BATALHÃO DE CAVALARIA 8423. Os Cavaleiros do Norte!!! Um espaço para informalmente falar de pessoas e estórias de um tempo em que se fez história. Aqui contando, de forma avulsa, algumas histórias de grupo de militares que foi a Angola fazer Abril e semear solidariedade e companheirismo! A partir do Quitexe, por Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Ponte do Dange e Songo! E outras terras do Uíge angolano, pátria de que todos ficámos apaixonados!
quarta-feira, 20 de maio de 2009
A «menina» do Quitexe que foi ao cinema...
terça-feira, 19 de maio de 2009
As cassetes de amor e juras para as namoradas de Portugal...
Furriéis Neto e Viegas no seu quarto do QuitexeEram declarações a metro, feitas de palavras sem fim e quentes, muito quentes, gravadas em fitas magnéticas embaladas em cassetes e que os Correios traziam para Portugal, embrulhadas em papel grávido de saudades - mas sem arder nas labaredas das paixões que medravam no calor angolano.
E o que era isso, isso de gravações? Pois, com um velho gira-disco de agulha e um rádio-gravador, ou um gravador com leitura de cassetes e outro que as gravava, punhamo-nos para ali a debitar promessas e juras de amor às namoradas e mulheres que, no «puto», eram razão de afectos mais íntimos. Não por mim, fiquem todos avisados, que nem namorada tinha! Mas por outros que, roídos de saudades das namoradas, não sabiam como as matar (as saudades!, bem entendido!) - para além de lhes mandarem camiões de vagos e volúveis aerogramas, cheios de corações atravessados de setas de Cupido!
Bom, então era assim o guião: escolhiam-se os discos mais românticos e adequados à mensagem que se ia gravar. A tua namorada é isto, é aquilo, faz assim, faz assado, gosta disto e do quê, qual é o ponto fraco dela?!!! Ai ela é isso? Então, era aí que nós lhe «tocávamos» ao sentimento, em palavras quentes, volupiosas, lavradas com rigor e no momento exacto, enquanto se baixava e se subia o som na «mesa de mistura» improvisada.
As raparigas, com a cassete no regaço, corriam apressadas e em ânsias para irem ouvir a voz dos seus amados, nos seus segredos de quarto e atravesseirando-se de afectos, como se ali estivesse o dono daquela voz - o seu amor que estava na guerra!! Choravam de emoção e saudade, de alegria e de paixão!!! Era só amor!!!
Eu, que era irreverentemente atrevidote e meio lavrador de palavras, debitava prosa e versos de embalar corações, minha esta e minha aquela - às vezes com palavreado de fazer chorar as pedras das calçadas... - e lá "obrigava" os rapazes a confessar as suas perdas emocionais e a confirmar amores e juras, dizendo quantas vezes o que nem lhes passava pela cabeça.
As juras de amor eram tais e de tal maneira que, ouvidas em Portugal pelas cachopas, lhes provocavam verdadeiros apertos de coração, autênticos delírios vivos e volúpias que não se contam! Ai não!!!
Os rapazolas da foto são, somos, somos o Neto e eu: «Em directo, dos estúdios da Ráááááádio Quitexe, directamente para o Bééééééééco, em Águeeeeeeeda!... Para a Ni!!!!...».
segunda-feira, 18 de maio de 2009
A estrada do café e o incêndio na arrecadação
Agora, a história: a 17 de Janeiro de 1975 deflagrou um incêndio na casa a seguir à cor de rosa e que era onde estava instalada a arrecadação de material de aquartelamento e algumas munições e, se bem recordo, os quartos dos alferes milicianos. Foi um susto de todo o tamanho!
domingo, 17 de maio de 2009
O Bar do Rocha...
Bar do Rocha, na estrada princial do QuitexeO Bar do Rocha era um dos locais de culto das noites quentes do Quitexe! Numa delas, um GE, já adiantado em vapores alcoólicos, provocou uma cena bem desagradável, ameaçando um militar a tiro e granada. Felizmente tudo se resolveu, sem consequências, controlada que foi a situação, com mais ou menos facilidade! Havia, felizmente, disciplina e respeito, entre as hostes militares - apesar de, ao tempo, se registarem muitos incidentes em outras guarnições e principalmente na metrópole. Era já o PREC!
