Baía de Luanda, em 1974. Foto de Jorge Oliveira (Aveiro)
Eu e Albano Resende na Restinga (ilha), com a BATALHÃO DE CAVALARIA 8423. Os Cavaleiros do Norte!!! Um espaço para informalmente falar de pessoas e estórias de um tempo em que se fez história. Aqui contando, de forma avulsa, algumas histórias de grupo de militares que foi a Angola fazer Abril e semear solidariedade e companheirismo! A partir do Quitexe, por Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Ponte do Dange e Songo! E outras terras do Uíge angolano, pátria de que todos ficámos apaixonados!
Baía de Luanda, em 1974. Foto de Jorge Oliveira (Aveiro)
Eu e Albano Resende na Restinga (ilha), com a
Cemitério da Estrada de Catete (o novo), à saída de Luanda
A descoberta de Angola foi feita com ansiedade e de amor à primeira vista! Os cheiros, o tudo que os nossos olhos viam de novo, tudo novo, parecia entrar-nos no coração como se fosse coisa familiar e de sempre.
Avião dos TAM. Um dos três que fazia o transporte de militares
Largo da Mutamba. Aqui comi o primeiro jantar de Angola
Baía de Luanda à noite. Assim podia ser vista do avião dos TAM
Aeroporto de Luanda nos anos 70. Lá cheguei faz amanhã 35 anos
Lisboa, faz hoje 35 anos, anoiteceu com chuva torrencial. Idos de Santa Margarida, literalmente de armas e bagagens, lá íamos nós, homens do BCAV 8423 - a maioria a viajar pela primeira vez numa auto-estrada e a ir a Lisboa. E falo por mim!
Cabos milicianos Viegas e Ferreira, no RC4, em
O furriel Neto e o Alferes Ribeiro, numa noite do Quitexe

A ponte do Dange
Os furriéis Machado, Neto e Pires (Bragança), civis de 1999Hoje, telefonou-me o Machado!!! Estava eu no conforto de um café da tarde, numa instituição em que colaboro, quando o telemóvel me anunciou um desconhecido!!! E eu, que teimosamente não atendo desconhecidos, nem gosto de atender em horas de... serviço, afinal... atendi!! Era o Machado, o Machadinho, como gostávamos de lhe chamar!!!
Não havia questão onde tivesse de se botar palavra e opinião que não tivesse o impulso e a crescente e empolgada inquietude do Machado - a quem nunca faltava argumento para discutir o que quer que fosse! Se o grupo de furriéis tomava uma posição, lá estava o Machadinho na primeira frente. Ele e o Neto! E, se me dão licença, eu também dava uma perninha.
Uma vez, era latente o mau-estar entre os milicianos e os sargentos do quadro! Já se prolongava há semanas e nem nos podíamos ver! Por razões que não vem ao caso, mas que nada tinham a ver com indisciplina! Nada disso! E nós, mais refilões, nem entendiámos como é que dois ou três de nós (furriéis) acamaradavam com eles. Então, um dia, tomámos uma decisão radical. Note-se que não foi nenhum plenário, ou coisa que o valesse, foi tudo espontâneo: não mais nos sentaríamos à mesa com os tais fulanos. Tal e qual! E não sentámos, até que os cavalheiros se começaram a portar bem, do nosso ponto de vista! E deixaram de partilhar com (alguns) civis os géneros que nos pertenciam por direito!
Este movimento de furriéis, visto há distância de quase 35 anos, carreia alguma emoção e foi, seguramente, um bom exemplo de camaradagem e solidariedade. O Machado e o Neto bem merecem estar neste pódio de saudade e partilha que desfio nas palavras de hoje.
«Os nossos furriéis são furriéis do caral...», comentavam muitos praças, por esta e outras razões, sempre que nos viam envolvidos em reivindicações. Em reinvindicações, é certo, mas nunca em tresmalhamentos disciplinares!
Avé, Machadinho!!!! Gostei de te ouvir e de saber que é médico o filho dos teus amores!
