segunda-feira, 6 de julho de 2009

As férias angolanas dos «transmissões» Pires e Rocha


Furriel Pires na marginal de Luanda (ao lado) e
furriéis Pires ( o mesmo, quase de costas), Aldeagas,
Cruz, Graciano, Rocha, Letras, Monteiro e Carvalho,
à porta da Casa dos Furriéis, no Quitexe.
Clicar as fotos, para as ampliar

O Pires (de Bragança) e o Rocha (de Gaia) eram furriéis milicianos de transmissões. A pacatez bragançana «casava-se» bem com a tranquilidade gaiense. Era a discrição em corpo de militar. Moravam ali ao lado do nosso quarto e deles ambos não vinha mal que ao mundo fizesse. Quer isto dizer que eramos todos afins. E amigos.
O Pires, agora já a gozar as delícias da reforma, depois de 30 anos a servir a República, mandou um sumário das suas férias angolanas. Ei-lo:
(...) gosto muito de ler as passagens do blog, recordando todo esse tempo maravilhoso. Pelo menos para mim. Acabei de ler a descrição das tuas férias "nos Angola", pois as minhas e as do Rocha foram idênticas, só que nós andamos sempre na aventura da boleia, poupando nas viagens para gastar nas noitadas e estadias.
Na verdade, foi um mês que eu nunca mais esqueço, pois corremos quase Angola toda, à boleia. Ainda no tempo em que Angola era cruzada de Norte a Sul e de Este a Oeste pelos camionistas e sem qualquer risco. Isto, apesar de, no regresso a Luanda, quando vínhamos do sul, sermos surpreendidos com um grande tiroteio na estrada de Catete, entre o MPLA e a FNLA. Ficámmos ali entre uma a duas horas, até que as balas tracejantes deixaram de se ver e ouvir e apareceu um corajoso com a carrinha estacionada na frente da fila de viaturas, que nos levou até à baixa.
Procurámos um hotel para pernoitarmos, mas estava tudo cheio, pois a população dos bairros fôra toda para a baixa, com medo. Sabes onde fomos parar? À fortaleza! E fomos muito bem recebidos pelos nossos camaradas militares. No dia seguinte, fomos para o hotel Europa, até iniciarmos outra grande aventura: a ida para Carmona por estrada, com um viajante de textêis. Ainda fomos ao aeroporto, para irmos de avião mas só havia voo por empo que não nos interesssva, pois tínhamos de nos apresentar antes.
A viagem foi uma grande aventura (a ida para Carmona, por estrada...) e de risco muito elevado, devido aos vários controlos que tivemos durante o percurso, mas felizmente correu bem!
- PIRES. José dos Santos Pires, furriel miliciano de transmissões, de Bragança. Aposentado da GNR.
- ROCHA. Nélson dos Remédios da Silva Rocha, furriel miliciano de transmissões, de Valadares (Gaia). Técnico de vendas.

domingo, 5 de julho de 2009

As minhas férias em Angola...

Férias em Angola, quais guerras, quais quês?!!! Rafael, Fátima, C. Viegas,
Idalina e Saudade, com o pequeno Valter, em Nova Lisboa. A foto foi tirada pelo (furriel) Cruz


Então e a malta ia para Angola, carregar-se de armas e encher-se de guerras e aquilo era para ali um fadinho chorado, uma drama diário com alguidares cheios de sangue, actos fúnebres e cemitérios de medos?! Nada disso!
Já por aqui contei que o Quitexe era uma vila atractiva e Carmona ainda mais, muito mais aliciante. E de Luanda nem falar!!! Enchia as medidas e por lá cirandei vastas vezes! A cidade e os seus desafios enchiam todas as medidas e desejos da rapaziada dos 21 para 22/23 anos, de sangue na guelra e almas grávidas de desejos. Todos os desejos!!!
Havia também uma coisa chamada... férias.
Por opção, não quis vir a Portugal, das duas vezes e meses a que tive direito- em Setembro de 1974 e Abril de 1975! Andei por lá, a galgar terras e conhecer gentes, reencontrando amigos e familiares. Sempre fui muito dado a estas coisas do aparecer de surpresa e lá andei eu a bater à porta dos irmãos Resende, da Cândida, do Mário e da Benedita e o Zé Martinho (em Luanda), dos primos Mário, Cecília Neves e Clemente Pinheiro, na Gabela! Por Setembro! Ou, já em Abril de 1975, a mesma Cecília e também Orlando Rino e os irmãos Óscar e Nélson, que tinham sido meus colegas de escola; e o primo Manuel Viegas e família, em Nova Lisboa!
Por estes dois meses «bati» estradas por Lobito e Benguela, Alto Hama, Caala, Sá da Bandeira e Moçâmedes, Silva Porto. Fiz a inesquecível viagem ferroviária de Nova Lisboa para o Lobito/Benguela, com o Cruz! Depois, de avião para Luanda! Foi no fundo, um verdadeiro trota-mundos, com um amigo ou familiar em cada lado, descobrindo e descodificando com eles os grandes e misteriosos feitiços da gigante Angola.
A foto de hoje ilustra um desses momentos de relaxe e fraternidade, em frente ao Colégio de Nossa Senhora da Assumpção, de Nova Lisboa, onde se vê o marido de Cecília Neves (Rafael Polido) com os filhos Fátima, Idalina e Saudade e eu, com as mãos sobre o Valter. Eram netos e genro de meu padrinho Arménio, que morreu na Gabela, vítima de um acidente. Por lá estava também a viúva, minha madrinha Isolina. Férias em família, com quem eu falava em grandes fôlegos, como se estivesse aqui no adro, à saída de missa, fazendo o sumário da semana! Belas férias, com a minha gente!!!

sábado, 4 de julho de 2009

A visita de médico e o «esfurrié Veigas» do BCAV 8423

Furriéis Viegas e Pires (do Montijo) com crianças e mulheres
na aldeia do Talabanza, arredores da vila do Quitexe
Uma das nossas primeiras saídas transportadas foi em visita de médico. Literalmente. O capitão médico dr. Leal ia em serviço de consultas itinerantes, levava medicamentos, consultava, receitava, media tensões e febres, ajudava o bom povo das sanzalas e os contratados do Huambo e famílias, que iam para o Uíge fazer as campanhas do café.
Saíamos de madrugada, ainda sem o sol nascer, e lá íamos nós picada fora, com destino marcado e contactos fixados com fazendas e aldeias. Foi nessa viagem que descobri o nascer do sol de Angola, mesmo a chegar a uma fazenda, quando já saíam centenas, talvez milhares de bailundos para o cafezal.
A coluna parou no enorme terreiro da seca, era para nós a hora de comer parte da ração e aproximaram-se de nós dezenas de miúdos, rodeando-nos O que nos incomodou. E atemorizou! O que é que estes tipos querem? Viemos a saber: queriam parte da nossa ração.
O facto era insólito para nós, que no geral até detestávamos as rações e bem as daríamos sem grande custo. E suscitou alguns constrangimentos e desconfianças. E, e é por isso que aqui vem a história, causou-me um estranho medo. A mim, um dos miúdos tratou-me por «esfurrié Veigas».
O quê, pá?
«Esfurrié Veigas, me dá teu ração...».
Como era possível ele saber o meu nome, embora dito de forma errada? Foi uma dúvida que só desfiz meses depois, em Maio de 1975: um dos gerrilheiros da FNLA chamava-se Viegas (como eu), tinha passados em vésperas pela tal fazenda e referira haver no novo batalhão um furriel com o mesmo apelido. Coisa que o miúdo «apanhou», sei lá como! Só que diziam Veigas, trocando as duas primeiras vogais. Como sabiam tal coisa, nunca soube. E como fui reconhecido? Bem, ainda hoje não sei!
O dr. Leal fez as consultas que tinha a fazer, dividimos as rações com os «putos» e ficámos de mãos a abanar para os da fazenda e aldeias seguintes. Todos no-las pediam e já não tínhamos o que dar. Ainda hoje sinto essa dor de alma! E lembro as inquietações que senti nas semanas seguintes: mas como é que estando eu há dias no Quitexe as crianças da fazenda sabiam o meu nome?
- CAPITÃO LEAL. Manuel Soares Cipriano Leal, médico do Hospital Militar de Luanda, destacado no BCAV 8423, no Quitexe. Reside em Fafe.
- FOTO: A foto deste poste é do meu arquivo pessoal e nada tem a ver com a história. É meramente ilustrativa.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

As vidas boas dos cavaleiros do norte!....

