domingo, 11 de outubro de 2009

Oficiais e Cavaleiros do Norte no Natal de 1974


A foto que editamos mostra uma parte dos quadros de oficiais do BACV. 8423, na ceia de Natal de 1974, no Quitexe. Sentados, e da esquerda para a direita, reconhecem-se o capitão Paulo Fernandes (comandante da 3ª. CCAV, instalada em Santa Isabel), o furriel Reina, o tenente-coronel Almeida e Brito (comandante do batalhão), o alferes Ribeiro (?), o 1º. sargento Luzia e o capitão Oliveira (comandante da CCS).
Aqui, em primeiro plano, de bigode, reconhecem-se o alferes Hermida, seguindo-se a esposa e, depois, a esposa e o alferes Cruz (de óculos).
Era a ceia de Natal, de afectos e de saudades da família, dos amigos, das rabanadas e das filhós, do bolo-rei e do bacalhau e do perú. Até do frio e da chuva da época. Por lá, bem regadinho, comemos bacalhau - prato que não era vulgar por aqueles sítios. Bem pelo contrário.

sábado, 10 de outubro de 2009

O turismo possível dos jovens Cavaleiros do Quitexe...

Machado, Cruz e Rocha nas Quedas do Duque de Bragança, em 1974. Clicar na foto

A campanha militar que nos levou aos longes africanos, com todos seus medos e tragédias, foi tempo, também, de fartos e apetecidos passeios pela terra gigante de Angola. A acção psicológica assim achava por bem e a malta, claro, logo aproveitava para o turismo possível, enchendo berliets pelas centenas de quilómetros que levavam aos destinos escolhidos.
Fui azarento nesse ponto. Excursão que houvesse e eu estava de... serviço. E, com o meu orgulhosinho rural em vincado, nunca quis sequer propor uma troca, para ir «vadiar» pelos pontos da Angola de feitiços e beleza ímpar que os meus olhos também poderiam exportar para a minha memória de hoje. Foram outros, fizeram eles muito bem.
A imagem retrata três bons companheiros do Quitexe, nas Quedas do Duque de Bragança: o Machado, que furrielava a mecânica do armamento; o Cruz, que veio a ser 2º. sargento miliciano e superentendia nas montagens-rádio; e o Rocha, das transmissões, furriel nascido e residente em Valadares de Gaia.
Os três estiveram no encontro de Águeda - já faz um mês na próxima segunda-feira, faz hoje pelo dia de semana... - e não se deu pelos anos passarem por eles: o Rocha, continua fresquinho que nem alface acabada de cortar na horta; o Machado, sempre a «beduinar» e a explodir opiniões, alto e sonoramente...; o Cruz, de cabelo pintado de branco, mas sempre com a sua risada juvenil e solta.
Quais artroses, quais reumatismos, quais ácidos úricos, qual colesterol ou triglicerídios!!! E se (es)tivesem, lá estaria o sempre atento (furriel) enfermeiro Lopes, para receitar alguma «droga»; ou, na falta dele, o inimitável Buraquinho!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

O companheirismo sempre vivo dos militares do BCAV. 8423

Cavaleiros do Norte em confraternização quitexana, em um dia de 1974. Todos furriéis.
Em cima, da esquerda para a direita, Bento, Rocha, Viegas, Flora, Lopes (enfermeiro, Capitão
e Ribeiro. Em baixo: Carvalho, Belo, Lopes (atirador) e Reina.
A vila do Quitexe era a sede do BCAV. 8423 e onde estava a CCS, que todos os meses, em regime de rotação, era reforçada com pelotões das três companhias operacionais. A razão era militarmente estratégica, mas funcionava como mobilização de afectos, entre soldados, entre furriéis e entre oficiais milicianos.
O batalhão estava distribuído por várias sub-unidades e estar no Quitexe era, de alguma forma, um «prémio» para aqueles nossos companheiros, algo enciumentados, diria eu, pelos nossos «privilégios». Coisa que nós, quitexanos residentes, sempre contestámos.
O Grenha Lopes era dos mais «barulhentos», por essa razão! Muitas discussões se pegaram no bar e messe de sargentos, esbatendo-se argumentos e semeando-se e cultivando-se alguns arrufos, que sempre se amortalhavam nuns copos bem bebidos, em piadas mais ou menos brejeiras, em estórias mais ou menos recamblescas, endeusando-se feitos militares (cada companhia era melhor!...) e substantivando-se lendas que a nossa juventude bem irreverente, irreverentemente cultivava!
O dever de ofício levou-me dezenas de vezes (com o PELREC, claro..) a todas as três companhias e lá era recebido com as infindáveis comparações. «Tás a ver, como estamos aqui?!...». Eu via... e lá matávamos as «diferenças» com mais umas Cucas, umas Nocais, umas N´Golas e, bem mais relevante, abraços de forte solidariedade. Esse companheirismo multiplicou-se em Carmona e continuou até hoje! Sempre que o telefone toca! Sempre que recuamos 34 anos nas nossas vidas!
- CCS do BCAV. 8423. Furriéis Bento, Rocha Viegas e Lopes.
- 3ª. CCAV. do BCAV. 8423. Ribeiro, Flora, Grenha Lopes, Capitão, Belo, Reina e Carvalho.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O mílímetro de patilha que empatilhou as férias do militar do Quitexe...

