Estrada de Carmona, no Quitexe, em foto de Franklin (2009)BATALHÃO DE CAVALARIA 8423. Os Cavaleiros do Norte!!! Um espaço para informalmente falar de pessoas e estórias de um tempo em que se fez história. Aqui contando, de forma avulsa, algumas histórias de grupo de militares que foi a Angola fazer Abril e semear solidariedade e companheirismo! A partir do Quitexe, por Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Ponte do Dange e Songo! E outras terras do Uíge angolano, pátria de que todos ficámos apaixonados!
segunda-feira, 29 de junho de 2009
O exame do sô Cabrita, que era soldado básico...
Estrada de Carmona, no Quitexe, em foto de Franklin (2009)domingo, 28 de junho de 2009
O Fernandes que fez de Neto por umas horas...
O Fernandes era da 3ª. CCAV do BCAV 8423, que se instalou na distante e algo isolada Fazenda Santa Isabel. Furriel miliciano atirador de cavalaria, vinha algumas vezes ao Quitexe. E por lá esteve alguns dias, por exemplo nas passagens para férias.
Algo reservado, talvez tímido até, mas muito bom camarada, amargou por lá o constrangimento de uma precoce queda de cabelo e nós, meio abrutalhados, bem lhe brincalhávamos o juízo por causa disso, sem cuidarmos muito do seu desgosto e das atenções que lhe devíamos. Foi psicologicamente forte, nesse nosso desrespeitoso e leviano agir. Também é desta têmpera que se fazem os homens maiores!
Como eu era dado à conversa (mais fiada, ou menos desfiada...) tivemos tempo para largos passeios na urbe quitexana (como o da foto), alturas em que ele sempre me falava da vida espartana da malta que estava em Santa Isabel e dos luxos dos aquartelados na vila. Que não, que «não é bem assim...», ripostava-lhe eu, em defesa da minha dama e apostando-lhe com o rigor do meu «conhecimento estratégico» (!!!!...), desenhando-lhe cenários que justificavam a minha teoria de que era «muito mais perigosa a defesa e segurança do Quitexe». E, portanto, «muito mais seguro e tranquilo estar em Santa Isabel!...». Ele que não tivesse dúvidas, blá, blá, blá...
Mas o Fernandes vem aqui por outra razão: a do sentimento e o da camaradagem.
Um dia, um nosso companheiro falhou na apresentação para o serviço de sargento de dia, na formatura das 8 da manhã. Era um domingo, saía eu próprio de serviço e não o poderia substituir. Era meu amigo de peito o camarada em falta, naquela hora a flautear-se por Luanda mas em gravíssima falta disciplinar no Quitexe. Flautear-se, é como quem diz, pois foi a Luanda para ver o pai, em trânsito para Moçambique - sem que o chegasse a ver.
Tínhamos nós (eu e o Neto, era este o «faltoso»...) combinado que se naqueles dois ou três dias em que foi a Luanda (de fugida...) ele fosse nomeado à ordem, eu o susbtituíria. Dizia-se na tropa que lhe «matava» o serviço e nada de pecado viria ao mundo. Só que alguém, propositadamente, fez com que fosse o próprio Neto a substituir-me no serviço de sargento-de-dia. O que nem era habitual, por sermos do mesmo pelotão! Sabemos quem foi, mas não vem agora ao caso.
Entrou aí o Fernandes, que acordei lá para as seis da amanhã. «Eh pá, se o Neto não chegar tens de ir tu à formatura, eu depois faço o serviço...».
Dispensando pormenores da apressada conversa dessa madrugada dominical, prontificou-se ele a fazer de... Neto, pois o Neto não veio mesmo, e depois continuei eu, assim como não se quer a coisa e com a cumplicidade do «novo» oficial de dia, o nosso saudoso (alferes) Garcia.
O Fernandes, e era aqui que eu queria chegar, assumiu de corpo inteiro a situação, num gesto de generosidade e absoluta camaradagem que lhe poderia ficar bem caro. E a mim! Ainda há dias falei deste «caso» com o Neto - que, na altura e por uma hora ou duas, afinal, não conseguiu encontrar-se com o pai, em Luanda, nem depois chegar a tempo ao Quitexe! Ainda hoje me «deve» este «serviço» e disso nos divertimos um destes dias, num encontro que inevitavelmente teve o Quitexe como tema quase único!