Se houve coisa que no Quitexe se viveu sempre - e em todo o Batalhão de Cavalaria 8423 - foi o respeito institucional e pessoal, sem que tivessem de se invocar regulamentos para que a família militar se estimasse e fosse solidária!
Mas eu falava do Bar do Rocha, lembrando as petiscadelas com que por lá nos lambuzávamos, satisfazendo o estômago e matando a sede dos nossos lutos dos cheiros e tempêros das nossas cozinhas de família.
- GE. Grupos Especiais. Unidades operacionais africanas. Beneficiavam de treino militar e estavam organizadas como grupos de combate, estacionados junto às companhias do Exército, sob ordens das quais serviam. No Quitexe, estavam os GE 217 e 223. Em Aldeia Viçosa, a 222; o 208 em Vista Alegre.
sábado, 16 de maio de 2009
Um susto, ou uma emboscada...
Um dos nossos mais vulgares serviços eram feitos às fazendas, dando protecção aos seus movimentos de viaturas, nomeadamente em tempo de colheita e venda de café - no mercado de Carmona (como se vê na foto, tirada da net). Iam-se dezenas e dezenas de quilómetros a engolir o pó das picadas, sempre de arma tensa e olho vivo, para repetir a viagem no sentido inverso! E, depois, de novo repetindo. No mesmo dia!
Não era fácil! Eram muitos, muitos quilómetros num só dia, por picadas sempre inseguras e nas quais cada dúvida ou ruído aumentavam os nossos medos. Uma vez, serpenteava a coluna por um monte quando avariou um unimog. Foi um susto!!! Maior susto ainda porque um militar viu um homem, aparentemente armado, por detrás de um penhasco. Reagimos, foram tomadas todas as acções de circunstância e uma equipa do pelotão avançou, lesta e corajosa, para um imediato «golpe de mão», se assim posso dizer - a equipa do 1º. cabo Cordeiro. E galgou o monte à direita da coluna. Estes momentos são de muita inquietação e exigem serenidade. E coragem!!! Nada viu a equipa, que foi e voltou, connosco todos em ansioso alerta, controlando emoções e respirando apressados para o que seria o nosso baptismo de guerra. E lá continuámos a missão - interrompida por uns bons três quartos de hora de tensão. Passámos neste local, nesse dia, mais três vezes e, não se ouvisse o roncar dos motores dos unimogs, diria eu que olhávamos aqueles penhascos em silêncio sepulcral! De cortar à faca!! De olhos e sentidos apurados!!!
Soubemos mais tarde, por um suposto membro da FNLA (supostamente integrante desse alegado grupo), que nos tinham emboscado e se preparavam para atacar, quando avariou a viatura. A reacção imediata do nosso grupo terá evitado males maiores. O sítio era propício a uma verdadeira flagelação - a uma carnificina. Quase bastaria, na verdade, que nos atacassem à pedrada.
- CORDEIRO: José Manuel de Jesus Cordeiro, 1º. cabo atirador de cavalaria, natural da região de Leiria.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
As «mulheres» e a Maria de Angola do Quitexe...
quinta-feira, 14 de maio de 2009
O glorioso PELREC da CCS do BCAV 8423
Cavaleiros do Quitexe, em sorridente pose de «guerra», Ora vejam lá quem eles eram, em cima, da esquerda para a direita, todos garbosos e muito corajosos: Cordeiro, Messejana, Pinto, Soares, António (?), Ezequiel, Marcos, Dionísio, Caixarias e Florindo (enfermeiro).
Em baixo, pela mesma ordem e também «armados até aos dentes», prontos para tudo: Vicente, Viegas, Francisco, Leal, Mendes (?, transmissões), Hipólito, Aurélio, Madaleno e Neto.
NOTA: O pelotão não está completo, saímos para mais um patrulhamento, e a foto é de 16 de Outubro de 1974. A pose sorridente tinha a ver com uma «boca» mandada pelo (furriel) Neto. Alguém nos pode confirmar as identidades?! Tenho dúvidas em duas.
quarta-feira, 13 de maio de 2009
E o Quitexe, onde é, onde fica?!
E Quitexe fica no mapa?! Onde? Onde fica?! É um buraco?! A pergunta cirandou-se de boca em boca, entre nós - os cavaleiros que iam da revolução lisboeta e se suavam em bica do calor africano. Era a pergunta mais feita no campo militar do Grafanil, à saída de Luanda, antes de Viana!Era a nossa grande ansiedade: para onde vamos? O que nos espera?! Quem está lá, como vai ser?