Imagem da paisagem civil do Quitexe, aqui o Rio Loge!!! A foto é recente, retirada da net, e foi por estes lados que passei umas primeiras tardes de domingo da comissão em Angola!
Furriéis Neto e Viegas no seu quarto do Quitexe
Bar do Rocha, na estrada princial do Quitexe
Cavaleiros do Quitexe, em sorridente pose de «guerra»,
E Quitexe fica no mapa?! Onde? Onde fica?! É um buraco?! A pergunta cirandou-se de boca em boca, entre nós - os cavaleiros que iam da revolução lisboeta e se suavam em bica do calor africano. Era a pergunta mais feita no campo militar do Grafanil, à saída de Luanda, antes de Viana!
O Mosteias era um gajo do caraças! O Mosteias era um gajo bom!! O Mosteias era um tipo que casava o impulso com a razão, misturando-as e reagindo-as numa doce partilha de amizade e camaradagem. O Mosteias era um portento de força física, praticante de halteres improvisados e dono de imponente figura. Era o mais alto, o mais pesado, o mais calmo, o mais bonacheirão, o melhor de todos nós numa série de coisas. Sapador de infantaria, era o gajo das minas e armadilhas!!! Ele, o montijense Cândido Pires e o amarantino Farinhas! Um trio muito singular!
O Mosteias era único furriel miliciano casado de toda a CCS. O que lhe dava uma auréola muito especial, entre todos nós, quando falávamos pela noite dentro, olhando a lua avermelhada dos céus africanos e sentindo os cheiros de cio de Angola, contando e ouvindo histórias, entre um gole de cerveja, um trago de wisky, ou simplesmente a endeusar as nossas irreverências de juventude, delas fazendo lendas e maioridades!!! A quietude bonançosa das noites do Quitexe dava para tudo, embrulhando-nos de emoções! E falasse-se de saudades!! Aí, aí... então aí ficávamos todos a olhar e a medir as estrelas no céu angolano e a antecipar sonhos das próximas horas de sono! A sonhar não digo com quê!!!
Não consta que o Mosteias alguma vez tenha usado a sua instrução militar especializada, em qualquer picada ou trilho da zona cafeeira de Angola por onde «vagabundeávamos» em patrulhamentos e operações. E ainda bem!!!! Sinal de que não havia perigos!!!
Divertia-se e ansiava-se ele, no dia a dia, era com o sonho e a expectativa de receber da mulher grávida a notícia de que já era pai!!
Tivera uma curiosa história, a do seu casamento com Leonor, filha do patrão, que era despachante oficial em Lisboa. História que ele contava com com indisfarçável gozo e felicidade!!: «Olhe, amanhã vou casar-me com a sua filha. Se quiser ir, é na Conservatória tal....».
- «Ó Mosteias e foi mesmo assim?!!...», perguntávamos nós, sempre de sorriso afiado! Para sempre ouvirmos a mesma história, contada com felicidade que não se contava em quilómetros. «Ó Mosteias, já te viste com a criança no colo?!... », respingávamos-lhe nós, rapazes na irreverência dos nossos 21/22/23 anos, para o provocar, em sorriso de refinada malícia, sugerindo-lhe o cofiar dos anéis dos cabelos da criança, o tocar-lhe a pele macia, dar-lhe o biberon, mudar-lhe as fraldas.
O Mosteias olhávamos com supremo desdém, de sorriso cúmplice, como se não houvesse no mundo pessoa mais feliz que ele. Um dia alguém lhe leu um poema: «Pai, o teu Natal é longe de mim/A mãe pousa as mãos no ventre/E sinto-lhe saudades sem fim/Porque me sente/Filho de ti!!!....". Qualquer coisa parecida com isto.
«Ó pá, mariquices, pá...», balbuciou ele. E riu-se, riu-se, riu-se! E saiu de ao pé de nós!
Não sei porquê, mas sempre tive a ideia de foi chorar para o quarto.
Dias depois, era pai!! E veio a Lisboa conhecer a criança!
- MOSTEIAS: Luís João Ramalho Mosteias, furriel miliciano sapador de infantaria. Mora em Sines. O filho seguiu a carreira da actor.