segunda-feira, 8 de junho de 2009

A escola primária e outras coisas primeiras do Quitexe...

Escola Primária do Quitexe (anos 80)

Escola primária do Quitexe. Um dos primeiros alvos da nossa curiosidade na vila foi conhecer os edifícios públicos. Já aqui falámos por várias vezes da capela (igreja) da Mãe de Deus do Quitexe - e, já agora, da missão do lado, onde sacerdotava o padre Albino Capela. Olhámos a administração civil com curiosidade, passeámos o jardim, olhámos o hospital, espreitámos um e outro estabelecimentos comerciais, fomos semeando empatias com os civis e, numa palavra, fomos-nos sentindo integrados. Eu, por mim, quis ir conhecer o cemitério. Igrejas e cemitérios ainda hoje são, para mim, os espelhos de qualquer localidade. E gostei!
Os militares que substituímos bem nos ajudaram nessa integração e, por mim - que nem sou muito dado a empatias de primeiro olhar, valha a verdade que me sentia muito bem! Os novos cheiros, os novos sons do dia-a-dia, o calor imenso que nos ensonava e transpirava, as mulheres negras de seios imensos e quase desnudados que passavam com os filhos amarrados ao corpo de um jeito para nós estranho. O seu bombalear sensual, de carapinhas imensamente negras, olhos e boca grande, gingando, gingando... e emprestando o seio à fome das suas crianças! A vegetação imensa e os sumarentos frutos tropicais que nos matavam a gula! Tudo isso, e quanto mais!!!, nos tornou quitexanos logo nos primeiros dias.
Faltava saber e conhecer a dor maior, a da razão que nos levava lá: a dureza e os imprevistos das missões que iríamos ter de cumprir! Mas como já por aqui foi dito, não foi coisa que não assumíssemos de corpo inteiro, ou nos atemorizasse!

domingo, 7 de junho de 2009

O nosso primeiro dia inteiro no Quitexe...

Os furriéis Neto e Viegas, ambos de Águeda, numa rua do Quitexe,
em 1974. Ao natural, em baixo, e «recauchutados», em cima.

O primeiro dia por inteiro, no Quitexe, foi uma 6ª. feira, acordada em calores que nos transpiravam o corpo todo, numa madrugada que entrou pelo quarto dentro, assim de repente, sem nos pedir licença.
Bem ao meu hábito, levantei-me cedo e pus-me a espreitar pela janela das traseiras, que dava para uma xitaca de muitos verdes e de onde se ouviam ruídos nada estranhos aos nossos ouvidos: ele eram cacarejos de galinhas e patos que grasnavam, eram porcos que grunhiam, um ou outro silvo. Desfiz a barba, calmamente, ainda não eram 6,30 horas, transpirava por todos os poros e já sabia que tinha de acordar o Neto. Matabichámos na messe de sargentos e pela manhã fora andámos em primeiros actos de serviço, que viriam a ser rotinas: aqui era a secretaria da CCS, acolá o comando do batalhão, o parque-auto, as casernas, a enfermaria, as transmissões, o refeitório, as messes. Interessava-nos a nós alguma privacidade para o nosso pelotão, que era o único operacional da CCS e ficou em caserna exclusiva. Por ela batalhou principalmente o Alferes Garcia.
Chegou a hora do almoço e a tarde foi para conhecer o Quitexe: os bares (principalmente os bares!...), as ruas, a administração civil, o hospital, os Correios, as pessoas! Ficámos bem impressionados!
Outra surpresa, e boa!, foi a de vermos muitos civis brancos, que nos olhavam curiosos e meio de soslaio, diria até que desconfiados, perguntando um ou outro de onde éramos! O reconhecimento à vila deixou-nos muito tranquilos. Afinal, havia aquela ideia de que íamos para o mato, para um «buraco»..., e as leituras sobre o Quitexe, em texto e imagem, tinham-nos criado alguns constrangimentos. Ficámos confiantes e mandei o meu primeiro areograma para Portugal. Com o do Neto, escrito o dele na véspera e eu ali num instante: «Mãe, já estou na terra onde vou ficar. Chama-se Quitexe e é na zona onde se apanha o café. Falei em Luanda com o Albano e o José Bernardino e já sabia mais ou menos o que vínhamos encontrar! É uma vila, com duas ruas principais e fica a 300 e tal quilómetros de Luanda. No caminho, encontrei o Neca Taipeiro, que trabalha num bar, diga aí à família...».
Jantámos, demos outra volta pela vila e... ala para vale de lençóis, que se fazia tarde!
- XITACA: Aos nossos costumes agrícolas, é uma espécie de mistura de pomar com horta.
- ALBANO E JOSÉ BERNARDINO: Os irmãos Resende (com o Manuel), conterrâneos que residiam em Luanda.
- NECA TAIPEIRO. Manuel Ferreira Simões dos Reis, conterrâneo que foi o primeiro militar ribeirense em Angola. Com o Lito. Voltou, como civil. Ainda hoje é aqui vizinho.

sábado, 6 de junho de 2009

A nossa primeira noite do Quitexe...

Eu, e as minhas literaturas, na janela do
quarto do Quitexe. Lia um livro de Amândio César.

Casa (restaurada) em frente à CCS do BCAV 8423,
foto de Franklin, de Abril de 2009.

O bar que ficava em frente à CCS, no Quitexe - onde
estive faz esta noite 35 anos!

Foto (eu) de há 35 anos, agora tratada em programa informático

A minha cara era esta, à chegada ao Quitexe, a 6 de Junho de 1974. Faz hoje 35 anos e era eu rapaz para pouco mais de 21, todo desempenado e muito seguro e convicto da ideia de cumprir como devia a missão que me (nos) levara até lá. E para a qual, de resto, me tinha(m) preparado na Escola Prática de Cavalaria (em Santarém) e no Centro de Instrução de Operações Especiais, o CIOE (os Rangers, em Lamego)!
Era a idade de todas as irreverências, dos não-medos e das não-dúvidas e até de algumas leviandades. Lá chegados, depois dos dias de forrobodó de Luanda, todos tínhamos consciência de que tudo ia ser diferente! E foi, embora seguramente uma gratificante experiência!
Já aqui lembrei o meu breve recolhimento na Igrega da Senhora Mãe de Deus do Quitexe! E a conversa rápida com o Casares, um dos furriéis que se ia embora! Recordo hoje a noite do meu primeiro sono quitexense, no quarto que iria ser nosso espaço quase privado, meu e do Neto, para não sabíamos nós quanto tempo. Encostámos as malas - eu levava apenas uma bem pequena e um mini-saco, daqueles da TAP - esticámos os lençóis e pusemos as fronhas no travesseiro, na qual iríamos lavrar muitos sonhos e dúvidas. Quase ao mesmo tempo, estendemo-nos cada qual na sua cama e falou o Xico (Neto), uns segundos depois e como que a consolar-nos: «Pronto, pá... já cá estamos!!...».
«É!....Já cá estamos!», respondi-lhe eu.
Ficámos largos minutos em sacramental silêncio, como que «falando» só para nós! Estávamos cansados da enorme viagem desde Luanda, de 320 quilómetros, e fruíamos momentos de desanuviamento físico, até que alguém gritou de fora, que era hora de jantar! Fomos, comemos, demos uma volta apeada e conversada pela vila, muito rápida, ainda fomos ao restaurante que ficava mesmo em frente dos nossos quartos e secretaria (foto) e voltámos ao quarto. O Xico escreveu o seu primeiro aerograma, sem um solto de palavra, concentrado, já saudoso e garantidamente nostálgico! Adivinhem para quem?!
Dormimos lindamente e acordámos como se estivessemos em Águeda, estando no Quitexe!
- 3ª. CCAV 8423: Hoje, em Alter do Chão, reuniu a 3ª. Companhia do BCAV. 8423. Tive o enorme gosto de falar com o Gordo e o Reina, deixando neles uma braço para a malta toda! A que sei, os cavaleiros de Santa Isabel cumpriram exemplarmente a missão que hoje lhe estava atribuída. Abraços!!!
- FOTOS: As fotos das duas casas são de Franklim e de Abril de 2009. Ver em http://quitexe-historia.blogs.sapo.pt/

sexta-feira, 5 de junho de 2009

O vizinho Neca Taipeiro a 8 000 quilómetros de casa...

