«Então, olha lá... e a minha Nani?!....», interrogou um dia o Monteiro, a deitar suores de saudade por tudo quanto eram poros do seu corpo quente, nostalgiado da ao tempo jovem professora primária que assinava Fernanda Queirós. Como hoje, mas já avó! A Nani!
BATALHÃO DE CAVALARIA 8423. Os Cavaleiros do Norte!!! Um espaço para informalmente falar de pessoas e estórias de um tempo em que se fez história. Aqui contando, de forma avulsa, algumas histórias de grupo de militares que foi a Angola fazer Abril e semear solidariedade e companheirismo! A partir do Quitexe, por Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Ponte do Dange e Songo! E outras terras do Uíge angolano, pátria de que todos ficámos apaixonados!
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Juras e verdades de amor do Quitexe para Portugal ...
«Então, olha lá... e a minha Nani?!....», interrogou um dia o Monteiro, a deitar suores de saudade por tudo quanto eram poros do seu corpo quente, nostalgiado da ao tempo jovem professora primária que assinava Fernanda Queirós. Como hoje, mas já avó! A Nani!
terça-feira, 23 de junho de 2009
O soldado que se deixou morder por um cão do Quitexe...


CRÓNICA de
A. CASAL FONSECA
Marrazes (Leiria)
Foto da época
Naquele dia, ele estava radiante e tinha razões de sobra. Afinal, o Quitexe nem era aquele fim de mundo de que tanto se falava! Ali, naquela pequena vila, alguém o foi contratar para jogar no Recreativo de Uíje! Finalmente, iria pôr à prova todos os seus dotes de exímio avançado/goleador!
Aproveito o cumprimento do Sr. Guedes, vizinho do Topete, que avistando três cães encetou conversa sobre eles. Queixava-se do perigo que representavam e, sorrindo, lá me foi avisando que não respeitavam fardas para satisfazerem os seus instintos. Finda a conversa, não folguei mais de um minuto, até sentir os dentes bem afiados num membro inferior, impacto que quase me tombou! Fiquei aterrorizado, não tanto pela dor mas pelo sangue que, em segundos, já pintava o alcatrão de vermelho! Aquilo não era normal e ainda por cima protegido com o camuflado!
Ainda retenho a imagem de uma miúdita, filha de um comerciante, penso que seria Barata, fugir apavorada para a loja e aos gritos. Ainda bem que o amigo Álvarito já não estava comigo, porque só ia complicar! Tinha aqueles problemas com o sangue…”adormecia” e dizia que era de família! Um indivíduo dirigiu-se a mim e, com voz segura, disse-me: «Puxe depressa as calças e tanto me faz se é para cima ou para baixo!...».
Olá… então, mas como é que é…?! Mas quem é este gajo com este paleio?! Vendo que eu não estaria muito por aqueles ajustes, cerrou os punhos e gritou: «Porr…está a olhar para onde? Está com medo de quê, sou o enfermeiro Simões do Quitexe …!».
Não hesitei e num ápice fiquei em parcos preparos. Ele tinha acabado de prestar os seus préstimos a uma senhora doente e foi o chamado anjo caído das alturas. Mais tarde, vim a saber da sua polivalência e dos serviços requisitados como parteiro, vindo a destacar-se profissionalmente em Viseu, no pós-75.
O cão tinha sido certeiro, ao apontar para uma veia importante, o que causou toda aquela angústia!
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Dias e nostalgias do Quitexe!

Há olhares nostálgicos em todo o lado, até no Quitexe, este na cadeira de fitas da entrada da casa dos furriéis, num qualquer final de tarde dos finais de 1974. Não faço a menor ideia, é claro, do que me passaria pela cabeça naquele momento! Teria saudades dos cheiros e dos sons de Ois da Ribeira, a minha aldeia?! Vontade de me sentir perto de alguém?! De uma mesa farta de uns bons rojões com grelos e broa da Maria Dulce, a senhora minha mãe - ao tempo viúva de dois anos?! Ou de um bom leitão assado à moda da Bairrada?!
Não sei! Paixão, não era!!! Que eu era rapaz de coração livre como os passarinhos que voavam na nossa imaginação e o correio que eu recebia às mãos-cheias era tudo epístolas de gente amiga e da família! Nada de namoradas!
Os dias do Quitexe tinham... dias! Alguns bem amargados no pó que nos «embebedava» nas picadas e entossicava as emoções, quando, de olhos bem abertos e sentidos apurados, queríamos não ouvir os nossos medos! Outras, de farta folia, nos bares civis e no aquartelamento - quando nos juntávamos em corropios de palavras e de cervejas, emendando ideias e aplainando teorias sobre o Portugal que se embruulhava em revoluções e contra-revoluções!
Talvez ali nesta foto eu estivesse a avaliar, sei lá..., o como tantas vezes eramos imprudentes heróis, sempre que nos aventurávamos em patrulhas e operações que esventravam florestas e trilhos, por onde gretávamos os olhos de alguns medos - para nos sentirmos mais fortes, se a madrugada de alguma guerra nos obrigasse a jorrar sangue e defender em palmos de terra, o metro a metro da nossa segurança!
Ou estaria a espreitar alguma caucasiana do Quitexe, que pela avenida de baixo fosse a desfraldar as suas asas, inspirando-nos pecados de carne que aqui não devo contar?!!!
