domingo, 4 de outubro de 2009

O Outubro de 1974, pilhagens, medos, cinema e futebol

Uma equipa de futebol da CCS do BCAV. 8423. Em cima, da esquerda para a
direita: Grácio, Gomes, Miguel (escriturário), Botelho, Miguel (paraquedista), ?? e Soares. Em
baixo: Miguel (?, condutor), Mosteias, Lopes, ??, Monteiro (furriel) e Teixeira (estofador).
Quem se lembra dos nomes dos não identificados? Clicar na foto para a ampliar
O Quitexe, rua principal (estrada Carmona-Luanda). A Casa Gaspar, à direita

O Quitexe de Outubro de 1974, para quem chegava de férias de um mês, a laurear o queijo pela enorme Angola que a todos apaixona, parecia uma vila tranquila. Até, demais! Corriam boatos sobe o próximo cessar fogo oficial e, cá para nós que ninguém nos ouve, era isso mesmo que todos queríamos.
O Clube do Quitexe era espaço de projecção de filmes e local onde a tropa punha olho nas moçoilas mais bonitas que por lá iam passear-se ao fim de semana - ora vindas das fazendas, ou de Carmona, onde estudavam ou trabalhavam. A tropa jogava futebol, inter-pelotões e sub-unidades e com grupos de civis. O campo da vila foi cenário de disputadíssimos encontros de bola - aos quais não faltavam alguns slogans de «guerra» e algumas canelas a sangrar.
A realidade era ligeiramente diferente e a praxe pôs-me de serviço mal cheguei, de sargento-dia, quando houve uma escaramuça nocturna, que envolveu alguns tiros e perseguições. Dois civis foram parar ao Posto 5 e de lá entregues à administração civil.
Os patrulhamentos intensificaram-se, nomeadamente para garantir a liberdade de tráfego entre o Quitexe e Aldeia Viçosa - onde se registavam pilhagens a viaturas civis. E havia problemas nas fazendas, onde o exôdo dos trabalhadores do sul, em consequência da agitação provocada pelos movimentos emancipalistas, punha em perigo as colheitas que se preparavam para Janeiro. Temia-se o pior, no plano económico.
Por essa altura, e por várias vezes, realizaram-se reuniões da Comissão Local de Contra-Subversão. As forças armadas intensificaram os patrulhamentos e as «visitas» a fazendas, procurando criar condições de segurança. Não foi um mês fácil, o de Outubro de 1974.

sábado, 3 de outubro de 2009

O 1º. cabo Tomás e o homem que roubou comida...

Rodolfo Tomás, 24 anos e 4 dias depois de chegarmos de Angola, no
Encontro de Águeda, com a esposa, a 12 de Setembro de 2009
O Tomás tem sido um dos animadores deste blogue, comentando com o propósito de quem tem memórias e companheirismo vivo. Dele me lembro bem, pela terras do Quitexe e de uma cena breve, no BC12, nos amargos e trágicos primeiros dias de Junho de 1975. A 3 ou 4.
Uma história curta: um dos refugiados na parada roubou comida a uma senhora, sabe-se lá porque fomes. Eu tinha chegado ao aquartelamento, com o PELREC - para uma breve refeição quente, pois estávamos estourados e esfomeados, depois de 49 ou 72 horas de muita tensão. Comemos juntos, no refeitório, e eu vim à parada ver o que se passava com aquele mar de gente, de mãos a abanar e estômagos vazios, que ali se refugiava. Muitos deles, centenas..., nós mesmos tínhamos levado da cidade.
Ao ver o homem a roubar a comida, pus-lhe a mão e houve um breve momento de tensão, que podia dar em tudo, menos em coisa pacífica. Aí, apareceu o Tomás - que por qualquer razão conhecia o sujeito.
«Meu furriel?!...», exclamou. E olhou-me com ar grave, a apertar os lábios, como que a pedir compreensão para o homem. Compreender, eu compreendia, mas muito imperativo (ainda hoje não perdi esse feitiozinho...), respondi-lhe de modos menos simpáticos. E fiz o que devia, para que a comida fosse devolvida. O homem que esperasse pela sua vez, a senhora tinha várias crianças ao lado dela e, por mim, eram prioridade absoluta.
Interveio o Tomás: «Posso arranjar-lhe comida?!...». Penso que distribuiu parte do almoço dele com o homem e eu e o PELREC voltámos à cidade, onde nos esperavam o cheiro da pólvora, os silvos das rajadas, o rebentamento de granadas, morteiros e obuses, os mil perigos de uma guerra urbana e muitas mortes entre combatentes da FNLA e MPLA. Algumas vi eu, ao vivo!
- TOMÁS. Rodolfo Hernâni Tavares Tomás, 1º. cabo rádio-montador. Residente em Lousada.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A ida ao cinema e o furriel que casou com a filha do madeireiro do Quitexe

Igreja do Quitexe e xitaca atrás da Casa dos Furriéis e secretaria da CCS
do BCAV. 8423. Foto de João Cláudio.
ANTÓNIO CAPELA
Refletindo sobre o que se passou dia 12 de Setembro, no Encontro de Águeda dos Cavaleiros do Norte, isso leva-nos a recordar, recordar, recordar... momentos alegres e tranquilos, assim como momentos difíceis.
Vamos aos momentos alegres.
Recordo as noites de bom bate-papo no café do Topete, até boas horas da noite. O grupo era formado pelo Guedes, o Carmo, algumas vezes o Topete, porque tinha que servir os copos na café e... etc., etc., porque já não me lembro de outros. Era um grupo muito unido. Ah!, estava também um furriel, que depois veio a casar com a filha de um madeireiro do Quitexe.
O Guedes e o Topete que já moram longe de nós, o Carmo está a braços com uma doença que o limita bastante. Nestas ocasiões, era eu que "descia ao povoado", ao passo que quando era com os militares estes que subiam a montanha - iam à missão. Mais uma vez, muito obrigado pela companhia que me fizeram.
Recordo-me de um dia termos ido ao cinema a Carmona (Uíge). Nesse dia, estava muito cansado, mas queria ir ao cinema. Fomos no meu carro - eu e mais três alferes ou furriéis, uma Renault 4L (que bom carro e económico...). Mal entrámos na sala de cinema, sentei-me e ... não vi mais filme nenhum. Dormi, e dormi de tal maneira que não me lembro nada do filme. No fim da sessão, fomos todos beber qualquer coisa. Eu já estava desperto e bem desperto. Chegámos noite dentro, ao Quitexe.
- CAPELA. António Albino Vieira Martins Capela, padre católica e pároco do Quitexe. Actualmente, é professor e reside em Arcozelo (Barcelos).
- IGREJA: Foto de João Cláudio, (ex)furriel enfermeiro da CCS do BCAV 1917.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

