
BATALHÃO DE CAVALARIA 8423. Os Cavaleiros do Norte!!! Um espaço para informalmente falar de pessoas e estórias de um tempo em que se fez história. Aqui contando, de forma avulsa, algumas histórias de grupo de militares que foi a Angola fazer Abril e semear solidariedade e companheirismo! A partir do Quitexe, por Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Ponte do Dange e Songo! E outras terras do Uíge angolano, pátria de que todos ficámos apaixonados!
domingo, 11 de outubro de 2009
Oficiais e Cavaleiros do Norte no Natal de 1974

sábado, 10 de outubro de 2009
O turismo possível dos jovens Cavaleiros do Quitexe...
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
O companheirismo sempre vivo dos militares do BCAV. 8423
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
O mílímetro de patilha que empatilhou as férias do militar do Quitexe...

Aperaltado e naturalmente ansioso, esperava a hora de levantar a tão desejada licença. Mais uns retoques acompanhados de alguns pingos de Old Spice (perfume da época) e estava composto o ramalhete!
À minha volta, os amigos carregavam-me de recados para a família! O Alvarito (futebolista do Marinhense), lavado em lágrimas, pedia-me para dar um grande beijo à mãe e um abraço ao pai! «Mas olha que à minha miúda é só um aperto de mão …não te armes lá em parvo c…..!...» dizia-me ele, misturando soluços com sorrisos, tentando disfarçar a angústia da saudade!
Se por um lado lamentavam não estar no meu lugar, por outro estavam visivelmente contentes por saberem que me iria encontrar com os seus!
Feliz da vida, lá fui em passo acelerado para não perder a boleia para Carmona, onde apanharia o avião para Luanda. Chegado à secretaria, esbarrei com um ambiente um tanto pesado! Bom, dizia-se que o capitão após uma noite “a pão e água”, ficava completamente endiabrado!...
Depois de dizer ao que ia, olhou-me bem de frente e disse: «Você nem pense que vai sair daqui com essas patilhas!!!...».
Sabendo eu muito bem quem tinha pela frente, qualquer argumento só iria complicar ainda mais as coisas! Com amargo de boca e carregado de pensamentos e vontades que agora não digo, voltei ao quarto para retirar quase por completo as patilhas! «Filho da mãe, lixei-te!...», pensei eu.
Avenida abaixo e a caminho da secretaria a que chamavam «toca do lobo» (eu sei bem porquê…), vomitei impropérios que me atenuaram um pouco o fervilhar do peito!
Confiei demais! Com ar indiferente, disse-me exactamente as mesmas palavras, tendo o cuidado de as soletrar! Mas ainda não satisfeito, chamou o 1º. sargento para que me medisse as patilhas com uma régua – e ele mediu mesmo!!! Ninguém imagina o ar trocista com que cumpriu a ordem!...Também ninguém imagina o que me passou pela cabeça!...
Pasme-se que a patilha esquerda tinha mais um milímetro que a direita!!! É verdade… um milímetro…disse ele!!! …
Olhei-os com uma certa pena! Se o Exército era o espelho da Nação, então aqueles dois estavam a mais! Até rangi os dentes de raiva!
O capitão tinha finalmente descoberto uma oportunidade de ouro para me azucrinar o juízo, sabendo-me refém daquele papel! Gozando o momento, esfregava-os com a ponta dos dedos enquanto me olhava e abanava a perna! O abanar de perna tinha vários significados e naquele caso queria dizer «ai que se eu pudesse não ias mesmo!...».
Apercebi-me que, do fundo da secretaria, o cabo escriturário articulava a palavra “Matos”! «Espera lá…Matos…é o barbeiro...», decifrei eu! Pedi licença para me retirar e, em passo bem ligeiro, lá fui pedir-lhe que usasse os seus dotes e me alinhasse as patilhas! Disse-me logo que não lhes mexia porque elas estavam rigorosamente iguais e que me apresentasse assim mesmo!