- FERNANDES. António da Costa Fernandes, furriel miliciano atirador de cavalaria da 3ª. Companhia de Cavalaria do BCAV 8423 (Santa Isabel), agora professor, de Lomar (Braga).
sábado, 27 de junho de 2009
O velho soba e a bandeira portuguesa...
sexta-feira, 26 de junho de 2009
Vícios e desejos da Luanda de Agosto de 1975...
É claro, acrescentou, que «o prato que não tem ninguém seria do Chico Neto, que estaria a tirar a fotografia, certo?». Certo, ó Monteiro! E a foto foi tirada aí por 15 de Agosto de 1975, na casa onde habitámos em Viana, fazendo as vésperas do regresso a Portugal, regalando-nos na boa vida! E aquela namoradona dos CTT?!!!
- SUCENA. Carlos José Sucena Miranda, 1º. cabo escriturário em Luanda, meu companheiro de turma e amigo. É da Borralha (Águeda) e empresário num país africano.
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Violas e músicas em noites de Natal e Ano Novo do Quitexe
Bom vinho, eu lembro que foi. Com chocolates, suponho! E febras de bacalhau cru. Com música desajeitadamente dedilhada por quem de música só sabe o nome das notas da pauta. Mas foi um festão!!!
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Juras e verdades de amor do Quitexe para Portugal ...
«Então, olha lá... e a minha Nani?!....», interrogou um dia o Monteiro, a deitar suores de saudade por tudo quanto eram poros do seu corpo quente, nostalgiado da ao tempo jovem professora primária que assinava Fernanda Queirós. Como hoje, mas já avó! A Nani!
terça-feira, 23 de junho de 2009
O soldado que se deixou morder por um cão do Quitexe...


CRÓNICA de
A. CASAL FONSECA
Marrazes (Leiria)
Foto da época
Naquele dia, ele estava radiante e tinha razões de sobra. Afinal, o Quitexe nem era aquele fim de mundo de que tanto se falava! Ali, naquela pequena vila, alguém o foi contratar para jogar no Recreativo de Uíje! Finalmente, iria pôr à prova todos os seus dotes de exímio avançado/goleador!
Aproveito o cumprimento do Sr. Guedes, vizinho do Topete, que avistando três cães encetou conversa sobre eles. Queixava-se do perigo que representavam e, sorrindo, lá me foi avisando que não respeitavam fardas para satisfazerem os seus instintos. Finda a conversa, não folguei mais de um minuto, até sentir os dentes bem afiados num membro inferior, impacto que quase me tombou! Fiquei aterrorizado, não tanto pela dor mas pelo sangue que, em segundos, já pintava o alcatrão de vermelho! Aquilo não era normal e ainda por cima protegido com o camuflado!
Ainda retenho a imagem de uma miúdita, filha de um comerciante, penso que seria Barata, fugir apavorada para a loja e aos gritos. Ainda bem que o amigo Álvarito já não estava comigo, porque só ia complicar! Tinha aqueles problemas com o sangue…”adormecia” e dizia que era de família! Um indivíduo dirigiu-se a mim e, com voz segura, disse-me: «Puxe depressa as calças e tanto me faz se é para cima ou para baixo!...».
Olá… então, mas como é que é…?! Mas quem é este gajo com este paleio?! Vendo que eu não estaria muito por aqueles ajustes, cerrou os punhos e gritou: «Porr…está a olhar para onde? Está com medo de quê, sou o enfermeiro Simões do Quitexe …!».
Não hesitei e num ápice fiquei em parcos preparos. Ele tinha acabado de prestar os seus préstimos a uma senhora doente e foi o chamado anjo caído das alturas. Mais tarde, vim a saber da sua polivalência e dos serviços requisitados como parteiro, vindo a destacar-se profissionalmente em Viseu, no pós-75.
O cão tinha sido certeiro, ao apontar para uma veia importante, o que causou toda aquela angústia!