A madrugada de 1 de Junho de 1975 e a evacuação de Margarida e Ricardo

Chegada dos primeiros refugiados de Carmona à parada do BC12, na manhã de 1 de Junho de 1975


A. SOUSA CRUZ*

O dia 12 de Setembro de 2009, na Pateira de Fermentelos, foi um dia de muitas recordações e emoções fortes. Quando o Buraquinho falou na madrugada de 1 de Junho de 1975 e comecei a recordar esses tempos, perdi o controle. Valeu-me minha esposa Margarida, que me trouxe à realidade.
Disse na altura que gostava imenso de me recordar dos bravos companheiros que se prontificaram a ir à cidade num Unimog 404, buscar a Margarida e o Ricardo. Um já descobri, o Pais! Naquele dia 12 de Setembro! E os outros? Quem foi deles que, quando ao passar pelas escolas ou liceu de Carmona, ao sermos alvejados, se virou para mim e disse: «É dali que estão a atirar... eu vou acertar naqueles filhos da ...».
«Não atiramos, pois a guerra não era connosco«, disse eu.
Mantivemo-nos quietos, atrás do Unimog, uns 3 ou 4 minutos, que foram uma eternidade! E não havendo mais tiros, subimos novamente para o Unimog e arrancámos a toda a velocidade. Já próximos de casa ainda vimos um telhado a ir pelos ares. No regresso, ao passarmos pelo mesmo local, eu com o Ricardo ao colo, ao lado do condutor, e a Margarida debaixo do banco dos três ou quatro soldados e companheiros que nos acompanhavam, devíamos ter passado com tanto pressa que os que nos alvejaram devem ter pensado: «Os branco és é loucos!...».
Hoje, mais de 34 anos depois, temos a consciência de que se tivessemos respondido aos tiros a história daqueles dias seria outra.

- * CRUZ. António Albano Araújo de Sousa Cruz, alferes miliciano mecânico. É engenheiro mecânico, natural e residente em Palmeiró (Santo Tirso).
- MARGARIDA E RICARDO. Esposa e filho (bebé) do (então) alferes Cruz.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O discreto Grácio que vendia bebidas no depósito de géneros...

O Moreira e o Grácio, com a esposa, no Encontro de Águeda.
Clicar na foto, para a ampliar

Aqui está o Grácio, glorioso sapador de infantaria, que de Leiria - de uma terra chamada Amor, vejam lá!... - vou para o Quitexe, para uma missão que lhe estenderam ao depósito de géneros. Era lá que ele, sempre bonacheirão, cumpridor e sempre disponível, «aviava» as bebidas que o RDM permitia à tropa e a «gulodice» de outras patentes, mais altas, ia deixando passar.
O Grácio era boa gente! E é! Ainda agora, pelo telefone, me lembrou alguns exageros da malta furrielística, avidamente sedenta de mais avios e de alguns abusos. Se estes fossem possíveis! «Era eu que vos fornecia as bebidas...», lembrou-me o Grácio, como se eu não soubesse e adivinhando-lhe um sorriso do outro lado do telefone! E lá esteve ele, sempre discreto e presente, no Encontro de Águeda, acompanhado da sua (dele) «mais que tudo!», não sei se namorada daquele tempo!
A uma qualquer altura, cumprindo ordens - como bom militar que era... - negou vender bebidas à furrielada. Não podia, tinha ordens! Aqui d´el-rei, que «não podia ser...», gritava-lhe o Machado. «Veja lá no que se mete...», avisava-o o Neto. «Ainda levas uma porrada...», azucrinava-lhe o Mosteias - que era furriel sapador, a disfarçar o riso. Até o Pires (o do Montijo), também furriel sapador, meteu colherada na querela: «Ainda te f..., ó Grácio!».
O Grácio, e muito bem, manteve a ordem recebida - ordens são ordens... - e foram os furriéis em demanda dos mais patenteados, que lá libertaram a ordem de venda. Francamente, não tenho a certeza se uma velhíssima Monks, em garrafa de cerâmica e que ainda tenho ali no bar, não foi uma das que, nessa altura foram vendidas pelo Grácio no depósito de géneros e saíram dessa «escala negocial» de outras patentes! O certo, certíssimo, é que o Grácio, o discreto Grácio, o disciplinado sapador Grácio, não foi em cantigas e, sem hesitar, cumpriu o seu dever de honra. Assim eram os bons militares e se formam os homens grandes!
- GRÁCIO: Fernando Martinho Grácio, 1º. cabo sapador. Natural e residente em Amor (Leiria).

terça-feira, 29 de setembro de 2009

A rapaziada da enfermaria militar do Quitexe...

Alfredo Coelho, Neves e Moreira, companheiros da
enfermaria militar do Quitexe. Clicar para ampliar a foto
O Encontro de Águeda foi de saudades, muitas saudades - e quantas por lá se mataram, entre abraços e recordações já trintonas!!! - e de lembranças fotográficas. Que bem sabe, recordar quando a nossa juventude andava grávida de sonhos e nada era obstáculo para que galgássemos os caminhos da nossa vida! Aqui estão, na zona da piscina da Estalagem da Pateira, o inimitável Buraquinho, o tranquilo Neves e o bem-disposto Moreira, que pelo Quitexe montaram «banca» na enfermaria e por lá ajudaram a sarar moléstias africanas e a esquecer dores físicas. E foram companheiros da grande jornada solidária que os Cavaleiros do Quitexe tão bem souberam exercer, entre os espinhos da missão militar.
Aqui, na zona da piscina, mostram e olham fotos de há 34 e 35 anos, quando semeavam sonhos e colhiam saudades, riscando os dias no calendário, «até ao nosso regresso!...». Menos um, menos um, já só faltam tantos... E olham também os menores volumes da barriga, o cinto que tinha menos furos, o cabelo que era mais vasto!!! Olham a Angola de 1974 e 1975!!!
- BURAQUINHO. Alfredor Rodrigo Ferreira Coelho, 1º. cabo de análise e depuração de águas. Empresário do sector de restauração, natural e residente em Custóias (Matosinhos).
- NEVES. Albertino Ferreira das Neves, soldado maqueiro, residente em S. Cosme (Gondomar).
- MOREIRA. Joaquim Ribeiro Moreira, soldado maqueiro, de Rãs (Penafiel).