Eram dias!!! E nostalgias!!! Isso eram!
domingo, 21 de junho de 2009
O que teve a ver o Expresso com um levantamento de rancho
Furriel Viegas lendo a Revista do Expresso, no varandim Do Expresso, recordo os desenvolvimentos dos SUV (Soldados Unidos Vencerão), em, pleno 75 de convulsões e revoluções lisboetas. Coisas que nós, com formação militar pré-25 de Abril, tínhamos constrangimento em compreender. Alguns de nós, bem entendido! E os que de nós vinham de férias a Portugal, não levavam no bornal esclarecimentos que nos adequassem aos tempos que se viviam em Lisboa! Por outro lado, como já aqui contei, notícias havia do Expresso que não eram notícia: vejam a «história» da ponte do Dange (no post de 23 de Maio).
sábado, 20 de junho de 2009
Matos, o furriel memorizador de números mecanográficos
Cabos Milicianos Neto, Viegas, Matos e Monteiro, Ainda última vez que estive com ele, lhe quis pregar uma partida: «Então, olha lá, qual é o número do Mourato!!!».
E, zás, num ápice, respondeu ele: «Tal, tal, tal e tal!!!...».
«E o do Letras?!!!...».
E o Matos, pumba, metralhou-o, algarismo a algarismo!
Espantoso, meu caro Matos, de Avelãs de Caminho! Ainda hoje acho isso admirável!
- MOURATO: Abel Maria Ribeiro Mourato, furriel miliciano vagomestre, de Portalegre.
- LETRAS. António Carlos Dias Letras, furriel miliciano de Operações Especiais, empresário, de Palmela.
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Ora perguntai lá ao inimigo quem somos!
A 26 de Junho de 1974, foi dia da nossa primeira ida ao Destacamento da Fazenda Luísa Maria - fazendo protecção ao comandante da Zona Militar Norte, que era também o Governador do Distrito de Uíge, o brigadeiro Altino de Magalhães.
Por esses dias, tinha sido o juramento de fidelidade de todos os alferes, o que foi razão para farta brincadeira com os nossos jovens companheiros oficiais milicianos. «Jurar, tens de jurar? Quem mais jura mais mente...», glosávamos nós, principalmente na nossa relação com o Alferes Garcia, o comandante do Pelotão de Reconhecimento, Serviço e Informação da CCS. Oficial de Operações Especiais - Ranger, como nós!
O 25 de Abril tinha acontecido havia dois meses, muitas e fartas labaredas de paixão política e revolucionária se acendiam e apagavam da noite para o dia, discutiam-se os méritos e deméritos do que passava em Lisboa e nós, por lá, reflectíamos os slogans gritados e assumidos em Santa Margarida, onde decorreu a nossa instrução operacional, pré-25 de Abril: «O soldado português é dos melhores do mundo!». Ou «o exército português é o espelho da nação!», também «o suor da instrução é sangue que não corre!». Ou ainda o básico princípio de «querer e saber querer», que permanentemente nos incitavam e psicologicamente preparavam para as tarefas que íamos ter em Angola. O lema era «Perguntai ao inimigo quem somos!». Perguntaríamos?
- «Será que isto tudo valerá a pena?», interrogámo-nos muitas vezes, nos primeiros tempos de adaptação às terras do Quitexe e normalmente nas horas imediatamente anteriores às nossas partidas para uma qualquer missão - como no da foto.
Por Lisboa, no «puto», ia o que nós nem sabíamos bem - ou sabíamos de forma quiçá adulterada, seguramente confusa. Se vão entregar «isto», porque estamos aqui? Gritava-se nas ruas de Lisboa e de Portugal «nem mais um soldado para Angola!» Ou para a Guiné e Moçambique! E nós por lá!
«Estamos cá para isto e para isto nos preparámos...», dizia sempre, sempre entusiasmado e convicto, o querido Alferes Garcia, que foi nosso exemplo de coragem e capacidade de decisão em cada dia dos nossos dias ultramarinos. Era dos que perguntaria «quem somos», sem medo, ao inimigo que não conhecíamos.
- GARCIA: António Manuel Garcia, alferes miliciano de Operações Especiais, de Pombal de Ansiães. Foi agente da Polícia Judiciária e faleceu num acidente de viação, perto de Viseu, em finais da década de 70.
- SAMPAIO. Carlos João da Costa Sampaio, alferes miliciano atirador de cavalaria, da 1ª. CCAV 8423 (Zalala).
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Outros que no Quitexe estiveram antes...
O furriel Morais e os primeiros isqueiros BIC no Quitexe
Clique, par ampliar a foto.
À noite, no bar, interrogou-me o Morais: «Aquilo é sempre assim?!...".
Passou-se o tempo e o Morais veio a Portugal de férias, levando para lá a grande novidade dos isqueiros BIC. Uma noite, a conversar no varandim do bar de sargentos, disse-me o Morais, a perguntar-me, muito sério: «Vocês não têm medo quando saem?».
- «Temos, claro...», disse-lhe eu.
- «Mas já estão habituados, não é?!...».
- «É... - disse-lhe eu - só ficamos f... é quando as viaturas avariam!...». Estava a provocá-lo, na brincadeira, ele era o furriel mecânico-auto.
- «Lembrei-me disso uma série de vezes, agora em Portugal!».