Quitexe, saída para Carmona. À direita, vê-se a serração e a sanzalaTalambanza.
Ao fundo à esquerda, o posto dos Voluntários. Imponente, ao fundo, a serra do Quitoque



A. CASAL
Texto
Após alguns meses de “guerra” no Quitexe, tinha finalmente chegado a hora das merecidas férias. Luanda, destino inicialmente traçado para o gozo, teve que esperar e apontei como destino o “puto”.
Aperaltado e naturalmente ansioso, esperava a hora de levantar a tão desejada licença. Mais uns retoques acompanhados de alguns pingos de Old Spice (perfume da época) e estava composto o ramalhete!
À minha volta, os amigos carregavam-me de recados para a família! O Alvarito (futebolista do Marinhense), lavado em lágrimas, pedia-me para dar um grande beijo à mãe e um abraço ao pai! «Mas olha que à minha miúda é só um aperto de mão …não te armes lá em parvo c…..!...» dizia-me ele, misturando soluços com sorrisos, tentando disfarçar a angústia da saudade!
Se por um lado lamentavam não estar no meu lugar, por outro estavam visivelmente contentes por saberem que me iria encontrar com os seus!
Feliz da vida, lá fui em passo acelerado para não perder a boleia para Carmona, onde apanharia o avião para Luanda. Chegado à secretaria, esbarrei com um ambiente um tanto pesado! Bom, dizia-se que o capitão após uma noite “a pão e água”, ficava completamente endiabrado!...
Depois de dizer ao que ia, olhou-me bem de frente e disse: «Você nem pense que vai sair daqui com essas patilhas!!!...».
Sabendo eu muito bem quem tinha pela frente, qualquer argumento só iria complicar ainda mais as coisas! Com amargo de boca e carregado de pensamentos e vontades que agora não digo, voltei ao quarto para retirar quase por completo as patilhas! «Filho da mãe, lixei-te!...», pensei eu.
Avenida abaixo e a caminho da secretaria a que chamavam «toca do lobo» (eu sei bem porquê…), vomitei impropérios que me atenuaram um pouco o fervilhar do peito!
Confiei demais! Com ar indiferente, disse-me exactamente as mesmas palavras, tendo o cuidado de as soletrar! Mas ainda não satisfeito, chamou o 1º. sargento para que me medisse as patilhas com uma régua – e ele mediu mesmo!!! Ninguém imagina o ar trocista com que cumpriu a ordem!...Também ninguém imagina o que me passou pela cabeça!...
Pasme-se que a patilha esquerda tinha mais um milímetro que a direita!!! É verdade… um milímetro…disse ele!!! …
Olhei-os com uma certa pena! Se o Exército era o espelho da Nação, então aqueles dois estavam a mais! Até rangi os dentes de raiva!
O capitão tinha finalmente descoberto uma oportunidade de ouro para me azucrinar o juízo, sabendo-me refém daquele papel! Gozando o momento, esfregava-os com a ponta dos dedos enquanto me olhava e abanava a perna! O abanar de perna tinha vários significados e naquele caso queria dizer «ai que se eu pudesse não ias mesmo!...».
Apercebi-me que, do fundo da secretaria, o cabo escriturário articulava a palavra “Matos”! «Espera lá…Matos…é o barbeiro...», decifrei eu! Pedi licença para me retirar e, em passo bem ligeiro, lá fui pedir-lhe que usasse os seus dotes e me alinhasse as patilhas! Disse-me logo que não lhes mexia porque elas estavam rigorosamente iguais e que me apresentasse assim mesmo!
Já com o furriel Antão a olhar para as horas e a bater com as unhas no vidro do relógio, eis-me de novo na secretaria! Mas o homem voltava ao ataque e não desarmava! «Meu Capitão, até foi o barbeiro que me aparou agora as patilhas!… Está a ver?!...», disse eu, já a descontrolar-me um pouco e quase a cair no meu jeito impulsivo! Com o ar mais natural e sereno do mundo respondeu-me: «Ai sim?!... Eu não quero ver nada, mas se foi o Matos que lhe aparou as patilhas… então é porque estão bem aparadas!!!...».
Atónitos, todos (menos o sargento…) ficámos a olhar para ele, não querendo acreditar no que acabaramos de ouvir! Como dizia o anúncio: “Pasta Medicinal Couto - palavras para quê?!...”.
Claro que fui de férias! Mas o achincalho, esse, não o engoli! Não só por mim, mas principalmente pelo filho da minha mãe! No regresso, desprezando ódios e amarguras, entendi, nem que fosse apenas para salvaguardar a minha sanidade mental, saldar as contas que me pareciam (e estavam) desequilibradas! E foram de facto saldadas! E nem eu nem o bom do capitão ficámos a perder… nem a ganhar! Contas de outro rosário!
A.CASAL

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A messe dos furriéis «revoltosos» da CCS dos Cavaleiros do Quitexe

Norberto Morais e A. Lopes, furriéis alentejanos da CCS do BCAV8423, no Quitexe (1974)


A comunidade militar do Quitexe estava dividida por vários edifícios civis, para além do núcleo principal, digamos - onde se localizavam as casernas e a cozinha/refeitório, as oficinas, o parque-auto, as transmissões, a secretaria e o comando.
A foto mostra, repimpados da Silva, os furriéis Morais e o Lopes, de frente para o enfermaria, provavelmente a um qualquer domingo e a matar o tempo, que nunca mas passava até ao nosso regresso. Atrás, na avenida da vila, fica a messe e o bar de sargentos - que era o nosso poiso diário, onde matávamos a fome e degustávamos bebidas que nos amoleciam as saudades da terra e da nossa gente.
Foi palco de muitas histórias, muitas delas apimentadas pelo rubor dos nossos desejos e a falibilidade dos nossos sonhos. Quantas discussões por aqui se tiveram, sobre tudo: a tropa, a guerra, as saudades, o tempo que não andava para a frente, as épicas missões dos militares operacionais (e quantos exageros!...), as mulheres que alguns de nós por cá deixaram a moerem-se d´amores, as mulheres de lá... - que olhávamo de longe, disfarçando desejos!
Um dia, nesta messe que nos matou fomes e foi palco de muitos exageros gastronómicos e alcoólicos, a maioria dos furriéis tomou uma decisão radical: - não comer à mesa com os sargentos e companheiros «feitos» com eles. Soube-se nesse dia como nem sempre a solidariedade é vã. Como, afirmadamente, todos podemos optar e confrontar. Discutir razões e assumir atitudes. Qe o diga o Machado, líder da revolta - que não foi rebelião, mas impôs razões. Não foi, ó grande «beduíno!»... Também assim se levedou o espírito que fez do BCAV. 8423 um exemplo pelo que foi e fez em terras do Uíge!
- MORAIS. Norberto António Ribeirinho Carita de Morais, furriel miliciano mecânico-auto. Natural de Niza, engenheiro e quadro superior da Estação Macional de Plantas, em Elvas, onde reside.
- LOPES. António Maria Verdelho da Silva Lopes, furriel miliciano enfermeiro, natural e residente em Vendas Novas - onde é tesoureiro de Finanças.
- MACHADO. Manuel Afonso Machado, furriel mecânico de armamento. Natural de Covelo do Gerez (Montalegre) e residente em Braga, onde é quadro superior de EDP. Popularizou o epíteto Beduíno, que invariavelmente chamava a quem se portasse menos bem de normas. Chamar Beduíno a alguém, a alguma altura, passou a ser termo carinhoso - como no Encontro de Águeda vincadamente se confirmou.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O furriel «travestido» que foi ao cinema ver «Eusébio»

