
BATALHÃO DE CAVALARIA 8423. Os Cavaleiros do Norte!!! Um espaço para informalmente falar de pessoas e estórias de um tempo em que se fez história. Aqui contando, de forma avulsa, algumas histórias de grupo de militares que foi a Angola fazer Abril e semear solidariedade e companheirismo! A partir do Quitexe, por Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Ponte do Dange e Songo! E outras terras do Uíge angolano, pátria de que todos ficámos apaixonados!
segunda-feira, 6 de julho de 2009
As férias angolanas dos «transmissões» Pires e Rocha

domingo, 5 de julho de 2009
As minhas férias em Angola...
Então e a malta ia para Angola, carregar-se de armas e encher-se de guerras e aquilo era para ali um fadinho chorado, uma drama diário com alguidares cheios de sangue, actos fúnebres e cemitérios de medos?! Nada disso!
Já por aqui contei que o Quitexe era uma vila atractiva e Carmona ainda mais, muito mais aliciante. E de Luanda nem falar!!! Enchia as medidas e por lá cirandei vastas vezes! A cidade e os seus desafios enchiam todas as medidas e desejos da rapaziada dos 21 para 22/23 anos, de sangue na guelra e almas grávidas de desejos. Todos os desejos!!!
Havia também uma coisa chamada... férias.
Por opção, não quis vir a Portugal, das duas vezes e meses a que tive direito- em Setembro de 1974 e Abril de 1975! Andei por lá, a galgar terras e conhecer gentes, reencontrando amigos e familiares. Sempre fui muito dado a estas coisas do aparecer de surpresa e lá andei eu a bater à porta dos irmãos Resende, da Cândida, do Mário e da Benedita e o Zé Martinho (em Luanda), dos primos Mário, Cecília Neves e Clemente Pinheiro, na Gabela! Por Setembro! Ou, já em Abril de 1975, a mesma Cecília e também Orlando Rino e os irmãos Óscar e Nélson, que tinham sido meus colegas de escola; e o primo Manuel Viegas e família, em Nova Lisboa!
Por estes dois meses «bati» estradas por Lobito e Benguela, Alto Hama, Caala, Sá da Bandeira e Moçâmedes, Silva Porto. Fiz a inesquecível viagem ferroviária de Nova Lisboa para o Lobito/Benguela, com o Cruz! Depois, de avião para Luanda! Foi no fundo, um verdadeiro trota-mundos, com um amigo ou familiar em cada lado, descobrindo e descodificando com eles os grandes e misteriosos feitiços da gigante Angola.
A foto de hoje ilustra um desses momentos de relaxe e fraternidade, em frente ao Colégio de Nossa Senhora da Assumpção, de Nova Lisboa, onde se vê o marido de Cecília Neves (Rafael Polido) com os filhos Fátima, Idalina e Saudade e eu, com as mãos sobre o Valter. Eram netos e genro de meu padrinho Arménio, que morreu na Gabela, vítima de um acidente. Por lá estava também a viúva, minha madrinha Isolina. Férias em família, com quem eu falava em grandes fôlegos, como se estivesse aqui no adro, à saída de missa, fazendo o sumário da semana! Belas férias, com a minha gente!!!
sábado, 4 de julho de 2009
A visita de médico e o «esfurrié Veigas» do BCAV 8423
Como era possível ele saber o meu nome, embora dito de forma errada? Foi uma dúvida que só desfiz meses depois, em Maio de 1975: um dos gerrilheiros da FNLA chamava-se Viegas (como eu), tinha passados em vésperas pela tal fazenda e referira haver no novo batalhão um furriel com o mesmo apelido. Coisa que o miúdo «apanhou», sei lá como! Só que diziam Veigas, trocando as duas primeiras vogais. Como sabiam tal coisa, nunca soube. E como fui reconhecido? Bem, ainda hoje não sei!
sexta-feira, 3 de julho de 2009
As vidas boas dos cavaleiros do norte!....
Furriéis Fernandes e Graciano, um guerrilheiro da FNLA equinta-feira, 2 de julho de 2009
Saudades do Garcia, do Vicente e do Leal!

quarta-feira, 1 de julho de 2009
O furriel Velez e o soldado comando da Baixa do Mungage...