O Morais disse-me isto com um ar algo seráfico, de tez comprimida, diria até que de corpo hirto. Puxou de um cigarro e ofereceu-me outro, deixando-me com ele na mão. Procurou o isqueiro nos bolsos do camuflado e acendeu-os! Foi a primeira vez que eu vi um BIC, a gás! Ao tempo, a 25 de Abril, os isqueiros careciam de licença e eram de gasolina. O Morais fez um novelo de fumo, expeliu-o no ar quente da noite e acomodou-se na cadeira de fitas de plástico. Eu, puxei o fumo e engasguei-me, a tossir! Eu não fumava!
- MORAIS. Norberto António Ribeirinho Carita de Morais, furriel-miliciano mecânico-auto, natural de Niza. É técnico principal da Estação Nacional de Tratamento de Plantas, em Elvas.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
O palrador e malcriado papagaio do Bento....
Hoje venho falar do Bento, furriel miliciano de Operações e Informações, nado do Barreiro e a paz e o sossego em pessoa. Nada afligia o Bento! Era rapaz de grandes tranquilidades, sempre de sorriso aberto e, diria eu, que meio envergonhado. Ora olhem para ele, na foto! Por ele, viria tudo de bom ao mundo!
São incontáveis as longas horas das noites quitexanas, passadas no bar e no varandim da entrada térrea, à conversa sobre as coisas actuais daquele tempo em que nos deixámos embriagar e enfeitiçar pelos cheiros e sabores africanos.
Não era de muitas palavras, o Bento! Era mais de sorriso de concordância ou abano de cabeça, na algaraviada das nossas conversas, entre parábolas e veemências de quem discutia razões e debatia argumentos! Sempre, entre todos, sem um qualquer azedume!
O que venho contar é a história do papagaio que o Bento comprou para oferecer à mãe. Comprou-o ele e ensiná-lo nós a papaguear os piores vernáculos! E o pior qual era? Era o papagaio dizer, empoleirado na gaiola ou a passear-se numa vara em que o agitávamos, como se dissesse a mais generosa coisa do mundo: «O Bento é pan....». Hoje, diria o papagaio que o Bento era gay.
O Bento, sempre bonacheirão e divertido, nunca se aborreceu connosco, até piada achava. E ria-se, ria-se, ria-se... Não só porque ele não era nada disso, como porque era a bondade e bonomia em corpo de furriel!
Abraços, Bento!
- BENTO. Francisco Manuel Gonçalves Bento, furriel miliciano de Operações e Informações, CCS, natural do Barreiro.
- REINA. Armindo Henrique Reina, furriel miliciano atirador de cavalaria, 3ª. CCAV 8423, de Belmonte.
terça-feira, 16 de junho de 2009
A serenata que deu em arroz de galo...
Antigo posto da Mobil, no Quitexe - nos dias de hoje. Já teve dias bem piores. Pelo tempo da minha passagem por lá, esta estrada (que liga a Luanda e Carmona) era espaço de largas caminhadas e fartas conversas - nas mais das vezes recordando as nossas terras de origem, os nossos amigos, as festas populares, as romarias, os madrigais que então se cantavam, em jeito de declarações nocturnas, nas ao tempo famosas serenatas.Ali por perto, em casa sei eu de quem mas não digo, fizemos serenata uma noite, com um velho gira-discos geringonçando cantigas de bem-dizer e louvores ao amor!
Promessas e inocentes mentiras da juventude, que na terra quitexana tinham uma dimensão diferente, se sentiam de forma diferente, se entoavam em jeito de morna mal-ajeitada, quando queríamos e mal fazíamos coro em play-back.
A serenata, claro está, tinha destino, uma jovem estudante em Carmona, que por lá passava fins de semana em casa de família. Um borracho em quem todos púnhamos os olhos de desejo!
Pois bem, lá geringonçava o gira-discos e nós a pôr pimenta na letra. Pimenta e desejos! E esperanças de amores correspondidos!
Acendeu-se a luz, na casa de janelas cerradas que a protegia da noite. Subiu o calor à cabeça da malta: a miúda estava ali. Dava troco!
Só que não estava: quem levantou a janela interior de madeira, deixando jorrar luz da casa para a estrada, foi a mãe da cachopa! Que nos convidou a entrar! E o marido, olhe lá, não ficará mal a senhora?! Não irão mal-dizer os vizinhos por abrir a porta a três militares! E como embriagados estavam eles, de desejos que agora aqui não posso contar! Pois que não, qual quê? "Façam favor de entrar...!. E lá fomos nós, meio desconfiados e já de gira-discos sem pilhas.
Na cozinha de fora, pelo vistos nisso especializado, era o marido da senhora que tinha uma arrozada de galo prontinha a servir! Abençoada serenata! E sabem porque o fez? Porque a serenata lhes matou as saudades da terra onde nasceu o casal!
domingo, 14 de junho de 2009
Dois tipos de Ois da Ribeira no Quitexe!!!
sábado, 13 de junho de 2009
Aldeia Viçosa e Santa Isabel, «casas" de outros cavaleiros

Havia alguma curiosidade, nossa, em conhecer os locais onde estavam as três companhias operacionais do BCAV 8423. Curiosidade aguçada pelo desejo de reencontrar os amigos feitos nos meses de preparação militar em Santa Margarida e que diferentes partidas para Angola tinham feito desencontrar. Nós, sentíamos-nos bem pelo Quitexe! E eles?! Como se sentiriam eles nas suas novas «casas»!?
