terça-feira, 1 de setembro de 2009

O «patrulhamento» da CCS às Quedas do Duque de Bragança...

Quedas do Duque de Bragança, em passeio da CCS do BCAV 8423, 1974

JOSÉ S. PIRES*
Texto


A Angola que conhecemos em 1974 e 1975 era terra de enormes potencialidades e todos nós tínhamos um enorme desejo de a conhecer, para além das fronteiras do Quitexe - onde se concentrava o nosso dia-a-dia, quantas vezes ouvindo as peripécias e «aventuras» dos nossos companheiros que, pela sua especialização e obrigações militares, mais vezes saíam do aquartelamento.
Um dia, foi preparado um «passeio» às Quedas do Duque de Bragança, que ao tempo era grande atracção turística angolana. E principalmente para aqueles que, na verdade, menos saíam do quartel. Chamámos-lhe o Passeio dos Aramistas e ainda hoje me parece ser esse o nome nome mais apropriado para a viagem (que em jeito de um patrulhamento) foi oferecida pelo Comando aos que menos saíam do Quitexe e que tão poucos conhecimentos tinham das terras angolanas. Fui um dos contemplados e deixo aqui um pequeno relato desse dia (cuja data não recordo), para avivar mais um pouco a memória da nossa passagem por aquelas ditosas terras.
Saímos de madrugada, numa Berliet e num «gasolinas», e visitámos as cataratas do rio Cuanza, na parte superior e inferior, onde fomos submetidos à enorme nuvem de vapor resultante da grande queda de água, a uma altura bastante considerável É, sem dúvida, uma das mais extraordinárias maravilhas da natureza que eu conheça e que muito prazer tive em visitar. Impressionante!!!
No regresso, visitámos a cidade de Malange, onde tive a alegria e oportunidade de visitar um familiar, que lá estava em comissão de serviço na PSP.
Durante o percurso, na ida e volta do Quitexe, apenas apanhámos pó vermelho na picada, até Camabatela, até à estrada asfaltada.
Rolando ao longo de uma imensa planície, vimos ainda as deslumbrantes Pedras do Cacuso, que, parecendo enormes montanhas, se destacavam no horizonte. São impressas em postais ilustrados e fazem parte do roteiro turístico de Angola.
O regresso ocorreu já ao fim do dia, sem problemas, com algum cansaço mas satisfeitos pelo dia que passamos. Um grande, bonito e saudoso dia de Angola!
JOSÉ S. PIRES
- PIRES. José dos Santos Pires, furriel miliciano de transmissões, natural e residente em Bragança, aposentado da GNR. É o militar que se vê na foto das Quedas.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O alferes miliciano Ribeiro e o Pelotão de Sapadores...

Soldados sapadores de infantaria da CCS do BCAB 8423, em Carmona (1975)

O Pelotão de Sapadores era comandado pelo alferes miliciano Ribeiro (foto ao lado), engenheiro de formação académica e gente do alto! Os «adjuntos» eram os furriéis milicianos Mosteias, Cruz (Montijo) e Farinhas (já falecido) e o grupo era formado por um punhado de excelentes soldados - que se deram em trabalho permanente para melhor servirem os companheiros da CCS e a população civil.
Do alferes Ribeiro retenho, visivelmente, a capacidade de mobilização e organização com que, na parada do BC12, em Carmona e em Maio de 1975, assumiu a gestão do «exôdo» (para dentro) da população civil que fugia do sangue que avulsamente se derramava na cidade, devido aos incidentes urbanos entre a FNLA e o MPLA, e no aquartelamento procurava (e tinha) protecção. Foram dias dos piores da nossa passagem por Angola.
Não faltou paciência, coragem e garbo ao alferes Ribeiro, e a competência!, para coordenar o que parecia incoordenável, sem uma falha, sem um «espera aí» nascido de um qualquer temor, gerindo sempre serenamente o fulgor e as emoções dos soldados que comandava e os «trocos» nem sempre agradáveis e justos dos civis que se acampavam e protegiam na parada (e menos boa opinião tinham sobre a tropa).
Os bons e generosos soldados sapadores de infantaria da CCS, comandava-os sem um exagero de autoridade. Tudo para que, tanto quanto se pudesse - e pôde... -, os civis se sentissem e fossem protegidos.
Quantas vidas terão sido poupadas nesses dias que adivinhavam tragédias e que os soldados de Portugal impediram com a coragem de heróis abnegados?! Dos que se dão, para salvar vidas, sem pedirem troco ou louvores!
Vivam os bravos sapadores da CCS do BCAV 8423!
- RIBEIRO. Jaime Rodrigues Picão Ribeiro, alferes miliciano sapador de infantaria, engenheiro mecânico, natural de Constância e residente no Tramagal.

domingo, 30 de agosto de 2009

O interrogatório do capitão Oliveira a três furriéis inocentes...