Saímos do Grafanil ainda era noite da madrugada de 6 de Junho de 1974, depois de muitos pastéis comidos e algumas cervejas bem bebidas, no destacamento! Nada de exageros nas comidas e bebidas, bem entendido! O tenente Mora bem se encarregou de nos impregnar o sentimento de identidade militar e prevenindo-nos para o futuro que nos esperava: o mato, a guerra, blá, blá, blá... E lá fomos nós!
A primeira grande e agradável surpresa foi a de que havia mais cidade e civilização para além de Luanda. Passámos o Cacuaco e chegámos ao Caxito, onde parámos. Tudo tranquilo! E lá seguimos. Voltámos a parar em Ucua e imaginem o meu espanto: entrámos apressados num bar, de um balcão enorme e com toda a gente a pedir cerveja! Uff, que calor!
Como me sentia obrigado, fui ficando para trás, enquanto os soldados se esgalgavam nas nocais, nas cucas, nas ekas, nas missions! Lembro-me que o Neto puxou de um cigarro, baforou o fumo em espirais que subiam no bar e me perguntou o Pires (de Bragança) se não ia beber. Claro que ia!
Aproximei-me do balcão, olhei descontraído, naquela de vou beber já, «ó migo, olhe lá, traga lá uma cerveja!...».
Olho e quem vejo eu?! O Neca!
«Ó filho do Zé Taipeiro, uma cerveja!!!...», gritei, seguramente de ar feliz, porventura provocador e cúmplice!
E o homem do bar, naquela balbúrdia, nem me ouviu.
Como já estava ferradinho na brincadeira, deixei que se calasse o barulho e voltei a gritar, do fundo do balcão, a provocar: «Uma cerveja, ó filho do Zé Taipeiro!...».
Olhou-me o homem do bar, era o Neca, o Neca Taipeiro, surpreso e de olhar interrogado. Quem é que ali, na aquele sertão imenso e longínquo, a mais de 8000 quilómetros de casa, lhe podia chamar assim? Só mesmo um vizinho, que era eu! Ainda hoje moramos a 70 metros. Abraçámo-nos!
«Como é que está Óis, como é que está o meu pai, como é que está a minha mãe?!...», perguntou-me ele, naquele supetão de questões que se fazem na surpresa de um encontro destes.
Despedimo-nos e lá fomos nós a caminho do Quitexe.
- NECA TAPEIRO: Manuel Simões Ferreira dos Reis, meu vizinho de Ois da Ribeira (Águeda), filho de José Maria Simões dos Reis, o Taipeiro. O Neca, com Aníbal Gomes dos Reis (o Lito), foram os primeiros soldados da minha aldeia a fazerem a guerra de Angola, logo em 1961. Regressaram juntos em 1963 e foram recebidos com uma enorme festa popular. Foram os meus primeiros heróis! Ainda são vivos! E meus amigos, ainda que mais velhos 12/13 anos! O Neca voltou a Angola, como civil e nessa condição o encontrei.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

A última noite de Luanda, antes do Quitexe!...

Nossa Senhora do Grafanil, local de recolhimento e oração

A noite de véspera de partida para o Quitexe, de 5 para 6 de Junho de 1974, foi passada no Grafanil, em alvoroço e ansiedade. O dia de muitos de nós fôra vivido na cidade, entre restaurantes, passeios e praia, deslumbrando-nos todos com a sua dimensão e modernidade.
Coisa que nos surpreendia, era a sensação de segurança que se vivia, podendo-se circular sem quaisquer constrangimentos, por qualquer lado. Nem tropa se via, que fosse alguma de excessivo, embora se adivinhasse quem eram os militares, pelo corte do cabelo. Comemos uns bons pregos no pão com piri-piri à farta e vinho verde gelado. Na Portugália, à baixa, na fronteira da Paris Versailles e do jornal A Província de Angola!!! E lá fomos nós pró Grafanil... era para aí meia noite.
A agitação era farta entre a tropa, no destacamento onde «víviámos», fechando-se malas e ataviando-se o pessoal para a viagem. O equipamento foi «testado», coisa rápida - com se estivessemos a medir o poder de fogo. Olharam-se as berliets que nos levariam pelos 320 quilómetros até ao Quitexe e o tenente Mora deu-nos instruções que agora não recordo! Não sei se alguém dormiu, mas ainda era noite quando a coluna arrancou para o norte, estrada do café fora. Cacuaco, Caxito, Ucua, Ponte do Dange, Vista Alegre, Aldeia Viçosa, eram nomes que já não era estranhos no nosso falar de caserna! E Nambuangongo, Maria Fernanda, Santa Eulália, Camabatela.. Só nos faltava ir para lá! Para o Quitexe!
Quando chegámos a Grafanil, ainda passava um filme no cinema e, na saída de toda aquela gente camuflada, fiquei-me a olhar para o altar de Nossa Senhora, feito no tronco de uma árvore!
«Vamos embora!...», gritou alguém, aí para entre as três e as quatro da madrugada, com o céu carregado de vermelhos.
Carregámos as nossas malas e acomodámo-nos como pudemos nas caixas das Berliets. Horas depois, descobri porque se dizia em Portugal «andas a dormir à sombra da bananeira»! Eu, e muitos (todos?) nunca tínhamos visto uma bananeira e admirei-me do tamanho das folhas. Era pela sombra delas que se matavam sonos e preguiças!

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Os bons dias e as boas noites de Luanda....

Baía de Luanda, em 1974. Foto de Jorge Oliveira (Aveiro)

Eu e Albano Resende na Restinga (ilha), com a
Baía de Luanda em frente e o Atlântico atrás (1974)

Os primeiros dias de Luanda foram vividos em farta correria e evidente folia, no encontra este e fala com aquele, galgando-se horas atrás de horas, sempre a conhecer coisas novas, que nos enchiam os olhos e a alma. Em verdadeira vida de civil! E que boa vida!!!
Os canhângulos eram ingeridos em ritmo alucinante, por fazer um calorão - que secava as gargantas e adormecia os corpos. Conheci alguns dos pontos mais turísticos e populares da cidade, muito pela sorte de lá ter disponível o Albano Resende, que se dispôs a fazer-se de "taxista" no Toyota dele, levando-me a aqui e ali.
Numa dessas noites, fui com ele comer bacalhau ao Vilela, no bairro da Cuca - onde moravam o Mário Coelho e Benedita, pais de Fernanda - todos aqui de Ois da Ribeira!! Deixou-me depois na rotunda do Katekero, de onde me levariam viaturas militares, para o Grafanil. Viaturas que tardaram a chegar, recebendo nós a informação (já nem sei como...) de que só seria às xis horas. Não me lembro quais! De todo o modo, algum largo tempo...
Por ali perto, havia bem onde nos divertirmos e o cio da idade e da noite bem puxava por nós! Ora então, se íamos para o mato daí por um dia ou dois, o que fazer para nos «vingarmos» desse futuro? Ora, nem foi tarde nem foi cedo e lá fomos nós, eu e o (não digo!) sensualizar-nos na noite, que nos ardia no corpo inteiro. Fomos para ao Diamante Negro, ali a uma centena de metros do Katekero. E quem lá encontrei? Vejam só: uma conhecida de Águeda, ex-aluna de colégio, que tantos sonhos molhou na rapaziada do nosso tempo escolar e ali estava com outro nome. Com a minha memória fresquíssima, sobre a sua identidade e fisionomia, logo atrevidamente lhe perguntei se não era fulana de tal, chapando-lhe o nome completo. "Não, não sou...", disse ela. Mas era, afinal, e por lá ganhava a vida! Resultado da noite: perdemos a boleia militar e tivemos de ir de táxi para o Grafanil! Lá para as algumas da madrugada!
- CANHÂNGULO: Nome dado, em Angola, a uma caneca de cerveja.
- KATEKERO. Hotel no Largo de Serpa Pinto, baixa de Luanda.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Os «pilha-galinhas» ou a guerra galinácea «do Quitexe....