Furriéis Velez, Miguel, Pires (de Bragança) e Cruz (sentados, do lado esquerdo)e Graciano, NN, Viegas, Neto, Machado e Rocha, na messe de sargentos do
Quitexe, a 30 de Outubro de 1974
Falei ontem à noite com o Velez! E quem é o Velez, perguntam vocês. É um dos cavaleiros de norte, de Zalala - terra de base da 1ª. CCAV do BCAV 8423.
Uma noite, tivemos de "zarpar" do Quitexe para a (para mim!) misteriosa picada de Zalala, onde - lá por um qualquer sítio... - nos esperava uma Companhia de Comandos com um ferido de uma operação na Baixa do Mungage.
Fomos acordados de sopetão, eram para aí umas três horas da madrugada de uma noite de breu cerrado, e havia que ataviar-nos rapidamente, formar o pelotão sem perturbar o sossego das casernas, preparar-nos para a saída, chamar os homens das transmissões e enfermagem, o mecânico, os condutores, tudo em silêncio. A saída já sabíamos ter razões de sangue: havia um soldado ferido, um irmão nosso que pisara uma mina, num qualquer trilho da mata de medos que nos rodeava, lá de longe! E apareceu o Velez, na parada do aquartelamento, armado até aos dentes, de G3 traçada no peito, cartucheiras e granadas defensivas seguras no cinturão, lenço verde a enrolar-lhe o pescoço, óculos escuros, verdes..., olhos grandes, a medir a noite! Assim, a juntar-se a nós: a mim e ao Neto, ao alferes Garcia, ao PELREC.
«Onde é que vais, pá?!...».
"Onde é que vais, pá?...".
O Velez deu meia volta, sem uma palavra, e vi-o a aconchegar o lenço no peito, como quem faz uma almofada contra o camuflado e parecendo ainda meio acordado de sonhos de outras galáxias, ali permanecendo calado, mordendo os lábios, talvez pensando...
"Vai connosco!..", disse o alferes Garcia.
O Velez, da 1ª. CCAV, a companhia de Zalala, conhecia bem a picada, das muitas viagens de lá e para o Quitexe. Não lhe tinham segredos as curvas e declives de que se adivinhavam medos e os sons que se evaporavam no ar quente da terra angolana e que respirávamos quantas vezes carregado de pó! Por isso, quem mandava o mandou acordar e preparar-se com o equipamento de combate.
"Vamos"...", disse o alferes Garcia.
Fomos e viemos, indo depois para o Hospital do Negage o nosso irmão "comando" que pisara a mina do trilho.
Nessa tarde, eu, o Velez, o Neto e outros, retomámos as conversas de sempre, sobre os quês dessa altura, espreguiçando-nos nas cadeiras de fitas da entrada do bar/messe de sargentos, entre o saborear de alguma eka, alguma cuca, ou uma nocal, sei lá eu, já..., e o desfiar de saudades do "puto", da família, dos amigos.
Ontem à noite, retomámos essa conversa, entre lembranças das horas amargas do Maio e Junho de 1975, em Carmona, e a evocação das que ele e a 1ª. CCAV viveram pelo Songo, a esse tempo!
Ontem, reatámos um conversa interrompida 34 anos e que vamos continuar um destes dias! Quem sabe, lá para Setembro e ao vivo!
- VELEZ. Vitor Manuel da Conceição Gregório Velez, furriel miliciano atirador de cavalaria, da 1ª. CCAV do BCAV 8423, de Lisboa.
- MIGUEL. Miguel Peres dos Santos, furriel paraquedista, então temporariamente no Quitexe. De Torres Novas.
- BURRO DE MATO. Designação vulgarmente dada aos unimogs, veículos de transporte de pessoal militar.
- PUTO. Petit nom dado a Portugal (continental), pelos militares.
terça-feira, 30 de junho de 2009
A (falsa) emboscada na picada de Zalala...

Os dois carros iniciaram a marcha para o Zalala, ia o sol morrendo atrás dos picos da Serra Vamba. Eles próprios tomaram a mesma direcção, como que para aproveitarem mais umas réstias desse sol que se lhes escapava velozmente, para continuar o seu destino - aquecer e iluminar outros povos e regressar, indefinidamente.
A poeira levantava-se à passagem dos Unimogs. Subia, subia pelos ares, ao mesmo tempo que se enovelava, formando uma cortina - como se fosse cacimbo ou nevoeiro e impedindo que se visse o carro da frente. Baixa de Mungage.
«Parem, parem!!!...», gritei.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
O exame do sô Cabrita, que era soldado básico...