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Dias e nostalgias do Quitexe!

Há olhares nostálgicos em todo o lado, até no Quitexe, este na cadeira de fitas da entrada da casa dos furriéis, num qualquer final de tarde dos finais de 1974. Não faço a menor ideia, é claro, do que me passaria pela cabeça naquele momento! Teria saudades dos cheiros e dos sons de Ois da Ribeira, a minha aldeia?! Vontade de me sentir perto de alguém?! De uma mesa farta de uns bons rojões com grelos e broa da Maria Dulce, a senhora minha mãe - ao tempo viúva de dois anos?! Ou de um bom leitão assado à moda da Bairrada?!
Não sei! Paixão, não era!!! Que eu era rapaz de coração livre como os passarinhos que voavam na nossa imaginação e o correio que eu recebia às mãos-cheias era tudo epístolas de gente amiga e da família! Nada de namoradas!
Os dias do Quitexe tinham... dias! Alguns bem amargados no pó que nos «embebedava» nas picadas e entossicava as emoções, quando, de olhos bem abertos e sentidos apurados, queríamos não ouvir os nossos medos! Outras, de farta folia, nos bares civis e no aquartelamento - quando nos juntávamos em corropios de palavras e de cervejas, emendando ideias e aplainando teorias sobre o Portugal que se embruulhava em revoluções e contra-revoluções!
Talvez ali nesta foto eu estivesse a avaliar, sei lá..., o como tantas vezes eramos imprudentes heróis, sempre que nos aventurávamos em patrulhas e operações que esventravam florestas e trilhos, por onde gretávamos os olhos de alguns medos - para nos sentirmos mais fortes, se a madrugada de alguma guerra nos obrigasse a jorrar sangue e defender em palmos de terra, o metro a metro da nossa segurança!
Ou estaria a espreitar alguma caucasiana do Quitexe, que pela avenida de baixo fosse a desfraldar as suas asas, inspirando-nos pecados de carne que aqui não devo contar?!!!
Eram dias!!! E nostalgias!!! Isso eram!
domingo, 21 de junho de 2009
O que teve a ver o Expresso com um levantamento de rancho
Furriel Viegas lendo a Revista do Expresso, no varandim Do Expresso, recordo os desenvolvimentos dos SUV (Soldados Unidos Vencerão), em, pleno 75 de convulsões e revoluções lisboetas. Coisas que nós, com formação militar pré-25 de Abril, tínhamos constrangimento em compreender. Alguns de nós, bem entendido! E os que de nós vinham de férias a Portugal, não levavam no bornal esclarecimentos que nos adequassem aos tempos que se viviam em Lisboa! Por outro lado, como já aqui contei, notícias havia do Expresso que não eram notícia: vejam a «história» da ponte do Dange (no post de 23 de Maio).
sábado, 20 de junho de 2009
Matos, o furriel memorizador de números mecanográficos
Cabos Milicianos Neto, Viegas, Matos e Monteiro, Ainda última vez que estive com ele, lhe quis pregar uma partida: «Então, olha lá, qual é o número do Mourato!!!».
E, zás, num ápice, respondeu ele: «Tal, tal, tal e tal!!!...».
«E o do Letras?!!!...».
E o Matos, pumba, metralhou-o, algarismo a algarismo!
Espantoso, meu caro Matos, de Avelãs de Caminho! Ainda hoje acho isso admirável!
- MOURATO: Abel Maria Ribeiro Mourato, furriel miliciano vagomestre, de Portalegre.
- LETRAS. António Carlos Dias Letras, furriel miliciano de Operações Especiais, empresário, de Palmela.
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Ora perguntai lá ao inimigo quem somos!
A 26 de Junho de 1974, foi dia da nossa primeira ida ao Destacamento da Fazenda Luísa Maria - fazendo protecção ao comandante da Zona Militar Norte, que era também o Governador do Distrito de Uíge, o brigadeiro Altino de Magalhães.