Já com o furriel Antão a olhar para as horas e a bater com as unhas no vidro do relógio, eis-me de novo na secretaria! Mas o homem voltava ao ataque e não desarmava! «Meu Capitão, até foi o barbeiro que me aparou agora as patilhas!… Está a ver?!...», disse eu, já a descontrolar-me um pouco e quase a cair no meu jeito impulsivo! Com o ar mais natural e sereno do mundo respondeu-me: «Ai sim?!... Eu não quero ver nada, mas se foi o Matos que lhe aparou as patilhas… então é porque estão bem aparadas!!!...».
Atónitos, todos (menos o sargento…) ficámos a olhar para ele, não querendo acreditar no que acabaramos de ouvir! Como dizia o anúncio: “Pasta Medicinal Couto - palavras para quê?!...”.
Claro que fui de férias! Mas o achincalho, esse, não o engoli! Não só por mim, mas principalmente pelo filho da minha mãe! No regresso, desprezando ódios e amarguras, entendi, nem que fosse apenas para salvaguardar a minha sanidade mental, saldar as contas que me pareciam (e estavam) desequilibradas! E foram de facto saldadas! E nem eu nem o bom do capitão ficámos a perder… nem a ganhar! Contas de outro rosário!
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
A messe dos furriéis «revoltosos» da CCS dos Cavaleiros do Quitexe
A comunidade militar do Quitexe estava dividida por vários edifícios civis, para além do núcleo principal, digamos - onde se localizavam as casernas e a cozinha/refeitório, as oficinas, o parque-auto, as transmissões, a secretaria e o comando.
A foto mostra, repimpados da Silva, os furriéis Morais e o Lopes, de frente para o enfermaria, provavelmente a um qualquer domingo e a matar o tempo, que nunca mas passava até ao nosso regresso. Atrás, na avenida da vila, fica a messe e o bar de sargentos - que era o nosso poiso diário, onde matávamos a fome e degustávamos bebidas que nos amoleciam as saudades da terra e da nossa gente.
Foi palco de muitas histórias, muitas delas apimentadas pelo rubor dos nossos desejos e a falibilidade dos nossos sonhos. Quantas discussões por aqui se tiveram, sobre tudo: a tropa, a guerra, as saudades, o tempo que não andava para a frente, as épicas missões dos militares operacionais (e quantos exageros!...), as mulheres que alguns de nós por cá deixaram a moerem-se d´amores, as mulheres de lá... - que olhávamo de longe, disfarçando desejos!
Um dia, nesta messe que nos matou fomes e foi palco de muitos exageros gastronómicos e alcoólicos, a maioria dos furriéis tomou uma decisão radical: - não comer à mesa com os sargentos e companheiros «feitos» com eles. Soube-se nesse dia como nem sempre a solidariedade é vã. Como, afirmadamente, todos podemos optar e confrontar. Discutir razões e assumir atitudes. Qe o diga o Machado, líder da revolta - que não foi rebelião, mas impôs razões. Não foi, ó grande «beduíno!»... Também assim se levedou o espírito que fez do BCAV. 8423 um exemplo pelo que foi e fez em terras do Uíge!
- MORAIS. Norberto António Ribeirinho Carita de Morais, furriel miliciano mecânico-auto. Natural de Niza, engenheiro e quadro superior da Estação Macional de Plantas, em Elvas, onde reside.
- LOPES. António Maria Verdelho da Silva Lopes, furriel miliciano enfermeiro, natural e residente em Vendas Novas - onde é tesoureiro de Finanças.
- MACHADO. Manuel Afonso Machado, furriel mecânico de armamento. Natural de Covelo do Gerez (Montalegre) e residente em Braga, onde é quadro superior de EDP. Popularizou o epíteto Beduíno, que invariavelmente chamava a quem se portasse menos bem de normas. Chamar Beduíno a alguém, a alguma altura, passou a ser termo carinhoso - como no Encontro de Águeda vincadamente se confirmou.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
O furriel «travestido» que foi ao cinema ver «Eusébio»
O mês de Outubro de 1974, que era para ser tranquilo da silva, afinal encheu-se de peripécias. E nem sempre as melhores. Desde logo porque a tal ideia do cessar fogo, afinal redundava em constantes «macas», nomeadamente nas fazendas - onde os bailundos, contratados no sul de Angola para os enormes cafezais da zona, eram ameaçados: ou abandonavam as fazendas, ou eram mortos. E não eram ameaçados por nós!