Estrada de Carmona, no Quitexe, em foto de Franklin (2009)domingo, 28 de junho de 2009
O Fernandes que fez de Neto por umas horas...
O Fernandes era da 3ª. CCAV do BCAV 8423, que se instalou na distante e algo isolada Fazenda Santa Isabel. Furriel miliciano atirador de cavalaria, vinha algumas vezes ao Quitexe. E por lá esteve alguns dias, por exemplo nas passagens para férias.
Algo reservado, talvez tímido até, mas muito bom camarada, amargou por lá o constrangimento de uma precoce queda de cabelo e nós, meio abrutalhados, bem lhe brincalhávamos o juízo por causa disso, sem cuidarmos muito do seu desgosto e das atenções que lhe devíamos. Foi psicologicamente forte, nesse nosso desrespeitoso e leviano agir. Também é desta têmpera que se fazem os homens maiores!
Como eu era dado à conversa (mais fiada, ou menos desfiada...) tivemos tempo para largos passeios na urbe quitexana (como o da foto), alturas em que ele sempre me falava da vida espartana da malta que estava em Santa Isabel e dos luxos dos aquartelados na vila. Que não, que «não é bem assim...», ripostava-lhe eu, em defesa da minha dama e apostando-lhe com o rigor do meu «conhecimento estratégico» (!!!!...), desenhando-lhe cenários que justificavam a minha teoria de que era «muito mais perigosa a defesa e segurança do Quitexe». E, portanto, «muito mais seguro e tranquilo estar em Santa Isabel!...». Ele que não tivesse dúvidas, blá, blá, blá...
Mas o Fernandes vem aqui por outra razão: a do sentimento e o da camaradagem.
Um dia, um nosso companheiro falhou na apresentação para o serviço de sargento de dia, na formatura das 8 da manhã. Era um domingo, saía eu próprio de serviço e não o poderia substituir. Era meu amigo de peito o camarada em falta, naquela hora a flautear-se por Luanda mas em gravíssima falta disciplinar no Quitexe. Flautear-se, é como quem diz, pois foi a Luanda para ver o pai, em trânsito para Moçambique - sem que o chegasse a ver.
Tínhamos nós (eu e o Neto, era este o «faltoso»...) combinado que se naqueles dois ou três dias em que foi a Luanda (de fugida...) ele fosse nomeado à ordem, eu o susbtituíria. Dizia-se na tropa que lhe «matava» o serviço e nada de pecado viria ao mundo. Só que alguém, propositadamente, fez com que fosse o próprio Neto a substituir-me no serviço de sargento-de-dia. O que nem era habitual, por sermos do mesmo pelotão! Sabemos quem foi, mas não vem agora ao caso.
Entrou aí o Fernandes, que acordei lá para as seis da amanhã. «Eh pá, se o Neto não chegar tens de ir tu à formatura, eu depois faço o serviço...».
Dispensando pormenores da apressada conversa dessa madrugada dominical, prontificou-se ele a fazer de... Neto, pois o Neto não veio mesmo, e depois continuei eu, assim como não se quer a coisa e com a cumplicidade do «novo» oficial de dia, o nosso saudoso (alferes) Garcia.
O Fernandes, e era aqui que eu queria chegar, assumiu de corpo inteiro a situação, num gesto de generosidade e absoluta camaradagem que lhe poderia ficar bem caro. E a mim! Ainda há dias falei deste «caso» com o Neto - que, na altura e por uma hora ou duas, afinal, não conseguiu encontrar-se com o pai, em Luanda, nem depois chegar a tempo ao Quitexe! Ainda hoje me «deve» este «serviço» e disso nos divertimos um destes dias, num encontro que inevitavelmente teve o Quitexe como tema quase único!
- FERNANDES. António da Costa Fernandes, furriel miliciano atirador de cavalaria da 3ª. Companhia de Cavalaria do BCAV 8423 (Santa Isabel), agora professor, de Lomar (Braga).
sábado, 27 de junho de 2009
O velho soba e a bandeira portuguesa...
sexta-feira, 26 de junho de 2009
Vícios e desejos da Luanda de Agosto de 1975...
É claro, acrescentou, que «o prato que não tem ninguém seria do Chico Neto, que estaria a tirar a fotografia, certo?». Certo, ó Monteiro! E a foto foi tirada aí por 15 de Agosto de 1975, na casa onde habitámos em Viana, fazendo as vésperas do regresso a Portugal, regalando-nos na boa vida! E aquela namoradona dos CTT?!!!