Por esses dias, tinha sido o juramento de fidelidade de todos os alferes, o que foi razão para farta brincadeira com os nossos jovens companheiros oficiais milicianos. «Jurar, tens de jurar? Quem mais jura mais mente...», glosávamos nós, principalmente na nossa relação com o Alferes Garcia, o comandante do Pelotão de Reconhecimento, Serviço e Informação da CCS. Oficial de Operações Especiais - Ranger, como nós!
O 25 de Abril tinha acontecido havia dois meses, muitas e fartas labaredas de paixão política e revolucionária se acendiam e apagavam da noite para o dia, discutiam-se os méritos e deméritos do que passava em Lisboa e nós, por lá, reflectíamos os slogans gritados e assumidos em Santa Margarida, onde decorreu a nossa instrução operacional, pré-25 de Abril: «O soldado português é dos melhores do mundo!». Ou «o exército português é o espelho da nação!», também «o suor da instrução é sangue que não corre!». Ou ainda o básico princípio de «querer e saber querer», que permanentemente nos incitavam e psicologicamente preparavam para as tarefas que íamos ter em Angola. O lema era «Perguntai ao inimigo quem somos!». Perguntaríamos?
- «Será que isto tudo valerá a pena?», interrogámo-nos muitas vezes, nos primeiros tempos de adaptação às terras do Quitexe e normalmente nas horas imediatamente anteriores às nossas partidas para uma qualquer missão - como no da foto.
Por Lisboa, no «puto», ia o que nós nem sabíamos bem - ou sabíamos de forma quiçá adulterada, seguramente confusa. Se vão entregar «isto», porque estamos aqui? Gritava-se nas ruas de Lisboa e de Portugal «nem mais um soldado para Angola!» Ou para a Guiné e Moçambique! E nós por lá!
«Estamos cá para isto e para isto nos preparámos...», dizia sempre, sempre entusiasmado e convicto, o querido Alferes Garcia, que foi nosso exemplo de coragem e capacidade de decisão em cada dia dos nossos dias ultramarinos. Era dos que perguntaria «quem somos», sem medo, ao inimigo que não conhecíamos.
- GARCIA: António Manuel Garcia, alferes miliciano de Operações Especiais, de Pombal de Ansiães. Foi agente da Polícia Judiciária e faleceu num acidente de viação, perto de Viseu, em finais da década de 70.
- SAMPAIO. Carlos João da Costa Sampaio, alferes miliciano atirador de cavalaria, da 1ª. CCAV 8423 (Zalala).
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Outros que no Quitexe estiveram antes...
O furriel Morais e os primeiros isqueiros BIC no Quitexe
Clique, par ampliar a foto.
À noite, no bar, interrogou-me o Morais: «Aquilo é sempre assim?!...".
Passou-se o tempo e o Morais veio a Portugal de férias, levando para lá a grande novidade dos isqueiros BIC. Uma noite, a conversar no varandim do bar de sargentos, disse-me o Morais, a perguntar-me, muito sério: «Vocês não têm medo quando saem?».
- «Temos, claro...», disse-lhe eu.
- «Mas já estão habituados, não é?!...».
- «É... - disse-lhe eu - só ficamos f... é quando as viaturas avariam!...». Estava a provocá-lo, na brincadeira, ele era o furriel mecânico-auto.
- «Lembrei-me disso uma série de vezes, agora em Portugal!».
O Morais disse-me isto com um ar algo seráfico, de tez comprimida, diria até que de corpo hirto. Puxou de um cigarro e ofereceu-me outro, deixando-me com ele na mão. Procurou o isqueiro nos bolsos do camuflado e acendeu-os! Foi a primeira vez que eu vi um BIC, a gás! Ao tempo, a 25 de Abril, os isqueiros careciam de licença e eram de gasolina. O Morais fez um novelo de fumo, expeliu-o no ar quente da noite e acomodou-se na cadeira de fitas de plástico. Eu, puxei o fumo e engasguei-me, a tossir! Eu não fumava!
- MORAIS. Norberto António Ribeirinho Carita de Morais, furriel-miliciano mecânico-auto, natural de Niza. É técnico principal da Estação Nacional de Tratamento de Plantas, em Elvas.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
O palrador e malcriado papagaio do Bento....