A oportunidade surgiu a 26 de Junho de 1974, quando nos juntámos ao grupo que, de Carmona, escoltava os comandantes da Zona Militar Norte (General Altino de Magalhães) e do Comando de Sector do Uíge (Coronel Tirocinado Bastos Carreiras), a quem, no Quitexe, se juntou o nosso comandante - o então Tenente-Coronel Almeida e Brito (foto).
«Cuidado, atenção... vão escoltar os mais altos comandos militares da ZMN», avisou-nos que devia avisar - ao aviso juntando um rol de recados que agora não vem ao caso.
Lá fomos nós, e sem quaisquer problemas, na verdade, embora de olhos sempre bem abertos e sentidos bem apurados.
Aldeia Viçosa, por onde já tínhamos passado (na viagem de Luanda), era a "casa" da 2ª. CCAV. Lá encontrei o Matos, o Brejo, o Melo, o Letras, o Guedes, o Chitas. A vila, porventura mais pequena que o Quitexe, era bem agradável - nada de ser o tal "buraco" de que sempre nos falavam, a falarem de Angola. A 3ª. Companhia estava em Santa Isabel e lá galgámos a picada, ate à fazenda onde «moravam» os nossos companheiros. Tempo para, no bar, matar as sedes que se faziam do pó fino da picada, e do calor, e de trocar impressões sobre a «guerra». Por lá estavam o Reina, o Gordo, o Carvalho, o Flora, o Rodrigues, o Fernandes - só para falar dos mais próximos! Tudo gente bem disposta e tranquila.
As impressões trocadas, num e outro lado, deixaram-nos muito descontraídos e confiantes. Afinal, o admastador de medos que se tinha das traições e perigos da mata não seria coisa que «matasse» a nossa confiança! Confiança, aliás, reforçada por um relevante pormenor: se os mais altos comandos militares circulavam com a tranquilidade que vimos e sentimos - e eles teriam informações (secretas) que nós não naturalmente não conhecíamos - pois havia que termos serenidade e desafogo emocional.
Por conhecer ficou a famosa picada para Zalala, onde «acampou» a 1ª. Companhia. Foi a um outro dia!
- MATOS. Mário Augusto da Silva Matos. Furriel miliciano atirador de cavalaria. Actualmente, administrativo em Anadia.
- MELO: José Fernando Noro Dias de Melo, idem, de Alfarelos. Agente da GNR
- BREJO: João António Piteira Breja, idem, de Montemor-o-Novo. Trabalhador de Serviços
- GUEDES. António Artur César Monteiro Guedes, idem, de Peso da Régua. Sargento-Mor da GNR.
- CHITAS. António Milheiros Courinha Chitas, idem, de Gavião. Desconheço a actividade.
- LETRAS. António Carlos Dias Letras. Furriel de Operações Especiais, de Setúbal. Empresário.
- REINA. Armindo Henrique Reina. Idem, de Belmonte.
- GORDO. António Luís Barradas Mendes Gordo. Furriel miliciano atirador de cavalaria. Funcionário municipal em Alter do Chão.
- CARVALHO. José Fernando da Costa Carvalho, idem, aposentado da PSP, no Entroncamento.
- FLORA. António Pires Flora, idem, quadro da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa.
- FERNANDES: António da Costa Fernandes, idem, professor, de Lomar (Braga).
- RODRIGUES. Augusto Rodrigues. Alferes miliciano de Operações Especiais, quadro dos Serviços de Meteorologia do Aeroporto de Lisboa.
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Amuos de amor, perdas e ganhos de paixões para uma vida...
No Quitexe fora de horas, as noites eram de tranquilidade total. O calor, por vezes sufocante porque aliado à humidade, não dava tréguas. Era precisamente nestas horas de ócio que mil pensamentos assaltavam as mentes dos mais nostálgicos. Eram as saudades, as paixões, os amores, enfim…coisas do peito!Naquela noite, o amigo R… estava numa tristeza que metia dó! Não seria provavelmente o único mas, sendo um dos mais alegres da Companhia, era de estranhar. A muito custo, lá foi despejando as angústias e desesperos que o seu amor de além-mar lhe estava a infligir. Passados seis meses após a sofrida despedida, as coisas pareciam ter esfriado. Isto, ele não entendia, porque dizia terem selado uma jura de compromisso! Eu, na maior calma do mundo (digo eu...), bem tentava chegar a ele uma outra possível realidade. Cumpridos alguns segundos de silêncio, colocando-me a mão no braço e olhando-me nos olhos em tom pausado e sereno retorquiu: «Não, na minha terra não é assim… A gente quando namora é a sério… a gente não brinca às casinhas… casa mesmo!!!… Então como é?!...».
Aquele tom de voz franco era tão raro naquele dia-a-dia que quase se poderia considerar pecado. Sofria com a escassez de cartas recebidas, mas desesperava ainda mais com o seu teor. As frases que falavam de amor, de paixão e de outros momentos felizes escasseavam de missiva para missiva! Pois é, pois é…, ele também só lhe falava de tropa, do tempo e pouco mais!
«Sabes, Casal, eu nunca fui muito de coisas assim mais…, pronto mais íntimas...», dizia-me! «Sabes, a gente no campo… essas lambuzices! Ah!...».