A Casa das Transmissões, no Quitexe de 1972/73.
Texto e foto de A. Casal (Marrazes de Leiria)

Era normal ter-se conhecimento de ocorrências menos boas e algumas até trágicas na zona do Quitexe. Felizmente, não eram muito frequentes mas sempre que existiam deixavam-nos um amargo de boca. Em que fazenda, qual a picada, em que Companhia? Um sem fim de interrogações!
Mas naquele dia a ocorrência tinha todos os predicados para ser grave e muito grave mesmo. Pairava uma nuvem que ameaçava anunciar qualquer coisa de fantástico e claro que nos olhávamos desconfiados. A avaliar pelo seu historial, o orador não nos traria nada de bom (isso já sabíamos...).
Finalmente, eis o capitão, com o seu ar sisudo, que começava a mirar todos os perfilados. «Ai as minhas patilhas...», pensei eu!... Bom, não era a primeira vez! Mas não é que parou mesmo à minha frente?! Fixou-me bem e deixou no ar um «entretanto a gente conversa» e eu, confesso, sabia bem porquê.
Finalmente, hirto na sua farda engomada e ainda com odor a ferro, do alto da sua idade já avançada para aquelas lides vocifera: «Recebi uma queixa da população, muito grave!!...».
Nós, pobres mortais, vimo-nos envolvidos num silêncio sepulcral, mas eis que arremata:
«Exijo saber quem é que anda a roubar galinhas!...».
Rostos perplexos foi o que mais se viu, mas também de alívio. Afinal, não morreu ninguém, caramba!... «Têm até amanhã para se acusarem, ou vou levantar um auto!...», ameaçou o capitão.
Alguém mais ousado ainda tentou abrir a boca mas ouviu logo: «Sem conversa...».
Terminada a reunião, ficaram os comentários. Uns indignados com o tema, outros perplexos com a ousadia do desvio. Pela parte que me toca e se a memória não me atraiçoa, nunca tinha visto tais aves por ali.
Alguns dias depois, ao entrar na casa das transmissões, notei um ambiente estranho. O Pinto, aquele rapazinho sossegado (demais para o meu gosto) que, diziam mas eu não vi, fazia o risco no cabelo com uma régua, estava impregnado de cerveja e com os olhos esbugalhados!
Pensando já em algo de tenebroso, desci ao quintal e pelo que vi pensei estar numa planície alentejana, onde merendavam meia dúzia de trabalhadores.
O Pinto & Companhia tinham acabado de digerir duas galinhas de churrasco, temperadas superiormente pelo Zé (isto comprovo eu), mas carregadas de gindungo. Ainda estou a ver o Fernando a soprar as «quenturas» do tempero e o Zé perguntar-lhe se tinha asma!
Estava explicada a ira do Capitão! Como se deve ter sentido diminuí­do por, numa zona 100% operacional, ter sido incomodado por meros galináceos!
Se calhar, por ele até fechava a boca mas havia o raio da«psico»! E como é que apanhavam as galinhas em silêncio?!
Pois, fizeram um buraco no portão do quintal, arranjaram milho e espalharam-no grão a grão na rua até ao dito buraco. Depois, diz o Zé, «quando passa, o buraco leva a mocada!...».
Nisto, grita indignado o Pinto com os olhos ainda esbugalhados e lambuzado de molho: «Porra, Zé, também não era preciso arrancares-lhe a cabeça, também se comia, cara...». A casa da galinha continuou sempre no segredo absoluto. Afinal, o pessoal de transmissões estava habituado à contenção.
Na véspera do adeus ao Quitexe, o capitão com um ar sorridente (rarí­ssimo) e matreiro abeira-se do Zé que, feliz com a simpatia do superior, retribui com igual sorriso. Nisto, vê o nariz do «maior» quase tocar o seu e ouve uma pergunta aterradora, que não esperava resposta: «Olhe lá, as galinhas eram mesmo boas?!...».
Estático e afónico foi o estado em que o meu amigo ficou! Claro que o bom homem não podia imiscuir-se em tudo. Seria demais!
Depois, ainda estava bem presente a história do bacalhau! Então não é que naquela santa terra o produto se tornou afrodisáaco?! Será que era por comer em excesso que a sua mente se incendiava e na calada da noite buscava momentos voluptuosos? Voluptuosos e perigoso, muito perigosos mesmo! Nem quero lembrar!...

A. Casal
- COLABORAÇÃO: O blogue está aberto à
colaboração de quem entender. Mandem textos

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O Zé da Bernardete no cemitério de Catete

Cemitério da Estrada de Catete (o novo), à saída de Luanda

Assim que soube que o meu destino era Angola, era Dezembro de 1973, liguei para a vizinha sra. Celeste, para dar notícia a minha mãe. Falava de uma das cabines da estação dos CTT de Lamego e, convencida de que eu já não voltaria a casa, lembrou-me minha mãe o Zé, o falecido marido de Bernardete! «Não é lá que ele está sepultado?», interrogou-me mais tarde.
Em Luanda, já em Junho de 1974 e logo que pude, fui ao cemitério de Catete. O objectivo era descobrir a campa onde estava sepultado José Tavares Mónica, o Zé de quem falara minha mãe. O Zé que não conheci mas era filho da ti Sofia, de Travassô. E que fôra marido da Bernardete - Bernardete que doze anos antes voltara viúva e grávida do filho mais novo. Tudo gente da minha terra europeia de Ois da Ribeira.
Não foi fácil descobrir a campa. São milhares e milhares as que enchem o enorme campo sagrado onde se sepulta(va)m os luandenses e na secretaria de lá não recolhi boas-vontades suficientes para que a localizasse facilmente. Dos irmãos Resende, tinha uma noção próxima: entra-se, ligeiramente à direita, uns talhões em frente. Descobri-a!
Retive-me em momentos de recolhimento, interrogando-me sobre o destino. O jovem casal tinha saído de Ois da Ribeira, em finais dos anos 50, para governar a vida em terras de Angola. Um acidente de trabalho, num silo do porto de Luanda, engolira-o para a morte - deixando orfã a Zézita, ao tempo de uns três ou quatro anos, e com o segundo filho a caminho, no ventre de Bernardete, o Zé! Eu mesmo tinha vivido o drama da perda de meu pai, em Agosto de 1972, ainda não se tinham passado dois anos, e à minha alma sacudiram-se mil pensamentos sobre o valor da vida e das esperanças que sobre ela semeamos!
Sou crente, de formação católica, apostólica e romana, foi meu pai até sacristão de Ois da Ribeira, mas sempre achei melhor uma boa conversa que uma oração, por mais penitente e confessional que seja. Isto, para dizer que naquele dia não rezei em louvor e redenção da alma de Zé, que fôra marido da Bernardete. Falei com ele, contando-lhe traquinices que eu próprio vivera e provocara com os filhos - ambos mais novos que eu e de quem ainda hoje sou amigo de peito. Tenho a certeza que me ouviu e quase diria que até lhe ouvi perguntas sobre a sua família de Ois.
Saí do cemitério com uma estranha alegria e, por aerograma, logo mandei notícia a minha mãe: «Estive na campa do marido da Bernardete, estava composta!...». Queria isto dizer que estava com flores e limpa! Quando recebi troco dela, da autora dos meus dias, disse-me, simplesmente, sobre a nova: «Ai foste lá?! Fizeste muito bem!...».
Voltei lá uma boa meia dúzia de vezes, ou mais! Sempre que ia a Luanda, ido do Quitexe ou de Carmona.
- BERNARDETE. Filha de Higino e Efigénia, mãe de Zézita e Zé. Enviuvou de José Tavares Mónica aos 20 e poucos anos.
- ZÉZITA. Maria José Pires Tavares, filha de Bernardete e José. Professora primária, reside em Ois da Ribeira.
- ZÉ. José Pires Tavares. Irmão de Maria José, filho de José e Bernardete, padrinho de minha filha Ana. É militar e reside em França.
Foto de 2005, tirada DAQUI.

domingo, 31 de maio de 2009

Quando soubemos que íamos ser Cavaleiros do Quitexe...

Entrada do Campo Militar do Grafanil, nos
arredores de Luanda, na estrada de Catete e antes da cidade de Viana

A vila do Quitexe com a capela em primeiro plano. Foto Major Pinheiro,
2º Cmdt BARTª 786, tirada em Março de 1967. Clique, para ampliar.

Fátima e José Bernardino Resende, com as duas filhas; Albano
Resende, eu e o capitão Branco Domingues em Luanda, em Abril de 1975.