Furriéis Fernandes e Graciano, um guerrilheiro da FNLA e
furriéis Neto (em cima), Rocha, Querido e Cardoso (em baixo)

Tenho cá para mim que esta fotografia deve ser de Novembro de 1974. E reparem no olhar feliz daqueles rapazinhos todos, ali rodeando aquele que o Neto identifica, em foto para a namorada Ni, como «um irmão do FNLA».
A tropa, nomeadamente no então chamado ultramar, fomentava altos níveis de camaradagem e gerava, quase espontâneamente, amizades para uma vida - por muitos intervalos que esta traga. Todos os «civis» são furriéis em traje de lazer, estavam certamente em algum passeio pelas belezas paisagística dos arredores do Quitexe. Digo isto porque, reparem, o Graciano é o único que está de camuflado e armado de Walter, a arma usada por quem estava de serviço no aquartelamento! A sair seria de G3 e outros etc´s. Eu, para não estar na foto, devia estar de serviço no quartel. Talvez sargento de dia!
O Neto puxou pelos neurónios e não se lembra.
Provavelmente, foi alguma «caçada» dominical em alguma fazenda das proximidades - por onde era habitual passarem «delegações» militares, no âmbito da política da aproximação à sociedade local - descentralizando empatias. O que, valha a verdade, nem sempre correu bem.
A foto vem aqui, porém, não por isso mas para ilustrar o ar de felicidade desta boa malta quitexana do BCAV 8423: todos sorridentes, sem forçar; de pose altiva e descontraída, em puro momento de lazer e fulgor psicológico e emocional. E quanto à tal guerra?! Ora, até ali estava um guerrilheiro da FNLA!!!!
Assim se semearam as muitas e boas amizades que hoje perduram!
- FERNANDES. António da Costa Fernandes, furriel miliciano atirador de cavalaria, da 3ª. CCAV (Santa Isabel). Professor em Braga.
- GRACIANO. Graciano Correia da Silva, furriel miliciano atirador de cavalaria, da 3ª. CCAV (Santa Isabel). Produtor vinícola, de Lamego.
- NETO. Jose Francisco Rodrigues Neto, furriel miliciano de operações especiais «Ranger´s», da CCS (Quitexe), industrial em Águeda.
- ROCHA. Nélson dos Remédios da Silva Rocha, furriel de transmisssões da CCS (Quitexe). Técnico de vendas, de Valadares (Gaia).
- QUERIDO. José Adelino Borges Querido, furriel miliciano atirador de cavalaria, da 3ª. CCAV (Santa Isabel), de Lisboa.
- CARDOSO. João Augusto Martins Cardoso, furiel miliciano de transmissões, da 3ª. CCAV (Santa Isabel). De Arganil e residente em Coimbra, aposentado da função pública.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Saudades do Garcia, do Vicente e do Leal!


Alferes Garcia e soldado Leal (em cima)
e cabo Vicente (ao lado).
Três cavaleiros do Quitexe que são
já flores da nossa saudade!

Três amigos e irmãos do PELREC já partiram para o além: o Garcia, o Vicente, o Leal!!! De todos, há uma mão-cheia de pequenas e grandes histórias com que aqui poderia dimensionar o seu carácter, a grandeza da sua (deles) alma e a generosidade com que nos tornámos fraternos comensais do mesmo pão de coragem que nos levou e trouxe a terras de Angola. Sem alguma vez dizerem não ao que quer que fosse!
O Garcia era o nosso comandante de pelotão, alferes miliciano de Operações Especiais (Ranger´s). O terceiro curso de 1973, em Lamego, identificou-nos e aproximou-nos; Santa Margarida tornou-nos confrades de missão; Angola, o Quitexe e Carmona, tornaram-nos irmãos. Tive o gosto de conhecer os pais (em Pombal de Ansiães) e a esposa, no Porto (em casa do casal), já depois de Angola. Faleceu em 1979 (80?) num acidente de viação, era inspector da Judiciária.
O Vicente era cabo atirador, de Vila Moreira. Quantas missões tivemos juntos, sem nunca o Vicente se atemorizar fosse com o que ou quem fosse, sempre valente, corajoso e determinado, sem alguma vez recuar um passo, se o passo tinha de ser em frente. Faleceu em meados dos anos 90, contou-me uma filha, em recado da mãe viúva! Este sítio onde escrevo, é testemunha do entusiasmo com que se dividiu pelos primeiros encontros da CCS e do BCAV 8423, em telefonemas de horas!
O Leal, soldado atirador de cavalaria, da Caxaria (Pombal). Soube ontem da sua morte, já acontecida a 18 de Junho de 2007. De repente, nos braços da mulher, com um ai de fim de vida, um ai solto e meio sumido, como se não se queixasse de nada!... Na casa que foi o ninho de amor de uma vida. Já era casado e pai, quando andámos pelo Quitexe - para onde partiu com a mulher de novo grávida. E com que ternura ele nos falava da família! A vida fez-nos encontrar mais meia-dúzia de vezes, era ele ajudante de motorista.
O melhor que ontem soube dizer à viúva, ao ouvi-la na sua narrativa de dor, foi apenas isto: «Tenha a certeza que todos nós gostávamos dele!!!!....».
Dele, o Leal!!! E digo aqui: do Garcia e do Vicente!
Um abraço, amigos!
- GARCIA. António Manuel Garcia, alferes miliciano de operações especiais (ranger´s), natural de Pombal de Ansiães (Carrazeda de Ansiães).
- VICENTE. Jorge Luís Domingues Vicente, cabo atirador de cavalaria, natural de Vila Moreira (Alcanena).
- LEAL. Manuel Leal da Silva, soldado atirador de cavalaria, natural de Caxaria (Pombal).
!

quarta-feira, 1 de julho de 2009

O furriel Velez e o soldado comando da Baixa do Mungage...

Furriéis Velez, Miguel, Pires (de Bragança) e Cruz (sentados, do lado esquerdo)
e Graciano, NN, Viegas, Neto, Machado e Rocha, na messe de sargentos do
Quitexe, a 30 de Outubro de 1974