- SUCENA. Carlos José Sucena Miranda, 1º. cabo escriturário em Luanda, meu companheiro de turma e amigo. É da Borralha (Águeda) e empresário num país africano.
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Violas e músicas em noites de Natal e Ano Novo do Quitexe
Bom vinho, eu lembro que foi. Com chocolates, suponho! E febras de bacalhau cru. Com música desajeitadamente dedilhada por quem de música só sabe o nome das notas da pauta. Mas foi um festão!!!
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Juras e verdades de amor do Quitexe para Portugal ...
«Então, olha lá... e a minha Nani?!....», interrogou um dia o Monteiro, a deitar suores de saudade por tudo quanto eram poros do seu corpo quente, nostalgiado da ao tempo jovem professora primária que assinava Fernanda Queirós. Como hoje, mas já avó! A Nani!
terça-feira, 23 de junho de 2009
O soldado que se deixou morder por um cão do Quitexe...


CRÓNICA de
A. CASAL FONSECA
Marrazes (Leiria)
Foto da época
Naquele dia, ele estava radiante e tinha razões de sobra. Afinal, o Quitexe nem era aquele fim de mundo de que tanto se falava! Ali, naquela pequena vila, alguém o foi contratar para jogar no Recreativo de Uíje! Finalmente, iria pôr à prova todos os seus dotes de exímio avançado/goleador!
Aproveito o cumprimento do Sr. Guedes, vizinho do Topete, que avistando três cães encetou conversa sobre eles. Queixava-se do perigo que representavam e, sorrindo, lá me foi avisando que não respeitavam fardas para satisfazerem os seus instintos. Finda a conversa, não folguei mais de um minuto, até sentir os dentes bem afiados num membro inferior, impacto que quase me tombou! Fiquei aterrorizado, não tanto pela dor mas pelo sangue que, em segundos, já pintava o alcatrão de vermelho! Aquilo não era normal e ainda por cima protegido com o camuflado!
Ainda retenho a imagem de uma miúdita, filha de um comerciante, penso que seria Barata, fugir apavorada para a loja e aos gritos. Ainda bem que o amigo Álvarito já não estava comigo, porque só ia complicar! Tinha aqueles problemas com o sangue…”adormecia” e dizia que era de família! Um indivíduo dirigiu-se a mim e, com voz segura, disse-me: «Puxe depressa as calças e tanto me faz se é para cima ou para baixo!...».
Olá… então, mas como é que é…?! Mas quem é este gajo com este paleio?! Vendo que eu não estaria muito por aqueles ajustes, cerrou os punhos e gritou: «Porr…está a olhar para onde? Está com medo de quê, sou o enfermeiro Simões do Quitexe …!».
Não hesitei e num ápice fiquei em parcos preparos. Ele tinha acabado de prestar os seus préstimos a uma senhora doente e foi o chamado anjo caído das alturas. Mais tarde, vim a saber da sua polivalência e dos serviços requisitados como parteiro, vindo a destacar-se profissionalmente em Viseu, no pós-75.
O cão tinha sido certeiro, ao apontar para uma veia importante, o que causou toda aquela angústia!
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Dias e nostalgias do Quitexe!

Há olhares nostálgicos em todo o lado, até no Quitexe, este na cadeira de fitas da entrada da casa dos furriéis, num qualquer final de tarde dos finais de 1974. Não faço a menor ideia, é claro, do que me passaria pela cabeça naquele momento! Teria saudades dos cheiros e dos sons de Ois da Ribeira, a minha aldeia?! Vontade de me sentir perto de alguém?! De uma mesa farta de uns bons rojões com grelos e broa da Maria Dulce, a senhora minha mãe - ao tempo viúva de dois anos?! Ou de um bom leitão assado à moda da Bairrada?!
Não sei! Paixão, não era!!! Que eu era rapaz de coração livre como os passarinhos que voavam na nossa imaginação e o correio que eu recebia às mãos-cheias era tudo epístolas de gente amiga e da família! Nada de namoradas!
Os dias do Quitexe tinham... dias! Alguns bem amargados no pó que nos «embebedava» nas picadas e entossicava as emoções, quando, de olhos bem abertos e sentidos apurados, queríamos não ouvir os nossos medos! Outras, de farta folia, nos bares civis e no aquartelamento - quando nos juntávamos em corropios de palavras e de cervejas, emendando ideias e aplainando teorias sobre o Portugal que se embruulhava em revoluções e contra-revoluções!