Furriéis Machado e Neto, já em 1996, no encontro de Leiria
Questões em que estivessem metidos o Neto e o Viegas, era sempre coisa delicada, nos entrementes da CCS do BCAV 8423. Se a eles se juntasse o Machado, a coisa já levava cheiro que esturrasse. Haveria moiro na costa.
Um belo princípio de tarde, lá por Janeiro de 1975, um a um e sem que nenhum soubesse um dos outros, fomos chamados ao comando. Achámo-nos no comum, à porta de entrada do gabinete. «O que é fazes qui, pá...?», foi a pergunta entre pares. Chamou-nos de imediato, o imediato do 1º. sargento Luzia: o capitão Oliveira queria falar connosco. Pronto, «há m...». Havia.
O bom do capitão Oliveira, que a vida já levou, não era propriamente o melhor amigo dos dois furriéis de Águeda ( o Neto e eu), por contas de outro rosário. Juntar ao interrogatório o Machado, era uma surpresa.
Fomos os três interpelados, de dedo em riste, como se estivéssemos na ponta da baioneta. «Vocês isto e vocês aquilo, o RDM, as NEP´s...», blá-blá-blá, acusou-nos o capitão. E líamos-lhe nos olhos que nos esperava o degredo, dias de detenção, prisão, eu sei lá..., tudo ali na frente dos nossos olhos e emoções. Abrimos a boca de espanto. Nós éramos bons rapazes, o que queriria o nosso comandante de Companhia, a gloriosa CCS do BCAV 8423?!
Irrompeu o Machado, nervoso, impulsivo, respondão: «O meu capitão não nos pode acusar de nada...». E acusados éramos de desrespeitar as regras militares e termos sugerido reacções colectivas, perigosas, anti-regualmentares, penalizáveis. Estou a ver Machado: 1,60 de altura, de dedo no ar, empolgado e revoltado, em esgares de nervosismo (in)controlado. «Não nos pode acusar de nada... O meu capitão está a desrespeitar-nos....».
Soltou-se o Neto, não menos respondão que o Machado: «O meu capitão não tem razão. Há muito tempo que anda a querer pegar-se comigo e com o Viegas...». E atirou uma mão-cheia de argumentos que desestabilizaram as razões que o capitão Oliveira assumia ter contra nós, influenciado por alguém e para nos julgar e castigar.
«Não lhe admito, desculpe...», sustentava o Machado. «O meu capitão está mal informado...», sublinhava. E ninguém o segurava, de tanto impulso e por se sentir injustiçado, gesticulando e gritando. Injustiçados todos nós. E estava eu ali para entrar na conversa, no minúsculo gabinete do comandante da companhia, um acimentado desconfortável, onde muita coisa da CCS se decidia.
O Neto, vigoroso e interveniente, nada boca-calada, soltou mais argumentos e falei eu, meio filho da mãe, refilão e contestatário...: «É inacreditável, meu capitão....».
E ressoltou o capitão Oliveira as NEP´s, de olhar fulminante, acusando-nos de desestabilizadores. «Nós somos os mesmos que todos os dias estamos dispostos a sacrificar a vida pela segurança de toda esta gente. Pela sua segurança, pela sua vida... pela vida de toda a gente da CCS», recalcitrei-lhe eu, da forma mais ordinária e emotiva que pude.
O capitão chamou-nos um nome, que não repito aqui. E morreram muitos ódios naquele momento. E nem conto os nomes que, os três, chamámos logo depois aos que pusemos no nosso tabuleiro acusatório - os culpados desde dedo em riste do capitão Oliveira. Há coisas que não esquecem! Estávamos inocentes!

sábado, 29 de agosto de 2009

Melhor conhecer e mais amar Angola!!!...

Província do Uíge. Carmona é a cidade de Uíge, Quitexe é Dange

Agosto de 1974 foi tempo de se acabar com as acções militares ofensivas e ampliar o apoio do BCAV 8423 aos povos e fazendas da área operacional, seguindo directivas hierárquicas.
Muitas vezes assegurámos o transporte (de ida e volta) a pessoas e mercadorias, que a população ia mercar ao Quitexe e principalmente a Carmona. Eram dias sempre muito «pesados», pelas distâncias que tínhamos de percorrer, sempre envoltos pelo pó quente e vermelho das picadas que se colava no corpo alagado de suor e pela tensão e «medo» que sempre se vivia, de uma qualquer acção ofensiva do chamado IN, alguma mina, alguma emboscada, algum acidente. Às vezes mais de 400 quilómetos, muitas horas de viagens, uma brutalidade para a marcha sempre algo lenta dos unimogs - viatura miitares a que chamávamos burros de mato.
Muitos populares, para além de beneficiarem de apoio médico local, nos seus próprios povos, eram muitas vezes levados ao Quitexe, para tratar de assuntos na administração ou no hospital civil - além de actividades comerciais correntes, para sustentarem a sua magreza económica doméstica. Havia uma grande empatia, sentia-se bem!!..., entre militares e civis - o que nos empolgava para a execução das nossas obrigações militares com um espírito profundamente cristão e partilhante. Que se vivia não só no contacto humano directo, como na partilha de bens pessoais, que vulgarmente os soldados faziam com a população - remédios, artigos de higiene pessoal, rações de combate, roupas, calçado. livros, canetas, lápis, cadernos...
Por mim, Agosto de 1974 foi véspera de mês de férias. Tinha decidido não vir a Portugal e esperava-me um circuito «turístico» que me levou a Luanda, à Gabela e a Nova Lisboa, onde abracei familiares e vivi felizes dias com amigos e conterrâneos civis. Ainda hoje me dou graças pela oportunidade de, nestas e nas férias de Abril de 1975, melhor ter conhecido Angola. Mais a fiquei a amar...

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A propósito dos aerogramas...

Tipo de aerograma usado pelas Forças Armadas Portuguesas (net)