Falei ontem à noite com o Velez! E quem é o Velez, perguntam vocês. É um dos cavaleiros de norte, de Zalala - terra de base da 1ª. CCAV do BCAV 8423.
Uma noite, tivemos de "zarpar" do Quitexe para a (para mim!) misteriosa picada de Zalala, onde - lá por um qualquer sítio... - nos esperava uma Companhia de Comandos com um ferido de uma operação na Baixa do Mungage.
F
omos acordados de sopetão, eram para aí umas três horas da madrugada de uma noite de breu cerrado, e havia que ataviar-nos rapidamente, formar o pelotão sem perturbar o sossego das casernas, preparar-nos para a saída, chamar os homens das transmissões e enfermagem, o mecânico, os condutores, tudo em silêncio. A saída já sabíamos ter razões de sangue: havia um soldado ferido, um irmão nosso que pisara uma mina, num qualquer trilho da mata de medos que nos rodeava, lá de longe! E apareceu o Velez, na parada do aquartelamento, armado até aos dentes, de G3 traçada no peito, cartucheiras e granadas defensivas seguras no cinturão, lenço verde a enrolar-lhe o pescoço, óculos escuros, verdes..., olhos grandes, a medir a noite! Assim, a juntar-se a nós: a mim e ao Neto, ao alferes Garcia, ao PELREC.
«Onde é que vais, pá?!...».
O Velez, sendo ou não, era para nós um fidalgo de pose feita, semeado de cultura e saberes que escapavam a nós, rapazes de província. Tinha um jeito de dizer que, parecendo senhorial, era simultaneamente igual e cúmplice dos nossos iguais sentires. Tínhamos conversas de horas e diferenças de quilómetros, de culturas e de experiências. Até o gargalhar dele nos parecia mais nobre, sendo tão ou mais estridente que o nosso. Respirava-se franqueza no nosso relacionamento. E o Velez, o furriel miliciano atirador de cavalaria, ali estava connosco, por ordem de quem mandava, para irmos galgar a madrugada de cacimbo e breu, nos "burros de mato", a caminho das picadas para Zalala, até aos trilhos da Baixa do Mungage.
"Onde é que vais, pá?...".
O Velez deu meia volta, sem uma palavra, e vi-o a aconchegar o lenço no peito, como quem faz uma almofada contra o camuflado e parecendo ainda meio acordado de sonhos de outras galáxias, ali permanecendo calado, mordendo os lábios, talvez pensando...
"Vai connosco!.."
, disse o alferes Garcia.
O Velez, da 1ª. CCAV, a companhia de Zalala, conhecia bem a picada, das muitas viagens de lá e para o Quitexe. Não lhe tinham segredos as curvas e declives de que se adivinhavam medos e os sons que se evaporavam no ar quente da terra angolana e que respirávamos quantas vezes carregado de pó! Por isso, quem mandava o mandou acordar e preparar-se com o equipamento de combate.
"Vamos"...", disse o alferes Garcia.
Fomos e viemos, indo depois para o Hospital do Negage o nosso irmão "comando" que pisara a mina do trilho.
Nessa tarde, eu, o Velez, o Neto e outros, retomámos as conversas de sempre, sobre os quês dessa altura, espreguiçando-nos nas cadeiras de fitas da entrada do bar/messe de sargentos, entre o saborear de alguma eka, alguma cuca, ou uma nocal, sei lá eu, já..., e o desfiar de saudades do "puto", da família, dos amigos.
Ontem à noite, retomámos essa conversa, entre lembranças das horas amargas do Maio e Junho de 1975, em Carmona, e a evocação das que ele e a 1ª. CCAV viveram pelo Songo, a esse tempo!
Ontem, reatámos um conversa interrompida 34 anos e que vamos continuar um destes dias! Quem sabe, lá para Setembro e ao vivo!
- VELEZ. Vitor Manuel da Conceição Gregório Velez, furriel miliciano atirador de cavalaria, da 1ª. CCAV do BCAV 8423, de Lisboa.
- MIGUEL. Miguel Peres dos Santos, furriel paraquedista, então temporariamente no Quitexe. De Torres Novas.
- BURRO DE MATO. Designação vulgarmente dada aos unimogs, veículos de transporte de pessoal militar.
- PUTO. Petit nom dado a Portugal (continental), pelos militares.

terça-feira, 30 de junho de 2009

A (falsa) emboscada na picada de Zalala...


Texto
FRANCISCO JOÃO
Furriel Miliciano no Quitexe, em 1967
Faro (Algarve)


Os dois carros iniciaram a marcha para o Zalala, ia o sol morrendo atrás dos picos da Serra Vamba. Eles próprios tomaram a mesma direcção, como que para aproveitarem mais umas réstias desse sol que se lhes escapava velozmente, para continuar o seu destino - aquecer e iluminar outros povos e regressar, indefinidamente.
Eu seguia na segunda viatura, entre os veteranos da picada. Homens para quem a mata não tinha segredos, quanto mais a que eles consideravam já a sua «auto-estrada».
A picada serpenteava, subia e descia como um carrossel entre montes vales e matas, onde populações pacíficas estavam instaladas em laboriosas fazendas, sanzalas e roças e onde, igualmente, se acoitam os “turras”, protegendo-se na densidade da floresta, por vezes virgem para o homem branco.
A poeira levantava-se à passagem dos Unimogs. Subia, subia pelos ares, ao mesmo tempo que se enovelava, formando uma cortina - como se fosse cacimbo ou nevoeiro e impedindo que se visse o carro da frente. Baixa de Mungage.
Os unimogs correm céleres, levantando nuvens de pó branco, direi mesmo alvo. Pó fino e macio que se infiltra em todos os poros. Aquilo é talco, riqueza natural que espera a mão amiga do homem. Montanhas e montanhas de pó talco! Sob o seu efeito, tivemos de nos atrasar. Perdemos de vista o carro da frente. A meio de uma subida e repentinamente, na direcção do primeiro Unimog. soaram tiros. Um, dois, três, quatro, uma rajada!!!
Emboscada!!!...
«Parem, parem!!!...», gritei.
O condutor continuava, mouco às palavras pelo ronco contínuo do motor. Então maçarico, não olhando a outros meios e de arma na mão, saltei, lancei-me no espaço, desamparado. Julguei que nunca mais tocava o solo mas as pedras, fendendo-me a carne, assim como a roda traseira do carro roçando-me a cara, fizeram-me saber o contrário. Ao cair, rolei pelo chão e uma das rodas quase passou por cima de mim.
O unimog parou.
Os veteranos continuavam sentados, impávidos e serenos. Tomei de novo o meu lugar na viatura, massajando as partes doridas e ensanguentadas. Retomámos a marcha. Adiante, a outra viatura estava parada, aguardando-nos. De pé, o comandante da coluna (o médico, o doutor Águalusa, que era caçador) lamentava-se por ter falhado os tiros que fizera a uma pacaça.
Quando soube da minha atitude, comentou: “Não foi nada que eu não tivesse pensado que poderia acontecer...”.
Cisco Dio – SET/67.
- UNIMOG: Modelo dos carros militares, transporte típico com um banco corrido na caixa, sem taipal, e em que a tropa sentada vai virada para ambos os lados da via.
- PACAÇA: Animal de porte, africano, muito semelhante a uma vaca.
- COLABORAÇÃO: O blogue Cavaleiros do Norte está aberto à colaboração que quem tal desejar. Mandem textos e fotos para c.viegas@mail.telepac.pt. Serão publicados na primeira oportunidade.




segunda-feira, 29 de junho de 2009

O exame do sô Cabrita, que era soldado básico...

Furriéis Cruz e Viegas, dois dos «professores» do Quitexe, com o Neto. As
aulas regimentais funcionavam no coberto que se vê atrás, ao lado do Bar dos Soldados

Estrada de Carmona, no Quitexe, em foto de Franklin (2009)