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O furriel Lopes, enfermeiro de corpos e de almas...

O clã do furriel enfermeiro Lopes (à direita) no Encontro da Pateira de
Fermentelos. Clicar na foto, para a ampliar


O Lopes era enfermeiro, furriel enfermeiro de corpos e de almas. Andasse por ali alguém com a neura, a morrer de saudades, estressado (como agora se diria...) e logo apareceria o Lopes, a «nadar» no mar da sua permanente tranquilidade, com uma palavra de alento e ajuda e uma «injecção» de calma - ora não fosse ele alentejano.
O Lopes «passeava-se» pelo Quitexe quase sempre de farda nº. 2, sempre impecável, sempre bem vincada e sem catingas a entranhar-lhe os cheiros, pendurado no cigarro que lhe adormecia o vício, sempre ao fim de mais um dia de enfermaria. Aqui, na enfermaria, era onde zelava, muito cioso e sem uma falha, pela saúde dos cavaleiros que lá se lhe iam queixar de paludismos e moscas tsé-tsé, ou de alguma ressaca de um qualquer abuso gastronómico que metesse cucas, nocais ou n´golas a mais. Ou cachaça de cana, brandy Vital ou algum wisky bebericado nos abusos das noitadas das casernas.
O Lopes, sempre paciente como Jó e diligente, todos atendia com um sorriso quase adolescente, passando algodões e mercúrios pelas feridas do corpo e as ansiedades da alma dos quitexanos da CCS do BCAV. 8423. Ou então, sem tremuras, espetando a agulha de algum anestesiante das dores físicas.
Era (é!!!...) um tipo fixe, daqueles que apetece gravar de vez na memória - para cuidarmos não esquecer da gente boa da nossa vida. Nunca se lhe ouviu uma explosão de nervos ou inquietudes. Tudo e todos olhava e media com calma que às vezes enervava! Bom tipo, pá!!! Bom tipo este Lopes que é Cavaleiro do Quitexe e a quem, por maldade, por vezes chamávamos Seringas! Nunca aquela boa alma se aborreceu com a graça! Nunca por isso perdeu o sorriso adolescente com que excomungava as nossas almas e desarmava as nossas irreverências!
- LOPES. António Maria Verdelho da Silva Lopes,
furriel enfermeiro. Natural e residente em Vendas Novas,
cidade onde é tesoureiro das Finanças.

domingo, 27 de setembro de 2009

O Dias vagomestre e o filme perdido do aeroporto de Lisboa

Dias (furriel), Serra condutor e Silva rádio-montador, Cavaleiros do Quitexe
no Encontro de Águeda (foto António B. Reis - 933 330 333)

Olhem aqui o furriel de alimentação, o vagomestre - o Dias, sorridente e feliz, na sua gravata vermelha e a lembrar-se, certamente, das contas e cifrões que lhe deram cabo da cabeça no Quitexe, onde fazia ementas que tinham de evitar algum levantamento de rancho.
Um dia, de «castigo», o bom do comandante da CCS pôs-me de fiscal à cozinha dos praças. Eu não era lá muito querido dele e como grassava algum descontentamento entre a malta, por causa da qualidade do «rancho, ora aí estava uma boa ocasião para me «pegar»: a tropa levantava problemas e eu tinha de responder por eles. Não respondia, oru respondia menos bem..., e, pumba, RDM em cima de mim. Ainda hoje julgo que foi para isso que o capitão me pôs em tais funções! Para as quais, de resto, não tinha a menor habilitação.
Assumindo o lugar e por dever de lealdade e camaradagem, falei com o Dias, por causa das «moscas», ou das bocas que sempre se ouviram na tropa, sobre essas questões do rancho geral: «Eh pá, vê lá como é isso...», comentei com ele. «O capitão está a querer trilhar-me, vê lá se tens por aí algum rabo de palha...».
Que não me preocupasse, disse-me o Dias, com aquela tranquilidade bonacheirona que o caracterizava, a tranquilidade dos deuses: «Isto é feito aqui como mandam as regras!...».
Também era essa a minha convição, se haveria marosca seria entre as ementas que ele zelosa e cuidadosamente preparava e os géneros que chegavam à cozinha, pelo que toca a mandar... cozinhar. Abreviando a história, o meu cargo de fiscal não durou muitos dias pois, ao máximo que pude, não abdiquei do tal RDM com que sempre éramos ameaçados pelo capitão e este, por via das dúvidas - e muitas havia!!!... - e porque o meu zelo o preocupou (julgo eu), exonerou-me do dispensável e desconfortável cargo.
Mas vem aqui o Dias, não só para falar do seu rigor e competência no delicado lugar que exercia, mas também para fazer memória da cultura que semeava com o seu falar tranquilo, ou mesmo quando gargalhava nalgum momento mais divertido, nas intermináveis sabatinas do bar de sargentos. Bom companheiro, tenho para ele a dívida de perder o filme da nossa chegada ao aeroporto de Lisboa, a 8 de Setembro de 1975. Desapareceu, pelas obras aqui de casa. Foi um desgosto para mim. E muito mais para ele! Nunca me desculparei!
Um grande abraço, Dias!
- DIAS. Francisco José Brogeira Dias, furriel miliciano de alimentação. Bancário, é natural e residente no Porto.
- SERRA. Delfim de Sousa Serra, soldado condutor, de Gondomar.
- SILVA. António Jesus Pereira da Silva, soldado rádio-montador. Natural e residente em Vila Nova de Gaia.

sábado, 26 de setembro de 2009

O barbeiro às rajadas e os condutores sem medos..