JOSÉ ALBERTO ALEGRIA*
Texto

Ao ser trazido para estas conversas o tema dos aerogramas, gostaria de enquadrá-lo no tema mais vasto do que era a correspondência com as nossas famílias e amigos naqueles tempos longínquos da nossa comissão de serviço em Angola, em 1974/75.
Será assaz difícil para um jovem de hoje compreender que, há apenas 35 anos, a comunicação entre duas parcelas do território nacional (se bem que localizadas em dois continentes diferentes) se fazia apenas por meios e por ritmos que parecem ser muito mais afastados no tempo. Mas a realidade era essa: quando estávamos no norte de Angola, a comunicação mais corrente com os nossos era por aerogramas e cartas, que demoravam longos dias a chegar ao seu destino.
Ao longo destes anos, quando me perguntam qual a lembrança mais forte que guardo desses tempos da guerra, acabo sempre por falar da memória que tenho da chegada quotidiana da correspondência ao Quitexe. O ritual processava-se em frente da Messe de Oficiais, do outro lado da rua, junto ao bar dos Soldados, quando o responsável pela vinda do saco do correio, desde Carmona, subia para um muro e começava a distribuição das tão ansiadas notícias. A essa hora, normalmente eu estava na varanda da Messe e observava como, de imediato, se formava um maciço compacto de Soldados que esperavam ouvir o seu nome dito do alto do muro. Cada um que recebia um aerograma, ou carta, afastava-se e tranquilamente ia pela rua fora, saboreando avidamente as últimas palavras doces chegadas de casa. E assim o grupo ia fiando mais reduzido, até que aos últimos nada mais restava do que a desilusão da falta de notícias…
É desses de que me recordo muitas vezes, porque a tristeza daquela ausência de umas palavras de conforto era a verdadeira imagem da desilusão e da solidão humana. O ritmo lento com que se afastavam daquele ponto que, momentaneamente, lhes tinha dada a esperança das palavras da mãe, da namorada, do irmão ou do amigo, traduzia bem o sentido da palavra saudade…
Mas se a saudade é este nosso “fado” de termos nostalgia de tudo o que amamos e que está longe, numa mistura de ternas memórias e amargos sentimentos de afastamento, também observei na nossa vida colectiva do BCAV 8423 uma outra característica que nos define como portugueses: esta nossa capacidade de improvisação e adaptação às novas situações.
Creio que todos nos lembramos que quando uma Companhia tinha de mudar de “pouso”, ou o Batalhão também mudava de cidade, mesmo que as condições encontradas à chegada fossem incrivelmente decepcionantes, passado um dia ou dois cada homem já tinha “construído” o seu pequeno recanto, já tinha colado a foto da sua querida (ou, na falta, uma folha de calendário insinuante …) e já estava de novo “em casa”, mesmo nas condições mais adversas.
E talvez tenha sido assim, neste misto de capacidades de improvisação e gestão de saudades imensas, que o nosso povo português se expandiu pelos diversos continentes, criando raízes, deixando marcas e afirmando-se como um povo com uma peculiar identidade nacional.
JOSÉ ALBERTO ALEGRIA
(ex-alferes ALMEIDA)
Em Agadir, a 23 de Agosto 2009

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Soldados de corpo inteiro e que nunca tiveram medo...

Xitaca nas traseiras das instalações militares do Quitexe, vista da capela


MANUEL MACHADO*
TEXTO


Hoje mesmo naveguei pelo blogue e verifiquei que está aqui um excelente documento de memórias e no qual vou também colaborar. Revivendo o passado de dignidade e humanismo destes homens que não fugiram, porque não tinham medo. A nossa hitória Honra o nosso nome e o da nossa descendência, do qual devemos orgulhar-nos.
"FOMOS SOLDADOS" de corpo inteiro, cumprimos a nossa missão, sempre atentos a tudo e a todos. Estou lembrado de, no final de 1974, ser chamado ao Comando de Batalhão, juntamente com os Furriéis Viegas e Neto, para dar explicações sobre a nossa conduta "politica". Respondemos, perfilados, às questões que nos foram colocadas e saímos do inquérito com o mesmo espírito com que entrámos. Fomos sempre militares disciplinados e disciplinadores, a quem não havia nada a apontar.
Desde o Quitexe a Carmona estabelecemos sempre uma grande ponte de colaboração e diálogo com as populações civis, colaborando com todos, fraternalmente. Também quero deixar aqui expresso, a minha gratidão ao (ex-furriel) Celestino Viegas pela ideia de criar este espaço de partilha de lembranças, que está muito bem organizado e mantém viva a chama do lema com que estivemos nas terras de Angola "Perguntai ao inimigo quem somos".
MANUEL MACHADO
Ex-furriel miliciano da
CCS do BCAV 8423

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

As rajadas obtusas do Beira Baixa na picada do Fazenda do Liberato...

Fazenda do Liberato, ao lado do Quitexe (no mapa)
PESTANA BASTOS*

Batida no Sanda, por três dias. Pedi para ir. Já tinha ido a várias e nunca tinha havido tiros. Cheguei a convencer-me que era de propósito: se eu ia, não havia; se não ia, eles choviam.
Depois de muita mata e muito capim, atravessámos o Calambinga por cima de um tronco encalhado entre pedras, num sítio em que o rio formava rápidos, apertado entre ravinas. Sítio idílico para um picnic. Então, para uma emboscada do IN, nem de propósito se arranjava melhor. Lá atravessei o tronco, com o credo na boca. Mas nada de desagradável aconteceu: nem um banho forçado.
Ao cair da noite, chegámos a uma mata perto do sítio onde calculávamos que estivesse o acampamento «turra», o que se confirmou no dia seguinte. No máximo silêncio, aninhámo-nos para passar a noite. Silêncio nosso, entenda-se. A mata deu o habitual «concerto» de gritos, pios e outros ruídos mais ou menos sinistros, com que os vários passarocos da fauna local animam as noites do soldado operacional. Dormi como um justo, que o aspecto musical do meio ambiente já me era conhecido de anteriores experiências.
Aos primeiros alvores da madrugada, lá fomos nós em busca da sanzala «turra«. Encontrámo-la, grande, bem limpa e ordenada e, não longe dali, um quartel, com paliçada e porta de armas. Tudo com o aspecto de ter sido abandonado há minutos. Ainda vimos um cãozito e lume mal apagado. Dadas as conhecidas qualidades combustíveis do capim seco, reduzimos tudo a cinzas e cacos. E retirámos, na convicção plausível de que o pessoal «turra» devia andar perto. Quase lhes sentíamos ainda o hálito, flutuando na frescura da manhã.
Tomámos o rumo do Liberato e fomos andando. Cheguei a convencer-me de que nada aconteceria. Porém, quando vínhamos pelo capim, em bicha-de-pirilau, ao pessarmos em frente de um promontório de mata que avançava como um dedo apontado na nossa direcção, rebentou nutrida fuzilaria. Íamos três grupos de combate, que ainda davam considerável extensão.
Eu ia aproximadamente na união dos dois terços iniciais com o terço. E os tiros só começaram quando eu ia a passar na direcção do promotório. Ninguém me tira da convicção que a emboscada foi feita a mim, aos meus bigodes "à princípio de século", ao meu ar mais velho de «pai-da-malta». Até porque as ouvi assobiar por perto.
A reacção foi imediata. À minha frente, um soldado, João dos Santos Antunes, o Beira Baixa, despejava repetidas rajadas de metralhadora, segundo um ângulo que se me afigurava perigosamente obtuso. Claro que tive medo. O medo é como as cartas de amor: "quem as não tem?".
O inimigo retirou para melhores paragens, com um problema habitacional a resolver. Eu mantive os bigodes. Mas experimentei uma forte senção de desconforto, que só aumentou nas primeiras horas e dias.
* PESTANA BASTOS
Médico do BART. 786 / Quitexe 1965/67