Talvez ali nesta foto eu estivesse a avaliar, sei lá..., o como tantas vezes eramos imprudentes heróis, sempre que nos aventurávamos em patrulhas e operações que esventravam florestas e trilhos, por onde gretávamos os olhos de alguns medos - para nos sentirmos mais fortes, se a madrugada de alguma guerra nos obrigasse a jorrar sangue e defender em palmos de terra, o metro a metro da nossa segurança!
Ou estaria a espreitar alguma caucasiana do Quitexe, que pela avenida de baixo fosse a desfraldar as suas asas, inspirando-nos pecados de carne que aqui não devo contar?!!!
Eram dias!!! E nostalgias!!! Isso eram!
domingo, 21 de junho de 2009
O que teve a ver o Expresso com um levantamento de rancho
Furriel Viegas lendo a Revista do Expresso, no varandim Do Expresso, recordo os desenvolvimentos dos SUV (Soldados Unidos Vencerão), em, pleno 75 de convulsões e revoluções lisboetas. Coisas que nós, com formação militar pré-25 de Abril, tínhamos constrangimento em compreender. Alguns de nós, bem entendido! E os que de nós vinham de férias a Portugal, não levavam no bornal esclarecimentos que nos adequassem aos tempos que se viviam em Lisboa! Por outro lado, como já aqui contei, notícias havia do Expresso que não eram notícia: vejam a «história» da ponte do Dange (no post de 23 de Maio).
sábado, 20 de junho de 2009
Matos, o furriel memorizador de números mecanográficos
Cabos Milicianos Neto, Viegas, Matos e Monteiro, Ainda última vez que estive com ele, lhe quis pregar uma partida: «Então, olha lá, qual é o número do Mourato!!!».
E, zás, num ápice, respondeu ele: «Tal, tal, tal e tal!!!...».
«E o do Letras?!!!...».
E o Matos, pumba, metralhou-o, algarismo a algarismo!
Espantoso, meu caro Matos, de Avelãs de Caminho! Ainda hoje acho isso admirável!
- MOURATO: Abel Maria Ribeiro Mourato, furriel miliciano vagomestre, de Portalegre.
- LETRAS. António Carlos Dias Letras, furriel miliciano de Operações Especiais, empresário, de Palmela.
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Ora perguntai lá ao inimigo quem somos!
A 26 de Junho de 1974, foi dia da nossa primeira ida ao Destacamento da Fazenda Luísa Maria - fazendo protecção ao comandante da Zona Militar Norte, que era também o Governador do Distrito de Uíge, o brigadeiro Altino de Magalhães.
Por esses dias, tinha sido o juramento de fidelidade de todos os alferes, o que foi razão para farta brincadeira com os nossos jovens companheiros oficiais milicianos. «Jurar, tens de jurar? Quem mais jura mais mente...», glosávamos nós, principalmente na nossa relação com o Alferes Garcia, o comandante do Pelotão de Reconhecimento, Serviço e Informação da CCS. Oficial de Operações Especiais - Ranger, como nós!
O 25 de Abril tinha acontecido havia dois meses, muitas e fartas labaredas de paixão política e revolucionária se acendiam e apagavam da noite para o dia, discutiam-se os méritos e deméritos do que passava em Lisboa e nós, por lá, reflectíamos os slogans gritados e assumidos em Santa Margarida, onde decorreu a nossa instrução operacional, pré-25 de Abril: «O soldado português é dos melhores do mundo!». Ou «o exército português é o espelho da nação!», também «o suor da instrução é sangue que não corre!». Ou ainda o básico princípio de «querer e saber querer», que permanentemente nos incitavam e psicologicamente preparavam para as tarefas que íamos ter em Angola. O lema era «Perguntai ao inimigo quem somos!». Perguntaríamos?
- «Será que isto tudo valerá a pena?», interrogámo-nos muitas vezes, nos primeiros tempos de adaptação às terras do Quitexe e normalmente nas horas imediatamente anteriores às nossas partidas para uma qualquer missão - como no da foto.
Por Lisboa, no «puto», ia o que nós nem sabíamos bem - ou sabíamos de forma quiçá adulterada, seguramente confusa. Se vão entregar «isto», porque estamos aqui? Gritava-se nas ruas de Lisboa e de Portugal «nem mais um soldado para Angola!» Ou para a Guiné e Moçambique! E nós por lá!