Plantação de café nas traseiras da Casa dos Furriéis (em cima) e furriéis
Miguel (páraquedista), Viegas /travestido) e Neto (em baixo).



O mês de Outubro de 1974, que era para ser tranquilo da silva, afinal encheu-se de peripécias. E nem sempre as melhores. Desde logo porque a tal ideia do cessar fogo, afinal redundava em constantes «macas», nomeadamente nas fazendas - onde os bailundos, contratados no sul de Angola para os enormes cafezais da zona, eram ameaçados: ou abandonavam as fazendas, ou eram mortos. E não eram ameaçados por nós!
O objectivo parecia claro: agir coercivamente e destruir a economia regional, criar instabilidade, provocar o êxodo dos fazendeiros ou, na sua ausência, a do pessoal dirigente. Os brancos começaram realmente a abandoná-las, não fosse o diabo tecê-las..., não se cuidava já das tarefas agrícolas e a produção de café estava em risco.
Por isso, ou porque alguns nativos se aproveitam dessa instabilidade para ajustar contas de alguns abusos; ou porque o chamado IN estava infiltrados nas aldeias (como toda a gente sabia...) e instabilizava a situação, a verdade é que se multiplicavam pequenos conflitos e éramos repetidamente chamados a intervir nas fazendas e roças. Até nas aldeias... Numa dessa saídas, lamentavelmente, tivemos de deter o encarregado de uma fazenda - que, provadamente, roubava os trabalhadores na distribuição da alimentação. Gerou-se escaramuça tal, que ele pediu auxílio à administração civil e calhou-nos na rifa ir lá. Não foi fácil controlar o turbilhão de gente amotinada no eirado do café.
Outubro de 1974 foi o mês em que, travestido, fui ao cinema do Quitexe ver o filme «Eusébio» e um companheiro de armas, sem desconfiar que era eu, começou a medrar de entusiasmo e, começando pelo joelho esquerdo, me quis sentir o cheiro das carnes mais púdicas. Tive de «fugir« para o quarto - onde me procurou, danado da vida, o bom do tenente Mora, que me vira a correr para lá e supondo que lá entrara uma mulher. Tive de ter tempo de tirar a roupa, foram uns segundinhos..., vestir uns calções e abrir a porta. O tenente Mora,e em passo rápido, encontrou, vasculhou mas não encontrou mulher nenhuma, como é óbvio, nem dentro dos armários nem debaixo das camas. «Como é que ela saiu, se a janela está com a rede mosquiteira?», interrogava-me ele, espantado, irritado, quase colérico.

Que não, dizia eu, «o meu tenente enganou-se, não entrou aqui nenhuma mulher». Nunca ele soube, que eu saiba, o que realmente se passou.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O fazendeiro que negou água aos soldados do PELREC

Mapa da região de Quitexe, desenhado por João Nogueira
Garcia. Clicar na imagem, para a ampliar e ver melhor



Nomes de localidades e fazendas há que, sendo embora da área militar do Quitexe, já nos passaram da memória. Ora porque já lá vão 34 anos, o que é tempo de muito desgaste, ora porque outros nos marcaram mais fortemente.
João Garcia, que tem berças do Quitexe - onde nasceu em 1957, filho de família de fazendeiros e comerciantes e baptismo de padres italianos, e por lá viveu até ao 15 de Março de 1961 - teve a gentileza de me oferecer um livro do pai: "Angola 61 - Quitexe, uma tragédia anunciada». E nele, ao lê-lo, recordo viagens e patrulhas, pontos de partida e chegada de operações. E lá está o Dambi Angola, sanzala que a nossa memória pessoal de alguma maneira mitifica, como se de lenda se tratasse, pelas razões que já aqui foram relatadas (VER AQUI).
Uma fazenda que me passava de memória (e não a cito, por eventual lesão de interesses...) tem a ver com uma inóspita e desajustada recepção do proprietário - que recusou água aos soldados e ofereceu wisky a furriéis. O que ele fez!!! Recusámos nós a oferenda escocesa, em tom que não lhe deve ter deixado dúvidas e cara de poucos amigos, e fechámos os olhos aos patos e um porco que os «pelrec´s» fizeram «voar» para a caixa da berliet. O homem teria as razões dele, não sei quais..., mas recusar água aos soldados isso é que não! Soldados, aliás, que nesse e outros dias, para o proteger e ir fazer vendas e compras a Carmona, faziam mais de 300 quilómetros pelas picadas onde comiam o pó vermelho e afugentavam medos dos perigos que os (nos) espreitavam.
O Neto «perdeu-se» da cabeça, alterou-se, vociferou e, por vontade dele, esganava-se o homem ali mesmo; e valha a verdade que ele não merecia outra coisa! A mim, revoltado, apetecia-me enfiar-lhe a G3 por um certo sítio acima. Mas, sem violências físicas, por essa vez... não o dispensámos, mesmo assim, de um bom vernáculo português, a tratar a mãe e a mulher (se a tinha...) como nos apeteceu, amolecendo a nossa ira.
O caso chegou ao comando, com queixa do fazendeiro sobre nós, mas foi severo e rigoroso o tenente-coronel Almeida e Brito, informado do quadro da situação. Não o insultou, não o ameaçou, mas falou-lhe alto e bom som, lendo-se-lhe nos olhos a vontade de o maltratar ou espatifar a cara, quando, em vez disso, o convidou a sair do gabinete.
Negar água aos soldados, essa é que não! Filho da mãe!
- GARCIA. João Luís Matos Garcia, nascido no Quitexe e filho de João Nogueira Garcia, autor do livro «Angola 61 / Quitexe, uma tragédia anunciada - O Velho Cazenza e Outras Histórias», edição do autor, 2001. O mapa (manual) foi de lá retirado.