O Grafanil nos recebeu, a 30 de Maio de 1974, e no Grafanil soubemos onde íamos «pousar» pela razão que nos levava a Angola: a CCS do BAV 8423 iria ficar no Quitexe? Quitexe? Eh pá!!!... Deu-me um arrepio e fui ao saco da TAP rever a literatura que levava e avidamente devorara, sentindo-me algo esmagado pela brutalidade das imagens de homens, mulheres e crianças assassinados, degolados na terra mártir do Quitexe, numa brutalidade imensa, reportada a 1961 - o início do chamado terrorismo! Fiquei a soprar e a morder os lábios!
Bom, não adiantava constranger-me!! Logo em Luanda perguntei tudo o que pude sobre o Quitexe e o melhor que ouvi foi o José Bernardino Resende dizer-me que «é lá para o norte, não é o melhor sítio...», mas descansando-me com um misericordioso «está em Carmona um primo da Fátima, que é capitão...».
A Fátima era a mulher e o primo o capitão Branco Domingues, que estava no Comando de Sector e eu só viria a conhecer em princípios de 1975. O Albano, sobre o Quitexe, disse-me coisa parecida.
Comentei o Quitexe e o que soubera dele com o (furriel) Neto, que reagiu muito descontraídamente: «Não vai ser nada, pá!!!...». E, na verdade, o que é que nos poderia meter medo, aos 22 anos, no apogeu da força física e magnificamente preparados com estávamos, no plano técnico-militar e psicológico?!
Concordámos em não divulgar nada do que soubéramos sobre o Quitexe, nem sequer comentar entre os nossos pares furriéis. Creio que só eu terei quebrado esse compromisso quando, num almoço no Pólo Norte, na baixa de Luanda, achei por bem (mal) intrigar um nosso companheiro furriel, cujo nome omito, por razões de constrangimento: «Se soubesses o buraco para onde vamos!...». E com este meu "roer de corda" matei a fanfarronice absurda e leviana desse nosso companheiro de batalhão.
E para terras do Quitexe fomos a 6 de Junho de 1974!
- J. BERNARDINO. José Bernardino Ferreira dos Santos Resende, conterrâneo de Ois da Ribeira que eu não conhecia, na altura. Já falecido. Irmão mais velho de Manuel e Albano F. S. Resende, todos ao tempo residentes em Luanda.
- ALBANO. Albano F. S. Resende, irmão de José Bernardino e de Manuel. Meu contemporâneo de escola, embora mais velho. A família morava a 50 metros de minha casa, em Ois da Ribeira. Reside nos arredores de Lisboa.
- FOTO: A foto (de família) é de Abril de 1975. A narrativa de hoje refere-se aos dias 2 ou 3 de Junho de 1974.

sábado, 30 de maio de 2009

O primeiro dia de Luanda...

Baía de Luanda, vista de duas perspectivas (net)

A descoberta de Angola foi feita com ansiedade e de amor à primeira vista! Os cheiros, o tudo que os nossos olhos viam de novo, tudo novo, parecia entrar-nos no coração como se fosse coisa familiar e de sempre.
Algo que me despertou imediata atenção foi o ar descontraído das gentes de Luanda, brancos fossem, ou negros, mulatos, de qualquer cor. Ou os ritmos novos que nos surpreendiam, para além de tudo o que já ouvíramos falar, tivessemos lido ou de qualquer modo soubéssemos da terra angolana.
A primeira noite, iniciada num restaurante da Mutamba, foi como que de magia: pela sensualidade das gentes que passavam diante dos nossos olhos, pela descontração e relacionamento entre homens e mulheres de tantas cores, pelas fronteiras inter-raciais que parecia não existirem. Pelo correr desembaraçado da crianças, brancas, negras ou de qualquer outra mistura de pele, que me pareciam todas iguais enquanto a noite crescia e as estrelas nasciam no céu meio avermelhado que caía para além da restinga, ou do Mússulo. Pode parecer que descobri tudo nessa noite, o que aqui conto! Não foi assim! Mas a minha primeira noite de Angola foi um total piscar de olho, um jogo de cumplicidades, um namoro logo assumido.
«Vive-se bem, por aqui...», disse-me o Albano Resende, nessa primeira noite luandina, ele que era meu vizinho de Ois da Ribeira e fazia pela vida em terras de Angola. Tinha razão!
Faz hoje 35 anos!
Fotos da net.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

A partida para Luanda, faz hoje 35 anos...

Entrada do Campo Militar do Grafanil (foto da net)

Avião dos TAM. Um dos três que fazia o transporte de militares

Largo da Mutamba. Aqui comi o primeiro jantar de Angola

Baía de Luanda à noite. Assim podia ser vista do avião dos TAM

Aeroporto de Luanda nos anos 70. Lá cheguei faz amanhã 35 anos

Lisboa, faz hoje 35 anos, anoiteceu com chuva torrencial. Idos de Santa Margarida, literalmente de armas e bagagens, lá íamos nós, homens do BCAV 8423 - a maioria a viajar pela primeira vez numa auto-estrada e a ir a Lisboa. E falo por mim!
A chuva caía a rodos mas não impediu o embarque, naquela algazarra típica da irreverência de jovens de 22 anos! Íamos para Angola! E por sinal bem divertidos, como se fôssemos em férias!
Levava em mãos um Mundo Desportivo (o jornal) e um livro de Horácio Caio (a capa, na foto), que justamente falava da guerra para que nos dirigíamos, sem eu sequer desconfiar que íamos parar ao Quitexe. Lá eu sabia o que era e onde era o Quitexe!
Gostei de ver Lisboa, a voar por cima dela, de noite e assim que o avião dos TAM levantou voo e ganhou rumo para Luanda. Depois daquele primeiro friozinho na barriga, deslumbrei-me com que via! A cidade era linda, vista do céu! Comemos e adormecemos.
A certa altura, alguém comentou que sobrevoávamos Bissau. Se era, vimos uma cidade calma, parecendo-me mal iluminada. E chegámos, já era manhã, à encalorada Luanda - que vimos do ar, sobrevoando a baía, que nos deslumbrou! A cidade paraceu-nos grande e não suspeitámos nela qualquer ar de guerra, o que nos deu grande tranquilidade e confiança!
E lá fomos parar ao Grafanil, o campo militar onde logo nos apareceu um sargento, querendo cambiar escudos por angolares. Lembro-me bem como, ainda no aeroporto, me senti sereno e logo soltei o blusão militar, largando suores fartos e bebendo a primeira cerveja angolana - uma Cuca. Eu levava angolares no bolso! Achei a Cuca demasiado leve. E bebi outra, e outra! Também havia a Nocal, a Eka, depois a N´Gola!
Nesse dia, era quinta-feira e já no Grafanil, ainda procurei o Custódio, meu vizinho de aqui a 100 metros, que por lá já jornadeava a sua comissão, como soldado sapador. Levava-lhe chouriços da mãe. Não o encontrei! Saí do Grafanil para ir a Luanda e localizei a namorada do Manuel Resende (o Pechincha!), outro vizinho daqui. E por ela cheguei ao Albano Resende, o irmão - que por lá fazia vida de civil. Fomos jantar ao largo da Mutamba, a restaurante que por essa altura se abria! E fui dormir a minha primeira noite de Angola. Ao Grafanil! Tinha começado a gostar de Angola! Há 35 anos, por esta hora em que escrevo este post, preparava-me para voar para Angola, deixando minha mãe viúva de pouco tempo! Agora, diverte-se ela, aos 88 anos, a ver fotografias do filho na net! De quando ele foi para a guerra!
Fotos retiradas da net.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

A segunda véspera da partida para Angola...