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O mês de Agosto de 1974 em terras do Quitexe

Avenida do Quitexe (rua de Baixo).
Foto do alferes Jaime Ribeiro. Clicar, para a ampliar

O Quitexe de 1974 era assim, tranquilo, em desenvolvimento, essencialmente vivendo da produção de café, nas dezenas e dezenas de fazendas que se estendiam a perder de vista, pelos municípios vizinhos.
Alguns pelotões e companhias ficavam mesmo o instaladas em fazendas, delas partindo em operações e patrulhamentos que garantiam a segurança na região. A tropa, para além disso, ocupava-se da protecção às brigadas da Junta Autónoma de Estradas de Angola (JAEA). Por estes dias de Agosto de 1974, andámos, os da CCS, «ocupados» com o arranho das «estradas» para Camabatela e Fazenda Luísa Maria e outras companhias para Zalala e Liberato, enquanto se prosseguia o arranjo da chamada estrada do café, em asfalto - que ligava Carmona a Luanda, na zona da Ponte do Dange.
Outro objectivo essencial era assegurar a segurança dos centros urbanos e a liberdade de tráfego. As informações não nos chegavam com p pormenor que nós gostaríamos (os menos graduados...) mas era visível a preocupação das chefias militares, por causa da transição que se «operava» com alguns «trambolhões» pelo meio. Havia desconfianças. Já iam quatro meses depois de Abril em Lisboa, mas havia a nossa convicção de que, pelas matas dos Dembos e do Uíge, se ignoravam as novas orientações políticas do governo português e, portanto, poderiam continuar acções militares.
Precavidamente, reuniu várias vezes a Comissão Local de Contra-Subversão (suponho ser este o nome) e multiplicaram-se as visitas a fazendas e povos da zona de acção. Principalmente, para assegurar o funcionamento das actividades económicas da região e o apoio médico e sanitário. O café, as fazendas, as pessoas e a saúde eram prioridades em Agosto de 1974. Sem esquecer as regras militares operacionaos e de segurança.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Saudades do (1º. cabo sapador) José Gomes Coelho


JOSÉ GOMES COELHO, 1º. cabo sapador da Companhia de Comando e Serviço (CCS) do Batalhão de Cavalaria 8423, faleceu há dois anos, em Maio de 2007.
É mais um dos bravos cavaleiros do Quitexe que partiu, deixando em dor a sua família de Penafiel. E em saudade todos quantos os que, por Santa Margarida e Angola - no Quitexe e em Carmona... -, desfrutaram do seu companheirismo. Foi a viúva quem esta noite nos comunicou o seu luto e dor de família e amigos.
O José Gomes Coelho faleceu vítima de doença.
Era de Galegos (Penafiel) e participou no último encontro da CCS.
Até ao nosso próximo encontro, amigo!

O dia 24 de Agosto na vida de um cavaleiro do norte


Momento de relaxe na messe de sargentos do bairro Montanha Pinto

A foto em que me mostro, feito jogador de bola, é de Maio de 1975 e tirada nas traseiras da messe de sargentos (anteriormente de oficiais) em Carmona, no Bairro Montanha Pinto. Mas tem a ver com o dia de hoje, do ano de 1974.
O dia 24 de Agosto é, de resto, três vezes muito marcante na minha vida: o da morte de meu pai (em 1972), o do meu casamento e o da história que vou contar.
Era madrugada alta e de cacimbo forte e frio e, nesse dia de 1975, estávamos nós na pista de aviação do Quitexe - muito perto da vila. Iria chegar uma aeronave, lá para o meio da manhã e com um qualquer carregamento (suponho que de géneros alimentícios). Importava montar a segurança, em tempo e a horas, e para lá foi o PELREC, pouco depois da meia noite.

Nunca passei tanto frio em Angola e, disso avisados, levámos os ponches militares, que nos pouparam os rigores da cacimbada mas tiraram alguma mobilidade. Às tantas, um soldado desatou a fumar e fui, tapado pelas sombras do capim, o mais camuflado possível, avisá-lo para o apagar. Até a ameaçá-lo.
"Está triste, furriel...", disse-me ele, para se aliviar da pressão que eu lhe impusera e já com pirisca apagada. Algo terá notado ele no meu rosto. Não respondia mas por ali fiquei alguns momentos, debitando conversa sobre a vida, enquanto a noite gelava e de longe se ouviam alguns uivos e grunhidos que de alguma maneira nos arrepiavam.
Chamou-me o Vicente, sempre atento e de olho desperto. «Ouvi pr´ ali um barulho estranho...». Era para lá do capim e fomos ver..., evoluindo cautelosamente, depois ambos a rastejar!