domingo, 4 de outubro de 2009

O Outubro de 1974, pilhagens, medos, cinema e futebol

Uma equipa de futebol da CCS do BCAV. 8423. Em cima, da esquerda para a
direita: Grácio, Gomes, Miguel (escriturário), Botelho, Miguel (paraquedista), ?? e Soares. Em
baixo: Miguel (?, condutor), Mosteias, Lopes, ??, Monteiro (furriel) e Teixeira (estofador).
Quem se lembra dos nomes dos não identificados? Clicar na foto para a ampliar
O Quitexe, rua principal (estrada Carmona-Luanda). A Casa Gaspar, à direita

O Quitexe de Outubro de 1974, para quem chegava de férias de um mês, a laurear o queijo pela enorme Angola que a todos apaixona, parecia uma vila tranquila. Até, demais! Corriam boatos sobe o próximo cessar fogo oficial e, cá para nós que ninguém nos ouve, era isso mesmo que todos queríamos.
O Clube do Quitexe era espaço de projecção de filmes e local onde a tropa punha olho nas moçoilas mais bonitas que por lá iam passear-se ao fim de semana - ora vindas das fazendas, ou de Carmona, onde estudavam ou trabalhavam. A tropa jogava futebol, inter-pelotões e sub-unidades e com grupos de civis. O campo da vila foi cenário de disputadíssimos encontros de bola - aos quais não faltavam alguns slogans de «guerra» e algumas canelas a sangrar.
A realidade era ligeiramente diferente e a praxe pôs-me de serviço mal cheguei, de sargento-dia, quando houve uma escaramuça nocturna, que envolveu alguns tiros e perseguições. Dois civis foram parar ao Posto 5 e de lá entregues à administração civil.
Os patrulhamentos intensificaram-se, nomeadamente para garantir a liberdade de tráfego entre o Quitexe e Aldeia Viçosa - onde se registavam pilhagens a viaturas civis. E havia problemas nas fazendas, onde o exôdo dos trabalhadores do sul, em consequência da agitação provocada pelos movimentos emancipalistas, punha em perigo as colheitas que se preparavam para Janeiro. Temia-se o pior, no plano económico.
Por essa altura, e por várias vezes, realizaram-se reuniões da Comissão Local de Contra-Subversão. As forças armadas intensificaram os patrulhamentos e as «visitas» a fazendas, procurando criar condições de segurança. Não foi um mês fácil, o de Outubro de 1974.

sábado, 3 de outubro de 2009

O 1º. cabo Tomás e o homem que roubou comida...

Rodolfo Tomás, 24 anos e 4 dias depois de chegarmos de Angola, no
Encontro de Águeda, com a esposa, a 12 de Setembro de 2009
O Tomás tem sido um dos animadores deste blogue, comentando com o propósito de quem tem memórias e companheirismo vivo. Dele me lembro bem, pela terras do Quitexe e de uma cena breve, no BC12, nos amargos e trágicos primeiros dias de Junho de 1975. A 3 ou 4.
Uma história curta: um dos refugiados na parada roubou comida a uma senhora, sabe-se lá porque fomes. Eu tinha chegado ao aquartelamento, com o PELREC - para uma breve refeição quente, pois estávamos estourados e esfomeados, depois de 49 ou 72 horas de muita tensão. Comemos juntos, no refeitório, e eu vim à parada ver o que se passava com aquele mar de gente, de mãos a abanar e estômagos vazios, que ali se refugiava. Muitos deles, centenas..., nós mesmos tínhamos levado da cidade.
Ao ver o homem a roubar a comida, pus-lhe a mão e houve um breve momento de tensão, que podia dar em tudo, menos em coisa pacífica. Aí, apareceu o Tomás - que por qualquer razão conhecia o sujeito.
«Meu furriel?!...», exclamou. E olhou-me com ar grave, a apertar os lábios, como que a pedir compreensão para o homem. Compreender, eu compreendia, mas muito imperativo (ainda hoje não perdi esse feitiozinho...), respondi-lhe de modos menos simpáticos. E fiz o que devia, para que a comida fosse devolvida. O homem que esperasse pela sua vez, a senhora tinha várias crianças ao lado dela e, por mim, eram prioridade absoluta.
Interveio o Tomás: «Posso arranjar-lhe comida?!...». Penso que distribuiu parte do almoço dele com o homem e eu e o PELREC voltámos à cidade, onde nos esperavam o cheiro da pólvora, os silvos das rajadas, o rebentamento de granadas, morteiros e obuses, os mil perigos de uma guerra urbana e muitas mortes entre combatentes da FNLA e MPLA. Algumas vi eu, ao vivo!
- TOMÁS. Rodolfo Hernâni Tavares Tomás, 1º. cabo rádio-montador. Residente em Lousada.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A ida ao cinema e o furriel que casou com a filha do madeireiro do Quitexe