Cabos milicianos Viegas e Ferreira, no RC4, em
Santa Margarida, em Maio de 1974

Há 35 anos, faz hoje, foi a segunda véspera da nossa partida para Luanda, adiada de dois dias antes. O Neto pôs-se em casa, na Bicha-Moura (Águeda), enquanto o diabo esfregou o olho, pois sempre eram mais dois diazinhos de namoro com a Ni - que o coração andava em pulgas de paixão! Eu, optei por ficar em Santa Margarida, gozando das delícias do «edénico paraíso» que era o Regimento de Cavalaria nº. 4 - a nossa unidade mobilizadora.
Sem nada para fazer, para além do comer e dormir da circunstância, por lá enganei o tempo, em passeios e leituras, jogos de cartas e telejornais - que eram fartas das notícias do 25 de Abril, nos televisores a preto e branco do tempo. Estive na capela, fui ao cinema, dei umas idas ao destacamento onde estava o batalhão e por ali andei, em ciranda de horas a passar.
Companhia desses dois dias, entre muitos outros que por lá também ficaram, era o Zé Ferreira - o outro «ranger» de que falei há dias e que no RC4 fazia o seu IAO. Conversámos muito e coisa que ele estranhava era eu não ter aproveitado os dois dias do adiamento para ir para casa. Ele teria ido, assim como o Neto fôra. «Porquê, ó Viegas?...».
Não sei o que lhe respondi, não me lembro, mas devo ter sido muito convicto - pois a conversa mudou rápido. Já bem pela segunda noite dentro, começou a chegar a malta que aproveitara os dois dias e, por mim, confirmei a minha razão de não ter querido ir repetir despedidas! A malta vinha algo perturbada e mais nostálgica! A sentir mais a hora da viagem para a guerra.
«Amanhã a gente ainda se vê?», perguntou-me o Zé Ferreira.
«Não creio...», disse-lhe eu.
«A que horas vão para Lisboa?», retorquiu-me ele. Mas nem eu sabia bem.
A 29 de Maio de 1974, desfazia eu os nós da despedida que se aproximava, no fim de almoço e no bar dos cabos milicianos, íamos dentro de pouco tempo para o aeroporto de Lisboa, quando apareceu o Ferreira a correr - vindo do IAO. Olhou a sala, encontrou-nos - a mim e ao Neto e a outros... - e abraçou-se pendurado nos meus ombros.
Senti que nos queria dizer alguma coisa, mas não disse. Eu gracejei qualquer dito, não sei o quê..., reabracei-o e ele soltou-se em passo ligeiro, porta fora. Sempre sem uma palavra!
Ainda estou a vê-lo, depois a espreitar-nos da janela, até ir embora.
Ontem, telefonou-me por causa deste blogue e recordámos os dias de Santa Margarida. «Olha, faz além de amanhã 35 anos que andei pela primeira vez de avião. Quando fui para Angola...», disse-lhe eu.
"Estamos velhos, ó Viegas...», ouvi-lhe, dando-me troco.
Pois é, Zé... Estamos velhos! Estamos velhos e não esquecemos Angola!
- IAO. Instrução Altamente Operacional, último período de preparação militar, pós-mobilização. Por vezes, chamavam-lhe... manobras!

quarta-feira, 27 de maio de 2009

A companhia (não) apresentada ao alferes Ribeiro

O furriel Neto e o Alferes Ribeiro, numa noite do Quitexe

O alferes Ribeiro era o oficial miliciano sapador, de um pelotão que incluía os furriéis Mosteias, Cândido Pires e Farinhas. Engenheiro de formação, era a imagem da serenidade, da camaradagem, da tolerância e do saber-estar.
Um dia, estava ele, alferes Ribeiro, de serviço - de oficial de dia - e eu de sargento de dia, fazia-se a apresentação regulamentar da companhia, na parada das casernas e oficina-auto, atrás do edifício verde do comando. Eram três menos um quarto, o sol estava quase a pique e os soldados formavam o «U» com a malandrice indolente da hora, despreocupados e lentos, depois do café e do bagaço do almoço. Nada que não fosse habitual.
Era norma que, ultimada a formatura, se apresentasse a companhia ao oficial de dia. E naquela hora estaria a caminho o alferes Ribeiro, vindo da messe de oficiais para o cerimonial, quando irrompeu na parada o capitão Oliveira. Que eu não vi! Ele morava ali perto, fora do aquartelamento, com a mulher, a filha e o neto, e nem era habitual comparecer às duas formaturas diárias. Pois apareceu e, como não lhe fiz a apresentação regulamentar, berrou-me: «Ó nosso cabo, apresente lá essa m...».
Pfff...., o que disseste, capitão!!! Fiquei pasmado da surpresa de ele aparecer e do que disse! Gelaram-se-me as veias e mordi os lábios. De raiva!!! Cabo, eu?!!! «Essa m...?!!!...». Essa quê?!, perguntei-me por dentro. «Vossa Excelência meu comandante dá licença?!!! Apresenta-se o furriel miliciano tal, nº. tal, de Operações Especiais! M... pronta!!!», apresentei eu, depois dos passos do regulamento, à direita, em frente, palada de mão direita, hirta e seca, saudando o oficial! Ai o que eu disse!
Gerou-se um burburinho dos diabos, entre a centena e meia de praças que estavam na formatura. Meia volta, passo em frente, um, dois três: «Na formatura, não se fala, não se mexe, nem que passe um c... pela boca!...», gritei eu. Eu estava mesmo furioso para caraças!

Foram uns segundos de tensão. Farta tensão! Voltei-me: passo à direita, outro passo, e ia a reapresentar a Companhia mas o capitão já ia a caminhar a uns metros de mim, já de costas. A ir embora.
«Disse-me para lhe dizer, para ir ao gabinete dele...», disse-me o cabo Marques, o carpinteiro - o Manuel Augusto da Silva Marques, de Esmoriz.
Lá fui. De caminho, disse-me o alferes Ribeiro. «Podias ter evitado isso, aguenta-te!...».
Fui e nada aconteceu de especial, para além da invocação das NEP´s e muito comigo temeroso de alguma atitude disciplinar. Que não aconteceu!
Comentou-me o alferes Ribeiro, nessa noite, íamos aí pela uma da madrugada, estando eu seguro que estava solidário comigo: «Não percebeste o capitão, estou por ti mas podias ter criado um problema...».
O meu castigo foi ser nomeado fiscal de alimentação, à ordem. Acho que nisso fiz um papelão, razão de histórias para outras alturas!

terça-feira, 26 de maio de 2009

A morte da cobra cuspideira com o tiro certeiro do Alferes Garcia



ALFERES GARCIA, ao lado,
e a estrada de Quitexe para Carmona

A estrada para Carmona era o norte habitual da malta militar, que lá ia, à cidade, com fome das aventuras que a pacata e familiar vila do Quitexe não proporcionava.
Muitas vezes passámos nós por esta estrada, à cata de algum momento mais divertido, idos da vila onde estava instalado o comando do BCAV 8423. Éramos jovens de sangue quente, muito quente, e permanentemente desejosos dos pecados da carne! O que, verdadeiramente, nem era surpresa ou novidade para ninguém!
Havia, para ir à cidade, uma espécie de «rotação» entre os militares que, com o devido «passaporte», se faziam transportar nas viaturas que seis dias por semana asseguravam o Serviço Postal Militar (SPM). Saía-se pela manhã e vinha-se ao fim da tarde, depois de chegar o avião de Luanda - o avião que trazia o correio. O intervalo era para andar na galderice!
A minha «estreia» nesta estrada, porém, foi em viagem até uma tabanca muito próxima do Quitexe, onde o nosso pelotão foi «despejado» das berliets. Dali, iríamos palmilhar alguns bons pares de horas, num patrulhamento diurno que nos levou por lavras e matas. E pelos tais medos que sempre tínhamos!
Desse dia, absolvam-me da minha surpresa ao ver as mulheres a lavar roupa num ribeirito de pouca água, meias desnudas, de seios soltos e fartos, com os seus corpos cor de ébano a bombalearem-se descontraídamente - e que nós olhávamos com avidez desmesurada, ficando como que embriagados de cio e desejo. Outras, com as crianças às costas, pilando um milho que me parecia preto. Outras ainda, estranhamente, esfregando os dentes com um pau. Vim a saber que os estavam a lavar! Tudo isto era estranho para nós, há pouco chegados da Europa.
Desse dia, faço memória da pontaria «milagrosa» do Alferes Garcia, muito seguro na mira da G3 e no disparo que matou uma enorme cobra que se espreguiçava de um cafezeiro e, quem sabe?, iria cuspir veneno para cima de algum de nós.
Foi um tiro certeiro, e único, depois da ordem para o PELREC parar! E o enorme bicho, ferido de morte, contorceu-se, virou-se, pendurou-se, silvou... - um estranho silvo, como se assobiasse, um silvo que nos amedrontou... - e caiu, falecendo-se aos poucos! Um negro que a esventrou disse-nos mais tarde que era mesmo venenosa.
Nesse dia, algum de nós, quem sabe?, teve Deus pelo seu lado! E a sorte da pontaria e serenidade do Alferes Garcia, para evitar alguma tragédia!
Tinha a cobra mais de três metros e um peso e volume para ser pegada por três homens, já morta e bem morta! Lembro-me também de, nesse dia, um dos nossos soldados ter comentado a pontaria do alferes: «O tipo é bom!!....».
E era. E nem só na pontaria! Também na alma! Imensamente! Sempre!!!!