A estrada para Carmona era caminho de muitos de nós, que lá íamos do Quitexe, sempre que podíamos, para «descontrair»... - as mais das vezes no transporte do SPM, que era de todos os dias menos à 2ª. feira, se bem me lembro. A cidade, já era de muito boa dimensão e parecia-nos organizada, muito agradável e com muitas respostas aos nossos desejos de jovens que por lá passeavam as irreverências e apetências dos 22 para 23 anos.
Um dia, o Cabrita - que não sabia ler nem escrever... - foi lá «descontrair-se», na véspera de fazer o exame da 4ª. classe, preparada numa improvisada sala de aulas, mesmo ao lado do bar dos soldados, no Quitexe (foto). Ele e outros!! Por ele, e por ser ele aqui falo desta pequena história, havia uma afeição muito especial. Já não consigo narrar os pormenores do exame, mas sei que o Cabrita andava nervoso, angustiado, ansioso, cheio de dúvidas. A gramática, a matemática, as contas... «As contas, ó sô Viegas... Ai as contas!...», queixava-se ele, timorato e constrangido.
O curioso é que aquela cabecinha do Alvor algarvio - em cujo hotel a namorada fazia limpezas... - , aquela cabecinha do sô Cabrita fazia contas de cabeça com enorme facilidade e quase instantaneamente. Ora se assim fazia contas, que assim as fizesse no exame... - de cor!!! - e as passasse para o papel. «Aquilo é fácil, tenha calma...», tranquilizava-o eu! Procurava tranquilizar.
O Xico Neto e o Cruz, também eles «senhores professores» das regimentais aulas do Quitexe, tinham andado dias a fio a tentar "catequizá-lo" para o exame. Mas qual quê?, o sô Cabrita era um molho de nervos!
Na manhã do exame, passámos pela capela e parámos um pouco: «Então, ouça lá, você não quer o exame para tirar a carta de barco?!....", perguntava eu. Isso era o que ele queria, ele era pescador e queria ter o seu próprio barco. «Então, acredite que vai passar...», disse eu. «Não vou, não... sô Viegas», titubeava ele.
Na hora do exame, o sô Cabrita ia lívido. E lívido o deixei! Não uma hora depois, estava de saída, muito intranquílo, desassossegado. «Estragou tudo!...», pensei eu. Mas, não: fez o exame lindamente e passou, ganhando o diploma da 4ª. classe. Hoje, dispõe de embarcação própria, a Dulce Helena, no porto de pesca de Cascais, e nele já fui eu, com ele e a família, numa procissão do mar.

domingo, 28 de junho de 2009

O Fernandes que fez de Neto por umas horas...

Furriéis Fernandes e Viegas, na rua de baixo (avenida) do
Quitexe. A casa da esquerda era o «solar» dos furriéis!



O Fernandes era da 3ª. CCAV do BCAV 8423, que se instalou na distante e algo isolada Fazenda Santa Isabel. Furriel miliciano atirador de cavalaria, vinha algumas vezes ao Quitexe. E por lá esteve alguns dias, por exemplo nas passagens para férias.
Algo reservado, talvez tímido até, mas muito bom camarada, amargou por lá o constrangimento de uma precoce queda de cabelo e nós, meio abrutalhados, bem lhe brincalhávamos o juízo por causa disso, sem cuidarmos muito do seu desgosto e das atenções que lhe devíamos. Foi psicologicamente forte, nesse nosso desrespeitoso e leviano agir. Também é desta têmpera que se fazem os homens maiores!
Como eu era dado à conversa (mais fiada, ou menos desfiada...) tivemos tempo para largos passeios na urbe quitexana (como o da foto), alturas em que ele sempre me falava da vida espartana da malta que estava em Santa Isabel e dos luxos dos aquartelados na vila. Que não, que «não é bem assim...», ripostava-lhe eu, em defesa da minha dama e apostando-lhe com o rigor do meu «conhecimento estratégico» (!!!!...), desenhando-lhe cenários que justificavam a minha teoria de que era «muito mais perigosa a defesa e segurança do Quitexe». E, portanto, «muito mais seguro e tranquilo estar em Santa Isabel!...». Ele que não tivesse dúvidas, blá, blá, blá...
Mas o Fernandes vem aqui por outra razão: a do sentimento e o da camaradagem.
Um dia, um nosso companheiro falhou na apresentação para o serviço de sargento de dia, na formatura das 8 da manhã. Era um domingo, saía eu próprio de serviço e não o poderia substituir. Era meu amigo de peito o camarada em falta, naquela hora a flautear-se por Luanda mas em gravíssima falta disciplinar no Quitexe. Flautear-se, é como quem diz, pois foi a Luanda para ver o pai, em trânsito para Moçambique - sem que o chegasse a ver.
Tínhamos nós (eu e o Neto, era este o «faltoso»...) combinado que se naqueles dois ou três dias em que foi a Luanda (de fugida...) ele fosse nomeado à ordem, eu o susbtituíria. Dizia-se na tropa que lhe «matava» o serviço e nada de pecado viria ao mundo. Só que alguém, propositadamente, fez com que fosse o próprio Neto a substituir-me no serviço de sargento-de-dia. O que nem era habitual, por sermos do mesmo pelotão! Sabemos quem foi, mas não vem agora ao caso.
Entrou aí o Fernandes, que acordei lá para as seis da amanhã. «Eh pá, se o Neto não chegar tens de ir tu à formatura, eu depois faço o serviço...».
Dispensando pormenores da apressada conversa dessa madrugada dominical, prontificou-se ele a fazer de... Neto, pois o Neto não veio mesmo, e depois continuei eu, assim como não se quer a coisa e com a cumplicidade do «novo» oficial de dia, o nosso saudoso (alferes) Garcia.
O Fernandes, e era aqui que eu queria chegar, assumiu de corpo inteiro a situação, num gesto de generosidade e absoluta camaradagem que lhe poderia ficar bem caro. E a mim! Ainda há dias falei deste «caso» com o Neto - que, na altura e por uma hora ou duas, afinal, não conseguiu encontrar-se com o pai, em Luanda, nem dep
ois chegar a tempo ao Quitexe! Ainda hoje me «deve» este «serviço» e disso nos divertimos um destes dias, num encontro que inevitavelmente teve o Quitexe como tema quase único!
- FERNANDES. António da Costa Fernandes, furriel miliciano atirador de cavalaria da 3ª. Companhia de Cavalaria do BCAV 8423 (Santa Isabel), agora professor, de Lomar (Braga).

sábado, 27 de junho de 2009

O velho soba e a bandeira portuguesa...

Furriel Viegas no Detacamento Militar de Luísa Maria (Novembro de 1974)
Rua do Quitexe, ligando a de Cima (estrada Luanda-Carmona) à de baixo (avenida).
Ao fundo, vê-se o edifício onde funcionava o Comando da CCS do BCAV 8423
Voltemos ao Quitexe e ao dia-a-dia de muitos jovens que, no fulgor da juventude, eram arrimados para cenários de guerra. Dias maiores e melhores eram sempre os que correspondiam à chegada de companheiros deslocados em outras companhias - Zalala, Santa Isabel e Aldeia Viçosa, ou quaisquer outros destacamentos do BCAV. Ou nós mesmos por lá passávamos.
Eram momentos importantes,nomeadamente pela troca de confortos e experiências, que eram colhidas de sementeiras emocionais e psicológicas diferentes, é bem verdade, mas que nos emprestavam um maior sentido de serviço e coragem. Se há tempo em que a solidariedade existe, não tenhamos dúvidas, é na tropa. E nomeadamente nos tempos de guerra.
Um dia importante, de data de Novembro de 1974 que não consigo recordar, foi o de uma de uma saída ao Destacamento de Luísa Maria (foto de cima), com passagem, no regresso e inesperada, por uma sanzala, na qual a autoridade do soba tinha sido posta em causa, com agressões morais e físicas pelo meio. Foram momentos menos fáceis. Havia a suspeita (depois confirmada) de por lá estaram infiltrados «inimigos» e nestes momentos de virtual confronto, em que a fúria, o medo e a dor não sossegam a alma, tudo pode acontecer.
A informação de que dispunhamos apontava para acções retaliatórias contra antigos e actuais GE´s e sobas. E também sabíamos que «desconhecidos» tinham abatido por esses dias um antigo GE, para os lados de Vista Alegre.
Os novos cenários políticos resultantes do 25 de Abril tinham criado uma janela de abertura e contactos que apontavam para a paz, mas... nunca fiando. Era esse o perigo maior! A área dos chamados «quartéis» de Camabatela e Quiculungo seriam as mais sensíveis e era para essas bandas que inesperadamente iríamos ter de passar, no regresso de Luísa Maria ao Quitexe - numa longa volta por picadas de pó que eram novas nos nossos destinos. E virtualmente traiçoeiras!
Lá chegados, achámos o velho soba da sanzala (não me lembro do nome) agredido e ensaguentado à porta da sua palhota coberta de capim seco, com uma velha mauser sem balas pousada ao lado, rodeado de carpideiras em cânticos plangentes. Foi levado para o Quitexe, onde foi socorrido no hospital e «entregue» à administração civil. Pelo caminho, houve tempo para uns tiros a uma pacaça que galgava na picada. Recordo, como se fosse hoje, o sorriso do velho soba, de boca rasgada e larga, sem dentes, a olhar o entusiasmo dos soldados que a todo o tiro tentavam abater o animal - sem conseguirem, a coluna, de resto, nunca parou... - mantendo-se ele firme e sem um ai, ainda que roído de dores, sentado no unimog e com o sangue a secar-lhe nos grossos lábios de rosto desbarbado.
O sorriso era aquele fechar de lábios de quem sofria como, aliás, bem se notava nos breves esgares que não nos podia ocultar. Mas sempre se afirmando fiel à bandeira portuguesa, como fez questão de recordar a todo o passo dessa viagem de regresso ao Quitexe.
Uns dias depois, no jardim da vila, vinha eu a sair da estação dos Correios quando o vi, de longe, a parar ao toque do arrear da bandeira, na rua de baixo - em sentido, firme, em pose garbosa. Arrepiei-me!
- SOBA. Autoridade civil tradicional em Angola.
- PACAÇA. Animal semi-selvagem, idêntico às vacas europeias.
- MAUSER.Arma de origem alemã, que foi usada pelo exército português. Mais usual, no nosso tempo, era a G3.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Vícios e desejos da Luanda de Agosto de 1975...

