro de 2009
O «patrulhamento» da CCS às Quedas do Duque de Bragança...
Quedas do Duque de Bragança, em passeio da CCS do BCAV 8423, 1974A Angola que conhecemos em 1974 e 1975 era terra de enormes potencialidades e todos nós tínhamos um enorme desejo de a conhecer, para além das fronteiras do Quitexe - onde se concentrava o nosso dia-a-dia, quantas vezes ouvindo as peripécias e «aventuras» dos nossos companheiros que, pela sua especialização e obrigações militares, mais vezes saíam do aquartelamento.
Saímos de madrugada, numa Berliet e num «gasolinas», e visitámos as cataratas do rio Cuanza, na parte superior e inferior, onde fomos submetidos à enorme nuvem de vapor resultante da grande queda de água, a uma altura bastante considerável É, sem dúvida, uma das mais extraordinárias maravilhas da natureza que eu conheça e que muito prazer tive em visitar. Impressionante!!!
No regresso, visitámos a cidade de Malange, onde tive a alegria e oportunidade de visitar um familiar, que lá estava em comissão de serviço na PSP.
Durante o percurso, na ida e volta do Quitexe, apenas apanhámos pó vermelho na picada, até Camabatela, até à estrada asfaltada.
Rolando ao longo de uma imensa planície, vimos ainda as deslumbrantes Pedras do Cacuso, que, parecendo enormes montanhas, se destacavam no horizonte. São impressas em postais ilustrados e fazem parte do roteiro turístico de Angola.
O regresso ocorreu já ao fim do dia, sem problemas, com algum cansaço mas satisfeitos pelo dia que passamos. Um grande, bonito e saudoso dia de Angola!
JOSÉ S. PIRES
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
O alferes miliciano Ribeiro e o Pelotão de Sapadores...
Soldados sapadores de infantaria da CCS do BCAB 8423, em Carmona (1975)
domingo, 30 de agosto de 2009
O interrogatório do capitão Oliveira a três furriéis inocentes...
Um belo princípio de tarde, lá por Janeiro de 1975, um a um e sem que nenhum soubesse um dos outros, fomos chamados ao comando. Achámo-nos no comum, à porta de entrada do gabinete. «O que é fazes qui, pá...?», foi a pergunta entre pares. Chamou-nos de imediato, o imediato do 1º. sargento Luzia: o capitão Oliveira queria falar connosco. Pronto, «há m...». Havia.
O bom do capitão Oliveira, que a vida já levou, não era propriamente o melhor amigo dos dois furriéis de Águeda ( o Neto e eu), por contas de outro rosário. Juntar ao interrogatório o Machado, era uma surpresa.
Fomos os três interpelados, de dedo em riste, como se estivéssemos na ponta da baioneta. «Vocês isto e vocês aquilo, o RDM, as NEP´s...», blá-blá-blá, acusou-nos o capitão. E líamos-lhe nos olhos que nos esperava o degredo, dias de detenção, prisão, eu sei lá..., tudo ali na frente dos nossos olhos e emoções. Abrimos a boca de espanto. Nós éramos bons rapazes, o que queriria o nosso comandante de Companhia, a gloriosa CCS do BCAV 8423?!
Irrompeu o Machado, nervoso, impulsivo, respondão: «O meu capitão não nos pode acusar de nada...». E acusados éramos de desrespeitar as regras militares e termos sugerido reacções colectivas, perigosas, anti-regualmentares, penalizáveis. Estou a ver Machado: 1,60 de altura, de dedo no ar, empolgado e revoltado, em esgares de nervosismo (in)controlado. «Não nos pode acusar de nada... O meu capitão está a desrespeitar-nos....».
Soltou-se o Neto, não menos respondão que o Machado: «O meu capitão não tem razão. Há muito tempo que anda a querer pegar-se comigo e com o Viegas...». E atirou uma mão-cheia de argumentos que desestabilizaram as razões que o capitão Oliveira assumia ter contra nós, influenciado por alguém e para nos julgar e castigar.