Poupando pormenores, soou um tiro e senti uma picada na coxa direita: estava ferido. O bom do Florindo, cabo enfermeiro com quem agora acabei de falar (ao telefone, para refrescar a memória deste momento), logo bem se esforçou por tirar a bala, esfacelando-me a coxa, de pinça a tremer de nervos e ansiedade.
Lá foi tirada... tão à «superfície» estava e felizmente sem consequências graves para mim. Veio sumariamente a apurar-se que tinha sido alvo de um ricochete e... e não me peçam mais pormenores deste momento de escaramuça (digo eu...) que poderia ter sido trágico e confirmou as razões porque estava montada a segurança à pista. Ainda hoje guardo as calças do camuflado que foram furadas e a bala que as furou.
O momento porém, gerou, alguma natural tensão entre o grupo do PELREC mais próximo de mim e foi avisado o Garcia - que estava a umas dezenas de metros, em outro ponto de guarda.
"O alferes diz que o Viegas s´aguenta...", foi dizer-me o Hipólito, a sorrir-se para mim, dobrando a coluna e apoiando-se na G3, como que a genuflectir-se, e fazendo-se corar nas sardas que lhe pintalgavam a cara. Deu o "recado" em falas baixas, quase sussurradas, não fosse quebrar o silêncio de medos da madrugada.
A foto aparece aqui porque mostra o local da coxa direita onde fui atingido: é aquele sinal escuro mesmo junto à bola, que ainda hoje se nota, 35 anos depois... embora o tempo o tenha disfarçado!
- VICENTE. Jorge Luís Domingos Vicente, 1º. cabo atirador de cavalaria, de Vila Moreira (Alcanede), já falecido.
- FLORINDO. Vitor Manuel Nogueira Florindo, 1º. cabo enfermeiro, do Cartaxo, onde tem a Adega da Caxarrada.
- HIPÓLITO. Augusto de Sousa Hipólito, soldado atirador de cavalaria, natural de Vinhais e emigrante em França, mas com residência em Lisboa.

domingo, 23 de agosto de 2009

Para ti, António Garcia, a propósito dos poetas fingidores...

O PELREC, comandado pelo alferes Garcia - primeiro da direita, de pé. Clicar na foto, para a ampliar


JOSÉ ALBERTO ALEGRIA
(ex-alferes miliciano Almeida)
TEXTO

Para ti António Garcia, a propósito
de os poetas serem fingidores…
Agora que, passados estes anos todos, o nosso amigo Celestino Viegas pôs mão à obra para nos motivar a reviver os tempos de Angola, quero que o meu primeiro contributo escrito seja dedicado a ti, para podermos todos ter-te neste convívio.
Quando cheguei ao Quitexe, já após vários meses da vossa instalação, em rendição individual e em machimbombo (num dia tão bem descrito pelo CV neste blog …), “caí” num grupo de camaradas que já se conheciam há muito tempo e no qual as relações humanas já estavam razoavelmente definidas. Dada a condição de Oficial de Reabastecimentos e também dadas as atribuições informais de “Oficial às Ordens” do Comandante, só nos momentos de lazer na Messe de Oficiais é que fomos tendo tempo para nos conhecermos.
Quis o acaso que partilhássemos a mesma mesa na sala de jantar (juntamente com a Alferes Jaime P. Ribeiro e outro) e, desde os primeiros dias, foi-me evidente a tua enorme necessidades de vangloriação heróica dos feitos do grupo de operações especiais que comandavas com dedicação e eficiência. Só que, tal como nas histórias dos caçadores e pescadores, as façanhas descritas eram de uma insólita e excessiva dimensão (do género: “ontem fizemos, ontem matámos, ontem esfolámos…”). Ora para mim, Oficial Miliciano de formação muito pouco militarista, as tuas diárias descrições das façanhas operacionais passaram a ser momentos a que eu ostensivamente não prestava a mínima atenção. Tal facto não te passava despercebido e noutras ocasiões, quando eu no bar ou na varanda da Messe me dedicava a ler os filósofos clássicos gregos (que, em boa hora, tinha levado para a guerra, dado que nunca os tinha lido na formação académica…), tu passavas a exercer a represália denominando-me sistematicamente e provocatoriamente como “o nosso intelectual”. E assim fomos gerindo a nossa “guerra fria” entre Julho e Dezembro…
Acontece que, ao aproximar-se o Natal, o nosso Comandante, em conversa de circunstância, me avisou: “Vais ver que na noite de Natal alguns dos mais “valentes” vão ser os primeiros a irem-se abaixo psicologicamente...”. Como te lembras, essa era a única noite em que partilhávamos o jantar com todo o pessoal, no Refeitório dos Soldados. Às tantas da noite, quando já havia muita emoção, acompanhadas de litros de bebida e abraços de lamechas, tive de ir à Messe dos Oficiais buscar algo e, como conhecia os cantos da casa, nem acendi a luz. Foi então que na penumbra me deparei contigo, recolhido num canto do bar, em plena crise de choro pelas saudades da tua família. Creio que uns breves segundos de hesitação foram suficientes para decidir fazer de conta que não te vi, e voltei ao Refeitório onde, por certo, a cerveja já tinha corrido mais e as lamechices natalícias também.
No dia seguinte, à hora da refeição na mesa de quatro do costume, não resististe a iniciar o relato de mais uma das gloriosas façanhas do teu grupo de operações oficiais… Só que, no final da descrição, para meu espanto e muito discretamente, piscaste-me o olho como que para dizer “desculpa lá, estas histórias já não são para ti que desde ontem me conheces um pouco, mas para os outros…”.
A partir desse dia, passou a haver entre nós um código de comunicação e de compreensão em que o “valente comandante de operações especiais” e o “discreto intelectual” foram construindo uma bonita amizade. Por duas vezes que vim de licença à Metrópole, pediste-me mesmo para ir ver a tua namorada, à residência onde estava hospedada no Porto!
Regressados da nossa missão africana, mantivemos um permanente contacto que incluiu dois momentos muito fortes:
1 - O teu casamento na Igreja de Pombal de Ansiães, onde tendo chegado já atrasado na companhia do nosso estimado Oficial António Souza Cruz, e, estando já todos a tirar a fotografia de grupo na escadaria, tiveste o desplante de abandonar o grupo e vir a correr na nossa direcção, manifestando assim a alegria pela nossa presença. Pouco tempo deste-me o prazer de vir com a tua Mulher passar uns dias da lua-de-mel na casa de meus Pais em Albufeira.
2 - Passado um ano ou dois, combinámos ir cinco dias de verão para casa dos teus Pais em Pombal de Ansiães. Já eras Inspector da Judiciária e para isso pediste uma licença que possibilitou partilharmos um tempo inolvidável nas terras quentes do Douro. A viagem de regresso ao Porto foi um tempo de premonição: sendo noite, quiseste falar abertamente de vários assuntos que te obcecavam naquela época: a exaltação da chegada breve do teu primeiro filho, a tua profundo decepção pelo trabalho na Polícia Judiciária, onde assistias a práticas que eram contra os teus princípios de honra e de ética, e a tua consequente decisão de ter de abandonar em breve essa Instituição. Foi uma conversa plena de franqueza, de emoção e de sentimentos íntimos, que só é possível entre dois amigos certos.
Poucos meses passados, o António Souza Cruz telefonou-me a perguntar se tinha lido a notícia no jornal: o Inspector António Manuel Garcia tinha morrido, em serviço, num acidente de viação. Por coincidência ou não, participava na investigação sobre o assassinato de Ferreira Torres… Esse foi um dos dias mais tristes da minha vida, por saber que ficavam tantas coisas por partilhar, tanto contigo como com a tua Família!
Mas agora ao rever a tua imagem em tantas das fotos que este blogue nos está a proporcionar quero sobretudo dizer-te:
«Meu caro António Manuel Garcia, tu és um dos mais presentes entre todos nós, pela tua honradez, pela tua coragem e pela tua verticalidade.
E mais tarde, noutro mundo, ainda quero ouvir outras das tuas inenarráveis façanhas de bravo Oficial de Operações Especiais do BCAV 8423…».
JOSÉ ALBERTO ALMEIDA
- ALMEIDA 1. José Alberto Alegria Martins de Almeida, alferes miliciano de reabastecimentos. Econonista e arquitecto, é profissionalmente conhecido por José Alberto Alegria, mora em Albufeira e é Cônsul de Marrocos no Algarve.
- ALMEIDA 2. Chegada do alferes Almeida ao Quitexe em http://cavaleirosdonorte.blogspot.com/2009/05/o-alferes-miliciano-almeida.html
- GARCIA 1. António Manuel Garcia, alferes miliciano de operações especiais, comandante do PELREC, natural de Pombal de Ansiães (Carrazeda de Ansiães). Faleceu em 1979(80), era agete da Polícia Judiciária.