Aurélio (o Barbeiro) e os condutores Vicente, Gomes e Serra. Mais atrás, reconhecem-se,
da esquerda para a direita, o Machado (de gravata), o Madaleno, o Ribeiro (de costas, de verde),
o Calçada (barbas) e o Viegas (atrás do Serra). Clicar na foto para a ampliar.

O Aurélio, aqui do lado esquerdo, era atirador de cavalaria mas «atirava-se» também aos cabelos da malta, como gato a marmelada: aparava, cortava, mondava a penugem das orelhas e, de repente, era uma rajada de pente e tesoura. Modo semântico de dizer, uma carecada!... Era o barbeiro da CCS e bom praça, sempre de gargalhada na ponta da beiça!

O Vicente, o Gomes e o Serra eram condutores e não falhavam uma curva, com o volante dos «burros de mato» na mão. Ou berliet que fosse!! Cada curva, convém lembrar, era um perigo a espreitar e os condutores-auto um alvo fácil de abater. Louve-se a coragem de todos eles, estes aqui na foto e todos os outros.

Falei de curvas, mas posso lembrar as rectas e as picadas turtuosas e poeirentas, os lamaçais e buracos que atrasavam a marcha de qualquer coluna, os pisos por onde não passou Cristo e amarguravam as angústias dos militares, as subidas íngremes de troços onde à pedrada podíamos ser emboscados e mortos, os percursos de meter medo a Deus e ao diabo! Foi toda a gente gente brava e sem medos!

Nem uma vez alguém hesitou a arrancar da parada do quartel, quantas vezes comendo o pó das madrugadas e o frio que cacimbava as nossas saídas para escoltas, patrulhamentos ou operações. A arma era o volante e não tinham granada no cinturão com que se pudessem defender. Missões arriscadas, as dos condutores! Gente de coragem!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Cavaleiros quitexanos no Encontro de Águeda

Neto, Mosteias e Morais, cavaleiros (furriéis) do Quitexe, no Encontro de Águeda


Cheguei eu à Estalagem da Pateira, que em linha recta não está a mais de dois quilómetros de minha casa, bem dentro da hora... - uma meia hora mais cedo e sossegadinho da silva... - e dou lá já com vários cavaleiros, em cavaqueira divertida, aos tiros nas saudades!!
«Nã teeeens vergôôônha?...», recalcitrou-se, a rir de boca rasgada de gozo pela boca que me «insultou», o bom do Morais, furriel mecânico-auto, por quem e por tudo, o mundo seria sempre melhor. E, na verdade, era de corar de vergonha... eu ali a morar de lado, a um pulinho, e o Morais que madrugara bem cedo, arrancando de Elvas às 6,30 horas da manhã, já ali estava, depois de «cavalgar» quilómetros atrás de quilómetros!
E o Mosteias a rir-se de gozo..., ele que não «cavalgara» muito menos, saído lá para as oito, desde Vila Nova de Santo André e de uma directa do trabalho para a felicidade de fazer o «enterro» às saudades que nos separaram anos.
Estavam mais alguns, mas eu nem os vi. Quero dizer, vi e abracei, mas a empatia estava mais virada para alguns dos que mais íntimos foram nas terras do Quitexe! Eu, quando os vi, carregava o equipamento para retrospectar o power point e quase o larguei no chão, empurrando o Pires (o de Bragança) e quase tropeçando nas escadas. E vi o Rocha!!
«Olhó Rocha, ó Pires...», gritei eu, já transpirado das primeiras emoções e depois parado a contemplar aqueles dois furriéis das transmissões, ali agarrados como namorados saudosos.
Foram estes os primeiros momentos do Encontro de Águeda. Que se sucederam, sucederam, sucederam... de cada vez que chegava mais um Cavaleiro que andou de armas pelo Quitexe e Carmona!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O Tenente Luz da Secretaria do Comando do Quitexe


O capitão Luz e esposa, no Encontro dos Cavaleiros do Norte, os do Quitexe. Em cima, a
fatiar o bolo do Encontro de Águeda. Clicar nas fotos, para as ampliar

O tenente Luz, agora capitão, é, do alto dos seus lonvejos 80 anos, o menos jovem de nós. Pelo bilhete de identidade, bem entendido. Quanto ao resto... - juventude, boa disposição, alegria, serenidade, companheirismo, saber-estar... por aí adiante!... - é tão ou mais novo que nós, rapazes agora quase sexagenários!
Era o responsável pela secretaria do comando do Batalhão de Cavalaria 8423 e dele não se conhece alguém que lhe aponte um dedo. Todos gostavam do tenente Luz. Todos!!! O que, em ambiente militar e nos turbulentos tempos revolucionários de 1974 e 1975, é um milagre!

O tenente Luz falou no Encontro de Águeda: de palavras serenas, pausadas, em oratória simples e forte. Lembrou as suas emoções pessoais: era a sua terceira comissão e foi a última. «Foi o batalhão de que mais gostei, sei lá... Era um grande grupo, de muita camaradagem e grande solidariedade», disse o tenente Luz, que agora é capitão.
Lembrou nomes que nos são queridos: o comandante Almeida e Brito, que a morte levou a 20 de Junho de 2003; o alferes Garcia! Falou dos caminhos de disciplina e camaradagem que se viveram no batalhão e que hoje, quase sexagenários, todos nós reconhecemos que foram o nosso escudo invisível, protector e anjo da guarda dos momentos mais dramáticos.
O capitão Luz era o mais graduado de todos nós no Encontro de Águeda. E sabemos que é o oficial vivo de mais alta patente daquele que foi o BCAV. 8423! Eu, querendo ser simpático, bati-lhe continência: «O sr. capitão Luz dá-me licença que convide a senhora sua esposa, hoje a nossa primeira dama, para fatir o bolo da festa?!..».
O capitão Luz sorriu-se, pegou no braço da mulher da sua vida e acompanhou-a à mesa do bolo dos Cavaleiros do Norte, os do Quitexe, que se encontraram em Águeda. Eu acho que foi um momento bonito, cheio de afecto, emotivo!!! As palmas do povo cavaleiro e das amazonas que o acompanhavam, sublinharam esse instante quase romanesco!
- LUZ. Acácio Carreira da Luz, tenente do QSGE, chefe da secretaria do Comando do BCAV. 8423, no Quitexe. É capitão e reside na Marinha Grande.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O 1º. cabo Pais que agora é o Toné de Viseu