Carlos Sucena, Gilberto Marques (amigos de Águeda),
furriéis Viegas e Neto, na casa de Manuel Cruz, em Viana (Angola)
Furriel Monteiro, Carlos Sucena, Gilberto Marques e
furriel Viegas, na mesma casa de Viana (Angola)

Agosto de 1975 já foi tempo de repenicarmos os sinos do regresso a Portugal. Para trás, ficavam 15 meses de entusiasmos e pequenos dramas, vividos entre as dores e alegrias do Quitexe e uma guerrilha urbana da cidade de Carmona - onde «estagiámos» no BC12 e apanhámos os maiores sustos da comissão. Histórias que aqui já vieram, algumas! E outras, que virão.
Venho falar de Agosto do regresso, porque o Monteiro, regado do entusiasmo de ser ver no blogue - onde lhe fiz, anteontem, aleluias e hossanas do seu amor eterno (a Nani) - m´enviou esta foto, a de baixo. Ai estão ele próprio, o Sucena, o Gilberto e eu. E onde é que foi, onde é que não foi. «Não me lembro aonde estávamos a comer marisco e também não me lembro dos rapazes que estavam connosco», epistolou-me ele.
É claro, acrescentou, que «o prato que não tem ninguém seria do Chico Neto, que estaria a tirar a fotografia, certo?». Certo, ó Monteiro! E a foto foi tirada aí por 15 de Agosto de 1975, na casa onde habitámos em Viana, fazendo as vésperas do regresso a Portugal, regalando-nos na boa vida! E aquela namoradona dos CTT?!!!
Foi um tempo imensamente vivido pore todos nós, laureando o queijo entre o Mussúlo, a ilha e a restinga, a baixa de Luanda, umas valentes cervejolas e saborosos e picantes mariscos, matando a nossa gulodice pela Portugália, a Mutamba, a Paris Versailles, o Pólo Norte e o Amazonas, o(s) Floresta(s), etc., etc., etc. E umas idas ao 8, ao 23 e ao 24! Luanda fervilhava, naquele tempo (não vou agora lembrar porquê), e nós por lá quase levianamente andávamos na vadiagem, galgando noites atrás de noites pelos bares americanos, por sítios cheios de vícios e desejos soltos! Ou por esplanadas, restaurantes e bares, dando satisfação aos outros desejos e fomes, as do estômago!
Olhem aí, ó meus caros, ai se nos agarrávamos nesse tempo! Há quase 34 anos!
- SUCENA. Carlos José Sucena Miranda, 1º. cabo escriturário em Luanda, meu companheiro de turma e amigo. É da Borralha (Águeda) e empresário num país africano.
- GILBERTO: Gilberto da Silva Marques, civil amigo e conterrâneo de Águeda, ao tempo em Luanda. Empresário em Oliveira do Bairro.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Violas e músicas em noites de Natal e Ano Novo do Quitexe

Furriéis Peixoto, Neto e Viegas na noite de passagem de ano de 1974, no
quarto «Agueda» do Quitexe (em cima) e o violeiro Viegas (em baixo)


Não passe pela cabeça de ninguém que andávamos nós, coitadinhos!!!..., todos constrangidos e amargurados lá pelo Quitexe, sofrendo e gemendo num vale de lágrimas e tristezas que nos tornariam infinitamente infelizes. Nem pensar!!
As duas fotos são disso exemplo, embora ambas bem fraquinhas de qualidade, graças a Deus.
A da esquerda, vejam lá, mostra-me de viola embalada no peito e a dedilhar quaisquer desajeitadas notas, em pose de virtual artista!! Como se soubesse eu tocar coisa alguma, quando era um susto a violar! A amostra, aliás, não passa de brincadeira de uma noite muito especial: a do Natal de 1974! Por cá, embrulhados de lãs, samarras e bilharacos, com bom vinho tinto degustado à lareira, se preocupariam parentes e amigos com os pobres diabos «exilados» na tropa angolana...
Nós por lá, porém, depois do bacalhau comido no refeitório geral e das palavras de bem-dizer e bom querer debitadas pelos nossos estimados comandos, fomos refeiçoar afectos para a casa dos furriéis.
Bom vinho, eu lembro que foi. Com chocolates, suponho! E febras de bacalhau cru. Com música desajeitadamente dedilhada por quem de música só sabe o nome das notas da pauta. Mas foi um festão!!!

E quem se lembra desta noite, quem? Eu, claro, ó Monteiro, ó Neto, ó Pires de Bragança, ó Rocha, ó Peixoto, ó não sei quantos mais!
«Ódepois», na noite de passagem de ano (creio eu), vejam só o trio: o Peixoto de (voz, de micro e balde na mão, para fazer percussão?!), o Neto (viola-ritmo, digo eu...) e eu (viola-solo, ou o quê?!...). Ganda grupo, pá!
Nambuangongo teve honras de um improvisado playback de truz!!! Um playback emocionado, cantado e decantado, repetido e adulterado, entre fartos goles de vinho tinto comprado algures em Carmona! E aquela canção dos pretinhos da Guiné, cujo nome agora não me recordo! Quais galas da canção da RTP, da SIC ou da TVI, quais quê?! Foi um fartar de vida bela, com picantes sátiras à nobreza dos apelidos de D. Peixoto. Taveira de Peixoto, pois então!!! Que fino!!!
- PEIXOTO. João Domingos Faria Taveira de Peixoto, furriel miliciano, de Braga, professor.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Juras e verdades de amor do Quitexe para Portugal ...

Furriéis Neto e Viegas a gravar cassetes no seu quarto (comum) do
Quitexe: «Olá amor, olá Ni...», diria o Xico Neto

Furriéis Monteiro e Viegas a gravar «mentiras» d´amor para
Nani (Fernanda Queirós Monteiro) no quarto do Quitexe. Sorriam, se faz favor!