Igreja do Quitexe e xitaca atrás da Casa dos Furriéis e secretaria da CCS
do BCAV. 8423. Foto de João Cláudio.
ANTÓNIO CAPELA
Refletindo sobre o que se passou dia 12 de Setembro, no Encontro de Águeda dos Cavaleiros do Norte, isso leva-nos a recordar, recordar, recordar... momentos alegres e tranquilos, assim como momentos difíceis.
Vamos aos momentos alegres.
Recordo as noites de bom bate-papo no café do Topete, até boas horas da noite. O grupo era formado pelo Guedes, o Carmo, algumas vezes o Topete, porque tinha que servir os copos na café e... etc., etc., porque já não me lembro de outros. Era um grupo muito unido. Ah!, estava também um furriel, que depois veio a casar com a filha de um madeireiro do Quitexe.
O Guedes e o Topete que já moram longe de nós, o Carmo está a braços com uma doença que o limita bastante. Nestas ocasiões, era eu que "descia ao povoado", ao passo que quando era com os militares estes que subiam a montanha - iam à missão. Mais uma vez, muito obrigado pela companhia que me fizeram.
Recordo-me de um dia termos ido ao cinema a Carmona (Uíge). Nesse dia, estava muito cansado, mas queria ir ao cinema. Fomos no meu carro - eu e mais três alferes ou furriéis, uma Renault 4L (que bom carro e económico...). Mal entrámos na sala de cinema, sentei-me e ... não vi mais filme nenhum. Dormi, e dormi de tal maneira que não me lembro nada do filme. No fim da sessão, fomos todos beber qualquer coisa. Eu já estava desperto e bem desperto. Chegámos noite dentro, ao Quitexe.
- CAPELA. António Albino Vieira Martins Capela, padre católica e pároco do Quitexe. Actualmente, é professor e reside em Arcozelo (Barcelos).
- IGREJA: Foto de João Cláudio, (ex)furriel enfermeiro da CCS do BCAV 1917.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

A madrugada de 1 de Junho de 1975 e a evacuação de Margarida e Ricardo

Chegada dos primeiros refugiados de Carmona à parada do BC12, na manhã de 1 de Junho de 1975


A. SOUSA CRUZ*

O dia 12 de Setembro de 2009, na Pateira de Fermentelos, foi um dia de muitas recordações e emoções fortes. Quando o Buraquinho falou na madrugada de 1 de Junho de 1975 e comecei a recordar esses tempos, perdi o controle. Valeu-me minha esposa Margarida, que me trouxe à realidade.
Disse na altura que gostava imenso de me recordar dos bravos companheiros que se prontificaram a ir à cidade num Unimog 404, buscar a Margarida e o Ricardo. Um já descobri, o Pais! Naquele dia 12 de Setembro! E os outros? Quem foi deles que, quando ao passar pelas escolas ou liceu de Carmona, ao sermos alvejados, se virou para mim e disse: «É dali que estão a atirar... eu vou acertar naqueles filhos da ...».
«Não atiramos, pois a guerra não era connosco«, disse eu.
Mantivemo-nos quietos, atrás do Unimog, uns 3 ou 4 minutos, que foram uma eternidade! E não havendo mais tiros, subimos novamente para o Unimog e arrancámos a toda a velocidade. Já próximos de casa ainda vimos um telhado a ir pelos ares. No regresso, ao passarmos pelo mesmo local, eu com o Ricardo ao colo, ao lado do condutor, e a Margarida debaixo do banco dos três ou quatro soldados e companheiros que nos acompanhavam, devíamos ter passado com tanto pressa que os que nos alvejaram devem ter pensado: «Os branco és é loucos!...».
Hoje, mais de 34 anos depois, temos a consciência de que se tivessemos respondido aos tiros a história daqueles dias seria outra.

- * CRUZ. António Albano Araújo de Sousa Cruz, alferes miliciano mecânico. É engenheiro mecânico, natural e residente em Palmeiró (Santo Tirso).
- MARGARIDA E RICARDO. Esposa e filho (bebé) do (então) alferes Cruz.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O discreto Grácio que vendia bebidas no depósito de géneros...

O Moreira e o Grácio, com a esposa, no Encontro de Águeda.
Clicar na foto, para a ampliar

Aqui está o Grácio, glorioso sapador de infantaria, que de Leiria - de uma terra chamada Amor, vejam lá!... - vou para o Quitexe, para uma missão que lhe estenderam ao depósito de géneros. Era lá que ele, sempre bonacheirão, cumpridor e sempre disponível, «aviava» as bebidas que o RDM permitia à tropa e a «gulodice» de outras patentes, mais altas, ia deixando passar.
O Grácio era boa gente! E é! Ainda agora, pelo telefone, me lembrou alguns exageros da malta furrielística, avidamente sedenta de mais avios e de alguns abusos. Se estes fossem possíveis! «Era eu que vos fornecia as bebidas...», lembrou-me o Grácio, como se eu não soubesse e adivinhando-lhe um sorriso do outro lado do telefone! E lá esteve ele, sempre discreto e presente, no Encontro de Águeda, acompanhado da sua (dele) «mais que tudo!», não sei se namorada daquele tempo!
A uma qualquer altura, cumprindo ordens - como bom militar que era... - negou vender bebidas à furrielada. Não podia, tinha ordens! Aqui d´el-rei, que «não podia ser...», gritava-lhe o Machado. «Veja lá no que se mete...», avisava-o o Neto. «Ainda levas uma porrada...», azucrinava-lhe o Mosteias - que era furriel sapador, a disfarçar o riso. Até o Pires (o do Montijo), também furriel sapador, meteu colherada na querela: «Ainda te f..., ó Grácio!».
O Grácio, e muito bem, manteve a ordem recebida - ordens são ordens... - e foram os furriéis em demanda dos mais patenteados, que lá libertaram a ordem de venda. Francamente, não tenho a certeza se uma velhíssima Monks, em garrafa de cerâmica e que ainda tenho ali no bar, não foi uma das que, nessa altura foram vendidas pelo Grácio no depósito de géneros e saíram dessa «escala negocial» de outras patentes! O certo, certíssimo, é que o Grácio, o discreto Grácio, o disciplinado sapador Grácio, não foi em cantigas e, sem hesitar, cumpriu o seu dever de honra. Assim eram os bons militares e se formam os homens grandes!
- GRÁCIO: Fernando Martinho Grácio, 1º. cabo sapador. Natural e residente em Amor (Leiria).

terça-feira, 29 de setembro de 2009

A rapaziada da enfermaria militar do Quitexe...