Em Santa Margarida chegara-me um «cheiro»: íamos para o norte de Angola. E devorei tudo o que pude ler, para antecipar o conhecimento da então província ultramarina. Em Maquela do Zombo tinha estado o Zé Ramiro, meu vizinho. Por Quitexe passara o Zé Pires, também vizinho. Em Sanza Pombo estava o Higino da ti Efigénia, daqui também mas civil. E havia a já então lendária Nambuangongo. O Quibaxe, Piri, sei lá.
Só em Luanda soubemos que o nosso destino era o Quitexe. E assustei-me. Tinha visto umas fotografias trágicas, de mulheres violadas e assasinadas, crianças mortas! À catanada e a tiro. Outra imagem de terror era a de cabeças de negros espetadas em paus. Em 1961, ano 1 da era emancipalista dos naturais, no terreno! E aqui não entro em pormenores. Mas isso tudo nos martelava na cabeça!
Conversei com amigos civis, em Luanda - que do Quitexe me pouparam algumas coisas que saberiam. E lá fomos: Cacuaco, Ucua, Dange, Vista Alegre, Aldeia Viçosa, Quitoque, Quimassabi, o que lembro mais!!
E a cidade mais perto? Carmona! E o que me disse Casares, furriel miliciano que de alguma maneira substituí nos GE: que tivesse cuidado, coisas que agora não conto! Lá chegámos, numas dez horas de viagem, ou mais, com paragens que deu para encontrar, num bar de Quibala, o conterrâneo Zé Taipeiro, aqui meu vizinho, a 80 metros de casa! E o Quitexe, afinal, foi uma boa surpresa!
terça-feira, 12 de maio de 2009
O Mosteias que era casado e foi pai...
O Mosteias era um gajo do caraças! O Mosteias era um gajo bom!! O Mosteias era um tipo que casava o impulso com a razão, misturando-as e reagindo-as numa doce partilha de amizade e camaradagem. O Mosteias era um portento de força física, praticante de halteres improvisados e dono de imponente figura. Era o mais alto, o mais pesado, o mais calmo, o mais bonacheirão, o melhor de todos nós numa série de coisas. Sapador de infantaria, era o gajo das minas e armadilhas!!! Ele, o montijense Cândido Pires e o amarantino Farinhas! Um trio muito singular!
O Mosteias era único furriel miliciano casado de toda a CCS. O que lhe dava uma auréola muito especial, entre todos nós, quando falávamos pela noite dentro, olhando a lua avermelhada dos céus africanos e sentindo os cheiros de cio de Angola, contando e ouvindo histórias, entre um gole de cerveja, um trago de wisky, ou simplesmente a endeusar as nossas irreverências de juventude, delas fazendo lendas e maioridades!!! A quietude bonançosa das noites do Quitexe dava para tudo, embrulhando-nos de emoções! E falasse-se de saudades!! Aí, aí... então aí ficávamos todos a olhar e a medir as estrelas no céu angolano e a antecipar sonhos das próximas horas de sono! A sonhar não digo com quê!!!
Não consta que o Mosteias alguma vez tenha usado a sua instrução militar especializada, em qualquer picada ou trilho da zona cafeeira de Angola por onde «vagabundeávamos» em patrulhamentos e operações. E ainda bem!!!! Sinal de que não havia perigos!!!
Divertia-se e ansiava-se ele, no dia a dia, era com o sonho e a expectativa de receber da mulher grávida a notícia de que já era pai!!
Tivera uma curiosa história, a do seu casamento com Leonor, filha do patrão, que era despachante oficial em Lisboa. História que ele contava com com indisfarçável gozo e felicidade!!: «Olhe, amanhã vou casar-me com a sua filha. Se quiser ir, é na Conservatória tal....».
- «Ó Mosteias e foi mesmo assim?!!...», perguntávamos nós, sempre de sorriso afiado! Para sempre ouvirmos a mesma história, contada com felicidade que não se contava em quilómetros. «Ó Mosteias, já te viste com a criança no colo?!... », respingávamos-lhe nós, rapazes na irreverência dos nossos 21/22/23 anos, para o provocar, em sorriso de refinada malícia, sugerindo-lhe o cofiar dos anéis dos cabelos da criança, o tocar-lhe a pele macia, dar-lhe o biberon, mudar-lhe as fraldas.