Estava ali um belo bico-de-obra, que eu estava muito empenhado em resolver (ajudar). Meter-me ali não ia ser nada fácil, mas o risco também existe para ser corrido! E se eu conseguisse imitar a letra e escrevesse um anexo? Seria uma pequena maldade… e inocente. Meia dúzia de linhas que tão simplesmente iriam falar do tal amor e da tal paixão (aqui, arrisquei...) poderiam muito bem sacudir um coraçãozinho em banho-maria!
Introduzir o anexo no envelope é que não iria ser fácil… E não foi! Mas ele lá seguiu por terra e por ar, rumo à pequena aldeia e não se perdeu.
Dois meses passados, o R…, em passo acelerado, aproximou-se de mim. Agora, quase segredando e com um sorriso a transbordar malícia atrevidota, disse-me: «Eh pá…, lá a minha M tá a ficar muito atiradiça!... Ih, ih, ih…».
Deixando-me especado e meio incrédulo a olhar para ele, correu atrás dos amigos, rumo ao Topete, onde, com alegria incontida, iria certamente refrescar-se com algumas nocais! Ao vê-lo afastar-se, pensei, como penso ainda hoje: «Pois… ele há cada coincidência!».
Em Dezembro de 1980, teve a persistência de encontrar a minha morada e brindou-me com um bonito postal de Boas Festas. Ao abri-lo, ouço, vindo do interior, uma música alusiva ao Natal (ainda toca). Continha uma mensagem tão simples e sincera como ele!
Era assinada pelo R… e pela sua M…
A primeira operação millitar, lá para os lados de Camabatela
em cima, a contar da esquerda). Clique na foto, para a ampliar
A 20 de Junho de 1974, o Batalhão de Cavalaria 8423 teve a sua primeira operação em terras do Uíge, virada para as chamadas centrais do Negage e do Mungage - cabendo-nos esta na «rifa», considerada perigosíssima. A operação era a nível do Sector do Uíge, envolvendo o nosso batalhão e outros, ainda com o BCAC 4211 no Quitexe, mas sem intervir.
Quem também interveio nessa operação chamada Colibri 310, e socorro-me aqui do livro «História da Unidade», foi a 41ª. Companhia de Comandos e os Flechas de Carmona. Um soldado «comando» pisou uma mina anti-pessoal para os lados do Negage, ficou sem um pé (amputado) e a 41ª. Companhia abandonou a operação ao fim de 18 horas.
O PELREC, nesta estreia operacional, evoluiu sob o comando do Alferes Garcia e por zonas de mata densa e plantações de café, palmilhando trilhos que adivinhávamos traiçoeiros e pisávamos com mil cuidados. Também por uma ou outra picadas e com passagens à vista de tabancas e lavras que nos diziam ser de guerrilheiros. Fomos largados a uns 80 quilómetros do Quitexe, na estrada para Camabatela - numa fazenda onde voltaríamos meses mais tarde, para intervir numa rebelião dos negros contratados para a campanha do café.
Não tivemos qualquer contacto com o dito «inimigo».
Saímos às 4 horas da madrugada do dia 20 e voltámos ao Quitexe ao fim da tarde do dia 21 de Junho. Cansados e sujos, de pele ensopada de suor e pó, fardas mal ataviadas mas com evidente sensação de alívio! Tínhamos passado ilesos do primeiro contacto vivo com iminente situação de combate! E não houve, não se ouviu um "ai de medo" de ninguém do pelotão! Sentimo-nos muito encorajados!
Um outro grupo do BCAV foi emboscado no Tabi, mas rapidamente foi embora o «inimigo», depois de uns tiros de aviso! E no «quartel» de Aldeia foi capturado um velho negro que, depois de ouvido no Quitexe, foi "devolvido" à mata!
É desse dia 21 de Junho a minha «estreia» a comer camarão! Nunca tinha comido, acreditem! O mais parecido, tinham sido cabras, que eram trazidas do mar da Barra e Costa Nova pelos chamados "sardinheiros» que por aqui vendiam peixe de porta em porta! E em minha casa não havia luxos para mais. Fomos jantar, eu e o Neto, ao Pacheco, depois de um banho de largos minutos, nos chuveiros da casa dos furriéis! E tão bem nos soube aquela água mole do clima, a molhar-nos o corpo por inteiro!!
- PACHECO. Restaurante do Quitexe, na foto. Ficava mesmo em frente à Casa dos Furriéis, que ficava entre o comando da CCS e a messe de oficiais, na avenida (rua de baixo).
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Juramento de bandeira de há 36 anos recordada no Quitexe
A 10 de Junho de 1974 já andávamos há uns dias pelo Quitexe mas a soberania militar da zona de acção era ainda do Batalhão de Caçadores 4211, que nós fomos substituir. Fazia um ano, exactamente, que eu jurara bandeira, na Escola Prática de Cavalaria, em Santarém! Bem me lembro que me lembrei disso!
O juramento de bandeira é um dia muito especial e, por mim, vivi-o muito emocionado. Fui dos raros instruendos que lá não tinha família a assistir, mas não foi por isso, ou pelo garboso desfile nas ruas da cidade, por aquele nervosinho que sempre nos constrange, ou pelo friozinho que nos sobe a espinha. Não foi por isso que me emocionei. O que realmente me deixou impressionado foi a cerimónia de entrega de medalhas de guerra a pais e viúvas de militares mortos na guerra ultramarina. Não me recordo quantos foram, mas o que me sensibilizou em particular foi a mão que uma viúva, muito jovem, dava a um filho de três ou quatro anos, vestido de de fatinho e gravata - orfão do pai que morrera «ao serviço da pátria» - no momento em que recebeu a medalha. E o desmaio do meu companheiro do lado, na formatura - ido abaixo pelo sol a pique que nos caía sobre a cabeça!