Hoje venho falar do Bento, furriel miliciano de Operações e Informações, nado do Barreiro e a paz e o sossego em pessoa. Nada afligia o Bento! Era rapaz de grandes tranquilidades, sempre de sorriso aberto e, diria eu, que meio envergonhado. Ora olhem para ele, na foto! Por ele, viria tudo de bom ao mundo!
São incontáveis as longas horas das noites quitexanas, passadas no bar e no varandim da entrada térrea, à conversa sobre as coisas actuais daquele tempo em que nos deixámos embriagar e enfeitiçar pelos cheiros e sabores africanos.
Não era de muitas palavras, o Bento! Era mais de sorriso de concordância ou abano de cabeça, na algaraviada das nossas conversas, entre parábolas e veemências de quem discutia razões e debatia argumentos! Sempre, entre todos, sem um qualquer azedume!
O que venho contar é a história do papagaio que o Bento comprou para oferecer à mãe. Comprou-o ele e ensiná-lo nós a papaguear os piores vernáculos! E o pior qual era? Era o papagaio dizer, empoleirado na gaiola ou a passear-se numa vara em que o agitávamos, como se dissesse a mais generosa coisa do mundo: «O Bento é pan....». Hoje, diria o papagaio que o Bento era gay.
O Bento, sempre bonacheirão e divertido, nunca se aborreceu connosco, até piada achava. E ria-se, ria-se, ria-se... Não só porque ele não era nada disso, como porque era a bondade e bonomia em corpo de furriel!
Abraços, Bento!
- BENTO. Francisco Manuel Gonçalves Bento, furriel miliciano de Operações e Informações, CCS, natural do Barreiro.
- REINA. Armindo Henrique Reina, furriel miliciano atirador de cavalaria, 3ª. CCAV 8423, de Belmonte.
terça-feira, 16 de junho de 2009
A serenata que deu em arroz de galo...
Antigo posto da Mobil, no Quitexe - nos dias de hoje. Já teve dias bem piores. Pelo tempo da minha passagem por lá, esta estrada (que liga a Luanda e Carmona) era espaço de largas caminhadas e fartas conversas - nas mais das vezes recordando as nossas terras de origem, os nossos amigos, as festas populares, as romarias, os madrigais que então se cantavam, em jeito de declarações nocturnas, nas ao tempo famosas serenatas.Ali por perto, em casa sei eu de quem mas não digo, fizemos serenata uma noite, com um velho gira-discos geringonçando cantigas de bem-dizer e louvores ao amor!
Promessas e inocentes mentiras da juventude, que na terra quitexana tinham uma dimensão diferente, se sentiam de forma diferente, se entoavam em jeito de morna mal-ajeitada, quando queríamos e mal fazíamos coro em play-back.
A serenata, claro está, tinha destino, uma jovem estudante em Carmona, que por lá passava fins de semana em casa de família. Um borracho em quem todos púnhamos os olhos de desejo!
Pois bem, lá geringonçava o gira-discos e nós a pôr pimenta na letra. Pimenta e desejos! E esperanças de amores correspondidos!
Acendeu-se a luz, na casa de janelas cerradas que a protegia da noite. Subiu o calor à cabeça da malta: a miúda estava ali. Dava troco!
Só que não estava: quem levantou a janela interior de madeira, deixando jorrar luz da casa para a estrada, foi a mãe da cachopa! Que nos convidou a entrar! E o marido, olhe lá, não ficará mal a senhora?! Não irão mal-dizer os vizinhos por abrir a porta a três militares! E como embriagados estavam eles, de desejos que agora aqui não posso contar! Pois que não, qual quê? "Façam favor de entrar...!. E lá fomos nós, meio desconfiados e já de gira-discos sem pilhas.