«Não lhe admito, desculpe...», sustentava o Machado. «O meu capitão está mal informado...», sublinhava. E ninguém o segurava, de tanto impulso e por se sentir injustiçado, gesticulando e gritando. Injustiçados todos nós. E estava eu ali para entrar na conversa, no minúsculo gabinete do comandante da companhia, um acimentado desconfortável, onde muita coisa da CCS se decidia.
O Neto, vigoroso e interveniente, nada boca-calada, soltou mais argumentos e falei eu, meio filho da mãe, refilão e contestatário...: «É inacreditável, meu capitão....».
E ressoltou o capitão Oliveira as NEP´s, de olhar fulminante, acusando-nos de desestabilizadores. «Nós somos os mesmos que todos os dias estamos dispostos a sacrificar a vida pela segurança de toda esta gente. Pela sua segurança, pela sua vida... pela vida de toda a gente da CCS», recalcitrei-lhe eu, da forma mais ordinária e emotiva que pude.
O capitão chamou-nos um nome, que não repito aqui. E morreram muitos ódios naquele momento. E nem conto os nomes que, os três, chamámos logo depois aos que pusemos no nosso tabuleiro acusatório - os culpados desde dedo em riste do capitão Oliveira. Há coisas que não esquecem! Estávamos inocentes!
sábado, 29 de agosto de 2009
Melhor conhecer e mais amar Angola!!!...
Agosto de 1974 foi tempo de se acabar com as acções militares ofensivas e ampliar o apoio do BCAV 8423 aos povos e fazendas da área operacional, seguindo directivas hierárquicas.
Muitas vezes assegurámos o transporte (de ida e volta) a pessoas e mercadorias, que a população ia mercar ao Quitexe e principalmente a Carmona. Eram dias sempre muito «pesados», pelas distâncias que tínhamos de percorrer, sempre envoltos pelo pó quente e vermelho das picadas que se colava no corpo alagado de suor e pela tensão e «medo» que sempre se vivia, de uma qualquer acção ofensiva do chamado IN, alguma mina, alguma emboscada, algum acidente. Às vezes mais de 400 quilómetos, muitas horas de viagens, uma brutalidade para a marcha sempre algo lenta dos unimogs - viatura miitares a que chamávamos burros de mato.
Muitos populares, para além de beneficiarem de apoio médico local, nos seus próprios povos, eram muitas vezes levados ao Quitexe, para tratar de assuntos na administração ou no hospital civil - além de actividades comerciais correntes, para sustentarem a sua magreza económica doméstica. Havia uma grande empatia, sentia-se bem!!..., entre militares e civis - o que nos empolgava para a execução das nossas obrigações militares com um espírito profundamente cristão e partilhante. Que se vivia não só no contacto humano directo, como na partilha de bens pessoais, que vulgarmente os soldados faziam com a população - remédios, artigos de higiene pessoal, rações de combate, roupas, calçado. livros, canetas, lápis, cadernos...
Por mim, Agosto de 1974 foi véspera de mês de férias. Tinha decidido não vir a Portugal e esperava-me um circuito «turístico» que me levou a Luanda, à Gabela e a Nova Lisboa, onde abracei familiares e vivi felizes dias com amigos e conterrâneos civis. Ainda hoje me dou graças pela oportunidade de, nestas e nas férias de Abril de 1975, melhor ter conhecido Angola. Mais a fiquei a amar...
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
A propósito dos aerogramas...
Texto
Ao ser trazido para estas conversas o tema dos aerogramas, gostaria de enquadrá-lo no tema mais vasto do que era a correspondência com as nossas famílias e amigos naqueles tempos longínquos da nossa comissão de serviço em Angola, em 1974/75.
Será assaz difícil para um jovem de hoje compreender que, há apenas 35 anos, a comunicação entre duas parcelas do território nacional (se bem que localizadas em dois continentes diferentes) se fazia apenas por meios e por ritmos que parecem ser muito mais afastados no tempo. Mas a realidade era essa: quando estávamos no norte de Angola, a comunicação mais corrente com os nossos era por aerogramas e cartas, que demoravam longos dias a chegar ao seu destino.