Outubro de 1974 foi o mês em que, travestido, fui ao cinema do Quitexe ver o filme «Eusébio» e um companheiro de armas, sem desconfiar que era eu, começou a medrar de entusiasmo e, começando pelo joelho esquerdo, me quis sentir o cheiro das carnes mais púdicas. Tive de «fugir« para o quarto - onde me procurou, danado da vida, o bom do tenente Mora, que me vira a correr para lá e supondo que lá entrara uma mulher. Tive de ter tempo de tirar a roupa, foram uns segundinhos..., vestir uns calções e abrir a porta. O tenente Mora,e em passo rápido, encontrou, vasculhou mas não encontrou mulher nenhuma, como é óbvio, nem dentro dos armários nem debaixo das camas. «Como é que ela saiu, se a janela está com a rede mosquiteira?», interrogava-me ele, espantado, irritado, quase colérico.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
O fazendeiro que negou água aos soldados do PELREC
domingo, 4 de outubro de 2009
O Outubro de 1974, pilhagens, medos, cinema e futebol
sábado, 3 de outubro de 2009
O 1º. cabo Tomás e o homem que roubou comida...
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
A ida ao cinema e o furriel que casou com a filha do madeireiro do Quitexe
Igreja do Quitexe e xitaca atrás da Casa dos Furriéis e secretaria da CCS Recordo as noites de bom bate-papo no café do Topete, até boas horas da noite. O grupo era formado pelo Guedes, o Carmo, algumas vezes o Topete, porque tinha que servir os copos na café e... etc., etc., porque já não me lembro de outros. Era um grupo muito unido. Ah!, estava também um furriel, que depois veio a casar com a filha de um madeireiro do Quitexe.
O Guedes e o Topete que já moram longe de nós, o Carmo está a braços com uma doença que o limita bastante. Nestas ocasiões, era eu que "descia ao povoado", ao passo que quando era com os militares estes que subiam a montanha - iam à missão. Mais uma vez, muito obrigado pela companhia que me fizeram.
Recordo-me de um dia termos ido ao cinema a Carmona (Uíge). Nesse dia, estava muito cansado, mas queria ir ao cinema. Fomos no meu carro - eu e mais três alferes ou furriéis, uma Renault 4L (que bom carro e económico...). Mal entrámos na sala de cinema, sentei-me e ... não vi mais filme nenhum. Dormi, e dormi de tal maneira que não me lembro nada do filme. No fim da sessão, fomos todos beber qualquer coisa. Eu já estava desperto e bem desperto. Chegámos noite dentro, ao Quitexe.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
A madrugada de 1 de Junho de 1975 e a evacuação de Margarida e Ricardo
Hoje, mais de 34 anos depois, temos a consciência de que se tivessemos respondido aos tiros a história daqueles dias seria outra.
- MARGARIDA E RICARDO. Esposa e filho (bebé) do (então) alferes Cruz.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
O discreto Grácio que vendia bebidas no depósito de géneros...
Aqui está o Grácio, glorioso sapador de infantaria, que de Leiria - de uma terra chamada Amor, vejam lá!... - vou para o Quitexe, para uma missão que lhe estenderam ao depósito de géneros. Era lá que ele, sempre bonacheirão, cumpridor e sempre disponível, «aviava» as bebidas que o RDM permitia à tropa e a «gulodice» de outras patentes, mais altas, ia deixando passar.
O Grácio era boa gente! E é! Ainda agora, pelo telefone, me lembrou alguns exageros da malta furrielística, avidamente sedenta de mais avios e de alguns abusos. Se estes fossem possíveis! «Era eu que vos fornecia as bebidas...», lembrou-me o Grácio, como se eu não soubesse e adivinhando-lhe um sorriso do outro lado do telefone! E lá esteve ele, sempre discreto e presente, no Encontro de Águeda, acompanhado da sua (dele) «mais que tudo!», não sei se namorada daquele tempo!
A uma qualquer altura, cumprindo ordens - como bom militar que era... - negou vender bebidas à furrielada. Não podia, tinha ordens! Aqui d´el-rei, que «não podia ser...», gritava-lhe o Machado. «Veja lá no que se mete...», avisava-o o Neto. «Ainda levas uma porrada...», azucrinava-lhe o Mosteias - que era furriel sapador, a disfarçar o riso. Até o Pires (o do Montijo), também furriel sapador, meteu colherada na querela: «Ainda te f..., ó Grácio!».