Na cozinha de fora, pelo vistos nisso especializado, era o marido da senhora que tinha uma arrozada de galo prontinha a servir! Abençoada serenata! E sabem porque o fez? Porque a serenata lhes matou as saudades da terra onde nasceu o casal!
domingo, 14 de junho de 2009
Dois tipos de Ois da Ribeira no Quitexe!!!
sábado, 13 de junho de 2009
Aldeia Viçosa e Santa Isabel, «casas" de outros cavaleiros

Havia alguma curiosidade, nossa, em conhecer os locais onde estavam as três companhias operacionais do BCAV 8423. Curiosidade aguçada pelo desejo de reencontrar os amigos feitos nos meses de preparação militar em Santa Margarida e que diferentes partidas para Angola tinham feito desencontrar. Nós, sentíamos-nos bem pelo Quitexe! E eles?! Como se sentiriam eles nas suas novas «casas»!?
A oportunidade surgiu a 26 de Junho de 1974, quando nos juntámos ao grupo que, de Carmona, escoltava os comandantes da Zona Militar Norte (General Altino de Magalhães) e do Comando de Sector do Uíge (Coronel Tirocinado Bastos Carreiras), a quem, no Quitexe, se juntou o nosso comandante - o então Tenente-Coronel Almeida e Brito (foto).
«Cuidado, atenção... vão escoltar os mais altos comandos militares da ZMN», avisou-nos que devia avisar - ao aviso juntando um rol de recados que agora não vem ao caso.
Lá fomos nós, e sem quaisquer problemas, na verdade, embora de olhos sempre bem abertos e sentidos bem apurados.
Aldeia Viçosa, por onde já tínhamos passado (na viagem de Luanda), era a "casa" da 2ª. CCAV. Lá encontrei o Matos, o Brejo, o Melo, o Letras, o Guedes, o Chitas. A vila, porventura mais pequena que o Quitexe, era bem agradável - nada de ser o tal "buraco" de que sempre nos falavam, a falarem de Angola. A 3ª. Companhia estava em Santa Isabel e lá galgámos a picada, ate à fazenda onde «moravam» os nossos companheiros. Tempo para, no bar, matar as sedes que se faziam do pó fino da picada, e do calor, e de trocar impressões sobre a «guerra». Por lá estavam o Reina, o Gordo, o Carvalho, o Flora, o Rodrigues, o Fernandes - só para falar dos mais próximos! Tudo gente bem disposta e tranquila.
As impressões trocadas, num e outro lado, deixaram-nos muito descontraídos e confiantes. Afinal, o admastador de medos que se tinha das traições e perigos da mata não seria coisa que «matasse» a nossa confiança! Confiança, aliás, reforçada por um relevante pormenor: se os mais altos comandos militares circulavam com a tranquilidade que vimos e sentimos - e eles teriam informações (secretas) que nós não naturalmente não conhecíamos - pois havia que termos serenidade e desafogo emocional.
Por conhecer ficou a famosa picada para Zalala, onde «acampou» a 1ª. Companhia. Foi a um outro dia!
- MATOS. Mário Augusto da Silva Matos. Furriel miliciano atirador de cavalaria. Actualmente, administrativo em Anadia.
- MELO: José Fernando Noro Dias de Melo, idem, de Alfarelos. Agente da GNR
- BREJO: João António Piteira Breja, idem, de Montemor-o-Novo. Trabalhador de Serviços
- GUEDES. António Artur César Monteiro Guedes, idem, de Peso da Régua. Sargento-Mor da GNR.
- CHITAS. António Milheiros Courinha Chitas, idem, de Gavião. Desconheço a actividade.
- LETRAS. António Carlos Dias Letras. Furriel de Operações Especiais, de Setúbal. Empresário.
- REINA. Armindo Henrique Reina. Idem, de Belmonte.
- GORDO. António Luís Barradas Mendes Gordo. Furriel miliciano atirador de cavalaria. Funcionário municipal em Alter do Chão.
- CARVALHO. José Fernando da Costa Carvalho, idem, aposentado da PSP, no Entroncamento.
- FLORA. António Pires Flora, idem, quadro da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa.
- FERNANDES: António da Costa Fernandes, idem, professor, de Lomar (Braga).
- RODRIGUES. Augusto Rodrigues. Alferes miliciano de Operações Especiais, quadro dos Serviços de Meteorologia do Aeroporto de Lisboa.
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Amuos de amor, perdas e ganhos de paixões para uma vida...