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Os Cavaleiros do Quitexe em vésperas do embarque para Angola, há 35 anos...

Cabos milicianos Viegas, Ferreira (na frente), Monteiro (tapado)
e Neto, no bar do RC4, em Santa Margarida, já mobilizados para Angola


Há precisamente 35 anos, estávamos nós a caminho da guerra, mobilizados para Angola. Tínhamos viagem marcada para 27 de Maio, depois adiada por dois dias, e o caminho aéreo era para Luanda, logo depois se veria!
O nosso destino, naquela idade e tempo, estava desde há muito anunciado: a tropa, a mobilização e um de vários destinos da nação que se anunciava multi-racial e pluri-continental. Para isso, tínhamos batido recruta em Santarém e especialidade em Lamego, no Centro de Instrução de Operações Especiais - os Ranger´s! Outros, noutros locais.
O 25 de Abril tinha sido há dias - um mês, para sermos exactos... - e murmurava-se que para a guerra não iria mais um soldado. Mas não foi assim.
A foto é de 27 ou 28 Maio de 1974, de há 35 anos, tirada no bar do Regimento de Cavalaria 4, em Santa Margarida. Aos três ranger´s do BCAV 8423, ali se juntava, já refeiçoando a nossa despedida, um outro ranger de Águeda - o Zé Ferreira, de Macinhata, que foi parar à Fazenda Maria Fernanda e depois a Benguela!
O nosso futuro imediato era o bojo de um 707 dos TAM, que nos voaria pelos céus de África fora, até Luanda. Neste dia, um de nós interrogou-se: «Como é que nunca ninguém se lembrou de atacar os aviões dos TAM?».
«Vai ser o vosso o primeiro!...», gracejou o Ferreira, a quem ainda hoje chamamos Pimenta.
«E se te fosses f...!!!», exclamou o Neto, furioso e brusco, esmagando a ponta do cigarro no cinzeiro cheio de piriscas.
O Monteiro, pálido na tez, não disse «ai Jesus» que se ouvisse! E eu sacudi o Pimenta, com um encontrão bem forte. «Vai mas é à m..., pá!...».
O resto da noite foi de muita conversa e cumplicidade, todos amigos, entre mais uns copos de tinto, sei lá se também umas cervejas. «Ó Viegas, quando lá chegares diz para cá como é aquilo...», sugeriu-me o Ferreira - que na altura já sabia ir para Angola! Era do turno seguinte ao nosso.
Assim fiz, mal lá cheguei, num aerograma cheio de «sangue» e lágrimas, vertidas da minha gana de o iludir, «vingando-me» da afronta suicida de Santa Margarida. E pior lhe fiz, já ele na Fazenda Maria Fernanda, quando lhe narrei dramas e tragédias que meteriam medo ao mais valente! Tudo «mentira» e quanto isso o incomodou! Acabei por fazer as «pazes» em Benguela, em Abril de 1975, quando ele para lá foi, fazendo a segunda parte da sua comissão num quartel separado da praia por... arame farpado. E eu por lá passei de férias, com o Cruz! Bons canhângulos por lá bebemos, com camarões que faziam crescer cerveja na boca!
- FERREIRA: José da Conceição Ferreira, o Pimenta. Furriel miliciano de operações especiais, natural de Macinhata do Vouga (Águeda). É chefe da estação de Correios de Oliveira de Azeméis.
- MONTEIRO, NETO E VIEGAS. Os três furriéis milicianos de operações especiais da CCS do BCAV 8423.
- TAM. Sigla de Transportes Aéreos Militares.

domingo, 24 de maio de 2009

O alferes miliciano Almeida dos reabastecimentos


A um qualquer dia de Julho de 1974, no machimbombo de Luanda, chegou à vila o mais esperado «cavaleiro» do Quitexe: um tal oficial de reabastecimentos, que escapara na malha da nossa mobilização e já ia no segundo mês de «balda» á tropa. Quem era ele, quem não era e como seria, o homem era um mistério!
Chegou, finalmente, seguramente farto da viagem no incómodo machimbombo que o trazia da cosmopolita Luanda, e coube-me ir esperá-lo à rua de cima. Eu estava de sargento de dia e incumbia-me encaminhá-lo para onde devia. Era, logo ficámos a saber, o alferes miliciano José Alberto Alegria Martins de Almeida.

A olhar-se para ele, com a nossa curiosidade afiadíssima, não nos escapava o ar de cultura, de sobriedade, de inteligência, que quase pareciam envergonhá-lo. A discrição, uma quase timidez!
Então de onde é que é, como é que é, blá-blá-blá..., logo ali ficámos a saber que tínhamos homem para latas e profundas conversas. Via-se que por aquela alma levedava cultura e sabedoria! E veríamos, depois, que também competência, eficácia, talento e humanismo. Tal e qual e sem nenhum sal a mais.
Coube-me depois, por sorte de serviço, fazer-lhe o debute de oficial de dia e passámos horas no blá-blá-blá das noites de África, que sempre se tornavam misteriosas. E mais cúmplices, ainda, pela curiosidade que ele quis lavrar-me, para saber como era o Quitexe e Angola. E eu, que já era um «veterano de guerra», querendo perceber bem que homem era o nosso! E saber o que se passava por Portugal, que ao tempo se enchia das labaredas revolucionárias incendiadas em Abril anterior!

Hoje, de Marrocos, recebi conversa electrónica do amigo (ex-alferes miliciano) Almeida, a falar do blogue e da vida. Vejamos:

Olá meu (não nosso ! …) Caro Furriel Viegas:
É de Marrakech que estou a responder.

Tenho lido, com agrado, a prosa (extensíssima …) dos Cavaleiros.
É evidente que tem tido um (compreensível ) pendor furrielístico, que pode (daqui a uns séculos, quando um historiador incipiente se for basear neste documento !) levar a crer que a nossa missão não teve nem oficiais (o que não seria assim tão grave …), nem soldados (o que já é preocupante…).
Tenho o dever de escrever algo, assim me assista o engenho e a luta contra o defeito de ter uma escrita que tarda muito a estar concluída (daí, o ela depois sair como um bom assado em forno de lenha...).
Tenho poucas fotos da nossa missão, mas tenho muitas memórias: é só por essas memórias que tenho de escrever o primeiro texto sobre o Alferes Garcia.
Como sabes, nunca participei em nenhum dos encontros e reencontros do pessoal do nosso BCAV . Mas concordo que este blogue pode constituir uma forma diferente e interessante de promover esse(s) reencontro(s).

E por aqui me fico, para não competir em extensão de texto com as prosas do meu amigo Celestino…
Um abraço do Zé Alberto (isto é, o discreto Oficial de Reab(astecimentos), que teve a sina de ficar “ad eternum” gerente da messe de oficiais).