António Pais, C. Viegas e Emanuel Santos, num restaurante do Quitexe, em 1974

Pais, o rádio-montador do Quitexe, com a mulher, no Encontro de Águeda, em 2009

O Pais era 1º. cabo rádio-montador, originário de Viseu e senhor da sua boa e grande graça. Por ser de uma aldeia chamada Travassós de Cima e aqui ao lado da minha haver uma outra chamada Travassô, se calhar por isso..., sempre nos sentimos próximos e cúmplices.
A malta era toda nova e dada, acamaradava por tudo e por nada, em ambiente que é sempre bom recordar. E com saudade! Nomeadamente para umas idas aos bares da vila, para umas cervejas amariscadas (saboreava-se por lá bom camarão..) ou para alguma janta, que invariavelmente metia um bom bife com ovo a cavalo e cerveja bem fresquinha - às vezes vinho, este muito excepcionalmente (que ficava pesado à carteira...).
Não vem aqui o Pais por isso. Ou sequer pelas lisonjas que soprou para cima de mim, e repetiu, no Encontro de Águeda. Mas principalmente por aquele coração enorme que se abriu, quase chorou e se soltou de emoção quando falou da evacuação da família do alferes Cruz (ver AQUI) e foi também memória das coisas bonitas que todos vivemos por Quitexe e Carmona. Sempre em ambiente de grande camaradagem e cumplicidade, mesmo com afecto, como quem guarda no regaço as melhores coisas que tem! Sempre com responsabilidade e, deixem-me dizer, também com estoicismo e bravura.
Recordo aqui as palavras molhadas de emoção, e persistentes, do Pais, no Encontro de Águeda: «Fomos sempre amigos de todos, camaradas, companheiros e amigos!...». Fomos, sim senhor, ó Toné, que «em Viseu toda a gente sabe quem é...».
- PAIS: António Correia Lourenço Pais, 1º. cabo rádio-montador, nº. 16347773natural e residente em Travassós de Cima (Viseu). É empresário do sector eléctrico e popularmente conhecido por Toné.
- SANTOS. Emanuel Miranda dos Santos, 1º. cabo escriturário, natural da Gafanha (Ílhavo) e residente nos Estados Unidos.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Deram-me sardinha assada e arroz branco...

Albino Capela e senhora, no Encontro de Águeda (2009)

Albino Capela missionou pelo Quitexe e outras terras do Uíge, em apostolado que não tinha a ver com tropa. Mas foi um dos nossos. A missão católica, ali mesmo ao lado da capela, foi palco de muitas sabatinas - sem preconceitos e limitações, lá se falando de cultura, de fé, de desporto e de política, de tropa até e dos diversos sonhos que entusiasmavam jovens da nossa idade.
«Sempre tive as portas abertas a todos, sem constrangimentos, era amigo dos militares e os militares eram meus amigos...», lembrou ele no Encontro de Águeda, depois de falar da nossa gente e da gente nativa, que ele ensinava nos caminhos da fé, com o entusiasmo jovem de quem se dá em partilha com os outros.
Albino Capela era o padre do Quitexe, onde ficou quando de lá saímos, em Fevereiro de 1975. Juntou-se-nos em Carmona, quando os incidentes da vila quitexana precipitaram a insegurança e a fuga. E, depois, não quis integrar a coluna militar que deixou Carmona para Luanda. «Tenho de fixar com a minha gente...», disse ele ao comandante Almeida e Brito, que insistia no seu (dele) abandono da cidade, integrando-se na (que seria) epopeica coluna militar para Luanda. Que tinha mais de 700 viaturas! E ficou.
No Encontro de Águeda, lembrou as 4,30 horas da manhã de 4 de Agosto de 1975: «Fui ver-vos partir...». Assim disse e parou as palavras, como que engolindo um ai de dor e amargura. Uma semana depois, em Agosto de 1975 e apressadamente, teve de ganhar boleia num avião para Luanda, para sair do inferno de Carmona.
Albino Capela, no altar das suas emoções do Encontro de Águeda, lembrou, de emoção puxada à voz e palavras pausadas, a fome que lhe matou o BCAV. 8423, quando fugiu do Quitexe e chegou a Carmona, com a irmã e outra gente: «Deram-nos sardinha assada e arroz branco! Nunca mais vou esquecer!...».
Adivinhava-se um ápice compulsivo no falar de Albino Capela, se calhar com alguma lágrima a escorrer-lhe a face. «Nunca mais vou esquecer, deram-nos sardinha assada com arroz branco!...».
- CAPELA. António Albino Vieira Martins Capela, sacerdote católico e padre do Quitexe. Actualmente, é professor e reside em Barcelos.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O 1º. cabo Buraquinho, analista e depurador de águas

Miguel, Moreira e Alfredo Coelho (Buraquinho), gente boa do Quitexe militar de 1974/75.
Ao findo, vê-se o Fernando Grácio