Hoje, ao ver na televisão o 10 de Junho que se comemorou em Santarém, ocorreram-me estas memórias. Há 36 anos, estava eu numa formatura muito parecida como a que, hoje, fez guarda de honra ao Presidente Cavaco Silva. As circunstâncias é que eram outras! Mais parecidas com as da foto.
- FOTO. A foto é meramente indicativa, embora de um juramento de bandeira da Escola Prática de Cavalaria, tirada DAQUI. O aspecto do nosso desfile não teria sido muito diferente - este é do quarto turno de 1973, eu frequentei o segundo. Depois, marchei para Lamego.
terça-feira, 9 de junho de 2009
O soldado de cavalaria que chorava pela mulher e pelas duas filhas doentes...

As saudades eram razão para alguns momentos menos bem passados no Quitexe. Por mim, abusando de algum racionalismo criado e crescido nas minhas raízes rurais, dava-me bem com esses momentos: lia, escrevia, caminhava, contava(-me) histórias, deixava passar o tempo.
Esta mesa, ao lado da minha cama - no quarto que partilhava com o Neto - teria muitas histórias para contar. O que ali se vê pousado, enquanto redijo alguma coisa para alguém, é um livro de poemas, que relembro pela capa mas sem conseguir identificar o autor. Outros se vêem na improvisada estante, ao meu lado esquerdo.
Por ela, pela mesa, passaram sementeiras de muitos sonhos e promessas de muitos amores - as mesmas que os aerogramas carreavam para Portugal, ao encontro do coração de muitas namoradas e madrinhas de guerra. Nesta mesma mesa, escrevi a talvez mais dramática mensagem enviada para Portugal, a de um soldado já pai de duas crianças, ambas adoentadas e uma delas gerada na quase certa pressa de casal mais afoito, nalgum milheiral dos lados de Pombal. Isso o levou, ao casal de namorados, a uma envergonhada apressada ida ao altar, roubando-se ao mal-dizer dos vizinhos e da aldeia.
A jovem mãe, também doente e sem meios de sustento que dessem para tantos remédios e mais e melhores cuidados, escreveu ao marido-soldado plangente recado: «Já não sei o que fazer!...».
O soldado, nosso irmão do destino quitexano, irmão feito do mesmo barro e tendo a mesma alma, há dias que andava diferente: cabisbaixo,entristecido, desconcentrado. Chorava!!! E então o que era? Era ele estar ali, longe, muito longe.. e não poder fazer nada pelas suas meninas. Era ele não saber que amanhã seria o delas. Era ele saber que as famílias, a dele e a da mulher, não olhavam nem cuidavam da dor que se vivia na sua casa! E a mulher, coitada, jovem e só, entregue aos seus medos e dificuldades.
Tinha um amigo que trabalhava nas Meirinhas de Pombal e Alcogulhe, perto de Leiria (já falecido, companheiro de artes profissionais), a quem lancei apelo: «Ajude essa família!...». Ajudou!
Tive o gosto de conhecer estas meninas, já mulheres e mães, em 1999, num encontro de militares do BCAV 8423. E o (ex)soldado, agora um marido feliz e reconhecido, lembrou para elas e em outras e suas palavras, esta história que aqui deixo. E apresentou-me os netos! Três ou quatro netos e netas! Ou cinco?! Embebecido e eufórico! Feliz! Gostei, meu caro!
- SOLDADO: Intencionalmente, não cito o nome do soldado. Direi apenas que era ajudante de motorista. Um abraço para ele, se me ler!
segunda-feira, 8 de junho de 2009
A escola primária e outras coisas primeiras do Quitexe...
Escola primária do Quitexe. Um dos primeiros alvos da nossa curiosidade na vila foi conhecer os edifícios públicos. Já aqui falámos por várias vezes da capela (igreja) da Mãe de Deus do Quitexe - e, já agora, da missão do lado, onde sacerdotava o padre Albino Capela. Olhámos a administração civil com curiosidade, passeámos o jardim, olhámos o hospital, espreitámos um e outro estabelecimentos comerciais, fomos semeando empatias com os civis e, numa palavra, fomos-nos sentindo integrados. Eu, por mim, quis ir conhecer o cemitério. Igrejas e cemitérios ainda hoje são, para mim, os espelhos de qualquer localidade. E gostei!
Os militares que substituímos bem nos ajudaram nessa integração e, por mim - que nem sou muito dado a empatias de primeiro olhar, valha a verdade que me sentia muito bem! Os novos cheiros, os novos sons do dia-a-dia, o calor imenso que nos ensonava e transpirava, as mulheres negras de seios imensos e quase desnudados que passavam com os filhos amarrados ao corpo de um jeito para nós estranho. O seu bombalear sensual, de carapinhas imensamente negras, olhos e boca grande, gingando, gingando... e emprestando o seio à fome das suas crianças! A vegetação imensa e os sumarentos frutos tropicais que nos matavam a gula! Tudo isso, e quanto mais!!!, nos tornou quitexanos logo nos primeiros dias.
domingo, 7 de junho de 2009
O nosso primeiro dia inteiro no Quitexe...