- ALMEIDA: José Alberto Alegria Martins de Almeida, alferes miliciano de reabastecimento, natural de Oliveira de Azeméis e residente em Albufeira. Licenciado em economia e arquitectura, é, com o nome profissional de José Alberto Alegria, pioneiro em Portugal da renovação da geo-arquitectura e das modernas arquitecturas em terra (em taipa e adobes). É Cônsul no Algarve do Reino de Marrocos, professor universitário, conferencista, empresário. A foto é recente e do seu gabinete de Albufeira. Ver o currículo AQUI.
- MACHIMBOMBO. Assim se chamava a um autocarro, em Angola.

sábado, 23 de maio de 2009

A ponte do Dange (não) dinamitada

A ponte do Dange

A foto é recente e da ponte do Dange, aparentemente com um novo tabuleiro em construção. Ao lado, julgo poder identificar a antiga - por onde passámos em1974, por mais de uma vez. Será? Francamente, não consigo rev(t)er a imagem. Seja como fôr, passei na ponte do Dange duas noites e três dias, em data que também não consigo precisar! Fazia-se-lhe protecção, já que que era nevrálgica para o sistema rodoviário, entre Luanda a Carmona - a chamada Estrada do Café!
Indo sair uns dias e sabendo ser para missão estacionada, levei alguma literatura. Era 2ª. feira e, de Lisboa, tinha chegado o Expresso, o jornal - que, ao tempo, não se vendia ao "quilo", como agora, e eu lá recebia semanalmente.
Ao segundo turno, passei a ronda e, com a noite toda serena e de lua cheia, sem cheiro de IN, sem ruídos que nos fizessem nascer medos e connosco espreitando o luar que se punha por cima da mata, pus-me a matar o tempo em leitura do Expresso! De repente, um susto: o jornal noticiava que a ponte do Dange tinha sido dinamitada e que tinham morrido dois soldados portugueses! Senti um frémito de medo e angústia! Apanhou-se-me o peito! A ponte dinamitada?!
Estava armado, de G3 com bala na câmara e dilagrama, duas granadas defensivas e outras tantas ofensivas! Os soldados estavam de alerta, as redondezas armadilhadas e a ponte estava ali na nossa frente, intacta! Eu mesmo, não muito antes, a atravessara apeado, vindo de um posto de controlo, do outro lado do rio! Como era possível um jornal de Lisboa, de dois dias antes, dar notícia da destruição da ponte?!!!
«Será outro Dange...», considerou-me o Leal, que era soldado de poucas palavras e estava ali ao meu lado, em turno de descanso mas sempre de olho vivo, sentado sobre uma grade vazia de cerveja e, mesmo em descanso, espreitando os perigos que se suspeitavam da noite!
Olhámos, ambos ansiosos, para o bréu dos Dembos: a lua parecia-nos maior que nas outras noites, o luar abria avenidas no escuro e, de longe, ouviam-se piados e grunhidos de animais da selva! Mais do longe, pareciam ouvir-se batuques - que seriam de uma aldeia que sabíamos próxima!
A noite passou-se, sem mais leituras do jornal e com um milhão de cuidados, sem um momento de cerrar os olhos! Um momento sequer!
Quando o sol caiu nos nossos olhos, folgámos o sistema nervoso. Ali perto, vi passar uma velha, que cachimbava e se sentou numa pedra enorme, caída de algures. Lançava fumaças para o céu que se avermelhava, eram menos de sete horas da manhã.
«Bom dia, esfurrié...», disse-me ela, quando me aproximei.
Tínhamos-nos visto na véspera, na tal aldeia, e a velha que cachimbava levava uma cântara de madeira, cheio de fuba. Outra, com água! «Vais comê nos nossa aldeia?», perguntou-me ela, soltando uma espiral de fumo, lenta, em direcção ao céu.
Disse-lhe qualquer coisa e voltei à guarnição, onde já cheirava a leite escuro, para o mata-bicho, nas malgas de lata que o serviam com o pão duro de véspera. «Notícia de m....», pensei eu, sobre o que lera da dinamitação da ponte do Dange e apetecendo-me dar uns bons pontapés a quem tal notícia editou!. «P... que os p....!!!...».
Quando de lá voltámos ao Quitexe, olhei para a ponte numa espécie de adeus! E ela ali estava, intacta! Nunca mais por lá passei!

sexta-feira, 22 de maio de 2009

O inquieto Machado das nossas reinvindicações...

Os furriéis Machado, Neto e Pires (Bragança), civis de 1999

Hoje, telefonou-me o Machado!!! Estava eu no conforto de um café da tarde, numa instituição em que colaboro, quando o telemóvel me anunciou um desconhecido!!! E eu, que teimosamente não atendo desconhecidos, nem gosto de atender em horas de... serviço, afinal... atendi!! Era o Machado, o Machadinho, como gostávamos de lhe chamar!!!

Não havia questão onde tivesse de se botar palavra e opinião que não tivesse o impulso e a crescente e empolgada inquietude do Machado - a quem nunca faltava argumento para discutir o que quer que fosse! Se o grupo de furriéis tomava uma posição, lá estava o Machadinho na primeira frente. Ele e o Neto! E, se me dão licença, eu também dava uma perninha.

Uma vez, era latente o mau-estar entre os milicianos e os sargentos do quadro! Já se prolongava há semanas e nem nos podíamos ver! Por razões que não vem ao caso, mas que nada tinham a ver com indisciplina! Nada disso! E nós, mais refilões, nem entendiámos como é que dois ou três de nós (furriéis) acamaradavam com eles. Então, um dia, tomámos uma decisão radical. Note-se que não foi nenhum plenário, ou coisa que o valesse, foi tudo espontâneo: não mais nos sentaríamos à mesa com os tais fulanos. Tal e qual! E não sentámos, até que os cavalheiros se começaram a portar bem, do nosso ponto de vista! E deixaram de partilhar com (alguns) civis os géneros que nos pertenciam por direito!

Este movimento de furriéis, visto há distância de quase 35 anos, carreia alguma emoção e foi, seguramente, um bom exemplo de camaradagem e solidariedade. O Machado e o Neto bem merecem estar neste pódio de saudade e partilha que desfio nas palavras de hoje.

«Os nossos furriéis são furriéis do caral...», comentavam muitos praças, por esta e outras razões, sempre que nos viam envolvidos em reivindicações. Em reinvindicações, é certo, mas nunca em tresmalhamentos disciplinares!

Avé, Machadinho!!!! Gostei de te ouvir e de saber que é médico o filho dos teus amores!

quinta-feira, 21 de maio de 2009

O companheiro a quem passámos a chamar.. banana

Imagem da paisagem civil do Quitexe, aqui o Rio Loge!!! A foto é recente, retirada da net, e foi por estes lados que passei umas primeiras tardes de domingo da comissão em Angola!
Havia por aquelas bandas uma fazenda (não me recordo o nome, seria a Pumbaloge?!) por onde o PELREC passava frequentemente, em missões de patrulhamento e reconhecimento. Numa das primeiras, tivemos uma singular descoberta: bananas vermelhas.
Pode parecer estranho, e até caricato, terem-se espantado os jovens cavaleiros idos da metrópole europeia para as terras angolanas do norte cafeeiro, por haver bananas vermelhas! Mas, na verdade, nunca eu próprio vira tal cor nas bananais cascas! Foi um espanto daqueles!!
Levámos cachos e cachos delas, por gentileza do fazendeiro, e se espantados fomos nós, espanto criámos no Quitexe, na casa dos furriéis. Nenhum deles alguma vez tinha visto bananas vermelhas. E logo cachos e cachos delas!!! Um fartote!
Consolou-se delas um dos nossos companheiros (não vou dizer o nome!!!), à custa disso ganhando por tempos a alcunha de (fulano de tal)... Banana. Ainda por cima, era ele um homem de transmissões, especialidade por onde vagabundeava um rádio chamado... banana! Lembram-se, meninos?!
Foto DAQUI.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

A «menina» do Quitexe que foi ao cinema...