Alfredo Coelho, Neves e Moreira, companheiros da
enfermaria militar do Quitexe. Clicar para ampliar a foto
O Encontro de Águeda foi de saudades, muitas saudades - e quantas por lá se mataram, entre abraços e recordações já trintonas!!! - e de lembranças fotográficas. Que bem sabe, recordar quando a nossa juventude andava grávida de sonhos e nada era obstáculo para que galgássemos os caminhos da nossa vida! Aqui estão, na zona da piscina da Estalagem da Pateira, o inimitável Buraquinho, o tranquilo Neves e o bem-disposto Moreira, que pelo Quitexe montaram «banca» na enfermaria e por lá ajudaram a sarar moléstias africanas e a esquecer dores físicas. E foram companheiros da grande jornada solidária que os Cavaleiros do Quitexe tão bem souberam exercer, entre os espinhos da missão militar.
Aqui, na zona da piscina, mostram e olham fotos de há 34 e 35 anos, quando semeavam sonhos e colhiam saudades, riscando os dias no calendário, «até ao nosso regresso!...». Menos um, menos um, já só faltam tantos... E olham também os menores volumes da barriga, o cinto que tinha menos furos, o cabelo que era mais vasto!!! Olham a Angola de 1974 e 1975!!!
- BURAQUINHO. Alfredor Rodrigo Ferreira Coelho, 1º. cabo de análise e depuração de águas. Empresário do sector de restauração, natural e residente em Custóias (Matosinhos).
- NEVES. Albertino Ferreira das Neves, soldado maqueiro, residente em S. Cosme (Gondomar).
- MOREIRA. Joaquim Ribeiro Moreira, soldado maqueiro, de Rãs (Penafiel).

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O furriel Lopes, enfermeiro de corpos e de almas...

O clã do furriel enfermeiro Lopes (à direita) no Encontro da Pateira de
Fermentelos. Clicar na foto, para a ampliar


O Lopes era enfermeiro, furriel enfermeiro de corpos e de almas. Andasse por ali alguém com a neura, a morrer de saudades, estressado (como agora se diria...) e logo apareceria o Lopes, a «nadar» no mar da sua permanente tranquilidade, com uma palavra de alento e ajuda e uma «injecção» de calma - ora não fosse ele alentejano.
O Lopes «passeava-se» pelo Quitexe quase sempre de farda nº. 2, sempre impecável, sempre bem vincada e sem catingas a entranhar-lhe os cheiros, pendurado no cigarro que lhe adormecia o vício, sempre ao fim de mais um dia de enfermaria. Aqui, na enfermaria, era onde zelava, muito cioso e sem uma falha, pela saúde dos cavaleiros que lá se lhe iam queixar de paludismos e moscas tsé-tsé, ou de alguma ressaca de um qualquer abuso gastronómico que metesse cucas, nocais ou n´golas a mais. Ou cachaça de cana, brandy Vital ou algum wisky bebericado nos abusos das noitadas das casernas.
O Lopes, sempre paciente como Jó e diligente, todos atendia com um sorriso quase adolescente, passando algodões e mercúrios pelas feridas do corpo e as ansiedades da alma dos quitexanos da CCS do BCAV. 8423. Ou então, sem tremuras, espetando a agulha de algum anestesiante das dores físicas.
Era (é!!!...) um tipo fixe, daqueles que apetece gravar de vez na memória - para cuidarmos não esquecer da gente boa da nossa vida. Nunca se lhe ouviu uma explosão de nervos ou inquietudes. Tudo e todos olhava e media com calma que às vezes enervava! Bom tipo, pá!!! Bom tipo este Lopes que é Cavaleiro do Quitexe e a quem, por maldade, por vezes chamávamos Seringas! Nunca aquela boa alma se aborreceu com a graça! Nunca por isso perdeu o sorriso adolescente com que excomungava as nossas almas e desarmava as nossas irreverências!
- LOPES. António Maria Verdelho da Silva Lopes,
furriel enfermeiro. Natural e residente em Vendas Novas,
cidade onde é tesoureiro das Finanças.

domingo, 27 de setembro de 2009

O Dias vagomestre e o filme perdido do aeroporto de Lisboa

Dias (furriel), Serra condutor e Silva rádio-montador, Cavaleiros do Quitexe
no Encontro de Águeda (foto António B. Reis - 933 330 333)

Olhem aqui o furriel de alimentação, o vagomestre - o Dias, sorridente e feliz, na sua gravata vermelha e a lembrar-se, certamente, das contas e cifrões que lhe deram cabo da cabeça no Quitexe, onde fazia ementas que tinham de evitar algum levantamento de rancho.
Um dia, de «castigo», o bom do comandante da CCS pôs-me de fiscal à cozinha dos praças. Eu não era lá muito querido dele e como grassava algum descontentamento entre a malta, por causa da qualidade do «rancho, ora aí estava uma boa ocasião para me «pegar»: a tropa levantava problemas e eu tinha de responder por eles. Não respondia, oru respondia menos bem..., e, pumba, RDM em cima de mim. Ainda hoje julgo que foi para isso que o capitão me pôs em tais funções! Para as quais, de resto, não tinha a menor habilitação.
Assumindo o lugar e por dever de lealdade e camaradagem, falei com o Dias, por causa das «moscas», ou das bocas que sempre se ouviram na tropa, sobre essas questões do rancho geral: «Eh pá, vê lá como é isso...», comentei com ele. «O capitão está a querer trilhar-me, vê lá se tens por aí algum rabo de palha...».
Que não me preocupasse, disse-me o Dias, com aquela tranquilidade bonacheirona que o caracterizava, a tranquilidade dos deuses: «Isto é feito aqui como mandam as regras!...».
Também era essa a minha convição, se haveria marosca seria entre as ementas que ele zelosa e cuidadosamente preparava e os géneros que chegavam à cozinha, pelo que toca a mandar... cozinhar. Abreviando a história, o meu cargo de fiscal não durou muitos dias pois, ao máximo que pude, não abdiquei do tal RDM com que sempre éramos ameaçados pelo capitão e este, por via das dúvidas - e muitas havia!!!... - e porque o meu zelo o preocupou (julgo eu), exonerou-me do dispensável e desconfortável cargo.
Mas vem aqui o Dias, não só para falar do seu rigor e competência no delicado lugar que exercia, mas também para fazer memória da cultura que semeava com o seu falar tranquilo, ou mesmo quando gargalhava nalgum momento mais divertido, nas intermináveis sabatinas do bar de sargentos. Bom companheiro, tenho para ele a dívida de perder o filme da nossa chegada ao aeroporto de Lisboa, a 8 de Setembro de 1975. Desapareceu, pelas obras aqui de casa. Foi um desgosto para mim. E muito mais para ele! Nunca me desculparei!
Um grande abraço, Dias!
- DIAS. Francisco José Brogeira Dias, furriel miliciano de alimentação. Bancário, é natural e residente no Porto.
- SERRA. Delfim de Sousa Serra, soldado condutor, de Gondomar.
- SILVA. António Jesus Pereira da Silva, soldado rádio-montador. Natural e residente em Vila Nova de Gaia.