Jantámos, demos outra volta pela vila e... ala para vale de lençóis, que se fazia tarde!
sábado, 6 de junho de 2009
A nossa primeira noite do Quitexe...
Eu, e as minhas literaturas, na janela do Foto (eu) de há 35 anos, agora tratada em programa informático
A minha cara era esta, à chegada ao Quitexe, a 6 de Junho de 1974. Faz hoje 35 anos e era eu rapaz para pouco mais de 21, todo desempenado e muito seguro e convicto da ideia de cumprir como devia a missão que me (nos) levara até lá. E para a qual, de resto, me tinha(m) preparado na Escola Prática de Cavalaria (em Santarém) e no Centro de Instrução de Operações Especiais, o CIOE (os Rangers, em Lamego)!
Era a idade de todas as irreverências, dos não-medos e das não-dúvidas e até de algumas leviandades. Lá chegados, depois dos dias de forrobodó de Luanda, todos tínhamos consciência de que tudo ia ser diferente! E foi, embora seguramente uma gratificante experiência!
Já aqui lembrei o meu breve recolhimento na Igrega da Senhora Mãe de Deus do Quitexe! E a conversa rápida com o Casares, um dos furriéis que se ia embora! Recordo hoje a noite do meu primeiro sono quitexense, no quarto que iria ser nosso espaço quase privado, meu e do Neto, para não sabíamos nós quanto tempo. Encostámos as malas - eu levava apenas uma bem pequena e um mini-saco, daqueles da TAP - esticámos os lençóis e pusemos as fronhas no travesseiro, na qual iríamos lavrar muitos sonhos e dúvidas. Quase ao mesmo tempo, estendemo-nos cada qual na sua cama e falou o Xico (Neto), uns segundos depois e como que a consolar-nos: «Pronto, pá... já cá estamos!!...».
«É!....Já cá estamos!», respondi-lhe eu.
Ficámos largos minutos em sacramental silêncio, como que «falando» só para nós! Estávamos cansados da enorme viagem desde Luanda, de 320 quilómetros, e fruíamos momentos de desanuviamento físico, até que alguém gritou de fora, que era hora de jantar! Fomos, comemos, demos uma volta apeada e conversada pela vila, muito rápida, ainda fomos ao restaurante que ficava mesmo em frente dos nossos quartos e secretaria (foto) e voltámos ao quarto. O Xico escreveu o seu primeiro aerograma, sem um solto de palavra, concentrado, já saudoso e garantidamente nostálgico! Adivinhem para quem?!
Dormimos lindamente e acordámos como se estivessemos em Águeda, estando no Quitexe!
- 3ª. CCAV 8423: Hoje, em Alter do Chão, reuniu a 3ª. Companhia do BCAV. 8423. Tive o enorme gosto de falar com o Gordo e o Reina, deixando neles uma braço para a malta toda! A que sei, os cavaleiros de Santa Isabel cumpriram exemplarmente a missão que hoje lhe estava atribuída. Abraços!!!
- FOTOS: As fotos das duas casas são de Franklim e de Abril de 2009. Ver em http://quitexe-historia.blogs.sapo.pt/
sexta-feira, 5 de junho de 2009
O vizinho Neca Taipeiro a 8 000 quilómetros de casa...
Saímos do Grafanil ainda era noite da madrugada de 6 de Junho de 1974, depois de muitos pastéis comidos e algumas cervejas bem bebidas, no destacamento! Nada de exageros nas comidas e bebidas, bem entendido! O tenente Mora bem se encarregou de nos impregnar o sentimento de identidade militar e prevenindo-nos para o futuro que nos esperava: o mato, a guerra, blá, blá, blá... E lá fomos nós!A primeira grande e agradável surpresa foi a de que havia mais cidade e civilização para além de Luanda. Passámos o Cacuaco e chegámos ao Caxito, onde parámos. Tudo tranquilo! E lá seguimos. Voltámos a parar em Ucua e imaginem o meu espanto: entrámos apressados num bar, de um balcão enorme e com toda a gente a pedir cerveja! Uff, que calor!
Como me sentia obrigado, fui ficando para trás, enquanto os soldados se esgalgavam nas nocais, nas cucas, nas ekas, nas missions! Lembro-me que o Neto puxou de um cigarro, baforou o fumo em espirais que subiam no bar e me perguntou o Pires (de Bragança) se não ia beber. Claro que ia!
Aproximei-me do balcão, olhei descontraído, naquela de vou beber já, «ó migo, olhe lá, traga lá uma cerveja!...».
Olho e quem vejo eu?! O Neca!
«Ó filho do Zé Taipeiro, uma cerveja!!!...», gritei, seguramente de ar feliz, porventura provocador e cúmplice!
E o homem do bar, naquela balbúrdia, nem me ouviu.
Como já estava ferradinho na brincadeira, deixei que se calasse o barulho e voltei a gritar, do fundo do balcão, a provocar: «Uma cerveja, ó filho do Zé Taipeiro!...».
Olhou-me o homem do bar, era o Neca, o Neca Taipeiro, surpreso e de olhar interrogado. Quem é que ali, na aquele sertão imenso e longínquo, a mais de 8000 quilómetros de casa, lhe podia chamar assim? Só mesmo um vizinho, que era eu! Ainda hoje moramos a 70 metros. Abraçámo-nos!