Ao longo destes anos, quando me perguntam qual a lembrança mais forte que guardo desses tempos da guerra, acabo sempre por falar da memória que tenho da chegada quotidiana da correspondência ao Quitexe. O ritual processava-se em frente da Messe de Oficiais, do outro lado da rua, junto ao bar dos Soldados, quando o responsável pela vinda do saco do correio, desde Carmona, subia para um muro e começava a distribuição das tão ansiadas notícias. A essa hora, normalmente eu estava na varanda da Messe e observava como, de imediato, se formava um maciço compacto de Soldados que esperavam ouvir o seu nome dito do alto do muro. Cada um que recebia um aerograma, ou carta, afastava-se e tranquilamente ia pela rua fora, saboreando avidamente as últimas palavras doces chegadas de casa. E assim o grupo ia fiando mais reduzido, até que aos últimos nada mais restava do que a desilusão da falta de notícias…
É desses de que me recordo muitas vezes, porque a tristeza daquela ausência de umas palavras de conforto era a verdadeira imagem da desilusão e da solidão humana. O ritmo lento com que se afastavam daquele ponto que, momentaneamente, lhes tinha dada a esperança das palavras da mãe, da namorada, do irmão ou do amigo, traduzia bem o sentido da palavra saudade…
Mas se a saudade é este nosso “fado” de termos nostalgia de tudo o que amamos e que está longe, numa mistura de ternas memórias e amargos sentimentos de afastamento, também observei na nossa vida colectiva do BCAV 8423 uma outra característica que nos define como portugueses: esta nossa capacidade de improvisação e adaptação às novas situações.
Creio que todos nos lembramos que quando uma Companhia tinha de mudar de “pouso”, ou o Batalhão também mudava de cidade, mesmo que as condições encontradas à chegada fossem incrivelmente decepcionantes, passado um dia ou dois cada homem já tinha “construído” o seu pequeno recanto, já tinha colado a foto da sua querida (ou, na falta, uma folha de calendário insinuante …) e já estava de novo “em casa”, mesmo nas condições mais adversas.
E talvez tenha sido assim, neste misto de capacidades de improvisação e gestão de saudades imensas, que o nosso povo português se expandiu pelos diversos continentes, criando raízes, deixando marcas e afirmando-se como um povo com uma peculiar identidade nacional.
JOSÉ ALBERTO ALEGRIA
Em Agadir, a 23 de Agosto 2009
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Soldados de corpo inteiro e que nunca tiveram medo...
Xitaca nas traseiras das instalações militares do Quitexe, vista da capela
Desde o Quitexe a Carmona estabelecemos sempre uma grande ponte de colaboração e diálogo com as populações civis, colaborando com todos, fraternalmente. Também quero deixar aqui expresso, a minha gratidão ao (ex-furriel) Celestino Viegas pela ideia de criar este espaço de partilha de lembranças, que está muito bem organizado e mantém viva a chama do lema com que estivemos nas terras de Angola "Perguntai ao inimigo quem somos".
MANUEL MACHADO
Ex-furriel miliciano da
CCS do BCAV 8423
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
As rajadas obtusas do Beira Baixa na picada do Fazenda do Liberato...
Batida no Sanda, por três dias. Pedi para ir. Já tinha ido a várias e nunca tinha havido tiros. Cheguei a convencer-me que era de propósito: se eu ia, não havia; se não ia, eles choviam.
Depois de muita mata e muito capim, atravessámos o Calambinga por cima de um tronco encalhado entre pedras, num sítio em que o rio formava rápidos, apertado entre ravinas. Sítio idílico para um picnic. Então, para uma emboscada do IN, nem de propósito se arranjava melhor. Lá atravessei o tronco, com o credo na boca. Mas nada de desagradável aconteceu: nem um banho forçado.