O Mosteias olhávamos com supremo desdém, de sorriso cúmplice, como se não houvesse no mundo pessoa mais feliz que ele. Um dia alguém lhe leu um poema: «Pai, o teu Natal é longe de mim/A mãe pousa as mãos no ventre/E sinto-lhe saudades sem fim/Porque me sente/Filho de ti!!!....". Qualquer coisa parecida com isto.
«Ó pá, mariquices, pá...», balbuciou ele. E riu-se, riu-se, riu-se! E saiu de ao pé de nós!
Não sei porquê, mas sempre tive a ideia de foi chorar para o quarto.
Dias depois, era pai!! E veio a Lisboa conhecer a criança!
- MOSTEIAS: Luís João Ramalho Mosteias, furriel miliciano sapador de infantaria. Mora em Sines. O filho seguiu a carreira da actor.
segunda-feira, 11 de maio de 2009
O Papélino do Quitexe, que era Agostinho, ou talvez não...
domingo, 10 de maio de 2009
A Noite de Natal de 1974

A foto é do Quitexe, vila onde estava a CCS do BCAV 8423, tirada a partir a capela, vendo-se parte das instalações militares.
Vê-se claramente o telhado do refeitório, a cobertura mais à direita - onde tanto se refeiçoou com as saudades da sopa e do arroz de galinha da mãe. Ou do bacalhau com todos, um peixe frito, uma rojoada.
A noite de Natal de 1974, estava eu de serviço (sargento de dia), foi das mais emocionantes de toda a comissão de 15 meses. Comeram-se rojões e bacalhau, refeiçoando juntos oficiais, sargentos e praças - precisamente no refeitório. O capitão Oliveira, que não era homem de muitas falas, falou ao pessoal, algo emocionado e em frase curta. A família dele - mulher, filha e neto - morava a poucos metros, certamente estava ao ouvir!
Eu estava de serviço e tinha «instruções» para relaxar alguns eventuais exageros. Sem flexibilizar a necessária a segurança. Assim aconteceu! Por volta da meia noite, passei - eu, com o Madaleno e o Marcos... - por todos os postos, levando cachaça, vinho, cerveja e wiskyes aos sentinelas. Nenhum deles dormiu nessa noite. Quiseram, mais ou menos ensonados, partilhá-la irmamente, dividindo as bebidas com bacalhau cru. Nenhum deles «abusou». A noite de saudades e de nascimento foi partilhada com amor e solidariedade!
- OLIVEIRA. António Martins Oliveira, capitão SGE, comandante da CCS. Tinha sido aluno da Escola Central de Sargentos, em Águeda, e tinha comigo e com o Neto uma relação menos boa! Julgo que por sermos de Águeda. Encontrei-o nos anos 80, em Aveiro, já como major, era o responsável pelo DRM (Distrito de Recrutamento Militar). Morava em Ovar.
- MADALENO: Francisco José Matos Madaleno, soldado atirador de cavalaria, da Covilhã.
- MARCOS. João Manuel Lopes Marcos, soldado atirador de cavalaria, do Pego (Abrantes).
Foto de José Oliveira, do BVAC 1917.
sábado, 9 de maio de 2009
O «ataque» à 3ª. BCAV em Santa Isabel
Viegas (CCS) e Carvalho (3ª. BCAV), furriéis Santa Isabel era uma fazenda de café, entre o Quitexe e Aldeia Viçosa, onde estava aquartelada a 3ª. CCAV do BCAV 8423. O comandante era o capitão Fernandes e fui lá três, quatro vezes, em missões de reabastecimento e lá passei uma noite, de partida para uma operação de dois ou três dias.
O efeito da rajada da Breda seria letal a quem lhes aparecesse pela frente! Ai não que não era.... As intenções eram de combate puro, correndo soldados, sargentos e oficiais para todas as posições de defesa. Em opoucos segundos!
Afinal, a granada tinha sido arremessada de um dos postos de sentinela, por um soldado que, à passagem de animais selvagens, se deixou iludir pelo escuro e gritou, gritou de alarme e medo, angustiado na noite que crescia cheia de sombras. E a despoletou sobre o «inimigo» - que eram os animais. Tudo acabou num instante, nos instantes depois do pavor e tensão que se espalharam por Santa Isabel. O que se adivinhava como tragédia, recorda-se hoje com a ironia e caricatura possível!