Peço licença para aqui falar do Buraquinho. Apresento-o: Alfredo Rodrigo Ferreira Coelho, 1º. cabo nº. 012198/73! 1º. Cabo de Análise e Depuração de Águas, como ele sempre gosta de enfatizar. E uma declaração de interesses: o Buraquinho foi o único homem, em toda a minha vida, que sofreu consequências de uma acção disciplinar minha. E foi despromovido, de 1º. cabo a soldado. Estranhamente, talvez, sempre tivemos boas relações. De então, até hoje.
O Buraquinho botou palavra no Encontro de Águeda, espalhafatoso como sempre, de palavra solta e desbragada, teatral, emocionado e catapultador de emoções, impulsivo, altissonante, explosivo.
Contou ele o que pensou e sentiu na dramática madrugada do primeiro domingo de Junho de 1975, em Carmona. Seguramente o mais grave, o mais perigoso, o de mais histórias a fazer as memórias dos Cavaleiros do Norte!
Que se encolheu, que se riu, que se deixou amedrontar e gritou, que se sentiu herói e D. Quixote, que limpou o suor da testa com as costas das mãos, que puxou o bolso das calças e não achou lenço, que lhe tremeram as pernas de medo e sentiu um frio na barriga, nos braços e no rosto; que pegou numa arma e, quando as balas silvaram na manhã de Carmona, atirou-se para debaixo dos bancos da Berliet.
Falou da mulher angolana que lhe conquistou o coração e lhe deu dois filhos, que ali o ouviam de bocas rasgadas de sorrisos!
E falou de mim, «o meu amigo Viegas, que me passou de cabo a soldado, 1º. cabo de análise e depuração de águas». «É esta a minha especialidade, ouçam lá...», sempre ele faz questão de enfatizar.
Eu, que me conheço e conheço o Buraquinho, também não evitei um sorriso largo. E outro... A oratória do 1º. cabo de análise e depuração de água nunca mais parava, sempre extravagante nos gestos e nas palavras! Só parou quando, como quase sem querer, me passou o microfone para a mão.
Rematei eu: «Vou explicar porque é que o Buraquinho gosta assim tanto de mim. É que a mulher tem o meu apelido!...». Riram-se os Cavaleiros do Norte, misturando os aplausos com mais uns tragos dos vinhos Bairrada que se deixaram degustar nos prazeres da tarde de 12 de Setembro de 2009!
Depois disso, já o Buraquinho me emailou - envergonhando-me de elogios. Não há pai para ele!

domingo, 20 de setembro de 2009

As emoções, as paixões e a fé do Monteiro...

Monteiro e esposa Fernanda no Encontro dos Cavaleiros do Norte em Águeda


O Monteiro é do Marco e passou as «passas de Lamego» no segundo turno de instrução dos Ranger´s de 1973. Ele e, com muitos outros, também eu e o Neto. E o alferes Garcia - comandante do PELREC que integrávamos no Quitexe.
O trio «furrielístico», ainda com o vermelho de cabos milicianos no ombro, galgou os campos de Santa Margarida, por onde tivemos o IAO do BCAV 8423. Desse tempo, recordo a nossa apresentação no RC4, em antevéspera do Natal de 1973, quando logo nos quiseram pôr de serviço É o punhas!. «De serviço? Nós?!... Nem pensar, o nosso castigo já é estarmos mobilizados...», gritou o Neto, fazendo vibrar a sua rebeldia. E nós fizemos coro!

«Nós vamos é passar o Natal a casa!!!...». E (des)enfiámo-nos os três, no SIMCA 1100 do Neto, «marchando» para Águeda, sem olhar para trás. Cá chegámos, mas a destempo do autocarro, eram já perto das nove horas da noite, e o Monteiro teve de apanhar boleia para o Porto, onde um irmão o iria buscar. Telefonámos do café Parreirinha e o sargento dia do RC4 ainda lá deve estar à nossa espera!

A vida, ainda em Santa Margarida e depois em Angola, de alguma maneira «desfez» o trio - que ficou mais duo, o Neto e eu ... - com o Monteiro de G3 mais instalada na secretaria e as nossas a viajarem mais pelas picadas e matas do Uíge. Do Quitexe, entre outras histórias, recordou-me agora uma monumental enfrascadela (dele, digo eu...) de brandy Macieira, num dia (noite) em que eu estava de serviço. Não me lembro!!!

O Monteiro falou no Encontro de Águeda: da graça de ser Cavaleiro do Norte e do Deus que nos acompanhou, da fé que alimentou almas e das aventuras a que, na verdejante idade desse tempo, sempre nos arriscávamos, sem cuidar algumas vezes de perigos. Da amizade que galgou 34 anos, das emoções e perigos dos dias mais graves e da honra de termos servido Portugal. Assim é que é falar!

Não disse ele, mas lembro eu as intermináveis gravações de cassetes, enviadas com recados e muitas juras de amor para a sua Nani! E lá estava ela, no Encontro de Águeda: «Era e é o meu amor, o meu amor de sempre, está mais linda que nunca!...». Vaidoso, o Monteiro! E lá tem as suas razões!

- RC4. Regimento de Cavalaria 4, em Santa Margarida. A unidade de mobilização do BCAV. 8423.

- IAO. Instrução Altamente Operacional, período de preparação militar que antecedia a partida para os cenários de guerra.

- MONTEIRO. José Augusto Guedes Monteiro, furriel miliciano de operações Especiais (Ranger´s). Aposentado dos Transportes Colectivos do Porto e empresário. Natural de Vila Boa de Quires (Marco de Canaveses) e residente em Paredes (Porto).

- NANI. Fernanda Queirós, professora primária, a namorada de então e hoje esposa de JAG Monteiro.

sábado, 19 de setembro de 2009

O Pires e o Caixarias fizeram anos de casados no Encontro dos Cavaleiros do Norte


Pires, com Licínia, a sua mulher de sempre, no Encontro de Águeda, no dia em que faziam 33 anos de casados!!! Houve beijos na boca!!! À esquerda, vê-s eo Monteiro (Gasolinas) e à direira, Ni e Nani, esposas de Neto e Monteiro (furriéis), na foto de cima. Na de baixo, Raúl Caxarias e mulher!