sábado, 26 de setembro de 2009

O barbeiro às rajadas e os condutores sem medos..

Aurélio (o Barbeiro) e os condutores Vicente, Gomes e Serra. Mais atrás, reconhecem-se,
da esquerda para a direita, o Machado (de gravata), o Madaleno, o Ribeiro (de costas, de verde),
o Calçada (barbas) e o Viegas (atrás do Serra). Clicar na foto para a ampliar.

O Aurélio, aqui do lado esquerdo, era atirador de cavalaria mas «atirava-se» também aos cabelos da malta, como gato a marmelada: aparava, cortava, mondava a penugem das orelhas e, de repente, era uma rajada de pente e tesoura. Modo semântico de dizer, uma carecada!... Era o barbeiro da CCS e bom praça, sempre de gargalhada na ponta da beiça!

O Vicente, o Gomes e o Serra eram condutores e não falhavam uma curva, com o volante dos «burros de mato» na mão. Ou berliet que fosse!! Cada curva, convém lembrar, era um perigo a espreitar e os condutores-auto um alvo fácil de abater. Louve-se a coragem de todos eles, estes aqui na foto e todos os outros.

Falei de curvas, mas posso lembrar as rectas e as picadas turtuosas e poeirentas, os lamaçais e buracos que atrasavam a marcha de qualquer coluna, os pisos por onde não passou Cristo e amarguravam as angústias dos militares, as subidas íngremes de troços onde à pedrada podíamos ser emboscados e mortos, os percursos de meter medo a Deus e ao diabo! Foi toda a gente gente brava e sem medos!

Nem uma vez alguém hesitou a arrancar da parada do quartel, quantas vezes comendo o pó das madrugadas e o frio que cacimbava as nossas saídas para escoltas, patrulhamentos ou operações. A arma era o volante e não tinham granada no cinturão com que se pudessem defender. Missões arriscadas, as dos condutores! Gente de coragem!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Cavaleiros quitexanos no Encontro de Águeda

Neto, Mosteias e Morais, cavaleiros (furriéis) do Quitexe, no Encontro de Águeda


Cheguei eu à Estalagem da Pateira, que em linha recta não está a mais de dois quilómetros de minha casa, bem dentro da hora... - uma meia hora mais cedo e sossegadinho da silva... - e dou lá já com vários cavaleiros, em cavaqueira divertida, aos tiros nas saudades!!
«Nã teeeens vergôôônha?...», recalcitrou-se, a rir de boca rasgada de gozo pela boca que me «insultou», o bom do Morais, furriel mecânico-auto, por quem e por tudo, o mundo seria sempre melhor. E, na verdade, era de corar de vergonha... eu ali a morar de lado, a um pulinho, e o Morais que madrugara bem cedo, arrancando de Elvas às 6,30 horas da manhã, já ali estava, depois de «cavalgar» quilómetros atrás de quilómetros!
E o Mosteias a rir-se de gozo..., ele que não «cavalgara» muito menos, saído lá para as oito, desde Vila Nova de Santo André e de uma directa do trabalho para a felicidade de fazer o «enterro» às saudades que nos separaram anos.
Estavam mais alguns, mas eu nem os vi. Quero dizer, vi e abracei, mas a empatia estava mais virada para alguns dos que mais íntimos foram nas terras do Quitexe! Eu, quando os vi, carregava o equipamento para retrospectar o power point e quase o larguei no chão, empurrando o Pires (o de Bragança) e quase tropeçando nas escadas. E vi o Rocha!!
«Olhó Rocha, ó Pires...», gritei eu, já transpirado das primeiras emoções e depois parado a contemplar aqueles dois furriéis das transmissões, ali agarrados como namorados saudosos.
Foram estes os primeiros momentos do Encontro de Águeda. Que se sucederam, sucederam, sucederam... de cada vez que chegava mais um Cavaleiro que andou de armas pelo Quitexe e Carmona!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O Tenente Luz da Secretaria do Comando do Quitexe


O capitão Luz e esposa, no Encontro dos Cavaleiros do Norte, os do Quitexe. Em cima, a
fatiar o bolo do Encontro de Águeda. Clicar nas fotos, para as ampliar

O tenente Luz, agora capitão, é, do alto dos seus lonvejos 80 anos, o menos jovem de nós. Pelo bilhete de identidade, bem entendido. Quanto ao resto... - juventude, boa disposição, alegria, serenidade, companheirismo, saber-estar... por aí adiante!... - é tão ou mais novo que nós, rapazes agora quase sexagenários!
Era o responsável pela secretaria do comando do Batalhão de Cavalaria 8423 e dele não se conhece alguém que lhe aponte um dedo. Todos gostavam do tenente Luz. Todos!!! O que, em ambiente militar e nos turbulentos tempos revolucionários de 1974 e 1975, é um milagre!