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Os dois madeireiros mortos da Baixa do Mungage

Carregámo-los em «macas» de lençol, sempre em silêncio!!! O sol a pique da terra de Angola regáva-nos de suor. Suores frios!!! Até ao Quitexe!!!
quinta-feira, 7 de maio de 2009
O desejo de voltar ao Quitexe...
Há ecos que nos chegam e comovem, sobre estas histórias e estórias que aqui se vão contando, do tempo em que, pouco mais que teenaggers, nos amadurecemos em terras africanas de Angola.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
O Queijo e o feijão furado!!!
O refeitório da CCS do BCAV 8423 era o altar de todas as refeições diárias dos praças da CCS e dos pelotões que, mês a mês, se revezavam no complemento de segurança da unidade. Não houve dia, naquelas sagradas mesas de comunhão - mesas do pão e do vinho da nossa alimentação... - em que não se confessasse alguma saudade de alguém, ou de algum prato mais saboroso, que as nossas mães fariam nas nossas pobres cozinhas de família de então... e por lá não saboreávamos. No Quitexe!
Um dos auxiliares dos cozinheiros, os mestres de sabores e quantidades que enchiamos nossos estômagos jovens de muita fome, chamava-se Graciano Queijo. Era o Queijo, o queijo para aqui e o queijo para acolá..., substantivo próprio, substantivo comum..., que indistintamente usávamos para lhe desenvergonhar o desgosto do nome. Transmontano, sossegado e humilde, era pacientemente cumpridor dos pratos que o Dias, todos os dias, ementava... segundo as NEP´s.
Um dia, eu de «castigo» feito fiscal da alimentação, obriguei aqueles bons soldados e cabos cozinheiros a virar um enorme panelão de feijão furado para a xitaca - onde se misturavam patos, galinhas e porcos que nos iriam saciar fomes e apetites. Que não, que não podia ser... fôra o capitão quem mandara. Isso sabia eu, mas havia essa tal coisa das NEP´s, que o mesmo capitão sempre nos atirava à cara, quando nos queria tramar. Virar o feijão para fora, isso pára aí, assim entendiam os cozinheiros...
Virou-se mesmo, aquela malta ir comer feijão furado é que nem pensar, e fiquei nesse dia com a ideia que subi ao altar da admiração dos praças, nossos irmãos. Pois se eu tinha batido o pé, em favor deles! Ainda hoje me sinto orgulhoso, por isso!
- DIAS. Francisco José Brogueira Dias, furriel miliciano de alimentação, natural e residente no Porto, bancário.
- QUEIJO. Graciano da Purificação Queijo, clarim, a prestar serviço na cozinha.
- NEP. Normas de Execução Permanente, a lei do dia-a-dia de qualquer unidade militar.
A foto é de José Oliveira (César).
terça-feira, 5 de maio de 2009
A boa vida do Quitexe...
Clique na foto, para a ampliarPor lá se semearam, cultivaram e multiplicaram muitos afectos e camaradagens, que ainda hoje se continuam, 35 anos depois. E que, de resto, a vida tem rejuvenescido. O dia-a-dia era cheio de saudades, é certo, da nossa gente e dos cheiros das nossas terras, mas tinha também muitos e repetidos momentos de franca camaradagem e confraternização. Alegria, diria mesmo... felicidade!
A foto mostra um deles, no bar de sargentos do Quitexe. À esquerda, de boina caída, está o Lopes. Eu, a nascer de bigode, estou a seguir. Depois, com a garrafa na mão, o Ribeiro, da 3ª. CCAV. De costas, o 1º. sargento Luzia. Atrás, tapado pelo dedo do Bento, está o Lages - do bar. E o Flora, de boca aberta (também da 3ª. CCAV). O civil, de branco, não me recordo do nome. Depois, o 1º. sargento Aires (mecânico).
De bigode, à minha frente, o Rocha (de Gaia). Ao lado, o Bento (Barreiro). Acocorado, de bigode e boina, está o Carvalho, do Entroncamento (da 3ª. CCAV). Depois, outro Lopes, o de Barcelos (3ª. CCAV) e o Capitão, que era furriel e do Entroncamento (também da 3ª. CAV). Em baixo, de bigode e copo, o furriel Reina (também da 3ª. CCAV).
A foto é de meados de Dezembro de 1974.
- LOPES: António Maria Verdelho da Silva Lopes, furriel enfermeiro, de Vendas Novas. É tesoureiro de Finanças nesta cidade.