No Quitexe fora de horas, as noites eram de tranquilidade total. O calor, por vezes sufocante porque aliado à humidade, não dava tréguas. Era precisamente nestas horas de ócio que mil pensamentos assaltavam as mentes dos mais nostálgicos. Eram as saudades, as paixões, os amores, enfim…coisas do peito!Naquela noite, o amigo R… estava numa tristeza que metia dó! Não seria provavelmente o único mas, sendo um dos mais alegres da Companhia, era de estranhar. A muito custo, lá foi despejando as angústias e desesperos que o seu amor de além-mar lhe estava a infligir. Passados seis meses após a sofrida despedida, as coisas pareciam ter esfriado. Isto, ele não entendia, porque dizia terem selado uma jura de compromisso! Eu, na maior calma do mundo (digo eu...), bem tentava chegar a ele uma outra possível realidade. Cumpridos alguns segundos de silêncio, colocando-me a mão no braço e olhando-me nos olhos em tom pausado e sereno retorquiu: «Não, na minha terra não é assim… A gente quando namora é a sério… a gente não brinca às casinhas… casa mesmo!!!… Então como é?!...».
Aquele tom de voz franco era tão raro naquele dia-a-dia que quase se poderia considerar pecado. Sofria com a escassez de cartas recebidas, mas desesperava ainda mais com o seu teor. As frases que falavam de amor, de paixão e de outros momentos felizes escasseavam de missiva para missiva! Pois é, pois é…, ele também só lhe falava de tropa, do tempo e pouco mais!
«Sabes, Casal, eu nunca fui muito de coisas assim mais…, pronto mais íntimas...», dizia-me! «Sabes, a gente no campo… essas lambuzices! Ah!...».
Estava ali um belo bico-de-obra, que eu estava muito empenhado em resolver (ajudar). Meter-me ali não ia ser nada fácil, mas o risco também existe para ser corrido! E se eu conseguisse imitar a letra e escrevesse um anexo? Seria uma pequena maldade… e inocente. Meia dúzia de linhas que tão simplesmente iriam falar do tal amor e da tal paixão (aqui, arrisquei...) poderiam muito bem sacudir um coraçãozinho em banho-maria!
Introduzir o anexo no envelope é que não iria ser fácil… E não foi! Mas ele lá seguiu por terra e por ar, rumo à pequena aldeia e não se perdeu.
Dois meses passados, o R…, em passo acelerado, aproximou-se de mim. Agora, quase segredando e com um sorriso a transbordar malícia atrevidota, disse-me: «Eh pá…, lá a minha M tá a ficar muito atiradiça!... Ih, ih, ih…».
Deixando-me especado e meio incrédulo a olhar para ele, correu atrás dos amigos, rumo ao Topete, onde, com alegria incontida, iria certamente refrescar-se com algumas nocais! Ao vê-lo afastar-se, pensei, como penso ainda hoje: «Pois… ele há cada coincidência!».
Em Dezembro de 1980, teve a persistência de encontrar a minha morada e brindou-me com um bonito postal de Boas Festas. Ao abri-lo, ouço, vindo do interior, uma música alusiva ao Natal (ainda toca). Continha uma mensagem tão simples e sincera como ele!
Era assinada pelo R… e pela sua M…
A primeira operação millitar, lá para os lados de Camabatela
em cima, a contar da esquerda). Clique na foto, para a ampliar
A 20 de Junho de 1974, o Batalhão de Cavalaria 8423 teve a sua primeira operação em terras do Uíge, virada para as chamadas centrais do Negage e do Mungage - cabendo-nos esta na «rifa», considerada perigosíssima. A operação era a nível do Sector do Uíge, envolvendo o nosso batalhão e outros, ainda com o BCAC 4211 no Quitexe, mas sem intervir.
Quem também interveio nessa operação chamada Colibri 310, e socorro-me aqui do livro «História da Unidade», foi a 41ª. Companhia de Comandos e os Flechas de Carmona. Um soldado «comando» pisou uma mina anti-pessoal para os lados do Negage, ficou sem um pé (amputado) e a 41ª. Companhia abandonou a operação ao fim de 18 horas.