Nani e Ni: ora leiam lá minhas meninas,
por que vos trouxe eu para aqui!
Cliquem nas fotos para as ampliar

Estas duas meninas da foto, a Nani e a Ni, aqui com cara de quase cinquentonas mas notoriamente muito, muito bem conservadas, foram duas das maiores «vítimas» da implosão romântica dos furriéis cavaleiros do Quitexe do meu tempo. Do Monteiro e do Xico Neto, bem entendido! E respectivamente! Eram, ao tempo, as doces e apetitosas namoradas deles. Hoje, suas amadas e desejadas mulheres de muitos anos!
O que arrimava hoje um, de juras de amor eterno e promessas de fidelidade total e absoluta, caprichava o outro no momento seguinte - renovando e multiplicando votos. Era um ver-se-te-declaras-meu-amor permanente!
Um dia, o Monteiro descobriu que o Xico Neto, por cassetes gravadas no nosso quarto, romanceava grandes e quentes juras de amor para a sua Ni! Juras que ele mandava para Portugal em repetidos sacos de açúcares de paixão (as cassetes). A Ni era (e é!) a Eunice os seus desejos, que pelo Beco de Macinhata (Águeda) se deitava em sonhos e pesadelos de saudades do seu mais que tudo!
«Então, olha lá... e a minha Nani?!....», interrogou um dia o Monteiro, a deitar suores de saudade por tudo quanto eram poros do seu corpo quente, nostalgiado da ao tempo jovem professora primária que assinava Fernanda Queirós. Como hoje, mas já avó! A Nani!
«Também quero mandar-lhe uma cassete!...», proclamou o apaixonado e delirado Monteiro!
Então, mas qual é o problema? Grava-se uma cassete para a Nani! E para a Ni!
Tudo foi estudado ao pormenor: a força da rima do verso de paixão, a quadra de piedosa (digo eu!...) e generosa promessa de amor eterno, «ó minha isto, ó minha aquilo, ó meu sonho de todas noites, ó meu corpo de desejos, ó minha mulher de Canaveses (ou do Beco) que me sensualizas os sonhos, ó coisinha q´adormeces as minhas noites do Quitexe!». Tão a ver?
É evidente que, hoje - 35 anos depois... - eu não me lembro bem, nem aqui poderia repetir a hora e meia da cassete, cheínha da conversa fiada de juras que se faziam amoras e amores destes jovens furriéis de Abril, armados em cavaleiros do Quitexe. Mas sei, tenho a certeza, 35 anos passados, que não cometi sacrilégio nenhum sempre que palavreei o mais fácil e adocicado que soube e me dispus a «coordenar» e acicatar as declarações destes dois furriéis do Quitexe - um de Águeda ( o Neto), outro de Vila Boa de Quires, de Marco de Canaveses (o Monteiro).
Ali no meu sótão, encontrei um poema, de não sei quem, que foi declamado em cassete cor de vinho, para a Nani e a Ni: «Amor, que carregas na mochila da saudade/As saudades das muitas nossas noites nuas.../Lembra-te da flor aberta do nosso coração/Inventa sonhos do meu rosto e de luas/E mata assim a tua e nossa solidão».
Estas cachopas que tantas «mentiras» leram e ouviram, agora já felizes e realizadas cinquentonas, corariam de certeza, ainda hoje, se, num qualquer madrigal de serenata, agora lhe cantássemos ao ouvido estas juras lavradas nas noites de cio e romance do Quitexe.
Sorriria, certamente, a doce Nani! A Nani que ali está na foto, com o cestinho de afectos pendurado na mesma mão direita que tantos corações traçou de setas, em nostálgicas cartas/aerogramas para o Quitexe!
Sorriria, seguramente, a amada Ni!: «Vocês são uns malucos!...».
Olhem lá, digo-vos eu: portem-se bem e amem os vossos desejados maridos, meus amigos e antigos furriéis de Abril e do Quitexe!
- NANI. Fernanda Queirós, ao tempo namorada e hoje mulher do )ex)furriel (José Augusto Guedes) Monteiro.
- NI. Eunice Santos, ao tempo namorada e hoje mulher do (ex)furriel (José Francisco Rodrigues) Neto.

terça-feira, 23 de junho de 2009

O soldado que se deixou morder por um cão do Quitexe...

Rua principal do Quitexe (rua de Cima) em 2009, do
lado de Carmona, e em 1972 (em baixo
)







CRÓNICA de
A. CASAL FONSECA
Marrazes (Leiria)
Foto da época








Se havia coisa que me causava apreensão nas ruas do Quitexe, era ver cães vadios a deambular. Alguns mais pareciam radiografias e, aí, passava da apreensão à revolta! Há pessoas que não gostam de cães mas eu sou completamente doido por eles! Admito algum exagero, mas não consigo evitar este apego e o meu que o “diga”!
E cá vou «transportar-me» para a rua de cima, ali mesmo à frente do bar “A Geladinha do Quitexe”, de Dona Carlota e sr. Vitorino. Para trás, tinha deixado o Topete, onde me tinha saciado com umas cervejas na companhia do Álvarito que, melhor que eu, dava uns pontapés na bola. Eu, futebolista falhado no Leiria e Marrazes e ele excelente avançado no Marinhense.
Naquele dia, ele estava radiante e tinha razões de sobra. Afinal, o Quitexe nem era aquele fim de mundo de que tanto se falava! Ali, naquela pequena vila, alguém o foi contratar para jogar no Recreativo de Uíje! Finalmente, iria pôr à prova todos os seus dotes de exímio avançado/goleador!
Aproveito o cumprimento do Sr. Guedes, vizinho do Topete, que avistando três cães encetou conversa sobre eles. Queixava-se do perigo que representavam e, sorrindo, lá me foi avisando que não respeitavam fardas para satisfazerem os seus instintos. Finda a conversa, não folguei mais de um minuto, até sentir os dentes bem afiados num membro inferior, impacto que quase me tombou! Fiquei aterrorizado, não tanto pela dor mas pelo sangue que, em segundos, já pintava o alcatrão de vermelho! Aquilo não era normal e ainda por cima protegido com o camuflado!
Ainda retenho a imagem de uma miúdita, filha de um comerciante, penso que seria Barata, fugir apavorada para a loja e aos gritos. Ainda bem que o amigo Álvarito já não estava comigo, porque só ia complicar! Tinha aqueles problemas com o sangue…”adormecia” e dizia que era de família! Um indivíduo dirigiu-se a mim e, com voz segura, disse-me: «Puxe depressa as calças e tanto me faz se é para cima ou para baixo!...».
Olá… então, mas como é que é…?! Mas quem é este gajo com este paleio?! Vendo que eu não estaria muito por aqueles ajustes, cerrou os punhos e gritou: «Porr…está a olhar para onde? Está com medo de quê, sou o enfermeiro Simões do Quitexe …!».
Não hesitei e num ápice fiquei em parcos preparos. Ele tinha acabado de prestar os seus préstimos a uma senhora doente e foi o chamado anjo caído das alturas. Mais tarde, vim a saber da sua polivalência e dos serviços requisitados como parteiro, vindo a destacar-se profissionalmente em Viseu, no pós-75.
Agora, apesar das dores, eu já não estava tão preocupado com o ferimento que até passara para segundo plano! O que me preocupava, isso sim e muito, era a falta de indumentária! Bonito serviço, meia dúzia de negros a apontarem-me o dedo com risos trocistas e eu, ali imobilizado, a soltar de vez em quando um esgar de dor ao ritmo dos curativos!
O cão tinha sido certeiro, ao apontar para uma veia importante, o que causou toda aquela angústia!
Passados 37 anos, ainda guardo “orgulhosamente” a sua imagem de marca! Como se não bastasse o sofrimento, ainda fui chamado ao capitão (já esperava…), para justificar a minha presença naquele local, àquela hora. Mas como é que a notícia lhe chegara ao ouvido? Eu sei muito bem quem lha transmitiu mas vou guardar segredo, não é melhor amigo …?! Ainda bem que concordas comigo!
Claro que a humilhação a que me sujeitei na rua foi omitida, não soubesse eu bem o que teria de aguentar por dois anos... no mínimo! Como muita gente civil branca soube do ataque canino e me questionavam sobre a gravidade, passei a andar de calções para que todos matassem a curiosidade. Pensando bem, não houve moçoila que, ao passear aos fins-de-semana na rua de cima, não pusesse os olhos na minha figura, segredando e sorrindo! Como me sentia importante! Seriam movidas apenas pela tal curiosidade? Talvez, mas nos meus 22 anos confesso ter sentido um certo gozo com tantos olhares! Houve quem, por gracejo, contasse as marcas para ver bem com quantos dentes tinha sido acariciado! Porque alguém se lembrou de propagar que eu teria protegido a ainda criança do ataque do cão, notei passar a ser o centro das atenções e estar a receber a simpatia de alguns civis, agradecidos pelo meu acto de “bravura”!
À minha passagem, ouvia dizer meio entre-dentes mas com sentido de admiração: «Olhe, Dona Esmeralda, foi aquele soldado … ali aquele…, de calções». Afinal, nós podemos ser heróis em qualquer parte do mundo! Imagine-se, até na rua da pacata e bonita Vila do Quitexe!
A. CASAL FONSECA
Marrazes (Leiria)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Dias e nostalgias do Quitexe!