«Estamos cá para isto e para isto nos preparámos...», dizia sempre, sempre entusiasmado e convicto, o querido Alferes Garcia, que foi nosso exemplo de coragem e capacidade de decisão em cada dia dos nossos dias ultramarinos. Era dos que perguntaria «quem somos», sem medo, ao inimigo que não conhecíamos.
- GARCIA: António Manuel Garcia, alferes miliciano de Operações Especiais, de Pombal de Ansiães. Foi agente da Polícia Judiciária e faleceu num acidente de viação, perto de Viseu, em finais da década de 70.
- SAMPAIO. Carlos João da Costa Sampaio, alferes miliciano atirador de cavalaria, da 1ª. CCAV 8423 (Zalala).
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Outros que no Quitexe estiveram antes...
O furriel Morais e os primeiros isqueiros BIC no Quitexe
Clique, par ampliar a foto.
À noite, no bar, interrogou-me o Morais: «Aquilo é sempre assim?!...".
Passou-se o tempo e o Morais veio a Portugal de férias, levando para lá a grande novidade dos isqueiros BIC. Uma noite, a conversar no varandim do bar de sargentos, disse-me o Morais, a perguntar-me, muito sério: «Vocês não têm medo quando saem?».
- «Temos, claro...», disse-lhe eu.
- «Mas já estão habituados, não é?!...».
- «É... - disse-lhe eu - só ficamos f... é quando as viaturas avariam!...». Estava a provocá-lo, na brincadeira, ele era o furriel mecânico-auto.
- «Lembrei-me disso uma série de vezes, agora em Portugal!».
O Morais disse-me isto com um ar algo seráfico, de tez comprimida, diria até que de corpo hirto. Puxou de um cigarro e ofereceu-me outro, deixando-me com ele na mão. Procurou o isqueiro nos bolsos do camuflado e acendeu-os! Foi a primeira vez que eu vi um BIC, a gás! Ao tempo, a 25 de Abril, os isqueiros careciam de licença e eram de gasolina. O Morais fez um novelo de fumo, expeliu-o no ar quente da noite e acomodou-se na cadeira de fitas de plástico. Eu, puxei o fumo e engasguei-me, a tossir! Eu não fumava!
- MORAIS. Norberto António Ribeirinho Carita de Morais, furriel-miliciano mecânico-auto, natural de Niza. É técnico principal da Estação Nacional de Tratamento de Plantas, em Elvas.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
O palrador e malcriado papagaio do Bento....
Hoje venho falar do Bento, furriel miliciano de Operações e Informações, nado do Barreiro e a paz e o sossego em pessoa. Nada afligia o Bento! Era rapaz de grandes tranquilidades, sempre de sorriso aberto e, diria eu, que meio envergonhado. Ora olhem para ele, na foto! Por ele, viria tudo de bom ao mundo!
São incontáveis as longas horas das noites quitexanas, passadas no bar e no varandim da entrada térrea, à conversa sobre as coisas actuais daquele tempo em que nos deixámos embriagar e enfeitiçar pelos cheiros e sabores africanos.
Não era de muitas palavras, o Bento! Era mais de sorriso de concordância ou abano de cabeça, na algaraviada das nossas conversas, entre parábolas e veemências de quem discutia razões e debatia argumentos! Sempre, entre todos, sem um qualquer azedume!
O que venho contar é a história do papagaio que o Bento comprou para oferecer à mãe. Comprou-o ele e ensiná-lo nós a papaguear os piores vernáculos! E o pior qual era? Era o papagaio dizer, empoleirado na gaiola ou a passear-se numa vara em que o agitávamos, como se dissesse a mais generosa coisa do mundo: «O Bento é pan....». Hoje, diria o papagaio que o Bento era gay.
O Bento, sempre bonacheirão e divertido, nunca se aborreceu connosco, até piada achava. E ria-se, ria-se, ria-se... Não só porque ele não era nada disso, como porque era a bondade e bonomia em corpo de furriel!
Abraços, Bento!
- BENTO. Francisco Manuel Gonçalves Bento, furriel miliciano de Operações e Informações, CCS, natural do Barreiro.
- REINA. Armindo Henrique Reina, furriel miliciano atirador de cavalaria, 3ª. CCAV 8423, de Belmonte.

