Ao cair da noite, chegámos a uma mata perto do sítio onde calculávamos que estivesse o acampamento «turra», o que se confirmou no dia seguinte. No máximo silêncio, aninhámo-nos para passar a noite. Silêncio nosso, entenda-se. A mata deu o habitual «concerto» de gritos, pios e outros ruídos mais ou menos sinistros, com que os vários passarocos da fauna local animam as noites do soldado operacional. Dormi como um justo, que o aspecto musical do meio ambiente já me era conhecido de anteriores experiências.
Aos primeiros alvores da madrugada, lá fomos nós em busca da sanzala «turra«. Encontrámo-la, grande, bem limpa e ordenada e, não longe dali, um quartel, com paliçada e porta de armas. Tudo com o aspecto de ter sido abandonado há minutos. Ainda vimos um cãozito e lume mal apagado. Dadas as conhecidas qualidades combustíveis do capim seco, reduzimos tudo a cinzas e cacos. E retirámos, na convicção plausível de que o pessoal «turra» devia andar perto. Quase lhes sentíamos ainda o hálito, flutuando na frescura da manhã.
Tomámos o rumo do Liberato e fomos andando. Cheguei a convencer-me de que nada aconteceria. Porém, quando vínhamos pelo capim, em bicha-de-pirilau, ao pessarmos em frente de um promontório de mata que avançava como um dedo apontado na nossa direcção, rebentou nutrida fuzilaria. Íamos três grupos de combate, que ainda davam considerável extensão.
Eu ia aproximadamente na união dos dois terços iniciais com o terço. E os tiros só começaram quando eu ia a passar na direcção do promotório. Ninguém me tira da convicção que a emboscada foi feita a mim, aos meus bigodes "à princípio de século", ao meu ar mais velho de «pai-da-malta». Até porque as ouvi assobiar por perto.
A reacção foi imediata. À minha frente, um soldado, João dos Santos Antunes, o Beira Baixa, despejava repetidas rajadas de metralhadora, segundo um ângulo que se me afigurava perigosamente obtuso. Claro que tive medo. O medo é como as cartas de amor: "quem as não tem?".
O inimigo retirou para melhores paragens, com um problema habitacional a resolver. Eu mantive os bigodes. Mas experimentei uma forte senção de desconforto, que só aumentou nas primeiras horas e dias.
* PESTANA BASTOS
Médico do BART. 786 / Quitexe 1965/67
terça-feira, 25 de agosto de 2009
O mês de Agosto de 1974 em terras do Quitexe
O Quitexe de 1974 era assim, tranquilo, em desenvolvimento, essencialmente vivendo da produção de café, nas dezenas e dezenas de fazendas que se estendiam a perder de vista, pelos municípios vizinhos.
Alguns pelotões e companhias ficavam mesmo o instaladas em fazendas, delas partindo em operações e patrulhamentos que garantiam a segurança na região. A tropa, para além disso, ocupava-se da protecção às brigadas da Junta Autónoma de Estradas de Angola (JAEA). Por estes dias de Agosto de 1974, andámos, os da CCS, «ocupados» com o arranho das «estradas» para Camabatela e Fazenda Luísa Maria e outras companhias para Zalala e Liberato, enquanto se prosseguia o arranjo da chamada estrada do café, em asfalto - que ligava Carmona a Luanda, na zona da Ponte do Dange.
Outro objectivo essencial era assegurar a segurança dos centros urbanos e a liberdade de tráfego. As informações não nos chegavam com p pormenor que nós gostaríamos (os menos graduados...) mas era visível a preocupação das chefias militares, por causa da transição que se «operava» com alguns «trambolhões» pelo meio. Havia desconfianças. Já iam quatro meses depois de Abril em Lisboa, mas havia a nossa convicção de que, pelas matas dos Dembos e do Uíge, se ignoravam as novas orientações políticas do governo português e, portanto, poderiam continuar acções militares.
Precavidamente, reuniu várias vezes a Comissão Local de Contra-Subversão (suponho ser este o nome) e multiplicaram-se as visitas a fazendas e povos da zona de acção. Principalmente, para assegurar o funcionamento das actividades económicas da região e o apoio médico e sanitário. O café, as fazendas, as pessoas e a saúde eram prioridades em Agosto de 1974. Sem esquecer as regras militares operacionaos e de segurança.