Há olhares nostálgicos em todo o lado, até no Quitexe, este na cadeira de fitas da entrada da casa dos furriéis, num qualquer final de tarde dos finais de 1974. Não faço a menor ideia, é claro, do que me passaria pela cabeça naquele momento! Teria saudades dos cheiros e dos sons de Ois da Ribeira, a minha aldeia?! Vontade de me sentir perto de alguém?! De uma mesa farta de uns bons rojões com grelos e broa da Maria Dulce, a senhora minha mãe - ao tempo viúva de dois anos?! Ou de um bom leitão assado à moda da Bairrada?!

Não sei! Paixão, não era!!! Que eu era rapaz de coração livre como os passarinhos que voavam na nossa imaginação e o correio que eu recebia às mãos-cheias era tudo epístolas de gente amiga e da família! Nada de namoradas!

Os dias do Quitexe tinham... dias! Alguns bem amargados no pó que nos «embebedava» nas picadas e entossicava as emoções, quando, de olhos bem abertos e sentidos apurados, queríamos não ouvir os nossos medos! Outras, de farta folia, nos bares civis e no aquartelamento - quando nos juntávamos em corropios de palavras e de cervejas, emendando ideias e aplainando teorias sobre o Portugal que se embruulhava em revoluções e contra-revoluções!

Talvez ali nesta foto eu estivesse a avaliar, sei lá..., o como tantas vezes eramos imprudentes heróis, sempre que nos aventurávamos em patrulhas e operações que esventravam florestas e trilhos, por onde gretávamos os olhos de alguns medos - para nos sentirmos mais fortes, se a madrugada de alguma guerra nos obrigasse a jorrar sangue e defender em palmos de terra, o metro a metro da nossa segurança!

Ou estaria a espreitar alguma caucasiana do Quitexe, que pela avenida de baixo fosse a desfraldar as suas asas, inspirando-nos pecados de carne que aqui não devo contar?!!!
Eram dias!!! E nostalgias!!! Isso eram!


domingo, 21 de junho de 2009

O que teve a ver o Expresso com um levantamento de rancho

Furriel Viegas lendo a Revista do Expresso, no varandim
do bar de sargentos da CCS, no Quitexe (Outubro de 1974?). Clique para ampliar.

Expressamente, lendo coisas de Portugal. Notícias do «puto», no Expresso - jornal que chegava ao Quitexe na tarde de 2ª. feira, através do Serviço Postal Militar (SPM). Lá para terça ou quarta, recebia as edições de fim de semana do Jornal de Notícias (JN) e de 2ª. feira, que eram devoradas linha a linha. Por mim e por todos! E quanta confusão e perplexidade nos causava o que líamos. Às vezes, recebíamos A Bola. Por vezes, conseguíamos ouvir os relatos de futebol, na Emissora Nacional - a agora RDP!
Do Expresso, recordo os desenvolvimentos dos SUV (Soldados Unidos Vencerão), em, pleno 75 de convulsões e revoluções lisboetas. Coisas que nós, com formação militar pré-25 de Abril, tínhamos constrangimento em compreender. Alguns de nós, bem entendido! E os que de nós vinham de férias a Portugal, não levavam no bornal esclarecimentos que nos adequassem aos tempos que se viviam em Lisboa! Por outro lado, como já aqui contei, notícias havia do Expresso que não eram notícia: vejam a «história» da ponte do Dange (no post de 23 de Maio).
Um dia, na caserna do PELREC, pôs-se-nos um dilema: um protesto que levedava para um levantamento de rancho. O caldo de notícias que nos chegavam entusiasmavam a tropa para assumir o levantamento (que era «cousa» pouco interessante e grave... ) e as fervuras eram, digamos, perigosas. Lembro-me que me socorri dessa não-notícia do Expresso, para «fazer-ver» aos irmãos soldados e cabos que nem tudo era o que se lia! E não houve levantamento de rancho, coisa nenhuma.
A avidez das notícias, valha a verdade, eram muito mais pelo que tinha a ver com os futebóis! Mas eu, lembro-me bem, sempre ia a correr dar uma notícia qualquer, a um qualquer companheiro, sempre que fosse da terra dele, ou vizinhanças. Era um momento mágico, que na maior parte das vezes se regava com umas boas cervejas! Uns valentes canhângulos!

sábado, 20 de junho de 2009

Matos, o furriel memorizador de números mecanográficos

Cabos Milicianos Neto, Viegas, Matos e Monteiro,
no RC4 de Santa Margarida (Março de 1974). Clique na foto, para ampliar.


Não falar do Matos neste espaço de Cavaleiros do Norte seria imperdoável. O Matos, que eu não sei se lê isto (ainda agora lhe tentei falar), era furriel miliciano atirador de cavalaria, «fixou» a sua comissão na secretaria do 2ª. CCAV, aquartelada em Aldeia Viçosa, e por lá bebemos boas nocais e ekas, e cucas!, com uns bons pregos no pão, carregados de gindungo. Aqui vizinho de Anadia (Avelãs de Caminho), não nos conhecíamos até que a tropa nos juntou nas dores da instrução de Lamego, nos Rangers.
Algo que não recordo, nos separou os caminhos militares, seguindo cada um pelo seu, até que a mobilização nos voltou a «casar», em Santa Margarida - ele, garboso cabo miliciano de cavalaria, eu de igual posto, mas dos Rangers! E lá fomos para Angola, cada qual na sua companhia, do mesmo batalhão.
Sempre que o serviço permitia - e permitiu muitas vezes!!!... - lá estava eu a passar por Aldeia Viçosa, ele menos pelo Quitexe!, emparceirando conversas que nos traziam às rivalidades entre os dois municípios (Águeda, o meu; Anadia, o dele), o que nos fazia despicar de forma divertida e nos ajudava a «falecer» as saudades que naturalmente cresciam a cada dia que passava. Quantas dessas conversas recordámos nós, já em Portugal e por altura das quatro Taças Latinas de Hoquei em Patins e do Europeu de Basquetebol, no pavilhão de Anadia!
O que me traz o Matos aqui, porém, nada tem a ver com bolas e stiques.
É que o Matos, com aquele tique que ele tinha, com aquele bigodito negro a medrar-lhe sobre o beiço, tinha uma coisa que ainda hoje considero fantástica: a memória.
Então não é que o Matos sabia de cor e salteado, de trás para a frente e da frente para trás, todos os números mecanográficos de todos os militares da 2ª. CCAV?! Todos, mesmo!! Cada um com oito algarismos, como todos sabemos!
Ainda última vez que estive com ele, lhe quis pregar uma partida: «Então, olha lá, qual é o número do Mourato!!!».
E, zás, num ápice, respondeu ele: «Tal, tal, tal e tal!!!...».
«E o do Letras?!!!...».
E o Matos, pumba, metralhou-o, algarismo a algarismo!
Espantoso, meu caro Matos, de Avelãs de Caminho! Ainda hoje acho isso admirável!
- MATOS. Mário Augusto da Silva Matos. Furriel miliciano atirador de cavalaria, quadro de serviços, mora em Anadia.
- MOURATO: Abel Maria Ribeiro Mourato, furriel miliciano vagomestre, de Portalegre.
- LETRAS. António Carlos Dias Letras, furriel miliciano de Operações Especiais, empresário, de Palmela.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Ora perguntai lá ao inimigo quem somos!