O PELREC, nesta estreia operacional, evoluiu sob o comando do Alferes Garcia e por zonas de mata densa e plantações de café, palmilhando trilhos que adivinhávamos traiçoeiros e pisávamos com mil cuidados. Também por uma ou outra picadas e com passagens à vista de tabancas e lavras que nos diziam ser de guerrilheiros. Fomos largados a uns 80 quilómetros do Quitexe, na estrada para Camabatela - numa fazenda onde voltaríamos meses mais tarde, para intervir numa rebelião dos negros contratados para a campanha do café.
Não tivemos qualquer contacto com o dito «inimigo».
Saímos às 4 horas da madrugada do dia 20 e voltámos ao Quitexe ao fim da tarde do dia 21 de Junho. Cansados e sujos, de pele ensopada de suor e pó, fardas mal ataviadas mas com evidente sensação de alívio! Tínhamos passado ilesos do primeiro contacto vivo com iminente situação de combate! E não houve, não se ouviu um "ai de medo" de ninguém do pelotão! Sentimo-nos muito encorajados!
Um outro grupo do BCAV foi emboscado no Tabi, mas rapidamente foi embora o «inimigo», depois de uns tiros de aviso! E no «quartel» de Aldeia foi capturado um velho negro que, depois de ouvido no Quitexe, foi "devolvido" à mata!
É desse dia 21 de Junho a minha «estreia» a comer camarão! Nunca tinha comido, acreditem! O mais parecido, tinham sido cabras, que eram trazidas do mar da Barra e Costa Nova pelos chamados "sardinheiros» que por aqui vendiam peixe de porta em porta! E em minha casa não havia luxos para mais. Fomos jantar, eu e o Neto, ao Pacheco, depois de um banho de largos minutos, nos chuveiros da casa dos furriéis! E tão bem nos soube aquela água mole do clima, a molhar-nos o corpo por inteiro!!
- PACHECO. Restaurante do Quitexe, na foto. Ficava mesmo em frente à Casa dos Furriéis, que ficava entre o comando da CCS e a messe de oficiais, na avenida (rua de baixo).
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Juramento de bandeira de há 36 anos recordada no Quitexe
A 10 de Junho de 1974 já andávamos há uns dias pelo Quitexe mas a soberania militar da zona de acção era ainda do Batalhão de Caçadores 4211, que nós fomos substituir. Fazia um ano, exactamente, que eu jurara bandeira, na Escola Prática de Cavalaria, em Santarém! Bem me lembro que me lembrei disso!
O juramento de bandeira é um dia muito especial e, por mim, vivi-o muito emocionado. Fui dos raros instruendos que lá não tinha família a assistir, mas não foi por isso, ou pelo garboso desfile nas ruas da cidade, por aquele nervosinho que sempre nos constrange, ou pelo friozinho que nos sobe a espinha. Não foi por isso que me emocionei. O que realmente me deixou impressionado foi a cerimónia de entrega de medalhas de guerra a pais e viúvas de militares mortos na guerra ultramarina. Não me recordo quantos foram, mas o que me sensibilizou em particular foi a mão que uma viúva, muito jovem, dava a um filho de três ou quatro anos, vestido de de fatinho e gravata - orfão do pai que morrera «ao serviço da pátria» - no momento em que recebeu a medalha. E o desmaio do meu companheiro do lado, na formatura - ido abaixo pelo sol a pique que nos caía sobre a cabeça!
Hoje, ao ver na televisão o 10 de Junho que se comemorou em Santarém, ocorreram-me estas memórias. Há 36 anos, estava eu numa formatura muito parecida como a que, hoje, fez guarda de honra ao Presidente Cavaco Silva. As circunstâncias é que eram outras! Mais parecidas com as da foto.
- FOTO. A foto é meramente indicativa, embora de um juramento de bandeira da Escola Prática de Cavalaria, tirada DAQUI. O aspecto do nosso desfile não teria sido muito diferente - este é do quarto turno de 1973, eu frequentei o segundo. Depois, marchei para Lamego.



