Clube Recreativo do Quitexe

O Clube Recreativo do Quitexe (foto) ficava na estrada do café e foi pouso de exibição de alguns filmes, por iniciativa do Gabinete de Acção Psicológica e para espectadores militares e civis. Já não tenho uma memória nítida da sala, mas é seguro que tinha balcão.
Uma noite, aí pelos idos de Dezembro de 2004, passou por lá fita que ninguém queria perder: «Eusébio». O filme do imortal futebolista português de Moçambique que, ao tempo, embora já algo distante do fulgor das suas enormes potencialidades, estava em apogeu de fama. Ainda hoje!!!
Andávamos nós por ali na nossa brincadeira de travestis quando o Machado, que era homem para muitos humores, não teve outra coisa que não desafiar-me: «Não és homem nem és nada se não fores assim ao cinema!...». E eu fui!
Aperaltei-me para a soirée, com os melhores encantos que pude, sem batons e máscaras, ou lábios pintados, mas muito feminino!!! E, valha a verdade, algo envergonhadote e até com medo de alguma atitude dos regulamentos militares. Mas lá avancei na noite para a sala de cinema, já de bilhete comprado!
O poiso era no balcão, e com o jeito feminino que Deus não me deu, lá me fui saracoteando, dando à anca e compondo os seios postiços que pendurava dos ombros.
«Mas quem é esta gaja?!», ouvia-se perguntar.
Nunca por ali se tinha posto o olho em tal mulheraço!...
Mostrava a fita os golos do «pantera negra» e gritava o povo civil e militar «Eusébio, Eusébio...», quando, ainda antes do intervalo, o vizinho do lado direito, um alferes miliciano acidentalmente no Quitexe, começou com avanços que eu fui rejeitando como pude. Às tantas, estava já com a mão pousada no meu joelho direito, agasalhando-se no escuro da noite do cinema. Fui-o sacudindo, enquanto pude resistir ao gargalhar da situação, até que não aguentei mais e abalei da sala de cinema, em passo rápido, fugindo rua abaixo, até ao meu quarto.
Mas fui visto por outro oficial, este do quadro, homem dos seus 50 e tal anos, que passeava a sua noite na avenida do Quitexe. E eu, que tinha que passar ao alcance dos olhos dele, corri, corri..., até que entrei no quarto, rapidamente me desfazendo das roupas femininas - aliás, facéis de arrumar!
Logo bateram à porta, de forma sôfrega e apressada: «Abra a porta, abra a porta...", gritava o oficial. Era ele. Abri, assim que pude, já em calções civis!
«Onde é que ela está?», perguntou ele, de olhos esgaseados e desconfiado.
«Ela, mas ela quem?!...», retorqui eu, já a morder-me de gozo, com o insólito da situação.
«A mulher, a mulher... onde é que ela está?...», insistiu o bom do oficial do quadro, a espreitar debaixo das camas e nos dois únicos armários do quarto, o meu e o do Xico Neto, sem dar por mulher nenhuma. E que, naturalmente, nunca encontrou.
A coisa era estranha para ele: então tinha ali entrado um mulher, vira-a ele com olhos que a terra lhe haveria de comer, e não a achava?!!! E nem ela poderia ter saído pela janela, que estava vedada com a rede mosquiteira. Como é que podia ser?
«Não está aqui mulher nenhuma, meu... », dizia eu.
E vasculhava o homem, sem a encontrar, o que lhe parecia de todo impossível. Ele tinha-a visto entrar, tinha de estar ali.
Ainda hoje julgo saber que o bom do oficial nunca desfez tal mistério.
- OFICIAIS: Sei bem os nomes dos dois oficiais em causa. Não cito o nomes, por razões óbvias e para evitar constrangimentos.
- MACHADO. Manuel Afonso Machado, furriel miliciano mecânico de armamento, natural de Covelo do Gerez (Montalegre) e residente em Braga.

terça-feira, 19 de maio de 2009

As cassetes de amor e juras para as namoradas de Portugal...

Furriéis Neto e Viegas no seu quarto do Quitexe
Os tempos mortos do Quitexe, que os havia!!!..., eram muitas vezes ocupados em gravações, chamávamos-lhe nós programas de rádio, gravações fartas de apaixonadas declarações de amor!
Eram declarações a metro, feitas de palavras sem fim e quentes, muito quentes, gravadas em fitas magnéticas embaladas em cassetes e que os Correios traziam para Portugal, embrulhadas em papel grávido de saudades - mas sem arder nas labaredas das paixões que medravam no calor angolano.
O meu quarto, que era o quarto do Xico Neto, era uma espécie de fórum dos cavaleiros que jornadeavam pelo Quitexe. Era um espaço de culto! Por lá cabiam todos! E alguns por lá iam, para fazermos as tais gravações!
E o que era isso, isso de gravações? Pois, com um velho gira-disco de agulha e um rádio-gravador, ou um gravador com leitura de cassetes e outro que as gravava, punhamo-nos para ali a debitar promessas e juras de amor às namoradas e mulheres que, no «puto», eram razão de afectos mais íntimos. Não por mim, fiquem todos avisados, que nem namorada tinha! Mas por outros que, roídos de saudades das namoradas, não sabiam como as matar (as saudades!, bem entendido!) - para além de lhes mandarem camiões de vagos e volúveis aerogramas, cheios de corações atravessados de setas de Cupido!
Bom, então era assim o guião: escolhiam-se os discos mais românticos e adequados à mensagem que se ia gravar. A tua namorada é isto, é aquilo, faz assim, faz assado, gosta disto e do quê, qual é o ponto fraco dela?!!! Ai ela é isso? Então, era aí que nós lhe «tocávamos» ao sentimento, em palavras quentes, volupiosas, lavradas com rigor e no momento exacto, enquanto se baixava e se subia o som na «mesa de mistura» improvisada.
As raparigas, com a cassete no regaço, corriam apressadas e em ânsias para irem ouvir a voz dos seus amados, nos seus segredos de quarto e atravesseirando-se de afectos, como se ali estivesse o dono daquela voz - o seu amor que estava na guerra!! Choravam de emoção e saudade, de alegria e de paixão!!! Era só amor!!!
Eu, que era irreverentemente atrevidote e meio lavrador de palavras, debitava prosa e versos de embalar corações, minha esta e minha aquela - às vezes com palavreado de fazer chorar as pedras das calçadas... - e lá "obrigava" os rapazes a confessar as suas perdas emocionais e a confirmar amores e juras, dizendo quantas vezes o que nem lhes passava pela cabeça.
As juras de amor eram tais e de tal maneira que, ouvidas em Portugal pelas cachopas, lhes provocavam verdadeiros apertos de coração, autênticos delírios vivos e volúpias que não se contam! Ai não!!!

Os rapazolas da foto são, somos, somos o Neto e eu: «Em directo, dos estúdios da Ráááááádio Quitexe, directamente para o Bééééééééco, em Águeeeeeeeda!... Para a Ni!!!!...».
Ainda há dias nos fartámos de rir, recapitulando estes dias radiofónicos dos jovens cavaleiros do norte angolano. E assim se iam passando os dias do Quitexe! A radiogravar promessas de namorados!!!

segunda-feira, 18 de maio de 2009

A estrada do café e o incêndio na arrecadação

O incêndio na arrecadação de material do Quitexe.
Foto de Francisco Neto, clicar para ampliar.
Entrada do Quitexe, do lado de Carmona .
Foto de Luís Fernando, jornalista angolano. Clicar, para ampliar.

O Quitexe era isto, da entrada de Carmona. À frente, logo à esquerda da casa verde, cortava-se para avenida principal (nova) e nessa transversal ficava a enfermaria militar. Os serviços militares, à excepção da quinta casa do lado esquerdo (a seguir à cor de rosa), funcionavam todos na avenida.
A ajuda de José Oliveira, do BCAV 1917 - que pelo Quitexe respirou saudades e pólvora entre 1967 e 1969 - permite-nos recordar a padaria civil do Tibúrcio, e por aí fora. Este arruamento correspondia à estrada que ligava Carmona a Luanda - a chamada estrada do café.
Agora, a história: a 17 de Janeiro de 1975 deflagrou um incêndio na casa a seguir à cor de rosa e que era onde estava instalada a arrecadação de material de aquartelamento e algumas munições e, se bem recordo, os quartos dos alferes milicianos. Foi um susto de todo o tamanho!
As labaredas celeremente «comeram» tudo o que lhe apareceu pela frente, sem dar muito tempo a que se deixassem combater. E havia a iminência do estouro de munições. Um perigo! Mortal!!! Apesar da pronta intervenção dos militares, a verdade é que, sem água que chegasse e sem bombeiros, não foi possível evitar a destruição do edifício.
Supostamente originado num curto circuito, o incêndio, vá lá..., ainda deu tempo a que os pertences pessoais dos militares fossem salvos, guardando-se da noite a imagem de camas, malas, roupa e outros equipamentos serem levados e pousados na rua, apressadamente! E a chegada, algo caricatural, de um carro de bombeiros de Carmona, que já nada vieram fazer. Não houve quaisquer danos pessoais.
A foto, a preto e branco (captada pelo furriel Neto) mostra dois militares, no rescaldo do fogo: um soldado (sentado) e o capitão Oliveira, à direita, de pé!
- CAPITÃO OLIVEIRA. António Martins de Oliveira, comandante da CCS da BCAV 8423. Natural de Viseu, residia em Ovar.