O Pires - o Pires de Bragança... - era dos mais sossegados de todos nós, os Cavaleiros do Quitexe! Furriel de transmissões, transmontano, fazia o seu dia-a-dia na tranquilidade do aquartelamento, a ouvir-nos contar histórias atrás de histórias, sempre que voltávamos de algum patrulhamento, de alguma escolta ou de alguma operação militar. Que narrávamos aos aquartelados do Quitexe sempre de forma épica, empolgada e intencionalmente exagerada!
O Pires, a páginas tantas, andava mortinho por ir numa operação, fosse ela qual fosse! A todo o custo queria ir conhecer os cheiros da mata e o pó das picadas. Foi a 4 de Novembro de 1974, como AQUI se conta. Mas o Pires, o de Bragança, vem aqui por outra razão. Razão de amor! É que ele, a 12 de Setembro de 2009, dia do Encontro de Águeda, fazia 33 anos de casado!!
Então eu, que nestas coisas sou meio travesso, puxei do microfone e das palavras mais açucaradas que soube e, frase ante frase, fui lembrando as paixões que a tropa gerou, os amores que multiplicou, que... ludibriou, blá-blá-blá!... Mesmo a jeito, estava ali ao lado o Buraquinho que, lembrei eu, se tinha deixado conquistar de amores em Angola e por lá casou. Falando de amores, envergonhei o Pires! Pois... é que «hoje faz 33 anos de casado!!!».
O Pires ficou meio engasgado, envergonhado, atrapalhado, mas não de livrou do beijo de boda! Na boca, pois... diante das palmas e gritos da cavalaria! E como o primeiro não agradou, bota o segundo!! E o terceiro!!!
Não foi só o Pires! O Raúl Caixarias, bravo atirador de cavalaria, também estava em vésperas de festejar anos de casamento, a 19 de Setembro (hoje). Pois levante-se lá o Raúl e a sua amada, para trejurar amores e fazer o boca-a-boca destes momentos!!! E assim foi, com palmas e os incentivos adequados ao dia! Não digo quais!

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O Neto falou dele e por todos nós...

Neto e Pires (de Bragança) no Encontro dos Cavaleiros do Quitexe.
Clicar na foto, para ampliar


O Neto não é de floreados nas palavras, mas é de acção e emoções fortes e sentidas. Vibrantes e empolgadas! Furriel miliciano de Operações Especiais (os Ranger´s), foi meu companheiro de Junho de 1973 a Setembro de 1975, de Lamego a Luanda, passando por Quitexe e Carmona. Já fôra meu compincha na escola e é-o ainda na vida de hoje, em Águeda - de onde somos!
Alguém aqui já nos chamou furriéis-gémeos e isso fomos, desde o tempo que nos preparou para Angola, por Lamego e Santa Margarida. E nos sacramentou nos dias mais duros e aflitos do Quitexe e Carmona, por onde africanizámos a alma.

O Neto interveio no Encontro dos Cavaleiros do Norte, os da CCS do Quitexe, e falou das suas dores mais recentes, deixando-se emocionar pelos momentos deste ano que lhe enlutaram a alma e a vida pessoal. Olhava-o a mulher, a Ni - já seu amor desde esses tempos..., concentrada de ansiedade, roendo o dedo indicador, com a alma a abrir-se às emoções que engravidaram a tarde quitexana da pateira. «O que vais dizer, Xico?!...», calculo eu que ela se tenha interrogado.

E disse o Neto que, nestes seus momentos de dor, se sentiu mais forte porque isso aprendera a ser nos Ranger´s. Mais forte, quando os dramas, as tragédias e os medos nos espreitam e enlutam a alma! Que essa força a multiplicou por Angola, onde - e agora digo eu... - semeou companheirismo, colheu empatias, dividiu afectos e foi um bravo e garboso militar! Um português de Águeda e sem medos, sem hesitações na hora de dar o passo em frente e assumir a verdade e a luta pela justiça; de segurar no colo a bondade de ser amigo e ter a generosidade de se dar, quando outros precisam, por mais precisados!

«Devo esta força interior, que me ajudou e ajuda a ser mais forte..., ao que aprendi nos Ranger´s e que a nossa missão em Angola fez melhor e maior...», disse o Neto, de voz quase a sumir-se e como que olhando o céu de imagens que se faziam em espelho nas caras religiosamente atentas dos Cavaleiros do Quitexe deste encontro de Águeda!

O Neto não é homem de floreados nas palavras! Não é!!! Mas mesmo a sumirem-se e a fazerem silêncios, disse tudo por nós, falando dele! Ranger, yaaaaaaa!!!

- NETO. José Francisco Rodrigues Neto, furriel miliciano de Operações Especiais (Ranger´s), do PELREC do BCAV 8423. É empresário, natural e residente em Águeda.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O Machado «beduíno» que era... menino de coro!

Machado e o seu amor, Emília (a Mila do Gerez), que lhe deu um filho
médico e lhe multiplicou a alma de homem bom!
!

O Machado é rapaz de grande «rodagem», que já era bem visível no Quitexe, em lutas e discussões que eternizavam a sua coragem e esclarecimento para defender os interesses dos mais pequenos. E ele, que não é propriamente alto, foi sempre gigante na assumpção da solidariedade e da camaradagem, quando se tratou de defender os que menos podiam.
Um dia, ele, eu e o Neto, fomos chamados ao comando da CCS, que nos queria puxar as orelhas e fazer vítimas do RDM. É o fazias. olha aí! Disparou o Machado uma rajada de razões, juntou-se-lhe o Neto de metralhadora em riste e complementei eu, verbalizando o enterro das ameaças do capitão. Lá se foi a gineta do oficial! Com quem ele se metera!
O Machado, que se eternizou no Quitexe por todos apelidar de Beduíno... - e quantas piadas e sátiras se multiplicaram pelo uso banalizado desta graça!... - botou discurso no Encontro de Águeda. Falando de solidariedade, de amizade, de camaradagem, de sentimento. E eu, que sempre o vi forte, determinado, empolgado..., daqueles de antes quebrar que torcer, notei-lhe um embaraço na emoção. Um nó a embargar-lhe a garganta!
Que bonita foi, Machadinho, aquela tua saudação ao padre Albino Capela, que a vida fez nosso companheiro no Quitexe, entre as graças de Deus que ele por lá missionava e a nossa bondade de cristãos mais ou menos praticantes!!! Gostei!!! E gostei muito mais por saber que, afinal e naquele tempo, eras menino do coro paroquial quitexano! Eu não sabia, só descobri isso apenas agora, 34 anos e quatro dias depois de chegarmos de Angola. Valeu, que por mais outra razão não fosse, o Encontro de Águeda! E descobri também que a tua voz zangada, quando tínhamos de discutir com sargentos e oficiais, era afinal ensaiada no coro da Missão do Quitexe! Seu beduíno!...
- MACHADO. Manuel Afonso Machado, furriel miliciano mecânico de armamento, natural de Covelo do Gerez (Montalegre). Quadro superior de EDP, residente em Braga.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O alferes Cruz de oficial dia na madrugada da guerra....