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Saudades do (1º. cabo sapador) José Gomes Coelho

O dia 24 de Agosto na vida de um cavaleiro do norte

A foto em que me mostro, feito jogador de bola, é de Maio de 1975 e tirada nas traseiras da messe de sargentos (anteriormente de oficiais) em Carmona, no Bairro Montanha Pinto. Mas tem a ver com o dia de hoje, do ano de 1974.
O dia 24 de Agosto é, de resto, três vezes muito marcante na minha vida: o da morte de meu pai (em 1972), o do meu casamento e o da história que vou contar.
Era madrugada alta e de cacimbo forte e frio e, nesse dia de 1975, estávamos nós na pista de aviação do Quitexe - muito perto da vila. Iria chegar uma aeronave, lá para o meio da manhã e com um qualquer carregamento (suponho que de géneros alimentícios). Importava montar a segurança, em tempo e a horas, e para lá foi o PELREC, pouco depois da meia noite.
Nunca passei tanto frio em Angola e, disso avisados, levámos os ponches militares, que nos pouparam os rigores da cacimbada mas tiraram alguma mobilidade. Às tantas, um soldado desatou a fumar e fui, tapado pelas sombras do capim, o mais camuflado possível, avisá-lo para o apagar. Até a ameaçá-lo.
"Está triste, furriel...", disse-me ele, para se aliviar da pressão que eu lhe impusera e já com pirisca apagada. Algo terá notado ele no meu rosto. Não respondia mas por ali fiquei alguns momentos, debitando conversa sobre a vida, enquanto a noite gelava e de longe se ouviam alguns uivos e grunhidos que de alguma maneira nos arrepiavam.
Chamou-me o Vicente, sempre atento e de olho desperto. «Ouvi pr´ ali um barulho estranho...». Era para lá do capim e fomos ver..., evoluindo cautelosamente, depois ambos a rastejar!
Poupando pormenores, soou um tiro e senti uma picada na coxa direita: estava ferido. O bom do Florindo, cabo enfermeiro com quem agora acabei de falar (ao telefone, para refrescar a memória deste momento), logo bem se esforçou por tirar a bala, esfacelando-me a coxa, de pinça a tremer de nervos e ansiedade.
Lá foi tirada... tão à «superfície» estava e felizmente sem consequências graves para mim. Veio sumariamente a apurar-se que tinha sido alvo de um ricochete e... e não me peçam mais pormenores deste momento de escaramuça (digo eu...) que poderia ter sido trágico e confirmou as razões porque estava montada a segurança à pista. Ainda hoje guardo as calças do camuflado que foram furadas e a bala que as furou.
O momento porém, gerou, alguma natural tensão entre o grupo do PELREC mais próximo de mim e foi avisado o Garcia - que estava a umas dezenas de metros, em outro ponto de guarda.
"O alferes diz que o Viegas s´aguenta...", foi dizer-me o Hipólito, a sorrir-se para mim, dobrando a coluna e apoiando-se na G3, como que a genuflectir-se, e fazendo-se corar nas sardas que lhe pintalgavam a cara. Deu o "recado" em falas baixas, quase sussurradas, não fosse quebrar o silêncio de medos da madrugada.
A foto aparece aqui porque mostra o local da coxa direita onde fui atingido: é aquele sinal escuro mesmo junto à bola, que ainda hoje se nota, 35 anos depois... embora o tempo o tenha disfarçado!
- VICENTE. Jorge Luís Domingos Vicente, 1º. cabo atirador de cavalaria, de Vila Moreira (Alcanede), já falecido.
- FLORINDO. Vitor Manuel Nogueira Florindo, 1º. cabo enfermeiro, do Cartaxo, onde tem a Adega da Caxarrada.
- HIPÓLITO. Augusto de Sousa Hipólito, soldado atirador de cavalaria, natural de Vinhais e emigrante em França, mas com residência em Lisboa.