sábado, 22 de agosto de 2009

O capitão Falcão das Operações


Tenente-Coronel Almeida e Brito (comandante) e capitão Falcão (oficial de operações)

O capitão Falcão era o oficial de operações do BCAV 8423. Oficial Adjunto, para ser mais certo. E tenho a ideia de que, por não termos 2º. Comandante, assumiu ele essa responsabilidade - até à chegada, já em Março de 1975, do capitão Silva Themudo.
O capitão Falcão primava pela discrição, quase sempre de pingalim batendo a perna e sorrindo para toda a gente, garboso, distinto, um verdadeiro oficial de cavalaria! Inspirava confiança e respeito. E sabemos que era competentíssimo nas suas responsabilizadas tarefas: metódico, tecnicamente preparado, sem deixar fugir uma vírgula ou um ponto a um qualquer planeamento operacional - fosse qual ele fosse, o mais perigoso ou o aparentemente mais tranquilo. Dele recebi directamente algumas ordens de operação, na ausência do alferes Garcia (comandante do PELREC), e o mais apreciável desses contactos era a precisão com que esclarecia as tarefas que nos esperavam nas horas seguintes.
A 3 de Novembro de 1974, alertou-nos para a eventualidade de termos encontros directos com o IN - combatentes do FNLA - numa operação do dia seguinte. Ver AQUI. Foi preciso e conciso. Incentivou e descontraiu-nos. Partimos na madrugada de 4 de Novemnro e encontrámo-nos com «fnla´s» na aldeia do Dambi Angola. Quando voltámos, lemos-lhe nos olhos a alegria e a felicidade de voltarmos todos. Sem problemas! A minha continência, sr. oficial de cavalaria!
- ALMEIDA E BRITO. Tenente-Coronel Carlos José Saraiva de Lima Almeida e Brito, comandante do BCAV 8423. Depois, foi 2º. Comandante da Região Militar Centro (Coimbra), 2º. Conandante Geral da GNR e comandante da Região Militar Sul (Évora). Atingiu a patente de general. Faleceu há três anos, subitamente, quando passeava em Espanha.
- FALCÃO. José Paulo Montenegro Mendonça Falcão, capitão de cavalaria. Atingiu (pelo menos) a patente de tenente-coronel e reside em Coimbra.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Os todos nós que éramos dos melhores camaradas....

Alferes Ribeiro, Simões (?) e Almeida no bar de oficiais do Quitexe

O Quitexe era assim: camaradagem viva, companheirismo permanente, solidariedade autêntica, fosse qual fosse o quadro hierárquico dos cavaleiros do norte, da CCS à 3ª. Companhia, em Santa Isabel.
Esse espírito teve parto em terras de Santa Margarida, onde o batalhão se formou a partir de Janeiro de 1974 e a 11 de Fevereiro se definiu o lema «Perguntai ao inimigo quem somos». Por lá debutaram primeiramente os gloriosos soldados do PELREC, às mãos «desalmadas» do aspirante miliciano Garcia e dos cabos milicianos Monteiro, Viegas e Neto, de operações especiais. E todos os pelotões das três companhias operacionais! E quantas histórias aqui poderíamos contar para ilustrar esse período!
A foto mostra três alferes milicianos em momento divertido do bar de oficiais da CCS do Quitexe. O do meio, Mário Simões, oficialava por Santa Isabel como atirador de cavalaria. Estava rodeado de dois especialistas: Jaime Ribeiro, sapador, e José Alberto Almeida, dos reabastecimentos. Tudo gente do alto! Qual deles o melhor camarada! Todos nós éramos os melhores, sãozinhos de alma e corpo!
Foto enviada pelo (ex-alferes) engº. Ribeiro.
- RIBEIRO. Jaime Rodrigues Picão Ribeiro, alferes miliciano sapador, comandante do pelotão de sapadores. Agora, engenheiro mecânico e residente no Tramagal.
- SIMÕES. Mário José Barros Simões, alferes miliciano atirador de cavalaria, da 3ª. CCAV. Residente em Tomar.
- ALMEIDA. José Alberto Alegria Martins de Almeida, alferes miliciano de reabastecimentos. Economista e arquitecto, residente em Albufeira. Cônsul de Marrocos no Algarve.