Margarida e António Albano Cruz, amazona e cavaleiro
do Quitexe de 1974/75 (em cima). Em baixo, à esquerda, António Pais


Cruz é nome repetente na CCS do BCAV 8423! Há o Cruz alferes e o Cruz furriel. Este tem sido, por estes nossos 34 anos de civis, meu companheiro de muitas «jantas»! Cruz, o alferes, voltei a vê-lo agora: charmoso, hein!! E bem acompanhado pela doce Margarida dos seus amores! Tão amores, tão amores que a levou de mala aviada e filho no colo para o Quitexe de 1974. E para a Carmona de 75. Bate aqui o ponto!
O (alferes) Cruz, que é engenheiro de formação e vocação dada aos cantos corais, orou na convívio da pateira. Orou emocionado, de coração a pular de alegria e com a nostalgia das saudades dos tempos angolanos que nos fizeram mais homens! Falou com uma sílaba e outra a saltar por cima de outra e de nó entalado na garganta. Eu conto: estava ele de oficial de dia, no BC12 e na madrugada em que rebentaram as «macas» de Carmona. Sabe-se lá!!!! A metralha soltava-se na madrugada, sem escolher alvo ou inimigos; e sem se saber por quem era e para onde era atirada. E ele, alferes Cruz, de oficial de dia, com a mulher e o filho na cidade! Margarida e o bebé Ricardo em perigo e ele sem poder sair do quartel, sem o poder abandonar. Até que pôde: o comandante Almeida e Brito até lhe emprestou o carro, o «carocha» preto: «Vai lá, vai rápido...!».
Não arrancou o velho «carocha», com o motor a trabalhar..., e Cruz ficou ainda mais enervado e ansioso: «O meu filho, a minha mulher!...». E o «carocha» não andava. Com os nervos, Cruz não o tinha destravado.
Olharam-no alguns soldados, na parada! Os momentos eram de grande tensão! Bravos cavaleiros do norte, mesmo sem sequer serem atiradores da valente cavalaria portuguesa, deram-lhe a força solidária. «O meu alferes não vai sozinho... vamos consigo!!!».
Que não e que sim. Foram e vieram, em viatura militar, com Cruz de filho agarrado ao peito e a «música» negra dos silvos das balas e dos morteiros a estrelarem os céus de Carmona. As rajadas a comporem uma estranha sinfonia! Chegaram ao BC12!
«Quanto eu gostava de me lembrar dos nomes desses rapazes!! Quanto gostava, aqui!...». E quase uma lágrima se lhe soltou na barba grisalha, na tarde do Encontro de Águeda, com Margarida, a suave Margarida dos sonhos e da vida de Cruz, a dar-lhe a mão e a força. «Como eu gostava!! Desculpem, estou emocionado!!!...».
De trás, falou o António Pais, rádio-montador, de Viseu. «Um, fui eu!...».
Muitas lágrimas se soltaram e esconderam naquele momento, na sala Pato Real da Estalagem da Pateira. Os dedos indicadores, muito disfarçadamente, secaram a água de emoção que nos caiu dos olhos! Foram cúmplices com as memórias que casaram um mar de emoções, entre mordidelas de lábios e puxar de lenços!
- CRUZ. António Albano de Araújo Sousa Cruz. Alferes miliciano mecânico, natural de Santo Tirso. Fez a comissão acompanhado da esposa Margarida, médica, e do filho Ricardo, o bebé-mascote da CCS do BCAV. 8423.
- PAIS. António Correia Lourenço Pais, 1º. cabo rádio-montador, empresário do sector eléctrico em Viseu, de onde é natural.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Cada um de nós tem uma memória... do BCAV. 8423

Almeida e Ribeiro, alferes milicianos e Cavaleiros do Norte. Repare-se
no power point, mostrando a rua principal do Quitexe. Clicar na foto, para a ampliar

Almeida, o alferes dos reabastecimentos, fez oração de memórias no encontro dos Cavaleiros do Norte, os do Quitexe: «Hoje não estão 45, ou 45 ou 50 pessoas com uma memória; são memórias diferentes, filtradas pelo tempo, corrigidas e apagadas de coisas menos boas...».
José Alberto Alegria Martins de Almeida, arquitecto e economista, cônsul de Marrocos, homem da coisa e da causa públicas, o alferes que recebi, fazendo eu de sargento de dia, a descer do machimbombo do Quitexe em Julho de 1974, teve no encontro de Águeda a memória da sua história - 34 anos depois! «A nossa memória, com a idade, está mais requintada e refinada, são muitas memórias...».
Espreitava-se alguma emoção no mexer tremido do microfone, a desfiar as suas memórias e reacções e aprendizagens: «Sempre fui anti-militarista, até chegar ao Batalhão Cavalaria 8423. Bastou-me meia hora a falar com o nosso comandante, para ficar do lado da disciplina e da cavalaria!...».
O comandante era Almeida e Brito, tenente coronel - que a morte levou há três anos, já general aposentado. Era competente e disciplinador: «Sobrevivemos graças a essa disciplina, à cadeia de comando que aprendemos a respeitar, foi essa cadeia de comando que nos salvou. É essa hierarquia que estamos aqui a celebrar!...».
E festejámos! Festejámos todos! E com palmas, também no momento em que todos, de pé e de nó na garganta, ovacionámos aqueles que foram nossos companheiros no Quitexe e Carmona e já não estão connosco. Mas estão nas nossas memórias, todas diferentes e todas iguais no festejar do que nos levou e trouxe de Angola!
- ALMEIDA. José Alberto Alegria Martins de Almeida, alferes miliciano de reabastecimentos. Economista, arquitecto e empresário, cônsul de Marrocos no Algarve e residente em Albufeira. Reportamos a sua intervenção no Encontro de Águeda.
- RIBEIRO. Jaime Rodrigues Picão Ribeiro, alferes miliciano sapador. Engenheiro e formador, residente no Tramagal.
- FOTO. António Bastos, 933 330 333