O tenente Luz falou no Encontro de Águeda: de palavras serenas, pausadas, em oratória simples e forte. Lembrou as suas emoções pessoais: era a sua terceira comissão e foi a última. «Foi o batalhão de que mais gostei, sei lá... Era um grande grupo, de muita camaradagem e grande solidariedade», disse o tenente Luz, que agora é capitão.
Lembrou nomes que nos são queridos: o comandante Almeida e Brito, que a morte levou a 20 de Junho de 2003; o alferes Garcia! Falou dos caminhos de disciplina e camaradagem que se viveram no batalhão e que hoje, quase sexagenários, todos nós reconhecemos que foram o nosso escudo invisível, protector e anjo da guarda dos momentos mais dramáticos.
O capitão Luz era o mais graduado de todos nós no Encontro de Águeda. E sabemos que é o oficial vivo de mais alta patente daquele que foi o BCAV. 8423! Eu, querendo ser simpático, bati-lhe continência: «O sr. capitão Luz dá-me licença que convide a senhora sua esposa, hoje a nossa primeira dama, para fatir o bolo da festa?!..».
O capitão Luz sorriu-se, pegou no braço da mulher da sua vida e acompanhou-a à mesa do bolo dos Cavaleiros do Norte, os do Quitexe, que se encontraram em Águeda. Eu acho que foi um momento bonito, cheio de afecto, emotivo!!! As palmas do povo cavaleiro e das amazonas que o acompanhavam, sublinharam esse instante quase romanesco!
- LUZ. Acácio Carreira da Luz, tenente do QSGE, chefe da secretaria do Comando do BCAV. 8423, no Quitexe. É capitão e reside na Marinha Grande.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O 1º. cabo Pais que agora é o Toné de Viseu

António Pais, C. Viegas e Emanuel Santos, num restaurante do Quitexe, em 1974

Pais, o rádio-montador do Quitexe, com a mulher, no Encontro de Águeda, em 2009

O Pais era 1º. cabo rádio-montador, originário de Viseu e senhor da sua boa e grande graça. Por ser de uma aldeia chamada Travassós de Cima e aqui ao lado da minha haver uma outra chamada Travassô, se calhar por isso..., sempre nos sentimos próximos e cúmplices.
A malta era toda nova e dada, acamaradava por tudo e por nada, em ambiente que é sempre bom recordar. E com saudade! Nomeadamente para umas idas aos bares da vila, para umas cervejas amariscadas (saboreava-se por lá bom camarão..) ou para alguma janta, que invariavelmente metia um bom bife com ovo a cavalo e cerveja bem fresquinha - às vezes vinho, este muito excepcionalmente (que ficava pesado à carteira...).
Não vem aqui o Pais por isso. Ou sequer pelas lisonjas que soprou para cima de mim, e repetiu, no Encontro de Águeda. Mas principalmente por aquele coração enorme que se abriu, quase chorou e se soltou de emoção quando falou da evacuação da família do alferes Cruz (ver AQUI) e foi também memória das coisas bonitas que todos vivemos por Quitexe e Carmona. Sempre em ambiente de grande camaradagem e cumplicidade, mesmo com afecto, como quem guarda no regaço as melhores coisas que tem! Sempre com responsabilidade e, deixem-me dizer, também com estoicismo e bravura.
Recordo aqui as palavras molhadas de emoção, e persistentes, do Pais, no Encontro de Águeda: «Fomos sempre amigos de todos, camaradas, companheiros e amigos!...». Fomos, sim senhor, ó Toné, que «em Viseu toda a gente sabe quem é...».
- PAIS: António Correia Lourenço Pais, 1º. cabo rádio-montador, nº. 16347773natural e residente em Travassós de Cima (Viseu). É empresário do sector eléctrico e popularmente conhecido por Toné.
- SANTOS. Emanuel Miranda dos Santos, 1º. cabo escriturário, natural da Gafanha (Ílhavo) e residente nos Estados Unidos.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Deram-me sardinha assada e arroz branco...

Albino Capela e senhora, no Encontro de Águeda (2009)

Albino Capela missionou pelo Quitexe e outras terras do Uíge, em apostolado que não tinha a ver com tropa. Mas foi um dos nossos. A missão católica, ali mesmo ao lado da capela, foi palco de muitas sabatinas - sem preconceitos e limitações, lá se falando de cultura, de fé, de desporto e de política, de tropa até e dos diversos sonhos que entusiasmavam jovens da nossa idade.
«Sempre tive as portas abertas a todos, sem constrangimentos, era amigo dos militares e os militares eram meus amigos...», lembrou ele no Encontro de Águeda, depois de falar da nossa gente e da gente nativa, que ele ensinava nos caminhos da fé, com o entusiasmo jovem de quem se dá em partilha com os outros.
Albino Capela era o padre do Quitexe, onde ficou quando de lá saímos, em Fevereiro de 1975. Juntou-se-nos em Carmona, quando os incidentes da vila quitexana precipitaram a insegurança e a fuga. E, depois, não quis integrar a coluna militar que deixou Carmona para Luanda. «Tenho de fixar com a minha gente...», disse ele ao comandante Almeida e Brito, que insistia no seu (dele) abandono da cidade, integrando-se na (que seria) epopeica coluna militar para Luanda. Que tinha mais de 700 viaturas! E ficou.
No Encontro de Águeda, lembrou as 4,30 horas da manhã de 4 de Agosto de 1975: «Fui ver-vos partir...». Assim disse e parou as palavras, como que engolindo um ai de dor e amargura. Uma semana depois, em Agosto de 1975 e apressadamente, teve de ganhar boleia num avião para Luanda, para sair do inferno de Carmona.
Albino Capela, no altar das suas emoções do Encontro de Águeda, lembrou, de emoção puxada à voz e palavras pausadas, a fome que lhe matou o BCAV. 8423, quando fugiu do Quitexe e chegou a Carmona, com a irmã e outra gente: «Deram-nos sardinha assada e arroz branco! Nunca mais vou esquecer!...».
Adivinhava-se um ápice compulsivo no falar de Albino Capela, se calhar com alguma lágrima a escorrer-lhe a face. «Nunca mais vou esquecer, deram-nos sardinha assada com arroz branco!...».
- CAPELA. António Albino Vieira Martins Capela, sacerdote católico e padre do Quitexe. Actualmente, é professor e reside em Barcelos.