«Como é que está Óis, como é que está o meu pai, como é que está a minha mãe?!...», perguntou-me ele, naquele supetão de questões que se fazem na surpresa de um encontro destes.
Despedimo-nos e lá fomos nós a caminho do Quitexe.
- NECA TAPEIRO: Manuel Simões Ferreira dos Reis, meu vizinho de Ois da Ribeira (Águeda), filho de José Maria Simões dos Reis, o Taipeiro. O Neca, com Aníbal Gomes dos Reis (o Lito), foram os primeiros soldados da minha aldeia a fazerem a guerra de Angola, logo em 1961. Regressaram juntos em 1963 e foram recebidos com uma enorme festa popular. Foram os meus primeiros heróis! Ainda são vivos! E meus amigos, ainda que mais velhos 12/13 anos! O Neca voltou a Angola, como civil e nessa condição o encontrei.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
A última noite de Luanda, antes do Quitexe!...
Nossa Senhora do Grafanil, local de recolhimento e oraçãoquarta-feira, 3 de junho de 2009
Os bons dias e as boas noites de Luanda....
Baía de Luanda, em 1974. Foto de Jorge Oliveira (Aveiro)
Eu e Albano Resende na Restinga (ilha), com a terça-feira, 2 de junho de 2009
Os «pilha-galinhas» ou a guerra galinácea «do Quitexe....
Era normal ter-se conhecimento de ocorrências menos boas e algumas até trágicas na zona do Quitexe. Felizmente, não eram muito frequentes mas sempre que existiam deixavam-nos um amargo de boca. Em que fazenda, qual a picada, em que Companhia? Um sem fim de interrogações!
Mas naquele dia a ocorrência tinha todos os predicados para ser grave e muito grave mesmo. Pairava uma nuvem que ameaçava anunciar qualquer coisa de fantástico e claro que nos olhávamos desconfiados. A avaliar pelo seu historial, o orador não nos traria nada de bom (isso já sabíamos...).
Finalmente, eis o capitão, com o seu ar sisudo, que começava a mirar todos os perfilados. «Ai as minhas patilhas...», pensei eu!... Bom, não era a primeira vez! Mas não é que parou mesmo à minha frente?! Fixou-me bem e deixou no ar um «entretanto a gente conversa» e eu, confesso, sabia bem porquê.
Finalmente, hirto na sua farda engomada e ainda com odor a ferro, do alto da sua idade já avançada para aquelas lides vocifera: «Recebi uma queixa da população, muito grave!!...».
Nós, pobres mortais, vimo-nos envolvidos num silêncio sepulcral, mas eis que arremata: «Exijo saber quem é que anda a roubar galinhas!...».
Rostos perplexos foi o que mais se viu, mas também de alívio. Afinal, não morreu ninguém, caramba!... «Têm até amanhã para se acusarem, ou vou levantar um auto!...», ameaçou o capitão.
Alguém mais ousado ainda tentou abrir a boca mas ouviu logo: «Sem conversa...».
Terminada a reunião, ficaram os comentários. Uns indignados com o tema, outros perplexos com a ousadia do desvio. Pela parte que me toca e se a memória não me atraiçoa, nunca tinha visto tais aves por ali.
Alguns dias depois, ao entrar na casa das transmissões, notei um ambiente estranho. O Pinto, aquele rapazinho sossegado (demais para o meu gosto) que, diziam mas eu não vi, fazia o risco no cabelo com uma régua, estava impregnado de cerveja e com os olhos esbugalhados!
Pensando já em algo de tenebroso, desci ao quintal e pelo que vi pensei estar numa planície alentejana, onde merendavam meia dúzia de trabalhadores.
O Pinto & Companhia tinham acabado de digerir duas galinhas de churrasco, temperadas superiormente pelo Zé (isto comprovo eu), mas carregadas de gindungo. Ainda estou a ver o Fernando a soprar as «quenturas» do tempero e o Zé perguntar-lhe se tinha asma!
Estava explicada a ira do Capitão! Como se deve ter sentido diminuído por, numa zona 100% operacional, ter sido incomodado por meros galináceos!
Se calhar, por ele até fechava a boca mas havia o raio da«psico»! E como é que apanhavam as galinhas em silêncio?!
Pois, fizeram um buraco no portão do quintal, arranjaram milho e espalharam-no grão a grão na rua até ao dito buraco. Depois, diz o Zé, «quando passa, o buraco leva a mocada!...».
Nisto, grita indignado o Pinto com os olhos ainda esbugalhados e lambuzado de molho: «Porra, Zé, também não era preciso arrancares-lhe a cabeça, também se comia, cara...». A casa da galinha continuou sempre no segredo absoluto. Afinal, o pessoal de transmissões estava habituado à contenção.
Na véspera do adeus ao Quitexe, o capitão com um ar sorridente (raríssimo) e matreiro abeira-se do Zé que, feliz com a simpatia do superior, retribui com igual sorriso. Nisto, vê o nariz do «maior» quase tocar o seu e ouve uma pergunta aterradora, que não esperava resposta: «Olhe lá, as galinhas eram mesmo boas?!...».
Depois, ainda estava bem presente a história do bacalhau! Então não é que naquela santa terra o produto se tornou afrodisáaco?! Será que era por comer em excesso que a sua mente se incendiava e na calada da noite buscava momentos voluptuosos? Voluptuosos e perigoso, muito perigosos mesmo! Nem quero lembrar!...
A. Casal