O Grácio, e muito bem, manteve a ordem recebida - ordens são ordens... - e foram os furriéis em demanda dos mais patenteados, que lá libertaram a ordem de venda. Francamente, não tenho a certeza se uma velhíssima Monks, em garrafa de cerâmica e que ainda tenho ali no bar, não foi uma das que, nessa altura foram vendidas pelo Grácio no depósito de géneros e saíram dessa «escala negocial» de outras patentes! O certo, certíssimo, é que o Grácio, o discreto Grácio, o disciplinado sapador Grácio, não foi em cantigas e, sem hesitar, cumpriu o seu dever de honra. Assim eram os bons militares e se formam os homens grandes!
- GRÁCIO: Fernando Martinho Grácio, 1º. cabo sapador. Natural e residente em Amor (Leiria).
terça-feira, 29 de setembro de 2009
A rapaziada da enfermaria militar do Quitexe...
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
O furriel Lopes, enfermeiro de corpos e de almas...
O Lopes era enfermeiro, furriel enfermeiro de corpos e de almas. Andasse por ali alguém com a neura, a morrer de saudades, estressado (como agora se diria...) e logo apareceria o Lopes, a «nadar» no mar da sua permanente tranquilidade, com uma palavra de alento e ajuda e uma «injecção» de calma - ora não fosse ele alentejano.
O Lopes «passeava-se» pelo Quitexe quase sempre de farda nº. 2, sempre impecável, sempre bem vincada e sem catingas a entranhar-lhe os cheiros, pendurado no cigarro que lhe adormecia o vício, sempre ao fim de mais um dia de enfermaria. Aqui, na enfermaria, era onde zelava, muito cioso e sem uma falha, pela saúde dos cavaleiros que lá se lhe iam queixar de paludismos e moscas tsé-tsé, ou de alguma ressaca de um qualquer abuso gastronómico que metesse cucas, nocais ou n´golas a mais. Ou cachaça de cana, brandy Vital ou algum wisky bebericado nos abusos das noitadas das casernas.
O Lopes, sempre paciente como Jó e diligente, todos atendia com um sorriso quase adolescente, passando algodões e mercúrios pelas feridas do corpo e as ansiedades da alma dos quitexanos da CCS do BCAV. 8423. Ou então, sem tremuras, espetando a agulha de algum anestesiante das dores físicas.
Era (é!!!...) um tipo fixe, daqueles que apetece gravar de vez na memória - para cuidarmos não esquecer da gente boa da nossa vida. Nunca se lhe ouviu uma explosão de nervos ou inquietudes. Tudo e todos olhava e media com calma que às vezes enervava! Bom tipo, pá!!! Bom tipo este Lopes que é Cavaleiro do Quitexe e a quem, por maldade, por vezes chamávamos Seringas! Nunca aquela boa alma se aborreceu com a graça! Nunca por isso perdeu o sorriso adolescente com que excomungava as nossas almas e desarmava as nossas irreverências!
- LOPES. António Maria Verdelho da Silva Lopes,
furriel enfermeiro. Natural e residente em Vendas Novas,
cidade onde é tesoureiro das Finanças.
domingo, 27 de setembro de 2009
O Dias vagomestre e o filme perdido do aeroporto de Lisboa
Olhem aqui o furriel de alimentação, o vagomestre - o Dias, sorridente e feliz, na sua gravata vermelha e a lembrar-se, certamente, das contas e cifrões que lhe deram cabo da cabeça no Quitexe, onde fazia ementas que tinham de evitar algum levantamento de rancho.
Um dia, de «castigo», o bom do comandante da CCS pôs-me de fiscal à cozinha dos praças. Eu não era lá muito querido dele e como grassava algum descontentamento entre a malta, por causa da qualidade do «rancho, ora aí estava uma boa ocasião para me «pegar»: a tropa levantava problemas e eu tinha de responder por eles. Não respondia, oru respondia menos bem..., e, pumba, RDM em cima de mim. Ainda hoje julgo que foi para isso que o capitão me pôs em tais funções! Para as quais, de resto, não tinha a menor habilitação.