- RIBEIRO. Delmiro da Silva Ribeiro, furriel atirador de cavalaria, técnico de comunicações em Livração.
- FLORA. António Pires Flora, furriel atirador de cavalaria, quadro da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa.
- ROCHA: Nelson dos Remédios da Silva Rocha, furriel de transmissões, vendedor, de Vila Nova de Gaia.
- BENTO. Francisco Manuel Gonçalves Bento, furriel de informações e operações, do Barreiro. Suponho que mora na zona de Castelo Branco.
- CARVALHO. José Fernando da Costa Carvalho, furriel atirador de cavalaria, agente da PSP em Santarém, aposentado.
- LOPES. José Avelino Grenha Lopes, furriel atirador de cavalaria, natural de Barcelo, mora em Lisboa.
- CAPITÃO. Luís Ribeiro Capitão, furriel atirador de cavalaria. do Entroncamento, funcionário da REFER, aposentado.
segunda-feira, 4 de maio de 2009
O sô Cabrita...
«Pois, tá bem,... mas tem de esperar um bocadinho. Vou tomar banho, 20 minutos...!», disse-lhe eu, ainda não eram 9 horas da manhã.
sexta-feira, 1 de maio de 2009
||| O 1º. cabo Soares
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Manhãs de Outubro na Árvore Vaidosa...
- NEVES: José Coutinho das Neves, soldado atirador do PELREC. Era da zona de Sintra.
terça-feira, 28 de abril de 2009
As cucas, as nocais e os pratinhos de camarão...
Angola é terra de calor. Muito calor!! E sede!! E cerveja!! As Cucas, as Nocais, mais tarde as N´Golas, - esquecia-me das Ekas... - eram as dessedentadoras de serviço, nas tardes e noites fora da nossa farta sede! Uma das primeiras coisas estranhas - aqui, pelo lado mais agradável!... - da nossa chegada a Luanda foi estarmos nos bares e esplanadas, pedirmos cerveja e trazerem um pratinho de camarão. Isso não aconteceu comigo, que nos primeiros dias de Angola, em Luanda, andei em visitas de família, e não fui cliente da cerveja em estabelecimentos hoteleiros. E nem sequer gostei muito da primeira que bebi!
A verdade é que toda a gente falava nisso, ampliando o gosto e o prazer da mariscada saciando-se consoante a largueza da carteira. O Pires, o de Bragança, veio agora lembrar-se a sua primeira ida à esplanada Amazonas, na baixa de Luanda, e de pedir umas canecas de cerveja, a que o empregado retorquiu, perguntando se não queriria "canhângulos"?
Canhângulos?! Pois que «sim, senhora, sejam lá canhângulos, se forem canecas como as daquela mesa...», respondeu ele, apontando para o lado. E lá veio um pratinho de camarão. «Ficámos nós estupefactos, perguntando-nos uns aos outros se o camarão seria oferecido como em Portugal se davam os tremoços?!», recorda o Pires, dando este facto como «sinal evidente da fartura que por lá havia». Em Angola!
O Quitexe, já aqui contei, tinha bastantes bares e restaurantes - muito famoso, o Rocha, entre outros, onde os militares passavam horas na morte do seu tempo, debicando petiscos e muitas vezes «enxarcando-se» de cerveja!!
Os da foto, comigo ao meio (repare-se que estava de um princípio de bigodaça!...), são o Pais e o Emanuel - numa qualquer conversa sobre a actualidade de então, vá lá agora saber-se do quê. E lá estão as Cucas e os camarões! Um monte de cascas de camarões!!! Reparo melhor e vejo que são Nocais, uma das outras cervejas de Angola! Por aqui também se vê por que a tropa deixou tantas saudades a tanta gente!
- CANHÂNGULOS. Canecas de cerveja, sempre com mais de meio litro. Pedir um canhângulo, era sinal de força e de ser... homem! Beber dois ou três, quatro ou cinco, era para o que... imaginam!
- PAIS. António Correia Lourenço Pais, 1º. cabo rádio-montador. Era de e vive em Viseu.
- EMANUEL. Emanuel Miranda dos Santos, 1º. cabo de transmissões (cripto), da Gafanha da Nazaré, perto de Aveiro. Vive nos Estados Unidos.
Clique na foto, para ampliar.