Dois cavaleiros do Norte que nos deixaram...




Temos notícia de mais dois companheiros do Batalhão de Cavalaria 8423 que já não estão connosco.
A vida é assim, traz-nos coisas boas - que saboreamos quantas vezes sem as valorizarmos como devíamos... - e as outras, as que nunca gostaríamos de dar e saber, portadoras da dor e do luto da morte.
- António Carlos Fernandes de Medeiros, 1º. cabo operador cripto, da CCS, natural do Porto.
- Adão Luís Correia Morais, soldado atirador de cavalaria, da 1ª. Companhia, natural de Lousada. Faleceu a 7 de Agosto de 2009.
Paz às suas almas!

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Os sempre disponíveis enfermeiros da CCS do BCAV 8423 do Quitexe...


A malta da enfermaria tinha de estar sempre em forma, sem paludismo que lhe pegasse - não fosse pegar-se à malta e seria um desastre. O chefe máximo era o dr. Manuel Leal, depois o dr. Honório de Campos. E, sempre muito e bem atento, o bom do furriel Lopes.
Os bravos «cavaleiros do norte» que nos acompanhavam nos patrulhamentos, escoltas e operações nunca deram um passo atrás - sempre aptos, sempre disponíveis e competentes.
A minha pena, aqui e hoje, é não conseguir recordar todos os seus nomes - e tanto gostava eu de recordar, por exemplo, o segundo da direita, em pé, de bigode e cigarro na boca, companheiro de tantas jornadas nas picadas e matas do Uíge! E todos eles!
As caras são-me todas familiares, mas apenas consigo identificar o inimitável Buraquinho (primeiro da direita, em pé) e o impagável Florindo, o do meio, sentado. Alguém ajuda? Os nomes estão-me debaixo da boca, mas!!!....

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O dr. Leal que era médico de corpos e sacerdote de almas

Alferes Garcia e Ribeiro, capitão-médico Leal e tenente Luz no bar de oficiais do Quitexe
Há daqueles casos em que a gente olha para as pessoas e só lhe apetece dizer bem delas: «Tipos porreiros, estes, pá!!!....».
Sobre os quatro desta foto, não há uma queixa! Quatro nossos companheiros do Quitexe e de Carmona: a coragem do alferes Garcia, a tranquilidade do alferes Ribeiro, a sabedoria do capitão médico Leal e a competência do tenente Mora. Tudo gente do alto!!!
O que venho aqui contar, hoje, tem a ver com o sacerdócio do dr. Leal: o PELREC escoltou-o algumas vezes, quando ele ia às sanzalas para consultas aos povos. Que paciência! Que dedicação! Que amado que ele era por aquela gente - que ele ascultava, medicava, aconselhava, sem um ai de queixa pelo tempo que demorava ou pelo constrangimento da sua missão médica!
Um dia, um dos mais velhos moradores de uma dessas sanzalas disse para mim que ia morrer, que não valia a pena ser consultado. Parecia, muito debilitado, sentado no chão e de corpo curvado para a frente, com a cara quase a beijar a terra vermelha da porta da palhota onde morava!
Arrepiei-me!! E pareço estar a ver a cara do homem, da barba branca e rala que o envelhecia ainda mais, da boca desdentada, do olhar a perder-se no céu avermelhado que caía sobre a floresta da Pedra Verde!
«Doutor, aquele alí diz que vai morrer...», sussurei, disfarçadamente, ao ouvido do dr. Leal.
Sorriu-se: «Já lá vou!....».
Auscultou-o, puxou da bolsa preta que levava, falou pausamente com ele, creio que usou alguns vocábulos indígenas, mandou-o tomar medicamentos que lhe deu! Ainda vi o velho da zanzala por mais algum tempo, nas outras vezes que por lá passei! Não sei quando morreu, mas não morreu daquela vez! Ao médico do corpo «casara-se» o psicólogo do ânimo e o sacerdote de almas! Assim me pareceu!! Era assim, o dr. Leal! Um SENHOR!
- GARCIA. António Manuel Garcia, alferes miliciano de operações especiais, natural de Carrazeda de Ansiães (já falecido).
- RIBEIRO. Jaime Rodrigues Picão Ribeiro, alferes miliciano sapador, engenheiro mecânico e residente o Tramagal.
- LEAL: Manuel Soares Cipriano Leal, capitão miliciano-médico, residente em Fafe.
- LUZ. Acácio Carreira da Luz, tenente do SGE, residente na Marinha Grande.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

5 - Pensamentos (e amores) quitexanos...

Há amores de uma vida! Já aqui falámos das juras do Alfredo Coelho, o Buraquinho, para «assaltar» a alma e o corpo da jovem que enternecidamente ele olha, na foto. Assim como ela o fixa, feliz e cheia de esperanças e ardores no coração!
Foi pelos tempos do Quitexe e Carmona e a verdade é que a «coisa» pegou. E de tal modo pegou que, passados 34/35 anos, aí estão eles mais velhos todos estes anos, é verdade, mas amadurecidos pela paixão que lhes trouxe dois rebentos nascidos em Custóias (Porto): a mais velha, já de 30, psicóloga; o mais jovem, de 16, a fazer pela vida nos bancos da escola!!
Estão a ver como a «guerra» teve coisas muito boas!!!
- COELHO: Alfredo Rodrigo Ferreira Coelho, o Buraquinho, 1º. cabo analista de depósitos de água, residente em Custóias.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O Fonseca que veio de férias e não voltou ao Quitexe

Rocha, Fonseca, Viegas, Belo (óculos), Flora e Pires (Bragança), de
frente. Monteiro, Pires (Montijo), Machado e Dias, de costas.
Clicar na foto, para a ampliar