Assumindo o lugar e por dever de lealdade e camaradagem, falei com o Dias, por causa das «moscas», ou das bocas que sempre se ouviram na tropa, sobre essas questões do rancho geral: «Eh pá, vê lá como é isso...», comentei com ele. «O capitão está a querer trilhar-me, vê lá se tens por aí algum rabo de palha...».
Que não me preocupasse, disse-me o Dias, com aquela tranquilidade bonacheirona que o caracterizava, a tranquilidade dos deuses: «Isto é feito aqui como mandam as regras!...».
Também era essa a minha convição, se haveria marosca seria entre as ementas que ele zelosa e cuidadosamente preparava e os géneros que chegavam à cozinha, pelo que toca a mandar... cozinhar. Abreviando a história, o meu cargo de fiscal não durou muitos dias pois, ao máximo que pude, não abdiquei do tal RDM com que sempre éramos ameaçados pelo capitão e este, por via das dúvidas - e muitas havia!!!... - e porque o meu zelo o preocupou (julgo eu), exonerou-me do dispensável e desconfortável cargo.
Mas vem aqui o Dias, não só para falar do seu rigor e competência no delicado lugar que exercia, mas também para fazer memória da cultura que semeava com o seu falar tranquilo, ou mesmo quando gargalhava nalgum momento mais divertido, nas intermináveis sabatinas do bar de sargentos. Bom companheiro, tenho para ele a dívida de perder o filme da nossa chegada ao aeroporto de Lisboa, a 8 de Setembro de 1975. Desapareceu, pelas obras aqui de casa. Foi um desgosto para mim. E muito mais para ele! Nunca me desculparei!
Um grande abraço, Dias!
- DIAS. Francisco José Brogeira Dias, furriel miliciano de alimentação. Bancário, é natural e residente no Porto.
- SERRA. Delfim de Sousa Serra, soldado condutor, de Gondomar.
- SILVA. António Jesus Pereira da Silva, soldado rádio-montador. Natural e residente em Vila Nova de Gaia.
sábado, 26 de setembro de 2009
O barbeiro às rajadas e os condutores sem medos..
O Aurélio, aqui do lado esquerdo, era atirador de cavalaria mas «atirava-se» também aos cabelos da malta, como gato a marmelada: aparava, cortava, mondava a penugem das orelhas e, de repente, era uma rajada de pente e tesoura. Modo semântico de dizer, uma carecada!... Era o barbeiro da CCS e bom praça, sempre de gargalhada na ponta da beiça!
O Vicente, o Gomes e o Serra eram condutores e não falhavam uma curva, com o volante dos «burros de mato» na mão. Ou berliet que fosse!! Cada curva, convém lembrar, era um perigo a espreitar e os condutores-auto um alvo fácil de abater. Louve-se a coragem de todos eles, estes aqui na foto e todos os outros.
Falei de curvas, mas posso lembrar as rectas e as picadas turtuosas e poeirentas, os lamaçais e buracos que atrasavam a marcha de qualquer coluna, os pisos por onde não passou Cristo e amarguravam as angústias dos militares, as subidas íngremes de troços onde à pedrada podíamos ser emboscados e mortos, os percursos de meter medo a Deus e ao diabo! Foi toda a gente gente brava e sem medos!
Nem uma vez alguém hesitou a arrancar da parada do quartel, quantas vezes comendo o pó das madrugadas e o frio que cacimbava as nossas saídas para escoltas, patrulhamentos ou operações. A arma era o volante e não tinham granada no cinturão com que se pudessem defender. Missões arriscadas, as dos condutores! Gente de coragem!
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Cavaleiros quitexanos no Encontro de Águeda
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
O Tenente Luz da Secretaria do Comando do Quitexe

O tenente Luz, agora capitão, é, do alto dos seus lonvejos 80 anos, o menos jovem de nós. Pelo bilhete de identidade, bem entendido. Quanto ao resto... - juventude, boa disposição, alegria, serenidade, companheirismo, saber-estar... por aí adiante!... - é tão ou mais novo que nós, rapazes agora quase sexagenários!