Alferes Sampaio (oficial dia) e Garcia e o furriel Viegas, a 10 de Outubro
de 1974, no Quitexe, no momento da partida para mais uma missão.
Notam-se alguns soldados na berliet.


A 26 de Junho de 1974, foi dia da nossa primeira ida ao Destacamento da Fazenda Luísa Maria - fazendo protecção ao comandante da Zona Militar Norte, que era também o Governador do Distrito de Uíge, o brigadeiro Altino de Magalhães.
Por esses dias, tinha sido o juramento de fidelidade de todos os alferes, o que foi razão para farta brincadeira com os nossos jovens companheiros oficiais milicianos. «Jurar, tens de jurar? Quem mais jura mais mente...», glosávamos nós, principalmente na nossa relação com o Alferes Garcia, o comandante do Pelotão de Reconhecimento, Serviço e Informação da CCS. Oficial de Operações Especiais - Ranger, como nós!
O 25 de Abril tinha acontecido havia dois meses, muitas e fartas labaredas de paixão política e revolucionária se acendiam e apagavam da noite para o dia, discutiam-se os méritos e deméritos do que passava em Lisboa e nós, por lá, reflectíamos os slogans gritados e assumidos em Santa Margarida, onde decorreu a nossa instrução operacional, pré-25 de Abril: «O soldado português é dos melhores do mundo!». Ou «o exército português é o espelho da nação!», também «o suor da instrução é sangue que não corre!». Ou ainda o básico princípio de «querer e saber querer», que permanentemente nos incitavam e psicologicamente preparavam para as tarefas que íamos ter em Angola. O lema era «Perguntai ao inimigo quem somos!». Perguntaríamos?

- «Será que isto tudo valerá a pena?», interrogámo-nos muitas vezes, nos primeiros tempos de adaptação às terras do Quitexe e normalmente nas horas imediatamente anteriores às nossas partidas para uma qualquer missão - como no da foto.
Por Lisboa, no «puto», ia o que nós nem sabíamos bem - ou sabíamos de forma quiçá adulterada, seguramente confusa. Se vão entregar «isto», porque estamos aqui? Gritava-se nas ruas de Lisboa e de Portugal «nem mais um soldado para Angola!» Ou para a Guiné e Moçambique! E nós por lá!
«Estamos cá para isto e para isto nos preparámos...», dizia sempre, sempre entusiasmado e convicto, o querido Alferes Garcia, que foi nosso exemplo de coragem e capacidade de decisão em cada dia dos nossos dias ultramarinos. Era dos que perguntaria «quem somos», sem medo, ao inimigo que não conhecíamos.
- GARCIA: António Manuel Garcia, alferes miliciano de Operações Especiais, de Pombal de Ansiães. Foi agente da Polícia Judiciária e faleceu num acidente de viação, perto de Viseu, em finais da década de 70.
- SAMPAIO. Carlos João da Costa Sampaio, alferes miliciano atirador de cavalaria, da 1ª. CCAV 8423 (Zalala).

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Outros que no Quitexe estiveram antes...




Clicar na fotos, para as ampliar!!

Outros combatentes portugueses passaram pelas terras do Quitexe, lá deixando escrita história que os honra. Antes de nós! Por lá também eles semearam esperanças de paz e colheram e levedaram o sentimento de ser angolano! E multiplicaram partilhas e solidariedades que ainda hoje os mantém jovens de 22/23 anos - quando já vão sexagenários e avôs. Bisavôs, quem sabe!
José Oliveira, o César, que é ali do Porto e era da CCS, mandou-me fotos do encontro do BCAV 1917 deste ano, no Caramulo, a 30 de Maio. Aqui deixo três delas, com um abraço bem quitexano!

O furriel Morais e os primeiros isqueiros BIC no Quitexe

1º. Sargento Aires e o furriel-miliciano Morais. Vêem-se
ainda os furriéis Rocha e Cruz e, entre eles, o soldado Lages (do bar).
Clique, par ampliar a foto.

A frota de viaturas era essencial na execução das operações militares desencadeadas em zona de guerra. Já aqui vos contei do susto apanhado num dos habituais patrulhamentos que fazíamos em zonas de mata e às fazendas, para trazer e levar gente civil que ia ao Quitexe ou a Carmona para mercar - vender o que produzia, comprar que precisava.
O susto resultou de uma suposta emboscada, quando evoluíamos numa picada, arrimada pela serra acima - num dia em que, se havia de estar calor de rachar, era nesse! O lenço verde que nos protegia a boca e o nariz do pó fino das picadas, era... castanho e enlameado. Os óculos do tipo de soldador que usávamos para proteger os olhos, mal deixavam ver os vidros. E um unimog avariou!!
Foi lá, em socorro, o furriel Morais, com três ou quatro soldados - estávamos ainda bem perto do Quitexe, uns 20/30 quilómetros, na «estrada» de pó que ia para a Fazenda Luísa Maria. Veio ele embora, continuámos nós pela picada fora.
À noite, no bar, interrogou-me o Morais: «Aquilo é sempre assim?!...".
Aquilo era o pó! Aquilo era o capim crescido e de pontas crestadas do sol que abrasava os ares de Angola, eram os guinchos dos macacos a saltar de ramo em ramo, os cafezais imensos, de quilómetros atrás de quilómetros, a perder de vista e cheios de negros contratados no sul, que o tratavam e ripavam. Era o piso enrugado da picada e as curvas de mistérios que eram sempre cada curva que dobrávamos! Acho eu que o Morais estava naquela de extasiado e vencedor de algum receio. O receio de quem, furriel mecânico-auto que ele era, mal saía do aquartelamento.
Passou-se o tempo e o Morais veio a Portugal de férias, levando para lá a grande novidade dos isqueiros BIC. Uma noite, a conversar no varandim do bar de sargentos, disse-me o Morais, a perguntar-me, muito sério: «Vocês não têm medo quando saem?».
- «Temos, claro...», disse-lhe eu.
- «Mas já estão habituados, não é?!...».
- «É... - disse-lhe eu - só ficamos f... é quando as viaturas avariam!...». Estava a provocá-lo, na brincadeira, ele era o furriel mecânico-auto.
- «Lembrei-me disso uma série de vezes, agora em Portugal!».
O Morais disse-me isto com um ar algo seráfico, de tez comprimida, diria até que de corpo hirto. Puxou de um cigarro e ofereceu-me outro, deixando-me com ele na mão. Procurou o isqueiro nos bolsos do camuflado e acendeu-os! Foi a primeira vez que eu vi um BIC, a gás! Ao tempo, a 25 de Abril, os isqueiros careciam de licença e eram de gasolina. O Morais fez um novelo de fumo, expeliu-o no ar quente da noite e acomodou-se na cadeira de fitas de plástico. Eu, puxei o fumo e engasguei-me, a tossir! Eu não fumava!
- MORAIS. Norberto António Ribeirinho Carita de Morais, furriel-miliciano mecânico-auto, natural de Niza. É técnico principal da Estação Nacional de Tratamento de Plantas, em Elvas.
- AIRES: Joaquim António Aires, 1º. sargento mecânico-auto, de Évora, já falecido.