O Fonseca era amanuense, especialidade que o tornava singular e «invejado» entre os furriéis do Quitexe. Mexia com papéis, orientava o SPM, trabalhava na secretaria do comando do batalhão, era um filósofo e tinha ideias sociais que ultrapassavam as nossas fronteiras de conhecimento.
O Fonseca era gente fixe, um introvertido/extrovertido que se empolgava com uma boa discussão política, mas a quem faltava sempre o «golpe de asa» para nos convencer: chegava à área, rematava, mas falhava o golo. Era a fragilidade que sempre lhe explorávamos, sem constrangimentos e quando se tratava de puxar a brasa para a nossa razão. Quantas e quão acaloradas discussões se levedaram no bar e messe de sargentos, despertadas pelo Fonseca, na sua indomada vontade de nos catequizar, provocando-o e violentando-o nós, aumentando as volumetrias do seu nervoso miudinho.
Um dia, disse-nos que quando viesse de férias, não voltaria ao Quitexe! Todos nos rimos! O Fonseca era lá capaz de ter a coragem de se fazer refractário! Como eu recebia muita correspondência, ele brincava muito comigo, com piadas que agora não vêm ao caso. Ironizava, satirizava, picava-me e lá respondia eu à letra, no melhor que eu podia!
Na véspera de vir de férias, e com essa ideia de ele não voltar esquecida por nós (pelo menos por mim), lá se encarregou ele, no bar do Rocha, de me lembrar: «Pago eu esta rodada e não nos voltamos a ver!...». Eu ri-me! E ele também! E a verdade é que ele não voltou!
Falei com ele há uns dez/doze anos e avivámos esse pormenor, ficando ele de me explicar o que acontecera - qual fôra a razão, ou a cunha... que o levara a não voltar ao Quitexe - mas isso não veio a concretizar-se! A cerveja do Rocha ainda hoje é a última.
Agora, com o Fonseca quase esquecido no tempo, mandou-me o Pires (do Montijo) uma foto na qual ele aparece. «Olhó Fonseca!!...». Como não recordá-lo aqui?! A sua figura alta e esguia, o cabelo sempre bem penteadinho que ele empurrava com um jogo de dedos, o bigodinho a tapar-lhe o beiço, o ar filosofal e quase aristocrata, o passo miúdo e apressado com que sempre ia e vinha da secretaria para o bar e a messe!. Ele lá teve as suas razões para se deixar ficar nas labaredas revolucionárias que se viviam por Lisboa!
- FONSECA. José Carlos Pereira da Fonseca, furriel
miliciano amanuense, natural de Lisboa.

domingo, 16 de agosto de 2009

O carneiro apanhado quando se ia buscar os aerogramas..

Modelo de aerograma usado na correspondência dos militares


RODOLFO TOMÁS
Texto
(1º. cabo rádio-montador)
Estávamos no dia 5 de Junho de 1974, tínhamos acabado de chegar ao Quitexe seriam mais ou menos 5 menos dez da tarde, pois logo a seguir, mandaram-me ficar em sentido, porque estava a ser arreada a bandeira.
Até aqui tudo bem, mas eram passadas apenas duas horas já eu estava a ser procurado para ir buscar o correio no dia seguinte. Lembrei-me do Raul Solnado e da sua ida à guerra. Eram precisas balas para a G3 e eu não tinha. Fui então ter com o (ex-alferes) Hermida para me dar instruções e fornecer as munições que eu não tinha. Depois de as obter, no outro dia, lá fui para Carmona buscar o correio, tão esperado por todos.
Um belo dia, e peço desculpa de não me lembrar dos nomes dos companheiros que iam comigo, íamos nas muitas curvas entre o Quitexe e Carmona, quando de repente apareceu um carneiro na estrada. O condutor fez travão a fundo e lá foram todos atrás do animal - menos eu, que fiquei na Mercedes de taipais, de G3 em punho e para o que desse e viesse. O problema era chegar a Carmona sem que ninguém desse pelo carneiro, que foi escondido debaixo do banco e a balir: méééé!!!....
Quem se lembra o posto de correio em Carmona, era junto ao BC 12. Tivemos que deixar a viatura longe para não se ouvirem os constantes méééés do carneiro. Mas se a situação piorou, foi no regresso ao Quitexe. Quando chegámos, parecia que vínhamos todos com os copos, cantando em altos berros e não só. Não parámos, fomos directos ao refeitório para descarregar a preciosa carga e os nossos companheiros todos a correr atrás de nós para receber o seu aerograma, os que recebiam. É claro que, nessa noite e às escondidas, houve "tacho melhorado".
Por isso digo: saudades do Quitexe e de todos os colegas. Um grande abraço para todos.
RODOLFO TOMÁS

sábado, 15 de agosto de 2009

A malta reunida em Leiria e o homem que veio de motorizada

Madaleno, Monteiro, Viegas, Neto, Caixaria, Pinto e Cordeiro,
gente do PELREC, na confraternização de 1 de Junho de 1996, em Leiria.
Clicar na foto, para a ampliar

A 1 de Junho de 1996, as quatro companhias do Batalhão de Cavalaria 8423 confraternizaram no Barracão (Leiria), reunindo-se cerca de 400 pessoas - entre antigos militares e famílias. Foi a última vez que nos achámos de saudades com o cabo Vicente e o soldado Leal, ambos do PELREC - entretanto falecidos.

Desse dia recordo também o feito notável (e provavelmente irrepetível...) de um companheiro que, para lá estar, fez mais de 400 quilómetros de motorizada. Sozinho! «Tinha de estar, tinha de estar...», dizia e repetia ele, com os olhos a rir de alegria. Ainda hoje acho isso verdadeiramente extradordinário!

A CCS, entretanto, voltou a reunir a 27 de Setembro de 1997, num encontro organizado pelo (furriel) Monteiro. Ver AQUI. Volta a reunir a 12 de Setembro de 2009, na Estalagem da Pateira, em Fermentelos (Águeda).