Era o responsável pela secretaria do comando do Batalhão de Cavalaria 8423 e dele não se conhece alguém que lhe aponte um dedo. Todos gostavam do tenente Luz. Todos!!! O que, em ambiente militar e nos turbulentos tempos revolucionários de 1974 e 1975, é um milagre!
O tenente Luz falou no Encontro de Águeda: de palavras serenas, pausadas, em oratória simples e forte. Lembrou as suas emoções pessoais: era a sua terceira comissão e foi a última. «Foi o batalhão de que mais gostei, sei lá... Era um grande grupo, de muita camaradagem e grande solidariedade», disse o tenente Luz, que agora é capitão.
Lembrou nomes que nos são queridos: o comandante Almeida e Brito, que a morte levou a 20 de Junho de 2003; o alferes Garcia! Falou dos caminhos de disciplina e camaradagem que se viveram no batalhão e que hoje, quase sexagenários, todos nós reconhecemos que foram o nosso escudo invisível, protector e anjo da guarda dos momentos mais dramáticos.
O capitão Luz era o mais graduado de todos nós no Encontro de Águeda. E sabemos que é o oficial vivo de mais alta patente daquele que foi o BCAV. 8423! Eu, querendo ser simpático, bati-lhe continência: «O sr. capitão Luz dá-me licença que convide a senhora sua esposa, hoje a nossa primeira dama, para fatir o bolo da festa?!..».
O capitão Luz sorriu-se, pegou no braço da mulher da sua vida e acompanhou-a à mesa do bolo dos Cavaleiros do Norte, os do Quitexe, que se encontraram em Águeda. Eu acho que foi um momento bonito, cheio de afecto, emotivo!!! As palmas do povo cavaleiro e das amazonas que o acompanhavam, sublinharam esse instante quase romanesco!
- LUZ. Acácio Carreira da Luz, tenente do QSGE, chefe da secretaria do Comando do BCAV. 8423, no Quitexe. É capitão e reside na Marinha Grande.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
O 1º. cabo Pais que agora é o Toné de Viseu
O Pais era 1º. cabo rádio-montador, originário de Viseu e senhor da sua boa e grande graça. Por ser de uma aldeia chamada Travassós de Cima e aqui ao lado da minha haver uma outra chamada Travassô, se calhar por isso..., sempre nos sentimos próximos e cúmplices.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Deram-me sardinha assada e arroz branco...
«Sempre tive as portas abertas a todos, sem constrangimentos, era amigo dos militares e os militares eram meus amigos...», lembrou ele no Encontro de Águeda, depois de falar da nossa gente e da gente nativa, que ele ensinava nos caminhos da fé, com o entusiasmo jovem de quem se dá em partilha com os outros.
Albino Capela era o padre do Quitexe, onde ficou quando de lá saímos, em Fevereiro de 1975. Juntou-se-nos em Carmona, quando os incidentes da vila quitexana precipitaram a insegurança e a fuga. E, depois, não quis integrar a coluna militar que deixou Carmona para Luanda. «Tenho de fixar com a minha gente...», disse ele ao comandante Almeida e Brito, que insistia no seu (dele) abandono da cidade, integrando-se na (que seria) epopeica coluna militar para Luanda. Que tinha mais de 700 viaturas! E ficou.
No Encontro de Águeda, lembrou as 4,30 horas da manhã de 4 de Agosto de 1975: «Fui ver-vos partir...». Assim disse e parou as palavras, como que engolindo um ai de dor e amargura. Uma semana depois, em Agosto de 1975 e apressadamente, teve de ganhar boleia num avião para Luanda, para sair do inferno de Carmona.
Albino Capela, no altar das suas emoções do Encontro de Águeda, lembrou, de emoção puxada à voz e palavras pausadas, a fome que lhe matou o BCAV. 8423, quando fugiu do Quitexe e chegou a Carmona, com a irmã e outra gente: «Deram-nos sardinha assada e arroz branco! Nunca mais vou esquecer!...».
Adivinhava-se um ápice compulsivo no falar de Albino Capela, se calhar com alguma lágrima a escorrer-lhe a face. «Nunca mais vou esquecer, deram-nos sardinha assada com arroz branco!...».
- CAPELA. António Albino Vieira Martins Capela, sacerdote católico e padre do Quitexe. Actualmente, é professor e reside em Barcelos.










